2003-10-25

A democrática Coreia do Norte Uma recomendação a Bernardino Soares: leia este artigo.
Mais uma vez o muro Uma sessão de emergência da Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou há dias uma medida contra construção do muro de protecção de Israel. Foi um erro. É preciso separar a construção do muro em si, que é triste mas necessária, do seu traçado, que se prepara para ultrapassar as fronteiras de 1967. Aglomerar as duas questões numa só e votá-las em bloco é um terrível erro. A separação física das duas comunidades é hoje uma necessidade, sendo fundamental que se restrinja às fronteiras de 1967 ou que, a ter desvios de forma a incluir colonatos israelitas, esses desvios sejam compensados com território do lado Israelita. Têm razão todos os que dizem que o muro será uma fronteira de facto. Isso não seria necessariamente mau, se o traçado fosse aceitável. Todos os esforços deveriam ir nesse sentido, de garantir um traçado que possa corresponder à futura fronteira entre os dois estados. Todos os esforços contra o muro em si são demagógicos, pois não reconhecem a evidente necessidade de separação entre os dois povos. Essa separação não será eterna, evidentemente. O muro acabará por cair. Mas a sua queda não será como a queda do muro de Berlim, ao contrário do que Nuno Pacheco escreve em editorial do Público: "Os comunistas leste-alemães, no antigo protectorado soviético, também cuidaram de se resguardar com um muro". O muro de Berlim foi construído pelo Leste não para o resguardar, mas para evitar as fugas de cidadãos de Leste para Oeste. Pelo contrário, o novo muro está a ser construído por Israel para evitar a entrada de terroristas. Além disso, o muro de Berlim separou um único povo, o novo muro separará, grosso modo, dois povos que aprenderam a odiar-se.
O que diz José Goulão De novo na revista Manifesto, José Goulão dedica-se a apresentar a sua teoria sobre a guerra contra o terrorismo. De uma forma inteligente, apresenta factos e factóides, junto com insinuações subtis, destinadas a fazer com que o leitor pense construir por si a teoria da conspiração que na realidade lhe está a ser inculcada pelo autor. A primeira insinuação tem a ver com as energias alternativas:
A "guerra ao terrorismo" reforçou o poder imperial militar e político sobre os recursos energéticos do planeta, situação determinante para as relações no Mundo, enquanto a Ciência não encontrar alternativas aos combustíveis fósseis. Uma área de atraso evidente - e intrigante - quando em tantas outras os progressos são exaltantes.
Note-se bem que José Goulão não afirma nada de mais. Diz apenas que é "intrigante". Mas intrigante porquê? O objectivo de José Goulão é claro. Destina-se a levar o leitor a concluir, erroneamente, que o atraso resulta da vontade dos EUA de manter o mundo dependente do petróleo. A sugestão não faz qualquer sentido. Os EUA têm todo o interesse em aceder a formas de energia mais baratas ou a fornecimentos alternativos de petróleo. Acontece simplesmente que não é fácil. Na ciência como na técnica há mundo de aleatório na forma como o conhecimento avança.

Outra insinuação tem a ver com a altura em que ocorreu a primeira guerra do golfo:
A invasão do Kuwait, estranhamente "colada" ao fim da guerra Irão-Iraque, a um período muito alto do movimento popular palestiniano contra a ocupação israelita (Intifada - a revolta das pedras) e ao desmoronamento da União Soviética, proporcionou a maior coligação militar de sempre, sob liderança dos Estados Unidos e a bandeira da ONU, a afirmação de uma única superpotência no contexto mundial e o enfraquecimento irreversível do regime de Saddam Hussein.
Repare-se no "estranhamente 'colada'". Que quererá José Goulão dizer com isto? Provavelmente que a invasão do Koweit foi, de alguma forma, provocada pelos próprios EUA, de forma a tirarem todas as vantagens apontadas.

Mais à frente, José Goulão justifica as sanções e os ataques dos EUA e do Reino Unido ao Iraque, entre a primeira e a segunda guerra do golfo, da seguinte forma:
Durante a década de 90, na falta de uma oposição credível ao regime de Bagdade e perante o receio norte-americano de que a Saddam sucedesse um quadro político e estratégico menos controlável, a opção por um regime iraquiano enfraquecido militarmente, impedido de exercer a soberania sobre a totalidade do território, tornou-se um vector da política externa dos Estados Unidos.
A afirmação é contraditória, pois reconhece a inexistência de uma oposição credível, mas afirma que os EUA receavam que a Saddam sucedesse um quadro político e estratégico "menos controlável". Não se percebe de onde vinha tal "receio", não havendo uma oposição credível. Talvez José Goulão pretenda dizer que não foi do interesse dos EUA derrubar Saddam no final da primeira guerra do golfo, o que teria levado inevitavelmente a uma mudança de regime. Mas, dado que José Goulão se opôs à segunda guerra do golfo, não se percebe como pode criticar o não derrube de Saddam 10 anos antes, sobretudo quando se opôs também à primeira guerra do golfo. Mas admito que não. Que José Goulão não queira dizer nada disto. Mesmo assim, é notável a ausência de qualquer referência à ameaça que Saddam representava para os países vizinhos, a existência, comprovada pelos inspectores da ONU, de armamento de destruição em massa, etc.

Segue-se uma explicação para a guerra ao terrorismo não ter (supostamente) produzido frutos:
A "guerra contra o terrorismo" colocou dois países, Afeganistão e Iraque, sob a liderança político-militar norte-americana; não conduziu à captura dos alegados cabecilhas terroristas, Bin Laden e Saddam Hussein [note-se bem que bin Laden é apenas "alegado" cabecilha terrorista]; não desmantelou qualquer organização terrorista; não travou, antes pelo contrário, os atentados terroristas. O clima caracterizado pela insegurança e pelas medidas de excepção, nos Estados Unidos e em regiões mais sensíveis do Mundo, mantém-se. A "guerra contra o terrorismo" provocou, até ao momento, uma alteração de fundo das relações internacionais e do contexto estratégico no Médio Oriente e na Ásia Central. Todas as mudanças são favoráveis ao domínio norte-americano sobre rotas e recursos naturais estratégicos.
Tudo encaixa. Os EUA beneficiaram com o terrorismo. Os EUA não capturaram bin Laden nem desmantelaram a Al Qaeda. A conclusão, sugerida apenas por José Goulão, parece óbvia: foram os EUA os instigadores do terrorismo da Al-Qaeda. A guerra ao terrorismo é uma cuidadosa encenação. Talvez bin Laden esteja escondido na Casa Branca e Saddam no Pentágono.

Acerca do detestável regime Arábia Saudita, diz que:
Seria ingenuidade admitir que os sauditas vivem com maior liberdade ou dignidade sob a monarquia waahbita do que os iraquianos viviam sob o regime de Saddam Hussein.
Centenas de milhares de mortos deram voltas nas valas comuns em que estão enterrados quando José Goulão escreveu estas palavras.

Segue-se uma explicação adicional para as sanções ao Iraque:
Ao assumirem o poder em Bagdade, os Estados Unidos apropriaram-se de reservas petrolíferas alternativas às sauditas - mantidas praticamente incólumes durante mais de dez anos - [...]
Como habitualmente, o segredo está nos pormenores. Neste caso é a sugestão subliminar de que as sanções económicas ao Iraque tiveram como objectivo, ou pelo menos como um dos objectivos, preservar o seu petróleo para o posterior saque. Mas, é claro, algo deve ter corrido mal com a apropriação do petróleo, pois parece que a intervenção irá custar muito dinheiro aos EUA.

E fico-me por aqui. Recomendo que comprem a Manifesto e a leiam. Aprende-se muito...
Fernando Nobre O presidente da meritória Assistência Médica Internacional não muda. O seu trabalho humanitário é acompanhado de uma ideologia cega. Lembro-me de o ouvir na televisão, aquando do ataque dos EUA contra os Talibã e a Al-Qaeda, dizer que era criminoso os americanos atirarem rações de combate dos aviões. A razão era simples: as embalagens eram amarelas e, segundo ele, confundiam-se com os explosivos não-detonados das bombas de fragmentação. Passou o tempo e, provavelmente à falta de algum acidente que justificasse a acusação de então, Fernando Nobre descobriu uma outra razão para o lançamento de rações de combate ser perverso:
Nunca me esquecerei do dia 7 de Outubro de 2001, no Afeganistão: aviões militares lançaram, em dois lugares diferentes, bombas e rações de combate. As bombas afugentavam as pessoas de um lugar, as rações atraíam as pessoas para outro lugar determinado.
Revista Manifesto

2003-10-24

Viver mata Deixar de viver reduz os riscos de doenças cardiovasculares e pulmonares mortais.
Benvindo? Há por aí muitas instituições que nas suas páginas na Internet me sugerem que seja "Benvindo". Mas eu sou Manuel, e estou muito feliz com o meu nome. Outras páginas anunciam-me estranhos pratos. A livraria Almedina, por exemplo, anuncia-me o seu "Benvindo à almedina.net!", como um qualquer restaurante me anunciaria o seu "Bife à Café". Estará a Almedina a diversificar o seu negócio? A dedicar-se à restauração? À antropofagia?

Bem-vindos ao mundo da iliteracia.
Catalaxia A propósito do lançamento do livro "É Difícil Ser Liberal em Portugal", de Carlos de Abreu Amorim, o Cataláxia escreve uma das melhores entradas sobre liberalismo dos últimos tempos. Não percam.

2003-10-22

Apertos de mão Os efeitos perversos do aperto de mão, no Sudão:
During September 2003, mass hysteria spread through Khartoum, the capital of Sudan, which was ultimately quelled by police intervention and statements made by the health minister. The panic was caused by rumors of foreigners roaming the city and shaking men's hands, making their penises disappear.
(Via MEMRI.)
Greve? Cadeados em portas. Magotes de estudantes insultando colegas que não concordam com as razões ou a forma do protesto. Conivência de direcções escolares, que mantêm estabelecimentos escolares fechados o tempo suficiente para impedir o funcionamento das primeiras aulas e dar a sensação de que o dia seria de folga. Docentes, funcionários e alunos que aproveitam a deixa para ir à sua vida, apesar das portas finalmente abertas. Greve? Não, palhaçada. Estudantes imaturos? Não. Maiores e que como tal deveriam ser tratados.

2003-10-19

Discriminações Não se pode logicamente considerar que homens e mulheres têm características inatas diferentes ("se as mulheres tivessem o poder...") e simultaneamente assumir que a distribuição dos sexos não-paritária nas várias actividades humanas decorre necessariamente de discriminação ou de determinação social.

2003-10-18

Resolução 1511 Pouco menos de um ano depois da já famosa resolução 1441, foi hoje aprovada a resolução 1511 sobre o Iraque. São excelentes notícias. Alguns extractos da resolução:
6. Calls upon the Authority, in this context, to return governing responsibilities and authorities to the people of Iraq as soon as practicable and requests the Authority, in cooperation as appropriate with the Governing Council and the Secretary-General, to report to the Council on the progress being made;

7. Invites the Governing Council to provide to the Security Council, for its review, no later than 15 December 2003, in cooperation with the Authority and, as circumstances permit, the Special Representative of the Secretary-General, a timetable and a programme for the drafting of a new constitution for Iraq and for the holding of democratic elections under that constitution;

[...]

13. Determines that the provision of security and stability is essential to the successful completion of the political process as outlined in paragraph 7 above and to the ability of the United Nations to contribute effectively to that process and the implementation of resolution 1483 (2003), and authorizes a multinational force under unified command to take all necessary measures to contribute to the maintenance of security and stability in Iraq, including for the purpose of ensuring necessary conditions for the implementation of the timetable and programme as well as to contribute to the security of the United Nations Assistance Mission for Iraq, the Governing Council of Iraq and other institutions of the Iraqi interim administration, and key humanitarian and economic infrastructure;

14. Urges Member States to contribute assistance under this United Nations mandate, including military forces, to the multinational force referred to in paragraph 13 above;

[...]

20. Appeals to Member States and the international financial institutions to strengthen their efforts to assist the people of Iraq in the reconstruction and development of their economy, and urges those institutions to take immediate steps to provide their full range of loans and other financial assistance to Iraq, working with the Governing Council and appropriate Iraqi ministries;

2003-10-17

Lies, Damn Lies, and Statistics É o título de um livro de Michael Wheeler. Não o li, embora me tenha sido recomendado. O título, no entanto, é perfeito, e encaixa como um luva na notícia de primeira página do Público de hoje: "Um quinto da população portuguesa vive na pobreza". O artigo reza assim:
A pobreza em Portugal estacionou. Embora os bairros de barracas tendam a desaparecer da paisagem nacional, poucas alterações houve no perfil da pobreza e o fenómeno está longe de ser erradicado: um em cada cinco portugueses (cerca de 21 por cento da população) é pobre e os idosos pensionistas continuam a ser o grosso do problema.
Ao lado, numa coluna, esclarece-se que "a taxa de pobreza relativa - número de pessoas que vivem com rendimentos mensais abaixo dos 60 por cento relativamente à média nacional - era de 21 por cento". Mais à frente afirma-se que "cerca de 21 por cento dos portugueses têm um rendimento inferior ao limiar de pobreza (cerca de 350 euros), seis pontos mais do que a média europeia de pobreza (15 por cento), indicam os dados mais recentes do Eurostat (referentes a 2000) publicados este ano". Ou seja, é claro que todo o artigo se baseia numa medida mais que duvidosa de pobreza. É que esta taxa de pobreza, relativa como é, manter-se-ia inalterada se todos os rendimentos em Portugal fossem duplicados ou mesmo decuplicados. Aliás, manter-se-ia se todos os rendimentos em Portugal sofressem aumentos ou diminuições percentuais uniformes. Não é honesto escrever artigos como os do Público de hoje, pois a pobreza não se pode medir (só) assim.

2003-10-16

2003-10-15

Flores 13

"Cedros-do-mato sobre musgão", Flores, Agosto de 2003

2003-10-14

O que eu queria ter dito sobre as propinas Está tudo nos artigos de Mário Pinto e de Rui Verde no Público de ontem. Tiraram-me as palavras da boca.

2003-10-13

Traduções apressadas O Público traduziu um artigo pouco interessante de Ralf Dahrendorf. A versão original do artigo pode ser encontrada no The Straits Times, de Singapura. A comparação entre os dois mostra até que ponto as traduções são negligenciadas nos nosso jornais. Um só exemplo: "those who could, left the Soviet zone and settled in the West; those who could not, faced the sullen existence of subjects rather than citizens" transformou-se em "quem pôde abandonou a zona soviética e instalou-se na parte ocidental, aqueles que não conseguiam enfrentar a existência sombria de serem sujeitos em vez de cidadãos". Ou seja, "súbditos" transformou-se em "sujeitos"...

2003-10-12

De novo a ciência Para os interessados nas "controvérsias científicas", ficam duas sugestões. A primeira é um debate na Livraria Almedina, na próxima sexta-feira, dia 17 de Novembro, às 19h, onde se procurará responder à pergunta "Há Filosofia Anticientífica?". Os participantes são Jorge Dias de Deus, Guilherme Valente e João Caraça. A segunda é uma conferência de Jean-Michel Berthelot, intitulada "Débats et Controverses Scientifiques", que terá lugar no ISCTE às 18h do dia 28 de Outubro.
Céu

A criança olha
Para o céu azul.
Levanta a mãozinha.
Quer tocar o céu.

Não sente a criança
Que o céu é ilusão:
Crê que o não alcança,
Quando o tem na mão.

Manuel Bandeira

2003-10-10

Hans Blix Vale a pena ler a entrevista de Hans Blix ao Le Monde. A sensatez usual:
A la lumière du rapport de l'ISG, comment jugez-vous la position de MM. Bush et Blair ?

Il me semble qu'ils sont embarrassés par le fait qu'il n'existe toujours pas de preuves de l'existence d'ADM en Irak. Il est possible d'affirmer que l'Irak serait devenu, dans un certain nombre d'années, une menace. Mais le régime ne pouvait pas agir à sa guise, en raison des inspections de l'ONU. Les Etats-Unis affirment qu'ils avaient le droit de mener une guerre préventive, mais sur la base de quoi ? Je ne leur reproche cependant pas d'avoir été de mauvaise foi. Ils ne savaient pas tout.

Croyez-vous que M. Bush et M. Blair aient menti ?

Non, le mensonge implique la conscience. On peut leur reprocher d'avoir déformé ou surinterprété les faits, pas d'avoir menti.
Errar Há uns tempos, numa conversa com um amigo, dei a minha opinião acerca de um decisão importante para ele. Ficou perplexo: aquilo que eu opinava ser uma má ideia era justamente aquilo que eu tinha feito, quando numa situação equivalente à dele. Mas a verdade é que errar não retira a autoridade a ninguém. Aliás, o erro confere a autoridade da experiência. É a persistência no erro que a retira.
Os abraços a Paulo Pedroso O caso interessa-me pouco, confesso. Se o refiro é apenas porque algumas críticas à forma calorosa como Paulo Pedroso foi recebido pelos dirigentes do PS me parecem exageradas. É evidente que o PS, enquanto partido, não se deve pronunciar acerca do caso, muito menos como o fez no passado, com acusações de uma cabala contra o PS. Mas daí até sugerir que os dirigentes do PS se deveriam abster de receber com alegria e emoção um amigo libertado da prisão, vai um longo passo. É da natureza humana que se criem amigos junto daqueles com quem trabalhamos todos os dias. E um amigo não se abandona.

2003-10-09

Uma tolice? Francisco Sarsfield Cabral escreve no DN sobre a dimensão do estado. Diz ele que
O «Estado mínimo» é uma tolice. Quanto mais mercado, mais Estado é preciso para o regular, ao contrário do que alguns liberais ainda pensam. Repare-se na implacável justiça dos Estados Unidos, país do mercado, sempre que é posta em causa a sã concorrência.
Naturalmente que todas as afirmações simplistas como dizer que é preciso um "estado mínimo" ou que é necessário "mais estado" são tolas se tomadas à letra. Mas todos sabemos que o "estado mínimo" dos liberais inclui naturalmente um bom sistema de justiça. "Mínimo", para um liberal, significa que o estado não actua como jogador no mercado, apenas como árbitro, e que como árbitro é simultaneamente implacável e discreto, actuando apenas onde é efectivamente necessário. Para apelidar esta posição de tola há que usar melhores argumentos.

2003-10-08

A demência dos calendários de avaliação universitários Chegou-me às mãos um relato que mostra bem uma das características mais estúpidas do sistema universitário português: a avaliação e seus calendários. Em Abril passado já me tinha referido a este assunto a respeito do ISCTE, pelo que não faço mais comentários. Limito-me a dizer que alterei todos os nomes e que o docente que escreve este relato lecciona as disciplinas A e B:

Muitas vezes o principal encontra-se nos detalhes. Durante este mês de Setembro o meu contacto com a secretaria e com os alunos revelou-se prolífico de detalhes surpreendentes. A exposição segue a habitual ordem cronológica.

-1 - O Prof. P, presidente do departamento, avisa-me da lista de alunos inscritos em época especial de exames, indicando-me que tenho um aluno, trabalhador estudante, inscrito em B e um aluno, dirigente associativo, inscrito em A. Porém, a inscrição deste dirigente associativo está "ainda condicional pois o processo não está formalizado a 100%, não tendo ainda data definitiva marcada, embora já se saiba que terá lugar de 1 a 6 de Setembro". Até aqui tudo perfeito.

0 - O Prof. P e o Prof. Q (coodenador da disciplina e director da licenciatura) sugerem que, como os alunos de A e de B são distintos, os exames podem realizar-se no mesmo dia. Tudo perfeito até aqui. A partir de agora é que surgem os contactos com a secretaria e os contactos com os alunos.

1 - O aluno de B contacta-me para marcar um horário de dúvidas comigo para a época especial de trabalhador estudante e para saber a data do exame. Marcamos uma data provisória, pois aguardo ainda o contacto do aluno de A. Porém, o aluno de A não me contacta, apesar de avisos na página da disciplina para o fazer.

2 - Tento confirmar na secretaria as inscrições dos alunos. O de B está correctamente inscrito (estudante trabalhador). O de A fez o pedido, mas a inscrição ainda não está válida, pois a secretaria ainda não recebeu uma acta da associação de estudantes (não percebi se para provar que é dirigente associativo, se para provar que no dia de um dos exame das épocas normais ele tinha estado impossibilitado de ir ao exame). A situação é pois a de ter um aluno inscrito em B e um outro "semi-inscrito" em A. Estamos na véspera do início da semana da época especial, a gestão de salas da instituição quer que eu marque os exames, mas não o posso fazer. A secretaria diz que o normal é os alunos contactarem os docentes para marcarem uma data de exame, que deve haver um acordo a respeito das datas.

3 - Apesar do aluno de A não me contactar, marco os dois exames para quinta-feira (mesmo local e hora), penúltimo dia da época especial, para dar tempo para o aluno de A me contactar e para a secretaria resolver a inscrição pendente deste aluno "fantasma".

4 - Durante a semana de Época Especial tenho:
  • uma tarde de horário de dúvidas com o aluno de B;
  • uma tarde a preparar o exame de B;
  • de esperar até à véspera por um contacto do dirigente associativo para saber se devo fazer o exame ou não;
  • de elaborar o exame de A de véspera, não vá o dirigente associativo aparecer...
  • uma tarde a vigiar o exame de B.
5 - Sobre o ponto 4 há a acrescentar que o aluno de A (dirigente associativo) não aparece e que o aluno de B (estudante trabalhador) quer desistir após uma hora de exame. Apesar de encorajado para continuar, entrega no fim do tempo um exame avaliado em seis valores.

6 - Depois desse exame, encontro durante o percurso para o gabinete um outro aluno, que nunca me tinha aparecido em nenhuma aula de B, mas que já me tinha surgido antes da 2ª época a dizer que só lhe faltava B para acabar o curso, que queria umas aulas de dúvidas para essa 2ª época e que tinha desistido do exame 30 minutos depois de o começar. Não me lembrava que ele tinha nessa altura prometido aparecer em época especial. Ora, eu acabo de sair da época especial de B (e supostamente também de A) há minutos e ele não apareceu! Esclareceu-se tudo em três frases:
- Oh professor, então em Dezembro lá estarei!
- Dezembro?!
- Sim, na época especial para estudantes finalistas!
7 - Entrego a pauta provisória de B na secretaria e assino a pauta final no mesmo dia. Porém, sempre com simpatia, fico a saber que:
  • afinal o aluno de A "não faltou";
  • que ele ainda tem a inscrição pendente (falta a tal acta);
  • que só quando estiver a situação regularizada é que me irá contactar para fazer o exame;
  • que o exame deve ser combinado para uma data que esteja compreendida numa janela temporal de 60 dias após a inscrição;
  • que ele pode sempre pedir outro exame de 60 em 60 dias!
  • que o que acabou de ocorrer foi a época especial para estudantes trabalhadores;
  • que a época especial para estudantes finalistas é em Dezembro;
  • que a época especial para dirigentes associativos é quando lhes apetecer, repetida de dois em dois meses, presumo que até obterem aprovação!
8 - Como é de suspeitar, as surpresas ainda não terminaram. O aluno de B envia-me uma mensagem a lamentar-se que realmente lhe correu mal o exame e a perguntar se não é possível fazer outro! Respondo que não há qualquer possibilidade legal de marcar mais avaliações este ano lectivo. Lembrei que houve em B:
  • um teste a meio do semestre ao qual faltou;
  • uma frequência, com repetição do primeiro teste onde obteve sete valores (logo, 3,5 valores no final);
  • um exame de 1ª época, com repetição dos dois testes, ao qual faltou;
  • um exame de 2ª época, com nova repetição dos dois testes, no qual obteve 3,0 valores;
  • uma época especial de trabalhador estudante, onde obteve 6,3 valores, o que o excluiu de aceder a uma oral.
A impossibilidade de marcar mais um exame é legal, mas acima de tudo é uma questão de igualdade de todos os alunos no acesso à avaliação.

9 - Não, ainda não terminou! Finalmente o aluno o dirigente associativo contacta-me: pede desculpa por nunca me ter dito nada (andei semanas às escuras, sem saber quando haveria um exame de um "fantasma semi-inscrito"!). Marcamos o exame. É para daqui a poucos dias (felizmente o exame já foi redigido para a outra vez).

10 - Na véspera, recebo uma mensagem do aluno de A, dirigente associativo. A secretaria contactou-o informando-o que afinal a inscrição não era válida, pois ainda não haviam decorrido 60 dias desde a última data de avaliação (que presumo que seja a data da 2ª época normal)!

Andámos mais de um mês com isto tudo e afinal a inscrição que não seria válida senão depois da chegada da tal acta da associação de estudantes... era impossível, pois o aluno nunca se poderia ter inscrito durante Setembro! O exame de A para o dirigente associativo nunca poderia pois ter coincidido com a época para o trabalhador estudante de B, que tem datas fixas. Desde o início que a secretaria laborava num erro.

Notas finais:

O estudante trabalhador que vai pedindo exames sucessivos frequentou praticamente todas as aulas de B ao longo de todo o semestre, sendo a entidade empregadora a empresa do pai. Pareceu-me sempre um aluno muito interessado, e é com pena que vejo o seu fraquíssimo desempenho no semestre, acreditando mesmo que o pico de trabalho só surgiu durante a época de exames, tal como ele afirma. A existência legal de certas inibições face à existência de graus de parentesco existe em tantas outras coisas: familiares a avaliar em concursos públicos, atestados médicos de médicos familiares, etc. Parece haver uma lacuna de legislação no caso dos estudantes trabalhadores. Mas este nem é o ponto mais relevante...

O aluno de A terminou a mensagem de anulação do exame do dia seguinte dizendo que lá para o meio de Outubro me irá contactar, pois nessa altura, seguindo a secretaria, já será possível pedir a época especial para dirigentes associativos. Uma espécie do hollywoodesco "I'll be back!". O finalista também já prometeu para Dezembro que "he'll be back"...

Termino com uma sugestão de alteração ao vasto articulado do estatuto da carreira docente universitária, no que respeita às funções do docente. Proponho um ponto único com algumas alíneas de regulamentação:

Artigo único

Ao docente universitário incumbem duas actividades: leccionar aulas e avaliar alunos. A primeira actividade deve desenrolar-se segundo os calendários da instituição, ocupando de 6 a 9 horas semanais. O docente tem o dever de permanecer na segunda actividade durante o tempo restante, segundo o seguinte articulado:
  • a) O docente deve permanentemente pensar na nota de cada aluno de uma forma personalizada, atendendo às características psico-sociológicas particulares de cada um.
  • b) Deve proceder a uma avaliação destas características e propor um método de avaliação específico a cada aluno, o qual deverá ser discutido com ele por forma a envolvê-lo no seu projecto didáctico específico.
  • c) O docente deve estar disponível para responder com um processo de avaliação ajustado aos dias que o aluno se sinta apto, certificando-se previamente que a existência do acto não acarretará consequências traumáticas ao aluno.
  • d) Para cada acto de avaliação acordado segundo c), o docente deve, nos horários de dúvidas associados, fazer resumos de toda a matéria da cadeira, garantindo igualdade de acesso aos conhecimentos a quem não teve disponibilidade para frequentar as aulas.
  • e) Deve ainda reiterar antes do início da prova que ela poderá ser repetida logo que o avaliando o deseje, a qualquer dia e hora, no mesmo local ou noutro espaço mais simpático, porventura com elementos naturais (como o mar ou um jardim) que contrabalancem e minorem o trauma da avaliação.
Em tudo tento encontrar um átomo de lógica, mesmo que polvilhada pelos muitos factores humanos. Mas há uma pergunta para a qual nem um átomo dela encontro: por que será que as três épocas especiais para os três estatutos de alunos (trabalhadores, finalistas e dirigentes associativos) não são coincidentes (mesmo que uma delas seja repetível de 2 em 2 meses)? Não é para responder...
"A globalização explicada aos jovens... e aos outros" Quem "explica" é José Jorge Letria, num livrinho com este título publicado há cerca de um ano pela Terramar. O livro passou despercebido, como acontece a quase todos os livros "para jovens". Sem mais comentário, seguem alguns extractos:
Uma coisa é hoje clara para praticamente toda a gente: a globalização, na sua vertente económica, tem contribuído substancialmente para tornar os ricos muito mais ricos e os pobres muito mais pobres [...]

O que torna a globalização condenável é justamente a circunstância de transformar a ganância e o lucro em valores absolutos, através de uma concepção económico-social que não deixa lugar para a solidariedade e não dá voz aos mais desfavorecidos, que são cada vez em maior número.

[Diálogo entre pai e filho:]

— Porque é que tu achas que isso
[os actos violentos durante as manifestações anti-globalização] acontece?

— Porque há organizações políticas que ficaram sem espaço nem expressão pública nos últimos anos e que aproveitam estas ocasiões para radicalizarem as suas formas de protesto.

— E o que é que tu achas que pode ser feito para evitar que isso aconteça?

— Não tenho uma resposta para essa pergunta, até porque estamos num período de transição da política tradicional para novas formas de fazer e organizar a vida política e ninguém sabe como irão ser essas formas nas próximas décadas. No fundo, estamos a viver uma quase revolução e, nas revoluções, há sempre excessos que só o tempo e o bom senso dos seres humanos permite moderar e corrigir.
[...]

[...]

[...] Entretanto, todo este debate ganhou uma nova dimensão depois dos atentados terroristas de 11 de Setembro.

— Porquê?

— Porque o próprio terrorismo se tornou global e transnacional, usando os meios da globalização para finaciar as suas acções. Eles, os terroristas, usaram a especulação em várias Bolsas para conseguirem dinheiro para acções cada vez mais destrutivas, imprevisíveis e assustadoras.
[...]

[...]

[...] Normalmente, o conceito e a palavra [globalização] são usados no seu sentido económico, valorizando a ideia de que há um mercado global cujas regras são impostas pelos mais poderosos e em relação ao qual os consumidores e os trabalhadores são meros elementos passivos, sendo que os trabalhadores dos países mais pobres nem consumidores podem ser, pois vivem, em muitos casos, com cerca de um euro por dia, o que equivale a dois cafés ou a uma sanduíche ou a pouco mais de um litro e meio de leite. Este mercado global ignora as fronteiras e as economias nacionais e expande-se por onde quer e como quer, despedindo trabalhadores, desmantelando e deslocalizando fábricas e empresas e semeando a insegurança social.

— Mas sempre houve tendência para que isso acontecesse, ou não houve?

— Tendência houve, mas não existiam condições de concretização.

— Porquê?

— Porque havia os regimes comunistas do Leste, e nesses mercados não entravam ou entravam muito pouco os produtos de outros países. Só com a queda do Muro de Berlim a situação começou a alterar-se, e também com a entrada da República Popular da China para a grande rede do comércio mundial, com o apoio dos Estados Unidos, que viram ali não só o maior mercado mundial, mas também o maior criador de produtos baratos para abastecer certos mercados.
Etc.

2003-10-07

Incompetências O "Romance da Raposa", de Aquilino Ribeiro, é provavelmente a melhor obra de literatura portuguesa escrita para crianças. Recordo-me bem de ouvir a história pela boca da minha mãe. A raposa Salta-Pocinhas "matreira, fagueira, lambisqueira" e as suas aventuras, marcaram-me para sempre.

Pouco depois de nascer o meu filho, e ainda bem longe da idade em que lhe poderia começar a contar a história, comprei, já não sei em que livraria, um exemplar de uma velha edição do "Romance da Raposa". Queria guardá-lo para lho ler logo que crescesse. Passados uns anos encontrei na Bertrand, sua editora original, uma nova edição do livro, agora impresso em bom papel e com as ilustrações no seu original a cores. Mais uma vez não resisti e comprei um exemplar.

Hoje decidi finalmente que era altura de ler o "Romance da Raposa" ao meu filho. Peguei na edição mais recente e comecei. A páginas tantas deparei-me com uma vírgula a mais, entre verbo e complemento. Estranhei, mas admiti que fosse erro meu e prossegui. Pouco depois surge outra gralha: "Quem [sic] nunca te faltaria a asinha de um frango para dar...". Era demais. Impossível. Conferi na edição mais antiga e concluí que a Bertrand conseguiu o feito notável de introduzir gralhas a eito numa reedição. Está verdadeiramente de parabéns. Só não sei se devolva o livro, se lhe faça um auto-de-fé na lareira, num dia frio de inverno, como fiz a uma péssima tradução de Goethe que tive a infelicidade de comprar.

Infelizmente não é caso único no que toca a literatura para crianças. Por exemplo, no "Primeiro Livro de Poesia", uma excelente selecção de poemas feita por Sophia de Mello Breyner Andresen, faltam versos em duas estrofes d'"A Rainha de Kachmir - Serenata de Hilário", de Gomes Leal.

Mas o pior caso, incompreensível para mim, é o livrinho "O Segredo do Rio", de Miguel Sousa Tavares. Não compreendo como pôde o autor publicar um texto tão mau. Alguns exemplos avulsos:
[...] havia sempre fruta fresca durante quase todo o ano.

As pessoas que moravam naquele lugar e na aldeia próxima bebiam daquela água, cozinhavam com ela e pescavam no rio e por isso todos tinham muito cuidado para não sujar o rio, deitando lixo ou outras coisas lá dentro.

De repente ouviu um grande barulho na água atrás de si e voltou-se ainda a tempo de ver um enorme peixe que dava um salto imenso fora de água, todo torcido como se fosse uma bailarina, e, depois de ficar um instante suspenso no ar, olhando tudo à roda, caiu outra vez dentro de água, com um grande estardalhaço, salpicando água até onde estava o rapaz.

Alimento-me de lagartos
[sic] do fundo do rio. [diz o peixe]
Ao fim de alguns parágrafos, armei-me de um lápis e comecei a "corrigir" o texto. Mas foi inútil. A certa altura o absurdo atinge níveis incríveis:
A vida no campo é assim: nos anos de abundância, quando chove muito e nas alturas certas, enchem-se os celeiros e as despensas de comida, todos ficam felizes e há festas nas aldeias a todo o tempo para celebrar as colheitas. Nos anos de seca, os prados ficam secos, a fruta apodrece nas árvores, a caça foge, e as pessoas andam tristes e às vezes passam fome. Tudo o que, mesmo assim, conseguiam produzir, vendiam para as cidades, para poderem comprar as outras coisas que precisavam, como roupa para os filhos e os remédios, para quando eles estivessem doentes. Assim, as pessoas das cidades, que têm sempre comida, julgam que no campo nunca falta nada de comer, mas não é verdade: os camponeses vendem o melhor que têm para a cidade e ficam com os restos e com o pior, que às vezes não lhes chega.
Irrecuperável.

2003-10-05

OMS ataca mortandade nas estradas “To date, road safety has received insufficient attention at the international and national levels [...] This has resulted in part from a lack of information on the magnitude of the problem and its preventability, a fatalistic approach to road crashes, and a lack of political responsibility” (via Lancet) São palavras de Kofi Annan na Assembleia Geral das Nações Unidas. Daí que a OMS tenha dedicado o dia 7 de Abril de 2004, dia mundial da saúde, à segurança nas estradas. Se o assunto o preocupa e quer deitar mãos à obra, apoie a Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados.

2003-10-03

O muito português sentido prático da vida Hoje de manhã fui levar o meu filho à escola. Estacionei a uns 50 metros da entrada, onde havia uma quantidade considerável de lugares. Ao atravessar a avenida, parámos na placa central, na passagem de peões, esperando pelo sinal verde. Instantes depois recebemos uma forte buzinadela, que o meu filho, com a altura dos seus cinco anos, recebeu em cheio nos tímpanos: uma senhora vinha deixar a sua filha e pretendia estacionar no passeio, sobre a passagem para peões, no local onde estávamos. Tentei explicar-lhe que não era razoável nem educado estacionar sobre o passeio, sobre a passagem de peões, buzinando-lhes, ainda por cima com tantos lugares disponíveis. Que eram já 9:00h, que tinha pressa, que os carros atrás do dela já estavam a buzinar por ela estar à espera que nós nos afastássemos. Insisti, falando dos perigos, do sossego a que temos direito, da lei, do exemplo para as crianças. Foi irredutível. Eu é que não tinha sentido prático da vida.

Somos um povo com um enorme sentido prático da vida, a que o já famoso relatório McKinsey chama "informalidade". O caso Martins da Cruz e Lynce mostra até que ponto vai este nosso sentido prático da vida.
Um ministro excepcional O ministro da Ciência e do Ensino Superior, depois de ter reduzido excepcionalmente em 10% o número de vagas no ensino superior, no que foi talvez a medida mais iliberal e estúpida deste governo, e que acompanhou de promessas de maior autonomia universitária para um futuro incerto, terá aparentemente aberto uma excepção a uma excepção para permitir que a filha do ministro dos Negócios Estrangeiros entrasse no curso de Medicina da Universidade Nova de Lisboa. A ser verdade, e tudo indica que o é, exige-se uma excepcionalmente rápida demissão de Pedro Lynce e todos os restantes envolvidos.