2004-11-25

Nacional socialismo

Segundo o Diário Económico, o Ministério do Turismo irá apresentar hoje os planos das novas “campanhas de promoção turística”, externas e interna, destinadas a “consolidar a marca Portugal Turismo”. Nestas campanhas o Estado português propõe-se gastar mais de oito milhões de euros. Eis o que, de acordo com a notícia, os contribuintes comprarão com esse dinheiro:
Colocar Portugal no ‘top of mind’ dos destinos turísticos e desta forma aumentar o fluxo de turistas (...). A nova campanha intitulada ‘Live Deeper’, que surge no seguimento da promoção do país feita a propósito do Euro 2004, tem como enfoque principal o “reforço do valor dos Oceanos na marca Portugal Turismo”.

Tendo como pano de fundo os oceanos, a nova campanha inspirada nas ideias de profundidade, diversidade e emoção, vai ser segmentada em sete temas: ‘relax’, romance, cultura, aventura, animação, golfe e MICE, dirigido ao turismo de negócios.
O texto acima, obviamente indecifrável, serve lindamente para passar o incentivo ao golfe e ao “scuba-diving” como prioridades da despesa pública.

Já ninguém se incomoda com o sistemático anúncio de medidas que envolvem custos fiscais difundidos pela totalidade dos contribuintes e benefícios privados concentrados em subgrupos sociais bem identificados, neste caso as empresas ligadas às actividades turísticas e publicitárias. Os poucos que o fizerem receberão provavelmente como resposta uma vacuidade keynesiana: o Estado gasta, mas a bem da nação, porque as despesas com o turismo têm um “efeito multiplicador”. Não perguntar torna-se a melhor estratégia, os efeitos sociais são nulos e sempre se aturam menos patetices.

Mas há neste “anúncio de futuros anúncios” (tratam-se, afinal de contas, de campanhas publicitárias) uma linguagem, que no seu propósito instrumental de “anestesia fiscal” revela, sem o querer, demasiado sobre a verdadeira natureza do Estado português. Refiro-me em particular à “marca Portugal”. O absurdo de um país-marca, de uma união serôdia e forçada pela via fiscal dos interesses dos cidadãos em torno do “objectivo nacional” de promoção turística.

Tudo isto resulta num colectivismo sem socialismo, de baixas calorias, numa apoteose televisiva de castelos filmados de helicóptero, de um “povo” de cara cheia de sorrisos falsíssimos a acenar em câmara lenta, de lugares magníficos que só existem nas imagens promocionais.

Filósofos alemães como Oswald Spengler e Ernst Jünger, ambos influentes no advento do terceiro Reich, desejavam criar um “socialismo sem marxismo”. O governo português, que na balbúrdia política nacional se reclama “de direita”, tem a sua própria concepção de socialismo sem marxismo, mas agora em paródia consumista pós-moderna, com a história e a cultura reduzidas a um conjunto de imagens “hiper-reais”.

Welcome to Portugal.

2004-11-24

Moscas

Acabei de ouvir a vareja mor explicar a dança das moscas.

Uma oportunidade perdida

Os EUA e os interesses americanos constituem um “ponto focal” para o terrorismo islâmico. De entre os problemas criados por esta situação há um que será menos evidente: os efeitos potencialmente desastrosos para o crescimento económico da economia americana decorrentes da redução na oferta externa de capital humano. Esta oferta é crucial para a sustentabilidade da inovação científica e tecnológica.

Um dos maiores contributos intelectuais de Robert Lucas, prémio Nobel da Economia em 1995, foi a compreensão e medição da importância decisiva do capital humano na acumulação de riqueza. A captação deste capital, ainda na forma potencial, é essencial para o futuro económico e político de qualquer sociedade. Os americanos estão perfeitamente conscientes do desastre que resultará da alteração dos hábitos migratórios dos estudantes estrangeiros: uma parte substancial da investigação científica realizada nos EUA nas últimas décadas foi conseguida graças a eles. Em artigo recente para a Foreign Policy, Kenneth Rogoff lembrava, a propósito das consequências negativas resultantes da burocratização da concessão de vistos nos EUA:
[T]oday about 2.5 million foreigners with advanced degrees work in the United States, and many hold leading positions in science and industry and serve as key transnational links for the increasingly globalized U.S. economy. More than 30 percent of all Ph.D. recipients in U.S. science and mathematics programs are foreigners on student visas. In engineering, almost half of all graduates have come to the United States on foreign visas; many of them stay in the country upon completing their degrees. The U.S. economy grows in no small part by skimming the cream off the rest of the world’s workforce.
O assunto foi retomado ontem por Fareed Zakaria, num artigo publicado no Washington Post: a procura de licenciaturas dirigida às universidades americanas por parte de alunos oriundos de países “exportadores” de capital humano tem vindo a decair e o declínio da procura é ainda maior ao nível das pós-graduações.

Esta situação cria uma oportunidade inesperada para a Europa: as universidades europeias constituem uma alternativa possível para uma parte significativa do capital humano internacional normalmente captado pelas universidades americanas.

Está a Europa em condições de competir pela captação destes valiosos recursos? Nem pensar. Um artigo publicado no The Economist em 23 de Setembro dava conta do estado lamentável das universidades europeias. De acordo com números da Comissão Europeia citados no artigo, cerca de 400 000 investigadores europeus estão nos EUA e 3 em cada 4 não tencionam regressar. Dados da OCDE citados noutro artigo da mesma revista revelam que entre 1998 e 2002 a procura de estudantes estrangeiros dirigidos às universidades americanas sofreu um notório declínio. Mas a procura dirigida às universidades inglesas, francesas e alemãs também diminuiu: os “ganhadores” foram a Austrália e o Japão. Na edição de 19 – 21 de Novembro, o Wall Street Journal Europe (link indisponível) dava conta do descontentamento dos dirigentes da Siemens AG com a qualidade dos estudantes universitários formados na Alemanha. De acordo com o presidente da German Industry Federation, o sistema universitário alemão, burocrático e incompetente, é o principal responsável pela “fuga de cérebros” para os EUA.

Aparentemente o risco adicional criado pelas condições de insegurança não se revela suficiente para impedir os estudantes europeus de emigrarem de forma irreversível para os EUA, muito menos para atrair alunos de outros continentes.

Note-se: a questão não é a incapacidade dos políticos europeus (com a ressalva da categorização e generalização abusiva) resolverem “o problema”. A lógica da Agenda de Lisboa, da “sociedade da informação”, é parte do problema e não da solução. É uma estratégia de controlo político ditada pela necessidade de subordinação da sociedade a “objectivos”, a “metas” que exigem “planos” e (claro) meios para os concretizar. Sempre com o Estado (ou o meta-Estado europeu) como o “Grande Timoneiro”, indicando o rumo, a direcção para um radioso futuro.

Cria-se capital humano com liberdade, não com cimeiras e legislação avulsa. São necessárias universidades europeias competitivas com as melhores universidades americanas, o que pressupõe liberdade de decisão por parte destas para tomarem as decisões cruciais: competir no mercado internacional de trabalho pelo recrutamento dos melhores professores, escolherem os programas e currículos que consideram susceptíveis de atrair quem pretende a melhor formação, desenvolver programas ambiciosos de investigação, etc. Tudo isto depende primeiramente de conferir liberdade às universidades para cobrarem propinas “a sério” e para procurarem financiamentos privados, que permitam a criação e sustentação destas condições.

Captar investimento é atrair os melhores investigadores futuros: as verdadeiras “agências portuguesas de investimento” são as universidades, não são organismos que se limitam a oferecer prémios fiscais à localização de empresas que trazem as “tecnologias de ontem”. Esses organismos são erros crassos. Governar bem, nesta matéria, é não impedir quem sabe ensinar, investigar e criar riqueza de o fazer livremente.

É irónico que a chave para a manutenção duradoura da supremacia científica, tecnológica, económica e política dos EUA esteja provavelmente nos actos e omissões dos políticos europeus mais críticos do “poder americano”.

O nosso governo "neo-liberal"

O seu "liberalismo" leva-o a propor-se resolver o problema da influência governamental nos média forçando a PT a vender as suas participações em empresas do ramo e, simultaneamente, mantendo a RTP e a RDP nas mãos do estado. Não é óvio que isto não faz qualquer sentido? Será necessário dizer que o estado deveria rapidamente ver-se livre da golden share que tem na PT e privatizar a RTP e a RDP?

2004-11-23

Heidegger no pão

Notícias como esta são um "petisco irresistível" para alguns europeus, defensores das múltiplas teses da degenerescência moral, estética, cultural e até rácica dos americanos. Eis a "prova" irrefutável.Mas quem vir nisto mais do uma infeliz mistura de estupidez, crendice e oportunismo estará a "ver mais coisas" na torrada do que a tontinha da criatura.

Os jogos das nações

De acordo com a edição de ontem do Washington Post, a NBA impôs a vários jogadores de basquetebol as sanções mais pesadas na história da organização por assuntos não relacionados com o consumo de drogas.

Um jogador dos Indiana Pacers foi suspenso por 73 jogos (o resto da temporada) e sujeito a uma caução salarial de mais de 5 milhões de dólares. Este jogador, que já tem um longo historial de suspensões, tinha pedido recentemente ao clube para ser dispensado dos jogos durante um mês para se dedicar a tarefas de promoção musical (pelo menos agora vai ter oportunidade para o fazer). Dois colegas de equipa foram suspensos por 30 e 25 jogos, respectivamente. Motivo: envolvimento dos jogadores em confronto físico com espectadores. Dos confrontos resultaram nove feridos e um número indeterminado de acções judiciais.

Com esta medida a NBA espera reduzir os maus exemplos de conduta cívica entre os jogadores profissionais de basquetebol, que se tornaram recorrentes ao longo dos últimos dois anos, desde o caso mais mediático do jogador dos LA Lakers, Kobe Bryant, acusado de violação, até aos cada vez mais frequentes problemas de consumo de drogas, de condução alcoolizada, etc.

Do ponto de vista da NBA o problema é simples: o negócio do basquetebol é em grande parte o negócio dos patrocínios empresariais e estes dependem crucialmente do valor comercial da marca NBA. A má conduta cívica de um número crescente de jogadores tem degradado a imagem e a reputação da NBA junto do público americano. Isso reflecte-se numa perda de valor comercial da marca que se traduz em perdas consideráveis de dinheiro de patrocínios.

Os EUA não são uma sociedade “desmoralizada”, onde apenas alguns políticos descentrados da realidade é que “descobrem” os “valores morais” de quatro em quatro anos, para consumo eleitoral. Mas nos EUA, como na generalidade das sociedades desenvolvidas, os cidadãos não votam periodicamente: votam todos os dias, como consumidores, com o seu próprio dinheiro, fazendo escolhas e interagindo permanentemente no vasto e complexo conjunto de mercados da economia.

Os americanos não estão dispostos a “votar monetariamente” em produtos de empresas cuja imagem é associada à violência, à droga e ao desrespeito das leis. As empresas sabem disso. A NBA também. Por isso prefere tomar medidas exemplares a deixar que certos maus hábitos sociais de alguns afundem um gigantesco negócio que depende crucialmente da imagem social dos desportistas.

Veja-se a diferença para a Europa, onde o futebol tem o maior destaque. Em Portugal, apenas para citar o exemplo próximo, os jogos são pretextos para a exibição dos piores hábitos de conduta, por parte de jogadores, público e mesmo comentadores. Até pessoas, que de outro modo se comportam de forma inteiramente razoável, quando se trata da “bola”, do “clube”, entram num estranho estado de “suspensão da razão” e substituem o discurso examinado por um absurdo relativismo. Mesmo em Inglaterra, bem mais próxima de qualquer definição aceitável de civilização, há casos como o do jogador do Manchester United, Roy Keane, que admitiu na sua “biografia” ter deliberadamente partido a perna a um adversário, uma agressão que lhe pôs termo à carreira profissional.

O livro foi um sucesso.

2004-11-22

À Espera de Volcker

Charles Duelfer foi o Conselheiro Especial do DCI (Director of Central Intelligence) da CIA encarregue de investigar a existência de armas de destruição maciça no Iraque à altura da ocupação americana. No final de Setembro, o relatório Duelfer resumindo as conclusões da investigação foi revelado ao público.

O relatório tornou-se rapidamente conhecido como o "no WMD's report", por apontar para a improvável existência de armas de destruição maciça à altura da ocupação militar anglo-americana. No entanto, o mesmo relatório revelava outros factos, tão ou mais importantes, mas que foram aparentemente merecedores de pouca atenção por parte dos jornalistas (em particular pelos europeus).

Refiro-me aos elementos relativos ao programa Oil for Food, introduzido em 1996 e gerido pelas Nações Unidas. Este programa permitia ao Iraque exportar limitadamente algum petróleo em troca de importações de bens alimentares e medicamentos. De acordo com os elementos de informação já disponíveis, este programa tinha-se tornado, à altura da deposição de Saddam Hussein, num gigantesco esquema de corrupção, tornando efectivamente inúteis as sanções económicas anteriormente impostas pela mesma ONU.

Com base nos documentos iraquianos obtidos após a ocupação em 2003, estima-se que cerca de 11 biliões de dólares tenham sido desviados para contas bancárias do governo iraquiano. Estes dinheiros serviram para financiar o opulento modo de vida da clique dirigente durante os ?anos difíceis? das sanções, bem como para reequipar as forças armadas iraquianas. Dos 11 biliões de dólares, cerca de 7,5 biliões resultaram de receitas de "protocolos" ilegais de venda de petróleo. Da lista de 248 empresas beneficiárias destes contractos constam empresas da Rússia (35), dos Emiratos Árabes Unidos (12), da França (8), da Síria (7), dos EUA (4), da China, da Ucrânia e da Turquia, entre outros.

Cerca de 2 biliões resultaram directamente de fraudes no âmbito do programa da ONU: uma cascata de dinheiro foi distribuída pelo governo iraquiano, sob a forma de vouchers de petróleo, a título de subornos internacionais aos "amigos do regime". Entre esses beneméritos desinteressados surgem os partidos comunistas russo, bielorusso e eslovaco, o embaixador nigeriano no Iraque, uma tal de Associação de Amizade França-Iraque e um "Mr. Sifan". Este sujeito é, nem mais nem menos, Benon Sevan, o ex-responsável das Nações Unidas pelo programa Oil for Food. O relatório Duelfer é taxativo neste ponto: a lista dos beneficiários dos vouchers de petróleo foi pessoalmente aprovada por Saddam, que fez modificações à versão inicial, excluindo e acrescentando alguns nomes. O resto dos 11 biliões é receita de "vendas a dinheiro" de petróleo iraquiano e de vigarices avulsas.

O objectivo político de Saddam era claro. Através dos subornos e usando instrumentalmente a pressão de uma opinião pública impressionada pelas imagens de sofrimento do povo iraquiano, esperava conseguir a breve trecho que a ONU aprovasse o levantamento do regime de sanções, deixando-o de mãos livres para prosseguir abertamente o que nunca tinha deixado de fazer, embora com o desconforto das sanções: o reequipamento militar do regime.

Vale a pena sublinhar a perfídia da estratégia: note-se que as mortes de civis, por doença e mal nutrição foram em larga medida causadas pelo desvio do dinheiro do programa Oil for Food, que em vez de servir para adquirir alimentos e medicamentos foi utilizado por Saddam para a aquisição de bens de luxo e de armamento. E quanto mais civis morriam, tanto melhor para a estratégia de Saddam.

Para além do (agora) conhecido envolvimento neste esquema de gigantesca corrupção de altos funcionários da ONU, há muito que estão sob investigação indícios do envolvimento de membros da família de Kofi Annan, designadamente de um dos filhos do Secretário Geral.

Os rumores do escândalo não são propriamente novos e levaram Kofi Annan a nomear em Abril deste ano uma Comissão Independente de Inquérito ao programa Oil for Food, presidida pelo ex-chairman do Federal Reserve, Paul Volcker.

Aparentemente, à medida que a rede de corrupção em torno do programa da ONU vai sendo conhecida, as resistências aos trabalhos da comissão vão aumentando. As informações preliminares libertadas pela própria comissão indicam que a verdadeira extensão da corrupção e do envolvimento de bancos, empresas e entidades políticas de alguns dos países mais ?críticos? da intervenção militar no Iraque está ainda longe de ser conhecida. Se o relatório Duelfer tem algum defeito neste ponto, parece ser o de uma excessiva modéstia nas conclusões incriminadoras. Aguarda-se portanto com grande interesse pelas conclusões globais da Comissão Volcker.

Em todo o caso, atendendo à gravidade do que já é conhecido, não se compreende como é que o actual Secretario Geral da ONU se mantém em funções. Ele terá, por certo, muitas e excelentes razões. Eu não encontro uma única. Legítima, note-se.

2004-11-21

Títulos e números

No Público de hoje:

Título: "Alunos Portugueses Passam Mais Horas a Fazer Trabalhos de Casa do Que a Média dos Países da OCDE"
Números: 4,6 h (média semanal na OCDE), 5 h (média portuguesa)

Números alternativos: 0,4 h = 24 minutos a mais por semana = 5 minutos a mais por dia
Título alternativo: "Alunos Portugueses Passam Mais Cinco Minutos por Dia a Fazer Trabalhos de Casa do Que a Média dos Países da OCDE"

É um estudante universitário, pois claro

Aliás, estudante do segundo ano. O texto abaixo, extraído de uma mensagem de correio electrónico enviada a um docente de uma universidade portuguesa, é razoavelmente representativo da forma como se escreve nas nossas escolas:
Como lhe tinha tido , o grupo em que eu estava inserido , desfesce porque um dos elementos o AA (nnnnn) descobriu que ja tinha feito a cadeira , o outro elemento BB (nnnnn) mudou-se para , outro grupo , e eu estou a fazer o trabalho com outro grupo , que composto por CC (nnnnn) , DD (nnnnn) , EE (nnnnn) e por ter 3 elementos que eu pedi ao professor que me conceda ficar no grupo , fazendo uma excepção.

Auggie Wren

Em 1995, Paul Auster escreveu e co-realizou com Waine Wang o par de filmes Smoke e Blue in the Face. O segundo é uma colagem de sketchs humorísticos resultantes de improvisações filmadas em poucos dias após a conclusão de Smoke, aproveitando as "sobras" de material.

A personagem central de ambos é Auggie Wren (Harvey Keitel), dono de uma tabacaria em Brooklyn que funciona como âncora psicológica para uma série de outras personagens e para as suas histórias, que se enovelam em espirais subtis, como o fumo dos cigarros.

Auggie tem um hábito curioso: ao longo de 14 anos fotografou a rua sempre da mesma perspectiva. Quando mostra o album de fotografias a Paul Benjamin (William Hurt) este responde, com ar confuso, que lhe parecem todas iguais. A resposta de Auggie é simples como a sabedoria: "You'll never get it if you don't slow down, my friend."

Na origem do filme está uma história de Natal: "Auggie Wren's Christmas Story", escrita por Paul Auster e publicada originalmente em 1990 no New York Times. Mesmo para quem já conhece, fica a informação do lançamento de uma excelente edição ilustrada.

2004-11-20

Aumento de qualidade

O aumento de qualidade deste blogue nos últimos dias tem uma explicação: temos o privilégio de contar com o FCG. Seja muito bem-vindo!

Etnologia e Politica

Uns descobrem antepassados entre os macacos. Eu prefiro descobri-los entre os homens. Se a espécie for - como se reclama - inteligente, talvez ainda seja possível evitar as asneiras que farão de nós os macacos do futuro. Ou nem isso.

O PSD sob Santana

Segundo o Público, "o PSD admitiu ontem ponderar a viabilização do projecto-lei do PCP para suspender investigações e julgamentos pela prática de aborto". Ora, este projecto-lei diz, no seu artigo 1º, que:
1 - Até à primeira apreciação definitiva posterior à presente lei, de iniciativa legislativa visando a descriminalização da interrupção voluntária da gravidez quando realizada no primeiro trimestre da gravidez por decisão e com o consentimento da mulher, ficam suspensos todos os procedimentos criminais instaurados pela prática do crime previsto no nº 3 do artigo 140º do Código Penal.
2 - Ficam igualmente suspensos nos termos previstos no número anterior, os procedimentos criminais instaurados pela prática do crime previsto no nº 2 do artigo 140º do Código Penal.
Acontece que os números 2 e 3 do artigo 140º (Dos crimes contra a vida intra-uterina - Aborto) do código penal dizem que:
2 - Quem, por qualquer meio e com consentimento da mulher grávida, a fizer abortar é punido com pena de prisão até 3 anos.
3 - A mulher grávida que der consentimento ao aborto praticado por terceiro, ou que, por facto próprio ou alheio, se fizer abortar, é punida com pena de prisão até 3 anos.
Ou seja, o PSD de Santana Lopes pondera legalizar, na prática, o aborto sem qualquer prazo. Até ao nascimento, tudo seria permitido enquanto durasse a suspensão da lei. Brilhante.

Os filhos de Rousseau

O sol entra pela janela, iluminando a pequena mesa da sala. De um lado ela prepara as aulas que dará na próxima semana. Do outro, armado de vários tipos de lápis, ele faz os trabalhos de casa. Levantei-me tarde. Passado pouco tempo, já a tomar o pequeno almoço, ouço os passos apressados dele no corredor. "Pai, pai! Olha os tês que eu fiz!" diz ele contente. Na TSF, ouve-se Eduardo Sá a propôr uma greve aos trabalhos de casa, por se comemorar a assinatura da declaração dos direitos das crianças. Desliguei o rádio.

Edmund Burke e o Liberalismo

Tal como "esquerda" e "direita", a palavra "liberalismo" é politicamente polissémica. Edmund Burke é uma das poucas referências intelectuais sistematicamente reclamada como "exemplo" das diferentes atitudes "liberais". Estes dois factos bastam para sugerir uma visita ao blog da Causa Liberal, onde tem decorrido uma animada e interessante "conversa" sobre o significado e influência da prática política de Edmund Burke. Vale a pena, para quem se interessa pelo assunto. Já agora, não fique só pelos textos publicados, espreite também as caixas de comentários: na generalidade dos casos o que lá está é tão interessante como os posts.

2004-11-19

Geografia política

Já sabíamos que em política Oriente e Ocidente têm definições incompatíveis com a geografia. O Ocidente inclui a Europa, a América e Austrália e até mesmo o Japão. Enfim, habituámo-nos. Hoje, num anúncio de uma conferência do sociólogo Carlos Lopes, intitulada "O Novo Sul", descobri que a China é um país do Sul.

O Crescente Amarelo

O Sudão é um país com profundas divisões étnicas, religiosas, linguísticas e tribais. Embora cerca de 70% dos sudaneses sejam muçulmanos, o governo "oficial" do pais é controlado por uma elite muçulmana localizada a norte. O resto do território é ocupado por uma multiplicidade de grupos étnicos, que vivem, na generalidade dos casos em condições de pobreza extrema. Desde a independência em 1956 que existe um estado de guerra civil, entre a população (essencialmente) não muçulmana do sul e a população muçulmana do norte. É a guerra civil mais duradoura de África. Desde que o regime de Cartum tentou impor uma teocracia islâmica em 1983 morreram mais de 2 milhões de pessoas em consequência da guerra civil. As milícias árabes apoiadas pelo governo causaram já um número indeterminado de mortos (jornalistas da BBC calculam que sejam mais de 70 000) e mais de 1 milhão e meio de refugiados na região de Darfur. A actuação das milícias Janjaweed não deixa dúvidas: há uma intenção de extermínio da população não-árabe de Darfur.

A prospecção e exploração de petróleo no Sudão começou na década de 60, como actividade off-shore, nas águas do Mar Vermelho. Foi na década de 70 que se descobriram as principais reservas petrolíferas no sul do país, maioritariamente cristão. Desde 1989 que o governo islâmico do norte tem tentado controlar e rentabilizar a exploração petrolífera ao sul. Para o efeito subdividiu a zona sul e sudoeste do país em "blocos", numerados de 1 a 7, que foram concessionados a várias companhias petrolíferas. As expectativas quanto às reservas potenciais de petróleo aumentaram substancialmente entre 1999 e 2002: estima-se que as reservas petrolíferas do Sudão possam superar os 1,2 biliões de barris de crude. Há também apreciáveis reservas de gás natural.

As áreas onde a exploração petrolífera foi concessionada foram sendo objecto de sucessivas limpezas étnicas, negadas quer pelo governo sudanês quer pelas companhias petrolíferas, no que respeita ao "nexo de causalidade". Para os que já se preparam para atirar a "água suja da responsabilidade" para cima dos "ocidentais do costume", note-se que uma das principais companhias interessadas no petróleo sudanês é a CNPC - China National Petroleum Company. A Petronas (Malásia), a Talisman (Canadá), a TotalFinaElf (UE) e a Sudapet (a companhia petrolífera estatal sudanesa) são outros dos major players envolvidos.

É a CNPC que controla o chamado "bloco 6". Onde se situa o bloco 6? Como se poderá verificar no mapa B do relatório Sudan, Oil and Human Rights (2003), da Human Rights Watch é, por coincidência, o bloco que abrange a zona sudoeste, ou seja: a parte sul do território de Darfur.

A 18 de Setembro último, o Conselho de Segurança das Nações Unidas aprovou a Resolução 1564 redigida pela representação americana, onde, no final de mais uma momentosa batalha de vírgulas, a ONU expressa "sérias preocupações" (sic) quanto à ausência de "progressos negociais" no Sudão e anuncia (no ponto 14) que "iria considerar medidas adicionais" que eventualmente afectem o governo sector petrolífero sudanês. Presume-se que esta açorda de palavras deveria ser interpretada pelo governo sudanês como uma vaga referência à possibilidade de um embargo à venda de petróleo.

Ainda assim, um país ameaçou exercer o direito de veto: se respondeu "China", acertou. O ex-Secretário de Estado americano Colin Powell afirmou claramente que há um genocídio em curso no Sudão. Para além do Sudão, como é evidente, o único pais que o nega é a China (outra coincidência).

Depois de uma ronda negocial em Nairobi presidida pelas Nações Unidas, os principais beligerantes assinaram mais um acordo "histórico": concordaram em por termo ao conflito até ao final de Dezembro.

O Conselho de Segurança das Nações Unidas, já aprovou por unanimidade uma nova resolução prometendo dar ao Sudão precisamente aquilo que tem alimentado o conflito: dinheiro. Assim e a partir de Janeiro, o Sudão receberá 500 milhões de dólares a título de "ajuda". Quanto a sanções no caso de continuação do conflito, ou ao apuramento de responsabilidades pelas atrocidades cometidas pelas milícias árabes, nem uma palavra.

O Sudão não precisa de "injecções" de dinheiro: precisa de uma "injecção" maciça de ordem e de justiça. Numa palavra: de civilização. Mas sobre isso desconfio que a ONU nada sabe ou nada quer saber.

A "Concordata Europeia"

Pergunta aos portugueses, às portuguesas e aos animais domésticos:

Concorda em concordar com os que também concordam uns com os outros e porque ninguém discorda daquilo com que os outros concordam, todos concordam que assim é que está bem?

Não compreendeu imediatamente a pergunta? Então não percebe nada de Referendologia nem de Construtivismo Europeu: devia ter intuido que não se espera que compreenda, apenas que dê o seu "sim" por reflexo, como um cão dá a patinha ao dono (good dog!).

Consequentemente acaba de perder a sua autonomia e o direito à auto-governação.

2004-11-18

Depois de Oriana...

... e para que haja uma réstea de esperança, vale a pena ler o que se vai escrevendo no Egipto: Why Can't We See Things as the Rest of the World Does?. Mais uma vez via MEMRI.

"E que tal uma inspecção aos inspectores?"

Pergunta António Marujo, no Público, a propósito de uma auditoria à Casa do Gaiato. Vale a pena ler os artigos no Público a respeito desta auditoria e do respectivo relatório. Tresanda tudo a estatismo, anti-clericalismo, parcialidade, etc. Há problemas na Casa do Gaiato? Mas onde não os há? Querem dar como exemplo o quê? A Casa Pia?

MoMA 20 11

No próximo dia 20 de Novembro reabre o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (acrónimo: MoMA), situado na West 53rd Street, Manhattan, depois de um exílio temporário em Queens devido a profundas obras de remodelação. O projecto de remodelação é da responsabilidade do arquitecto japonês Yoshio Taniguchi. O espaço de exibição foi aumentado em cerca de 47% e o espaço interno total do edifício duplicou.

Desde 1929, ano em que abriu portas, o MoMA tem sido um centro de exibição, educação e investigação dedicado à arte contemporânea. É também um dos museus que mais contribuiu para a alteração do próprio conceito de museu: de "depósitos organizados" de faustosos tesouros a lugares de aprendizagem e de fruição.

Mas o MoMA não exibe apenas arte: mostra também responsabilidade e sentido cívico. Um bom exemplo é o modo como financiou as obras de remodelação. Estas custaram perto de 900 milhões de dólares, dos quais mais de 500 milhões foram suportados directamente pelo Board of Trustees do museu. O resto veio de patrocinadores institucionais, com destaque para o JPMorgan Chase, que pagou a reinstalação da colecção, possibilita a visita gratuita para os cidadãos no dia de reabertura e financia um programa regular de visitas escolares subsidiadas. Várias outras entidades, surgem como patrocinadores, fornecendo equipamentos - por exemplo a IBM (cedeu tecnologia), a Sony Corporation (cedeu equipamentos de audiovisual) e até o Consulado dinamarquês ofereceu equipamentos para espaços públicos.

Sendo um museu privado, o MoMA cobra um preço de admissão, cujo valor para adultos sem isenções ou descontos passará dos 12 para os 20 dólares. E aqui começa a "agitação": os defensores locais da "Cultura SCUT" protestam porque acham muito caro. Esqueceram-se de "protestar" por não terem suportado como contribuintes os 900 milhões de dólares que custou a remodelação e que foram pagos por indivíduos e instituições: para a esquerda, a gratuitidade da cultura (e da educação , e da saúde, etc...) é sempre um "direito adquirido" - adquirido primeiramente e, por regra, de forma involuntária pelos contribuintes.

Talvez seja por causa de ilusões como esta da cultura "grátis" que Bilbau tem um museu Guggenheim e Lisboa tem uma maquette de um projecto de renovação do parque Mayer da responsabilidade de Frank Gehry, mas que seguramente nunca passará disso mesmo: de um projecto irrealizável. O contribuinte português é um cavalo estafado, mas para a esquerda o financiamento público da cultura e da educação tem carácter dogmático.

Veremos se os genuinamente interessados em arte (por oposição aos interessados em borlas) "votam" no renovado museu, pagando voluntariamente o preço de admissão anunciado. Por mim, espero ter brevemente o privilégio de poder pagar os 20 dólares de entrada: como na canção dos REM, leaving New York, [is] never easy. Regressar, por vezes ainda é mais complicado.

2004-11-17

Campeonato Nacional de Flip-Flopping

Depois de ouvir as intervenções de Pedro Santana Lopes e José Sócrates no debate orçamental, finalmente percebi o meu erro. Julgava que os dois principais partidos tinham mudado de líder.

Afinal foram os líderes que mudaram de partido...

Uma questão de fé

No que respeita aos problemas políticos do Médio Oriente, europeus e americanos demonstram uma fé inquebrantável, que excede largamente a crença religiosa da maioria da população islâmica.

Através "Dele", a salvação é possível. Conflitos centenários, talvez mesmo milenares, serão apaziguados em poucas horas. Assassinos e facínoras avulsos serão reconduzidos ao caminho a virtude cívica. Crianças que cresceram na rua, instrumentos de violência e vítimas de uma doutrina de ódio, serão diária e pontualmente transportadas para a escola por pais que nunca o foram. Um enorme arco íris de paz, alegria e prosperidade erguer-se-á, unindo a costa mediterrânica de Gaza às planícies outrora férteis da Mesopotâmia.

Tudo graças a "Ele" - ao "Voto", esse grande redentor pagão da humanidade. Os efeitos divisores das grandes religiões serão imediatamente superados pela virtude unificadora da "religião cívica".

Através do suave milagre da "legitimação pela urna", nascerá uma "nação palestiniana" onde hoje apenas existem grupos militarizados e unidos pelo inimigo comum (Israel), que entregues a si próprios provavelmente transformarão a Intifada num problema interno. Do mesmo modo, no Iraque Shiitas e Curdos submeter-se-ão à "vontade geral", sem por um momento sequer lhes passar pela cabeça que essa "vontade geral" poderá ser a reconstituição pelo voto do domínio Sunita. Ou o mesmo, mas agora com os Curdos e os Sunitas na posição de "minorias democráticas".

A fé no Voto tudo conquista e tudo une. Devotos ou não, todos serão de votos. Bem aventurados, os "descendentes" de Rousseau!

Chega dia 9 de Janeiro à Palestina e dia 31 de Janeiro ao Iraque.

Por FCG

2004-11-15

Um infeliz acidente

A campanha eleitoral palestiniana já começou. O primeiro sinal do carácter da futura democracia palestiniana, livre do "jugo opressor sionista", foi dado ontem à tarde. Ao entrar numa tenda, Mahmoud Abbas - um dos candidatos a neo-Arafat -, foi aparentemente alvo de uma tentativa de assassinato, que resultou na morte de (pelo menos) um elemento da sua guarda pessoal.

A avaliar pela forma como a Capital (um jornal livre, igualitário e fraterno) "descreveu" recentemente o assassínio do realizador holandês Theo Van Gogh, não me admirava que a notícia do evento fosse, mais coisa menos coisa, assim:

Mahmoud Abbas foi ontem recebido com grandes manifestações de alegria e regozijo pelos palestinianos. Durante os festejos foram disparados vários tiros para o ar. Um dos seguranças pessoais do Sr. Abbas terá acidentalmente encalhado com a cabeça numa bala. O lamentável incidente resultou em danos apreciáveis para ambos.

Por FCG

2004-11-14

Tolerar a intolerância?

A ver: Submission, de Theo Van Gogh. A ler: "A Força da Razão", de Oriana Fallaci. Ou como ser liberal face a quem abomina a nossa liberdade e a deseja destruir?

2004-11-03

Ironias

Os antibushistas agarram-se agora a uma última hipótese: Ohio. Se Kerry conseguir ganhar estas eleições, será ao que tudo indica com uma minoria no voto popular, devido ao sistema eleitoral americano. Por mim nada tenho a dizer, excepto que é irónico que esse sistema, que deu a vitória a Bush em 2000 com uma minoria dos votos populares, seja hoje a única esperança de quem tanto o atacou no passado e o usou para tentar reduzir a legitimidade democrática de Bush.

Um esclarecimento urgente

Segundo o Público de ontem, o Bloco de Esquerda associou-se, mais uma vez, a um protesto contra o julgamento de uma mulher por crime de aborto. Desta vez o aborto foi provocado às 19 semanas de gravidez. É urgente o Bloco de Esquerda esclarecer onde pretende estabelecer a fronteira entre o aborto livre e o crime. Já vamos nas 19 semanas.: até onde iremos? Já em tempos aqui citei Peter Singer, que tem a coragem de argumentar a favor do infanticídio até aos três meses de idade (se bem me lembro). Perante argumentação e clareza, nem que seja nas dúvidas, é possível discutir, é possível contra-argumentar, talvez mesmo concordar. Perante a pura propaganda e a demagogia, é mais difícil. Esperam-se esclarecimentos e argumentação por parte do Bloco de Esquerda, até porque a petição que apoiou a favor de um novo referendo referia claramente a descriminalização apenas até às 10 semanas.

2004-08-01

OMC

Aparentemente as negociações na OMC resultaram na decisão de eliminar os subsídios à agricultura na União Europeia e nos EUA. Se assim for, são excelentes notícias para quase todos, excepção feita aos José Bovés destes mundo e às suas Confédérations Paysannes, por parte de quem se aguardam a qualquer momento as acções violentas usuais.

Ou talvez não. É que, apesar de o tom das notícias e das declarações ser de claro optimismo, a verdade é que não só não se trata ainda de uma decisão final, não só os prazos e os termos exactos da eliminação dos subsídios não estão ainda estabelecidos, como receio que a UE esteja já a preparar uma resposta inteligente, embora perversa: travestir os subsídios à agricultura em pagamentos de serviços ambientais prestados pelos agricultores à comunidade. Talvez seja um daqueles casos em que tudo muda para tudo ficar na mesma. Esperemos que não.

2004-06-15

Fanatismo na primeira pessoa

O MEMRI continua a divulgar documentos impressionantes. Desta vez um relato na primeira pessoa do ataque de dia 29 de Maio, em Khobar, Arábia Saudita. O documento merece ser lido na íntegra, mas não resisto a deixar alguns excertos:
As soon as we entered, we encountered the car of a Briton, the investment director of the company, whom Allah had sent to his death. He is the one whose mobile phone on the seat of his car, with the blood on it, they kept showing [on television]. We left him in the street.

We went out, and drove our car. We had tied the infidel by one leg [behind the car]. We left the company [compound] and met the patrols. The first to arrive was the jeep of a patrol, with one soldier, and we killed him. With the rest we exchanged fire, and we got through.

[...]

The infidel's clothing was torn to shreds, and he was naked in the street. The street was full of people, as this was during work hours, and everyone watched the infidel being dragged, praise and gratitude be to Allah.

[...]

We entered one of the companies' [offices], and found there an American infidel who looked like a director of one of the companies. I went into his office and called him. When he turned to me, I shot him in the head, and his head exploded. We entered another office and found one infidel from South Africa, and our brother Hussein slit his throat. We asked Allah to accept [these acts of devotion] from us, and from him. This was the South African infidel.

[...]

We went to one of the buildings. Brother Nimr, may Allah's mercy be upon him, shoved the door until it opened. We entered and in front of us stood many people. We asked them their religion, and for identification documents. We used this time for Da'wa [preaching Islam], and for enlightening the people about our goal. We spoke with many of them.

At the same time, we found a Swedish infidel. Brother Nimr cut off his head, and put it at the gate [of the building] so that it would be seen by all those entering and exiting.

2004-06-13

Campanhas, reflexões e sondagens: restrições paternalistas

A existência de períodos legais para as campanhas eleitorais, o chamado período de reflexão e a proibição de campanha no dia das eleições, bem como a proibição da divulgação de sondagens, não passam de tiques paternalistas. Assumem que os cidadãos são irresponsáveis, devendo ser "protegidos" de informação que, imagine-se o escândalo, poderia "influenciar" os resultados eleitorais. Das duas uma, ou se entende que os eleitores são uma massa amorfa de indivíduos incapazes de pensar pela sua cabeça, ou se assume que são cidadãos completos, capazes de pensamento autónomo e de, face a toda a informação disponível, escolher como bem entenderem. Neste último caso, que me parece a única suposição aceitável num estado liberal, a proibição da campanha ou, pior, da divulgação de sondagens no dia da eleição não passa de uma forma de sonegar informação que o eleitor poderia usar para conscientemente fazer a sua escolha. Quanto a períodos de reflexão, cada um constrói (ou não) o seu, como bem entender e sem precisar de "ajudas" estatais. Efeitos "perversos" de eliminar estas restrições paternalistas, só se forem os da democracia em si, bem conhecidos, mas relativamente aos quais ainda está para chegar quem proponha alternativa convincente. Reconhecendo a democracia como a solução possível, então tem de se aceitar o resultado maioritário das decisões individuais, tomadas em consciência e com acesso a toda a informação disponível.

2004-06-12

Patriotismos de pouca dura

Estava na Escolar Editora quando, vindo do café em frente, se ouviu o público cantar o hino nacional com emoção, antes de se iniciar o jogo entre Portugal e a Grécia. Senti um arrepio ao ouvi-lo. Mas resisti. Será já um lugar comum, mas não menos verdadeiro por isso: é um patriotismo fácil e efémero, este do futebol. Prognostiquei uma derrota logo no primeiro jogo, o rápido arriar das bandeiras nacionais que por aí pululam, e hinos cantados com bem menos vigor nos próximos jogos. Não sei se me alegre com o rápido desaparecimento deste patriotismo deslocado, se me entristeça com o fim da última forma de patriotismo que nos resta.

2004-06-10

"Morto pela Morte Inexorável e Morto pela Campanha Evitável"

As campanhas são estúpidas, é certo. A morte é triste, sobretudo de um homem bom. Mas, por mais que tente, não vejo ligação entre as duas coisas. Ou, pelo menos, não a vejo da mesma forma que Pacheco Pereira e outros cujas opiniões fui ouvindo. Sousa Franco morreu em campanha, como poderia ter morrido a passear. Morreu, como todos morreremos. Mas morreu a fazer o que queria, como queria, convicto, em total liberdade. Pode-se morrer melhor?

Tentamos sempre encontrar nexos de causalidade para os acontecimentos mais importantes. Tem de haver um responsável. Alguém perverso. Alguém estúpido. Mas o que é perverso, o que é estúpido, o que é a causa última da nossa morte, é a vida. Simplesmente.

2004-04-23

Vale tudo

Francisco Louçã, no Público de hoje, refere como patética uma cena ocorrida na última conferência de imprensa de Bush, que transcreve como se segue:
Na semana passada, pouco depois de ter perdido o controlo de algumas das principais cidades iraquianas, George W. Bush tomou a iniciativa excepcional de promover uma conferência de imprensa para se explicar. Mas quando os jornalistas insistiram em perguntar que erros tinham sido cometidos, o Presidente balbuciou: "Tenho a certeza de que alguma coisa me virá à ideia no meio desta conferência de imprensa, com toda esta pressão de tentar arranjar uma resposta, mas ainda não veio. Eu ainda não... vocês põem-me aqui debaixo dos projectores e talvez eu não seja rápido... tão rápido quanto devia para arranjar uma". Bush concluiu que era melhor que lhe tivessem dado previamente a pergunta por escrito.

Ao assistir a esta cena patética, alguns terão pensado nas semelhanças entre Bush e Nixon. Muitos mais têm argumentado que a história se repete sempre como tragédia e que o Iraque é um novo Vietname. Estão enganados: o Iraque é muito pior.
A conferência de imprensa encontra-se transcrita nas páginas de Casa Branca. Transcrevo a parte tra(duz)ida por Louçã:
Q: Thank you, Mr. President. In the last campaign, you were asked a question about the biggest mistake you'd made in your life, and you used to like to joke that it was trading Sammy Sosa. You've looked back before 9/11 for what mistakes might have been made. After 9/11, what would your biggest mistake be, would you say, and what lessons have you learned from it?

THE PRESIDENT: I wish you would have given me this written question ahead of time, so I could plan for it. (Laughter.) John, I'm sure historians will look back and say, gosh, he could have done it better this way, or that way. You know, I just -- I'm sure something will pop into my head here in the midst of this press conference, with all the pressure of trying to come up with an answer, but it hadn't yet.

I would have gone into Afghanistan the way we went into Afghanistan. Even knowing what I know today about the stockpiles of weapons, I still would have called upon the world to deal with Saddam Hussein. See, I happen to believe that we'll find out the truth on the weapons. That's why we've sent up the independent commission. I look forward to hearing the truth, exactly where they are. They could still be there. They could be hidden, like the 50 tons of mustard gas in a turkey farm.

One of the things that Charlie Duelfer talked about was that he was surprised at the level of intimidation he found amongst people who should know about weapons, and their fear of talking about them because they don't want to be killed. There's a terror still in the soul of some of the people in Iraq; they're worried about getting killed, and, therefore, they're not going to talk.

But it will all settle out, John. We'll find out the truth about the weapons at some point in time. However, the fact that he had the capacity to make them bothers me today, just like it would have bothered me then. He's a dangerous man. He's a man who actually -- not only had weapons of mass destruction -- the reason I can say that with certainty is because he used them. And I have no doubt in my mind that he would like to have inflicted harm, or paid people to inflict harm, or trained people to inflict harm on America, because he hated us.

I hope I -- I don't want to sound like I've made no mistakes. I'm confident I have. I just haven't -- you just put me under the spot here, and maybe I'm not as quick on my feet as I should be in coming up with one.
Para Louçã, vale tudo.

2004-04-20

Há esperança

Palestinianos apelam a resistência pacífica:
We the undersigned, the sons of the Palestinian people, from various political, ideological, and social frameworks that are united in their struggle and steadfastness, condemn Israel's blatant aggression against our people, which was manifested a couple of days ago in the criminal and base act carried out by Sharon and his extreme right-wing gang that led to the martyr death of the leader Sheikh Ahmad Yassin and his freedom-fighting companions.

[Even while] we stress the rights of our people, which have been confirmed by all the international treaties, [and stress our right] to use all means to defend our people, even if we explode from pain at the terrible tragedy, we call upon the sons of our people across the homeland to [do as] the national interest dictates: To take the initiative from the hands of the criminal occupation gang, to contain the rage, and to rise up again a non-violent Intifada of the masses, broad in scope, with clear goals and [a] sane message, to be initiated and led by our freedom-fighting people.

[This Intifada] will make Sharon miss the opportunity to crown his aggression against our people and against the holy places with the final touches of his security plan.

As we appeal [to make] this Intifada of unity a step toward reawakening to popular activity, purposeful and disciplined, with a clear program and [expected] political yield, we stress our commitment to our just and legitimate demands and to our rights. We call for the unification of the ranks, based on national unity and a united leadership resisting the occupation.

Enough of the criminal assassination operations. Enough of the bloodshed. Enough of the occupation.
Muito céptico, desejo-lhes o maior sucesso no apelo e espero que a nova forma de resistência tenha bons resultados.

2004-04-18

Dito e feito

Zapatero decidiu antecipar o cumprimento da sua promessa de retirar as tropas do Iraque no caso de a ONU não tomar o controlo da situação até Junho: a retirada das tropas espanholas será imediata. Sempre se poupam uns quantos soldados espanhóis mortos e, quem sabe, talvez Bin Laden cumpra a sua promessa e a Espanha se livre de mais atentados. Deixaram de ser necessárias as negociações com terroristas propostas por Mário Soares. Basta ceder-lhes. Até que, um dia, "a bandeira do Islão [se erga] sobre o número 10 de Downing Street" e, antes, sobre La Moncloa.

2004-04-15

Bush escreve a Sharon

A carta que Bush escreveu a Sharon começa por saudar como corajoso o plano de Sharon que prevê o desmantelamento total dos colonatos da Faixa de Gaza e parcial dos colunatos na Cisjordânia. Até aqui nada a dizer: é um passo na direcção certa. Bush depois apresenta um conjunto de exigências à autoridade palestiniana, que incluem a sua demarcação clara de actos de violência contra Israel. Aqui a posição de Bush pode começar a ler-se como pró-israelita. De facto, Bush não se limita a exigir acções contra o incitamento do terrorismo, da matança indiscriminada de civis, mas afirma que os palestinianos "must undertake an immediate cessation of armed activity". O problema é que, independentemente de poder ter havido no passado boas razões para isso, os palestinianos vivem sob ocupação e têm o direito de a combater. O fim desses combates não pode ser exigido como condição prévia para as negociações, mas sim como resultado delas. Há que distinguir muito claramente entre combate contra uma ocupação e terrorismo, e Bush não o faz. E há que fazer muito claramente essa distinção mesmo que os palestinianos não a façam. Bush continua dizendo que a resolução do problema do retorno dos refugiados palestinianos tem de passar por permitir o seu regresso não às localidades de origem, mas a um novo estado da Palestina, a criar. A posição parece realista, mas peca por não prever qualquer contrapartida para o facto de os refugiados não poderem regressar a casa. Bush depois afirma que o muro que Israel está a construir "should be a security rather than political barrier, should be temporary rather than permanent, and therefore not prejudice any final status issues including final borders". Parece também uma posição sensata, bem como a afirmação de que é irrealista esperar que as fronteiras de 1949 venham a ser as fronteiras definitivas entre os estados de Israel e da Palestina. Mas não podemos, no meio de tanta aparente sensatez, deixar de notar que as cedências mais significativas recaem quase todas sobre os palestinianos. Bush não deixa claro, por exemplo, se a manutenção de alguns colonatos na Cisjordânia (aparentemente seis, com um total de cerca de 100 000 colonos, segundo a BBC World, presumindo-se que a maioria há menos de 25 anos), corresponderá à cedência por Israel algum do seu território. O problema é que não basta que os EUA, e Bush em particular, esteja empenhado no estabelecimento de uma Palestina "viável, contígua, soberana e independente". É preciso mais. É preciso que a solução encontrada seja justa. Se é fundamental que não se ceda ao terrorismo, também o é que não se deixe, em nome do seu combate, de ceder naquilo que é justo. Temos de ter a força e a coragem de tornar o terrorismo irrelevante. As causas justas devem ser defendidas, mesmo que sejam apoiadas por terroristas.

2004-04-05

"Ensaio sobre a mentira" ou da honestidade jornalística

A palavra "mentir" pode ser utilizada no sentido de "errar no que diz ou conceitua" (Novo Aurélio Séc. XXI). Neste sentido não implica a consciência de se estar a fazer uma afirmação falsa. No entanto, o sentido mais comum da palavra é o de "afirmar coisa que se sabe ser contrária à verdade" (Novo Aurélio Séc. XXI). Nuno Pacheco sabe bem que quando afirma "Colin Powell mentiu" será assim interpretado, mesmo que mais tarde diga que, se Colin Powell o fez, "não [foi] por culpa dele" (admito que por "não ter culpa" Nuno Pacheco entenda que Colin Powell não sabia que o que estava a afirmar não correspondia à verdade). A escolha do verbo "mentir" não pode ter sido inocente. Destinou-se provavelmente a fazer passar por verdadeira uma afirmação que Nuno Pacheco não sabe (nem pode ainda saber) se corresponde à verdade, por muito convencido que esteja disso. É que não só Colin Powell não confessou ter mentido, como não há qualquer prova de que o tenha feito (as declarações de Colin Powell estão aqui).

Mas Nuno Pacheco tem razão quando diz que este caso tem de ser muito bem investigado, para que não se volte a repetir. Esperemos que os inquéritos em curso nos EUA lancem um pouco de luz sobre este assunto.

2004-03-19

Actualização

O Público cita algumas das afirmações de Mário Soares na conferência de ontem:
Para fazer a paz não vale a pena falar com os que fazem a guerra? ... Como conseguimos a paz nas ex-colónias? Tivemos que falar com os que faziam a guerra, na altura também considerados terroristas ... Há hoje dúvidas no mundo inteiro e nos próprios Estados Unidos acerca da eficácia e da adequação da sua luta antiterrorismo, com a ajuda de outros Estados, até agora, o Reino Unido, a Itália e a Espanha. ... Quais são os objectivos Al-Qaeda? O que os motiva? ... A pobreza, as dificuldades sociais e o desemprego [levam os muçulmanos para as esolas corânicas]. ... Há uma galáxia que não conhecemos bem e a única maneira é tentar percebê-la. Perceber o outro é fundamental. ... Esmagando-os não chegamos a lado nenhum. Não podemos matar um terço da humanidade. ... Se fosse necessário falar com Hitler para evitar um ano de guerra, valia a pena. ... Se mudar a Administração norte-americana [será possível um entendimento entre os Estados Unidos e a Al Qaeda]. ... Se é o Osama bin Laden o responsável pelo 11 de Setembro, os Estados Unidos da América têm como falar com ele. Era amigo da família Bush.
Algumas notas:
  1. Tenho alguma relutância em usar a palavra "guerra" para descrever o que a Al Qaeda faz. Mas admitamos que sim. Será que, para fazer a paz, vale a pena falar com a Al Qaeda? A resposta não pode ser senão negativa. Por vezes a paz faz-se fazendo a guerra. A Al Qaeda tem de ser aniquilada, simplesmente.
  2. Nas ex-colónias conseguimos a paz? Talvez para nós, continentais. Os povos das ex-colónias lá estão para nos contar que tipo de paz fizemos nós com tanta conversa.
  3. Salvo excessos de parte a parte, a guerra colonial foi isso mesmo: uma guerra. Guerrilheiros contra soldados. A palavra "terrorista" sofreu muitos abusos, mas no caso da Al Qaeda está muito bem aplicada.
  4. Há dúvidas sobre a guerra ao terrorismo? Claro que há. Muitas e legítimas. Mas propor o diálogo com quem ordenou o assassínio de milhares de civis não é uma alternativa. É uma capitulação. Uma cobardia.
  5. É importante conhecer a Al Qaeda? Claro! Como é importante conhecer a mente de um psicopata. Não para negociar ou conversar com ele. Mas para melhor o dominar, para melhor o vencer, para o poder punir, para fazer justiça.
  6. Esmagar os muçulmanos? Matar um terço da humanidade? De que fala Mário Soares? Quem propôs semelhante coisa?
As restantes afirmações são demasiado repugnantes para merecerem comentário.

Dialogar com a Al Qaeda?

Segundo ouvi agora na TSF, Mário Soares terá dito que devemos dialogar com a Al Qaeda. Terá mesmo dito que dialogar com Hitler teria sido apropriado se se evitasse um ano de guerra. A capitulação é total. Mário Soares perdeu, com tais afirmações, o pouco crédito que ainda me merecia. Um estado liberal e democrático só tem uma forma de agir perante terroristas: persegui-los, prendê-los e julgá-los. É essa a sua única forma aceitável de "diálogo".

2004-03-17

Pois...

O ABC revela um comunicado em que as brigadas de Abi Hafs el Masri voltam a reclamar a autoria do massacre de 11 de Março em Madrid e em que anunciam a suspensão dos ataques em Espanha, dados os resultados das eleições: "la dirección de Al Qaeda detendrá estas acciones en España hasta que conozcamos las tendencias del nuevo gobierno, que ha prometido la retirada del ejército español de Irak y comprobemos que no interviene en los asuntos de los musulmanes". Zapatero deve estar orgulhoso com tamanha vitória na guerra contra o terrorismo.

(Via O Comprometido Espectador.)

Colectivismo?

João Miranda chama a atenção dos que têm criticado a Espanha dizendo que adoptam uma atitude "profundamente colectivista". Acho que se engana. A maioria dos críticos da vitória de Zapatero não põem em causa a sua eleição perfeitamente democrática e legítima. Limitam-se a observar como, aos olhos da Al Qaeda, os atentados terão o efeito pretendido: retirar as tropas espanholas do Iraque. Para a Al Qaeda, e para muitos potenciais terroristas, tornou-se evidente que os massacres funcionam, mesmo que ninguém individualmente possa ser acusado de negociar com terroristas. O problema é justamente que a relação causa-efeito (massacre - futura retirada do Iraque) surgiu por intermédio de uma decisão "colectiva" feita de um agregado de decisões individuais, que provavelmente tiveram mais em conta as supostas ocultações da verdade por parte do governo de Aznar do que o desejo de retirar do Iraque para sair da atenção dos terroristas. Não discuto, ao contrário do próprio João Miranda, quais são os interesses da Espanha. A Espanha não tem interesses, quem os tem são os espanhóis. Foi a soma destes interesses individuais e divergentes que resultou na vitória de Zapatero. Estou firme e democraticamente convencido que foi um mau resultado, com péssimas consequências no combate ao terrorismo, e que muitos espanhóis o virão a lamentar.

2004-03-15

España ou a cobardia democrática

Zapatero prometeu a retirada das tropas espanholas do Iraque em Junho, caso vencesse as eleições e a ONU não tomasse conta da situação nessa altura (ver programa eleitoral do PSOE). Como a promessa foi feita antes dos ataques terroristas, o seu cumprimento não poderá ser visto como uma resposta à barbárie de 11 de Março. Os espanhóis também não ficarão com peso de consciência. Afinal, votaram no PSOE para penalizar aquilo que viram como uma manipulação do governo de Aznar, ao começar por atribuir a responsabilidade da barbárie à ETA. Esquecem que muitos, quase todos, face às detenções recentes de membros da ETA que levavam consigo 500 kg de explosivos para os colocar numa estação de comboios, começaram por ter essa mesma convicção, que de resto não partilhei. Esquecem que o governo de Aznar, no Sábado, face aos indícios entretanto surgidos, já atribuía maior probabilidade à pista da Al Qaeda, anunciando mesmo a detenção de cinco cidadãos de origem marroquina e indiana. Sem que ninguém assuma essa escolha, sem que ninguém se considere responsável, a Espanha escolheu democraticamente a cobardia. A Espanha claudicará face à Al Qaeda. A Espanha, sem que ninguém tenha negociado com terroristas, agirá como se isso tivesse sido feito. Bin Laden ganhou, mesmo que ainda se venha a descobrir a mão da ETA neste assassínio em massa.

Ou talvez não. Talvez Zapatero encontre justificação para se manter no Iraque. Esperemos que sim.

2004-02-02

Ser português

Ainda hoje disse que não havia nenhuma característica que identificasse o que é ser português. Ou que, a haver, seriam apenas defeitos, dos quais não perderíamos nada em desfazermo-nos. Mas agora, acabado o Belle Époque, engoli as minhas palavras. Não, não foi o filme em si que me fez reconhecer a verdade. Foi a sensação estranha, durante todo o filme, de conhecer aquele casarão, aquela estação de comboio, aquela paisagem. De estar em casa. No final, lá estava: filmado em Arruda dos Vinhos, Azambuja, Sobral de Monte Agraço e Estremoz.

2004-02-01

O que significam os números

A forma leviana como os média tratam os números, sendo um tema recorrente, é suficientemente importante para que se deva insistir nele. Por trás desta insensibilidade aos números está uma cada vez maior ignorância de matemática, uma ignorância que, de resto, se começa a exibir com orgulho. Essa ignorância provavelmente atinge por igual jornalistas e leitores. Quantos leitores do DN terão reparado no absurdo de dizer que um veleiro transportava 6 000 toneladas de haxixe? Admitamos que estou errado e que muitos, quase todos, perceberam que onde estava "toneladas" se devia provavelmente ler "quilos", reduzindo-se assim em três ordens de grandeza a dimensão da captura.

Mas quantos estarão alerta para erros semelhantes nos paineis informativos de uma entidade como o Oceanário? Foi lá que encontrei a extraordinária afirmação de que os seres humanos retiram anualmente do oceano 37 000 000 000 toneladas de produtos alimentares. Feitas as contas, são cerca de 6,2 toneladas por ano per capita. É demasiado. A magnitude do número levou-me a desconfiar e a fazer uma breve pesquisa.

Segundo a FAO, em 2001 a captura total de peixes, crustáceos, moluscos, etc., quer nos oceanos quer em águas interiores, foi de 92 356 034 toneladas e a captura de algas e outras plantas aquáticas foi de 1 295 987 toneladas. Ainda segundo a FAO, as produções anuais dos mesmos produtos em aquacultura foram de 37 851 356 e 10 562 279 toneladas, respectivamente. Ou seja, um total anual de 142 065 659 toneladas retiradas da água, quer por captura, quer como resultado de cultura.

Este valor é cerca de 260 vezes inferior ao indicado no Oceanário, correspondendo a cerca de 23 Kg anuais per capita, e não 6,2 toneladas. Assim, das três uma: ou há algum produto alimentar que se retira em enormes quantidades do oceano e que não está contemplado nos números da FAO reproduzidos acima, ou as capturas referidas pelo Oceanário se referem não a um ano mas, talvez, a toda a existência da humanidade, ou essas capturas estão simplesmente erradas. Inclino-me fortemente para a última hipótese.

2004-01-29

Moção da Assembleia Blogal do Picuinhices

Reunida a Assembleia Blogal do Picuinhices, com a presença do presidente da Assembleia e com a ausência justificada do Sr. Disblogue, foi apresentada e aprovada por unanimidade a seguinte moção:
Tendo em conta a crise económica em que o país vive, bem como a forma criteriosa como os dinheiros públicos (leia-se, retirados aos portugueses por intermédio dos impostos) devem ser gastos, deliberou esta assembleia dirigir à Assembleia Municipal de Lisboa as seguintes questões:
  1. A publicação de 11 (onze) moções da Assembleia Municipal de Lisboa no Diário de Notícias do dia 29 de Janeiro de 2004 era mesmo necessária?
  2. É atribuição da Assembleia Municipal de Lisboa propôr uma alteração legislativa que permita o aborto livre "até às 12 semanas, a pedido da mulher, para uma maternidade consciente e para protecção da saúde da mulher", enquanto exprime "solidariedade para com as mulheres acusadas da prática de aborto em julgamento no tribunal de Aveiro"?
  3. É atribuição da Assembleia Municipal de Lisboa pronunciar-se sobre o agravamento das "desiguldades sociais e [do] nível de vida", que "conduzirão inexoravelmente ao aumento da pobreza e da exclusão social", causados pelos aumentos de preços?
  4. É atribuição da Assembleia Municipal de Lisboa pronunciar-se "no sentido de [...] sensibilizar [os representantes de todos os partidos na Assembleia da República] para esta injustiça de os mais poderosos serem aqueles que menos impostos pagam", sendo "os mais poderosos" "a banca"?
  5. É atribuição da Assembleia Municipal de Lisboa pronunciar-se sobre o congelamento dos ordenados da função pública e a retirada de "poder de compra aos trabalhadores", e manifestar apoio "aos trabalhadores na sua luta contra esta situação que degrada a sua qualidade de vida"?
  6. É atribuição da Assembleia Municipal de Lisboa pronunciar-se sobre a "macrocefalia" do aparelho de estado a pretexto do não pagamento de impostos municipais por parte de edifícios estatais?
  7. Não seria preferível que a Assembleia Municipal de Lisboa se dedicasse às razões da sua existência, nomeadamente restringindo-se às suas competências, conforme estabelecidas pelo Artigo 53º da Lei 169/99?
Deliberou ainda que esta moção fosse publicada no blogue oficial "Picuinhices".

O Presidente da Assembleia Blogal do Picuinhices

Picuinhas

Um grande veleiro

Segundo o DN, a Polícia Judiária apreendeu 6 000 toneladas de haxixe que viajavam a bordo de um veleiro. Isso, 6 000 toneladas. Tendo em conta que a Sagres desloca 2 116 toneladas, imagino o tamanho do veleiro e compreendo, finalmente, por que razão foi necessário usar um submarino da Marinha e fusileiros para o interceptar.

Temos ministra?

A nova ministra da Ciência e do Ensino Superior propôs a liberalização da fixação do número de vagas dos cursos superiores e das respectivas provas de acesso. São duas excelentes medidas. O ensino superior precisa de autonomia, pois só assim se pode ter instituições verdadeiramente responsáveis. O problema que a liberalização das provas de acesso coloca é apenas a sua proliferação, resultando em trabalho acrescido para o candidato ao ensino superior. Mas julgo que é um falso problema: as instituições saberão organizar-se de modo a estabelecerem provas comuns a pelo menos algumas delas. Não só farão as provas exactamente como julgam que elas devem ser feitas, como as farão melhor que qualquer comissão do ministério.

Como pontos negativos destas novas propostas há o prazo para a entrada em vigor, prevista apenas para 2007, e a reserva da possibilidade de o ministério da educação fixar o número de vagas na totalidade do ensino superior, o que poderia inviabilizar totalmente a liberalização pretendida. Não se vê como podem as escolas, autonomamente, repartir entre si um bolo decidido centralmente. Tenhamos a esperança que este resquício de centralismo venha a ser abandonado e que a reforma entre em vigor antes de 2007.

2004-01-28

Verdades incómodas

Segundo a SIC Online, Miguel Cadilhe disse num jantar-conferência que
"A Expo'98 é uma enormidade" e o mesmo se pode dizer dos "10 estádios do Euro2004" ou a "parte das despesas do Porto 2001, Capital da Cultura", salientou, considerando que se tratam de "despesas públicas chamadas de investimento que chocam as famílias portugueses".
De facto.

A democracia é uma chatice...

Segundo a "liberal" dinamarquesa Charlotte Antonsen "Referenda are in fact pure gambling. There is no guarantee of a positive outcome, unfortunately". Não só considera que é a si própria que cabe dizer o que é um resultado positivo ou negativo, como também acha que o resultado de uma votação é aleatório. Para ela, não conhecer o resultado de antemão é equivalente a dizer que se poderia simplesmente tirar o resultado à sorte, o resultado seria equivalente. Não há dúvida que para muitos a democracia é um enorme impecilho.

Um relatório muito incómodo (ou a má-fé da TSF)

Foi divulgado hoje o relatório de Lord Hutton sobre o caso das armas de destruição em massa, da morte de Dr. Kelly e das mentiras da BBC. As conclusões do Relatório Hutton ilibam o governo de Tony Blair das acusações que lhe foram feitas. A TSF, no noticiário das 20h, nada disse sobre o assunto. Às 21:00h foi lacónica. Disse que Blair tinha sido ilibado por Lord Hutton, para citar logo de seguida declarações que David Kay, inspector dos EUA para as armas de destruição em massa, teria feito a uma comissão do senado dos EUA: "enganámo-nos a todos". A pressa do TSF em contrabalançar uma notícia com a outra demonstra bem a má-fé a que Fernando Gil e Paulo Tunhas se referem no seu excelente Impasses, mais ainda quando comparamos a suposta declaração de Kay com o original "we were all wrong", que se poderia traduzir por "enganámo-nos todos". Uma diferença subtil, mas significativa.

2004-01-27

Propinas e trabalhistas

A nova lei das propinas foi aprovada no Reino Unido, por uns escassos cinco votos. Acabou o ensino superior gratuito. Excelentes notícias, especialmente considerando que foi um partido trabalhista que pegou este touro de caras. Esperemos agora que o nosso governo ganhe coragem para mais reformas no ensino superior em Portugal.

2004-01-21

A fidelidade como defeito

Miguel Poiares Maduro assina no DN um artigo notável sobre a fidelidade como (má) alternativa ao mérito. Uma das melhores análises da sociedade portuguesa que tenho lido:
Em Portugal, temos preferido a fidelidade ao mérito. Claro que todos criticamos a corrupção, o nepotismo e fenómenos semelhantes na preferência dada a alguns em detrimento de outros que consideramos mais capazes e competentes. Mas, na verdade, esses fenómenos são apenas a faceta mais extrema da lógica predominante na nossa sociedade e que intuitivamente aceitamos e vemos constantemente reproduzida nas nossas instituições: a preferência pelos nossos em detrimento dos outros. Na Universidade dá-se preferência «aos nossos doutorados». Na administração publica, «aos nossos colegas». Nas empresas, «aos que cá trabalham».

[...]

A fidelidade é um dever que, em algumas circunstâncias, temos para com alguns. O mérito é um reconhecimento que devemos a todos.

2004-01-19

A taxa de televisão no Reino Unido

Uma pequena nota de Theodore Dalrymple no City Journal acerca da solução governamental para o problema das mães solteiras, algumas das quais foram presas por deixarem repetidamente de pagar a taxa de televisão:
A liberal think-tank close to the government has come up with a solution to the problem: halve the license fee for single mothers. In other words, we should subsidize a subsidy, in the name of a universal “right” to misinformation and trashy entertainment (and at the same time confer yet another incentive—albeit a small one, though such incentives are additive—for single parenthood). Reportedly, the government is favorably inclined toward the proposal.

Here is the definition of current British social policy: an idiocy wrapped in a lunacy wrapped in an absurdity, to produce misery and squalor.

2004-01-17

Um perigo na via pública

  • Desloca-se a velocidade muito inferior à dos restantes utentes da via pública, com os perigos que os diferenciais de velocidade acarretam.
  • Não precisa de licença para circular.
  • Conduz-se sem carta nem limite de idade.
  • Não tem dispositivos passivos ou activos de segurança (e.g., airbag ou ABS).
  • Normalmente não tem iluminação própria, nem para iluminar o caminho, nem de presença.
  • Não vai a inspecções periódicas obrigatórias.
  • Circula sem seguro.
  • De acordo com estatísticas da DGV, está envolvido em pelo menos 20% dos casos de mortalidade rodoviária.
Não se pode continuar a admitir este estado de coisas. Proiba-se o peão.

2004-01-15

11 anos de atraso

Certa noite, ainda a minha mãe estava na faculdade, o meu avô parou o trabalho aturado que o ocupava à secretária, que ocupava parte substancial da sala de estar, e declarou à família, solene: "Estou 11 anos atrasado". Eu também, aqui, pública e solenemente, e para que conste, me declaro 11 anos atrasado.

O efeito 1 minuto de microfone

Estação de Metro de Entrecampos. Pela 3ª vez encontro o guichet para recepção de pedidos de passe encerrado. Do guichet do lado informam que a colega está de baixa e que a colega que era suposto substituí-la faltou. A indignação propaga-se pelo dominó de requerentes que atrás de mim se havia formado. O funcionário do Metro sugere então que preenchamos fichas de reclamação. O que faço e me toma 2 minutos. No entretanto a fila tinha desaparecido, em pregões a anunciar o peixe-vergonha do pais; à procura do microfone que lhe dê o seu minuto no éter do fórum ou no fósforo do ecrã.

2004-01-11

Que fazer

Apoiar organizações como a SOS Racismo (que tem um blogue), mesmo que com elas discordemos ocasionalmente.

Racismo e xenofobia

Aqui ao lado, em Espanha, o racismo, a xenofobia. Um documentário impressionante da El Mundo TV (na SIC Notícias) torna-nos Marroquinos ou Argelinos por uns minutos. As desculpas, as recusas, as negas, todo o tipo de discriminação, é o que os emigrantes do Magrebe enfrentam todos os dias. Uma humilhação contínua. Uma infâmia inenarrável, que corresponde certamente àquilo que vai acontecendo por todo o mundo, que acontece certamente aqui mesmo, em Portugal. De vez em quando precisamos de documentários assim. Ajudam-nos a recordar o que somos. E somos maus.

2004-01-09

Petróleo para a paz

É curioso que, depois de o petróleo ter sido usado como explicação para a guerra de Angola e para a intervenção dos EUA no Iraque, depois de se dizer que o petróleo teria originado os golpes em S. Tomé, agora, no Sudão, o petróleo sirva de justificação... para o fim da guerra:
O petróleo, que começou por intensificar a guerra, acabou por se tornar num factor de acordo. Primeiro, porque o Norte concluiu que o não poderia explorar eficientemente sem paz e sem um compromisso com Garang. E, para os rebeldes do Sul, é a grande hipótese de vencer a pobreza endémica da região. Em segundo lugar, provocou um decisivo envolvimento norte-americano. Mas no essencial, a guerra vai acabar por completa exaustão de ambas as partes.

Jorge Almeida Fernandes, no Público de ontem (na BBC World a opinião era a mesma).
Estas explicações sempre me pareceram demasiado simplistas.

Uma boa medida

Bush pretende legalizar imigrantes clandestinos. Mas uma má justificação:
É de senso comum e de justiça que as nossas leis devem permitir a entrada de trabalhadores [estrangeiros] no nosso país para preencher empregos que os americanos não preenchem.
E se preenchessem, mas sofressem concorrência dos imigrantes? Isso não seria bom para todos, excepto temporariamente para os trabalhadores americanos que sofressem directamente a concorrência?

2004-01-08

As editoras movem-se

Os pesquisas e citações cruzadas de artigos publicados electronicamente estão a ser revolucionadas pelo DOI e pelo Crossref. Boas notícias para quem depende da pesquisa bibliográfica.

2004-01-07

Barroso e Cavaco

Segundo o PS (via Sic Notícias), o governo de Durão Barroso está a governar pior que Cavaco Silva. Vindo do PS, é um grande elogio, aliás imerecido.

No Mundo

O Carlos Miguel Fernandes tem um blogue. É o No Mundo. Dada a qualidade das suas intervenções no Picuinhices, será de certeza um excelente blogue. Sejam muito bem vindos, ele e a Maria João Reis Martins!

Individualismo não é sinónimo de egoísmo

Na TSF de hoje, no Pessoal e... Transmissível, Carlos Vaz Marques conversou com Mário Beja Santos. Pelo meio, uma confusão entre individualismo e egoísmo que é muito comum entre a esquerda. Como diz Hayek:
Individualism has a bad name today [anos 40], and the term has come to be connected with egotism and selfishness. But the individualism of which we speak in contrast to socialism and all other forms of collectivism has no necessary connection with these.
É esta confusão que torna tão difícil, como a entrevista revelou, compreender que seja num dos países que se considera o paradigma do individualismo, os EUA, que a sociedade civil, o voluntarismo e associativismo sejam mais fortes.

Os nossos dirigentes associativos

Jorge Cristino, novo Presidente da Associação Académica da Universidade do Minho, afirma em entrevista ao Público que "a Declaração de Bolonha diz que o Ensino é gratuito [...]". Não pude acreditar. Procurei e li a dita declaração e, felizmente, não havia sombra de referência à gratuitidade do ensino. A declaração terá muitos defeitos, mas pelo menos esse não tem.

Alguns bons argumentos contra a proibição do véu nas escolas francesas

Vale a pena ler o artigo de Vital Moreira, no Público. Para ele, não é tanto o jacobinismo do "princípio da laicidade" que está em causa, mas o anseio de uniformidade cultural da França. Tenho algumas dúvidas, mas os argumentos são bons:
A justificação política e doutrinária da medida proibicionista é geralmente ligada ao "princípio da laicidade", expressamente garantidos na Constituição de 1958, que é um dos princípios fundamentais da República francesa, desde a lei da separação de 1905. Mas, bem vistas as coisas, ela tem menos a ver com o princípio laico do que com a tradição francesa, de origem tipicamente jacobina, que faz prevalecer a ideia de nação sobre as identidades comunitárias e a assimilação cultural das minorias sobre a diversidade. A raiz da medida é a mesma que leva a França a não reconhecer a existência de minorias étnicas, linguísticas ou outras que pudessem pôr em causa a identidade e homogeneidade do "peuple français". O que a motiva é menos a questão da religião em si mesma do que o receio da radicação e consolidação de identidades sectoriais subnacionais, com o seu potencial desagregador da coesão e identidade nacionais.

2004-01-06

Reciprocidades?

Reagindo a medidas de protecção semelhantes tomadas pelos EUA, o Brasil, usando do seu "direito de reciprocidade", resolveu começar a registar ao cidadãos americanos que entram no seu território, fotografando-os e tirando-lhes as impressões digitais. Acontece que nos EUA há boas razões para tomar cuidados e, se é discutível a eficácia deste tipo de medidas, é certamente compreensível que os EUA as tomem. Basta lembrar o 11 de Setembro e estar atento às declarações regulares da Al-Qaeda. A atitude brasileira, pelo contrário, é simplesmente estúpida: não havendo qualquer necessidade de fazer os registos, estes limitam-se a incomodar e a gastar recursos materiais e humanos num gesto provocatório.

2004-01-05

2:

Algumas hipóteses:
  • A 2: não tem sucesso: desperdiçou-se dinheiro dos contribuintes.
  • A 2: tem sucesso: investiu-se dinheiro dos contribuintes para fornecer um serviço que podia ser fornecido pelo mercado e do qual muitos desses contribuintes não usufruem nem como espectadores nem através de um retorno monetário do investimento.
  • A 2: tem sucesso, mas com um figurino que não poderia nunca dar dar lucro: nesse caso o negócio não é viável, destinando-se simplesmente a fornecer um serviço a alguns à custa do dinheiro de todos.
A televisão pública é paga através de impostos. A chamada "contribuição audio-visual" é um imposto. Não distingue entre quem usufrui ou não do serviço estatal de televisão, pelo que não se poderá nunca considerar como um pagamento. É um roubo feito a alguns para benefício de outros. Não se destina a combater nenhum suposto mal social. A "tabloidização" das televisões privadas é, aliás, um espantalho. A SIC Notícias está aí para o demonstrar. Mas ainda que fosse verdade a "tabloidização", não justificaria a televisão estatal. Se as padarias vendessem apenas papo-secos, seria desejável ou justo que o estado oferecesse um serviço de fornecimento de pão alentejano a alguns, com gosto mais refinado?

Serviço público estatal de televisão

Não é necessário.

2004-01-04

O Quebra-Nozes

À tarde assisti a "O Quebra-Nozes", da Companhia Nacional de Bailado. Para além de ser incompetente para julgar tecnicamente um bailado, a forma como assisto aos espectáculos impede-me, normalmente, uma crítica objectiva. Sim, confesso, sou dos que quase saem para o hospital com ataques cardíacos quando os filmes são de suspense e dos que choram baba e ranho quando puxam ao sentimento, passando vergonhas horríveis quando, no fim, as luzes se acendem e não arranjo maneira de disfarçar as lágrimas que correm em torrentes. Foi assim que assisti a "O Quebra-Nozes". Encheu-me as medidas. Os cenários são excelentes, tal como os figurinos. A música, infelizmente, era gravada. Ao meu lado, o meu filho perguntava-me a cada momento que dança era, "É a do café? São japoneses?", batia palmas com entusiasmo, informava o vizinho "São os flocos de neve!". Sim. É verdade. Hoje à tarde, ao lado do meu filho, também eu tive cinco anos.

Euforia

Não consigo ler mais do que um par de parágrafos. Passeio pela casa num estado eufórico que se diria causado por estupefacientes. Desconheço a razão. Será porque se acabou, finalmente, o período de festas?

Conservadores e neoconservadores

No Public Interest, via AAA da Causa Liberal, um interessante e informativo artigo de Adam Wolfson sobre conservadores e neoconservadores.

2003-12-30

Uma grande Aba

A Aba de Heisenberg desmonta os argumentos de Miguel Sousa Tavares e demonstra os perigos da velocidade: aqui, aqui, aqui e aqui.

Demências

Sermões patrocinados pela Autoridade Palestiniana (via MEMRI). Um excerto:
[Even when] a martyr's organs are being chopped off, and he turns into torn organs that spread all over, in order to meet Allah, Muhammad, and his friends, it would not be [considered] a loss? This is the honor given to our martyrs, the martyrs of the Islamic nation, who were killed due to their loyalty to Allah... The sacrifice of convoys of martyrs [will continue] until Allah grants us victory very soon. The willingness for sacrifice and for death we see amongst those who were cast by Allah into a war with the Jews, should not come at all as a surprise? Oh believing brothers, we do not feel a loss... The martyr, if he meets Allah, is forgiven with the first drop of blood; he is saved from the torments of the grave; he sees his place in Paradise; he is saved from the Great Horror [of the day of judgment]; he is given 72 black-eyed women; he vouches for 70 of his family to be accepted to Paradise; he is crowned with the Crown of glory, whose precious stone is better than all of this world and what is in it?

August 17, 2001, Sheikh Isma'il Aal Ghadwan, Sheik 'Ijlin Mosque in Gaza, PA Television.

2003-12-26

Ai meu rico carrinho!

Para Miguel Sousa Tavares, há quatro questões em que o "conservadorismo de pensamento" "determinou a orgulhosa inflexibilidade ideológica". Quais são?
Refiro-me à política de agravamento das multas e punições por excesso de velocidade no novo Código da Estrada que aí vem, na recusa das chamadas "salas de chuto" (assistidas ou não) nas prisões, a liberalização do consumo de drogas leves e a descriminalização do aborto (ou até mesmo a sua simples despenalização). A todas as sugestões de ensaiar uma via alternativa nestas matérias, a direita que governa respondeu: "Não, não, não e não."
Que faz o excesso de velocidade neste lote? Note-se que, para Miguel Sousa Tavares:
São quatro exemplos de como uma hipocrisia erigida em pseudovalor moral pode causar danos concretos, mortes incluídas, às vítimas desses valores. Em nome do Estado, em nome da moral cristã ou - pior e nunca dito - em nome, muitas vezes, de interesses de negócio instalados, por exemplo na lavagem de dinheiro da droga ou na pretensa recuperação dos drogados. Santíssima hipocrisia!
Quem serão as vítimas da punição do excesso de velocidade? Quem beneficiará com que negócio? É necessário ser dono de uma demagogia inacreditável para se afirmar que a punição do excesso de velocidade irá aumentar o número de mortos na estada. Não. Não é só demagógico. É profundamente desonesto.

Gato

Alma má revestida de pêlo.

2003-12-24

Leituras sobre o aborto

Desidério Murcho, na sequência de um comentário deixado na entrada Aborto: posições inaceitáveis, enviou-me uma lista de leituras sobre o assunto, que aqui partilho:
Eis algumas sugestões de leituras introdutórias centrais sobre o aborto:
  • Abortion and Infanticide, de Michael Tooley (Livro polémico, mas muito claro.)
  • A Companion to Ethics, org. por Peter Singer (Tem um artigo sobre o aborto que apresenta as principais posições e orienta leituras).
  • Applied Ethics, org. por Peter Singer (Tem alguns dos artigos clássicos da área, como o da Jarvis Thomson e o do Tooley, que deu depois origem ao livro).
  • Ethics in Practice, org. por Hugh Lafollette (Mais alguns artigos clássicos da área, tem alguma sobreposição com a antologia anterior; se tiver de escolher só uma delas, escolha esta. Tem um site informativo, com alguns materiais.)
  • "Religião e Questões Morais Particulares", in Elementos de Filosofia Moral, de James Rachels (O livro vai sair a 20 de Janeiro na Gradiva e tem uma secção muito esclarecedora sobre como se faz o debate sobre o aborto.)
Há inúmeras colectâneas de artigos só dedicados ao aborto, assim como livros. Mas estas leituras parecem-me centrais. E tanto as duas colectâneas apresentadas como o Companion são obras de consulta importantes para o público leigo interessado quer na ética aplicada quer noutros aspectos da ética.

Penso que o Pedro Galvão está a organizar uma colectânea de artigos sobre o aborto, mas não sei qual será o editor.

2003-12-22

Actualização

Mais sobre as expropriações no MATA-MOUROS.

Oficializar o roubo?

Salazar fixou as rendas urbanas de Lisboa e Porto. Após o 25 de Abril essa medida "social" foi estendida a todo o país. O resultado está à vista. O mercado de arrendamento praticamente desapareceu, os senhorios praticamente faliram, os prédios degradaram-se, os portugueses jovens são hoje quase todos candidatos a proprietários, a mobilidade dos cidadãos reduziu-se, pois se são proprietários não querem pagar os impostos associados a todas as trocas de habitação (mais-valias e sisa) e se são inquilinos não querem perder a sua renda artificialmente baixa. As cidades foram envelhecendo com os seus habitantes. Os senhorios tornaram-se nos financiadores da política de rendas baixas do estado, que não gasta um tostão com a sua generosidade.

O governo pretende pôr a cereja sobre este magnífico bolo. Acabar com a lei das rendas, ou melhor, liberalizá-las, não lhe passa pela cabeça. Seria necessário demasiada coragem. Seria necessário arcar com o financiamento das rendas de quem hoje usufrui de rendas baixas e mais não pode pagar. Não. Tanto quanto percebi deste artigo, e espero sinceramente estar enganado, o estado prepara-se agora para permitir que sociedades de capitais municipais expropriem prédios degradados. Roubaram-se os senhorios aos poucos durante anos para, no fim, por falta de paciência, se roubar o que resta de uma só vez. Perfeito.

(Leia-se também a entrevista onde a Secretária de Estado da Habitação Rosário Águas afirma que os proprietários terão oportunidade de recuperar eles próprios os imóveis e, caso não o façam, verão a sua propriedade expropriada. Fica convenientemente omisso como poderão os proprietários recuperar os edifícios sem liberalizar as rendas praticadas. Pormenores.)

2003-12-21

Aborto: posições inaceitáveis

O Padre Feytor Pinto, em entrevista conduzida por Maria João Avilez e transmitida hoje na SIC Notícias, referiu-se à eutanásia e ao aborto (de memória, não garanto as palavras exactas, apenas o sentido):
A eutanásia está na moda. Hoje, quando alguém nos incomoda elimina-se, como Hitler fazia. Quando não há paciência para os velhos, vemo-nos livres deles. Quando uma criança nos incomoda, aborta-se.
São estas afirmações, bem como as de "aqui [na barriga] mando eu", no extremo oposto, que nada contribuem para a discussão sobre estes assuntos tão delicados. Todas as subtilezas, qualificações, cuidados que devem ser colocados ao defender esta ou aquela posição são esquecidos, são, aliás, deliberadamente ignorados, sobrando apenas a afirmação panfletária. No meio desta cacofonia de argumentos, os únicos verdadeiramente racionais e cuidadosos com que alguma vez me deparei foram os de Peter Singer. Paradoxalmente, não concordo de todo com as conclusões. Mas vale a pena lê-lo para perceber como se argumenta, como se pensa, como se evita a simplificação. Como se pode tentar ser coerente ou, pelo contrário, como se pode optar deliberadamente pela incoerência ao reconhecer os limites da razão (coisa que Peter Singer não faz, de resto). Argumentos como o direito da mulher sobre o seu corpo são, naturalmente, absurdos: é que se trata, justamente de outro corpo, de outro ser, que será morto. Peter Singer discute seriamente em que circunstâncias é errado tirar uma vida. Essa discussão é a mais importante a fazer. É, também, aquela onde será mais difícil chegar a acordo. Todos, ou quase todos, concordamos que o infanticídio é um crime horrível. Todos, ou quase todos, aceitaremos como válido o argumento, de Peter Singer, de que não há diferença material entre matar após o nascimento ou antes do nascimento, ou que, pelo menos, se houver diferença, deve-se à idade do ser humano, e não ao acto do nascimento em si. Quando se fala acerca do aborto, os tempos são fundamentais. Muitos, embora não todos, concordarão que um óvulo acabado de fecundar não merece o mesmo respeito que um ser humano adulto, ou que um bebé com nove meses após a concepção. Não consegui (ainda?) encontrar nenhum argumento verdadeiramente convincente para o limite das 12 semanas de idade. Nem é claro se deva estabelecer algures uma fronteira arbitrária. Talvez a solução passasse por uma gradualidade temporal na penalização do acto, correspondente à nossa intuição moral sobre a sua gravidade crescente. Mas será possível fazê-lo? Segundo alguns, trata-se de um problema de consciência, e como tal deve ficar à consciência de cada um, sem penalização legal. Mas este argumento é, também, absurdo. Não o aplicamos, por exemplo, à violência doméstica, porque o haveríamos de aplicar aqui? Decididamente, precisamos de verdadeiras discussões, e não de guerras de palavras extremadas e panfletárias.

Alegoria aos impostos

Hoje fui ver um espectáculo de Luís de Matos no CCB. Depois de fazer um truque em que "transformou" uma nota de 5 euros numa nota de 50 euros, Luís de Matos disse à audiência que faria o mesmo com todas as notas de 5 euros que a audiência lhe passasse. Ao todo deram-lhe 10 notas. Depois de afirmar que o truque, infelizmente, só funcionava com 11 notas, meteu as 10 notas ao bolso. Pouco depois disse algo como isto: "Há 10 pessoas que me odeiam nesta sala. Mas, por outro lado, todas as restantes estão satisfeitíssimas, tendo-se rido e gozado com o que aconteceu às primeiras. O balanço é claramente positivo."