2004-12-06
Outra Opinião
A não perder, no Acidental.
China, risco nuclear e geoestratégia
Faltam sete minutos para a meia noite
Só recentemente a Coreia do Sul admitiu ter conduzido programas de extracção de plutónio em 1982, de enriquecimento de urânio entre 1979 e 1981 e de fabrico de munições de urânio empobrecido entre 1983 e 1987. As actividades ilegais de enriquecimento de urânio na Coreia do Sul continuaram ao longo da década de 90. Estas descobertas colocam várias dúvidas e problemas complexos.
Em primeiro lugar, o programa sul coreano poderá ter influenciado a decisão da Coreia do Norte de iniciar o seu próprio programa de armamento nuclear em 1998, com base em eventual informação de espionagem obtida na Coreia do Sul.
Em segundo lugar, os factos agora admitidos pela Coreia do Sul poderão influenciar as decisões estratégicas do Japão nesta matéria, tornando o ambiente neste país mais favorável ao desenvolvimento de um programa nuclear com fins militares.
Em terceiro lugar, este tipo de “descoberta” reforçam o cepticismo quanto à eficácia dos protocolos e sistemas internacionais destinados a evitar a proliferação de materiais nucleares. As “discrepâncias” nos registos oficiais de urânio e de plutónio são frequentes e a possibilidade da fervilhante actividade económica do extremo oriente incluir transacções de material nuclear com potencial militar é desconfortavelmente elevada. Ninguém pode garantir que grupos terroristas não tenham já armas nucleares em seu poder.
Em 1997, o general russo Alexander Lebed admitiu tranquilamente que o governo russo tinha “perdido” mais de 100 malas transformadas em bombas nucleares, das cerca de 250 armas nucleares deste tipo. São armas nucleares transportáveis individualmente, levam entre 20 e 30 minutos a ser preparadas para explodir e não dependem de qualquer código de activação. O governo russo desmentiu a informação mas preocupou-se mais em descredibilizar o mensageiro. Até hoje o paradeiro de tais malas, a terem sido extraviadas, é desconhecido.
A construção de bombas para a dispersão de materiais nucleares (as “dirty bombs”) é ainda mais simples e as fontes bastante mais diversificadas (o césio, por exemplo, é usado em hospitais). A explosão de uma bomba destas, para além do número de vítimas imediato causará ondas de pânico (as estimativas do número de mortes em acidentes causados pelo pânico excede o número de vítimas da exposição à radiação), custos de descontaminação elevadíssimos e a eventual interdição da área afectada por um número indeterminado de anos (suponha que se trata de Londres, Nova Iorque, Los Angeles ou Paris). Os custos económicos seriam susceptíveis de provocar uma recessão sem precedentes. São cenários semelhantes que os terroristas têm em mente, quando procuram adquirir a tecnologia nuclear.
Países como a Rússia, o Paquistão, a Ucrânia (pois...), a Coreia do Norte, o Irão, a Geórgia ou o Uzbequistão estão entre os mais problemáticos do ponto de vista da segurança nuclear. Um exercício simples mas pedagógico consiste em assinalá-los num mapa e observar o resultado. Os presidentes norte americanos William Clinton e George W. Bush não tinham razão quando falavam num “axis of evil” (Clinton usou pela primeira vez a expressão “axis of impious states” para designar o trio sinistro do Irão, Iraque e Coreia do Norte); na verdade assemelham-se mais a um “ring of nightmare”.
Se quiser saber mais sobre o risco de terrorismo nuclear, uma boa fonte de informação é o livro de Graham Allison, professor de Government na Universidade de Harvard: Nuclear Terrorism (Times Books, 2004).
Não admira por isso que o ponteiro deste relógio esteja hoje mais próximo da meia noite do que em algum momento nos últimos dezasseis anos. Se o pior cenário se verificar talvez não haja tempo para acertar o relógio.
2004-12-05
Megalothymia ou tolerância?
Oliver Stone começa por “desconstruir” Alexandre, recorrendo ao psiquismo freudiano e transpondo para o plano comportamental da sexualidade a divisão afectiva que a rivalidade entre os pais teria causado. Reconheço que uma das poucas formas de tornar o complexo de Édipo credível é com Angelina Jolie no papel de mãe, mas a sugestão de Alexandre entregue à conquista da Ásia para “fugir à mãezinha” é ridícula.
Depois há as acusações de “infidelidade” e “inexactidão” histórica. É certo que os tempos da Grande Narrativa já lá vão e a verdade é uma coisa “antiga” — o relativismo contemporâneo não se atreve sequer a mencionar a palavra sem a rodear de uma boa dose de aspas. Porém, o historiador de Oxford Robin Lane Fox, autor de uma biografia de Alexandre e que colaborou na rodagem do filme, menciona em artigo da New York Times que “nenhum dos vinte relatos da vida de Alexandre escritos por contemporâneos sobreviveu. As crónicas mais antigas foram escritas quatro séculos (ou mais) após a sua morte”. O que arruma a questão da separação entre história e mito: no caso de Alexandre são indissociáveis.
Finalmente, num filme de Oliver Stone é sempre de esperar um argumento politicamente armadilhado, uma visão eticamente niilista dos EUA. Se a “crítica anti-americana” está lá e é duvidoso que esteja, está ao nível subliminar e cada um “vê o que quer ver”. Para os críticos da política externa do presidente Bush (note-se que a batalha decisiva das tropas de Alexandre com as de Dário III teve lugar no actual território do Iraque), o filme constrói uma imagem “multiculturalista” de Alexandre, dominador da Ásia mas tolerante para com os costumes e as particularidades, ao contrário do “conquistador” da actualidade e do "seu" globalismo capitalista e intolerante. Mas os defensores da política externa americana de “difusão da democracia” também podem argumentar que a ocupação do Iraque, enquanto tentativa de neo-síntese entre a democracia liberal ocidental e a sociedade islâmica é análoga à aculturação helénica dos barbarismos asiáticos do tempo de Alexandre.
Independentemente das polémicas e até da própria qualidade mediana do filme, este tem pelo menos uma “virtude” política: sublinha o carácter historicamente decisivo da aspiração à grandeza. Porque essa aspiração esteve presente em toda a curta vida de Alexandre Magno, que aos vinte e cinco anos governava a maior parte do mundo conhecido, milhares de anos depois da sua morte continua a ser uma referência central na história mundial. Daqui por cinco ou dez anos poucos se recordarão dos nomes dos autores da trapalhada constitucional europeia. Em última análise, o que transforma um acto político num acto histórico é a megalothymia.
2004-12-04
O pasmo da nação
Agora só lhes falta descobrir que são maioritariamente eles próprios, os “portugueses e as portuguesas”, que não querem este nem qualquer outro governo que sonhe reduzir o número de funcionários públicos, que ouse pedir a quem utiliza os serviços de saúde ou pretenda obter educação superior que suporte (pelo menos) uma parte dos custos. Que são eles, os “portugueses e as portuguesas” que querem aumentos salariais “dignos”, que querem uma fatia cada vez maior de um bolo que não ajudam a fazer crescer. Que eles, os “portugueses e as portuguesas”, são geralmente indiferentes quanto ao futuro do seu país e que nas próximas eleições irão votar maioritariamente no tipo de poder político que lhes permita continuar a viver a ficção de que “não há nada de mal em querer um bocadinho de felicidade, não é?”. E que será assim, quer estas sejam em Fevereiro quer sejam em 2006.
Resta esperar que o próximo partido de governo lhes faça a eles, aos “portugueses e às portuguesas”, a única coisa que um partido com aspirações reformistas (se as tiver) pode fazer neste país, se quiser ganhar eleições e depois governar com sentido de responsabilidade: que os engane bem enganados.
2004-12-03
A palavra crucial
Há dois problemas fundamentais: em primeiro lugar, ninguém tem uma ideia segura sobre as determinantes do preço do petróleo; em segundo lugar, não é só o nível de preço que importa — é também a variabilidade.
A estabilidade verificada no preço do petróleo durante a maior parte da década de 90 (entre os 20 e os 30 dólares) era o resultado de um processo de determinação do lado da oferta, pelo cartel que controla boa parte da produção petrolífera mundial. A OPEP conseguia determinar e sustentar o preço do petróleo por uma razão simples: dispunha de uma considerável capacidade excedentária relativamente à procura mundial.
Nos últimos anos, o mercado alterou-se de forma muito significativa do lado da procura. Numa palavra: China. O rápido crescimento económico chinês em particular e asiático em geral provocou um deslocamento da curva da procura de petróleo. O excesso de capacidade da OPEP foi desaparecendo à medida que aumentos de produção eram decididos pelo cartel para fazer face à procura crescente. De acordo com o Economist (edição de 2 de Dezembro), a capacidade excedente instalada atingiu o mínimo absoluto dos últimos vinte anos. O resultado dos sucessivos excessos de procura foi uma tendência temporal crescente do preço do petróleo.
Mas a flutuação em torno da tendência tem outra explicação: o risco geopolítico. O principal problema do petróleo não é a escassez, é o risco de súbitas e brutais quebras de produção. É aqui que o terrorismo islâmico entra em cena. A Arábia Saudita é o pais decisivo, pela dimensão das suas reservas petrolíferas e a Casa de Saud é o verdadeiro alvo dos jihadistas. A melhor forma de instabilizar a Arábia Saudita é através de ataques às instalações de produção e transporte de petróleo. Segundo fontes citada no artigo do Economist, o prémio de risco incorporado no preço corrente do barril de petróleo poderá ser de 10 a 15 dólares (a expectativa de preços futuros mais elevados aumenta a procura corrente). As expansões de capacidade levam tempo a produzir efeitos e também são alvos para os terroristas.
As alternativas à Arábia Saudita não são brilhantes: o Iraque, a Venezuela, a Nigéria e a Rússia não são propriamente exemplos de estabilidade política. É certo que os países europeus estão hoje menos vulneráveis a flutuações bruscas no preço do petróleo do que na década de 1970: a despesa com o petróleo (em % do PIB) diminuiu para cerca de metade do valor de então, o que produziu um substancial “efeito de rendimento” positivo (associado à baixa do preço do petróleo durante a década de 90). A transmissão de eventuais subidas do preço do petróleo à taxa de inflação é muito menos provável com o euro. Mas o World Economic Outlook da OCDE recentemente lançado dedica um capítulo inteiro ao preço do petróleo (só na press release, a palavra “petróleo” é mencionada por vinte e cinco vezes em duas páginas). Se não há verdadeiramente um “problema” com o preço do petróleo, porquê tanta atenção?
Talvez a resposta seja: não há um problema macroeconómico “imediato” mas haverá a médio prazo. Se a tendência crescente do preço do petróleo se mantiver, inevitavelmente transmitir-se-á ao nível geral de preços e as economias que tiverem desequilíbrios macroeconómicos graves, como uma poupança pública sistematicamente negativa, estarão na primeira linha das dificuldades. O aviso (caso fosse necessário) é claro: o risco geopolítico é hoje maior do que nunca e agentes económicos racionais devem reagir ao aumento de risco adquirindo “seguros”. O governo português não tem de reduzir a despesa pública para “parecer bem na fotografia de Bruxelas”: tem de o fazer se quiser evitar que Portugal mude daqui por uns anos o nome para Nova Argentina.
Se os portugueses se convencerem que devem votar nas próximas eleições contra “austeridades e rigores desnecessários” será de uma irresponsabilidade política a raiar a loucura.
2004-12-01
A Christmas Carroll
A substituição pacífica e por mecanismos institucionais de governos é normal nas democracias liberais.
O governo ainda em funções testava até ao limite a "educação política" de qualquer um.
A dissolução da Assembleia da República, por entre DVD's lançados pela janela, cartas sentimentais de demissão, metáforas de "terríveis incubadoras" e apelos messiânicos à nação não é normal: é o último acto de um espectáculo medíocre.
A dissolução da Assembleia da República imediatamente após a votação do Orçamento de Estado é pura irresponsabilidade política e revela uma de duas coisas: ou uma extraordinária ausência de sentido de Estado, ou um calculismo político-partidário que não olha a meios para atingir os fins.
A chegada ao poder executivo de um governo formado com elementos da oposição ao anterior governo é uma trivialidade, ainda que seja o regresso ao poder de um partido onde não ocorreu qualquer renovação notória (veja-se a bancada parlamentar do PS).
Com a marcação das eleições legislativas para Fevereiro, a ausência de quadros políticos de qualidade poderá ser suprida pelo PS, em Janeiro. Estou certo que determinados elementos da "sociedade civil" descobrirão súbitas virtudes no Fórum "Novas Fronteiras" afortunadamente a realizar pouco antes das eleições.
O enfraquecimento da "voz política" do principal partido da oposição, que transformou o seu grupo parlamentar numa espécie de advogados de defesa da calamidade guterrista, permitiu a ascensão política (e jornalística) de um novo radicalismo de esquerda, marginal, pululante e desagregador.
Esse radicalismo de esquerda não tem expressão política nacional, constitui um fenómeno (sub)urbano, visível nas áreas cosmopolitas de Lisboa e do Porto e elege deputados graças a um sistema eleitoral proporcional, desenhado com o propósito exclusivo de conferir representação política alargada.
A maximização da representação política não é o único (se calhar nem sequer o principal) critério normativo de um bom sistema eleitoral.
Se o novo radicalismo de esquerda chegar ao poder executivo, na ausência de uma maioria absoluta de um só partido, Portugal não viverá "apenas" um período difícil: será fatal para qualquer esperança de reforma liberalizante da sociedade.
Resta esperar que os eleitores compreendam que nas actuais circunstâncias, o "voto útil" é uma manifestação de bom senso e de sentido da responsabilidade cívica.
2004-11-30
Os Nomes da Rosa
Primeiro Ministro: José Sócrates
Ministro do Pacifismo e da Anti-globalização (antigo Ministro da Defesa): Miguel Portas
Ministro da Desjudicialização e da Luta Contra a Vitimização Social do Infractor (antigo Ministro da Justiça): Ana Gomes
Ministro da Solidariedade com a Palestina e com o Resto do Mundo Árabe (antigo Ministro dos Negócios Estrangeiros): José Manuel Pureza
Ministro da Absoluta Igualdade e do Plano Quinquenal (antigo Ministro das Finanças): Francisco Louçã
Ministro da Camaradagem e da Fraternidade (antigo Ministro da Segurança Social, da Família, da Criança e do Cão): Manuel Alegre
Ministro do Desconstrutivismo e da Hermenêutica (antigo Ministro da Cultura): Manuel Maria Carrilho
Ministro do Aborto e da Gratuitidade Geral (antigo Ministro da Saúde): Maria de Belém
Ministro da Compreensão e da Auto-Estima dos Alunos e Professores (ex Ministro da Educação): Ana Benavente
Ministro da Abolição das Propinas (antigo Ministro do Ensino Superior): Ana Drago
Ministro da Co-Incineração e do Gasóleo Feito de Bosta (antigo Ministro do Ambiente): João Soares
Ministro do Eterno Subsídio (antigo Ministro da Agricultura e Pescas): Gomes da Silva
Ministro das Pontes, Túneis e Viadutos (antigo Ministro das Obras Públicas): Jorge Coelho
Ministro Adjunto e da Luta Contra a Corrupção: Edite Estrela
Ministro da Regulação e Controlo Administrativo das Actividades Económicas (antigo Ministro das Actividades Económicas): Joaquim Pina Moura
Ministro das Seis Horas Semanais (antigo Ministro do Trabalho): Carvalho da Silva
Ministro da Mega Mix e do Telemóvel 3G (antigo Ministro da Juventude): Rui Unas
Director da (futura) Central de Informação do Povo: Luís Osório.
Omne Ignotum Pro Magnifico.
Terrorismo e mito
Não é através destas gravações que se perceberá a natureza política do terrorismo islâmico ou o perfil e a origem dos jihadistas. Marc Sageman, um psiquiatra que trabalhou para a CIA, estudou as biografias de mais de 170 membros do movimento jihadista Salafi (Al Qaeda e organizações afins). Os interessantes resultados constam deste Understanding Terror Networks (University of Pennsylvania Press, 2004).
Um erro frequentemente repetido é o da explicação da adesão ao terrorismo pela pobreza (na versão dramatizada, a “fome” ou a “miséria”) o que implicitamente transfere a "responsabilidade" para os ocidentais (a pobreza é "obviamente" uma consequência da globalização).
Mas entre os 170 terroristas analisados por Sageman cerca de dois terços tinha origem na classe média e educação universitária (Sayed Qutb, uma das principais referências ideológicas dos jihadistas, era um professor e inspector do Ministério da Educação egípcio, anteriormente à sua adesão ao radicalismo islâmico). Em muitos casos os jihadistas são detentores de graus académicos, incluindo doutoramentos. A proporção de “homens de família” (casados e com filhos) é bastante elevada (cerca de 75%).
Outra sugestão de Sageman, contrária ao senso comum, relaciona-se com a motivação do terrorismo islâmico: o extremismo religioso parece desempenhar um papel essencialmente instrumental, de discurso ideológico susceptível de atrair operacionais. Entre os membros da Al Qaeda analisados no estudo, eram muito poucos os que tinham frequentado as escolas religiosas islâmicas (as madrassah).
Afinal o que é que "eles" querem”? Walter Laqueur em Voices of Terror (Reed Press, 2004), recorda que o terrorismo não deve ser confundido com uma ideologia; trata-se de uma estratégia política e como tal tem objectivos claros. Na secção 1 da Parte 3 deste livro, Terrorism in the Muslim World, o principal objectivo dos jihadistas, está enunciado de forma simples e directa, em comunicados e manifestos do Hamas e da Al Qaeda: pretendem a restauração do Califado e o regresso do Islão a uma posição de domínio político internacional.
Se achar a ideia de "islamização do Ocidente" uma "impossibilidade", recue uns séculos na história europeia (até ao domínio otomano de boa parte do continente) ou leia o que o historiador Bernard Lewis pensa sobre o assunto. Mesmo que não se importe de viver no “Califado da Europa” não tem razões para estar sossegado: feito em pedaços como vítima de mais um atentado sangrento poderá ser mais útil à “causa”.
2004-11-29
A Cerimónia do Adeus
Há algumas mais curtas. Há outras ainda mais longas:
"A cultura europeia é a única que renegou as suas origens civilizacionais e se esgota em controvérsias axiais. O que excita os europeus é discutir a liberdade do aborto, droga e tabaco, a redução do horário de trabalho, a defesa do prazer livre e «famílias alternativas», a ambiguidade nas alianças geostratégicas. Não admira que daí resulte a estagnação, o desnorte, a corrupção. A desorientação é a causa da referida queda demográfica e cultural. Num mundo que será em breve muito diferente, com China, Índia e Islão em florescente influência político-económica, não valerá a pena perder tempo com a velha, gorda e pequena Europa, cuja relevância apela a hegemonias extintas."
João César das Neves, "O Povo sem Futuro", Diário de Notícias, 29 de Novembro de 2004.
2004-11-28
Apelo às ovelhas
Domingo no "Fim da História"
2004-11-27
No país das janelas partidas
2004-11-26
O Longo Êxodo
Uma grande parte desses colonos eram os "desgraçados da Europa", que se recusavam simplesmente a morrer sem tentar sobreviver. Muitos morreram logo na viagem. Os que chegavam ao outro lado do Atlântico e ainda tinham ânimo para partir de novo recebiam um título de posse de cerca de 65 hectares de terra a troco de 18 dólares. A partir daí estavam entregues a si próprios.
Esta mistura de determinação, direitos de propriedade e vontade de liberdade ergueu os EUA. É a memória desses antepassados europeus que George Will evoca no Thanksgiving Day.
Mais de um século depois, o êxodo continua. A vontade de fuga é a mesma, mas os emigrantes europeus mudaram radicalmente. Se no séc. XIX eram os descamisados, a “escória da Europa” em fuga aos múltiplos despotismos, agora são os melhores e mais habilitados, em fuga a uma Europa envelhecida, sufocada pela hiper-regulação e pelo ónus fiscal das despesas sociais. Num estudo recente, Gilles Saint-Paul, da Universidade de Toulouse, conclui que a evidência empírica disponível sugere a existência de um efeito muito significativo de “desnatação” da força de trabalho europeia.
A proporção de PhD’s entre os emigrados europeus nos EUA é de cerca de 10%, enquanto que a mesma proporção entre a população europeia é de cerca de 0,5 a 1%. Outras diferenças estatisticamente significativas (em termos de ensaio de hipóteses): os emigrados europeus nos EUA têm uma taxa de emprego mais elevada do que a taxa de emprego americana, têm uma probabilidade várias vezes maior de ter um doutoramento do que o participante médio no mercado de trabalho americano e representam uma percentagem elevada dos empresários.
Os efeitos negativos sobre o crescimento económico europeu podem ser tremendos e estão claramente subestimados na generalidade dos estudos empíricos pelo tratamento indiferenciado dos diversos tipos de trabalho, que subestima tremendamente a importância crucial do trabalho especializado na inovação e gestão.
Se a hipótese (incorrecta) da homogeneidade do trabalho for abandonada, cerca de 50% do trabalho especializado europeu - o factor decisivo no crescimento económico - poderá estar nos EUA.
Os americanos agradecem e, com um “subsídio” ao seu bem estar desta grandeza, podem muito bem continuar a aturar o desprezo político da generalidade dos europeus por mais um século.
"Se não percebes a pergunta, vota não"
Por tudo isto, a pergunta acaba por ser pedagógica, ao revelar as intenções escondidas dos seus autores e por isso a pergunta é razão suficiente para se votar não. Mais do que isso: é moral votar não, é lutar por uma dignidade que os autores da pergunta não reconhecem aos portugueses. Por tudo isto, é que defendo a urgência da constituição de um movimento cívico, ou de mil movimentos, que dá o mesmo, que comece já a fazer camapanha pelo "não".Por mim, começo a campanha hoje:vote não no referendo sobre a constituição europeia!
2004-11-25
Nacional socialismo
Colocar Portugal no ‘top of mind’ dos destinos turísticos e desta forma aumentar o fluxo de turistas (...). A nova campanha intitulada ‘Live Deeper’, que surge no seguimento da promoção do país feita a propósito do Euro 2004, tem como enfoque principal o “reforço do valor dos Oceanos na marca Portugal Turismo”.O texto acima, obviamente indecifrável, serve lindamente para passar o incentivo ao golfe e ao “scuba-diving” como prioridades da despesa pública.
Tendo como pano de fundo os oceanos, a nova campanha inspirada nas ideias de profundidade, diversidade e emoção, vai ser segmentada em sete temas: ‘relax’, romance, cultura, aventura, animação, golfe e MICE, dirigido ao turismo de negócios.
Já ninguém se incomoda com o sistemático anúncio de medidas que envolvem custos fiscais difundidos pela totalidade dos contribuintes e benefícios privados concentrados em subgrupos sociais bem identificados, neste caso as empresas ligadas às actividades turísticas e publicitárias. Os poucos que o fizerem receberão provavelmente como resposta uma vacuidade keynesiana: o Estado gasta, mas a bem da nação, porque as despesas com o turismo têm um “efeito multiplicador”. Não perguntar torna-se a melhor estratégia, os efeitos sociais são nulos e sempre se aturam menos patetices.
Mas há neste “anúncio de futuros anúncios” (tratam-se, afinal de contas, de campanhas publicitárias) uma linguagem, que no seu propósito instrumental de “anestesia fiscal” revela, sem o querer, demasiado sobre a verdadeira natureza do Estado português. Refiro-me em particular à “marca Portugal”. O absurdo de um país-marca, de uma união serôdia e forçada pela via fiscal dos interesses dos cidadãos em torno do “objectivo nacional” de promoção turística.
Tudo isto resulta num colectivismo sem socialismo, de baixas calorias, numa apoteose televisiva de castelos filmados de helicóptero, de um “povo” de cara cheia de sorrisos falsíssimos a acenar em câmara lenta, de lugares magníficos que só existem nas imagens promocionais.
Filósofos alemães como Oswald Spengler e Ernst Jünger, ambos influentes no advento do terceiro Reich, desejavam criar um “socialismo sem marxismo”. O governo português, que na balbúrdia política nacional se reclama “de direita”, tem a sua própria concepção de socialismo sem marxismo, mas agora em paródia consumista pós-moderna, com a história e a cultura reduzidas a um conjunto de imagens “hiper-reais”.
Welcome to Portugal.
2004-11-24
Uma oportunidade perdida
Um dos maiores contributos intelectuais de Robert Lucas, prémio Nobel da Economia em 1995, foi a compreensão e medição da importância decisiva do capital humano na acumulação de riqueza. A captação deste capital, ainda na forma potencial, é essencial para o futuro económico e político de qualquer sociedade. Os americanos estão perfeitamente conscientes do desastre que resultará da alteração dos hábitos migratórios dos estudantes estrangeiros: uma parte substancial da investigação científica realizada nos EUA nas últimas décadas foi conseguida graças a eles. Em artigo recente para a Foreign Policy, Kenneth Rogoff lembrava, a propósito das consequências negativas resultantes da burocratização da concessão de vistos nos EUA:
[T]oday about 2.5 million foreigners with advanced degrees work in the United States, and many hold leading positions in science and industry and serve as key transnational links for the increasingly globalized U.S. economy. More than 30 percent of all Ph.D. recipients in U.S. science and mathematics programs are foreigners on student visas. In engineering, almost half of all graduates have come to the United States on foreign visas; many of them stay in the country upon completing their degrees. The U.S. economy grows in no small part by skimming the cream off the rest of the world’s workforce.O assunto foi retomado ontem por Fareed Zakaria, num artigo publicado no Washington Post: a procura de licenciaturas dirigida às universidades americanas por parte de alunos oriundos de países “exportadores” de capital humano tem vindo a decair e o declínio da procura é ainda maior ao nível das pós-graduações.
Esta situação cria uma oportunidade inesperada para a Europa: as universidades europeias constituem uma alternativa possível para uma parte significativa do capital humano internacional normalmente captado pelas universidades americanas.
Está a Europa em condições de competir pela captação destes valiosos recursos? Nem pensar. Um artigo publicado no The Economist em 23 de Setembro dava conta do estado lamentável das universidades europeias. De acordo com números da Comissão Europeia citados no artigo, cerca de 400 000 investigadores europeus estão nos EUA e 3 em cada 4 não tencionam regressar. Dados da OCDE citados noutro artigo da mesma revista revelam que entre 1998 e 2002 a procura de estudantes estrangeiros dirigidos às universidades americanas sofreu um notório declínio. Mas a procura dirigida às universidades inglesas, francesas e alemãs também diminuiu: os “ganhadores” foram a Austrália e o Japão. Na edição de 19 – 21 de Novembro, o Wall Street Journal Europe (link indisponível) dava conta do descontentamento dos dirigentes da Siemens AG com a qualidade dos estudantes universitários formados na Alemanha. De acordo com o presidente da German Industry Federation, o sistema universitário alemão, burocrático e incompetente, é o principal responsável pela “fuga de cérebros” para os EUA.
Aparentemente o risco adicional criado pelas condições de insegurança não se revela suficiente para impedir os estudantes europeus de emigrarem de forma irreversível para os EUA, muito menos para atrair alunos de outros continentes.
Note-se: a questão não é a incapacidade dos políticos europeus (com a ressalva da categorização e generalização abusiva) resolverem “o problema”. A lógica da Agenda de Lisboa, da “sociedade da informação”, é parte do problema e não da solução. É uma estratégia de controlo político ditada pela necessidade de subordinação da sociedade a “objectivos”, a “metas” que exigem “planos” e (claro) meios para os concretizar. Sempre com o Estado (ou o meta-Estado europeu) como o “Grande Timoneiro”, indicando o rumo, a direcção para um radioso futuro.
Cria-se capital humano com liberdade, não com cimeiras e legislação avulsa. São necessárias universidades europeias competitivas com as melhores universidades americanas, o que pressupõe liberdade de decisão por parte destas para tomarem as decisões cruciais: competir no mercado internacional de trabalho pelo recrutamento dos melhores professores, escolherem os programas e currículos que consideram susceptíveis de atrair quem pretende a melhor formação, desenvolver programas ambiciosos de investigação, etc. Tudo isto depende primeiramente de conferir liberdade às universidades para cobrarem propinas “a sério” e para procurarem financiamentos privados, que permitam a criação e sustentação destas condições.
Captar investimento é atrair os melhores investigadores futuros: as verdadeiras “agências portuguesas de investimento” são as universidades, não são organismos que se limitam a oferecer prémios fiscais à localização de empresas que trazem as “tecnologias de ontem”. Esses organismos são erros crassos. Governar bem, nesta matéria, é não impedir quem sabe ensinar, investigar e criar riqueza de o fazer livremente.
É irónico que a chave para a manutenção duradoura da supremacia científica, tecnológica, económica e política dos EUA esteja provavelmente nos actos e omissões dos políticos europeus mais críticos do “poder americano”.
O nosso governo "neo-liberal"
2004-11-23
Heidegger no pão
Os jogos das nações
Um jogador dos Indiana Pacers foi suspenso por 73 jogos (o resto da temporada) e sujeito a uma caução salarial de mais de 5 milhões de dólares. Este jogador, que já tem um longo historial de suspensões, tinha pedido recentemente ao clube para ser dispensado dos jogos durante um mês para se dedicar a tarefas de promoção musical (pelo menos agora vai ter oportunidade para o fazer). Dois colegas de equipa foram suspensos por 30 e 25 jogos, respectivamente. Motivo: envolvimento dos jogadores em confronto físico com espectadores. Dos confrontos resultaram nove feridos e um número indeterminado de acções judiciais.
Com esta medida a NBA espera reduzir os maus exemplos de conduta cívica entre os jogadores profissionais de basquetebol, que se tornaram recorrentes ao longo dos últimos dois anos, desde o caso mais mediático do jogador dos LA Lakers, Kobe Bryant, acusado de violação, até aos cada vez mais frequentes problemas de consumo de drogas, de condução alcoolizada, etc.
Do ponto de vista da NBA o problema é simples: o negócio do basquetebol é em grande parte o negócio dos patrocínios empresariais e estes dependem crucialmente do valor comercial da marca NBA. A má conduta cívica de um número crescente de jogadores tem degradado a imagem e a reputação da NBA junto do público americano. Isso reflecte-se numa perda de valor comercial da marca que se traduz em perdas consideráveis de dinheiro de patrocínios.
Os EUA não são uma sociedade “desmoralizada”, onde apenas alguns políticos descentrados da realidade é que “descobrem” os “valores morais” de quatro em quatro anos, para consumo eleitoral. Mas nos EUA, como na generalidade das sociedades desenvolvidas, os cidadãos não votam periodicamente: votam todos os dias, como consumidores, com o seu próprio dinheiro, fazendo escolhas e interagindo permanentemente no vasto e complexo conjunto de mercados da economia.
Os americanos não estão dispostos a “votar monetariamente” em produtos de empresas cuja imagem é associada à violência, à droga e ao desrespeito das leis. As empresas sabem disso. A NBA também. Por isso prefere tomar medidas exemplares a deixar que certos maus hábitos sociais de alguns afundem um gigantesco negócio que depende crucialmente da imagem social dos desportistas.
Veja-se a diferença para a Europa, onde o futebol tem o maior destaque. Em Portugal, apenas para citar o exemplo próximo, os jogos são pretextos para a exibição dos piores hábitos de conduta, por parte de jogadores, público e mesmo comentadores. Até pessoas, que de outro modo se comportam de forma inteiramente razoável, quando se trata da “bola”, do “clube”, entram num estranho estado de “suspensão da razão” e substituem o discurso examinado por um absurdo relativismo. Mesmo em Inglaterra, bem mais próxima de qualquer definição aceitável de civilização, há casos como o do jogador do Manchester United, Roy Keane, que admitiu na sua “biografia” ter deliberadamente partido a perna a um adversário, uma agressão que lhe pôs termo à carreira profissional.
O livro foi um sucesso.
2004-11-22
À Espera de Volcker
O relatório tornou-se rapidamente conhecido como o "no WMD's report", por apontar para a improvável existência de armas de destruição maciça à altura da ocupação militar anglo-americana. No entanto, o mesmo relatório revelava outros factos, tão ou mais importantes, mas que foram aparentemente merecedores de pouca atenção por parte dos jornalistas (em particular pelos europeus).
Refiro-me aos elementos relativos ao programa Oil for Food, introduzido em 1996 e gerido pelas Nações Unidas. Este programa permitia ao Iraque exportar limitadamente algum petróleo em troca de importações de bens alimentares e medicamentos. De acordo com os elementos de informação já disponíveis, este programa tinha-se tornado, à altura da deposição de Saddam Hussein, num gigantesco esquema de corrupção, tornando efectivamente inúteis as sanções económicas anteriormente impostas pela mesma ONU.
Com base nos documentos iraquianos obtidos após a ocupação em 2003, estima-se que cerca de 11 biliões de dólares tenham sido desviados para contas bancárias do governo iraquiano. Estes dinheiros serviram para financiar o opulento modo de vida da clique dirigente durante os ?anos difíceis? das sanções, bem como para reequipar as forças armadas iraquianas. Dos 11 biliões de dólares, cerca de 7,5 biliões resultaram de receitas de "protocolos" ilegais de venda de petróleo. Da lista de 248 empresas beneficiárias destes contractos constam empresas da Rússia (35), dos Emiratos Árabes Unidos (12), da França (8), da Síria (7), dos EUA (4), da China, da Ucrânia e da Turquia, entre outros.
Cerca de 2 biliões resultaram directamente de fraudes no âmbito do programa da ONU: uma cascata de dinheiro foi distribuída pelo governo iraquiano, sob a forma de vouchers de petróleo, a título de subornos internacionais aos "amigos do regime". Entre esses beneméritos desinteressados surgem os partidos comunistas russo, bielorusso e eslovaco, o embaixador nigeriano no Iraque, uma tal de Associação de Amizade França-Iraque e um "Mr. Sifan". Este sujeito é, nem mais nem menos, Benon Sevan, o ex-responsável das Nações Unidas pelo programa Oil for Food. O relatório Duelfer é taxativo neste ponto: a lista dos beneficiários dos vouchers de petróleo foi pessoalmente aprovada por Saddam, que fez modificações à versão inicial, excluindo e acrescentando alguns nomes. O resto dos 11 biliões é receita de "vendas a dinheiro" de petróleo iraquiano e de vigarices avulsas.
O objectivo político de Saddam era claro. Através dos subornos e usando instrumentalmente a pressão de uma opinião pública impressionada pelas imagens de sofrimento do povo iraquiano, esperava conseguir a breve trecho que a ONU aprovasse o levantamento do regime de sanções, deixando-o de mãos livres para prosseguir abertamente o que nunca tinha deixado de fazer, embora com o desconforto das sanções: o reequipamento militar do regime.
Vale a pena sublinhar a perfídia da estratégia: note-se que as mortes de civis, por doença e mal nutrição foram em larga medida causadas pelo desvio do dinheiro do programa Oil for Food, que em vez de servir para adquirir alimentos e medicamentos foi utilizado por Saddam para a aquisição de bens de luxo e de armamento. E quanto mais civis morriam, tanto melhor para a estratégia de Saddam.
Para além do (agora) conhecido envolvimento neste esquema de gigantesca corrupção de altos funcionários da ONU, há muito que estão sob investigação indícios do envolvimento de membros da família de Kofi Annan, designadamente de um dos filhos do Secretário Geral.
Os rumores do escândalo não são propriamente novos e levaram Kofi Annan a nomear em Abril deste ano uma Comissão Independente de Inquérito ao programa Oil for Food, presidida pelo ex-chairman do Federal Reserve, Paul Volcker.
Aparentemente, à medida que a rede de corrupção em torno do programa da ONU vai sendo conhecida, as resistências aos trabalhos da comissão vão aumentando. As informações preliminares libertadas pela própria comissão indicam que a verdadeira extensão da corrupção e do envolvimento de bancos, empresas e entidades políticas de alguns dos países mais ?críticos? da intervenção militar no Iraque está ainda longe de ser conhecida. Se o relatório Duelfer tem algum defeito neste ponto, parece ser o de uma excessiva modéstia nas conclusões incriminadoras. Aguarda-se portanto com grande interesse pelas conclusões globais da Comissão Volcker.
Em todo o caso, atendendo à gravidade do que já é conhecido, não se compreende como é que o actual Secretario Geral da ONU se mantém em funções. Ele terá, por certo, muitas e excelentes razões. Eu não encontro uma única. Legítima, note-se.
2004-11-21
Títulos e números
Título: "Alunos Portugueses Passam Mais Horas a Fazer Trabalhos de Casa do Que a Média dos Países da OCDE"
Números: 4,6 h (média semanal na OCDE), 5 h (média portuguesa)
Números alternativos: 0,4 h = 24 minutos a mais por semana = 5 minutos a mais por dia
Título alternativo: "Alunos Portugueses Passam Mais Cinco Minutos por Dia a Fazer Trabalhos de Casa do Que a Média dos Países da OCDE"
É um estudante universitário, pois claro
Como lhe tinha tido , o grupo em que eu estava inserido , desfesce porque um dos elementos o AA (nnnnn) descobriu que ja tinha feito a cadeira , o outro elemento BB (nnnnn) mudou-se para , outro grupo , e eu estou a fazer o trabalho com outro grupo , que composto por CC (nnnnn) , DD (nnnnn) , EE (nnnnn) e por ter 3 elementos que eu pedi ao professor que me conceda ficar no grupo , fazendo uma excepção.
Auggie Wren
A personagem central de ambos é Auggie Wren (Harvey Keitel), dono de uma tabacaria em Brooklyn que funciona como âncora psicológica para uma série de outras personagens e para as suas histórias, que se enovelam em espirais subtis, como o fumo dos cigarros.
Auggie tem um hábito curioso: ao longo de 14 anos fotografou a rua sempre da mesma perspectiva. Quando mostra o album de fotografias a Paul Benjamin (William Hurt) este responde, com ar confuso, que lhe parecem todas iguais. A resposta de Auggie é simples como a sabedoria: "You'll never get it if you don't slow down, my friend."
Na origem do filme está uma história de Natal: "Auggie Wren's Christmas Story", escrita por Paul Auster e publicada originalmente em 1990 no New York Times. Mesmo para quem já conhece, fica a informação do lançamento de uma excelente edição ilustrada.
2004-11-20
Aumento de qualidade
Etnologia e Politica
O PSD sob Santana
1 - Até à primeira apreciação definitiva posterior à presente lei, de iniciativa legislativa visando a descriminalização da interrupção voluntária da gravidez quando realizada no primeiro trimestre da gravidez por decisão e com o consentimento da mulher, ficam suspensos todos os procedimentos criminais instaurados pela prática do crime previsto no nº 3 do artigo 140º do Código Penal.Acontece que os números 2 e 3 do artigo 140º (Dos crimes contra a vida intra-uterina - Aborto) do código penal dizem que:
2 - Ficam igualmente suspensos nos termos previstos no número anterior, os procedimentos criminais instaurados pela prática do crime previsto no nº 2 do artigo 140º do Código Penal.
2 - Quem, por qualquer meio e com consentimento da mulher grávida, a fizer abortar é punido com pena de prisão até 3 anos.Ou seja, o PSD de Santana Lopes pondera legalizar, na prática, o aborto sem qualquer prazo. Até ao nascimento, tudo seria permitido enquanto durasse a suspensão da lei. Brilhante.
3 - A mulher grávida que der consentimento ao aborto praticado por terceiro, ou que, por facto próprio ou alheio, se fizer abortar, é punida com pena de prisão até 3 anos.
Os filhos de Rousseau
Edmund Burke e o Liberalismo
2004-11-19
Geografia política
O Crescente Amarelo
A prospecção e exploração de petróleo no Sudão começou na década de 60, como actividade off-shore, nas águas do Mar Vermelho. Foi na década de 70 que se descobriram as principais reservas petrolíferas no sul do país, maioritariamente cristão. Desde 1989 que o governo islâmico do norte tem tentado controlar e rentabilizar a exploração petrolífera ao sul. Para o efeito subdividiu a zona sul e sudoeste do país em "blocos", numerados de 1 a 7, que foram concessionados a várias companhias petrolíferas. As expectativas quanto às reservas potenciais de petróleo aumentaram substancialmente entre 1999 e 2002: estima-se que as reservas petrolíferas do Sudão possam superar os 1,2 biliões de barris de crude. Há também apreciáveis reservas de gás natural.
As áreas onde a exploração petrolífera foi concessionada foram sendo objecto de sucessivas limpezas étnicas, negadas quer pelo governo sudanês quer pelas companhias petrolíferas, no que respeita ao "nexo de causalidade". Para os que já se preparam para atirar a "água suja da responsabilidade" para cima dos "ocidentais do costume", note-se que uma das principais companhias interessadas no petróleo sudanês é a CNPC - China National Petroleum Company. A Petronas (Malásia), a Talisman (Canadá), a TotalFinaElf (UE) e a Sudapet (a companhia petrolífera estatal sudanesa) são outros dos major players envolvidos.
É a CNPC que controla o chamado "bloco 6". Onde se situa o bloco 6? Como se poderá verificar no mapa B do relatório Sudan, Oil and Human Rights (2003), da Human Rights Watch é, por coincidência, o bloco que abrange a zona sudoeste, ou seja: a parte sul do território de Darfur.
A 18 de Setembro último, o Conselho de Segurança das Nações Unidas aprovou a Resolução 1564 redigida pela representação americana, onde, no final de mais uma momentosa batalha de vírgulas, a ONU expressa "sérias preocupações" (sic) quanto à ausência de "progressos negociais" no Sudão e anuncia (no ponto 14) que "iria considerar medidas adicionais" que eventualmente afectem o governo sector petrolífero sudanês. Presume-se que esta açorda de palavras deveria ser interpretada pelo governo sudanês como uma vaga referência à possibilidade de um embargo à venda de petróleo.
Ainda assim, um país ameaçou exercer o direito de veto: se respondeu "China", acertou. O ex-Secretário de Estado americano Colin Powell afirmou claramente que há um genocídio em curso no Sudão. Para além do Sudão, como é evidente, o único pais que o nega é a China (outra coincidência).
Depois de uma ronda negocial em Nairobi presidida pelas Nações Unidas, os principais beligerantes assinaram mais um acordo "histórico": concordaram em por termo ao conflito até ao final de Dezembro.
O Conselho de Segurança das Nações Unidas, já aprovou por unanimidade uma nova resolução prometendo dar ao Sudão precisamente aquilo que tem alimentado o conflito: dinheiro. Assim e a partir de Janeiro, o Sudão receberá 500 milhões de dólares a título de "ajuda". Quanto a sanções no caso de continuação do conflito, ou ao apuramento de responsabilidades pelas atrocidades cometidas pelas milícias árabes, nem uma palavra.
O Sudão não precisa de "injecções" de dinheiro: precisa de uma "injecção" maciça de ordem e de justiça. Numa palavra: de civilização. Mas sobre isso desconfio que a ONU nada sabe ou nada quer saber.
A "Concordata Europeia"
Concorda em concordar com os que também concordam uns com os outros e porque ninguém discorda daquilo com que os outros concordam, todos concordam que assim é que está bem?
Não compreendeu imediatamente a pergunta? Então não percebe nada de Referendologia nem de Construtivismo Europeu: devia ter intuido que não se espera que compreenda, apenas que dê o seu "sim" por reflexo, como um cão dá a patinha ao dono (good dog!).
Consequentemente acaba de perder a sua autonomia e o direito à auto-governação.
2004-11-18
Depois de Oriana...
"E que tal uma inspecção aos inspectores?"
MoMA 20 11
Desde 1929, ano em que abriu portas, o MoMA tem sido um centro de exibição, educação e investigação dedicado à arte contemporânea. É também um dos museus que mais contribuiu para a alteração do próprio conceito de museu: de "depósitos organizados" de faustosos tesouros a lugares de aprendizagem e de fruição.
Mas o MoMA não exibe apenas arte: mostra também responsabilidade e sentido cívico. Um bom exemplo é o modo como financiou as obras de remodelação. Estas custaram perto de 900 milhões de dólares, dos quais mais de 500 milhões foram suportados directamente pelo Board of Trustees do museu. O resto veio de patrocinadores institucionais, com destaque para o JPMorgan Chase, que pagou a reinstalação da colecção, possibilita a visita gratuita para os cidadãos no dia de reabertura e financia um programa regular de visitas escolares subsidiadas. Várias outras entidades, surgem como patrocinadores, fornecendo equipamentos - por exemplo a IBM (cedeu tecnologia), a Sony Corporation (cedeu equipamentos de audiovisual) e até o Consulado dinamarquês ofereceu equipamentos para espaços públicos.
Sendo um museu privado, o MoMA cobra um preço de admissão, cujo valor para adultos sem isenções ou descontos passará dos 12 para os 20 dólares. E aqui começa a "agitação": os defensores locais da "Cultura SCUT" protestam porque acham muito caro. Esqueceram-se de "protestar" por não terem suportado como contribuintes os 900 milhões de dólares que custou a remodelação e que foram pagos por indivíduos e instituições: para a esquerda, a gratuitidade da cultura (e da educação , e da saúde, etc...) é sempre um "direito adquirido" - adquirido primeiramente e, por regra, de forma involuntária pelos contribuintes.
Talvez seja por causa de ilusões como esta da cultura "grátis" que Bilbau tem um museu Guggenheim e Lisboa tem uma maquette de um projecto de renovação do parque Mayer da responsabilidade de Frank Gehry, mas que seguramente nunca passará disso mesmo: de um projecto irrealizável. O contribuinte português é um cavalo estafado, mas para a esquerda o financiamento público da cultura e da educação tem carácter dogmático.
Veremos se os genuinamente interessados em arte (por oposição aos interessados em borlas) "votam" no renovado museu, pagando voluntariamente o preço de admissão anunciado. Por mim, espero ter brevemente o privilégio de poder pagar os 20 dólares de entrada: como na canção dos REM, leaving New York, [is] never easy. Regressar, por vezes ainda é mais complicado.
2004-11-17
Campeonato Nacional de Flip-Flopping
Afinal foram os líderes que mudaram de partido...
Uma questão de fé
Através "Dele", a salvação é possível. Conflitos centenários, talvez mesmo milenares, serão apaziguados em poucas horas. Assassinos e facínoras avulsos serão reconduzidos ao caminho a virtude cívica. Crianças que cresceram na rua, instrumentos de violência e vítimas de uma doutrina de ódio, serão diária e pontualmente transportadas para a escola por pais que nunca o foram. Um enorme arco íris de paz, alegria e prosperidade erguer-se-á, unindo a costa mediterrânica de Gaza às planícies outrora férteis da Mesopotâmia.
Tudo graças a "Ele" - ao "Voto", esse grande redentor pagão da humanidade. Os efeitos divisores das grandes religiões serão imediatamente superados pela virtude unificadora da "religião cívica".
Através do suave milagre da "legitimação pela urna", nascerá uma "nação palestiniana" onde hoje apenas existem grupos militarizados e unidos pelo inimigo comum (Israel), que entregues a si próprios provavelmente transformarão a Intifada num problema interno. Do mesmo modo, no Iraque Shiitas e Curdos submeter-se-ão à "vontade geral", sem por um momento sequer lhes passar pela cabeça que essa "vontade geral" poderá ser a reconstituição pelo voto do domínio Sunita. Ou o mesmo, mas agora com os Curdos e os Sunitas na posição de "minorias democráticas".
A fé no Voto tudo conquista e tudo une. Devotos ou não, todos serão de votos. Bem aventurados, os "descendentes" de Rousseau!
Chega dia 9 de Janeiro à Palestina e dia 31 de Janeiro ao Iraque.
Por FCG
2004-11-15
Um infeliz acidente
A avaliar pela forma como a Capital (um jornal livre, igualitário e fraterno) "descreveu" recentemente o assassínio do realizador holandês Theo Van Gogh, não me admirava que a notícia do evento fosse, mais coisa menos coisa, assim:
Por FCGMahmoud Abbas foi ontem recebido com grandes manifestações de alegria e regozijo pelos palestinianos. Durante os festejos foram disparados vários tiros para o ar. Um dos seguranças pessoais do Sr. Abbas terá acidentalmente encalhado com a cabeça numa bala. O lamentável incidente resultou em danos apreciáveis para ambos.
2004-11-14
Tolerar a intolerância?
2004-11-03
Ironias
Um esclarecimento urgente
2004-08-01
OMC
Ou talvez não. É que, apesar de o tom das notícias e das declarações ser de claro optimismo, a verdade é que não só não se trata ainda de uma decisão final, não só os prazos e os termos exactos da eliminação dos subsídios não estão ainda estabelecidos, como receio que a UE esteja já a preparar uma resposta inteligente, embora perversa: travestir os subsídios à agricultura em pagamentos de serviços ambientais prestados pelos agricultores à comunidade. Talvez seja um daqueles casos em que tudo muda para tudo ficar na mesma. Esperemos que não.
2004-06-24
2004-06-15
Fanatismo na primeira pessoa
As soon as we entered, we encountered the car of a Briton, the investment director of the company, whom Allah had sent to his death. He is the one whose mobile phone on the seat of his car, with the blood on it, they kept showing [on television]. We left him in the street.
We went out, and drove our car. We had tied the infidel by one leg [behind the car]. We left the company [compound] and met the patrols. The first to arrive was the jeep of a patrol, with one soldier, and we killed him. With the rest we exchanged fire, and we got through.
[...]
The infidel's clothing was torn to shreds, and he was naked in the street. The street was full of people, as this was during work hours, and everyone watched the infidel being dragged, praise and gratitude be to Allah.
[...]
We entered one of the companies' [offices], and found there an American infidel who looked like a director of one of the companies. I went into his office and called him. When he turned to me, I shot him in the head, and his head exploded. We entered another office and found one infidel from South Africa, and our brother Hussein slit his throat. We asked Allah to accept [these acts of devotion] from us, and from him. This was the South African infidel.
[...]
We went to one of the buildings. Brother Nimr, may Allah's mercy be upon him, shoved the door until it opened. We entered and in front of us stood many people. We asked them their religion, and for identification documents. We used this time for Da'wa [preaching Islam], and for enlightening the people about our goal. We spoke with many of them.
At the same time, we found a Swedish infidel. Brother Nimr cut off his head, and put it at the gate [of the building] so that it would be seen by all those entering and exiting.
2004-06-13
Campanhas, reflexões e sondagens: restrições paternalistas
2004-06-12
Patriotismos de pouca dura
2004-06-10
"Morto pela Morte Inexorável e Morto pela Campanha Evitável"
Tentamos sempre encontrar nexos de causalidade para os acontecimentos mais importantes. Tem de haver um responsável. Alguém perverso. Alguém estúpido. Mas o que é perverso, o que é estúpido, o que é a causa última da nossa morte, é a vida. Simplesmente.
2004-04-23
Vale tudo
Na semana passada, pouco depois de ter perdido o controlo de algumas das principais cidades iraquianas, George W. Bush tomou a iniciativa excepcional de promover uma conferência de imprensa para se explicar. Mas quando os jornalistas insistiram em perguntar que erros tinham sido cometidos, o Presidente balbuciou: "Tenho a certeza de que alguma coisa me virá à ideia no meio desta conferência de imprensa, com toda esta pressão de tentar arranjar uma resposta, mas ainda não veio. Eu ainda não... vocês põem-me aqui debaixo dos projectores e talvez eu não seja rápido... tão rápido quanto devia para arranjar uma". Bush concluiu que era melhor que lhe tivessem dado previamente a pergunta por escrito.A conferência de imprensa encontra-se transcrita nas páginas de Casa Branca. Transcrevo a parte tra(duz)ida por Louçã:
Ao assistir a esta cena patética, alguns terão pensado nas semelhanças entre Bush e Nixon. Muitos mais têm argumentado que a história se repete sempre como tragédia e que o Iraque é um novo Vietname. Estão enganados: o Iraque é muito pior.
Q: Thank you, Mr. President. In the last campaign, you were asked a question about the biggest mistake you'd made in your life, and you used to like to joke that it was trading Sammy Sosa. You've looked back before 9/11 for what mistakes might have been made. After 9/11, what would your biggest mistake be, would you say, and what lessons have you learned from it?Para Louçã, vale tudo.
THE PRESIDENT: I wish you would have given me this written question ahead of time, so I could plan for it. (Laughter.) John, I'm sure historians will look back and say, gosh, he could have done it better this way, or that way. You know, I just -- I'm sure something will pop into my head here in the midst of this press conference, with all the pressure of trying to come up with an answer, but it hadn't yet.
I would have gone into Afghanistan the way we went into Afghanistan. Even knowing what I know today about the stockpiles of weapons, I still would have called upon the world to deal with Saddam Hussein. See, I happen to believe that we'll find out the truth on the weapons. That's why we've sent up the independent commission. I look forward to hearing the truth, exactly where they are. They could still be there. They could be hidden, like the 50 tons of mustard gas in a turkey farm.
One of the things that Charlie Duelfer talked about was that he was surprised at the level of intimidation he found amongst people who should know about weapons, and their fear of talking about them because they don't want to be killed. There's a terror still in the soul of some of the people in Iraq; they're worried about getting killed, and, therefore, they're not going to talk.
But it will all settle out, John. We'll find out the truth about the weapons at some point in time. However, the fact that he had the capacity to make them bothers me today, just like it would have bothered me then. He's a dangerous man. He's a man who actually -- not only had weapons of mass destruction -- the reason I can say that with certainty is because he used them. And I have no doubt in my mind that he would like to have inflicted harm, or paid people to inflict harm, or trained people to inflict harm on America, because he hated us.
I hope I -- I don't want to sound like I've made no mistakes. I'm confident I have. I just haven't -- you just put me under the spot here, and maybe I'm not as quick on my feet as I should be in coming up with one.
2004-04-20
Há esperança
We the undersigned, the sons of the Palestinian people, from various political, ideological, and social frameworks that are united in their struggle and steadfastness, condemn Israel's blatant aggression against our people, which was manifested a couple of days ago in the criminal and base act carried out by Sharon and his extreme right-wing gang that led to the martyr death of the leader Sheikh Ahmad Yassin and his freedom-fighting companions.Muito céptico, desejo-lhes o maior sucesso no apelo e espero que a nova forma de resistência tenha bons resultados.
[Even while] we stress the rights of our people, which have been confirmed by all the international treaties, [and stress our right] to use all means to defend our people, even if we explode from pain at the terrible tragedy, we call upon the sons of our people across the homeland to [do as] the national interest dictates: To take the initiative from the hands of the criminal occupation gang, to contain the rage, and to rise up again a non-violent Intifada of the masses, broad in scope, with clear goals and [a] sane message, to be initiated and led by our freedom-fighting people.
[This Intifada] will make Sharon miss the opportunity to crown his aggression against our people and against the holy places with the final touches of his security plan.
As we appeal [to make] this Intifada of unity a step toward reawakening to popular activity, purposeful and disciplined, with a clear program and [expected] political yield, we stress our commitment to our just and legitimate demands and to our rights. We call for the unification of the ranks, based on national unity and a united leadership resisting the occupation.
Enough of the criminal assassination operations. Enough of the bloodshed. Enough of the occupation.
2004-04-19
2004-04-18
Dito e feito
2004-04-15
Bush escreve a Sharon
2004-04-05
"Ensaio sobre a mentira" ou da honestidade jornalística
Mas Nuno Pacheco tem razão quando diz que este caso tem de ser muito bem investigado, para que não se volte a repetir. Esperemos que os inquéritos em curso nos EUA lancem um pouco de luz sobre este assunto.
2004-03-19
Actualização
Para fazer a paz não vale a pena falar com os que fazem a guerra? ... Como conseguimos a paz nas ex-colónias? Tivemos que falar com os que faziam a guerra, na altura também considerados terroristas ... Há hoje dúvidas no mundo inteiro e nos próprios Estados Unidos acerca da eficácia e da adequação da sua luta antiterrorismo, com a ajuda de outros Estados, até agora, o Reino Unido, a Itália e a Espanha. ... Quais são os objectivos Al-Qaeda? O que os motiva? ... A pobreza, as dificuldades sociais e o desemprego [levam os muçulmanos para as esolas corânicas]. ... Há uma galáxia que não conhecemos bem e a única maneira é tentar percebê-la. Perceber o outro é fundamental. ... Esmagando-os não chegamos a lado nenhum. Não podemos matar um terço da humanidade. ... Se fosse necessário falar com Hitler para evitar um ano de guerra, valia a pena. ... Se mudar a Administração norte-americana [será possível um entendimento entre os Estados Unidos e a Al Qaeda]. ... Se é o Osama bin Laden o responsável pelo 11 de Setembro, os Estados Unidos da América têm como falar com ele. Era amigo da família Bush.Algumas notas:
- Tenho alguma relutância em usar a palavra "guerra" para descrever o que a Al Qaeda faz. Mas admitamos que sim. Será que, para fazer a paz, vale a pena falar com a Al Qaeda? A resposta não pode ser senão negativa. Por vezes a paz faz-se fazendo a guerra. A Al Qaeda tem de ser aniquilada, simplesmente.
- Nas ex-colónias conseguimos a paz? Talvez para nós, continentais. Os povos das ex-colónias lá estão para nos contar que tipo de paz fizemos nós com tanta conversa.
- Salvo excessos de parte a parte, a guerra colonial foi isso mesmo: uma guerra. Guerrilheiros contra soldados. A palavra "terrorista" sofreu muitos abusos, mas no caso da Al Qaeda está muito bem aplicada.
- Há dúvidas sobre a guerra ao terrorismo? Claro que há. Muitas e legítimas. Mas propor o diálogo com quem ordenou o assassínio de milhares de civis não é uma alternativa. É uma capitulação. Uma cobardia.
- É importante conhecer a Al Qaeda? Claro! Como é importante conhecer a mente de um psicopata. Não para negociar ou conversar com ele. Mas para melhor o dominar, para melhor o vencer, para o poder punir, para fazer justiça.
- Esmagar os muçulmanos? Matar um terço da humanidade? De que fala Mário Soares? Quem propôs semelhante coisa?
Dialogar com a Al Qaeda?
2004-03-17
Pois...
(Via O Comprometido Espectador.)

