Picuinhices |
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2003/12/15
Os EUA de Vitorino Magalhães Godinho
Uma genial definição dos EUA feita pelo Vitorino Magalhães Godinho (VMG) em entrevista conduzida por Carlos Câmara Leme (CCL), do Público: "continua a ser proibido estudar Darwin nas escolas, há perseguições às clínicas que praticam o aborto, há ataques à mão armada...". Outros delírios de VMG:
VMG O capitalismo ruiu, como ruiu o estalinismo. Não há mais capitalismo. O que há é uma organização de redes mafiosas que controlam o mundo. Colocado por Picuinhas às 22:58 2003/12/10
Serviço público
Prometi, há já algum tempo, dar maior destaque a uma polémica que começou com um comentário de Carlos Miguel Fernandes à minha entrada A nossa economia de direcção central: o caso do ensino da medicina e se desenvolveu a partir da minha resposta na entrada Há uma ortodoxia liberal?. Os participantes são o Carlos Miguel Fernandes, já referido, o João Miranda, do Liberdade de Expressão e do Nónio, alguém que se identifica como "eu" e eu próprio. Venho já atrasado, pois a polémica entretanto continuou no Blogue de Esquerda. Ainda assim, segue abaixo a polémica em formato mais legível:
João Miranda A questão colocada pode ser respondida assim: a economia é um sistema complexo, no sentido em que é irredutível a um modelo simples. Ninguém possui a informação necessária para o controlar porque essa informação está dispersa por toda a sociedade. É um contrasenso alegar que a economia é um sistema complexo que tem que ser controlado, e depois esperar que os controladores sejamos nós, os humanos. É que nós estamos dentro do sistema e o acto de regulação também faz parte do sistema. Ao contrário do que é dito, a economia não é um sistema criado pelo homem. A economia emerge espontâneamente das acções humanas. A economia emerge inclusive dos actos de regulação que são actos que contribuem para a formação do sistema como quaisquer outos. A economia até pode ser sensível a pertrbações. Mas esse não é um argumento para a regulação. É na ralidade, um argumento contra a regulação porque nesse caso todas as acções imprevisíveis, inclusive as acções de regulação. Só mais uma coisa: Não existem reguladores fora da economia. Vamos supor que criamos uma entidade REGULADORA para controlar a ECONOMIA. O sistema REGULADORA + ECONOMIA para a ser um sistema sobre qual podemos colocar as mesmas questões que nos levaram a criar a entidade reguladora. Como é que sabemos se este novo sistema REGULADORA + ECONOMIA é auto-regulável? Não poderá cair no caos? No fundo, esta é outra versão da velha questão: quem regula os reguladores? eu As minhas dúvidas: Caríssimos João Miranda e Picuinhas, desejo que o liberalismo seja o caminho e até tenho expectativas libertárias. Tenho contudo algumas duvidas incómodas. Dado é disso que aqui se fala.... Para lá da economia, parece-me que o poder per si (seja politico, de uma religião, na estrutura familiar, etc) é uma aspiração humana. Existem em todo o mundo numerosos exemplos da organização de poderes fortíssimos que não nascem nem dependem de estado algum ? (as máfias, os carteis, o poder religioso, etc). Ao contrário de recear o caos, não é bem mais provável que o risco seja exactamente o contrário: o da organização espontânea de outros poderes, organizados para exercer uma ?regulação? a favor dos seus interesses? (neste ponto prefiro sofrer o poder porventura excessivo de um poder/estado visível que posso eleger). O desejo da liberalização assenta sempre no pressuposto da existência de uma justiça eficaz, imparcial, forte. Como a garantir essa força se o próprio estado for esvaziado de poder e sabendo que a simples existência de um poder forte visível é um elemento dissuasor? E ainda, se olharmos o mundo como um mercado global, e sendo o mundo um espaço restrito, -se não reconhecermos a capacidade de regular com perspectivas futuras, ou na educação- a actuação livre não configurará por sua vez uma ?tragédia dos comuns? à escala global? João Miranda Quanto à primeira pergunta, a maior parte dos liberais defende o monopólio da força por parte do estado e a proíbição da iniciação da força. O estado não precisa de ter o controlo da economia para poder controlar a iniciação da força. Quanto à tragédia dos comuns, ela só ocorre se existir um abuso da propriedade comum por parte de alguns. À luz do liberalismo, essas violações devem ser limitadas, de preferência através da privatização de bens comuns. Mas o problema da tragédia dos comuns à escala global está limitada a meia dúzia de casos (poluíção atmosférica, marítima, pescas e mais alguns recursos insubstituíveis). Carlos Miguel Fernandes [...] Começo pelos adjectivos. Quando eu falei em 'mais ou menos lúcido' queria dizer que o achava suficientemente lúcido para reflectir sobre uma questão que eu julgo importante. Uma leitura atenta do seu blog levava-me a pensar isso. E acho que não me enganei. Quanto ao significado da palavra 'liberal', estamos de acordo: é suficientemente vago e abrangente para que nos entendamos em curtas frases. Utilizei o prefixo neo para distinguir uma abordagem mais radical do capitalismo e da sociedade (talvez aquilo que designa como anarco-capitalismo). É preciso não esquecer que 'liberal' tem uma conotação que depende até do país em que é pronunciada (recordo que nos países anglo-saxónicos, 'liberal' tem uma conotação esquerdista). Reparo, pelos seus textos, que não é um neo-liberal no sentido que eu dou à palavra. Até penso que as nossas ideias não estão assim tão afastadas como possa parecer. Está na altura de esclarecer que eu acredito no mercado livre. Já visitei vários países do leste da Europa e tenho a certeza absoluta que o modelo de estado centralizador e totalitário falhou, não acompanhou a mudança do mundo e morreu sem deixar descendência (e mesmo a hipótese de que, em algum período da humanidade, o marxismo foi uma ideia sensata, deixa-me muitas dúvidas). Aliás, tenho relutância em me deslocar a Cuba, nas férias, porque me choca o défice de liberdade de expressão e a miséria gerada pelo ?socialismo? de Castro. Conheço muitos liberais que não se incomodaram com a situação e lá foram para a ilha. Mas acredito num mercado livre suficientemente aberto para permitir intervenção estatal em situações que o justifiquem. E baseio esta crença em observações e analogias, e não na fé. Posso conceder que o mercado global é um sistema complexo e dinâmico e poderá, teoricamente, ser modelado como o clima da Terra, por exemplo. Posso acreditar que sim, não é uma ideia chocante, tem um grau de probabilidade bastante elevado. Se for verdade, estamos, provavelmente, perante um exemplo de auto-organização. E, se assim for, as suas características impedem-no de cair no caos ou em poços de atracção (ver Kaufman). Mas não é esta uma descrição do corpo humano? Não estamos nós constantemente à beira do caos (as leis da termodinâmica o dizem)? No entanto as nossas células mantêm as suas funções ao longo das nossas vidas, os músculos não se misturam com a pele, a morfologia mantém-se constante e não nos transformamos numa massa informe de átomos. Mas por vezes ficamos doentes. O que fazemos nessa altura? Deixamos o tempo correr e esperamos para ver o que acontece? Não. Tentamos reparar o problema. E se pudéssemos fazer o mesmo com o clima, quem se atreveria a dizer que o deixássemos em paz sabendo que podíamos evitar um dilúvio ou uma seca prolongada (estou a entrar no domínio da ficção científica mas a história já nos ensinou a evitar julgamentos precipitados). Aquilo que eu defendo é que se encarem os modelos económicos como sistemas complexos que, mesmo que tenham mecanismos de auto-organização e auto-regulação, podem ser manipulados sempre que isso possa evitar consequências negativas para o indivíduo. Escreve Picuinhas, a propósito da sua reacção ao seminário de Holland: ?Esse entusiasmo é temperado por um forte cepticismo quanto à possibilidade de alguma vez se poder fazer alguma previsão certeira e não-trivial baseada em simulações desse tipo de sistemas?. É a velha questão do determinismo. Penso que era Pascal que dizia ?dêem-me as condições iniciais e conto-vos a história do mundo?. A mecânica quântica veio refrear o ímpeto determinista (embora não tenha convencido Einstein, que acreditava que o velho lá de cima não jogo aos dados). Por isso o cepticismo de Picuinhas é perfeitamente natural. Mas o espírito deve estar aberto. Imaginem o cepticismo, há mil anos atrás, em relação a tantas banalidades do nosso quotidiano. Eu tenho feito investigação na área dos sistemas complexos adaptativos (particularmente no âmbito dos Algoritmos Genéticos, criados nos anos 70, por Holland, para estudar estes sistemas). E reconheço o potencial poder da ciência da complexidade. Se vai ser a ciência do séc. XXI, como afirmou Holland em Lisboa, não sei. Mas vai ser muito importante. "Repare que a posição liberal não é, nem pretende ser, científica.", escreve Picuinhas. Uma questão interessante. Acredito que não seja uma posição científica. Mas não aspirar a sê-lo deixa-me preocupado. Talvez seja a minha racionalidade excessiva a falar. As minhas posições, ideias ou conceitos procuram sempre um fundamento científico. Se tiverem esse carácter, posso sempre provar que estão erradas (mesmo que isso destrua a minha base moral). Nesse aspecto sou seguidor de Karl Popper - é ciência tudo aquilo que pudermos provar, ou tentar provar, que está errado. Parece um contra-senso mas não é. Uma leitura mais atenta do filósofo talvez esclareça algumas coisas que este pequeno espaço não permite. "A realidade não parece demonstrar a ideia de que um sistema económico ou social cai necessariamente no caos ou em ciclos finitos perpétuos. Aliás, a ideia de que cai necessariamente nesses comportamentos é que me parece uma extrapolação perigosa de resultados científicos, mas teria de ler o livro para o poder afirmar.". Tem toda a razão. Aqui não me expliquei bem e ao reler as minhas próprias palavras percebo o erro. Acima, já referi que aceito que os sistemas económicos possam ser auto-organizados. Mas eu tenho alguma informação sobre o assunto. Aquilo que eu queria perguntar era se os liberais acreditavam nos seus modelos por uma questão de fé ou se estavam suficientemente bem informados sobre os últimos avanços no estudo da complexidade. Porque, nas condições da primeira hipótese, podem estar de acordo com as conclusões que poderiam observar nas condições da segunda hipótese, mas sem as complicações adicionais. "Pergunta-se se, sendo o comportamento dos sistemas envolvendo agentes humanos essencialmente imprevisível, não será perigoso «deixar esses sistemas correr livremente, correndo o risco de observar desastres, mesmo sabendo que poderiam estabilizar posteriormente?» Responder-lhe-ia que não, que se alguém puder antecipar um desastre deve obviamente fazer tudo ao seu alcance para o evitar.". Parece que concordamos. Mas logo a seguir: "Curiosamente, no entanto, as sociedades mais liberais não parecem particularmente sujeitas a desastres.". Acha que não? Parece que já tivemos alguns exemplos na História recente que nos devem fazer reflectir na exactidão desta afirmação (com isto não quero dizer que os modelos menos liberais não estão sujeitos ao desastre; talvez exista um equilíbrio e a defesa desta ideia é o objectivo principal deste comentário). "Mas a posição de um liberal é a de que, com o nosso conhecimento individual limitado e com uma capacidade de previsão reduzida, é geralmente melhor deixar as coisas correr do que limitar as liberdades com medo de desastres largamente imaginários.". A posição de um cientista é a de superar a limitação do conhecimento e melhorar as capacidades de previsão (por favor não transformem esta discussão em mais uma batalha da tão actual "guerra das ciências"). Permitam-me agora comentar os comentários. O João Miranda diz que "a economia é um sistema complexo, no sentido em que é irredutível a um modelo simples.". Não se ofenda mas esta frase parece vazia de conteúdo. Teríamos que definir modelo simples, já estamos a definir sistema complexo sobre esse conceito. E isso não foi feito. Além disso, deveria definir-se em relação outro aspecto: o reducionismo. Muitos pensadores não aceitam este principio, logo, para esses, nada se pode reduzir a um modelo simples. Eu não disse que a economia é um sistema complexo que tem de ser controlado. Apenas disse que, se a economia nos permite intervenções pontuais, porque não fazê-lo? Quanto ao facto de estarmos dentro do sistema e o controlarmos não entendo o problema. Já ouviu falar do conceito de agente (o clip que eu vejo neste momento, no canto superior esquerdo no meu visor, é um agente)?. Aceito que a economia não seja um sistema criado pelo homem, embora esta questão justificasse uma discussão filosófica mais profunda, que poderia envolver a cultura e a linguistica. Mas os modelos económicos são criados pelo homem. A não ser que tenhamos uma visão radical dos "memes" (entidades definidas pelo biólogo evolucionista Richard Dawkins e que pretendem representar as ideias, fazendo a analogia com "genes"). Nesse caso NENHUMA ideia foi criada pelo homem. Todas tiveram uma origem proto-memética, e propagaram-se pelos cérebros, ao longo da história cultural do homo sapiens, tal como os genes se propagaram no ADN através da história do planeta. Mas nem o mais radical darwinista cultural consegue defender convenientemente esta questão. Embora o último parágrafo do primeiro comentário de João Miranda esteja pouco compreensível deduzo que queira dizer que as acções de regulação, por serem imprevisíveis, podem causar perturbações indesejáveis. Parece-me incoerente. Se o sistema é sensível a perturbações e, ao mesmo tempo, auto-regulado, é também, segundo posso depreender, imune a perturbações (no sentido em que é estável). Nesse caso, se o homem faz parte do sistema, como é que as suas perturbações ou intervenções serão piores do aqueles que podemos esperar de outras entidades (exteriores ao sistema? Segundo o que entendi do raciocínio exposto, não existem). No seu segundo comentário João Miranda fala do sistema REGULADORA+ECONOMIA. Gostava de saber se REGULADORA+MODELO ECONÒMICO é a mesma coisa, na sua opinião. Só assim poderei comentar convenientemente. Noutro comentário podemos ler que "O desejo da liberalização assenta sempre no pressuposto da existência de uma justiça eficaz, imparcial, forte.". Este é uma questão que merece ser amplamente debatida, até porque vivemos em Portugal, e todos sabemos como funciona a nossa sociedade. João Miranda A economia é um sistema complexo no sentido em que não pode ser apreendida por uma única mente. Quando falo num sistema simples estou a falar de sistemas com poucos graus de liberdade e que por isso podem ser facilmente compreendidos. A economia não pode ser apreendida por nenhuma mente ou por nenhum conjunto restrito de mentes. Isto acontece porque, em economia, os mais ínfimos detalhes são importantes. Nunca se sabe, por exemplo, de onde virá a próxima inovação. A economia só pode ser apreendida parcialmente (muito parcialmente) por cada mente individual. Este facto por si só implica que só o controlo descentralizado é eficiente. Quando se fala em regulação, fala-se em regulação por um órgão central. Fala-se da planificação da economia e da sociedade por parte de um órgão central. O problema deste tipo de regulação está no facto de os reguladores serem tão humanos como os humanos que pretendem regular. No entanto, estes reguladores não possuem nem os meios, nem a capacidade para prever as consequências dos seus actos reguladores. A vantagem do liberalismo está precisamente no facto de a regulação ser feita de forma descentralizada por quem está mais interessado no desenrolar dos acontecimentos, por quem possui a informação necessária para realizar a regulação e por quem tem a legitimidade para agir. À luz do liberalismo, o caos não é necessáriamente um problema. Uma sociedade dinâmica terá forçosamente periodos de destruíção criativa. Novos produtos e novas ideias provocam variações abruptas e imprevisíveis em determinadas variáveis do sistema. Os liberais não prometem a estabilidade nem a consideram particularmente desejável. No entanto, quem acha que a economia é um sistema caótico e que isso não é desejável, não deve ter ilusões. Um sistema caótico com biliões de graus de liberdade não é previsível e por isso não pode ser controlado de forma eficaz por uma autoridade central. REGULADORA+ECONOMIA e REGULADORA+MODELO ECONÒMICO não são a mesma coisa. Uma economia é um sistema real, físico. Um modelo económico é uma abstracção inventada pelos seres humanos. As economias reais não obedecem aos planos humanos. Emergem das acções humanas. E os humanos tendem a agir contra os seus próprios planos ou contra os planos dos seus dirigentes. Há também uma diferença entre determinismo ontológico e determinismo epistemológico que é importante. Se o determinismo ontológico for verdadeiro, o estado actual do universo determina univocamente todos os estados futuros. Mas isso não significa que o futuro seja previsível (determinismo epistemológico). A economia é um caso em que o determinismo epistemológico é impossível pelo simples facto que é impossível saber a cada momento qual é o estado actual da economia (que é um sistema vasto em que todos os detalhes são relevante). E mesmo que fosse possível determinar o estado actual da economia, continuaria a ser impossível calcular o efeito dos actos de regulação no seu estado futuro porque não existem meios computacionais suficientemente poderosos. Mas mesmo que tudo isso fosse possível, o próprio acto de previsão tenderia a modificar o comportamento dos agentes económicos tornando a previsão inútil. Por outro lado, se a eonomia for um sistema caótico, então o determinismo epistemológico é impossível porque os sistemas caóticos são sensíveis às condições inciais. Não bastaria conhecer as condições inciais. Seria necessário conhecer as condições iniciais com uma precisão infinita. O estudo de sistemas complexos que tem merecido a atenção dos investigadores nos últimos 30 anos tem entre os seus precursores Friedrich Hayek, que já nos anos 20 se dedicava a estes problemas. A ideia base do trabalho de Hayek é a de que um sistema complexo como a economia não pode ser controlado por uma autoridade central porque a informação necessária para que o controlo seja eficiente está dispersa por todo o sistema e nunca está todo acessível a uma única pessoa. Um bom livro para se entender as ideias de Hayek sobre a economia como um sistema complexo é "The Constitution of Liberty" onde é explicada a noção de Cataláxia. Carlos Miguel Fernandes O Sr. João Miranda tem uma ideia muito vaga, e por vezes errónea, das teorias da complexidade, do caos e da evolução, embora seja de louvar o seu interesse por essas questões (desde que não ponha metade da informação de parte para poder justificar a sua ideologia). Parece confundir sistemas complexos com sistemas caóticos e algumas das suas afirmações têm graves problemas de precisão (mesmo tendo em conta o espaço que utilizamos; eu próprio cometi um grave erro no comentário que originou esta discussão, e que ainda agora, ao fim de várias intervenções, tem os seus efeitos). Por exemplo, João Miranda escreve que ?Não bastaria conhecer as condições iniciais. Seria necessário conhecer as condições iniciais com uma precisão infinita.?. Esta frase não faz sentido. Eu não sei a diferença entre conhecer as condições iniciais e conhecê-las com precisão infinita. Aliás, nem sei o que é conhecer com precisão infinita. Mas como não posso escrever aqui um tratado sobre complexidade (nem conseguia) sugiro a leitura de um pertinente artigo: Is Hayek's Social Theory an Example of Complexity Theory? Assim, podemos estudar a teoria da complexidade e a ideias de Friederich Hayek, que parece ser o guru ideológico de alguns liberais. O artigo não pretende diminuir o trabalho de Hayek, antes pelo contrário. Mas pretende enquadrá-lo numa perspectiva moderna, e de cariz científico, da teoria da complexidade. Um comportamento que me deixa perplexo é o apego que algumas pessoas têm aos pensadores que produziram textos e teorias que corroboram as suas crenças políticas, sociais ou morais. Uma vez descoberto o mestre, parece que tudo o que o engenho humano produziu antes e, especialmente, depois desses trabalhos não tem valor suficiente para, pelo menos, uma pequena vista de olhos (será que o João Miranda esteve no seminário de John Holland?...o autor deste blog (Picuinhas) teve interesse e curiosidade suficiente para lá ir). Outro comportamento habitual é a leitura transversal de algumas obras. O exemplo do darwinismo é esclarecedor. Quantas teorias sociais e políticas foram forjados sobre uma interpretação abusiva do autor da "Origem das Espécies"? Algumas: eugenia, racismo, darwinismo social. Muitas expressões anglo-saxónicas foram criadas baseando-se nas cruéis relações inter-espécies do mundo animal. Para aqueles que gostam de as aplicar na descrição de relações humanas, aconselho um pequeno trecho do livro Moby Dick, de Herman Melville, que ficou conhecido como "Sermão aos Tubarões". Leiam o livro e encontrá-lo-ão. Uma das falácias do (algum) discurso liberal, também baseada no darwinismo e fortemente influenciada pelo trabalho de Hayek, é a ideia de que a procura do que é melhor para nós conduz à optimização do conjunto (sociedade). Afirmá-lo é recusar décadas de investigação científica; é ignorar Von Neumman, a teoria dos jogos ou o dilema do prisioneiro; é esquecer os avanço na matemática e na teoria dos conjuntos; é recusar o equilíbrio de Nash. Felizmente, alguma teoria económica (mesmo liberal) vem sendo desenvolvida de acordo com estes novos paradigmas. Sugiro uma reflexão sobre a última frase do artigo que referi. João Miranda O Carlos cria um Homem de Palha para melhor me atacar. Não adianta porque eu não defendo os argumentos que ele ataca. Só para dar um exemplo, não se pode concluir dos trabalhos de Hayek que "a procura do que é melhor para nós conduz à optimização do conjunto (sociedade)." Conclui-se outra coisa mais importante: o conceito de optimização global da sociedade não faz sentido porque pressupõe valores absolutos. Hayek defende , e bem, que em economia todos os valores são subjectivos e incomensuráveis. O argumento segundo o qual "a procura do que é melhor para nós conduz à optimização do conjunto (sociedade)" é um argumento secundário porque pressupõe valores comuns. Se admitirmos esse pressuposto, o que numa discussão com um socialista pode ser útil, o argumento é sólido na maior parte das situações. Os liberais conhecem muito bem a teoria dos jogos e o dilema do prisioneiro. E por isso mesmo é que são contra a propriedade colectiva e contra o controlo político da actividade económica. O estado é uma entidade demasiado vulnerável à tragédia dos comuns. Quanto ao resto, o Carlos não respondeu aos meus dois argumentos fundamentais:
Carlos Miguel Fernandes Não pretendo atacá-lo (estou a ser sincero). Mas não podia deixar passar certas imprecisões, especialmente porque servem de base a outras conclusões. Um exemplo do seu último comentário: Pergunta-me "como é que se controla um sistema caótico com biliões de graus de liberdade?". Afinal, a economia é um sistema complexo ou caótico? Na abordagem moderna da complexidade existe diferenciação entre os dois termos. E fala de sistema caótico com biliões (onde foi buscar este valor?) de graus de liberdade. Isso significa que existem sistemas caóticos com poucos graus de liberdade? Ou então está a distinguir daqueles que têm apenas milhões de graus? Podem parecer questões secundárias garanto-lhe mas não são. Devemos comunicar com precisão. A primeira questão que põe pode ser abordada de duas formas: Eu posso controlar o nível de um depósito de um líquido sem saber a densidade do mesmo, nem a sua cor ou cheiro. Mas a questão nem sequer é essa. O que pretende a teoria da complexidade (pelo menos no estado em que se encontra a investigação teórica e o potencial tecnológico) não é um controlo preciso baseado em toda as variáveis do sistema. O que se procura é o padrão que, segundo se acredita e a observação tem confirmado, todos os sistemas complexos apresentam (ao contrário dos sistemas caóticos que, aparentemente, não revelam padrões de comportamento). Se, com a compreensão do padrão, conseguirmos prever comportamentos, mesmo que qualitativos, porque será que não podemos intervir, partindo do princípio que a nossa intervenção faz parte do sistema logo, o padrão que conhecemos incorpora a intervenção. Eu nunca disse que devemos ou podemos controlar cientificamente a economia. Mas, tal como há séculos atrás, começámos a prever, com muita exactidão, o movimento dos planetas, será que um dia não seremos capazes de prever (com alguma precisão, não quero quantificar) o comportamento de um sistema complexo (ou mesmo de um sistema caótico, mas isso levaria a uma reformulação da teoria). Diga-me uma coisa: se, com a ajuda das leis de Newton, fosse prevista uma colisão de um cometa com a Terra, daqui a cem anos, devíamos esperar o evento sem nada fazer. É que o universo seguirá o seu curso normal. Não é por a humanidade desaparecer que estamos perante um comportamento caótico, pois não? Para quê intervir, então? Não é de um controlo exterior, por parte de alguma entidade poderoso, que eu falo. Nós fazemos parte do sistema. Se conseguirmos prever o resultado das nossas acções, podemos 'controlar' o sistema, mesmo sendo parte integrante do mesmo. Ainda há alguns pontos do seu último comentário que gostaria de abordar, mas voltarei mais tarde. [...] João Miranda Um sistema complexo é um sistema que está para alem das capacidades cognitivas de qualquer ser humano ou de qualquer análise matemática e mesmo dos meios computacionais mais vulgares. Algumas das características dos sistemas complexos são as seguintes:
O número de graus de liberdade de um sistema é igual ao número de condições inciais, ao número de variáveis e igual ao número de equações que descrevem o sistema. Uma economia é um sistema complexo, tendo um elevado número de graus de liberdade, porque o número de variáveis é extremamente grande. Basta pensar que uma economia depende de cada uma das pessoas que a constitui, dos meios disponíveis e das restrições ambientais. Um sistema complexo como a economia pode ter ilhas de caos. Isto é, algumas variáveis que por períodos mais ou menos longos se comportam de forma imprevisível para um observador local. Ou então zonas em que os padrões macroscópicos se desfazem. No entanto, falta provar que o caos é necessariamente mau. Pode haver aqui uma ilusão colectivista que leva algumas pessoas a defender que determinados padrões macroscópicos são mais importantes que a liberdade microscópica dos agentes. Caos não deve ser confundido com o significado habitual da palavra caos. O choque de um cometa com a Terra não é certamente um fenómeno caótico, principalmente se esse acontecimento puder ser previsto com 100 anos de antecedência. Os acontecimentos caóticos são, por definição, imprevisíveis. Não é possível controlar a economia da mesma forma que se controla um tanque por três razões fundamentais:
Só para dar um exemplo, as formigas de um formigueiro geram uma paisagem ordenada que se distingue perfeitamente da paisagem onde não existem formigas. Mas nada na visão de um formigueiro nos garante que nenhuma formiga foi sacrificada para se conseguir aquele resultado. Uma sociedade injusta pode, mesmo assim, gerar padrões extremamente interessantes. Carlos Miguel Fernandes Não tenho tempo agora para lhe responder convenientemente, mas não posso deixar passar em claro o seu comentário sobre o cometa. Eu nunca escrevi que o choque do cometa é um acontecimento caótico. Por favor, releia as minhas palavras. Vai ver que não estou a fazer confusão nenhuma com os termos. Tenho alguma confiança de que o (muito) tempo que gasto a estudar complexidade, auto-organização e sistemas adaptativos me permite ter uma abordagem correcta do conceito de caos. Mas este pequeno pormenor faz-me recear que esteja a ser mal compreendido. Não sei se a culpa é do emissor ou do receptor mas vou tentar fazer um esforço para ser mais claro. João Miranda De facto, o meu comentário não está correcto. O essencial do que eu quis dizer foi que "caótico" não é sinónimo de "indesejável". Quanto ao facto de existirem perigos previsíveis que podem ser evitados, os liberais não defendem que devemos ficar de braços cruzados. O que os liberais defendem é que a melhor forma de lidar com qualquer perigo é através de um sistema em que as decisões são tomadas de forma descentralizada. Carlos Miguel Fernandes Mas 'caótico' deve ser sinónimo de 'indesejável', pelo menos no sentido correcto do termo. O que o João Miranda está referir não é caos mas perturbações que levam o sistema, temporariamente, a dimunir a sua aptidão. Mas, a médio prazo, a perturbação pode levá-lo a óptimos que ainda não tenham sido descobertos. Se for isto o que quer dizer penso que tem razão. Não é um controlo central que eu defendo, mas na verdade não consigo descobrir qual será a melhor forma de dimensionar os vários centros de decisão. Porque a questão importante é esta: a dimensão dos centros de decisão. Com um grande centro de decisão, em que todos os indivíduos trabalham para o bem do conjunto, temos um sistema em regime estático (Kauffmam até lhe chama regime Estalinista). Mas um sistema em que cada indivíduo age no seu próprio benefício está em constante mutação (e, entre os altos e baixos, e sua aptidão média não é melhor do que a de um sistema estático). É o que se chama, na teoria da complexidade moderna, um sitema caótico. Os sistemas complexos situam-se entre estes dois extremos (estas conclusões foram baseadas em experimentacão). A dificuldade consiste em perceber qual a dimensão correcta das entidades (conjuntos de indivíduos, retalhos (patches), centros de decisão, podemos chamar-lhes muita coisa) para que a evolução (prefiro adapatação) se encontre no limiar do caos. É este o conceito da auto-organização. Por algum mecanismo que ainda não foi entendido, todo o sistema complexo evolui (evolves) no limiar do caos. Então, quando falamos de economia, falamos de um sistema cujo comportamento pode cair em três estados: caótico, complexo ou estático (ordered regime, ainda não encontrei um boa tradução para este estado). O modelo económico que escolhemos (aqui já estou a especular) deve estar mais preocupado com a dimensão dos 'centros de decisão' (não sei se é a melhor expressão, estou a tentar seguir o raciocínio de João Miranda) do que em centralizar ou não centralizar. Mas qualquer que seja o ponto de vista, vais haver sempre uma espécie de centralização. Ou será que, tal como na democracia, conseguiremos dividir esse centro em retalhos (depois aparece o problema da divisão dos retalhos em sub-retalhos, mas é inevitável num sistema). Picuinhas Não tenho tempo agora para dar a minha opinião sobre todos estes comentários. Mas chamou-me a atenção a ideia de que há um "óptimo" para uma sociedade, que pode ser descoberto ou aproximado melhor de uma forma distribuída (ou descentralizada). O que é o óptimo de uma sociedade? Quem o define? O governo? Um conjunto de iluminados? Cientistas? É decidido democraticamente? Afinal, quem toma as decisões democráticas são os mesmos agentes de que depende o comportamento do sistema. Esses agentes são seres humanos, e são os mesmos que teorizam acerca do próprio sistema e que, ao fazê-lo, lhe alteram o comportamento de forma que não podem prever. Quanto ao caos, eu diria que as nossas sociedades estão bem longe de estar nesse regime. Estão, isso sim, bem mais próximas do "ordered regime". Por outro lado, quanto mais ouço falar da investigação em sistemas complexos, mais o assunto me fascina. É perfeitamente legítimo, e interessante, tentar tirar conclusões qualitativas (ou mesmo quantitativas) acerca do comportamento das nossas sociedades, através da simulação de sistemas complexos. Mas seria uma enorme arrogância considerar que os modelos são tão bons que essas conclusões devam moldar as nossas políticas. Espero sinceramente que isso não aconteça. Para políticas de base "científica" já basta o marxismo. João Miranda Alguns comentários:
Gostei da da simulação. Não há dúvida: a melhor forma de prever o futuro é esperar que aconteça. Carlos Miguel Fernandes Ao Picuinhas: Também não acredito que possamos definir o óptimo (global) de uma sociedade (existem mesmo classes de problemas ? reais e teóricos ? onde não é possível conhecer previamente o óptimo global). Mas, considerando o bem estar dos indivíduos, podemos dizer alguma coisa quanto ao estado dessa sociedade. Além disso, os óptimos talvez estejam em constante mudança. Não é uma paisagem de aptidão (fitness landscape) imutável. Aquilo que eu tentei dizer foi o seguinte: um sistema a evoluir no limiar do caos tem mais possibilidades de saltar para óptimos locais mais elevados. É a mesma coisa que acontece quando subimos a uma colina e verificamos que, ao lado, existem outras mais elevadas. Para conseguir atingir o seu topo, é necessário sair do local onde nos encontramos. E para que isso acontece temos que descer. Num regime estático (marxista ou estalinista) isso não é possível. Uma vez encontrado um ponto aparentemente estável não se vai para mais lado nenhum. Como costuma dizer um amigo meu, o marxismo do leste europeu era muito bonito mas, mesmo que não tivesse mais problemas, havia um problema incontornável: o nivelamento por baixo. Basta comparar os países que faziam parte do pacto de Varsóvia com a antiga Jugoslávia que, apesar de se considerar como um país socialista, adoptou um regime de mercado livre. Mas um regime caótico também não me parece desejável (dêem-me exemplos de sistemas que se desejem caóticos, mas considerando uma abordagem moderna da teoria da complexidade). A oscilação e instabilidade inerentes obrigariam a uma mudança muito rápida de aptidões, sem que as que fossem entretanto adquiridas pudessem ser convenientemente exploradas. É verdade que os seres humanos fazem parte do sistema. Se não fizessem e se as suas acções não produzissem efeitos de quantificação difícil, talvez não fosse um sistema complexo, não é? Fazendo a analogia com a teoria da auto-organização não me parece que a nossa sociedade esteja no ?caos? nem no ?ordered regime?, embora alguns sub-sistemas possam apresentar essas características. Se, como se acredita, a economia mundial é um sistema complexo, tenderá sempre para um regime ?no limiar do caos? (o no limiar do ?ordered regime?, é a mesma coisa). Mais importante do que moldar as nossas políticas é tentar compreender as conseqüências das mesmas. Nem que seja para satisfazer a natural curiosidade humana. Respondei a João Miranda noutra altura, até porque ele colocou muitas questões e observações pertinentes. ......... Agora, com mais tempo, vou tentar comentar as últimas observações de João Miranda. Mas antes devo dizer que, embora amenizado nos último comentários, o tom do seu discurso continua a não ser o mais adequado. Penso que está convencido que eu tento arranjar provas irrefutáveis ou justificações científicas para as minhas crenças. Mas não é verdade. Só quero levar as pessoas a pensar um pouco nos fenómenos que as rodeiam e no seu próprio sistema de crenças. Não pretendo dar respostas, apenas fazer perguntas. Tento ainda descrever algumas ferramentas que conheço e que podem (ou não) ajudar no processo. Tenho uma abordagem das questões que se baseiam no método científico, é verdade. Evito estabelecer bases morais ou ideológicas. Uma das forças da ciência está na forma como tenta encontrar os pés de barro dos seus ídolos para melhor os destruir, não tentando escondê-los para mais facilmente erigir outros edifícios, com fundações do mesmo material (embora exista, mesmo dentro da ciência, tendência para o fazer; talvez seja humano, ninguém gosta de ver as bases de uma vida inteira de investigação cair à sua frente). Se Einstein não tivesse questionado a universalidade das leis de Newton, não teria desenvolvido a teoria da relatividade. E se o físico português João Magueijo adoptasse uma postura de crença, nunca teria questionado Einstein e a constância temporal da velocidade da luz (independentemente de estar correcto, ainda é cedo para o dizer). Esta autofagia da ciência é a idiossincrasia que lhe permite estar em constante mudança e permanentemente viva. Vamos aos comentários dos comentários:
Deixo-vos com um parágrafo de John Holland que encontrei no livro ?A Ideia Perigosa de Darwin?, do filósofo norte-americano Daniel Dennet. Não é uma obra que trate directamente do assunto que estamos a discutir, mas pode ser que até nos forneça algumas pistas. Por isso, e pela excelência do livro, aconselho a sua leitura (editora Temas e Debates). Este parágrafo encontra-se num capítulo que questiona abordagem de Noam Chomsky ao problema da linguagem humana: Um modelo interno permite que um sistema olhe em frente para as futuras consequências das acções presentes, sem na realidade se vincular a essas acções. Em particular, o sistema pode evitar actos que o colocariam irreversivelmente na trajectória de algum desastre futuro ("saltar um penhasco"). Menos dramaticamente, mas igualmente importante, o modelo permite ao agente efectuar lances posteriores obviamente vantajosos. A própria essência da vantagem competitiva, quer seja no xadrez ou na economia, é a descoberta e a execução de lances de montagem de palco.......... Esqueci-me da referência da citação. Vi-a no livro de Dennet mas originalmente vem de: Holland, John, 1992. "Complex Adaptive Systems" Daedalus, Inverno, pág. 25. [Nota: Não consegui encontrar o livro na Amazon.] Colocado por Picuinhas às 21:50 2003/12/05
2003/12/04
SCUT para todos, já!
Mais um recuo socializante do governo: as SCUT vão-se manter.
Colocado por Picuinhas às 12:52
"Sampaio em Argel"
O que eu queria ter dito sobre as declarações de Jorge Sampaio em Argel (Diário de Notícias, Público e Jornal de Notícias) disse-o José Manuel Fernandes no editorial de hoje do Público.
Colocado por Picuinhas às 12:47 2003/12/02
A infâmia
Segundo um gráfico publicado no Público, o número de colonos israelitas nos territórios ocupados tem vindo a crescer aritmeticamente desde há 20 anos. De 21 700 em 1980, passou-se para 231 443 em 2003. O crescimento nunca parou, ao longo de 20 anos. É vergonhoso. Não justifica nenhum tipo de terrorismo, bem entendido, mas retira toda a razão a Israel, tal como o traçado do muro bem por fora das fronteiras de 1967. Só há uma solução política: desmantelar o muro (ou reconstruí-lo nas fronteiras de 1967) e retirar todos os colonos. Ou, pelo menos, compensar todo o território integrado em Israel com território equivalente integrado na Palestina. Esta é, também, a única solução moral, não andando longe do que propõe o Plano de Paz de Geneva, uma iniciativa a apoiar.
Colocado por Picuinhas às 22:52
Madredeus, 28 de Novembro
O tempo passa, os Madredeus tocam, e eu ouço. Os Madredeus são uma rocha. Uma referência imutável. Uma garantia no meio da confusão da vida. Ouço-os esporadicamente em concerto. Dentro de uns anos ouvi-los-ei de novo. Estarão, como sempre, iguais. A igualdade na perfeição é uma virtude.
Colocado por Picuinhas às 11:16 2003/11/26
O discurso da Ordem dos Arquitectos
Helena Roseta escreve hoje no Público sobre a arquitectura em Portugal. Vejamos alguns extractos:
Em 1948, um grupo de jovens arquitectos revoltou-se contra a imposição pelo regime salazarista de um estilo "nacional". E partiram, sob o impulso de Keil do Amaral, à descoberta da arquitectura popular, procurando um saber antigo e essencial, onde as formas habitadas nascem da relação entre o homem e o meio.Ou seja, existe, ou existia em 1948, uma arquitectura feita por não-arquitectos, onde os arquitectos beberam um "saber antigo e essencial", e onde "as formas habitadas nascem da relação entre o homem e o meio". O resultado do estudo dessa arquitectura popular foram dois magníficos volumes, publicados pela primeira vez em 1961 pelo Sindicato Nacional dos Arquitectos, reeditados em 1988 pela Associação dos Arquitectos Portugueses, e reeditados de novo em Maio deste ano pela Ordem dos Arquitectos. Um pouco antes, Helena Roseta tinha-se referido ao Decreto 73/73, já aqui discutido: A esta explosão demográfica não correspondeu nenhuma alteração das políticas legislativas com impacto na arquitectura. A qualificação profissional exigível aos autores de projectos não foi alterada, apesar do êxito da petição entregue na Assembleia para revogar o velho decreto 73/73, que permite a não licenciados em arquitectura fazer projectos.Mas, não será evidente que a revogação do Decreto 73/73 irá proibir por lei a arquitectura popular? Argumentarão, claro, que a arquitectura de não-arquitectos não tem, hoje em dia, qualquer valor. Que é má. Que destrói a paisagem. Que as nossas casas de emigrante são a ausência de arquitectura. Mas, se assim é, porque é que as construções vernáculas até 1948 tinham todas as qualidades apontadas? Porque gostamos tanto, hoje, de as recuperar, de lhes aumentar o conforto tentando sempre preservar-lhes o carácter? Será que a construção vernácula contemporânea é mesmo desprovida de carácter, ou é a nossa arrogância cultural que nos proíbe de o encontrar? E não será essa arrogância inversamente proporcional à antiguidade da construção ou, ainda pior, ultrapassável apenas quando já não há memória de quem construiu? Mais à frente, a arquitecta fala de "liberdade de expressão" (as aspas são propositadas): Hoje, diz Teotónio Pereira, a liberdade de expressão arquitectónica não está ameaçada pela ditadura política mas pela ditadura do mercado. O que se vende, diz ele, é uma arquitectura medíocre, que não pode deixar de afectar a qualidade de todo o tecido urbano.O "mercado" a que Helena Roseta se refere é, na realidade, apenas um dos lados do mercado da arquitectura, i.e., os clientes. A "ditadura" é o facto de os clientes pretenderem, naturalmente, que se construa aquilo de que gostam, e que considera (e considero) medíocre. Essa suposta "ditadura" é um perigo para a "liberdade de expressão". Não para a verdadeira liberdade de expressão, que felizmente está de boa saúde, mas sim para a possibilidade dos arquitectos projectarem independentemente das opiniões dos seus clientes. O artigo termina com um apelo pleno de bandeiras da esquerda. Em nome de um suposto interesse público de que os arquitectos se sentem naturais porta-vozes, pretende-se pela força da lei aumentar a liberdade positiva de alguns, mesmo à custa das liberdades negativas de quase todos. Colocado por Picuinhas às 23:47 2003/11/24
A esquerda contra as Ordens
Daniel Oliveira tem razão: "As ordens servem para isto mesmo: defender quem já está contra quem pode chegar."
Colocado por Picuinhas às 01:18
De novo o "Direito à Arquitectura"
Resposta a Lourenço Ataíde Cordeiro, de O PROJECTO, a quem agradeço a disponibilidade para participar neste debate:
1. Nas páginas da Ordem dos Arquitectos, mais especificamente nos seus estatutos, encontrei uma lista dos "actos próprios da profissão de arquitecto". Esses actos "consubstanciam-se em estudos, projectos, planos e actividades de consultadoria, gestão e direcção de obras, planificação, coordenação e avaliação, reportadas ao domínio da arquitectura, o qual abrange a edificação, o urbanismo, a concepção e desenho do quadro espacial da vida da população, visando a integração harmoniosa das actividades humanas no território, a valorização do património construído e do ambiente". Para o dicionário Texto Editora, o termo "arquitecto" vem "do Lat. architectu < Gr. árchi, principal + tékton, carpinteiro, pedreiro" e significa "o que faz a planta e dirige a construção de edifícios". A definição de arquitectura é muito simples, ainda segundo o mesmo dicionário, correspondendo à "arte de edificar ou de projectar e traçar planos", e não difere muito da definição feita pela própria Ordem dos Arquitectos, embora esta seja um pouco mais abrangente. O problema que levantei originalmente não está, por isso, na definição de arquitecto. Está no facto de a Ordem dos Arquitectos pretender que "só os arquitectos inscritos na Ordem podem [...] praticar" arquitectura. Os membros da Ordem dos Arquitectos pretendem uma definição mais estrita de arquitecto. Pretendem que "arquitecto" signifique "membro da Ordem dos Arquitectos", excluindo de tal definição todos os outros, pratiquem ou não arquitectura. Os membros da Ordem dos Arquitectos querem ter o exclusivo da prática da arquitectura. É contra esta exclusividade que me insurjo. Que a Ordem dos Arquitectos pretenda atribuir títulos de acordo com critérios que são os seus, parece-me bem. Parece-me mal, isso sim, que o faça com o beneplácito do estado, que lhe confere o exclusivo direito de o fazer e de decidir quem pode "fazer a planta e dirigir a construção de edifícios". Dir-se-á que, nesse caso, eu sou contra as Ordens em geral. É parcialmente verdade. Nada teria contra as ordens se não fossem ordens, se fossem simples associações a que cada um era livre de se associar ou não. Essas associações poderiam ter papeis importantes, sobretudo se agissem concorrencialmente, i.e., se existissem várias para cada profissão. É interessante reparar que a definição estrita de arquitectura, i.e., aquilo que os arquitectos fazem, não é usada pelos próprios arquitectos. É interessante ler, por exemplo, o que diz Pedro Jordão no seu Epiderme acerca do Muro de Berlim: Para Koolhaas, que escreveu sobre o tema, a grande surpresa era o Muro ser arrebatadoramente belo (1). Considerou-o o gesto arquitectónico mais puramente urbano dos últimos séculos, e talvez não estivesse errado. Principalmente devido à sua vibrante dualidade, responsável pelos inúmeros significados, espectáculos e realidades que se desenvolviam ao longo dos seus 165 quilómetros. E a verdade é que, apesar da elementaridade cruel do seu programa, o Muro de Berlim foi o verdadeiro mito urbano do século XX.Terá sido o Muro de Berlim, "gesto arquitectónico mais puramente urbano dos últimos séculos", desenhado por arquitectos? Provavelmente não, como o não foram muitas das edificações por esse mundo fora a que a patine do tempo já conferiu o estatuto de património histórico e arquitectónico. Mas podemos dar outros exemplos de como a palavra arquitectura se aplicou, e continua a aplicar, a edificações que não foram desenhadas por arquitectos, pelo menos no sentido estrito da palavra. Na Primavera de 1980 esteve em Portugal uma exposição itinerante do Centro de Criação Industrial do Centro Georges Pompidou. A exposição intitulava-se "Arquitectura de Engenheiros: Séculos XIX e XX". Desde a minha passagem pelo primeiro ano de Arquitectura que guardo o catálogo dessa exposição, onde se pode encontrar o seguinte extracto: O debate arquitecto/engenheiro não terá em breve mais razão de ser. Resolvemo-lo quer defendendo o título de «construtor» que alia as características das duas profissões, quer preconizando um estreito trabalho de equipa. «Arquitecto? Engenheiro? Para quê colocar esta questão, debatê-la? Trata-se de fazer construções (...) Porque será que os construtores de aviões, de barragens, etc., não são qualificados com o título de arquitecto? O que leva a concluir imediatamente que o arquitecto deve saber forçosamente de engenharia; sem o que não poderá ter ideias seriamente defensáveis na matéria.Respondendo a Lourenço Ataíde Cordeiro, diria que um engenheiro de minas, ao desenhar um edifício, está de facto a assumir o papel de arquitecto, tal como o próprio Jean Prové, que começou a vida como ferrageiro, assumiu os papeis de designer e arquitecto. Usar a definição estrita de arquitectura para restringir a prática de arquitectura (no seu sentido lato) aos membros da Ordem dos Arquitectos, não passa pois de um truque semântico. 2. Quem será capaz de cumprir o que a nossa Constituição preconiza, i.e., construir "uma habitação de dimensão adequada, em condições de higiene e conforto e que preserve a intimidade pessoal e a privacidade familiar"? Apenas arquitectos? Reitero que não. Que pura e simplesmente não é verdade. Que há muita gente que, não sendo membro da Ordem dos Arquitectos, é perfeitamente capaz de o fazer. É evidente que o requisito da Constituição, que diz respeito ao direito à habitação, é mínimo, podendo esses requisitos ser cumpridos por habitações com características e qualidades arquitectónicas totalmente diferentes. Mas uma Constituição deve ser mínima, restringindo-se àquilo que é essencial (e todos sabemos que a nossa Constituição não peca por defeito). Finalmente, se a Ordem dos Arquitectos julga que apenas um seu membro é capaz de projectar uma habitação nas condições indicadas, cabe-lhe o ónus de o provar. 3. Neste ponto, pelos vistos, estamos de acordo. Mas se assim é, se "o ordenamento do território e a criação de parques e reservas não são tarefas exclusivas do arquitecto, sendo que os engenheiros, os paisagistas, os economistas, os geógrafos, os sociólogos, entre outros, têm responsabilidades nesse campo", porque é que, na petição promovida pela Ordem dos Arquitectos, o "direito à arquitectura", entendido como o direito da Ordem restringir a prática da arquitectura aos seus membros, surge como "decorrência lógica" do direito ao "ambiente e qualidade de vida"? 4. Será que, como Lourenço Ataíde Cordeiro afirma, muitos "não contratam arquitectos porque não querem e porque são [..] livres" e "por isso põem no mercado edifícios de habitação precários, sem qualidade arquitectónica, mal implantados urbanisticamente, que são autênticas agressões para o ambiente"? Se os edifícios são precários, e são vendidos como bons, o assunto deve ser resolvido na justiça. Se se argumentar que a justiça não funciona, que provavelmente não punirá os responsáveis, concordarei, mas direi também que, nesse caso, do que precisamos é de reformar a justiça, e não de resolver o problema "de cernelha", restringindo liberdades individuais no processo. Quanto à má qualidade arquitectónica, é verdade para a grande maioria dos edifícios construídos em Portugal, infelizmente. Quando à implantação urbanística, também pode acontecer, embora aqui a responsabilidade seja partilhada com urbanistas e municípios. Quanto a serem agressões para o ambiente, tenho muitas dúvidas, sobretudo se por isso se entende "ambiente natural". Mas a questão importante a responder aqui é a de saber se esses potenciais problemas justificam as restrições à liberdade individual que o "direito à arquitectura" preconiza. Na minha opinião a resposta é não. 5. É verdade que concordo globalmente com as citações da Resolução do Conselho da União Europeia feitas no texto da petição promovida pela Ordem dos Arquitectos (embora tenha sérias dúvidas relativamente à "coesão social" e à "criação de emprego", dúvidas que não me pareceu pertinente realçar no meu texto original). Lourenço Ataíde Cordeiro acha que é uma enorme contradição da minha parte não considerar as vantagens da arquitectura aí apresentadas como suficientes para justificar a revogação do Decreto 73/73. Não percebo onde está a contradição: para mim as vantagens apontadas estão longe de ser suficientes para o justificar. Admito que possa parecer pouco intuitivo, mas a minha posição filosófica é a de valorizar mais a liberdade de cada um do que todas estas vantagens, que pessoalmente reconheço, mas que muitos outros poderão não reconhecer como tal. Nada há de contraditório, pois. Eu prefiro a arquitectura, reconheço-lhe vantagens evidentes, mas prefiro que a arquitectura seja escolha livre dos clientes, e não uma imposição. 6. Não percebo a perplexidade de Lourenço Ataíde Cordeiro neste ponto. O que digo é que os nossos clientes têm um gosto que eu (e presumo que a grande maioria dos arquitectos) considera ser mau. Ora, parece evidente que uma das razões para a revogação do Decreto 73/73 é a da qualidade arquitectónica, incluindo a questão estética. Mas estética não é ética, sendo a sua valoração sempre subjectiva. Aquilo de que eu não gosto nas nossas construções (as moradias "típicas", com as suas cantarias, beirais, colunas e balaustradas), outros gostam e escolheram porque gostam. Subjacente à proposta de revogação está a ideia de que a obrigatoriedade de assinatura de arquitecto evitaria este estado de coisas, pois os arquitectos, pela sua formação, têm melhor gosto. Mas podem os arquitectos erigir-se em padrões únicos do bom gosto, que imporão pela força da lei? Devem fazê-lo? Quanto a mim, não. Quanto ao "gosto", é realmente de estética que falo. Segundo o dicionário Texto Editora, "gosto" é, entre outras acepções, "(fig.) critério artístico". Segundo o dicionário Novo Aurélio, "gosto" pode ser a "faculdade de julgar os valores estéticos segundo critérios subjectivos, sem levar em conta normas preestabelecidas: gosto requintado". Diz depois Lourenço Ataíde Cordeiro que eu lhe devo apresentar "alguém que saiba coordenar a complexidade de um projecto de arquitectura, com responsabilidade, com capacidade para se responsabilizar pelas suas consequências, que não tenha formação em arquitectura". Devolvo-lhe o desafio. Já que apoia uma petição que restringe as liberdades individuais, cabe-lhe o ónus da prova. Demonstre-me, pois, que só os membros da Ordem dos Arquitectos sabem "coordenar a complexidade de um projecto de arquitectura, com responsabilidade, com capacidade para se responsabilizar pelas suas consequências". 7. Aqui parece-me haver uma confusão. Lourenço Ataíde Cordeiro começa por falar em fiscalização, e termina falando em responsabilização. Fala em responsabilização a priori, e depois diz que a Ordem dos Arquitectos age a posteriori. Dá-me razão, portanto. Em última análise pode-se considerar que, do ponto de vista da responsabilidade, e numa sociedade com uma justiça operacional, as Ordens não têm qualquer papel relevante. Quanto à fiscalização a priori, ela existe hoje e existirá no futuro, inclusive para arquitectos. Esta avaliação a priori não desresponsabiliza o técnico, qualquer que seja a sua formação. Parece querer-se demonstrar que só um arquitecto é responsabilizável, mas isso é falso. Os outros profissionais também o são, como é evidente. Quanto à necessidade de contratar mais profissionais para fiscalizar, defendo o oposto. Com uma boa justiça, não seria necessária qualquer fiscalização prévia. 8. Os empregos não se devem conseguir através de leis que restrinjam a liberdade individual, a não ser que existam razões muito fortes para isso. Uma profissão não se deve impor pela lei, mas sim vencer no mercado, pela qualidade dos serviços prestados. Finalmente, é contraditório dizer que se tentou, através da formação de cada vez mais arquitectos, adequar a oferta à procura. Se assim fosse, porquê revogar o Decreto 73/73? É que o desejo de revogação surge justamente porque hoje parece haver muito mais oferta de arquitectos do que procura (pelo menos na argumentação dos arquitectos, pois não tenho dados oficiais que o demonstrem). Quando há excesso de oferta de um produto no mercado, o seu preço baixa. Se parte da oferta desse produto é importada, os produtores internos apressam-se a gritar por proteccionismo, argumentando com a pátria, a exploração de mão de obra barata, o desrespeito pelo ambiente, etc. O caso do "direito à arquitectura" é semelhante: aparentemente há excesso de oferta de projectistas no mercado, alguns deles "estrangeiros" (i.e., não-membros da Ordem dos Arquitectos). A petição pela revogação do Decreto 73/73 é, no fundo, um grito proteccionista. 9. Quanto à comparação com médicos, já expliquei porque não colhe: uma má prática de um médico pode matar, uma má prática de um arquitecto (naquilo que tem de específico, que um engenheiro civil, por exemplo, não faz) não mata. 10. Quando se fala de "agressão ao meio urbano" está-se a entrar no domínio da ambiguidade. Se a questão é estética, o argumento é fraco, pois gostos há muitos (uso de novo "gosto" propositadamente). Se são outros tipos de agressão (sombreamento, eliminação de vistas, impermeabilização de solos, etc.), devem estar cobertos pela lei ou pelos livres contratos entre os indivíduos, independentemente da classe profissional dos projectistas, como é evidente. A violação de leis e contratos é determinada e punida pela justiça. 11. Aqui reconheço a minha falha. Não deixei claras as minhas dúvidas acerca do impacte da arquitectura sobre a coesão social e a criação de emprego. Mas, mesmo esquecendo esta precisão, a verdade é que não se pode comparar a morte de alguém por má prática médica, por um erro de pilotagem ou pelo desabamento de um edifício, com as consequências da má arquitectura. Não: há uma enorme diferença entre uma morte por má prática médica e as consequências difusas e dificilmente quantificáveis ou demonstráveis da má arquitectura. Devolvo-lhe, mais uma vez, a pergunta, até porque é o texto da petição que faz a comparação da prática da arquitectura com a medicina, a pilotagem ou a engenharia civil: demonstre-me que a má prática da arquitectura tem consequências tão graves como a má prática da medicina. 12. Lourenço Ataíde Cordeiro não percebe como a satisfação de um cliente pode ficar afectada pela obrigação de assinatura de um arquitecto. Ora, isso acontece pelo simples facto de ele deixar de poder recorrer ao técnico que prefere (no caso de preferir um não arquitecto). Quanto à "responsabilidade social" do arquitecto, recordo que a sociedade é sempre uma entidade abstracta a que se recorre para justificar este tipo de coisas. Mas, como se pergunta a opinião à sociedade? Através de um referendo? Através dos seus representantes, nas autarquias eleitas? Acontece que as autarquias já impõem às edificações as limitações que entendem necessárias. Nem por isso a relação deixa de ser essencialmente entre o arquitecto e o seu cliente, onde a supervisão da câmara é vista geralmente, e por vezes muito justamente, como intrometida. 13. Já expliquei que eu não dispenso o arquitecto. Pretendo é que os outros tenham a liberdade de fazer como entendam melhor. Se dispensarem, tanto pior, se não dispensarem, tanto melhor. Quanto a perceber o que é um arquitecto, percebo perfeitamente. O pior que se pode fazer para defender a arquitectura é considerá-la uma actividade cabalística, cuja compreensão está vedada ao comum dos mortais, sendo acessível apenas a um conjunto de iniciados (onde invariavelmente não se encontra quem discorda). 14. Limito-me a observar que não compreendo porque é que, se "a arquitectura está em saldos", os honorários dos arquitectos não baixam, e a afirmar que o melhor juiz da relação qualidade preço de um projecto é o cliente. Colocado por Picuinhas às 00:33 2003/11/22
Associações de estudantes de medicina: tirocínio corporativista
No Público de quinta-feira, as associações de estudantes de medicina afirmam que não querem mais vagas nem cursos de medicina em escolas privadas. Porquê? Simples: "Não há falta de médicos". Além disso, "o facto de se abrirem mais vagas pode levar a que daqui a uns anos os médicos estejam a ser formados para o desemprego, o que será um desperdício de recursos públicos, pois é um curso caro." E acrescentam que "somos contra a criação de novas faculdades porque as que existem são suficientes para a nossa população". Algumas perguntas aos estudantes:
Colocado por Picuinhas às 01:48
Há uma ortodoxia liberal?
Transcrevo um comentário que me parece merecer destaque. É assinado por Carlos Fernandes, tanto quanto pude depreender:
Há uma coisa que me intriga e que gostava de ver esclarecida por um neo-liberal mais ou menos lúcido. Acredita realmente que a economia e outros sistemas criados pelos humanos possuem mecanismos inerentes de auto-regulação? É que eu julgo que essa crença só pode ser um acto de fé (tal como a crença num estado marxista ortodoxo). Sugiro uma abordagem mais científica dos conceitos para uma melhor auto-crítica das nossas ideias. Se olharmos para a obra do biólogo Stuart Kauffman reparamos num conceito cahmado auto-organização. Tirando todos as ideias polémicas desta teoria, um conceito parece indiscutível: a evolução no limiar do caos. Como é que alguém pode pensar que qualquer sistema económico ou social (criados pelo homem) apresentam as características necessárias para uma evolução (ou transição de estados) que não caia no caos nem em ciclos finitos perpétuos? Pode ser que seja verdade, que a economia mundial seja equivalente ao clima da Terra: pequenas perturbações podem manifestar-se tragicamente, mas, mais tarde ou mais cedo, tudo volta ao normal. Mas nada disto está provado. Mesmo que estivesse, deveriamos deixar esses sistemas correr livremente, correndo o risco de observar desastres, mesmo sabendo que poderiam estabilizar posteriormente? Já se usou o nome de Darwin e a sua importante teoria para justificar o injustificável (ignorando a essência da teoria, mas a isso chama-se ignorância ou desonestidade intelectual). Iremos agora usar, levianamente e incorrectamente, a teoria da complexidade para justificar ideologias? É provável. Mas quem estiver melhor informado tem a obrigação de alertar para os perigos de uma abordagem errada da ciência (já nos basta Boaventura Sousa Santos).Não sei bem o que é um neo-liberal, mas como não me ofende a etiqueta de liberal, seguem algumas ideias sobre os assuntos que refere. (E sim, acho que sou "mais ou menos" lúcido, embora provavelmente nem todos concordem.) Há vários níveis de análise para esta questão. Em primeiro lugar, a posição liberal parte do princípio que a liberdade é um direito essencial, só podendo ser limitado por razões suficientemente fortes. Daí que a presunção do liberal comece por ser que é preferível um mercado livre a um mercado regulado ou, pior, totalmente centralizado. Até aqui, a auto-regulação não surge. Num segundo nível de análise, parece evidente que há auto-regulação num mercado livre, admitindo, evidentemente, que se vive num estado de direito, onde se pode recorrer à justiça e onde os contratos são, em geral, respeitados. Em Portugal há mercados com forte intervenção estatal, mas há outros onde essa intervenção é menor, e que nem por isso deixam de funcionar. Pode-se argumentar que um mercado livre funciona melhor que um mercado regulado, que a auto-regulação é não apenas suficiente, mas mais eficiente que a regulação centralizada. Foi o que fez Hayek, que falou de ordem espontânea, no que foi provavelmente um percursor da ideia de auto-organização (aliás, provavelmente as duas expressões são sinónimas). É interessante que tenha referido John Holland. Tive a sorte de o ouvir há umas semanas no S. Jorge, e não pude deixar de me entusiasmar com a ideia de que o estudo dos Sistemas Complexos Adaptativos pode deitar alguma luz sobre os mecanismos dos mercados, sobre a eficiência, ou não, da auto-regulação. Esse entusiasmo é temperado por um forte cepticismo quanto à possibilidade de alguma vez se poder fazer alguma previsão certeira e não-trivial baseada em simulações desse tipo de sistemas. Nesse sentido, identifico-me com a escola austríaca, embora não por uma questão de princípio, mas por uma questão de realismo. Repare que a posição liberal não é, nem pretende ser, científica. A presunção inicial, da liberdade como direito fundamental, nada tem de científica. Não sendo científica, poderia transformar-se num acto de fé, numa ortodoxia, mas isso só aconteceria se se desligasse da realidade. Ou seja, como qualquer posição ideológica moderada, o liberalismo (ou pelo menos aquilo que eu entendo por liberalismo, pois em política há quase tantas definições quantas cabeças) assenta na realidade. Recorrendo de novo a Hayek, diz ele que "to prohibit the use of certain poisonous substances or to require special precautions in their use, to limit working hours or to require certain sanitary arrangements, is fully compatible with the preservation of competition. [...] Nor is the preservation of competition incompatible with an extensive system of social services - so long as the organization of these services is not designed in such a way as to make competition ineffective over wide fields". Embora esta posição não seja consensual entre os que se dizem liberais, mostra que há muitos liberais (diria mesmo que são quase todos) que não rejeitam liminarmente a intervenção do estado. Aliás, a diversidade enorme de opiniões que cabem dentro do liberalismo (anarco-capitalismo, minárquicos, etc.) demonstra bem que a questão da auto-regulação não tem, no liberalismo, o estatuto de um dogma ou de uma revelação. Citando de novo Hayek, "nor does [the liberal argument] deny that, where it is impossible to create the conditions necessary to make competition effective, we must resort to other methods of guiding economic activity". Pergunta "como é que alguém pode pensar que qualquer sistema económico ou social (criados pelo homem) apresentam as características necessárias para uma evolução (ou transição de estados) que não caia no caos nem em ciclos finitos perpétuos?" A realidade não parece demonstrar a ideia de que um sistema económico ou social cai necessariamente no caos ou em ciclos finitos perpétuos. Aliás, a ideia de que cai necessariamente nesses comportamentos é que me parece uma extrapolação perigosa de resultados científicos, mas teria de ler o livro para o poder afirmar. Como diz, nada disto está provado. Envolvendo comportamento humano, provavelmente nunca estará. Pergunta-se se, sendo o comportamento dos sistemas envolvendo agentes humanos essencialmente imprevisível, não será perigoso "deixar esses sistemas correr livremente, correndo o risco de observar desastres, mesmo sabendo que poderiam estabilizar posteriormente?" Responder-lhe-ia que não, que se alguém puder antecipar um desastre deve obviamente fazer tudo ao seu alcance para o evitar. (Curiosamente, no entanto, as sociedades mais liberais não parecem particularmente sujeitas a desastres.) Mas a posição de um liberal é a de que, com o nosso conhecimento individual limitado e com uma capacidade de previsão reduzida, é geralmente melhor deixar as coisas correr do que limitar as liberdades com medo de desastres largamente imaginários. Quanto ao alerta que lança, acerca da utilização abusiva de ciência, tem toda a razão de ser. Mas, se a ideia de estudar os Sistemas Complexos Adaptativos é apelativa para um liberal, a ideia de aplicar os seus resultados para justificar a sua posição ideológica será sempre olhada por ele com muita desconfiança. Enfim, pelo menos por mim. Colocado por Picuinhas às 01:15 2003/11/19
A nossa economia de direcção central: o caso do ensino da medicina
Segundo a TSF, o governo decidiu criar mais 300 vagas em cursos de medicina já no próximo ano lectivo. Cerca de 100 delas servirão para reconversão de dentistas já que responsáveis do sector dentário alertaram a formação de dentistas em excesso. O governo quer também autorizar, já para 2005, o ensino da medicina em duas das dez universidades privadas que desejam fazê-lo.
Germano de Sousa, bastonário da Ordem dos Médicos, afirma que o aumento do número de vagas nas escolas públicas é "um exagero". A Germano de Sousa não parece necessário um tão grande número de vagas, mas admite que esta medida, que classifica de demagógica, possa ter fins eleitorais. Para ele uma tal medida obriga o ministério a dispôr de uma grande verba que lhe permita financiar as escolas, pois de outra forma não haverá forma de contratar assistentes, equipar laboratórios, etc. "Desconfio que se possam abrir 300 vagas sem degradar a qualidade de ensino", diz ele, afirmando recear pela saúde dos portugueses. Quanto às escolas privadas, Germano de Sousa afirmou que a Ordem dos Médicos muito provavelmente se recusará a acreditar os novos cursos, ou melhor, que "os novos médicos podem ver barrada a inscrição na Ordem". Repare-se que se continua, em Portugal, a decidir centralmente o número de vagas em cada curso, e a restringir o mais possível a acção das universidades privadas, de quem por princípio se tem uma enorme desconfiança. Note-se ainda como as ordens em Portugal, em vez do papel importante que poderiam ter de acreditar os cursos com independência, servem pelo contrário para proteger os interesses instituídos, chegando ao ponto de ameaçar não acreditar cursos que ainda não existem, e sobre os quais não têm, por isso, qualquer informação, apenas porque são oferecidos por escolas privadas. Temos aqui Portugal no seu esplendor. As políticas iliberais e centralizadoras de Lynce continuadas pela nova titular do Ministério da Ciência e do Ensino Superior e o lamentável corporativismo das nossas ordens. Colocado por Picuinhas às 08:46 2003/11/18
Colhendo tempestades
O PROJECTO respondeu ao meu desafio, o que lhe agradeço. Enquanto não tenho tempo para uma resposta condigna, aproveito para dizer que gostei dos argumentos, embora não concorde alguns deles nem, naturalmente, considere a minha argumentação "um mar de contradições". Também gostaria de deixar claro que, como é evidente, não é por "não quer[er] gastar mais dinheiro" nem por "acha uma[r] chatice ter de pagar mais", que me parecem de resto atitudes razoáveis, que ataquei a proposta de revogação do Decreto 73/73. Ataquei-a porque me parece mal fundamentada, e tornei pública a minha argumentação para que ela pudesse ser contraditada, talvez mesmo arrasada, como sugere o GANG (aparentemente o único blogue português cujo nome é um acrónimo recursivo). Tenho sempre a esperança de que da discussão nasça a luz. Tenho sempre a esperança de poder mudar de opinião face a bons argumentos.
Colocado por Picuinhas às 23:06 2003/11/17
Amor volat undique
Colocado por Picuinhas às 23:45 2003/11/16
Arquitectura por decreto? Alguns argumentos contra a revogação do Decreto 73/73
Pedro Jordão, do Epiderme, ao defender a revogação do Decreto 73/73, de 28 de Fevereiro, vem pôr o dedo na ferida:
Portugal é há muito o único país europeu em que não é preciso um arquitecto para assinar um projecto de arquitectura (o que vai, aliás, contra as directivas comunitárias). Em grande parte, porque não existe qualquer cultura urbanística e arquitectónica neste país, ao contrário da vizinha Espanha, por exemplo. A esmagadora maioria dos portugueses não sabe verdadeiramente o que é um arquitecto, o que faz. A ideia dominante (e aberrante) continua a ser a de uma espécie de engenheiro civil que não sabe fazer cálculos e que é mais caro e com mais manias, aquele tipo com pretensões a artista que embeleza os edifícios. Não sabem que as duas profissões, apesar de se encontrarem durante o processo, não têm nada a ver, nem na formação, nem na aplicação. Este problema é cultural, de raiz. Não se muda num ano ou dois. Não se altera por decreto. Ainda assim, é de esperar que a revogação do 73/73 venha a melhorar a qualidade da construção em Portugal, entregando-a (um pouco mais) a quem tem formação para a planear. Mas não acredito por um segundo que a situação se altere totalmente. Os lobbies de outras classes profissionais são demasiado fortes para que, como sucede no resto da Europa, a nova lei consagre o arquitecto como o profissional único na condução do projecto de arquitectura?De facto, a má arquitectura reinante não é um problema legal. Toda a discussão acerca da revogação do decreto, e em particular a petição entregue pela Ordem dos Arquitectos à Assembleia da República em Dezembro do ano passado, estão pejados de equívocos e de maus argumentos, destinados aparentemente a dar uma aparência de razoabilidade às pretensões dos arquitectos, que na realidade são puramente corporativas. O primeiro equívoco refere-se à existência de um suposto "direito à arquitectura". Não existe semelhante direito. O que há é indivíduos, que na sua liberdade pretendem erguer edifícios. E arquitectos, que pretendem exercer a sua profissão em igual liberdade. Ambas as liberdades estão perfeitamente cobertas pela legislação existente. Os clientes podem escolher o técnico que entenderem para projectar os seus edifícios, os arquitectos podem-se instalar onde entenderem, criar os seus ateliers, e podem trabalhar em liberdade com os seus clientes. Este conceito de "direito à arquitectura", que dá título à petição, é deixado convenientemente numa grande indefinição. O melhor que se consegue arranjar, no texto da petição, é: 8. Tudo isto acaba por ser prejudicial àquilo a que podemos chamar o "Direito à Arquitectura", decorrência lógica dos Direitos à Habitação e Urbanismo e ao Ambiente e Qualidade de Vida consagrados na Constituição da República Portuguesa. [...]Ora, o que consta no Artigo 65º da Constituição, sobre Habitação e Urbanismo, é pouco mais do que que "todos têm direito, para si e para a sua família, a uma habitação de dimensão adequada, em condições de higiene e conforto e que preserve a intimidade pessoal e a privacidade familiar". Não se vislumbra em quê estes direitos são contraditórios com o Decreto 73/73. Serão os arquitectos os únicos capazes de projectar "uma habitação de dimensão adequada, em condições de higiene e conforto e que preserve a intimidade pessoal e a privacidade familiar"? Claramente, não. E mesmo que fossem, decorria daqui a obrigação da assinatura de arquitecto? Será que faz sentido que um (suposto) direito seja imposto? O Artigo 66º da Constituição é mais taxativo. Diz ele que "todos têm direito a um ambiente de vida humano, sadio e ecologicamente equilibrado e o dever de o defender", e que, para isso, "incumbe ao Estado, por meio de organismos próprios e com o envolvimento e a participação dos cidadãos:" [...]Mas, será que destas incumbências decorre naturalmente que têm de ser arquitectos a assinar todos os projectos? Ou será o Decreto 73/73 incompatível com estas incumbências? Não se vê como. Repare-se que o meu argumento é contra a obrigatoriedade da assinatura dos arquitectos. Eu não tenho quaisquer dúvidas acerca das vantagens de recorrer aos serviços de um bom arquitecto. Fi-lo e voltarei a fazê-lo no futuro. As minhas razões para o ter feito são, no entanto, irrelevantes para esta discussão, com excepção da mais importante das razões: contratei arquitectos, e continuarei a contratá-los, porque quero, porque sou livre. Mas vale a pena desmontar os argumentos da petição: 1. "A arquitectura é um elemento fundamental da história, da cultura e do quadro de vida" de cada país, "que figura na vida quotidiana dos cidadãos como um dos modos essenciais de expressão artística e constitui o património de amanhã", afirma a Resolução do Conselho da União Europeia de 12 de Fevereiro de 2001. Porque "uma arquitectura de qualidade pode contribuir eficazmente para a coesão social, para a criação de emprego, para a promoção do turismo cultural e para o desenvolvimento económico regional", o Conselho apelou então aos Estados Membros no sentido de assegurar um melhor conhecimento e promoção da arquitectura e da concepção urbanística, bem como sensibilizar os cidadãos para a cultura arquitectónica, urbana e paisagística.Não deixa de ser curioso que o primeiro argumento da petição seja tão certeiro na sua justeza, e tão pouco apropriado para justificar a revogação do Decreto 73/73. Repare-se mais uma vez que "o Conselho apelou então aos Estados Membros no sentido de assegurar um melhor conhecimento e promoção da arquitectura e da concepção urbanística, bem como sensibilizar os cidadãos para a cultura arquitectónica, urbana e paisagística". Daqui não decorre de forma alguma a necessidade de obrigar à assinatura de arquitectos, nem tão pouco a necessidade de revogar o Decreto 73/73. Porque a fraca qualidade arquitectónica da maioria das edificações portuguesas decorre de escolhas livres dos clientes. Eu não gosto dessas escolhas, mas quem sou eu para impor o meu gosto aos outros? Quem são os arquitectos para se erigirem em padrões do bom gosto? Não, dizem eles, não é uma questão de gosto: é uma questão técnica, pois o arquitecto é especializado em conceber espaços, questões estéticas e de gosto à parte. Seja. Mas será que daí decorre, mais uma vez, a necessidade de revogar o Decreto 73/73? De modo algum! Há regulamentos mínimos relativamente às edificações, aos seus espaços, que devem ser cumpridos. É irrelevante se é um arquitecto ou um engenheiro, ou quem quer que seja, a cumprir o regulamento. Tem é de ser cumprido. 2. À importância social da Arquitectura, praticada por cada vez mais profissionais, correspondeu por parte do Estado Português o reconhecimento da sua importância jurídica, através do estabelecimento das regras básicas de acesso e exercício da profissão, consagradas no Estatuto da Ordem dos Arquitectos (DL 176/98, de 3 de Julho). Neste diploma estão definidas competências disciplinares que permitem actuar contra os arquitectos que não respeitem os seus deveres deontólogicos e profissionais.Não se percebe. Que objectivos legais são comprometidos? 4. Compreende-se a baixa da fasquia de qualidade no contexto de então: pressão populacional, êxodo rural, crescimento das áreas metropolitanas de Lisboa e Porto e reduzido número de arquitectos (em 69, eram pouco mais de 500 os inscritos no então Sindicato Nacional dos Arquitectos). Mas 29 anos volvidos a carência de profissionais qualificados foi ultrapassada. Existem hoje em Portugal mais de 10.000 cidadãos inscritos na Ordem dos Arquitectos, enquanto outros tantos frequentam licenciaturas reconhecidas, abertas num considerável número de instituições de ensino superior, públicas e privadas.Que tem o número de arquitectos a ver com isto? Será que o "direito à arquitectura" é, na realidade, um direito a ser protegido por via da lei, uma forma de garantir emprego aos arquitectos? É abusivo tentar justificar a assinatura de arquitecto através do reduzido número de arquitectos existentes então. De facto, o Artigo 6º do Decreto 73/73 refere um regime transitório enquanto não houver técnicos qualificados em número suficiente, mas que é aplicado de forma igual a todos os técnicos definidos nos pontos anteriores, i.e., a arquitectos, engenheiros, etc. 5. Acresce que o exercício profissional da Arquitectura está regulado por Directiva Comunitária (Directiva 85/384, de 10 de Junho de 1985), que determina que "a criação arquitectónica, a qualidade das construções, a sua inserção harmoniosa no ambiente circundante, o respeito das paisagens naturais e urbanas bem como do património colectivo e privado são do interesse público." Tal traduz-se numa exigência de regulação criteriosa, a nível comunitário, das necessidades de formação, envolvendo um conjunto de disciplinas exaustivamente definidas na Directiva, num quadro de estudos superiores de duração nunca inferior a 5 anos.A leitura desta directiva é muito educativa, pois revela bem o nefasto espírito de uniformização por determinação central de que enferma a União Europeia: "Considerando que os sistemas de formação dos profissionais que exercem actividades no domínio da arquitectura são actualmente muito diversificados; que é, no entanto, conveniente prever uma convergência das formações que conduzem ao exercício de tais actividades com o título profissional de arquitecto [...]". Mas adiante. Que diz esta directiva acerca do exercício da arquitectura? Diz, por exemplo, o seguinte: Considerando que, na maioria dos Estados-membros, as actividades do domínio da arquitectura são exercidas, de direito ou de facto, por pessoas que possuem o título de arquitecto, acompanhado ou não de outro título, sem que essas pessoas beneficiem por isso de um monopólio do exercício dessas actividades, salvo disposições legislativas em contrário; que as actividades supracitadas, ou algumas delas, podem igualmente ser exercidas por outros profissionais, nomeadamente, engenheiros que tenham recebido uma formação específica no domínio da construção ou da arte de construir;A legislação propriamente dita, em particular o Artigo 2º, deixa claro que se trata de uma legislação que tem como objectivo facilitar em cada estado o exercício da profissão por parte de cidadãos de outros estados da União Europeia: Cada Estado-membro reconhecerá os diplomas, certificados e outros títulos obtidos mediante uma formação que satisfaça os requisitos dos artigos 3º e 4º e emitidos aos nacionais dos Estados-membros pelos outros Estados-membros, atribuindo-lhes no seu territótio, (SIC! território,) no que se refere ao acesso às actividades referidas no artigo 1º e ao exercício destas com o título profissional de arquitecto, nas condições previstas no nº1 do artigo 23º, o mesmo efeito que aos diplomas, certificados e outros títulos por ele emitidos.Ou seja, não se pretende aqui de forma alguma, e tanto quanto percebi, estabelecer critérios uniformes a nível europeu acerca de quem pode assinar projectos (a versão inglesa da legislação é mais clara). 6. É certo que a obtenção de qualificação académica, só por si, não determinará a qualidade da Arquitectura, que carece de muita prática, espírito crítico, experiência, criatividade, pesquisa e avaliação. Mas sem formação adequada é impossível fazer face à complexidade crescente e à responsabilidade social inerente a esta actividade. Seria impensável, por exemplo, que aviões fossem conduzidos sem ser por pilotos, que pontes fossem calculadas sem ser por engenheiros, ou operações cirúrgicas fossem realizadas sem ser por médicos. A segurança e saúde do nosso tecido urbano não são menos importantes que as de cada um dos cidadãos. Uma formação adequada e a sujeição a regras profissionais e deontológicas comuns, através de um associação pública, são meios de garantir o mínimo de qualidade nos serviços arquitectónicos prestados.Este ponto começa por uma evidência. Se é verdade que há muita edificação em Portugal que não merece ser considerada como resultado do exercício da arquitectura, e que muitas dessas edificações não têm assinatura de arquitecto, é inegável também que existe uma enorme quantidade de obra de arquitectos que, em rigor, também não merece ser classificada de arquitectura, tão má a sua qualidade. Apetece-me citar em segunda mão José Augusto França, citado num artigo de Luísa Botinas intitulado "Da construção à arquitectura", no Diário de Notícias de 22 de Dezembro de 2002: No domínio da arquitectura, a palavra [mamarracho] pode ser empregue porque muitos mamarrachos se têm edificado, como é inevitável, por incúria de várias câmaras municipais e também por falta de talento de muitos arquitectos e de gosto da maior parte dos clientes.Porque a verdade é que, em última análise, o cliente é que determina o que uma obra será, pois pode sempre escolher o projectista que entender, e é bom que assim seja. A revogação do Decreto 73/73 irá redundar, provavelmente, num enorme acréscimo de clientela nos piores arquitectos, naqueles que fazem rigorosamente o que os clientes querem, e que de arquitectura se limitam a ostentar um diploma. Não. De facto não há nenhuma esperança em que a qualidade arquitectónica em Portugal melhore por decreto. O que acontecerá, isso sim, é que o exercício do mau projecto mudará de mãos por força da lei. Concentrar-se-á nas mão daqueles que a Ordem dos Arquitectos defende. Mas mesmo que houvesse alguma esperança de aumento da qualidade arquitectónica, tal nunca seria admissível, pois constituiria uma violação a um direito elementar dos portugueses: o direito à liberdade, o direito a serem livres de ter mau gosto. A parte mais falaciosa do argumento encontra-se um pouco mais à frente, quando se tenta fazer um paralelo entre o exercício da arquitectura, naquilo que tem de específico e que o exercício da engenharia civil, por exemplo, não envolve, com a pilotagem, a construção de pontes ou as operações cirúrgicas. Há razões fortes para regulamentar o exercício dessas actividades. São actividades onde a falha de quem as exerce tem consequências tão dramáticas que se justifica a intervenção a priori, restringindo o seu exercício a quem tenha tenha dado provas de as saber exercer bem e com segurança. A presunção, numa democracia liberal, é a de que a liberdade dos indivíduos só deve ser limitada se houver fortes razões para isso. Só se restringe o exercício de uma actividade se, do seu mau exercício, resultarem danos irreparáveis ou, pelo menos, tão grandes que se justifique essa restrição, que não pretende eliminar a os acidentes ou as más práticas, mas simplesmente reduzir a sua probabilidade a níveis aceitáveis, dadas as suas potenciais consequências. Com a revogação do Decreto 73/73 está-se a tentar limitar os estragos em quê, de tão grave? Não se trata da segurança das edificações (estrutura, ar condicionado, incêndios, etc.), onde se mete pelos olhos dentro que um engenheiro civil tem tantas ou melhores competências que um arquitecto. Trata-se, isso sim, daquilo que é específico da arquitectura. Mas a má prática daquilo que é específico da arquitectura pode levar a consequências tão graves como as da má prática da pilotagem, da construção de pontes ou da cirurgia? A resposta é um claro e enfático não. 7. A manutenção do regime transitório consagrado pelo decreto 73/73 viola frontalmente a Directiva 85/384 e o DL 176/98 ( Estatuto da Ordem dos Arquitectos ). Dificulta ainda a concretização do imperativo constitucional relativo às responsabilidades do Estado na protecção do ambiente e do património. E impede o exercício da profissão de arquitecto num ambiente de concorrência leal.Quanto aos primeiros pontos, relativos à directiva da União Europeia e ao Estatuto da Ordem dos Arquitectos, foram desmontados mais atrás. A questão da protecção do ambiente e do património foi também tratada, embora acrescente que não se vislumbra relação desta questão com o ambiente, e que em relação ao património, existem entidades encarregues de garantir a sua preservação, ou não adulteração, tal como o IPPAR. Eis-nos, pois, chegados à demagogia mais completa. Segundo a Ordem dos Arquitectos, o Decreto 73/73 "impede o exercício da profissão de arquitecto num ambiente de concorrência leal". Como assim? Que concorrência desleal é esta? Engenheiros a assinarem projectos? O problema é, justamente, o oposto: o Decreto 73/73 garante uma concorrência que desaparecerá caso seja revogado! O objectivo da petição é este. Não é aumentar a concorrência, mas reduzi-la. É uma petição claramente corporativista. Esta petição é demagógica e corporativista, portanto. A defesa da arquitectura em Portugal não se faz com medidas proteccionistas. Faz-se com a educação das pessoas para a boa arquitectura, com a demonstração das suas vantagens, faz-se pela competência e pela abertura ao cliente. Faz-se com o cliente, e não contra ele. Faz-se seduzindo o cliente, e não violentando-o. Colocado por Picuinhas às 23:20 |
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