2003-12-10

Serviço público

Prometi, há já algum tempo, dar maior destaque a uma polémica que começou com um comentário de Carlos Miguel Fernandes à minha entrada A nossa economia de direcção central: o caso do ensino da medicina e se desenvolveu a partir da minha resposta na entrada Há uma ortodoxia liberal?. Os participantes são o Carlos Miguel Fernandes, já referido, o João Miranda, do Liberdade de Expressão e do Nónio, alguém que se identifica como "eu" e eu próprio. Venho já atrasado, pois a polémica entretanto continuou no Blogue de Esquerda. Ainda assim, segue abaixo a polémica em formato mais legível:

João Miranda

A questão colocada pode ser respondida assim: a economia é um sistema complexo, no sentido em que é irredutível a um modelo simples. Ninguém possui a informação necessária para o controlar porque essa informação está dispersa por toda a sociedade. É um contrasenso alegar que a economia é um sistema complexo que tem que ser controlado, e depois esperar que os controladores sejamos nós, os humanos. É que nós estamos dentro do sistema e o acto de regulação também faz parte do sistema.

Ao contrário do que é dito, a economia não é um sistema criado pelo homem. A economia emerge espontâneamente das acções humanas. A economia emerge inclusive dos actos de regulação que são actos que contribuem para a formação do sistema como quaisquer outos.

A economia até pode ser sensível a pertrbações. Mas esse não é um argumento para a regulação. É na ralidade, um argumento contra a regulação porque nesse caso todas as acções imprevisíveis, inclusive as acções de regulação.

Só mais uma coisa:

Não existem reguladores fora da economia. Vamos supor que criamos uma entidade REGULADORA para controlar a ECONOMIA. O sistema REGULADORA + ECONOMIA para a ser um sistema sobre qual podemos colocar as mesmas questões que nos levaram a criar a entidade reguladora. Como é que sabemos se este novo sistema REGULADORA + ECONOMIA é auto-regulável? Não poderá cair no caos? No fundo, esta é outra versão da velha questão: quem regula os reguladores?

eu

As minhas dúvidas:

Caríssimos João Miranda e Picuinhas, desejo que o liberalismo seja o caminho e até tenho expectativas libertárias. Tenho contudo algumas duvidas incómodas. Dado é disso que aqui se fala....

Para lá da economia, parece-me que o poder per si (seja politico, de uma religião, na estrutura familiar, etc) é uma aspiração humana. Existem em todo o mundo numerosos exemplos da organização de poderes fortíssimos que não nascem nem dependem de estado algum ? (as máfias, os carteis, o poder religioso, etc). Ao contrário de recear o caos, não é bem mais provável que o risco seja exactamente o contrário: o da organização espontânea de outros poderes, organizados para exercer uma ?regulação? a favor dos seus interesses? (neste ponto prefiro sofrer o poder porventura excessivo de um poder/estado visível que posso eleger).

O desejo da liberalização assenta sempre no pressuposto da existência de uma justiça eficaz, imparcial, forte. Como a garantir essa força se o próprio estado for esvaziado de poder e sabendo que a simples existência de um poder forte visível é um elemento dissuasor?

E ainda, se olharmos o mundo como um mercado global, e sendo o mundo um espaço restrito, -se não reconhecermos a capacidade de regular com perspectivas futuras, ou na educação- a actuação livre não configurará por sua vez uma ?tragédia dos comuns? à escala global?

João Miranda

Quanto à primeira pergunta, a maior parte dos liberais defende o monopólio da força por parte do estado e a proíbição da iniciação da força. O estado não precisa de ter o controlo da economia para poder controlar a iniciação da força.

Quanto à tragédia dos comuns, ela só ocorre se existir um abuso da propriedade comum por parte de alguns. À luz do liberalismo, essas violações devem ser limitadas, de preferência através da privatização de bens comuns. Mas o problema da tragédia dos comuns à escala global está limitada a meia dúzia de casos (poluíção atmosférica, marítima, pescas e mais alguns recursos insubstituíveis).

Carlos Miguel Fernandes

[...]

Começo pelos adjectivos. Quando eu falei em 'mais ou menos lúcido' queria dizer que o achava suficientemente lúcido para reflectir sobre uma questão que eu julgo importante. Uma leitura atenta do seu blog levava-me a pensar isso. E acho que não me enganei. Quanto ao significado da palavra 'liberal', estamos de acordo: é suficientemente vago e abrangente para que nos entendamos em curtas frases. Utilizei o prefixo neo para distinguir uma abordagem mais radical do capitalismo e da sociedade (talvez aquilo que designa como anarco-capitalismo). É preciso não esquecer que 'liberal' tem uma conotação que depende até do país em que é pronunciada (recordo que nos países anglo-saxónicos, 'liberal' tem uma conotação esquerdista). Reparo, pelos seus textos, que não é um neo-liberal no sentido que eu dou à palavra. Até penso que as nossas ideias não estão assim tão afastadas como possa parecer.

Está na altura de esclarecer que eu acredito no mercado livre. Já visitei vários países do leste da Europa e tenho a certeza absoluta que o modelo de estado centralizador e totalitário falhou, não acompanhou a mudança do mundo e morreu sem deixar descendência (e mesmo a hipótese de que, em algum período da humanidade, o marxismo foi uma ideia sensata, deixa-me muitas dúvidas). Aliás, tenho relutância em me deslocar a Cuba, nas férias, porque me choca o défice de liberdade de expressão e a miséria gerada pelo ?socialismo? de Castro. Conheço muitos liberais que não se incomodaram com a situação e lá foram para a ilha.

Mas acredito num mercado livre suficientemente aberto para permitir intervenção estatal em situações que o justifiquem. E baseio esta crença em observações e analogias, e não na fé.

Posso conceder que o mercado global é um sistema complexo e dinâmico e poderá, teoricamente, ser modelado como o clima da Terra, por exemplo. Posso acreditar que sim, não é uma ideia chocante, tem um grau de probabilidade bastante elevado. Se for verdade, estamos, provavelmente, perante um exemplo de auto-organização. E, se assim for, as suas características impedem-no de cair no caos ou em poços de atracção (ver Kaufman). Mas não é esta uma descrição do corpo humano? Não estamos nós constantemente à beira do caos (as leis da termodinâmica o dizem)? No entanto as nossas células mantêm as suas funções ao longo das nossas vidas, os músculos não se misturam com a pele, a morfologia mantém-se constante e não nos transformamos numa massa informe de átomos. Mas por vezes ficamos doentes. O que fazemos nessa altura? Deixamos o tempo correr e esperamos para ver o que acontece? Não. Tentamos reparar o problema. E se pudéssemos fazer o mesmo com o clima, quem se atreveria a dizer que o deixássemos em paz sabendo que podíamos evitar um dilúvio ou uma seca prolongada (estou a entrar no domínio da ficção científica mas a história já nos ensinou a evitar julgamentos precipitados). Aquilo que eu defendo é que se encarem os modelos económicos como sistemas complexos que, mesmo que tenham mecanismos de auto-organização e auto-regulação, podem ser manipulados sempre que isso possa evitar consequências negativas para o indivíduo.

Escreve Picuinhas, a propósito da sua reacção ao seminário de Holland: ?Esse entusiasmo é temperado por um forte cepticismo quanto à possibilidade de alguma vez se poder fazer alguma previsão certeira e não-trivial baseada em simulações desse tipo de sistemas?. É a velha questão do determinismo. Penso que era Pascal que dizia ?dêem-me as condições iniciais e conto-vos a história do mundo?. A mecânica quântica veio refrear o ímpeto determinista (embora não tenha convencido Einstein, que acreditava que o velho lá de cima não jogo aos dados). Por isso o cepticismo de Picuinhas é perfeitamente natural. Mas o espírito deve estar aberto. Imaginem o cepticismo, há mil anos atrás, em relação a tantas banalidades do nosso quotidiano. Eu tenho feito investigação na área dos sistemas complexos adaptativos (particularmente no âmbito dos Algoritmos Genéticos, criados nos anos 70, por Holland, para estudar estes sistemas). E reconheço o potencial poder da ciência da complexidade. Se vai ser a ciência do séc. XXI, como afirmou Holland em Lisboa, não sei. Mas vai ser muito importante.

"Repare que a posição liberal não é, nem pretende ser, científica.", escreve Picuinhas. Uma questão interessante. Acredito que não seja uma posição científica. Mas não aspirar a sê-lo deixa-me preocupado. Talvez seja a minha racionalidade excessiva a falar. As minhas posições, ideias ou conceitos procuram sempre um fundamento científico. Se tiverem esse carácter, posso sempre provar que estão erradas (mesmo que isso destrua a minha base moral). Nesse aspecto sou seguidor de Karl Popper - é ciência tudo aquilo que pudermos provar, ou tentar provar, que está errado. Parece um contra-senso mas não é. Uma leitura mais atenta do filósofo talvez esclareça algumas coisas que este pequeno espaço não permite.

"A realidade não parece demonstrar a ideia de que um sistema económico ou social cai necessariamente no caos ou em ciclos finitos perpétuos. Aliás, a ideia de que cai necessariamente nesses comportamentos é que me parece uma extrapolação perigosa de resultados científicos, mas teria de ler o livro para o poder afirmar.". Tem toda a razão. Aqui não me expliquei bem e ao reler as minhas próprias palavras percebo o erro. Acima, já referi que aceito que os sistemas económicos possam ser auto-organizados. Mas eu tenho alguma informação sobre o assunto. Aquilo que eu queria perguntar era se os liberais acreditavam nos seus modelos por uma questão de fé ou se estavam suficientemente bem informados sobre os últimos avanços no estudo da complexidade. Porque, nas condições da primeira hipótese, podem estar de acordo com as conclusões que poderiam observar nas condições da segunda hipótese, mas sem as complicações adicionais.

"Pergunta-se se, sendo o comportamento dos sistemas envolvendo agentes humanos essencialmente imprevisível, não será perigoso «deixar esses sistemas correr livremente, correndo o risco de observar desastres, mesmo sabendo que poderiam estabilizar posteriormente?» Responder-lhe-ia que não, que se alguém puder antecipar um desastre deve obviamente fazer tudo ao seu alcance para o evitar.". Parece que concordamos. Mas logo a seguir: "Curiosamente, no entanto, as sociedades mais liberais não parecem particularmente sujeitas a desastres.". Acha que não? Parece que já tivemos alguns exemplos na História recente que nos devem fazer reflectir na exactidão desta afirmação (com isto não quero dizer que os modelos menos liberais não estão sujeitos ao desastre; talvez exista um equilíbrio e a defesa desta ideia é o objectivo principal deste comentário).

"Mas a posição de um liberal é a de que, com o nosso conhecimento individual limitado e com uma capacidade de previsão reduzida, é geralmente melhor deixar as coisas correr do que limitar as liberdades com medo de desastres largamente imaginários.". A posição de um cientista é a de superar a limitação do conhecimento e melhorar as capacidades de previsão (por favor não transformem esta discussão em mais uma batalha da tão actual "guerra das ciências").

Permitam-me agora comentar os comentários. O João Miranda diz que "a economia é um sistema complexo, no sentido em que é irredutível a um modelo simples.". Não se ofenda mas esta frase parece vazia de conteúdo. Teríamos que definir modelo simples, já estamos a definir sistema complexo sobre esse conceito. E isso não foi feito. Além disso, deveria definir-se em relação outro aspecto: o reducionismo. Muitos pensadores não aceitam este principio, logo, para esses, nada se pode reduzir a um modelo simples.

Eu não disse que a economia é um sistema complexo que tem de ser controlado. Apenas disse que, se a economia nos permite intervenções pontuais, porque não fazê-lo? Quanto ao facto de estarmos dentro do sistema e o controlarmos não entendo o problema. Já ouviu falar do conceito de agente (o clip que eu vejo neste momento, no canto superior esquerdo no meu visor, é um agente)?.

Aceito que a economia não seja um sistema criado pelo homem, embora esta questão justificasse uma discussão filosófica mais profunda, que poderia envolver a cultura e a linguistica. Mas os modelos económicos são criados pelo homem. A não ser que tenhamos uma visão radical dos "memes" (entidades definidas pelo biólogo evolucionista Richard Dawkins e que pretendem representar as ideias, fazendo a analogia com "genes"). Nesse caso NENHUMA ideia foi criada pelo homem. Todas tiveram uma origem proto-memética, e propagaram-se pelos cérebros, ao longo da história cultural do homo sapiens, tal como os genes se propagaram no ADN através da história do planeta. Mas nem o mais radical darwinista cultural consegue defender convenientemente esta questão.

Embora o último parágrafo do primeiro comentário de João Miranda esteja pouco compreensível deduzo que queira dizer que as acções de regulação, por serem imprevisíveis, podem causar perturbações indesejáveis. Parece-me incoerente. Se o sistema é sensível a perturbações e, ao mesmo tempo, auto-regulado, é também, segundo posso depreender, imune a perturbações (no sentido em que é estável). Nesse caso, se o homem faz parte do sistema, como é que as suas perturbações ou intervenções serão piores do aqueles que podemos esperar de outras entidades (exteriores ao sistema? Segundo o que entendi do raciocínio exposto, não existem).

No seu segundo comentário João Miranda fala do sistema REGULADORA+ECONOMIA. Gostava de saber se REGULADORA+MODELO ECONÒMICO é a mesma coisa, na sua opinião. Só assim poderei comentar convenientemente.

Noutro comentário podemos ler que "O desejo da liberalização assenta sempre no pressuposto da existência de uma justiça eficaz, imparcial, forte.". Este é uma questão que merece ser amplamente debatida, até porque vivemos em Portugal, e todos sabemos como funciona a nossa sociedade.

João Miranda

A economia é um sistema complexo no sentido em que não pode ser apreendida por uma única mente. Quando falo num sistema simples estou a falar de sistemas com poucos graus de liberdade e que por isso podem ser facilmente compreendidos.

A economia não pode ser apreendida por nenhuma mente ou por nenhum conjunto restrito de mentes. Isto acontece porque, em economia, os mais ínfimos detalhes são importantes. Nunca se sabe, por exemplo, de onde virá a próxima inovação. A economia só pode ser apreendida parcialmente (muito parcialmente) por cada mente individual. Este facto por si só implica que só o controlo descentralizado é eficiente.

Quando se fala em regulação, fala-se em regulação por um órgão central. Fala-se da planificação da economia e da sociedade por parte de um órgão central. O problema deste tipo de regulação está no facto de os reguladores serem tão humanos como os humanos que pretendem regular. No entanto, estes reguladores não possuem nem os meios, nem a capacidade para prever as consequências dos seus actos reguladores.

A vantagem do liberalismo está precisamente no facto de a regulação ser feita de forma descentralizada por quem está mais interessado no desenrolar dos acontecimentos, por quem possui a informação necessária para realizar a regulação e por quem tem a legitimidade para agir.

À luz do liberalismo, o caos não é necessáriamente um problema. Uma sociedade dinâmica terá forçosamente periodos de destruíção criativa. Novos produtos e novas ideias provocam variações abruptas e imprevisíveis em determinadas variáveis do sistema. Os liberais não prometem a estabilidade nem a consideram particularmente desejável.

No entanto, quem acha que a economia é um sistema caótico e que isso não é desejável, não deve ter ilusões. Um sistema caótico com biliões de graus de liberdade não é previsível e por isso não pode ser controlado de forma eficaz por uma autoridade central.

REGULADORA+ECONOMIA e REGULADORA+MODELO ECONÒMICO não são a mesma coisa. Uma economia é um sistema real, físico. Um modelo económico é uma abstracção inventada pelos seres humanos. As economias reais não obedecem aos planos humanos. Emergem das acções humanas. E os humanos tendem a agir contra os seus próprios planos ou contra os planos dos seus dirigentes.

Há também uma diferença entre determinismo ontológico e determinismo epistemológico que é importante. Se o determinismo ontológico for verdadeiro, o estado actual do universo determina univocamente todos os estados futuros. Mas isso não significa que o futuro seja previsível (determinismo epistemológico). A economia é um caso em que o determinismo epistemológico é impossível pelo simples facto que é impossível saber a cada momento qual é o estado actual da economia (que é um sistema vasto em que todos os detalhes são relevante). E mesmo que fosse possível determinar o estado actual da economia, continuaria a ser impossível calcular o efeito dos actos de regulação no seu estado futuro porque não existem meios computacionais suficientemente poderosos. Mas mesmo que tudo isso fosse possível, o próprio acto de previsão tenderia a modificar o comportamento dos agentes económicos tornando a previsão inútil.

Por outro lado, se a eonomia for um sistema caótico, então o determinismo epistemológico é impossível porque os sistemas caóticos são sensíveis às condições inciais. Não bastaria conhecer as condições inciais. Seria necessário conhecer as condições iniciais com uma precisão infinita.

O estudo de sistemas complexos que tem merecido a atenção dos investigadores nos últimos 30 anos tem entre os seus precursores Friedrich Hayek, que já nos anos 20 se dedicava a estes problemas. A ideia base do trabalho de Hayek é a de que um sistema complexo como a economia não pode ser controlado por uma autoridade central porque a informação necessária para que o controlo seja eficiente está dispersa por todo o sistema e nunca está todo acessível a uma única pessoa.

Um bom livro para se entender as ideias de Hayek sobre a economia como um sistema complexo é "The Constitution of Liberty" onde é explicada a noção de Cataláxia.

Carlos Miguel Fernandes

O Sr. João Miranda tem uma ideia muito vaga, e por vezes errónea, das teorias da complexidade, do caos e da evolução, embora seja de louvar o seu interesse por essas questões (desde que não ponha metade da informação de parte para poder justificar a sua ideologia). Parece confundir sistemas complexos com sistemas caóticos e algumas das suas afirmações têm graves problemas de precisão (mesmo tendo em conta o espaço que utilizamos; eu próprio cometi um grave erro no comentário que originou esta discussão, e que ainda agora, ao fim de várias intervenções, tem os seus efeitos).

Por exemplo, João Miranda escreve que ?Não bastaria conhecer as condições iniciais. Seria necessário conhecer as condições iniciais com uma precisão infinita.?. Esta frase não faz sentido. Eu não sei a diferença entre conhecer as condições iniciais e conhecê-las com precisão infinita. Aliás, nem sei o que é conhecer com precisão infinita.

Mas como não posso escrever aqui um tratado sobre complexidade (nem conseguia) sugiro a leitura de um pertinente artigo: Is Hayek's Social Theory an Example of Complexity Theory?

Assim, podemos estudar a teoria da complexidade e a ideias de Friederich Hayek, que parece ser o guru ideológico de alguns liberais. O artigo não pretende diminuir o trabalho de Hayek, antes pelo contrário. Mas pretende enquadrá-lo numa perspectiva moderna, e de cariz científico, da teoria da complexidade. Um comportamento que me deixa perplexo é o apego que algumas pessoas têm aos pensadores que produziram textos e teorias que corroboram as suas crenças políticas, sociais ou morais. Uma vez descoberto o mestre, parece que tudo o que o engenho humano produziu antes e, especialmente, depois desses trabalhos não tem valor suficiente para, pelo menos, uma pequena vista de olhos (será que o João Miranda esteve no seminário de John Holland?...o autor deste blog (Picuinhas) teve interesse e curiosidade suficiente para lá ir).

Outro comportamento habitual é a leitura transversal de algumas obras. O exemplo do darwinismo é esclarecedor. Quantas teorias sociais e políticas foram forjados sobre uma interpretação abusiva do autor da "Origem das Espécies"? Algumas: eugenia, racismo, darwinismo social. Muitas expressões anglo-saxónicas foram criadas baseando-se nas cruéis relações inter-espécies do mundo animal. Para aqueles que gostam de as aplicar na descrição de relações humanas, aconselho um pequeno trecho do livro Moby Dick, de Herman Melville, que ficou conhecido como "Sermão aos Tubarões". Leiam o livro e encontrá-lo-ão.

Uma das falácias do (algum) discurso liberal, também baseada no darwinismo e fortemente influenciada pelo trabalho de Hayek, é a ideia de que a procura do que é melhor para nós conduz à optimização do conjunto (sociedade). Afirmá-lo é recusar décadas de investigação científica; é ignorar Von Neumman, a teoria dos jogos ou o dilema do prisioneiro; é esquecer os avanço na matemática e na teoria dos conjuntos; é recusar o equilíbrio de Nash. Felizmente, alguma teoria económica (mesmo liberal) vem sendo desenvolvida de acordo com estes novos paradigmas.

Sugiro uma reflexão sobre a última frase do artigo que referi.

João Miranda

O Carlos cria um Homem de Palha para melhor me atacar. Não adianta porque eu não defendo os argumentos que ele ataca.

Só para dar um exemplo, não se pode concluir dos trabalhos de Hayek que "a procura do que é melhor para nós conduz à optimização do conjunto (sociedade)."

Conclui-se outra coisa mais importante: o conceito de optimização global da sociedade não faz sentido porque pressupõe valores absolutos. Hayek defende , e bem, que em economia todos os valores são subjectivos e incomensuráveis.

O argumento segundo o qual "a procura do que é melhor para nós conduz à optimização do conjunto (sociedade)" é um argumento secundário porque pressupõe valores comuns. Se admitirmos esse pressuposto, o que numa discussão com um socialista pode ser útil, o argumento é sólido na maior parte das situações.

Os liberais conhecem muito bem a teoria dos jogos e o dilema do prisioneiro. E por isso mesmo é que são contra a propriedade colectiva e contra o controlo político da actividade económica. O estado é uma entidade demasiado vulnerável à tragédia dos comuns.

Quanto ao resto, o Carlos não respondeu aos meus dois argumentos fundamentais:
  • como é que um controlador pode controlar uma economia sem aceder à informação dispersa por toda a sociedade?
  • como é que se controla um sistema caótico com biliões de graus de liberdade?
O Carlos parece acreditar que é possível controlar científicamente a economia. Mas essa é que é a ideologia utópica que poderia resultar das novas ideias sobre complexiade. A dispersão da informação não o permite.

Carlos Miguel Fernandes

Não pretendo atacá-lo (estou a ser sincero). Mas não podia deixar passar certas imprecisões, especialmente porque servem de base a outras conclusões.
Um exemplo do seu último comentário: Pergunta-me "como é que se controla um sistema caótico com biliões de graus de liberdade?". Afinal, a economia é um sistema complexo ou caótico? Na abordagem moderna da complexidade existe diferenciação entre os dois termos. E fala de sistema caótico com biliões (onde foi buscar este valor?) de graus de liberdade. Isso significa que existem sistemas caóticos com poucos graus de liberdade? Ou então está a distinguir daqueles que têm apenas milhões de graus? Podem parecer questões secundárias garanto-lhe mas não são. Devemos comunicar com precisão.

A primeira questão que põe pode ser abordada de duas formas:

Eu posso controlar o nível de um depósito de um líquido sem saber a densidade do mesmo, nem a sua cor ou cheiro.

Mas a questão nem sequer é essa. O que pretende a teoria da complexidade (pelo menos no estado em que se encontra a investigação teórica e o potencial tecnológico) não é um controlo preciso baseado em toda as variáveis do sistema. O que se procura é o padrão que, segundo se acredita e a observação tem confirmado, todos os sistemas complexos apresentam (ao contrário dos sistemas caóticos que, aparentemente, não revelam padrões de comportamento). Se, com a compreensão do padrão, conseguirmos prever comportamentos, mesmo que qualitativos, porque será que não podemos intervir, partindo do princípio que a nossa intervenção faz parte do sistema logo, o padrão que conhecemos incorpora a intervenção.

Eu nunca disse que devemos ou podemos controlar cientificamente a economia. Mas, tal como há séculos atrás, começámos a prever, com muita exactidão, o movimento dos planetas, será que um dia não seremos capazes de prever (com alguma precisão, não quero quantificar) o comportamento de um sistema complexo (ou mesmo de um sistema caótico, mas isso levaria a uma reformulação da teoria). Diga-me uma coisa: se, com a ajuda das leis de Newton, fosse prevista uma colisão de um cometa com a Terra, daqui a cem anos, devíamos esperar o evento sem nada fazer. É que o universo seguirá o seu curso normal. Não é por a humanidade desaparecer que estamos perante um comportamento caótico, pois não? Para quê intervir, então?

Não é de um controlo exterior, por parte de alguma entidade poderoso, que eu falo. Nós fazemos parte do sistema. Se conseguirmos prever o resultado das nossas acções, podemos 'controlar' o sistema, mesmo sendo parte integrante do mesmo.

Ainda há alguns pontos do seu último comentário que gostaria de abordar, mas voltarei mais tarde.

[...]

João Miranda

Um sistema complexo é um sistema que está para alem das capacidades cognitivas de qualquer ser humano ou de qualquer análise matemática e mesmo dos meios computacionais mais vulgares.

Algumas das características dos sistemas complexos são as seguintes:
  • as partes encontram-se dispersas no espaço e no tempo;
  • o número de graus de liberdade é elevado;
  • as relações entre as partes são não lineares;
  • a informação leva tempo a propagar-se pelo sistema e é modificada;
  • formam-se estruturas a várias escalas;
  • o sistema é aberto e as fronteiras não são claras;
  • fenómenos simples nas microescalas produzem auto-organização nas macroescalas;
  • nenhuma parte pode conter o todo, caso contrário o sistema passava a ser um sistema simples;
  • Segue-se que nenhuma parte pode controlar o todo.
Um sistema caótico é um sistema em que ocorre o fenómeno de dependência sensível às condições iniciais. Tanto pode ser um sistema simples (com poucos graus de liberdade) como uma parte de um sistema complexo (com muitos graus de liberdade). O modelo de Lorenz, muito citado em qualquer livro introdutório tem apenas 3 graus de liberdade. A equação logística só tem 1.

O número de graus de liberdade de um sistema é igual ao número de condições inciais, ao número de variáveis e igual ao número de equações que descrevem o sistema. Uma economia é um sistema complexo, tendo um elevado número de graus de liberdade, porque o número de variáveis é extremamente grande. Basta pensar que uma economia depende de cada uma das pessoas que a constitui, dos meios disponíveis e das restrições ambientais.

Um sistema complexo como a economia pode ter ilhas de caos. Isto é, algumas variáveis que por períodos mais ou menos longos se comportam de forma imprevisível para um observador local. Ou então zonas em que os padrões macroscópicos se desfazem. No entanto, falta provar que o caos é necessariamente mau. Pode haver aqui uma ilusão colectivista que leva algumas pessoas a defender que determinados padrões macroscópicos são mais importantes que a liberdade microscópica dos agentes.

Caos não deve ser confundido com o significado habitual da palavra caos. O choque de um cometa com a Terra não é certamente um fenómeno caótico, principalmente se esse acontecimento puder ser previsto com 100 anos de antecedência. Os acontecimentos caóticos são, por definição, imprevisíveis.

Não é possível controlar a economia da mesma forma que se controla um tanque por três razões fundamentais:
  1. Em economia não existe uma única função objectivo a optimizar. Existem biliões e cada pessoa tem a sua. Não existem valores absolutos. Os valores são subjectivos e incomensuráveis.
  2. Mesmo que existisse uma função objectivo, o controlador não saberia como agir porque não dispõe da informação dispersa por todo o sistema nem pode prever as consequências dos actos de regulação. Enquanto num tanque, existem duas ou três variáveis com efeitos previsíveis, numa economia existem bilhões com efeitos imprevisíveis.
  3. O controlo tem que ser feito em tempo útil e os agentes económicos reagem às medidas de controlo. Como a informação se propaga lentamente numa sociedade e como essa informação é modificada, as acções de controlo tendem a ser absorvidas sem provocarem qualquer efeito.
E, apesar de poder ser possível controlar alguns padrões da economia, isso não é minimamente desejável. O que acontece é que os padrões emergentes são padrões macroscópicos que nada nos dizem sobre o destino das pessoas que os geram. Isto é, a obsseção pela manutenção de um determinado padrão macroscópico pode provocar consequêncas imprevisíveis nas pessoas que são forçadas a comportamentos que geram o padrão. As preferências das pessoas individuais não devem ser sacrificadas às preferências por um determinado padrão que determinado controlador acha desejável.

Só para dar um exemplo, as formigas de um formigueiro geram uma paisagem ordenada que se distingue perfeitamente da paisagem onde não existem formigas. Mas nada na visão de um formigueiro nos garante que nenhuma formiga foi sacrificada para se conseguir aquele resultado. Uma sociedade injusta pode, mesmo assim, gerar padrões extremamente interessantes.

Carlos Miguel Fernandes

Não tenho tempo agora para lhe responder convenientemente, mas não posso deixar passar em claro o seu comentário sobre o cometa. Eu nunca escrevi que o choque do cometa é um acontecimento caótico. Por favor, releia as minhas palavras. Vai ver que não estou a fazer confusão nenhuma com os termos. Tenho alguma confiança de que o (muito) tempo que gasto a estudar complexidade, auto-organização e sistemas adaptativos me permite ter uma abordagem correcta do conceito de caos. Mas este pequeno pormenor faz-me recear que esteja a ser mal compreendido. Não sei se a culpa é do emissor ou do receptor mas vou tentar fazer um esforço para ser mais claro.

João Miranda

De facto, o meu comentário não está correcto. O essencial do que eu quis dizer foi que "caótico" não é sinónimo de "indesejável".

Quanto ao facto de existirem perigos previsíveis que podem ser evitados, os liberais não defendem que devemos ficar de braços cruzados. O que os liberais defendem é que a melhor forma de lidar com qualquer perigo é através de um sistema em que as decisões são tomadas de forma descentralizada.

Carlos Miguel Fernandes

Mas 'caótico' deve ser sinónimo de 'indesejável', pelo menos no sentido correcto do termo. O que o João Miranda está referir não é caos mas perturbações que levam o sistema, temporariamente, a dimunir a sua aptidão. Mas, a médio prazo, a perturbação pode levá-lo a óptimos que ainda não tenham sido descobertos. Se for isto o que quer dizer penso que tem razão.

Não é um controlo central que eu defendo, mas na verdade não consigo descobrir qual será a melhor forma de dimensionar os vários centros de decisão. Porque a questão importante é esta: a dimensão dos centros de decisão. Com um grande centro de decisão, em que todos os indivíduos trabalham para o bem do conjunto, temos um sistema em regime estático (Kauffmam até lhe chama regime Estalinista). Mas um sistema em que cada indivíduo age no seu próprio benefício está em constante mutação (e, entre os altos e baixos, e sua aptidão média não é melhor do que a de um sistema estático). É o que se chama, na teoria da complexidade moderna, um sitema caótico. Os sistemas complexos situam-se entre estes dois extremos (estas conclusões foram baseadas em experimentacão). A dificuldade consiste em perceber qual a dimensão correcta das entidades (conjuntos de indivíduos, retalhos (patches), centros de decisão, podemos chamar-lhes muita coisa) para que a evolução (prefiro adapatação) se encontre no limiar do caos. É este o conceito da auto-organização. Por algum mecanismo que ainda não foi entendido, todo o sistema complexo evolui (evolves) no limiar do caos. Então, quando falamos de economia, falamos de um sistema cujo comportamento pode cair em três estados: caótico, complexo ou estático (ordered regime, ainda não encontrei um boa tradução para este estado). O modelo económico que escolhemos (aqui já estou a especular) deve estar mais preocupado com a dimensão dos 'centros de decisão' (não sei se é a melhor expressão, estou a tentar seguir o raciocínio de João Miranda) do que em centralizar ou não centralizar. Mas qualquer que seja o ponto de vista, vais haver sempre uma espécie de centralização. Ou será que, tal como na democracia, conseguiremos dividir esse centro em retalhos (depois aparece o problema da divisão dos retalhos em sub-retalhos, mas é inevitável num sistema).

Picuinhas

Não tenho tempo agora para dar a minha opinião sobre todos estes comentários. Mas chamou-me a atenção a ideia de que há um "óptimo" para uma sociedade, que pode ser descoberto ou aproximado melhor de uma forma distribuída (ou descentralizada). O que é o óptimo de uma sociedade? Quem o define? O governo? Um conjunto de iluminados? Cientistas? É decidido democraticamente? Afinal, quem toma as decisões democráticas são os mesmos agentes de que depende o comportamento do sistema. Esses agentes são seres humanos, e são os mesmos que teorizam acerca do próprio sistema e que, ao fazê-lo, lhe alteram o comportamento de forma que não podem prever. Quanto ao caos, eu diria que as nossas sociedades estão bem longe de estar nesse regime. Estão, isso sim, bem mais próximas do "ordered regime".

Por outro lado, quanto mais ouço falar da investigação em sistemas complexos, mais o assunto me fascina. É perfeitamente legítimo, e interessante, tentar tirar conclusões qualitativas (ou mesmo quantitativas) acerca do comportamento das nossas sociedades, através da simulação de sistemas complexos. Mas seria uma enorme arrogância considerar que os modelos são tão bons que essas conclusões devam moldar as nossas políticas. Espero sinceramente que isso não aconteça. Para políticas de base "científica" já basta o marxismo.

João Miranda

Alguns comentários:
  1. O que é ou não desejável é um problema ético cuja solução depende de valores. Os valores são subjectivos. Que sistema de valores é que o Carlos adopta para dizer que o caos é indesejável? Esse sistema de valores é comum a todos os seres humanos?
  2. O Carlos diz que "um sistema em que cada indivíduo age no seu próprio benefício está em constante mutação (e, entre os altos e baixos, e sua aptidão média não é melhor do que a de um sistema estático)". Curiosamente, há estudos que mostram precisamente o contrário (Ver "The evolution of cooperation" de Robert Axelrod). O interesse próprio não é incompatível com a cooperação nem com a estabilidade. Essa, aliás, é uma ideia liberal antiga. É do interesse próprio de cada um que emergem as instituições humanas. E estas instituições tendem a produzir resultados melhores para todos.
  3. O liberalismo não proíbe a cooperação entre individuos. Proíbe apenas a formação de associações não voluntárias. Na prática, os seres humanos tendem a associar-se uns aos outros de forma voluntária.
  4. As associações voluntárias e as trocas voluntárias permitem a coordenação de esforços entre pessoas com valores diferentes. As sociedades liberais não são colecções de indivduos desgarrados uns dos outros.
  5. Numa sociedade liberal, tendem a emergir espontaneamente centros de decisão consentidos por todos os individuos e a dimensão destes centros de decisão tende a adaptar-se às circunstâncias e às necessidades. Uma sociedade liberal não é uma sem centros de decisão. É uma sciedade em que todos os centros de decisão respeitam a regra da não iniciação da força.
  6. A escolha das dimensões dos centros de decisão é ela própria uma decisão. Que centro de decisão é que toma esta decisão e que dimensão tem? Catch 22.
  7. O tamanho óptimo dos centros de decisão é em si mesmo um problema económico cuja solução tem que ser determinado. Mas a informação necessária para determinar essa dimensão não é acessível a ninguém. Lamento, mas o problema da dispersão de informação é inultrapassável.
  8. Um liberal Hayekiano dirá sempre que o tamanho óptimo dos centros de decisão só poderá ser determinado pelo próprio sistema e nunca por um cientista iluminado. Para os liberais Hayekianos, a economia é melhor (mais rápido, mais preciso) simulador da economia. Esta é uma característica de qualquer sistema complexo. Um sistema complexo é sempre o melhor simulador de si próprio.
  9. Uma sociedade liberal funciona como um algorítmo genético. A liberdade dos agentes se associarem permite que diferentes dimensões dos centros de decisão sejam testadas. Os centros de decisão que melhor sobrevivem ao teste do tempo são aquelas que melhor servem as preferências dos seus membros. Têm a dimensão adequada aos valores dos seus membros.
Picuinhas

Gostei da da simulação. Não há dúvida: a melhor forma de prever o futuro é esperar que aconteça.

Carlos Miguel Fernandes

Ao Picuinhas:

Também não acredito que possamos definir o óptimo (global) de uma sociedade (existem mesmo classes de problemas ? reais e teóricos ? onde não é possível conhecer previamente o óptimo global). Mas, considerando o bem estar dos indivíduos, podemos dizer alguma coisa quanto ao estado dessa sociedade. Além disso, os óptimos talvez estejam em constante mudança. Não é uma paisagem de aptidão (fitness landscape) imutável. Aquilo que eu tentei dizer foi o seguinte: um sistema a evoluir no limiar do caos tem mais possibilidades de saltar para óptimos locais mais elevados. É a mesma coisa que acontece quando subimos a uma colina e verificamos que, ao lado, existem outras mais elevadas. Para conseguir atingir o seu topo, é necessário sair do local onde nos encontramos. E para que isso acontece temos que descer. Num regime estático (marxista ou estalinista) isso não é possível. Uma vez encontrado um ponto aparentemente estável não se vai para mais lado nenhum. Como costuma dizer um amigo meu, o marxismo do leste europeu era muito bonito mas, mesmo que não tivesse mais problemas, havia um problema incontornável: o nivelamento por baixo. Basta comparar os países que faziam parte do pacto de Varsóvia com a antiga Jugoslávia que, apesar de se considerar como um país socialista, adoptou um regime de mercado livre. Mas um regime caótico também não me parece desejável (dêem-me exemplos de sistemas que se desejem caóticos, mas considerando uma abordagem moderna da teoria da complexidade). A oscilação e instabilidade inerentes obrigariam a uma mudança muito rápida de aptidões, sem que as que fossem entretanto adquiridas pudessem ser convenientemente exploradas.

É verdade que os seres humanos fazem parte do sistema. Se não fizessem e se as suas acções não produzissem efeitos de quantificação difícil, talvez não fosse um sistema complexo, não é?

Fazendo a analogia com a teoria da auto-organização não me parece que a nossa sociedade esteja no ?caos? nem no ?ordered regime?, embora alguns sub-sistemas possam apresentar essas características. Se, como se acredita, a economia mundial é um sistema complexo, tenderá sempre para um regime ?no limiar do caos? (o no limiar do ?ordered regime?, é a mesma coisa).

Mais importante do que moldar as nossas políticas é tentar compreender as conseqüências das mesmas. Nem que seja para satisfazer a natural curiosidade humana.

Respondei a João Miranda noutra altura, até porque ele colocou muitas questões e observações pertinentes.

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Agora, com mais tempo, vou tentar comentar as últimas observações de João Miranda. Mas antes devo dizer que, embora amenizado nos último comentários, o tom do seu discurso continua a não ser o mais adequado. Penso que está convencido que eu tento arranjar provas irrefutáveis ou justificações científicas para as minhas crenças. Mas não é verdade. Só quero levar as pessoas a pensar um pouco nos fenómenos que as rodeiam e no seu próprio sistema de crenças. Não pretendo dar respostas, apenas fazer perguntas. Tento ainda descrever algumas ferramentas que conheço e que podem (ou não) ajudar no processo. Tenho uma abordagem das questões que se baseiam no método científico, é verdade. Evito estabelecer bases morais ou ideológicas. Uma das forças da ciência está na forma como tenta encontrar os pés de barro dos seus ídolos para melhor os destruir, não tentando escondê-los para mais facilmente erigir outros edifícios, com fundações do mesmo material (embora exista, mesmo dentro da ciência, tendência para o fazer; talvez seja humano, ninguém gosta de ver as bases de uma vida inteira de investigação cair à sua frente). Se Einstein não tivesse questionado a universalidade das leis de Newton, não teria desenvolvido a teoria da relatividade. E se o físico português João Magueijo adoptasse uma postura de crença, nunca teria questionado Einstein e a constância temporal da velocidade da luz (independentemente de estar correcto, ainda é cedo para o dizer). Esta autofagia da ciência é a idiossincrasia que lhe permite estar em constante mudança e permanentemente viva.

Vamos aos comentários dos comentários:
  1. O sistema de valores que defende que ?o caos é indesejável? é comum a todos os humanos? Poderá ser ou não. Será que é desejável que as células do nosso corpo comecem a mutar constantemente? Daria ao cancro uma nova dimensão. Talvez exista alguma lei física que impeça os sistemas complexos de caírem no caos (note-se que, segundo a teoria moderna, o clima não é necessariamente um sistema caótico, mas aparenta as características de um sistema complexo). Não nos esqueçamos que um sistema caótico apresenta comportamento aleatório. Acredita-se que a aleatoriedade pode não existir na natureza. Assim, talvez nem sequer existam sistema caóticos. Aqueles que, hoje, consideramos caóticos, seriam aqueles que ainda não foi possível estabelecer, ou descobrir, o padrão de auto-organização. Mas já estou a especular e a divagar...
  2. Existem estudos que afirmam o contrário do que eu digo? Acredito que sim. Não conheço o livro que refere. Mas é de 1984. E não sei se o autor recorreu a experiências ou apenas a argumentos para defender a sua tese. Stuart Kaufman tem livros de 94 e 96. A ?Ordem Oculta? de Holland é de 96 e o livro ?Emergence: From Chaos to Order?, do mesmo autor, é de 97. Não estou a invalidar o trabalho de Axelrod (quero apenas salientar que existem resultados mais frescos). Posso até dizer-lhe que acrescentei o título que referiu a uma lista de aquisições a curto prazo.
  3. Nada a acrescentar...
  4. Nada a acrescentar...
  5. Não me choca este comentário...
  6. Um problema que já referi. Não tenho a ambição de apresentar uma solução, nem sequer de defender que ela existe.
  7. Esta é a questão mais complexa, mesmo a nível filosófico. Não queria acrescentar muito, até porque não reflecti convenientemente, mas receio que estejamos a cometer cair no erro do antropocentrismo.
  8. Nem eu disse que algum ?cientista iluminado? deveria dimensionar os centros de decisão. Mas se conseguirmos entender as consequências das várias dimensões não evoluiremos na escala do conhecimento humano? Conhecer não implica interferir. E não se trata de prever o futuro. Todos nós conhecemos o grau de confiança das previsões meteorológicas, mas qualquer ser pensante é capaz de dizer que em Agosto, em Lisboa, é pouco provável que as temperaturas desçam até valores negativos.
  9. Posso dizer-lhe que uma sociedade marxista também funciona como um algoritmo genético (AG). "Mal" dimensionado, é certo, mas funciona como um sistema desse tipo. Grande parte do esforço de investigação teórica sobre AGs centra-se no problema da convergência prematura. Um AG mal dimensionado pode encontrar facilmente um óptimo local de baixa aptidão. Mas um AG mal dimensionado também pode deambular caoticamente pelo espaço de procura, tornando a descoberta de uma boa solução um acto de pura sorte. Talvez seja o seu dimensionamento no limiar do caos que maximiza o desempenho de um AG. Na minha dissertação de mestrado cheguei a conclusões semelhantes, embora não fosse o objectivo principal da tese. Posso facultar-lhe o acesso ao texto, se estiver interessado.
Mas o seu comentário não está incorrecto. Só que parte da premissa de que o sistema está 'bem' sintonizado (e até acredito que esteja). O problema reside na função objectivo. A sua será igual à minha? (cá está o antropocentrismo a mostrar-se nesta minha última pergunta...)

Deixo-vos com um parágrafo de John Holland que encontrei no livro ?A Ideia Perigosa de Darwin?, do filósofo norte-americano Daniel Dennet. Não é uma obra que trate directamente do assunto que estamos a discutir, mas pode ser que até nos forneça algumas pistas. Por isso, e pela excelência do livro, aconselho a sua leitura (editora Temas e Debates).

Este parágrafo encontra-se num capítulo que questiona abordagem de Noam Chomsky ao problema da linguagem humana:
Um modelo interno permite que um sistema olhe em frente para as futuras consequências das acções presentes, sem na realidade se vincular a essas acções. Em particular, o sistema pode evitar actos que o colocariam irreversivelmente na trajectória de algum desastre futuro ("saltar um penhasco"). Menos dramaticamente, mas igualmente importante, o modelo permite ao agente efectuar lances posteriores obviamente vantajosos. A própria essência da vantagem competitiva, quer seja no xadrez ou na economia, é a descoberta e a execução de lances de montagem de palco.
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Esqueci-me da referência da citação. Vi-a no livro de Dennet mas originalmente vem de: Holland, John, 1992. "Complex Adaptive Systems" Daedalus, Inverno, pág. 25. [Nota: Não consegui encontrar o livro na Amazon.]

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