2003-06-13

Lulismos Não sou especialista em impostos, mas quando li a proposta de Lula da Silva de introduzir um imposto sobre o comércio internacional de armas, lembrei-me do Conde-Duque de Olivares, valido de Felipe IV (Filipe III de Portugal). Foi ele que inventou o nefando imposto de selo, na sua forma primitiva de papel selado. O objectivo era aumentar as receitas numa altura em que a situação da Fazenda de Espanha se tornou desastrosa devido à redução das entradas de ouro das colónias, ao esforço bélico constante em todas as partes do império e à guerra com França de 1635 (ver a excelente biografia de Gregorio Marañón). Este tipo de ideias repete-se há séculos: quando não há dinheiro, inventa-se.

Mas a proposta de Lula não terá o condão de irritar a opinião pública. Não. Desde 1635 aprendeu-se muito. Hoje, este tipo de propostas têm um toque de Robin dos Bosques. Os impostos propostos para resolver definitivamente os problemas agora mundiais não incidem sobre todos nós. Incidem, isso sim, sobre um conjunto de entidades mais ou menos remotas e que o pensamento politicamente correcto vê como sinistras e fontes do mal na terra. Primeiro foi a famosa Taxa Tobin, que taxaria as transacções financeiras internacionais, vistas pela cartilha dos movimentos anti-globalização como especulativas e fonte das misérias dos países do terceiro mundo. Agora chegou a vez da Taxa Lula, que propõe a solução milagrosa para a fome no mundo à custa da taxação das vendas internacionais de armamento.

A resposta mais eloquente a esta proposta profundamente demagógica foi dada por Sérgio Vasques no Público de ontem, através de um artigo irónico e certeiro:
Ora aqui é que a proposta do Presidente Lula se mostra verdadeiramente revolucionária, deixando ver que outra globalização é de facto possível: propõe-se que se combata a fome não só com o novo imposto mas com parte dos juros da dívida pagos pelo terceiro mundo. Com alguma articulação e boa vontade, consegue-se, portanto, a situação óptima impensada nos livros: a indústria do armamento mantém o seu lucro, os contribuintes do primeiro mundo o seu rendimento, os regimes do terceiro mundo as suas prioridades. E uma vez salvo o planeta, quem sabe, talvez se salve o Brasil.


Parabéns, Sérgio Vasques!

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