2004-12-20
O Merceeiro e o Qatar
A insólita situação poderá ter uma explicação: durante a semana passada, a Yukos recorreu em desespero de causa aos tribunais americanos para, ao abrigo da protecção aos activos das empresas nestas circunstâncias — o conhecido “capítulo 11” da lei de falências americana —, obter a suspensão da venda da Yuganskneftegaz. No acórdão, favorável às pretensões da Yukos, é citada a Gazprom. Mas Putin não se atrapalhou e foi assim que a “mercearia da esquina passou a ser dona de um Qatar”. Pelo menos durante alguns dias; é que os analistas não excluem a hipótese da “vencedora” do leilão não conseguir pagar o valor em questão nos próximos catorze dias, uma hipótese razoável quando um merceeiro adquire o equivalente a um pais petrolífero do Golfo Pérsico. Se tal suceder a Gazprom é declarada vencedora...
2004-12-19
Escolhas de 2004 (2): Colossus
Michael Joseph Oakeshott (1901-1990)
2004-12-18
A teoria política de Oakeshott
Oakeshott também pode ser considerado liberal, mas pouco tem em comum com os principais defensores do liberalismo. Rejeitou sempre o individualismo abstracto, preferindo falar da “tradição da democracia representativa” e não de “doutrinas”, que considerava como “abreviações” ambíguas na linguagem e perigosas nos propósitos instrumentais de “progresso” e perfectibilidade humana. Para Oakeshott as “ideologias” políticas são formulações “racionalistas” e selectivas de princípios abstractos, desligados de qualquer reflexão sobre o contexto social e a tradição, meras “cartilhas abreviadas” utilizadas pelos defensores da lógica da engenharia social.
O principal perigo da lógica racionalista é a concepção do Estado como uma organização, cujo propósito justificativo único é a obtenção de “progresso”. O agente motivador e organizador da empresa é o governo. A actividade do governo é entendida como a organização da actividade humana com o propósito de alcançar a perfeição. O governo deixa de ser um agente auxiliar do progresso para se constituir como o promotor, organizador e inspirador dessa empresa. A perfeição não é atingível através de reformas e melhorias graduais: só o progresso utópico é susceptível de produzir a condição desejada, que corresponde forçosamente a um estado de coisas compreensivo e identificável de forma única. Pouco importa se é uma visão "inspirada" do que constitui o “bem comum”, ou a conclusão de um argumento racional: em qualquer os casos a actividade do governo é ilimitada e este é omnicompetente, embora não necessariamente absoluto — o absolutismo é uma doutrina sobre a legitimidade do governo.
Esta visão do papel do Estado é o oposto lógico da “associação civil”. Trata-se de um modo de associação idealizado, não no sentido da perfeição mas no sentido da abstracção das particularidades dos estados existentes e que se define através do estabelecimento de uma relação de civilidade entre os respectivos membros: o primado da lei.
A associação civil define uma prática moral de relacionamento humano. Uma prática moral designa um sistema de leis, deliberadamente criado para regular a conduta humana. Esse sistema de leis é definido através de uma composição de regras não instrumentais, de normas de conduta sem objectivos substantivos extrínsecos, de formas de adjudicação e interpretação normativa e de um quadro sancionatório. O sistema de leis da associação civil permite que cada indivíduo possa escolher livremente os seus objectivos, impedindo as interferências arbitrárias decorrentes dos interesses de outros.
A civitas refere-se a esta condição ideal de associação, nunca inteiramente realizada em estados concretos, onde os indivíduos unidos pelo reconhecimento mútuo da jurisdição das normas constituintes da associação civil (a cives) não têm uma relação hierárquica nem funcional entre si. A respublica designa o domínio público da civitas; não o domínio comum. Os estados europeus são composições históricas onde os dois elementos opostos de associação empresarial e civil coexistem, mas o primado da lei é intrínseco apenas à lógica de associação civil.
Margaret Thatcher considerava-o o ”principal filósofo conservador”, mas Oakeshott nunca recomendou o conservadorismo político, nem tão pouco endossou o partido Tory. Para Oakeshott o conservadorismo era uma disposição presente na conduta humana, não uma forma concreta de actividade política. Conforme escreveu Robert A. D. Grant em Oakeshott (1990):
“Oakeshott’s version [of conservatism], though broadly in tune with the tacit, unreflecting conservatism of the ordinary man, is also ill-calculated to appeal to official Conservatism, various though that may be. Too indifferent to establishment and hierarchy for the High Tory, it is also too sceptical for the moralist, too liberal for the populist, too principled for the mere pragmatist, and too divergent from whatever contradictory priorities (e.g. wealth-creation and moral restorationism – may be supposed fitfully to animate the current British and American administrations.”Se adicionalmente, se considerar a modéstia de Oakeshott e a sua aversão a alguns aspectos da academia contemporânea compreende-se melhor por que razão o seu nome é muito menos citado do que Rawls, Nozick ou Habermas. Se tiver interesse em conhecer mais sobre a vida e obra de Michael Oakeshott, sugiro que comece por este site.
As virtudes da asneira
O termo "multiculturalismo" tem significado(s) e conteúdo(s) concretos na teoria política. O Primeiro-ministro aparentemente supõe que o "multiculturalismo" é uma espécie de tolerância liberal, que permite a coexistência social pacífica entre cidadãos de diferentes proveniências geográficas. Não é. Quando o Dr. Santana Lopes fala num "Portugal multiculturalista" não se limita a dizer um disparate: anuncia a sua sólida ignorância em teoria política. Só mesmo os relativistas do Bloco de Esquerda se atreveriam, nos seus sonhos mais desvairados, a declarar Portugal como um país "multiculturalista".
Se ignorarmos o disparate, há uma lógica interessante implícita na declaração do Primeiro-ministro: Santana Lopes sugere que o referendo não é necessário porque o seu "conhecimento sociológico" do país lhe permite antecipar o resultado e tomar decisões políticas consistentes com essa expectativa.
Uma aplicação imediata do mesmo princípio: Portugal é um país esmagadoramente católico, logo, dispense-se um segundo referendo sobre o aborto. Dará certamente o mesmo resultado que o primeiro. A decisão política coerente com essa "expectativa sociológica" é a manutenção da actual lei que regula a interrupção voluntária da gravidez.
Mas pode-se ir ainda mais longe e poupar os vetustos magistrados do Tribunal Constitucional a mais canseiras: Portugal pode ser um "país-isto" ou um "país-aquilo", mas é, primeiramente, um país e a "expectativa razoável" do ponto de vista sociológico é que deseje continuar a sê-lo. Logo, dispense-se o referendo sobre um tratado constitucional que a curto ou médio prazo conduzirá à extinção dos últimos vestígios de soberania nacional. Novamente, a "expectativa sociológica" implicaria a rejeição política do tratado constitucional. A lógica do Primeiro-ministro, na sua absurda concatenação de disparates, sugere afinal de contas, a solução para inúmeras trapalhadas.
2004-12-17
Jihadismo e campanha eleitoral
E se os cenários geopolíticos que estão esquematizados aqui se concretizarem, mesmo que de forma parcial e mitigada? Conforme já se sublinhou em post anterior (“A palavra crucial”), no momento em que o risco político agregado está provavelmente ao nível mais elevado desde a desagregação da União Soviética, o país dirige-se para uma campanha eleitoral que se antevê um verdadeiro campeonato da irresponsabilidade política. A distância entre um ciclo de expansão económica e uma recessão económica de consequências imprevisíveis pode resumir-se a alguns dólares a mais por barril de petróleo.
Coisas para tentar perceber (um dia destes)
2. Se o volume diário de chamadas telefónicas feitas a partir dos “centros de decisão” para o governo português não qualificarão este último, tecnicamente, como um “call center”. Em caso de resposta afirmativa, não seria preferível, do ponto de vista dos custos, deslocalizar o governo para a Índia? Com a vantagem acrescida que um governo com ministros de nomes impronunciáveis e residência em Calcutá se afigura muito mais resistente à pressão jornalística.
3. Se, no caso do referido volume de comunicações telefónicas entre os "centros de decisão" e o “call center”, a conhecida confusão guterrista entre “tráfego” e “tráfico” não será merecedora de reapreciação.
4. Qual o contributo da “boa moeda”, que as vicissitudes do regime expulsou da vida política e que aterrou primordialmente nos “centros de decisão” públicos e privados, para o desempenho económico do país nos últimos anos? Se a “má moeda” actualmente presente na política activa seguir o mesmo caminho que a “boa moeda” de antigamente será que os “centros de decisão” e o país resistem?
5. Se a minha aversão a uma parte substancial dos políticos portugueses não será explicada pelo famoso aforismo de Churchill: porque estes têm todas as virtudes que me desagradam e nenhum dos vícios que admiro.
6. Se o cartão de “sócio” do Partido Socialista dá desconto nas lojas maçónicas e a que preço é que estas vendem o bife da vazia.
2004-12-16
Quanto custa um pântano?
Para se ter uma noção da “pequena diferença” que a taxa de crescimento do produto faz, suponha-se que uma determinada economia tem uma taxa de crescimento anual de 3,2%, valor conseguido pela economia portuguesa em 2000. Em (aproximadamente) 22 anos esta economia duplicaria o PIB. Mas se a taxa de crescimento for de 1% (valor provável este ano), demorará cerca de 70 anos para se conseguir o mesmo resultado. Com uma taxa de crescimento de apenas 0,5%, a economia necessitará de 140 anos, quase um século e meio, para conseguir o que poderia atingir em pouco mais de duas décadas, caso tivesse uma taxa de crescimento à volta dos 3%. O preço da irresponsabilidade das políticas públicas é mais visível em anos do que em euros.
Os défices públicos reduzem a poupança nacional (não vejo evidência empírica que corrobore o argumento da equivalência ricardiana) e são uma das formas mais directas de redução do crescimento económico. Este é o “pântano” preparado pelos governos irresponsáveis do Eng.º Guterres, onde o país continua depois dos governos da maioria cessante e do qual só sairá com a aplicação de amplas reformas no sector público. Os "sinais do futuro" apontam precisamente na direcção contrária (veja, por exemplo, Foi Você Que Pediu uma Consolidação Orçamental?).
Os custos do “contabilisticismo”
Em linha gerais, a operação consiste em transferir a posse legal dos imóveis para bancos ou outras entidades financeiras, tornando-se o Estado o locatário e pagando portanto uma renda por período de tempo (mês, ano) que inclui um encargo de juros. Na conta patrimonial do sector público os edifícios permanecem contabilizados como activos (não financeiros) mas como contrapartida de um empréstimo, que constitui o activo das entidades financeiras locadoras. Desde que o preço dos activos esteja determinado no momento do contrato, a taxa de juro desta operação pode ser determinada implicitamente pelo relação entre o montante total de rendas pago ao longo da duração do contrato relativamente ao preço do activo. O resultado da operação é uma deterioração da conta patrimonial do Estado: a riqueza líquida do sector público diminui.
Sem estas receitas imediatas, o défice público global seria maior: no curto prazo a operação permite ao Estado evitar a emissão adicional de dívida pública. No longo prazo, a medida não é neutra: é prejudicial para os contribuintes. Os juros implícitos nos contratos de “leasing” são certamente uma das formas mais caras de financiamento público. A razão desta operação é a estúpida restrição do défice global em percentagem do PIB, que tem de se manter abaixo dos “mágicos” 3%. Trata-se de uma medida contabilística, “cega” aos efeitos sobre a conta patrimonial do sector público e anti-económica. Vive-se num ridículo “baile de fantasia” institucional: veja-se a evolução do saldo global da administração pública, excluindo medidas temporárias, publicado pelo Banco de Portugal.
A venda dos edifícios era claramente preferível: pelo menos obrigava as entidades públicas a considerar o espaço como um custo e portanto a usar de racionalidade económica nas decisões de localização e utilização dos espaços imobiliários. Essa parecia ser a intenção do Ministro das Finanças. Agora, por entre uma estranha justificação, o mesmo Ministro das Finanças altera a decisão que ele próprio tinha tomado e que estava prevista no OE 2005, cuja necessidade de aprovação foi apontada como a razão justificativa para a “agonia parlamentar”.
O Orçamento foi aprovado num estranho conúbio governo-presidência por uma razão: nem os partidos de direita representados no governo, nem o Presidente da República, “mandatário informal” do Partido Socialista, se atreveram a negar o “aumentozinho” aos funcionários públicos. Todos sabem quem vai decidir as próximas eleições e por que motivos votam. Garantida a demagogia eleitoral, que, repito, interessa tanto ao PSD como ao PS, o resto do orçamento é “letra morta”. Pode perfeitamente ser ignorado, desde já, em nome da cosmética contabilística, ou de outra coisa qualquer.
2004-12-15
Internacionalismo humanitário (actualização)
A "Eurábia" e o niilismo pós-moderno americano
Programa:
1. Perseguição e reforma: a sociedade europeia pré-islâmica
1.1. Mito e preconceito: do ritualismo mágico às crenças cristãs
1.2. O domínio do heterosexualismo
1.3. Feminismo e masculinismo: a aceitação da emotividade universal
1.4. Da transexualidade à transespecialidade: as primeiras operações de mudança de espécie
2. A Islamização, o pós-sionismo e o Califado europeu: desafios contemporâneos
2.1. A miragem da paz perpétua: Kant e a ingenuidade do internacionalismo liberal
2.2. Sayyid Kutb: o martírio e a reinvenção da tradição islâmica
2.3. A solução final do problema semita
2.4. O multiculturalismo e o cosmopolitismo da casbah
2.5. O problema das minorias étnicas na Europa: católicos, protestantes e ortodoxos
Trabalho de investigação:
Os alunos poderão sugerir ao docente que este realize um trabalho de investigação ao longo do semestre. O docente deverá submeter uma proposta de trabalho à apreciação dos alunos até à terceira semana de sessões participativas. A decisão sobre a proposta apresentada pelo docente é tomada por votação maioritária dos alunos (eventualmente) presentes. Caso o tema escolhido pelo docente seja rejeitado pela maioria dos alunos, este tem uma semana para apresentar um novo tema. Em caso de segunda rejeição os alunos deverão informar os serviços académicos, para efeitos de cessação do vínculo contratual do docente. A lista (não exaustiva) de temas propostos é a seguinte:
1. Formas histórico-tradicionais de repressão social: a imposição da cueca.
2. A pedofilia dos Antigos e dos Modernos: de Adriano a Cohn-Bendit.
3. Democracia e inclusão: os direitos políticos das transovelhas.
4. Arquitectura e moralidade: a cúpula de vidro da Mesquita do Louvre.
5. Os inimigos da sociedade fechada: Huntington e a recusa da tawhid.
Avaliação:
O docente deslocar-se-á ao local designado pelos alunos, em dia e hora da conveniência destes, onde apresentará uma dramatização sentida das suas opiniões e emoções sobre as reacções percebidas nos alunos ao longo das sessões participativas realizadas durante o semestre.
Esta apresentação não deve durar menos de 3 horas. Os alunos enviarão aos serviços académicos, quando e se assim entenderem, a informação relativa ao desempenho do docente. Os aspectos de guturalidade e desarticulação serão especialmente tidos em conta. Créditos extra serão atribuíveis aos docentes que demonstrem um total desprezo pelas inibições e preconceitos da sociedade antiga realizando a sua performance em estado de nudez.
Para "regressar" a 2004 clicar aqui. Vai encontrar um artigo de David Pryce-Jones para a Commentary (Dezembro de 2004). Aqui ficam dois excertos:
"shari’a prohibitions on the uses of money, and the German state of Saxony-Anhalt has become the first European body to issue a sukuk, or Islamic bond. Religious society is not far behind: even as bin Laden speaks of wresting Spain (“al-Andalus”) from the infidels by violence, the cathedral of Santiago has considered removing a statue of St. James Matamoros (“the Moor slayer”), lest it give offense to Muslims. For the same reason, the municipality of Seville has removed King Ferdinand III, hitherto the city’s patron saint, from fiesta celebrations because he fought the Moors for 27 years. In Italy, where Islamists have threatened to destroy the cathedral of Bologna because of a fresco illustrating the Prophet Muhammad in the inferno (where Dante placed him), thought has been given to deleting the art-work from the walls. Even the Pope has apologized for the Crusades. In secular Denmark, the Qur’an (but not the Bible) is now required reading for high-school students."
"In the realm of classical Islam, Christians and Jews once lived as dhimmis—that is to say, minorities with second-class rights, tolerated but discriminated against by law and custom. Many contemporary Muslims appear to idealize this long-lost supremacy over others, and aspire to reconstruct it. One way to work for this end is through violence and terror. Another way, the way of Tariq Ramadan and Yusuf al-Qaradawi, is through words. One way and another, the project is advancing. Summing up the collective achievement so far, Bat Ye’or, the historian of “dhimmitude,” has written that “Europe has evolved from a Judeo-Christian civilization with important post-Enlightenment/secular elements to . . . a secular Muslim transitional society with its traditional Judeo-Christian mores rapidly disappearing.” She calls this evolving entity “Eurabia.”
Na página principal da Commentary, coluna da direita (Islam and the West) tem uma ampla escolha de artigos, entre os quais alguns "clássicos" de Bernard Lewis.
2004-12-14
Os novos Gutenberg
Painéis de São Vicente (de dentro): conclusão
Segundo, é pouco relevante discutir se há ou não referendo constitucional. Os portugueses estão largamente desinformados sobre o conteúdo do tratado constitucional aprovado pelos governos europeus em Roma no passado mês de Outubro e assim continuarão porque são indiferentes ao projecto de constituição para a Europa. Pouco lhes importa as novas regras de decisão, a adesão da Turquia, a discussão sobre a ausência de futuro da "Europa social", ou as visões estratégicas de uma União Europeia em expansão. Se lhes desagrada o alargamento a leste não é por considerações de política internacional, é apenas porque com o alargamento aumenta o número de necessitados sentados à mesa dos subsídios. Movidos pelo instinto de preservação das "regalias", votarão disciplinadamente onde o "sindicato" lhes recomendar.
Dos políticos nacionais ou da União Europeia, os portugueses querem o mesmo de sempre: dinheiro para festas e poucas maçadas.
Painéis de São Vicente (de dentro): a União Europeia
Nenhuma economia faz reformas profundas mantendo-se quase sempre próxima do pleno emprego. Mesmo com um ciclo económico de crescimento, os trabalhadores desafectados aos sectores industriais decadentes não se “transformam” em pós-doutorados utilizáveis nos sectores emergentes: a “reconversão” da mão de obra é, em larga medida, uma ficção política; veja-se a evolução ao longo do tempo da taxa de desemprego espanhola. Numa economia em crescimento e transformação acelerada há gente que perde definitivamente o emprego, há quem fique na miséria, enquanto noutros sectores de actividade surgem novas empresas lucrativas e portanto novas possibilidades de emprego. O ajustamento é gradual e socialmente difícil. Incapaz de o explicar e de suportar os custos políticos deste processo, que Schumpeter chamou de “destruição criadora”, os governos portugueses preferiram gastar as ajudas europeias a comprar tempo. Adiaram o inadiável. Agora uns apelam à “serenidade”, outros à “estabilidade” e outros ainda sugerem que se reze muito.
Portugal, país eternamente “remediado”, habituou-se depressa à “renda europeia” e acha que compete ao governo defender os seus “direitos adquiridos” perante uma Europa que exige “resultados”, “responsabilidades”, e, horror dos horrores, que se atreve a incluir novos países pobres a leste, mais esforçados e interessados em melhorar e que irão pôr em causa as "regalias” dos portugueses. Só maçadas.
Painéis de S. Vicente (de dentro): sociedade de proprietários
O crédito bancário suporta também muito do consumo de bens duradouros. Reformas económicas sérias introduziriam instabilidade na economia, aumentando a taxa de desemprego natural, generalizando contratos de trabalho flexíveis (“precários” é o termo sindicalista). Os portugueses ajustariam as suas decisões de consumo à maior instabilidade e imprevisibilidade do rendimento permanente. Alugariam casas no mercado, em vez de alugá-las aos bancos, e em geral descontariam menos o consumo futuro do que o fazem hoje, o que teria um efeito provável de redução do endividamento líquido. Menos carros em “leasing”, menos frigoríficos e telemóveis “última geração”, menos férias a crédito. As instituições financeiras estariam entre as principais afectadas: o crédito de massas dispensa grandes avaliações de risco, há uma percentagem de “incobráveis” que é relativamente estável se o ciclo económico não provocar grandes flutuações em torno da tendência e, por feliz coincidência legislativa, os créditos incobráveis até nem são maus de todo do ponto de vista fiscal. Se a sociedade portuguesa se alterasse significativamente, bancos e outras instituições de intermediação financeira teriam de trabalhar muito mais, teriam de fazer “screening” a sério dos riscos de crédito, teriam de procurar identificar os negócios lucrativos do futuro, teriam maior pressão para inovar nos instrumentos financeiros. Mais maçadas.
Painéis de São Vicente (de dentro): funcionários públicos
2004-12-13
A sombra do urso
— Mas quando conseguiu, julgo eu, nas suas relações com os inimigos de fora, reconciliar-se com uns e destruir outros, e daquele lado há tranquilidade, primeiro que tudo está sempre a suscitar guerras, a fim de o povo ter necessidade de um chefe.
— É natural.
— E também a fim de os cidadãos, empobrecidos pelo pagamento de impostos, serem forçados a tratar do seu dia-a-dia e conspirarem menos contra ele?
— É evidente.
— E, segundo julgo, se ele suspeitar que alguns deles albergam pensamentos de liberdade que os afastem da obediência a ele, provocará essas desavenças, com o pretexto de os deitar a perder, entregando-os aos inimigos. Por todos esses motivos, um tirano tem sempre necessidade de desencadear guerras.
— Forçosamente.
— Mas tal procedimento predispõe os cidadãos a odiá-lo mais.
— Pois não!
— Mas não haverá alguns dos que ajudaram a elevá-lo àquela posição e que têm poder para falar livremente, diante deles e uns com os outros, e que critiquem os acontecimentos, pelo menos aqueles que forem mais corajosos?
— É natural.
Logo, o tirano tem de eliminar todos esses, se quiser governar, até não deixar ninguém dentre amigos e inimigos que tenha alguma valia.
Platão, A RepúblicaA Rússia é um caso contemporâneo de circularidade de formas degeneradas de regime político. Com o colapso da União Soviética em 1991, Boris Yeltsin iniciou um período de aparente democracia, que rapidamente se transformou em caos. A forma como a privatização das maiores companhias estatais foi prosseguida durante esse período criou uma classe de oligarcas. Os novos “senhores da Rússia” controlavam as principais empresas do país, em particular as petrolíferas. Boris Berezovsky, Mikhail Khodorkovsky (Yukos) e Roman Abramovitch (Sibneft) são apenas alguns dos nomes mais proeminentes. De acordo com a edição russa da revista Forbes, de Abril de 2004, os 36 oligarcas mais poderosos tinham uma fortuna conjunta avaliada em mais de 110 biliões de dólares, o equivalente a 24% do PIB russo. O editor, Paul Klebnikov, foi assassinado em Moscovo, em Julho passado.
Valdimir Putin, um ex-KGB, iniciou em 2000 um processo de “depuração” oligárquica. O processo de concentração de poderes acelerou-se após o massacre de Beslan. Com a promulgação ontem do decreto que põe fim à eleição directa dos governadores da Federação Russa, a Rússia tornou-se uma tirania governada por Putin e pela clique dos siloviki.
A Yukos está em vias de liquidação: no próximo dia 19, terá lugar a venda de 77% das acções da Yuganskneftegaz, a maior subsidiária da Yukos. O destino mais do que provável das acções é a Gazprom-Rosneft, o resultado da fusão dirigida por Putin, de duas empresas controladas pelo Estado. Ao tornar-se detentora das acções da Yuganskneftegaz, esta empresa passará a controlar 25% da produção total de energia na Rússia. A “re-estatização” da Rússia prossegue em marcha forçada.
Mas Putin não parece ter apenas uma mão económica estatizante e politicamente autocrática: também não parece ter muito jeito para o tempero culinário. Há quem sugira que certas sopas indigestas que se comeram em Kiev tiveram “tempero russo”.
A leste, a civilização continua a misturar-se com o barbarismo. Os europeus parecem satisfeitos com o recente sucesso do seu “soft power” na questão ucraniana e relativizam a ascensão da tirania russa, em nome de coisas mais importantes. Tanto a França como a Alemanha são aliados estratégicos da Rússia. A inglesa BP está consideravelmente envolvida nos negócios de produção de energia na Rússia e o oligarca Abramovitch é uma celebridade londrina. Mas a persuasão europeia só por si de pouco vale: sem o poder militar norte americano na retaguarda é inútil.
Robert Kagan sugere que essa complementaridade estratégica deve ser a base da nova relação transatlântica: uma Europa “pós-histórica” como um império pacífico e “desvitalizado”, em expansão, absorvendo no seu interior os elementos políticos essenciais para a estabilidade do “crescente interior” da Heartland, sob o beneplácito americano, que reserva o seu poder militar para “desacatos” mais complicados. Kagan apoia a visão estratégica de Robert Cooper (o mesmo é dizer de Tony Blair) e de acordo com esta lógica, a eleição de uma liderança democrática na Ucrânia é apenas o primeiro passo para a absorção da Ucrânia na União Europeia.
Duas singelas perguntas. Em primeiro lugar, como se comportará o tirano de Moscovo, que, convém recordar, está “sentado” em cima de um dos maiores arsenais nucleares do mundo? Em segundo lugar, a (hipotética) absorção da Turquia é a via a prazo para a estabilização e secularização do Médio Oriente ou para a desestabilização e islamização da Europa?
2004-12-12
Internacionalismo humanitário
A propósito do Ruanda, na República Democrática do Congo a chacina prossegue a bom ritmo: de acordo com relatórios do International Rescue Committee, mais de 1 000 pessoas morrem todos os dias. A Guerra do Congo é a mais mortífera da actualidade. O estado de caos é generalizado. As facções “militares” pouco mais são do que bandos de salteadores, roubando indiscriminadamente os civis como forma de sustento. Estes tentam escapar de um bando, apenas para cair sob o controlo de outro bando de assassinos avulsos. A missão da ONU no Congo, MONUC, faz conferências de imprensa para desmentir publicamente factos do seu conhecimento e que os bons jornalistas conseguem descobrir: que tropas congolesas renegadas estão a soldo do Ruanda e possibilitam a este país a manutenção do controlo militar sobre parte do território do Congo. A MONUC envolve um total de mais de 12 000 tropas, a que acrescem forças policiais civis e centenas de “administrativos”. Os elementos do International Rescue Committee citados na notícia da BBC descrevem as tropas da MONUC como “mal equipadas, mal treinadas, e desmotivadas”. Não são apenas inúteis: são contraproducentes. Esta “missão”, só entre Julho de 2003 e Junho de 2004, custou mais de 608 milhões de dólares.
No território do Congo há pelo menos 12 organizações “não governamentais” (NGO’s). O pais fervilha de símbolos de auxílio e de protecção: UNHCR, MONUC, OCHA, UNICEF, WFP. Se ao menos os desgraçados soubessem ler, se calhar não morriam para ali assim, aos milhares por dia.
Escolhas de 2004 (1): Rise of the Vulcans
2004-12-10
O erro de Duverger
Só uma galinha pode continuar a correr assim, sem tino nem destino, depois de ter perdido a cabeça.
As duas.
As novas guerras do ópio
Segundo o Afghanistan Opium Survey (2004), da responsabilidade do Office on Drugs and Crime da ONU, tem razões para estar preocupado. A produção de ópio aumentou 17% em 2004, estimando-se que represente cerca de 87% da produção opiácea mundial, a área cultivada passou para 131 000 hectares (um aumento de 64% em relação a 2003) e a produção generalizou-se em termos territoriais.
Para a esquerda liberal americana o aumento da produção de ópio é a “evidência do fracasso da estratégia militar”. O derrube em cerca de três meses de um dos regimes mais repressivos do mundo e a obtenção de uma vitória militar sem precedentes num território sistematicamente considerado inexpugnável são relativizados. Afinal, Bush ganhou a “guerra dos Talibans” mas perdeu a “guerra do ópio” (a equivalência entre ambas as expressões é assumida implicitamente). Charles Krauthammer indigna-se com este raciocínio absurdo, mas também ele comete um erro, não menos absurdo, ao relativizar o problema da produção crescente de ópio no Afeganistão pós-tirania Taliban.
Nem Krauthammer nem a esquerda americana têm razão. A possibilidade de transformação do Afeganistão num “narco-estado” é grave, mas na verdade está longe de ser um sinal de fracasso: é, pelo contrário, um sintoma do sucesso. A afirmação só parece estranha a quem tem uma visão teleológica da história e imagina que a democracia e o liberalismo são uma via segura para a felicidade e para a eterna abundância. É uma visão ingénua. Nas democracias liberais, os problemas sociais e económicos são, muitas vezes, um “jogo de pinos”: ao empurrar um pino para baixo há outro que fatalmente se ergue.
Nos EUA já se reclama por mais dinheiro e soldados para combater na (renovada) “guerra do ópio”. E aqui é que, infelizmente, as coisas se complicam: se os americanos decidirem investir substanciais recursos humanos e materiais no Afeganistão por esta razão é bom que estejam conscientes de duas coisas. Em primeiro lugar que só podem esperar diminuir drasticamente a produção afegã e não a produção mundial. Em segundo lugar, que essa redução “local” provocará provavelmente um aumento da dimensão do mercado mundial de droga e, portanto, do valor do narcotráfico.
Convém recordar de que forma o Afeganistão, o Paquistão e o chamado “triangulo dourado” se tornaram os produtores dominantes de ópio. Na década de 70 Nixon declarou uma “guerra à droga”. Na altura, a Turquia era o principal produtor e os laboratórios de produção de heroína em França forneciam cerca de 80% da heroína consumida nos EUA. A operação foi um “sucesso”: a produção turca caiu drasticamente. Mas o resultado foi diferente do pretendido. O preço da heroína, que contem um enorme “prémio de risco” subiu imenso, o que forneceu um enorme estímulo à produção em países “alternativos”: o sudoeste asiático tornou-se o centro vital da produção de heroína. Do lado da “procura” a repressão sobre o consumo interno nos EUA levou os produtores a procurarem outros mercados. O consumo de drogas na Europa aumentou enormemente. Porque o consumo de droga tem uma elevada elasticidade rendimento, o resultado conjugado foi um substancial aumento da dimensão global do mercado.
Se este foi o resultado na década de 70, imagine-se o que acontecerá agora, com o renovado interesse na “guerra ao ópio” num pais que é responsável por cerca de 87% da produção mundial. No curto prazo, sem dúvida que existirão “sucessos”, mas é bem provável que o preço desses sucessos seja o nascimento de problemas ainda maiores noutro lado do mundo.
No séc. XX o único estado a conseguir reduções significativas na produção e consumo de ópio foi a República Popular da China na década de 50. A “tecnologia de sucesso” foi simples: repressão brutal e generalizada. No caso do Afeganistão, o único ano em que se registou uma drástica diminuição da produção de ópio foi em 2001, através de brutais medidas de repressão levadas a cabo pelos talibans. O aumento e generalização da produção de ópio no Afeganistão é uma “consequência não intencional” da frágil e incipiente democracia liberal afegã, do seu reduzido controlo sobre o território e da consequente incapacidade de impor a soberania da lei. A declaração de Karzai é de uma enorme coragem. Jurar enfrentar os grupos que controlam a produção de ópio não é “apenas” uma escolha de política pública: é correr um sério risco de vida. Mas infelizmente interessa acima de tudo aos afegãos.
Não se consegue resolver o “problema da droga” suprimindo a produção no Afeganistão: só uma alteração do padrão de “preferências” dos consumidores é que é susceptível de ter sucesso. Em regimes totalitários como a China comunista, ou o Afeganistão taliban a repressão brutal funcionou. Nas democracias liberais só há uma arma: a educação cívica. O resto é ignorância ou ingenuidade. Ambas costumam ter um preço elevado.
2004-12-09
Mas
Nem o ministro em questão, nem a fábrica mencionada, nem tão pouco os singulares veículos que lá serão produzidos fazem parte dos meus interesses quotidianos. O que me interessa é o remate da reportagem, mais especificamente a conjunção adversativa: o “mas”. Como conjunção adversativa que é, exprime oposição. Assim, de um lado temos um facto: as notícias, que são boas principalmente para os que trabalham na referida fábrica, o que não creio ser o caso do ainda Ministro da Defesa. Do outro lado do “mas” está uma opinião, um juízo valorativo que se opõe aos factos: a sugestão, que se depreende condenatória, de que o que move o político Paulo (por oposição ao governante Portas) é — horror dos horrores — a obtenção de votos. Ao rematar o assunto deste modo, o jornalista dá a entender que considera a motivação do político “rasteira” e que tal juízo de valor se sobrepõe em importância ao conteúdo da notícia. A viabilização da fábrica condenada e o reequipamento do exército português são relativizados; o que importa é “desmascarar” o propósito encoberto do político: obter votos.
Como explicar este comportamento recorrente? Há três hipóteses: ou se trata de uma manifestação de ignorância, ou de instrumentalização, ou de niilismo político.
Na primeira hipótese, o jornalista em questão desconhece um princípio comportamental básico em democracias representativas: sem votos não se governa e por isso o objectivo primeiro de qualquer político é efectivamente maximizar o número de votos. Não acredito que o jornalista tenha subitamente descoberto a existência de um mercado eleitoral, que funciona do mesmo modo que outros mercados, o que faz com que o comportamento dos políticos perante os eleitores não seja diferente do comportamento (por exemplo) das estações televisivas perante os telespectadores. No primeiro caso a distribuição de votos determina o equilíbrio representativo no parlamento; no segundo a distribuição de audiências determina a repartição das receitas publicitárias. Do “outro lado” de ambos os mercados estão as mesmas pessoas, que não precisam da “muleta moral” de qualquer jornalista para formarem a sua opinião sobre os políticos, mais do que necessitam de políticos que lhes condicionem as escolhas televisivas.
Na segunda hipótese, o jornalista “aproveita” a ocasião para, de forma implícita, manifestar a sua preferência política. Nesse caso o juízo valorativo torna-se personalizado e a conjunção adversativa passa a opor notícia a agenciamento partidário — o “mas” adquire estatuto de sigla: “movimento de apoio socialista”. Também é possível, mas não creio que seja isso.
A última hipótese é aparentemente a mais inocente, embora a considere a mais perigosa e também a mais verosímil. O uso jornalístico, generalizado e abusivo do “mas” trai um “espírito de missão”. O jornalista adquire o estatuto de “justiceiro” e usa o seu poder mediático como um agente provocador. O objectivo último não é o descrédito do político X em particular; é o descrédito generalizado da actividade política. O “mas” é o rastilho discursivo dirigido à turba: “o que eles querem é poleiro!”; “são todos iguais!”, etc. De cada vez que a situação se repete há sempre alguns políticos (os circunstancialmente poupados) que “acham graça”. Não percebem que é só uma questão de tempo até que chegue a sua vez de fazer de “boneco de feira”.
Aos agentes niilistas do “mas” só lhes falta uma coisa, pela qual, com ou sem consciência, abundantemente clamam: um Saint Just que lhes assine os “decretos de limpeza”, para tratar dessa “corja dos políticos” como eles “merecem”. O “mas” jornalístico é o veneno que lentamente se insinua na vida cívica e que em última análise destrói qualquer democracia.
The Dismal Rankings
Em primeiro lugar, são considerados diversos problemas de “medida”: a contagem de artigos no caso de co-autorias, o tratamento de filiações académicas múltiplas, a calibragem das diferenças de qualidade nos jornais científicos considerados, as contagens de citações de um determinado artigo científico e do(s) respectivo(s) autores, etc..
Em segundo lugar, a classificação das instituições académicas feita para o período de 1990-2000 é reproduzida para o período de 1978-1982, o que permite, por comparação, ter uma ideia aproximada da evolução das universidades europeias e americanas ao longo de um período de tempo razoavelmente longo. Eis os principais resultados:
Com base no número de artigos publicados, a Universidade de Harvard lidera o ranking em todos os onze critérios considerados, pelo que pode ser considerada a melhor universidade do mundo, no que respeita à Economia (mas veja-se o que se diz a seguir, sobre os efeitos da dimensão das instituições). A seguir surgem Chicago, Pennsylvania, Stanford e o MIT. A primeira universidade europeia é a LSE (London School of Economics and Political Science), no 15º lugar. Daí em diante só reaparece uma universidade europeia no 33º lugar (Cambridge). Se em vez do número de artigos for utilizado o número de citações, Harvard permanece imbatível e Chicago volta a ser segunda. A LSE desce um lugar mas a apreciação geral em termos de comparação transatlântica é a mesma.
As melhores notícias para a Europa não estão no ranking, mas sim nas alterações observadas entre o sub-período de 1990-1994 e o período subsequente. Entre as universidades a registarem maiores subidas na segunda metade da década de 90 estão algumas europeias: o University College of London, a Erasmus University (Roterdão) e a Universidade de Toulouse, por exemplo. Uma comparação “alargada” produz resultados semelhantes: no “top 100”, as universidades americanas dominam, superando por um factor entre 2 e 3 o número de instituições europeias, mas estas parecem estar a recuperar, tendo conseguido duplicar o número de universidades presentes no “top 100”, que passou de 15 para 30 instituições. No entanto o domínio americano continua a ser enorme, com mais de metade das 100 melhores universidades em Economia sediadas nos EUA.
A dimensão das instituições académicas é relevante. Uma das formas de controlar o efeito da dimensão consiste em restringir o número de académicos considerados por cada instituição, por exemplo aos cinco, dez ou cinquenta mais “produtivos”. A ordenação das instituições altera-se, mas o “top 10” continua a ser exclusivamente americano. No topo regista-se a descida de Harvard para o terceiro lugar, por troca com o MIT (1º) e Yale (2º). De entre as europeias, o comportamento da (já mencionada) Universidade de Toulouse é interessante: quando a classificação é feita apenas com base nos cinco mais produtivos, esta universidade regista uma enorme subida, passando de 73º para 11º lugar. Mas à medida que se alarga o número de académicos considerados, para 10 e depois para os cinquenta mais produtivos, Toulouse cai consideravelmente na classificação, o que sugere que mais do que um bom departamento de Economia terá um “núcleo duro” de investigadores, reduzido e de elevada qualidade. A melhor universidade europeia continua a ser a LSE, que tem menos oscilações no ranking em função da calibragens destinadas a controlar os efeitos da dimensão.
O estudo conclui-se com um exercício semelhante para os economistas. Os detalhes e variações estão disponíveis no artigo. Para os "curiosos" aqui fica o top 10 dos economistas que mais publicaram na década de 90:
1º) Peter Phillips (Yale)
2º) Jean Tirole (Toulouse)
3º) James Heckman (Chicago)
4º) Alan Krueger (Princeton)
5º) Joseph Stiglitz (Banco Mundial)
6º) Donald Andrews (Yale)
7º) W-Kip Viscusi (Harvard)
8º) Jean-Jacques Laffont (Toulouse)
9º) Amartya Sen (Cambridge)
10º) Bruce-D. Smith (Austin)
Entre eles há apenas três prémios Nobel (Heckman em 2000, Stiglitz em 2001 e Sen em 1998), o que é consistente com a ideia geral segundo a qual o Nobel da Economia é um “prémio de carreira” e não um indicador de inovação recente (muito menos futura). A Universidade de Toulouse volta a destacar-se, graças ao IDEI (Institut d’Économie Industrielle), fundado pelo (falecido) Jean-Jacques Laffont.
A classificação em função do número de citações é substancialmente diferente, o que sugere que a quantidade e a qualidade não terão uma correlação especialmente elevada no caso da investigação económica. Para os portugueses, a classificação em termos de citações traz a única boa notícia: Sérgio Rebelo, da Northwestern University, surge num excelente 14º lugar. Seria interessante comparar o número de citações académicas de Sérgio Rebelo com o número de vezes que, durante o mesmo período de tempo foi mencionado nos jornais portugueses...
2004-12-07
O Navio Irreformável
A ONU é a organização contemporânea que supostamente corporiza o espírito kantiano da “paz perpétua”: uma liga de democracias sujeitas a uma lei internacional. Eis o que devia ser claro e aparentemente não é: a ONU é uma organização que não tem rigorosamente nada em comum com os princípios kantianos. No “Primeiro Artigo Definitivo para uma Paz Perpétua”, Kant estabelece que: “[T]he sole established constitution that follows from the idea of an original contract, the one on which all of a nation’s rightful legislation must be based is republican.”
O segundo artigo estabelece que a lei internacional só pode ser fundada numa federação de estados “livres” (as democracias liberais). Ou seja: para que um estado possa pertencer à Liga das Nações tal como foi pensada por Kant é necessário em primeiro lugar que seja uma democracia liberal, constitucionalmente organizado com base no princípio da liberdade sob a lei. A Carta das Nações Unidas não é uma adaptação deste princípio: é uma flagrante violação dos preceitos básicos sobre os quais Kant admitia a possibilidade de construção de uma ordem jurídica internacional.
Ainda que se admitisse, como princípio de compromisso, que a lógica kantiana só se aplicava ao Conselho de Segurança e não à Assembleia teríamos sérios problemas. Se a ONU conferisse assentos permanentes no Conselho de Segurança apenas a democracias liberais, isso significava a exclusão imediata desse conselho de países como a China ou a Rússia e a impossibilidade absoluta de admissão de países como o Egipto, a Nigéria, ou a África do Sul. Até um país como o Japão teria de se esforçar para provar que é mais do que uma democracia formal. Com a excepção da Alemanha, os restantes candidatos a novos membros do Conselho de Segurança só poderiam ser admitidos com assentos temporários, dependentes da verificação do respeito sistemático pelo princípio interno da liberdade sob a lei.
É evidente que não há qualquer hipótese de uma medida destas ser sequer considerada. A ONU ao “absorver o mundo”, absorveu também a lógica do mundo: a do realismo, democrático ou não, que faz com que cada governo aja na defesa do estrito interesse nacional (com algumas notórias excepções de ingenuidade e impulso suicidário). A lei internacional oscila hoje como sempre o fez, entre uma miragem perigosa e uma ameaça à paz e às democracias ocidentais e o espírito de Kant está certamente mais presente em organizações como a NATO ou o G7+1 (Rússia) do que na ONU, que se recusa a agir até para aplicar as medidas que ela própria aprova.
A ONU é um velho e gasto navio internacionalista, que foi metendo água pelos mares do mundo e que o tempo acabou por deixar encalhado na costa americana, de onde há quase um século atrás se fez ao mar, por entre os delírios ingénuos do presidente Wilson.
Os "educadores"
"O filme conta a história de três jovens determinados em mudar o mundo consumista despojado de valores humanos. O trio pretende apenas (sic) assustar famílias burguesas, mas gradualmente as suas acções tornam-se mais intimidatórias e intensas."O que o génio criador pretende mostrar com o filme:
"O sistema capitalista absorve a energia revolucionária das pessoas e transforma-a em produto de consumo que por sua vez inibe os impulsos revolucionários inatos em cada indivíduo."A reacção da audiência:
"O filme foi um "sucesso-surpresa" em Cannes, sendo ovacionado de pé durante vários minutos."Perante isto, há boas e más notícias. O autor do filme endividou-se e hipotecou a casa dos pais para o realizar (deve ter encontrado um banco marxista e financiadores com "consciência de classe"), portanto a boa notícia é que em princípio os contribuintes europeus não fizeram a figura de urso do costume, financiando as pilhas de estrume que os neo-marxistas chamam "cultura". A má notícia é que, apesar do autor do filme ser neurocirurgião, está infelizmente incapaz de se ajudar a si próprio através da prática da sua profissão. Em casos destes a medicação é inútil, só mesmo a lobotomia é que pode resolver o problema.
2004-12-06
Outra Opinião
A não perder, no Acidental.
China, risco nuclear e geoestratégia
Faltam sete minutos para a meia noite
Só recentemente a Coreia do Sul admitiu ter conduzido programas de extracção de plutónio em 1982, de enriquecimento de urânio entre 1979 e 1981 e de fabrico de munições de urânio empobrecido entre 1983 e 1987. As actividades ilegais de enriquecimento de urânio na Coreia do Sul continuaram ao longo da década de 90. Estas descobertas colocam várias dúvidas e problemas complexos.
Em primeiro lugar, o programa sul coreano poderá ter influenciado a decisão da Coreia do Norte de iniciar o seu próprio programa de armamento nuclear em 1998, com base em eventual informação de espionagem obtida na Coreia do Sul.
Em segundo lugar, os factos agora admitidos pela Coreia do Sul poderão influenciar as decisões estratégicas do Japão nesta matéria, tornando o ambiente neste país mais favorável ao desenvolvimento de um programa nuclear com fins militares.
Em terceiro lugar, este tipo de “descoberta” reforçam o cepticismo quanto à eficácia dos protocolos e sistemas internacionais destinados a evitar a proliferação de materiais nucleares. As “discrepâncias” nos registos oficiais de urânio e de plutónio são frequentes e a possibilidade da fervilhante actividade económica do extremo oriente incluir transacções de material nuclear com potencial militar é desconfortavelmente elevada. Ninguém pode garantir que grupos terroristas não tenham já armas nucleares em seu poder.
Em 1997, o general russo Alexander Lebed admitiu tranquilamente que o governo russo tinha “perdido” mais de 100 malas transformadas em bombas nucleares, das cerca de 250 armas nucleares deste tipo. São armas nucleares transportáveis individualmente, levam entre 20 e 30 minutos a ser preparadas para explodir e não dependem de qualquer código de activação. O governo russo desmentiu a informação mas preocupou-se mais em descredibilizar o mensageiro. Até hoje o paradeiro de tais malas, a terem sido extraviadas, é desconhecido.
A construção de bombas para a dispersão de materiais nucleares (as “dirty bombs”) é ainda mais simples e as fontes bastante mais diversificadas (o césio, por exemplo, é usado em hospitais). A explosão de uma bomba destas, para além do número de vítimas imediato causará ondas de pânico (as estimativas do número de mortes em acidentes causados pelo pânico excede o número de vítimas da exposição à radiação), custos de descontaminação elevadíssimos e a eventual interdição da área afectada por um número indeterminado de anos (suponha que se trata de Londres, Nova Iorque, Los Angeles ou Paris). Os custos económicos seriam susceptíveis de provocar uma recessão sem precedentes. São cenários semelhantes que os terroristas têm em mente, quando procuram adquirir a tecnologia nuclear.
Países como a Rússia, o Paquistão, a Ucrânia (pois...), a Coreia do Norte, o Irão, a Geórgia ou o Uzbequistão estão entre os mais problemáticos do ponto de vista da segurança nuclear. Um exercício simples mas pedagógico consiste em assinalá-los num mapa e observar o resultado. Os presidentes norte americanos William Clinton e George W. Bush não tinham razão quando falavam num “axis of evil” (Clinton usou pela primeira vez a expressão “axis of impious states” para designar o trio sinistro do Irão, Iraque e Coreia do Norte); na verdade assemelham-se mais a um “ring of nightmare”.
Se quiser saber mais sobre o risco de terrorismo nuclear, uma boa fonte de informação é o livro de Graham Allison, professor de Government na Universidade de Harvard: Nuclear Terrorism (Times Books, 2004).
Não admira por isso que o ponteiro deste relógio esteja hoje mais próximo da meia noite do que em algum momento nos últimos dezasseis anos. Se o pior cenário se verificar talvez não haja tempo para acertar o relógio.
2004-12-05
Megalothymia ou tolerância?
Oliver Stone começa por “desconstruir” Alexandre, recorrendo ao psiquismo freudiano e transpondo para o plano comportamental da sexualidade a divisão afectiva que a rivalidade entre os pais teria causado. Reconheço que uma das poucas formas de tornar o complexo de Édipo credível é com Angelina Jolie no papel de mãe, mas a sugestão de Alexandre entregue à conquista da Ásia para “fugir à mãezinha” é ridícula.
Depois há as acusações de “infidelidade” e “inexactidão” histórica. É certo que os tempos da Grande Narrativa já lá vão e a verdade é uma coisa “antiga” — o relativismo contemporâneo não se atreve sequer a mencionar a palavra sem a rodear de uma boa dose de aspas. Porém, o historiador de Oxford Robin Lane Fox, autor de uma biografia de Alexandre e que colaborou na rodagem do filme, menciona em artigo da New York Times que “nenhum dos vinte relatos da vida de Alexandre escritos por contemporâneos sobreviveu. As crónicas mais antigas foram escritas quatro séculos (ou mais) após a sua morte”. O que arruma a questão da separação entre história e mito: no caso de Alexandre são indissociáveis.
Finalmente, num filme de Oliver Stone é sempre de esperar um argumento politicamente armadilhado, uma visão eticamente niilista dos EUA. Se a “crítica anti-americana” está lá e é duvidoso que esteja, está ao nível subliminar e cada um “vê o que quer ver”. Para os críticos da política externa do presidente Bush (note-se que a batalha decisiva das tropas de Alexandre com as de Dário III teve lugar no actual território do Iraque), o filme constrói uma imagem “multiculturalista” de Alexandre, dominador da Ásia mas tolerante para com os costumes e as particularidades, ao contrário do “conquistador” da actualidade e do "seu" globalismo capitalista e intolerante. Mas os defensores da política externa americana de “difusão da democracia” também podem argumentar que a ocupação do Iraque, enquanto tentativa de neo-síntese entre a democracia liberal ocidental e a sociedade islâmica é análoga à aculturação helénica dos barbarismos asiáticos do tempo de Alexandre.
Independentemente das polémicas e até da própria qualidade mediana do filme, este tem pelo menos uma “virtude” política: sublinha o carácter historicamente decisivo da aspiração à grandeza. Porque essa aspiração esteve presente em toda a curta vida de Alexandre Magno, que aos vinte e cinco anos governava a maior parte do mundo conhecido, milhares de anos depois da sua morte continua a ser uma referência central na história mundial. Daqui por cinco ou dez anos poucos se recordarão dos nomes dos autores da trapalhada constitucional europeia. Em última análise, o que transforma um acto político num acto histórico é a megalothymia.
2004-12-04
O pasmo da nação
Agora só lhes falta descobrir que são maioritariamente eles próprios, os “portugueses e as portuguesas”, que não querem este nem qualquer outro governo que sonhe reduzir o número de funcionários públicos, que ouse pedir a quem utiliza os serviços de saúde ou pretenda obter educação superior que suporte (pelo menos) uma parte dos custos. Que são eles, os “portugueses e as portuguesas” que querem aumentos salariais “dignos”, que querem uma fatia cada vez maior de um bolo que não ajudam a fazer crescer. Que eles, os “portugueses e as portuguesas”, são geralmente indiferentes quanto ao futuro do seu país e que nas próximas eleições irão votar maioritariamente no tipo de poder político que lhes permita continuar a viver a ficção de que “não há nada de mal em querer um bocadinho de felicidade, não é?”. E que será assim, quer estas sejam em Fevereiro quer sejam em 2006.
Resta esperar que o próximo partido de governo lhes faça a eles, aos “portugueses e às portuguesas”, a única coisa que um partido com aspirações reformistas (se as tiver) pode fazer neste país, se quiser ganhar eleições e depois governar com sentido de responsabilidade: que os engane bem enganados.
2004-12-03
A palavra crucial
Há dois problemas fundamentais: em primeiro lugar, ninguém tem uma ideia segura sobre as determinantes do preço do petróleo; em segundo lugar, não é só o nível de preço que importa — é também a variabilidade.
A estabilidade verificada no preço do petróleo durante a maior parte da década de 90 (entre os 20 e os 30 dólares) era o resultado de um processo de determinação do lado da oferta, pelo cartel que controla boa parte da produção petrolífera mundial. A OPEP conseguia determinar e sustentar o preço do petróleo por uma razão simples: dispunha de uma considerável capacidade excedentária relativamente à procura mundial.
Nos últimos anos, o mercado alterou-se de forma muito significativa do lado da procura. Numa palavra: China. O rápido crescimento económico chinês em particular e asiático em geral provocou um deslocamento da curva da procura de petróleo. O excesso de capacidade da OPEP foi desaparecendo à medida que aumentos de produção eram decididos pelo cartel para fazer face à procura crescente. De acordo com o Economist (edição de 2 de Dezembro), a capacidade excedente instalada atingiu o mínimo absoluto dos últimos vinte anos. O resultado dos sucessivos excessos de procura foi uma tendência temporal crescente do preço do petróleo.
Mas a flutuação em torno da tendência tem outra explicação: o risco geopolítico. O principal problema do petróleo não é a escassez, é o risco de súbitas e brutais quebras de produção. É aqui que o terrorismo islâmico entra em cena. A Arábia Saudita é o pais decisivo, pela dimensão das suas reservas petrolíferas e a Casa de Saud é o verdadeiro alvo dos jihadistas. A melhor forma de instabilizar a Arábia Saudita é através de ataques às instalações de produção e transporte de petróleo. Segundo fontes citada no artigo do Economist, o prémio de risco incorporado no preço corrente do barril de petróleo poderá ser de 10 a 15 dólares (a expectativa de preços futuros mais elevados aumenta a procura corrente). As expansões de capacidade levam tempo a produzir efeitos e também são alvos para os terroristas.
As alternativas à Arábia Saudita não são brilhantes: o Iraque, a Venezuela, a Nigéria e a Rússia não são propriamente exemplos de estabilidade política. É certo que os países europeus estão hoje menos vulneráveis a flutuações bruscas no preço do petróleo do que na década de 1970: a despesa com o petróleo (em % do PIB) diminuiu para cerca de metade do valor de então, o que produziu um substancial “efeito de rendimento” positivo (associado à baixa do preço do petróleo durante a década de 90). A transmissão de eventuais subidas do preço do petróleo à taxa de inflação é muito menos provável com o euro. Mas o World Economic Outlook da OCDE recentemente lançado dedica um capítulo inteiro ao preço do petróleo (só na press release, a palavra “petróleo” é mencionada por vinte e cinco vezes em duas páginas). Se não há verdadeiramente um “problema” com o preço do petróleo, porquê tanta atenção?
Talvez a resposta seja: não há um problema macroeconómico “imediato” mas haverá a médio prazo. Se a tendência crescente do preço do petróleo se mantiver, inevitavelmente transmitir-se-á ao nível geral de preços e as economias que tiverem desequilíbrios macroeconómicos graves, como uma poupança pública sistematicamente negativa, estarão na primeira linha das dificuldades. O aviso (caso fosse necessário) é claro: o risco geopolítico é hoje maior do que nunca e agentes económicos racionais devem reagir ao aumento de risco adquirindo “seguros”. O governo português não tem de reduzir a despesa pública para “parecer bem na fotografia de Bruxelas”: tem de o fazer se quiser evitar que Portugal mude daqui por uns anos o nome para Nova Argentina.
Se os portugueses se convencerem que devem votar nas próximas eleições contra “austeridades e rigores desnecessários” será de uma irresponsabilidade política a raiar a loucura.
2004-12-01
A Christmas Carroll
A substituição pacífica e por mecanismos institucionais de governos é normal nas democracias liberais.
O governo ainda em funções testava até ao limite a "educação política" de qualquer um.
A dissolução da Assembleia da República, por entre DVD's lançados pela janela, cartas sentimentais de demissão, metáforas de "terríveis incubadoras" e apelos messiânicos à nação não é normal: é o último acto de um espectáculo medíocre.
A dissolução da Assembleia da República imediatamente após a votação do Orçamento de Estado é pura irresponsabilidade política e revela uma de duas coisas: ou uma extraordinária ausência de sentido de Estado, ou um calculismo político-partidário que não olha a meios para atingir os fins.
A chegada ao poder executivo de um governo formado com elementos da oposição ao anterior governo é uma trivialidade, ainda que seja o regresso ao poder de um partido onde não ocorreu qualquer renovação notória (veja-se a bancada parlamentar do PS).
Com a marcação das eleições legislativas para Fevereiro, a ausência de quadros políticos de qualidade poderá ser suprida pelo PS, em Janeiro. Estou certo que determinados elementos da "sociedade civil" descobrirão súbitas virtudes no Fórum "Novas Fronteiras" afortunadamente a realizar pouco antes das eleições.
O enfraquecimento da "voz política" do principal partido da oposição, que transformou o seu grupo parlamentar numa espécie de advogados de defesa da calamidade guterrista, permitiu a ascensão política (e jornalística) de um novo radicalismo de esquerda, marginal, pululante e desagregador.
Esse radicalismo de esquerda não tem expressão política nacional, constitui um fenómeno (sub)urbano, visível nas áreas cosmopolitas de Lisboa e do Porto e elege deputados graças a um sistema eleitoral proporcional, desenhado com o propósito exclusivo de conferir representação política alargada.
A maximização da representação política não é o único (se calhar nem sequer o principal) critério normativo de um bom sistema eleitoral.
Se o novo radicalismo de esquerda chegar ao poder executivo, na ausência de uma maioria absoluta de um só partido, Portugal não viverá "apenas" um período difícil: será fatal para qualquer esperança de reforma liberalizante da sociedade.
Resta esperar que os eleitores compreendam que nas actuais circunstâncias, o "voto útil" é uma manifestação de bom senso e de sentido da responsabilidade cívica.
2004-11-30
Os Nomes da Rosa
Primeiro Ministro: José Sócrates
Ministro do Pacifismo e da Anti-globalização (antigo Ministro da Defesa): Miguel Portas
Ministro da Desjudicialização e da Luta Contra a Vitimização Social do Infractor (antigo Ministro da Justiça): Ana Gomes
Ministro da Solidariedade com a Palestina e com o Resto do Mundo Árabe (antigo Ministro dos Negócios Estrangeiros): José Manuel Pureza
Ministro da Absoluta Igualdade e do Plano Quinquenal (antigo Ministro das Finanças): Francisco Louçã
Ministro da Camaradagem e da Fraternidade (antigo Ministro da Segurança Social, da Família, da Criança e do Cão): Manuel Alegre
Ministro do Desconstrutivismo e da Hermenêutica (antigo Ministro da Cultura): Manuel Maria Carrilho
Ministro do Aborto e da Gratuitidade Geral (antigo Ministro da Saúde): Maria de Belém
Ministro da Compreensão e da Auto-Estima dos Alunos e Professores (ex Ministro da Educação): Ana Benavente
Ministro da Abolição das Propinas (antigo Ministro do Ensino Superior): Ana Drago
Ministro da Co-Incineração e do Gasóleo Feito de Bosta (antigo Ministro do Ambiente): João Soares
Ministro do Eterno Subsídio (antigo Ministro da Agricultura e Pescas): Gomes da Silva
Ministro das Pontes, Túneis e Viadutos (antigo Ministro das Obras Públicas): Jorge Coelho
Ministro Adjunto e da Luta Contra a Corrupção: Edite Estrela
Ministro da Regulação e Controlo Administrativo das Actividades Económicas (antigo Ministro das Actividades Económicas): Joaquim Pina Moura
Ministro das Seis Horas Semanais (antigo Ministro do Trabalho): Carvalho da Silva
Ministro da Mega Mix e do Telemóvel 3G (antigo Ministro da Juventude): Rui Unas
Director da (futura) Central de Informação do Povo: Luís Osório.
Omne Ignotum Pro Magnifico.



