2003-02-28

Na secção de crítica a livros de ensaio do DN, Leonídio Paulo Ferreira escreve Contra um Mundo Cheio de Ideias Feitas, uma crítica a três livros de uma nova colecção "Ideias Feitas", da editora Inquérito. Um deles, "A América", apresentado como "o mais sólido" dos três livros, supostamente desmistifica algumas ideias feitas sobre os EUA. A crítica de Leonídeo Paulo Ferreira à segunda das desmistificações que seleccionou, "os EUA estão abertos aos emigrantes", reza assim:


Sobre a segunda tese, se é verdade que os Estados Unidos são o país que mais imigrantes recebe, também é certo que desde muito cedo (ainda no século XIX) começaram a surgir críticas à vinda de novos colonos, sobretudo católicos. Mais tarde, foram mesmo impostos limites à imigração de chineses e japoneses, vistos como o perigo amarelo, e hoje existe um sistema de quotas por país.


E pronto. Eis desmistificado o mito dos EUA abertos à imigração... Pena é não conhecer o livro, para saber se tamanho absurdo é responsabilidade da autora do livro, Hélène Harter, ou do autor da crítica. Será assim tão difícil de perceber que abertura não significa forçosamente que a entrada se faça sem qualquer controlo?
Vasco Pulido Valente e a ONU Excelente a coluna Faz de Conta, de Vasco Pulido Valente, no DN de hoje. Em poucas palavras diz o que é evidente mas poucos querem ver: a ONU não é nenhum "tribunal supremo, de que hoje depende o direito internacional e a paz no mundo", pelo contrário. É uma instituição onde estão representados inúmeros países não democráticos, onde os membros do Conselho de Segurança não reflectem a situação geoestratégica actual, e onde o Iraque preside à Conferência do Desarmamento...
Mas, por favor, deixem-nos em paz... Há uns anos largos que Lisboa e a maioria das cidades portuguesas se livraram de cartazes nas suas paredes. Infelizmente, há uma excepção, os cartazes do Bloco de Esquerda, herdeiro da velha tradição conspurcadora da esquerda portuguesa, que o MRPP em tempos erigiu em "arte". Acho muito bem que organizem manifestações contra a guerra e que organizem encontros na Aula Magna ou seja onde for. Mas, por favor, compreendam uma coisa elementar: a vossa liberdade termina onde começa a liberdade dos outros, onde começam os direitos dos outros. Temos todos direito a uma Lisboa livre de cartazes. Por isso, deixem-nos em paz! Cresçam.

2003-02-24

O comunismo está de volta. A luta continua. Em entrevista ao Diário de Notícias, Bernardino Soares, presidente do grupo parlamentar do PCP, revela a verdadeira face do comunismo. Alguns extractos:

DN: O PCP é um partido envelhecido?

BS: Não, aliás se nos lembrarmos que em 2002 entraram 1800 novos militantes, 40 por cento dos quais com menos de 30 anos, não podemos considerar que isso seja um partido envelhecido.

DN: Essa ideia pode ter menos a ver com o número de militantes e mais com a ideologia que está traduzida nos estatutos do partido. Concorda?

BS: Os estatutos do PCP não são de hoje. Mesmo assim, nós continuamos a assumir a nossa aspiração de construir uma sociedade diferente e isso tem de se reflectir nos estatutos.

Ou seja, o Partido Comunista continua a querer um revolução. Continua a desejar uma sociedade nova, sustentada num homem novo. As tentativas bárbaras de criar um homem novo e uma sociedade nova na URSS, na China, no Vietname, em Cuba, não convenceram os comunistas da total maldade da sua ideologia.

DN: Consideraria que na Coreia do Norte vigora um regime comunista?

BS: Temos falado nisso em vários congressos... julgo que o que caracteriza a questão do Coreia do Norte, neste momento, é a difícil apreensão do que se passa, de facto, naquele país.

DN: Difícil apreensão? Os dados que dispõe não são suficientes para poder dizer, por exemplo, se a Coreia do Norte é uma democracia?

BS: Tenho muitas reservas em relação à filtragem da informação feita pelas agências internacionais.

DN: Ao ponto de não poder dizer se o país é democrático?

BS: Sim. Tenho dúvidas que não seja uma democracia.

Que dizer? É verdadeiramente extraordinário. Há uns anos largos, logo após o 25 de Abril, ainda Bernardino Soares era uma criança e não havia sinais do desmoronamento da URSS, era esta a forma de responder dos comunistas. Problemas na URSS? Gulag? Abusos? Falta de democracia? Filas nos supermercados? Carros a cair de podres? Tudo invenções da "poderosa máquina de propaganda americana". A ideologia comunista é imune à realidade. Por isso é tão perigosa.

DN: Cuba, que é um caso que conhece melhor, serve de modelo ao PCP?

BS: Não creio que deva haver modelos, mas admito que em Cuba há uma intensa participação da população na vida política e que esse povo tem tido uma luta heróica contra os desígnios norte-americanos que o faz enfrentar um embargo de várias décadas, por vezes criminoso. E mesmo assim, consegue ajudar países menos desenvolvidos, como fazem em África. Esse esforço é de louvar.

DN: Louvaria também a liberdade de expressão?

BS: Aqui há uns tempos vi um líder da oposição dar uma entrevista, no seu pátio em Havana, a uma cadeia de televisão internacional, dizendo que não havia liberdade de expressão. O exemplo fala por si.

DN: E prisioneiros políticos, existem?

BS: Não tenho conhecimento.

DN: Nem lhe interessa ter?

BS: Com certeza que sim, mas também julgo que não há presos políticos em Cuba.

Seria simplesmente ridículo e trágico, se não fosse também perigoso. O comunismo "a sério" estará de volta? Será apenas o delírio de um jovem comunista mais papista que o papa? Ou será mais um indício da fraca memória da nossa sociedade relativamente aos crimes comunistas?

DN: Que significado dá hoje à queda do Muro de Berlim?

BS: Nós já criticámos o afastamento daquilo que julgamos dever ser a construção correcta do socialismo, sem a existência de classes dirigentes privilegiadas e a confusão entre o partido e o Estado. Mas não se pode ignorar que a existência de um campo socialista no século XX teve uma importância fundamental no desenvolvimento da humanidade, influenciando muitos avanços sociais.


Campo socialista... É discutível em que medida os avanços sociais, que existiram, se deveram ao socialismo democrático e à social democracia. Mas não se deveram de todo ao comunismo. O comunismo trouxe miséria, sofrimento e morte. Trouxe o totalitarismo, a ausência de democracia e a guerra.

Infelizmente os extremismos atrairão sempre uma franja da população. A liberdade é resultado de uma luta contínua. A luta contra o comunismo continua!

Bernardino Soares tentou, aparentemente, impedir a publicação desta entrevista. É provável que o Partido Comunista venha acusar o Diário de Notícias de manipulação das respostas ou, alternativamente, que tire a sua confiança política ao entrevistado. Espero sinceramente que isso aconteça. Mas o mal (?) está feito: trata-se de uma das primeiras manifestações de um fundamentalismo comunista que se tem mantido discreto durante a última década. Confirmam-se as suspeitas que surgiram quando Edgar Correia (um renovador!) voltou a falar às claras, no Público, de marxismo.
Susan Sontag a favor da guerra Seguem alguns excertos de um interessante artigo de Susan Sontag:


But opposition to the war is hardly confined [...] to one strand of the political spectrum. On the contrary: mobilized against this war are remnants of the left and the likes of Le Pen [...] on the right. The right is against immigrants. The left is against America. (Against the idea of America, that is. The hegemony of American popular culture in Europe could hardly be more total.)

On both the so-called left and the so-called right, identity-talk is on the rise. The anti-Americanism that is fueling the protest against the war has been growing in recent years in many of the nations of the New Europe, and is perhaps best understood as a displacement of the anxiety about this New Europe, which everyone has been told is a Good Thing and few dare question. Nations are communities that are always being imagined, reconceived, reasserted, against the pressure of a defining Other. The specter of a nation without borders, an infinitely porous nation, is bound to create anxiety. Europe needs its overbearing America.

[...]

It is not that Europe is weak. Far from it. It is that Europe, the Europe under construction since the Final Victory of Capitalism in 1989, is up to something else. Something which indeed renders obsolete most of the questions of justice -- indeed, all the moral questions. (What prevails, in their place, are questions of health, which may be conjoined with ecological concerns; but that is another matter.)

A Europe designed for spectacle, consumerism and hand wringing ... but haunted by the fear of national identities being swamped either by faceless multinational commercialism or by tides of alien immigrants from poor countries.

[...]

Not all violence is equally reprehensible; not all wars are equally unjust.

No forceful response to the violence of a state against peoples who are nominally its own citizens? (Which is what most "wars" are today. Not wars between states.) The principal instances of mass violence in the world today are those committed by governments within their own legally recognized borders. Can we really say there is no response to this? Is it acceptable that such slaughters be dismissed as civil wars, also known as "age-old ethnic hatreds." (After all, anti-Semitism was an old tradition in Europe; indeed, a good deal older than ancient Balkan hatreds. Would this have justified letting Hitler kill all the Jews on German territory?) Is it true that war never solved anything? (Ask a black American if he or she thinks our Civil War didn't solve anything.)

War is not simply a mistake, a failure to communicate. There is radical evil in the world, which is why there are just wars. And this is a just war. Even if it has been bungled.


Concordo com quase tudo. Só que estes extractos não se referem à crise do Iraque: foram retirados de um texto escrito há quatro ano, relativamente ao Kosovo...

Este achado de Susan Sontag estava no hilariante Best of the Web, do Opinion Journal, que recomendo.

2003-02-23

Há uns tempos, um amigo perguntava-me porque é que os EUA e seus aliados na crise do Iraque não tiravam mais partido das alegadas violações dos direitos humanos no Iraque para justificar a sua posição. Senti na observação a sugestão de que essas alegadas violações talvez não correspondessem à verdade, ou fossem grosseiramente exageradas, e por isso os governos tivessem relutância em usá-las como argumento contra o Iraque. Para que este tipo de dúvidas se dissipe, seguem alguma ligações à Amnistia Internacional, insuspeita de apoiar os EUA nesta crise, quer pelas suas (justas) críticas à pena de morte nesse país, quer pela sua (injusta) crítica à ameaça de uso da força no Iraque:
Affirmative Action ou Quotas? Interessantes as Notes & Comments da New Criterion de Fevereiro.
Gratidão Jiri Pehe, conselheiro político do ex-Presidente checo Vaclav Havel, no Público:
A França e a Alemanha não compreenderam que o apoio dos países candidatos aos Estados Unidos não é contra a "velha Europa". É apenas uma expressão de gratidão para com os EUA por terem ajudado a derrubar o comunismo e, mais recentemente, por apressarem o alargamento da NATO- apesar das objecções da Rússia -, numa altura em que a UE continuava a arrastar os pés em relação ao seu próprio alargamento.

Os pequenos Estados do centro da Europa que foram vítimas de agressão durante toda a sua história não podem ser censurados por acreditarem que os EUA continuam a ser o único país que lhes garante verdadeiramente a sua segurança. A União Europeia, apesar de falar muito, nunca chegou a desenvolver uma política de defesa comum.
Augusto Santos Silva continua:

Este equilíbrio traduz-se hoje pela exigência da continuação das inspecções e da pressão política e militar sobre o Iraque, e, sobretudo, por fazer depender uma qualquer intervenção da verificação concludente da existência e potencial uso de armas de destruição maciça e de real ameaça à paz, verificação feita no quadro das Nações Unidas.


Mas a verdade é que deve ser o Iraque a demonstrar que destruiu as armas de destruição em massa. Isso torna-se mais claro quando se lê a carta que o presidente da UNSCOM escreveu em Dezembro de 1998 ao Secretário Geral das Nações Unidas. Um pequeno extracto:

From the inception of the Commission's work in Iraq, in 1991, Iraq's cooperation has been limited. Iraq acknowledges that, in that year, it decided to limit disclosure for the Purpose of retaining certain prohibited weapons capabilities. Three main Iraqi policies ensued:

(a) its disclosure statements have never been complete;

(b) contrary to the requirement that destruction of prohibited capabilities be conducted under international supervision, Iraq undertook extensive, unilateral, secret destruction: and

(c) it also pursued a practice of concealment of proscribed items, including weapons.

This situation, created by Iraq, in particular through the inadequacy of its disclosures, has meant that the Commission has been obliged to undertake a kind and degree of forensic work which was never intended to be the case, The work of the verification of Iraq's disc1osure should have been far easier and been able to be undertaken far more quickly than has proven to be the case.

In addition, these circumstances have meant that, in spite of the years that have passed and the extensive work that has been undertaken, it has not been possible to verify Iraq's claims with respect to the nature and magnitude of its proscribed weapons programme and their current disposition.
Uma no cravo, outra na ferradura No Público de hoje (ontem), Augusto Santos Silva diz:

Dizermos, hoje, que estaremos contra qualquer intervenção em qualquer circunstância é dizer a Saddam que toleraríamos que expulsasse outra vez os inspectores e gaseasse outra vez o seu povo. Sem a pressão política internacional, que tem de conter, no limite, a ameaça do uso da força, ele não parará.

Estas duas ambiguidades podem e devem ser corrigidas. Na minha opinião, a grande maioria das pessoas que se manifestam hoje, de várias formas, contra a pulsão bélica de Bush e Blair estará disponível para apoiar uma posição política que procure evitar o desencadeamento de uma aventura imperial ilegítima e de consequências imprevisíveis, mantendo ao mesmo tempo fortíssima pressão internacional sobre a ditadura iraquiana. Mais: estará disponível para apoiar um verdadeiro combate às bases económicas, financeiras, políticas e militares do terrorismo mundial, esse que mostrou o seu rosto hediondo a 11 de Setembro de 2001.


É a quadratura do círculo. Por um lado, reconhece que sem "a ameaça do uso da força, ele [Saddam] não parará". Mas por outro, acusa os EUA e o Reino Unido de "pulsão bélica", de pretenderem desencadear "uma aventura imperial ilegítima e de consequências imprevisíveis", justamente porque ameaçam com o uso da força de uma forma credível. É verdadeiramente esquizofrénico.
"Tal como já estavam, as Comissões de Inquérito já pouco prestígio tinham. Ontem ficaram com menos." diz José Manuel Fernandes no Público de hoje, acerca do caso do Metro da Praça do Comércio. Desde que ouvi, da própria boca do Vice-Presidente do Grupo Parlamentar do PSD, que a criação de uma comissão para estudar o impacte da taxa de alcoolémia sobre a condução era inútil, pois a maioria parlamentar cozinharia a sua constituição de forma a garantir os resultados que desejava, que perdi toda a ingenuidade com que olhava os nossos parlamentares. Hoje, pelo menos no que ao parlamento diz respeito, sou essencialmente um cínico.

2003-02-22

Diz Vasco Graça Moura na "Os meus livros":


Este é outro aspecto que faz com que este livro ["Vai Pensamento"] ultrapasse o puro exercício intelectual ou plémico, porque Pacheco Pereira nos interpela também a partir de si mesmo e porque o faz mais num sentido anglo-saxónico do concreto e do empírico que, todavia, não perde nunca as sua referências conceptuais, do que num sentido, que eu caracterizaria como predominantemente "francês", de teorizar independentemente dos factos, ou para amoldar os factos à teoria formulada.


É isso mesmo. É por estas e por outras que Freitas do Amaral quer inglaterra fora da União Europeia. (Nesse caso, espero que Portugal também fique de fora, sinceramente.) Mas não há perigo de isso acontecer: a francofilia está moribunda e as novas gerações não só não sabem francês como o próprio país não os fascina. Só temos de esperar que as gerações se renovem. Basta paciência.
No mesmo número de "Os meus livros", Paulo Varela Gomes recomenda o melhor livro do ano sobre arte: "Arquitectura, Religião e Política em Portugal no Século XVII", de... Paulo Varela Gomes. Confesso que, na minha admiração pelo autor, e mesmo não tendo lido o livro, acredito piamente na recomendação e perdoo ao autor o auto-elogio despudorado...
Confesso: compro a "Os meus livros" sobretudo para ler a coluna de Paula Varela Gomes: Crónicas de um Pessimista. No número de Dezembro, que acabei de comprar, argumenta com desenvoltura acerca da suposta inexistência do comunismo, de que teria apenas existido uma versão oriental, deturpada. Paulo Varela Gomes é, sem dúvida alguma, uma das pessoas mais lúcidas que alguma vez conheci, apesar de politicamente eu estar bastante afastado das suas posições. Sempre foi um esquerdista livre. Nunca alinhou em unanimismos. Por isso mesmo, custa-me a crer que alinhe na forma de defesa mais conhecida do comunismo, e que é afirmar que nunca existiu na realidade. Jean-François Revel desmonsta estes argumentos com arte na sua "A Grande Parada". Será crível que o verdadeiro comunismo nunca tenha existido quando o comunismo soviético e chinês foram tidos como modelos por gerações de comunistas ocidentais? Ou eles estavam enganados também acerca disso?
Em Not in My Name, na Visão, Eduardo Lourenço diz:

É difícil conceber um cenário mais anacrónico e aberrante do que este, em vias de se converter, na praça pública – aos olhos de alguns europeus e de muitos americanos – em confronto entre uma Europa que não existe politicamente e uns Estados Unidos que existem superlativamente. Nem eles parecem saber quanto. Se o soubessem, não se mobilizariam para cruzadas absurdas, ofensivas da legalidade internacional de que os Estados Unidos são o pilar essencial e pleonástico, pois eles já estão onde querem chegar. E, antes de mais, na nossa querida e velha Europa, não só por lá terem desembarcado duas vezes em menos de meio século, para nos «salvar», mas por dentro, como objecto de admiração extasiada pelo que são como inventores e distribuidores dos «gadgets» míticos da nossa civilização. Ou, com mais propriedade, como suportes da mitologia dessa mesma civilização.


Sim. "Gadgets". Como o computador, por exemplo. Ou o transístor. Ou o circuito integrado. Ou o sequenciamento do genoma humano. Ou boa parte dos nosso fármacos. Ou a maior produção científica mundial. Tudo "gadgets" sem importância. Aliás, não li Eduardo Lourenço na Internet, usando o meu computador, cujas tecnologias nasceram quase todas do outro lado do atlântico.

Mais à frente:
Europeus e americanos fazem parte da mesma e única aventura colonizadora e imperialista ocidental, nós como desempregados dela à força, e eles, seus herdeiros ainda convencidos, e não sem sólidas razões (como foram em tempos as nossas) de que o género de vida que inventaram e o paradigma democrático que a sublima convêm ao mundo inteiro. Daí não viria mal ao mundo, se dessa vocação missionária e messiânica não tivessem passado à tentação demoníaca de a querer impor à força ao mundo inteiro. É aqui que aparece o antiamericanismo, que é só a clara e determinada recusa dessa pretensão. Americanos, sim, mas devagar...


Excelente questão. Se o paradigma democrático não convém ao mundo inteiro, porque vive Eduardo Lourenço no Ocidente? Porquê a imigração para o Ocidente? A declaração universal dos direitos do homem não é suposto ser universal? Quanto a imposições, será uma imposição libertar os Iraquianos de Saddam, ou a Coreia do Norte de Kim Yong-Il? Os EUA conseguiram libertar o mundo do comunismo soviético, sem que tenha havido um confronto directo com a União Soviética. Seria preferível que o mesmo acontecesse relativamente ao Iraque e à Coreia do Norte, mas talvez não seja muito justo fazer os iraquianos e os coreanos esperar tanto tempo quanto esperaram as populações do Leste. Recordo os momentos iniciais de "O Pianista", quando o chefe de família dizia que a Inglaterra e a França os libertaria, logo que entrassem na guerra. Ironia do destino... Quem os "libertou" foi a União Soviética. Quase cinquenta anos foi quanto demoraram a libertar-se dessa "liberdade". Hoje, os países de Leste estão com os EUA, evidentemente. Só a cegueira da nossa esquerda a impede de perceber porquê.
Aparentemente faz hoje um ano que Savimbi foi abatido. Nunca a morte de um homem terá sido tão vantajosa para tantos. Savimbi era incapaz de viver em paz, não compreendia a democracia. A sua morte foi um alívio para Angola. Espero que a paz de este ano que passou se eternize e que não nasçam mais Savimbis em Angola.
Hoje, no DN, Manuel Villaverde Cabral diz que
[...] ao contrário dele [Pacheco Pereira], sou dos que pensam que a democracia só merecerá o seu nome quando renunciar de vez ao recurso às armas para atingir os seus objectivos. Esta é que é uma ideia nova.

Esta ideia não é nada nova. É mesmo muito velha. É a velha ideia dos pacifistas europeus, que propõem há anos, infelizmente com algum sucesso, que a Europa se desarme. O resultado desta ideia perfeitamente descolada da realidade foi uma europa indefesa e totalmente dependente dos EUA. Valerá a pena argumentar que só o recurso às armas permitiu às democracias europeias resistir ao nazismo e ao comunismo? Não, não vale. Estas posições pacifistas são totalmente imunes à realidade. São, como Jean-François Revel dizia acerca do socialismo (um primo do pacifismo), ideologias a priori.
"Hard Talk", na BBC World. Dos melhores programas de entrevistas que já vi. Excelente. Perguntas incisivas e sem rodeios. Os entrevistadores fazem o seu trabalho de casa com uma profundidade que, sinceramente, me espanta. Este programa redime o jornalismo. E, de alguma forma, dá razão aos que defendem o serviço público de televisão, entre os quais não me encontro.
O Convento do Desagravo, em Vila Pouca da Feira, perto de Oliveira do Hospital, propriedade da fundação Bissaya-Barreto, foi adaptado a pousada. O convento não teria talvez grande interesse arquitectónico ou histórico. Mas isso não justifica a violentação a que foi sujeito por uma arquitectura mesquinha e medíocre. Acabou a época em que as recuperações de monumentos para pousadas criavam novos e magníficos monumentos. Lembro-me da Flor da Rosa, no Crato, de Santa Maria do Bouro e de Arraiolos. Pelo contrário, voltámos ao estilo "linha de Cascais", que nem pomposo consegue ser, de tão ignorante. É triste. Concordo com Paulo Varela Gomes, que dizia há uns anos que mais valiam as ruínas. Lembro-me bem do Convento do Desagravo, não propriamente arruinado, mas com aquele aspecto misterioso que estes monumentos têm quando estão abandonados. Sinto sempre uma vontade incontrolável de os explorar, de imaginar com teriam sido e como poderão vir a ser. Compará-lo com o que é agora... É uma ilusão pensar que a história é uma sucessão de progressos. Platão tinha razão: tudo se degrada. Os autores de semelhante atentado assinam orgulhosos a sua obra: Arquitectos António Monteiro, Crespo Osório e Pedro Santos. Pensar que a Ordem dos Arquitectos (OA) se propõe melhorar a arquitectura em Portugal tornando obrigatória a assinatura dos projectos por arquitectos... Acreditará a OA mesmo nisso, ou é só uma justificação para uma manobra de aumento da clientela por decreto? Inclino-me mais para a segunda hipótese.

2003-02-21

Fim de semana na Serra da Estrela. Passagem pela aldeia do Sabugal. Junto à estrada, o comércio abunda. O caos é completo. As lojas, feíssimas. Mas o ambiente não é muito diferente do que encontra por Portugal inteiro, nas nossas localidade lineares, desenvolvidas ao longo da estrada. Talvez o exemplo mas paradigmático seja essa imensa e medonha cidade sem nome que se estende ao longo da EN 1. Mas o pior vem quando se abandona a estrada nacional e se penetra na aldeia. Desmazelo. Lixo. Miséria. Pobreza. Tenho saído pouco de Lisboa... Esqueci-me que existe ainda um Portugal assim. É ignóbil. É vergonhoso.