2005-02-16

"Não pare de ler esta carta"

Assim começa uma sequência de frases desconexas, com fraca sintaxe, pejada de ilogismos e reveladora de uma verdadeira paranóia. A coisa é assinada por Pedro Santana Lopes. Deixaram-ma dentro de um envelope, na caixa do correio. Em circunstâncias normais concluiria tratar-se de uma brincadeira ou de uma manobra para desacreditar o suposto signatário. Mas, sendo o nosso primeiro ministro quem é, tenho de concluir que é autêntica. Enfim, talvez a coisa tenha tido pelo menos um dos efeitos pretendidos: estou quase convencido a votar. Outro efeito talvez não tenha sido o desejado: é que não tenho já sombra de dúvida contra quem o farei.

Transcrevo para a posteridade (leia-se ao mesmo tempo que se ouve o "Guerreiro Menino"; a experiência é inesquecível):

2005-02-12

Propriedade pouco privada

António Champalimaud, segundo o Público, fez uma colecção de arte que os herdeiros pretendem leiloar em Londres. Para o fazerem, no entanto, precisam de autorização do Ministério da Cultura:
O parecer técnico positivo já foi dado pelo Instituto Português de Museus (IPM). "Foi pedida a exportação de 194 peças. O parecer é favorável. Não está em causa a importância das peças, mas não eram indispensáveis às colecções públicas", diz o director do IPM, Manuel Bairrão Oleiro. De qualquer forma, acrescenta, as peças não poderiam ser classificadas, porque entraram no país há menos de 50 anos. A sua saída só podia ser impedida de forma "transitória", uma medida que não foi equacionada.
Note-se bem que "as peças não eram indispensáveis às colecções públicas"... Se algum burocrata da cultura, ou do "património cultural" (a palavra "património" neste contexto tem uma conotação particularmente perversa), tivesse achado o contrário, nada feito. Conclui-se que Champalimaud não era tão rico como se diz. Pelo contrário, a parte da sua riqueza representada pela sua colecção afinal estava-lhe simplesmente confiada pelo nosso magnânime estado, que, talvez influenciado pelo facto de 25% das receitas irem reverter para fundação presidida por Leonor Beleza - coisa que deveria ter relevância nula para o caso -, a decidiu agora ceder aos herdeiros. Sortudos.

2005-02-11

Interfada

A ciberguerra volta recorrentemente aos meios de comunicação social. É uma guerra sem exércitos, mas com agências secretas e com cidadãos aparentemente comuns. Ainda não teve consequências verdadeiramente dramáticas, mas lá chegaremos. Desta vez a ciberguerra é uma "interfada". O alvo são os "sionistas", para variar.

2005-02-08

Arabs Against Discrimination

Foi criada a AAD (Arabs Against Discrimination), uma associação árabe cujo objectivo é dar a ler ao mundo o que se vai escrevendo em hebraico, respondendo assim ao MEMRI (Middle East Media Research Institute), organização congénere que vem traduzindo (selectiva e não inocentemente) o que se escreve no mundo árabe. Esperemos que a soma destas duas visões (muito) parciais nos permita ter uma perspectiva mais completa sobre o médio oriente. E que os todos os conflitos no médio oriente em breve sejam como este: só de palavras.

2005-02-07

Navegou e venceu

Ellen MacArthur acabou de bater o recorde do mundo de circum-navegação solitária, sem escalas, num magnífico trimarã de 23 metros. Um feito.

2005-02-05

Agradecimentos

Os nossos agradecimentos sentidos a todos os que nos felicitaram por dois anos na blogosfera. Ao Xanelcinco, que não é por acaso que fica em primeiro lugar na lista, ao Office Lounging, a'O Observador, ao Jaquinzinhos , a'O Intermitente e ao por tu graal, estes sim por ordem arbitrária, muito obrigado.

Agradecimentos também ao MacGuffin, que se prepara também para fazer dois anos.

(É possível que faltem alguns agradecimentos nesta lista, pois o Technorati não tem ajudado nada...)

2005-02-04

Umbiguismo

O número de Dezembro da Communications of the ACM* é dedicado à blogosfera. Material interessante, embora de acesso restrito (possível através do b-on, para as instituições aderentes).

* ACM é a Association for Computing Machinery, uma das duas melhores organizações profissionais e científicas na área da informática, em conjunto com a IEEE Computer Society.

Ainda à espera

A Comissão Independente de Inquérito ao programa Oil for Food, presidida pelo ex-chairman do Federal Reserve Paul Volcker, divulgou ontem mais um relatório intermédio, contendo novas conclusões sobre os indícios de corrupção de altos funcionários da ONU (cf. “À espera de Volcker”, publicado aqui em 22-11-2004). Este relatório surpreende pela linguagem e pelo conteúdo.

Benon Sevan, o responsável directo pelo programa, é acusado de "conduta não ética" mas não de corrupção; não se encontra qualquer referência explícita a subornos recebidos por Sevan ou por outros responsáveis do programa, ou a actos que possam constituir crime (a palavra "criminal" é mencionada apenas uma vez nas 246 páginas do relatório). Em declarações à imprensa, Paul Volcker disse:
"I think it is a fact that Mr. Sevan placed himself in a grave and continuing conflict of interest situation that violated explicit U.N. rules and violated the standards of integrity essential to a high-level international civil servant."
Até os 160 000 dólares que Sevan alega terem-lhe sido “dados” por uma tia, ficam sem explicação alternativa, embora o relatório sugira que a “modesta pensão de reforma” da generosa tia, uma senhora de idade residente no Chipre, não daria para tanto. Infelizmente parece que a senhora sofreu um acidente fatal num elevador antes de ser interrogada...

Kofi Annan já se comprometeu a retirar a imunidade diplomática a qualquer funcionário da ONU que venha a ser acusado de crimes relacionados com este escândalo. O relatório final da comissão Volcker está previsto para Junho, mas a avaliar pelo teor dos relatórios intermédios, é mais provável que essas acusações resultem das investigações conduzidas pelos EUA. No momento em que forem formalizadas acusações criminais contra responsáveis do programa, não basta ao Secretário-geral da ONU cumprir a promessa que fez. A responsabilidade pelas eventuais fraudes e corrupção é decidida pelos tribunais competentes, mas a responsabilidade de Kofi Annan é de ordem diferente: é política e deve levar à sua demissão.

2005-02-03

Parabéns a nós

Fazemos dois anos.

Profetas a seco

Golda Meir é (também) recordada por frases memoráveis, como esta: “Moses dragged us for 40 years through the desert to bring us to the one place in the Middle East where there was no oil”. O pior é que também não tem lá muita água. A motivação dos principais conflitos político-militares é velha como o mundo: a disputa violenta pelos direitos de propriedade sobre recursos económicos. Com o tempo os recursos variam (no Médio Oriente tendem a ser líquidos); o discurso político propõe novas formas de legitimação, mas a lógica permanece a mesma de sempre. Para se encontrar “a solução” para uma paz duradoura no Médio Oriente não bastam promessas de “cimeiras”, ou de auxílio financeiro: é preciso encontrar água. E que chegue para todos; descendentes ou não do “povo de Moisés ”.

2005-02-02

Charlie's gone, Teddy, it's all over now

Pouco tempo antes das presidenciais 2004 nos EUA, Jon Stewart, o "frontman" do Daily Show, insuspeito de qualquer simpatia pelo GOP, disse que achava John Kerry "o homem certo para nos tirar do Vietname". Alguém se esqueceu de explicar ao Senador Edward Kennedy que era uma (excelente) piada, que a Guerra do Vietname já acabou e que o Iraque é uma história muito diferente. Ninguém lhe explicou e ele, coitado, parece que não chega lá sozinho.

Terrorismo e indulgência

Se deitarem a mão a uma cadeira atirá-la-ão contra a montra da loja mais próxima; se deitarem a mão a um avião atestado de combustível, projectam-no contra edifícios em Nova Iorque. O ódio político à “globalização” é o mesmo; a disposição para recorrer à violência contra inocentes é a mesma; a loja do lado e o World Trade Center têm para o terrorista o mesmo “valor simbólico”. Só os meios e a disposição pessoal é que os distinguem: o jihadista da Al Qaeda vive como um selvagem, escondido no meio das montanhas inóspitas da Ásia Central e não se importa de morrer (ou mandar morrer) em nome da "causa"; o “alter globalista”, depois da sua rebeldiazinha diária, quer voltar para casa (dos papás?) e continuar a usufruir do bem estar que a sociedade “globalizada” e orientada pela motivação económica lhe proporciona. O jihadista é menos hipócrita.

2005-01-31

A gargalhada

Acerca das eleições no Iraque, diz o Ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Michel Barnier:
C'est une victoire pour le peuple irakien, et c'est une première marche importante, qui était indispensable pour la démocratie et pour le processus politique que nous souhaitons et auquel nous travaillons - je parle de la communauté internationale - depuis des mois.
"Nós" a "comunidade internacional". Incluindo, claro, a França, que contribuiu fortemente para as eleições no Iraque, como bem sabemos...

Picamiolo

Um bom amigo. Bem-vindo!

2005-01-30

Temer ou esperar?

Para a TSF, nas eleições no Iraque não ocorreu o grau de violência esperado. Para a BBC, não ocorreu o grau de violência temido. A escolha inconsciente de uma palavra tão ambígua como esperada é reveladora da parcialidade da TSF.

Avidez de sangue

Na TSF já se ouvem os repórteres, ávidos de sangue, anunciando com satisfação mal disfarçada os atentados que vão ocorrendo no dia de eleições no Iraque.

A destruição lenta de Portugal

Autor? O Estado, claro. A costa de Cascais e do Estoril está a ser "requalificada". Detestamos a desordem das rochas, que ali estão, ao acaso, há milénios. Não suportamos as plantas que crescem onde lhes apetece, temos de "desmatar". Precisamos de betonar, "consolidar" arribas, permitir à população "usufruir" os belíssimos paredões que se constroem há décadas, e que se continuarão a construir por esse país fora.

Há uns tempos, numa assembleia de freguesia em que se discutia um orçamento que incluía pagar a um professor de Tai Chi para dar as suas aulas aos fregueses que o desejassem, pagar ateliers de pintura e outras "artes" a quem as poderia pagar do seu próprio bolso, pagar "acções praia-campo" a que qualquer freguês, rico ou pobre, pode mandar gratuitamente os seus filhos, financiar um deficitário posto médico onde o executivo e membros da assembleia têm direito a consultas gratuitas ("é necessário compensar-nos de alguma forma, que estamos aqui a trabalhar pela população, não é?", "afinal, não é isto que se faz em todo o país?", "o senhor é um idealista", "repare, isso é um mesquinhice, já viu o peso reduzido que isso tem sobre o orçamento?"), um membro da assembleia que, na oposição, se preparava para uma confortável abstenção, explicou-me que tudo isto era natural, pois as freguesias têm pouco poder e têm de descobrir coisas para fazer, em que possam gastar o dinheiro que têm à sua disposição.

O trágico é que o mesmo se passa, em escalas sucessivamente maiores, com os municípios e com o próprio governo. E assim vamos, com aulas de Tai Chi e TGV, passando por "requalificações do litoral", "mobiliário urbano" e "enchimento artificial da praias", aumentando o poder do estado, tornando-nos crianças a quem oferecem uns parques de diversões (que pena termos perdido a America's Cup... mas sempre ganhámos o Campeonato Mundial de Vela*!), habituando-nos a pedir sempre mais e mais, enquando se destrói um país e se quebra a espinha a um povo, lentamente.

* "Investimento" do Estado? 16 milhões de euros...

2005-01-28

Vizinhanças

Há posts que valem a pena. A doutrina da Liberdade é um deles. Acho eu.

2005-01-27

Humor em Política

O Wall Street Jornal Europe publicou ontem uma notícia muito divertida. O jornal dá conta de uma brutal injecção de capital — cerca de 500 milhões de dólares — directamente dos cofres do Governo da República Francesa para a conta bancária de uma empresa privada, com o estimável propósito de a salvar da falência certa.

Não, não se trata da ELF, nem da Air France, nem da Renault, nem de nenhuma das ilustres bandeiras da economia francesa. Trata-se da Euro Disney SCA. Pois, essa mesmo: a subsidiária europeia da gigante americana Walt Disney Co.

E assim temos o campeão europeu do anti-americanismo a dar uma mãozinha (uma senhora mãozinha, diga-se de passagem) a um estandarte da cultura burguesa e consumista—provavelmente o maior dos estandartes, já que se baseia numa combinação inebriante de Hollywood e fast-food. É ou não é divertido?

Eu acho que é. Mas, para variar, o MNE francês tem uma opinião diferente. Para ele tudo isto é muito sério: "Nós estamos reconhecidos ao povo americano e temos muito respeito pela sua cultura."

Claro, claro... Pela mesmíssima cultura que há bem pouco tempo, como bem lembra o op-ed do WSJE, mereceu do Presidente da República Francesa o epíteto: "Desastre ecológico". Divertido, não é?

Bom, mas agora a sério: convém não perder de vista a crise do emprego em França, e só o parque de diversões da Disney (verdadeiro "Chernobyl cultural", no entender da elite cultural francesa) é responsável por 43.000 postos de trabalho.

p.s.: E andamos nós surpreendidos com as declarações dos humoristas portugueses?