2004/01/19
A taxa de televisão no Reino Unido
Uma pequena nota de Theodore Dalrymple no City Journal acerca da solução governamental para o problema das mães solteiras, algumas das quais foram presas por deixarem repetidamente de pagar a taxa de televisão:A liberal think-tank close to the government has come up with a solution to the problem: halve the license fee for single mothers. In other words, we should subsidize a subsidy, in the name of a universal “right” to misinformation and trashy entertainment (and at the same time confer yet another incentive—albeit a small one, though such incentives are additive—for single parenthood). Reportedly, the government is favorably inclined toward the proposal.
Here is the definition of current British social policy: an idiocy wrapped in a lunacy wrapped in an absurdity, to produce misery and squalor.
Colocado por Picuinhas às 21:49
2004/01/17
Um perigo na via pública
- Desloca-se a velocidade muito inferior à dos restantes utentes da via pública, com os perigos que os diferenciais de velocidade acarretam.
- Não precisa de licença para circular.
- Conduz-se sem carta nem limite de idade.
- Não tem dispositivos passivos ou activos de segurança (e.g., airbag ou ABS).
- Normalmente não tem iluminação própria, nem para iluminar o caminho, nem de presença.
- Não vai a inspecções periódicas obrigatórias.
- Circula sem seguro.
- De acordo com estatísticas da DGV, está envolvido em pelo menos 20% dos casos de mortalidade rodoviária.
Não se pode continuar a admitir este estado de coisas. Proiba-se o peão.
Colocado por Picuinhas às 01:18
2004/01/15
11 anos de atraso
Certa noite, ainda a minha mãe estava na faculdade, o meu avô parou o trabalho aturado que o ocupava à secretária, que ocupava parte substancial da sala de estar, e declarou à família, solene: "Estou 11 anos atrasado". Eu também, aqui, pública e solenemente, e para que conste, me declaro 11 anos atrasado.
Colocado por Picuinhas às 23:56
O efeito 1 minuto de microfone
Estação de Metro de Entrecampos. Pela 3ª vez encontro o guichet para recepção de pedidos de passe encerrado. Do guichet do lado informam que a colega está de baixa e que a colega que era suposto substituí-la faltou. A indignação propaga-se pelo dominó de requerentes que atrás de mim se havia formado. O funcionário do Metro sugere então que preenchamos fichas de reclamação. O que faço e me toma 2 minutos. No entretanto a fila tinha desaparecido, em pregões a anunciar o peixe-vergonha do pais; à procura do microfone que lhe dê o seu minuto no éter do fórum ou no fósforo do ecrã.
Colocado por Rui Lopes às 09:23
2004/01/11
Que fazer
Apoiar organizações como a SOS Racismo (que tem um blogue), mesmo que com elas discordemos ocasionalmente.
Colocado por Picuinhas às 23:17
Racismo e xenofobia
Aqui ao lado, em Espanha, o racismo, a xenofobia. Um documentário impressionante da El Mundo TV (na SIC Notícias) torna-nos Marroquinos ou Argelinos por uns minutos. As desculpas, as recusas, as negas, todo o tipo de discriminação, é o que os emigrantes do Magrebe enfrentam todos os dias. Uma humilhação contínua. Uma infâmia inenarrável, que corresponde certamente àquilo que vai acontecendo por todo o mundo, que acontece certamente aqui mesmo, em Portugal. De vez em quando precisamos de documentários assim. Ajudam-nos a recordar o que somos. E somos maus.
Colocado por Picuinhas às 23:14
2004/01/09
Petróleo para a paz
É curioso que, depois de o petróleo ter sido usado como explicação para a guerra de Angola e para a intervenção dos EUA no Iraque, depois de se dizer que o petróleo teria originado os golpes em S. Tomé, agora, no Sudão, o petróleo sirva de justificação... para o fim da guerra:O petróleo, que começou por intensificar a guerra, acabou por se tornar num factor de acordo. Primeiro, porque o Norte concluiu que o não poderia explorar eficientemente sem paz e sem um compromisso com Garang. E, para os rebeldes do Sul, é a grande hipótese de vencer a pobreza endémica da região. Em segundo lugar, provocou um decisivo envolvimento norte-americano. Mas no essencial, a guerra vai acabar por completa exaustão de ambas as partes.
Jorge Almeida Fernandes, no Público de ontem (na BBC World a opinião era a mesma). Estas explicações sempre me pareceram demasiado simplistas.
Colocado por Picuinhas às 02:32
Uma boa medida
Bush pretende legalizar imigrantes clandestinos. Mas uma má justificação:É de senso comum e de justiça que as nossas leis devem permitir a entrada de trabalhadores [estrangeiros] no nosso país para preencher empregos que os americanos não preenchem. E se preenchessem, mas sofressem concorrência dos imigrantes? Isso não seria bom para todos, excepto temporariamente para os trabalhadores americanos que sofressem directamente a concorrência?
Colocado por Picuinhas às 02:15
2004/01/08
As editoras movem-se
Os pesquisas e citações cruzadas de artigos publicados electronicamente estão a ser revolucionadas pelo DOI e pelo Crossref. Boas notícias para quem depende da pesquisa bibliográfica.
Colocado por Picuinhas às 17:51
2004/01/07
Barroso e Cavaco
Segundo o PS (via Sic Notícias), o governo de Durão Barroso está a governar pior que Cavaco Silva. Vindo do PS, é um grande elogio, aliás imerecido.
Colocado por Picuinhas às 22:14
No Mundo
O Carlos Miguel Fernandes tem um blogue. É o No Mundo. Dada a qualidade das suas intervenções no Picuinhices, será de certeza um excelente blogue. Sejam muito bem vindos, ele e a Maria João Reis Martins!
Colocado por Picuinhas às 22:03
Individualismo não é sinónimo de egoísmo
Na TSF de hoje, no Pessoal e... Transmissível, Carlos Vaz Marques conversou com Mário Beja Santos. Pelo meio, uma confusão entre individualismo e egoísmo que é muito comum entre a esquerda. Como diz Hayek:Individualism has a bad name today [anos 40], and the term has come to be connected with egotism and selfishness. But the individualism of which we speak in contrast to socialism and all other forms of collectivism has no necessary connection with these. É esta confusão que torna tão difícil, como a entrevista revelou, compreender que seja num dos países que se considera o paradigma do individualismo, os EUA, que a sociedade civil, o voluntarismo e associativismo sejam mais fortes.
Colocado por Picuinhas às 00:44
Os nossos dirigentes associativos
Jorge Cristino, novo Presidente da Associação Académica da Universidade do Minho, afirma em entrevista ao Público que "a Declaração de Bolonha diz que o Ensino é gratuito [...]". Não pude acreditar. Procurei e li a dita declaração e, felizmente, não havia sombra de referência à gratuitidade do ensino. A declaração terá muitos defeitos, mas pelo menos esse não tem.
Colocado por Picuinhas às 00:25
Alguns bons argumentos contra a proibição do véu nas escolas francesas
Vale a pena ler o artigo de Vital Moreira, no Público. Para ele, não é tanto o jacobinismo do "princípio da laicidade" que está em causa, mas o anseio de uniformidade cultural da França. Tenho algumas dúvidas, mas os argumentos são bons:A justificação política e doutrinária da medida proibicionista é geralmente ligada ao "princípio da laicidade", expressamente garantidos na Constituição de 1958, que é um dos princípios fundamentais da República francesa, desde a lei da separação de 1905. Mas, bem vistas as coisas, ela tem menos a ver com o princípio laico do que com a tradição francesa, de origem tipicamente jacobina, que faz prevalecer a ideia de nação sobre as identidades comunitárias e a assimilação cultural das minorias sobre a diversidade. A raiz da medida é a mesma que leva a França a não reconhecer a existência de minorias étnicas, linguísticas ou outras que pudessem pôr em causa a identidade e homogeneidade do "peuple français". O que a motiva é menos a questão da religião em si mesma do que o receio da radicação e consolidação de identidades sectoriais subnacionais, com o seu potencial desagregador da coesão e identidade nacionais.
Colocado por Picuinhas às 00:04
2004/01/06
Reciprocidades?
Reagindo a medidas de protecção semelhantes tomadas pelos EUA, o Brasil, usando do seu "direito de reciprocidade", resolveu começar a registar ao cidadãos americanos que entram no seu território, fotografando-os e tirando-lhes as impressões digitais. Acontece que nos EUA há boas razões para tomar cuidados e, se é discutível a eficácia deste tipo de medidas, é certamente compreensível que os EUA as tomem. Basta lembrar o 11 de Setembro e estar atento às declarações regulares da Al-Qaeda. A atitude brasileira, pelo contrário, é simplesmente estúpida: não havendo qualquer necessidade de fazer os registos, estes limitam-se a incomodar e a gastar recursos materiais e humanos num gesto provocatório.
Colocado por Picuinhas às 23:53
2004/01/05
2:
Algumas hipóteses:- A 2: não tem sucesso: desperdiçou-se dinheiro dos contribuintes.
- A 2: tem sucesso: investiu-se dinheiro dos contribuintes para fornecer um serviço que podia ser fornecido pelo mercado e do qual muitos desses contribuintes não usufruem nem como espectadores nem através de um retorno monetário do investimento.
- A 2: tem sucesso, mas com um figurino que não poderia nunca dar dar lucro: nesse caso o negócio não é viável, destinando-se simplesmente a fornecer um serviço a alguns à custa do dinheiro de todos.
A televisão pública é paga através de impostos. A chamada "contribuição audio-visual" é um imposto. Não distingue entre quem usufrui ou não do serviço estatal de televisão, pelo que não se poderá nunca considerar como um pagamento. É um roubo feito a alguns para benefício de outros. Não se destina a combater nenhum suposto mal social. A "tabloidização" das televisões privadas é, aliás, um espantalho. A SIC Notícias está aí para o demonstrar. Mas ainda que fosse verdade a "tabloidização", não justificaria a televisão estatal. Se as padarias vendessem apenas papo-secos, seria desejável ou justo que o estado oferecesse um serviço de fornecimento de pão alentejano a alguns, com gosto mais refinado?
Colocado por Picuinhas às 23:55
Serviço público estatal de televisão
Não é necessário.
Colocado por Picuinhas às 21:46
2004/01/04
O Quebra-Nozes
À tarde assisti a "O Quebra-Nozes", da Companhia Nacional de Bailado. Para além de ser incompetente para julgar tecnicamente um bailado, a forma como assisto aos espectáculos impede-me, normalmente, uma crítica objectiva. Sim, confesso, sou dos que quase saem para o hospital com ataques cardíacos quando os filmes são de suspense e dos que choram baba e ranho quando puxam ao sentimento, passando vergonhas horríveis quando, no fim, as luzes se acendem e não arranjo maneira de disfarçar as lágrimas que correm em torrentes. Foi assim que assisti a "O Quebra-Nozes". Encheu-me as medidas. Os cenários são excelentes, tal como os figurinos. A música, infelizmente, era gravada. Ao meu lado, o meu filho perguntava-me a cada momento que dança era, "É a do café? São japoneses?", batia palmas com entusiasmo, informava o vizinho "São os flocos de neve!". Sim. É verdade. Hoje à tarde, ao lado do meu filho, também eu tive cinco anos.
Colocado por Picuinhas às 23:55
Euforia
Não consigo ler mais do que um par de parágrafos. Passeio pela casa num estado eufórico que se diria causado por estupefacientes. Desconheço a razão. Será porque se acabou, finalmente, o período de festas?
Colocado por Picuinhas às 23:44
Conservadores e neoconservadores
No Public Interest, via AAA da Causa Liberal, um interessante e informativo artigo de Adam Wolfson sobre conservadores e neoconservadores.
Colocado por Picuinhas às 19:40
2003/12/30
Uma grande Aba
A Aba de Heisenberg desmonta os argumentos de Miguel Sousa Tavares e demonstra os perigos da velocidade: aqui, aqui, aqui e aqui.
Colocado por Picuinhas às 20:39
Demências
Sermões patrocinados pela Autoridade Palestiniana (via MEMRI). Um excerto:[Even when] a martyr's organs are being chopped off, and he turns into torn organs that spread all over, in order to meet Allah, Muhammad, and his friends, it would not be [considered] a loss? This is the honor given to our martyrs, the martyrs of the Islamic nation, who were killed due to their loyalty to Allah... The sacrifice of convoys of martyrs [will continue] until Allah grants us victory very soon. The willingness for sacrifice and for death we see amongst those who were cast by Allah into a war with the Jews, should not come at all as a surprise? Oh believing brothers, we do not feel a loss... The martyr, if he meets Allah, is forgiven with the first drop of blood; he is saved from the torments of the grave; he sees his place in Paradise; he is saved from the Great Horror [of the day of judgment]; he is given 72 black-eyed women; he vouches for 70 of his family to be accepted to Paradise; he is crowned with the Crown of glory, whose precious stone is better than all of this world and what is in it?
August 17, 2001, Sheikh Isma'il Aal Ghadwan, Sheik 'Ijlin Mosque in Gaza, PA Television.
Colocado por Picuinhas às 12:46
2003/12/26
Ai meu rico carrinho!
Para Miguel Sousa Tavares, há quatro questões em que o "conservadorismo de pensamento" "determinou a orgulhosa inflexibilidade ideológica". Quais são?Refiro-me à política de agravamento das multas e punições por excesso de velocidade no novo Código da Estrada que aí vem, na recusa das chamadas "salas de chuto" (assistidas ou não) nas prisões, a liberalização do consumo de drogas leves e a descriminalização do aborto (ou até mesmo a sua simples despenalização). A todas as sugestões de ensaiar uma via alternativa nestas matérias, a direita que governa respondeu: "Não, não, não e não." Que faz o excesso de velocidade neste lote? Note-se que, para Miguel Sousa Tavares:São quatro exemplos de como uma hipocrisia erigida em pseudovalor moral pode causar danos concretos, mortes incluídas, às vítimas desses valores. Em nome do Estado, em nome da moral cristã ou - pior e nunca dito - em nome, muitas vezes, de interesses de negócio instalados, por exemplo na lavagem de dinheiro da droga ou na pretensa recuperação dos drogados. Santíssima hipocrisia! Quem serão as vítimas da punição do excesso de velocidade? Quem beneficiará com que negócio? É necessário ser dono de uma demagogia inacreditável para se afirmar que a punição do excesso de velocidade irá aumentar o número de mortos na estada. Não. Não é só demagógico. É profundamente desonesto.
Colocado por Picuinhas às 12:33
Gato
Alma má revestida de pêlo.
Colocado por Picuinhas às 10:24
2003/12/24
Leituras sobre o aborto
Desidério Murcho, na sequência de um comentário deixado na entrada Aborto: posições inaceitáveis, enviou-me uma lista de leituras sobre o assunto, que aqui partilho:
Eis algumas sugestões de leituras introdutórias centrais sobre o aborto:Abortion and Infanticide, de Michael Tooley (Livro polémico, mas muito claro.)A Companion to Ethics, org. por Peter Singer (Tem um artigo sobre o aborto que apresenta as principais posições e orienta leituras).Applied Ethics, org. por Peter Singer (Tem alguns dos artigos clássicos da área, como o da Jarvis Thomson e o do Tooley, que deu depois origem ao livro).Ethics in Practice, org. por Hugh Lafollette (Mais alguns artigos clássicos da área, tem alguma sobreposição com a antologia anterior; se tiver de escolher só uma delas, escolha esta. Tem um site informativo, com alguns materiais.)"Religião e Questões Morais Particulares", in Elementos de Filosofia Moral, de James Rachels (O livro vai sair a 20 de Janeiro na Gradiva e tem uma secção muito esclarecedora sobre como se faz o debate sobre o aborto.)Há inúmeras colectâneas de artigos só dedicados ao aborto, assim como livros. Mas estas leituras parecem-me centrais. E tanto as duas colectâneas apresentadas como o Companion são obras de consulta importantes para o público leigo interessado quer na ética aplicada quer noutros aspectos da ética.
Penso que o Pedro Galvão está a organizar uma colectânea de artigos sobre o aborto, mas não sei qual será o editor.
Colocado por Picuinhas às 16:53
2003/12/22
Actualização
Mais sobre as expropriações no MATA-MOUROS.
Colocado por Picuinhas às 14:30
Oficializar o roubo?
Salazar fixou as rendas urbanas de Lisboa e Porto. Após o 25 de Abril essa medida "social" foi estendida a todo o país. O resultado está à vista. O mercado de arrendamento praticamente desapareceu, os senhorios praticamente faliram, os prédios degradaram-se, os portugueses jovens são hoje quase todos candidatos a proprietários, a mobilidade dos cidadãos reduziu-se, pois se são proprietários não querem pagar os impostos associados a todas as trocas de habitação (mais-valias e sisa) e se são inquilinos não querem perder a sua renda artificialmente baixa. As cidades foram envelhecendo com os seus habitantes. Os senhorios tornaram-se nos financiadores da política de rendas baixas do estado, que não gasta um tostão com a sua generosidade.
O governo pretende pôr a cereja sobre este magnífico bolo. Acabar com a lei das rendas, ou melhor, liberalizá-las, não lhe passa pela cabeça. Seria necessário demasiada coragem. Seria necessário arcar com o financiamento das rendas de quem hoje usufrui de rendas baixas e mais não pode pagar. Não. Tanto quanto percebi deste artigo, e espero sinceramente estar enganado, o estado prepara-se agora para permitir que sociedades de capitais municipais expropriem prédios degradados. Roubaram-se os senhorios aos poucos durante anos para, no fim, por falta de paciência, se roubar o que resta de uma só vez. Perfeito.
(Leia-se também a entrevista onde a Secretária de Estado da Habitação Rosário Águas afirma que os proprietários terão oportunidade de recuperar eles próprios os imóveis e, caso não o façam, verão a sua propriedade expropriada. Fica convenientemente omisso como poderão os proprietários recuperar os edifícios sem liberalizar as rendas praticadas. Pormenores.)
Colocado por Picuinhas às 09:45
2003/12/21
Aborto: posições inaceitáveis
O Padre Feytor Pinto, em entrevista conduzida por Maria João Avilez e transmitida hoje na SIC Notícias, referiu-se à eutanásia e ao aborto (de memória, não garanto as palavras exactas, apenas o sentido):A eutanásia está na moda. Hoje, quando alguém nos incomoda elimina-se, como Hitler fazia. Quando não há paciência para os velhos, vemo-nos livres deles. Quando uma criança nos incomoda, aborta-se. São estas afirmações, bem como as de "aqui [na barriga] mando eu", no extremo oposto, que nada contribuem para a discussão sobre estes assuntos tão delicados. Todas as subtilezas, qualificações, cuidados que devem ser colocados ao defender esta ou aquela posição são esquecidos, são, aliás, deliberadamente ignorados, sobrando apenas a afirmação panfletária. No meio desta cacofonia de argumentos, os únicos verdadeiramente racionais e cuidadosos com que alguma vez me deparei foram os de Peter Singer. Paradoxalmente, não concordo de todo com as conclusões. Mas vale a pena lê-lo para perceber como se argumenta, como se pensa, como se evita a simplificação. Como se pode tentar ser coerente ou, pelo contrário, como se pode optar deliberadamente pela incoerência ao reconhecer os limites da razão (coisa que Peter Singer não faz, de resto). Argumentos como o direito da mulher sobre o seu corpo são, naturalmente, absurdos: é que se trata, justamente de outro corpo, de outro ser, que será morto. Peter Singer discute seriamente em que circunstâncias é errado tirar uma vida. Essa discussão é a mais importante a fazer. É, também, aquela onde será mais difícil chegar a acordo. Todos, ou quase todos, concordamos que o infanticídio é um crime horrível. Todos, ou quase todos, aceitaremos como válido o argumento, de Peter Singer, de que não há diferença material entre matar após o nascimento ou antes do nascimento, ou que, pelo menos, se houver diferença, deve-se à idade do ser humano, e não ao acto do nascimento em si. Quando se fala acerca do aborto, os tempos são fundamentais. Muitos, embora não todos, concordarão que um óvulo acabado de fecundar não merece o mesmo respeito que um ser humano adulto, ou que um bebé com nove meses após a concepção. Não consegui (ainda?) encontrar nenhum argumento verdadeiramente convincente para o limite das 12 semanas de idade. Nem é claro se deva estabelecer algures uma fronteira arbitrária. Talvez a solução passasse por uma gradualidade temporal na penalização do acto, correspondente à nossa intuição moral sobre a sua gravidade crescente. Mas será possível fazê-lo? Segundo alguns, trata-se de um problema de consciência, e como tal deve ficar à consciência de cada um, sem penalização legal. Mas este argumento é, também, absurdo. Não o aplicamos, por exemplo, à violência doméstica, porque o haveríamos de aplicar aqui? Decididamente, precisamos de verdadeiras discussões, e não de guerras de palavras extremadas e panfletárias.
Colocado por Picuinhas às 23:19
Alegoria aos impostos
Hoje fui ver um espectáculo de Luís de Matos no CCB. Depois de fazer um truque em que "transformou" uma nota de 5 euros numa nota de 50 euros, Luís de Matos disse à audiência que faria o mesmo com todas as notas de 5 euros que a audiência lhe passasse. Ao todo deram-lhe 10 notas. Depois de afirmar que o truque, infelizmente, só funcionava com 11 notas, meteu as 10 notas ao bolso. Pouco depois disse algo como isto: "Há 10 pessoas que me odeiam nesta sala. Mas, por outro lado, todas as restantes estão satisfeitíssimas, tendo-se rido e gozado com o que aconteceu às primeiras. O balanço é claramente positivo."
Colocado por Picuinhas às 20:20
|
|