2004-12-04

O pasmo da nação

Não se percebe, o pasmo da nação. Em poucos dias o país descobriu que o primeiro ministro não tinha autoridade política, nem sabia o que queria. Descobriu que o presidente da república é uma personagem volúvel, capaz de dissolver a Assembleia por causa de “metáforas horríveis”, sempre com aquela seriedade doente, que lhe advém do pesado fardo da sua própria irresponsabilidade. Descobriu que por entre os políticos e os exonerados de ontem, ansiosos por matar a sede, já há festejos, fazem-se listas, atribuem-se “cargos”. Desde que o “acesso ao estado” lhes foi negado em Julho, pelo Gálata de Belém, nunca mais se calaram. Descobriu tudo isto em três dias bem medidos.

Agora só lhes falta descobrir que são maioritariamente eles próprios, os “portugueses e as portuguesas”, que não querem este nem qualquer outro governo que sonhe reduzir o número de funcionários públicos, que ouse pedir a quem utiliza os serviços de saúde ou pretenda obter educação superior que suporte (pelo menos) uma parte dos custos. Que são eles, os “portugueses e as portuguesas” que querem aumentos salariais “dignos”, que querem uma fatia cada vez maior de um bolo que não ajudam a fazer crescer. Que eles, os “portugueses e as portuguesas”, são geralmente indiferentes quanto ao futuro do seu país e que nas próximas eleições irão votar maioritariamente no tipo de poder político que lhes permita continuar a viver a ficção de que “não há nada de mal em querer um bocadinho de felicidade, não é?”. E que será assim, quer estas sejam em Fevereiro quer sejam em 2006.

Resta esperar que o próximo partido de governo lhes faça a eles, aos “portugueses e às portuguesas”, a única coisa que um partido com aspirações reformistas (se as tiver) pode fazer neste país, se quiser ganhar eleições e depois governar com sentido de responsabilidade: que os engane bem enganados.

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