2004-12-05

Megalothymia ou tolerância?

Estreou na Quinta feira o filme Alexandre, o Grande, do realizador Oliver Stone. A ambição de grandeza de Stone fica evidente logo no plano inicial do filme, da morte de Alexandre Magno: o anel que lhe cai das mãos nesse momento é uma chave simbólica da vida do conquistador macedónio, um “Rosebud”. A partir daí Stone inicia uma narrativa biográfica circular, que nos devolve ao ponto inicial/final da morte de Alexandre. Mas Stone não é Orson Welles e o filme está longe do brilhantismo formal de Nixon ou de Natural Born Killers. A estreia foi precedida por uma conveniente dose de polémica. É bom para a publicidade, dará motivo para discussões públicas e animará uma ou outra conferência académica.

Oliver Stone começa por “desconstruir” Alexandre, recorrendo ao psiquismo freudiano e transpondo para o plano comportamental da sexualidade a divisão afectiva que a rivalidade entre os pais teria causado. Reconheço que uma das poucas formas de tornar o complexo de Édipo credível é com Angelina Jolie no papel de mãe, mas a sugestão de Alexandre entregue à conquista da Ásia para “fugir à mãezinha” é ridícula.

Depois há as acusações de “infidelidade” e “inexactidão” histórica. É certo que os tempos da Grande Narrativa já lá vão e a verdade é uma coisa “antiga” — o relativismo contemporâneo não se atreve sequer a mencionar a palavra sem a rodear de uma boa dose de aspas. Porém, o historiador de Oxford Robin Lane Fox, autor de uma biografia de Alexandre e que colaborou na rodagem do filme, menciona em artigo da New York Times que “nenhum dos vinte relatos da vida de Alexandre escritos por contemporâneos sobreviveu. As crónicas mais antigas foram escritas quatro séculos (ou mais) após a sua morte”. O que arruma a questão da separação entre história e mito: no caso de Alexandre são indissociáveis.

Finalmente, num filme de Oliver Stone é sempre de esperar um argumento politicamente armadilhado, uma visão eticamente niilista dos EUA. Se a “crítica anti-americana” está lá e é duvidoso que esteja, está ao nível subliminar e cada um “vê o que quer ver”. Para os críticos da política externa do presidente Bush (note-se que a batalha decisiva das tropas de Alexandre com as de Dário III teve lugar no actual território do Iraque), o filme constrói uma imagem “multiculturalista” de Alexandre, dominador da Ásia mas tolerante para com os costumes e as particularidades, ao contrário do “conquistador” da actualidade e do "seu" globalismo capitalista e intolerante. Mas os defensores da política externa americana de “difusão da democracia” também podem argumentar que a ocupação do Iraque, enquanto tentativa de neo-síntese entre a democracia liberal ocidental e a sociedade islâmica é análoga à aculturação helénica dos barbarismos asiáticos do tempo de Alexandre.

Independentemente das polémicas e até da própria qualidade mediana do filme, este tem pelo menos uma “virtude” política: sublinha o carácter historicamente decisivo da aspiração à grandeza. Porque essa aspiração esteve presente em toda a curta vida de Alexandre Magno, que aos vinte e cinco anos governava a maior parte do mundo conhecido, milhares de anos depois da sua morte continua a ser uma referência central na história mundial. Daqui por cinco ou dez anos poucos se recordarão dos nomes dos autores da trapalhada constitucional europeia. Em última análise, o que transforma um acto político num acto histórico é a megalothymia.

2004-12-04

Suicídio

O PSD entendeu suicidar-se. Está no seu direito. Paz à sua alma.

O pasmo da nação

Não se percebe, o pasmo da nação. Em poucos dias o país descobriu que o primeiro ministro não tinha autoridade política, nem sabia o que queria. Descobriu que o presidente da república é uma personagem volúvel, capaz de dissolver a Assembleia por causa de “metáforas horríveis”, sempre com aquela seriedade doente, que lhe advém do pesado fardo da sua própria irresponsabilidade. Descobriu que por entre os políticos e os exonerados de ontem, ansiosos por matar a sede, já há festejos, fazem-se listas, atribuem-se “cargos”. Desde que o “acesso ao estado” lhes foi negado em Julho, pelo Gálata de Belém, nunca mais se calaram. Descobriu tudo isto em três dias bem medidos.

Agora só lhes falta descobrir que são maioritariamente eles próprios, os “portugueses e as portuguesas”, que não querem este nem qualquer outro governo que sonhe reduzir o número de funcionários públicos, que ouse pedir a quem utiliza os serviços de saúde ou pretenda obter educação superior que suporte (pelo menos) uma parte dos custos. Que são eles, os “portugueses e as portuguesas” que querem aumentos salariais “dignos”, que querem uma fatia cada vez maior de um bolo que não ajudam a fazer crescer. Que eles, os “portugueses e as portuguesas”, são geralmente indiferentes quanto ao futuro do seu país e que nas próximas eleições irão votar maioritariamente no tipo de poder político que lhes permita continuar a viver a ficção de que “não há nada de mal em querer um bocadinho de felicidade, não é?”. E que será assim, quer estas sejam em Fevereiro quer sejam em 2006.

Resta esperar que o próximo partido de governo lhes faça a eles, aos “portugueses e às portuguesas”, a única coisa que um partido com aspirações reformistas (se as tiver) pode fazer neste país, se quiser ganhar eleições e depois governar com sentido de responsabilidade: que os engane bem enganados.

2004-12-03

A palavra crucial

O preço do barril de petróleo caiu ontem para 43.2$ (NY) e 40.1$ (London Brent). Só em dois dias, registou-se uma redução de 6 dólares e o preço actual no mercado americano é inferior em 12 dólares ao valor recorde de 55$ atingido em Outubro (informação Reuters). Boas notícias, portanto. Bom... talvez.

Há dois problemas fundamentais: em primeiro lugar, ninguém tem uma ideia segura sobre as determinantes do preço do petróleo; em segundo lugar, não é só o nível de preço que importa — é também a variabilidade.

A estabilidade verificada no preço do petróleo durante a maior parte da década de 90 (entre os 20 e os 30 dólares) era o resultado de um processo de determinação do lado da oferta, pelo cartel que controla boa parte da produção petrolífera mundial. A OPEP conseguia determinar e sustentar o preço do petróleo por uma razão simples: dispunha de uma considerável capacidade excedentária relativamente à procura mundial.

Nos últimos anos, o mercado alterou-se de forma muito significativa do lado da procura. Numa palavra: China. O rápido crescimento económico chinês em particular e asiático em geral provocou um deslocamento da curva da procura de petróleo. O excesso de capacidade da OPEP foi desaparecendo à medida que aumentos de produção eram decididos pelo cartel para fazer face à procura crescente. De acordo com o Economist (edição de 2 de Dezembro), a capacidade excedente instalada atingiu o mínimo absoluto dos últimos vinte anos. O resultado dos sucessivos excessos de procura foi uma tendência temporal crescente do preço do petróleo.

Mas a flutuação em torno da tendência tem outra explicação: o risco geopolítico. O principal problema do petróleo não é a escassez, é o risco de súbitas e brutais quebras de produção. É aqui que o terrorismo islâmico entra em cena. A Arábia Saudita é o pais decisivo, pela dimensão das suas reservas petrolíferas e a Casa de Saud é o verdadeiro alvo dos jihadistas. A melhor forma de instabilizar a Arábia Saudita é através de ataques às instalações de produção e transporte de petróleo. Segundo fontes citada no artigo do Economist, o prémio de risco incorporado no preço corrente do barril de petróleo poderá ser de 10 a 15 dólares (a expectativa de preços futuros mais elevados aumenta a procura corrente). As expansões de capacidade levam tempo a produzir efeitos e também são alvos para os terroristas.

As alternativas à Arábia Saudita não são brilhantes: o Iraque, a Venezuela, a Nigéria e a Rússia não são propriamente exemplos de estabilidade política. É certo que os países europeus estão hoje menos vulneráveis a flutuações bruscas no preço do petróleo do que na década de 1970: a despesa com o petróleo (em % do PIB) diminuiu para cerca de metade do valor de então, o que produziu um substancial “efeito de rendimento” positivo (associado à baixa do preço do petróleo durante a década de 90). A transmissão de eventuais subidas do preço do petróleo à taxa de inflação é muito menos provável com o euro. Mas o World Economic Outlook da OCDE recentemente lançado dedica um capítulo inteiro ao preço do petróleo (só na press release, a palavra “petróleo” é mencionada por vinte e cinco vezes em duas páginas). Se não há verdadeiramente um “problema” com o preço do petróleo, porquê tanta atenção?

Talvez a resposta seja: não há um problema macroeconómico “imediato” mas haverá a médio prazo. Se a tendência crescente do preço do petróleo se mantiver, inevitavelmente transmitir-se-á ao nível geral de preços e as economias que tiverem desequilíbrios macroeconómicos graves, como uma poupança pública sistematicamente negativa, estarão na primeira linha das dificuldades. O aviso (caso fosse necessário) é claro: o risco geopolítico é hoje maior do que nunca e agentes económicos racionais devem reagir ao aumento de risco adquirindo “seguros”. O governo português não tem de reduzir a despesa pública para “parecer bem na fotografia de Bruxelas”: tem de o fazer se quiser evitar que Portugal mude daqui por uns anos o nome para Nova Argentina.

Se os portugueses se convencerem que devem votar nas próximas eleições contra “austeridades e rigores desnecessários” será de uma irresponsabilidade política a raiar a loucura.

2004-12-01

A Christmas Carroll

A composição fictícia do governo no post anterior é, como foi referido, um pesadelo; um pesadelo sonhado por um "Ebenezer Scrooge", em viagem fantasmática a um "Portugal futuro", que tal como no conto de Charles Dickens se pretende evitar. Resumidamente:

A substituição pacífica e por mecanismos institucionais de governos é normal nas democracias liberais.

O governo ainda em funções testava até ao limite a "educação política" de qualquer um.

A dissolução da Assembleia da República, por entre DVD's lançados pela janela, cartas sentimentais de demissão, metáforas de "terríveis incubadoras" e apelos messiânicos à nação não é normal: é o último acto de um espectáculo medíocre.

A dissolução da Assembleia da República imediatamente após a votação do Orçamento de Estado é pura irresponsabilidade política e revela uma de duas coisas: ou uma extraordinária ausência de sentido de Estado, ou um calculismo político-partidário que não olha a meios para atingir os fins.

A chegada ao poder executivo de um governo formado com elementos da oposição ao anterior governo é uma trivialidade, ainda que seja o regresso ao poder de um partido onde não ocorreu qualquer renovação notória (veja-se a bancada parlamentar do PS).

Com a marcação das eleições legislativas para Fevereiro, a ausência de quadros políticos de qualidade poderá ser suprida pelo PS, em Janeiro. Estou certo que determinados elementos da "sociedade civil" descobrirão súbitas virtudes no Fórum "Novas Fronteiras" afortunadamente a realizar pouco antes das eleições.

O enfraquecimento da "voz política" do principal partido da oposição, que transformou o seu grupo parlamentar numa espécie de advogados de defesa da calamidade guterrista, permitiu a ascensão política (e jornalística) de um novo radicalismo de esquerda, marginal, pululante e desagregador.

Esse radicalismo de esquerda não tem expressão política nacional, constitui um fenómeno (sub)urbano, visível nas áreas cosmopolitas de Lisboa e do Porto e elege deputados graças a um sistema eleitoral proporcional, desenhado com o propósito exclusivo de conferir representação política alargada.

A maximização da representação política não é o único (se calhar nem sequer o principal) critério normativo de um bom sistema eleitoral.

Se o novo radicalismo de esquerda chegar ao poder executivo, na ausência de uma maioria absoluta de um só partido, Portugal não viverá "apenas" um período difícil: será fatal para qualquer esperança de reforma liberalizante da sociedade.

Resta esperar que os eleitores compreendam que nas actuais circunstâncias, o "voto útil" é uma manifestação de bom senso e de sentido da responsabilidade cívica.

2004-11-30

Os Nomes da Rosa

Na eventualidade das próximas eleições não darem a maioria absoluta ao PS, eis uma lista de gente de esquerda, sem vestígio de passado político incompetente. Um "governo de consenso" para "devolver a esperança" a Portugal:

Primeiro Ministro: José Sócrates
Ministro do Pacifismo e da Anti-globalização (antigo Ministro da Defesa): Miguel Portas

Ministro da Desjudicialização e da Luta Contra a Vitimização Social do Infractor (antigo Ministro da Justiça): Ana Gomes
Ministro da Solidariedade com a Palestina e com o Resto do Mundo Árabe (antigo Ministro dos Negócios Estrangeiros): José Manuel Pureza
Ministro da Absoluta Igualdade e do Plano Quinquenal (antigo Ministro das Finanças): Francisco Louçã
Ministro da Camaradagem e da Fraternidade (antigo Ministro da Segurança Social, da Família, da Criança e do Cão): Manuel Alegre
Ministro do Desconstrutivismo e da Hermenêutica (antigo Ministro da Cultura): Manuel Maria Carrilho
Ministro do Aborto e da Gratuitidade Geral (antigo Ministro da Saúde): Maria de Belém
Ministro da Compreensão e da Auto-Estima dos Alunos e Professores (ex Ministro da Educação): Ana Benavente
Ministro da Abolição das Propinas (antigo Ministro do Ensino Superior): Ana Drago
Ministro da Co-Incineração e do Gasóleo Feito de Bosta (antigo Ministro do Ambiente): João Soares
Ministro do Eterno Subsídio (antigo Ministro da Agricultura e Pescas): Gomes da Silva
Ministro das Pontes, Túneis e Viadutos (antigo Ministro das Obras Públicas): Jorge Coelho
Ministro Adjunto e da Luta Contra a Corrupção: Edite Estrela
Ministro da Regulação e Controlo Administrativo das Actividades Económicas (antigo Ministro das Actividades Económicas): Joaquim Pina Moura
Ministro das Seis Horas Semanais (antigo Ministro do Trabalho): Carvalho da Silva
Ministro da Mega Mix e do Telemóvel 3G (antigo Ministro da Juventude): Rui Unas
Director da (futura) Central de Informação do Povo: Luís Osório.

Como se vê, um governo sem mácula, para acabar de vez com as incubadoras e os irritantes anões feitos bobos da corte.

Omne Ignotum Pro Magnifico.

Terrorismo e mito

Foi divulgada ontem uma nova gravação video da Al Qaeda, onde Ayman Al-Zawahri, exibindo um sorriso malévolo, repete as ameaças "do costume". Do segmento da gravação exibido pela Al-Jazeera, fica a resposta à muito debatida questão da "preferência" presidencial da Al Qaeda: afinal era-lhes indiferente. Nas palavras de Al-Zawahri: "votem em quem vos apetecer, Bush, Kerry, ou no Diabo em pessoa".

Não é através destas gravações que se perceberá a natureza política do terrorismo islâmico ou o perfil e a origem dos jihadistas. Marc Sageman, um psiquiatra que trabalhou para a CIA, estudou as biografias de mais de 170 membros do movimento jihadista Salafi (Al Qaeda e organizações afins). Os interessantes resultados constam deste Understanding Terror Networks (University of Pennsylvania Press, 2004).

Um erro frequentemente repetido é o da explicação da adesão ao terrorismo pela pobreza (na versão dramatizada, a “fome” ou a “miséria”) o que implicitamente transfere a "responsabilidade" para os ocidentais (a pobreza é "obviamente" uma consequência da globalização).

Mas entre os 170 terroristas analisados por Sageman cerca de dois terços tinha origem na classe média e educação universitária (Sayed Qutb, uma das principais referências ideológicas dos jihadistas, era um professor e inspector do Ministério da Educação egípcio, anteriormente à sua adesão ao radicalismo islâmico). Em muitos casos os jihadistas são detentores de graus académicos, incluindo doutoramentos. A proporção de “homens de família” (casados e com filhos) é bastante elevada (cerca de 75%).

Outra sugestão de Sageman, contrária ao senso comum, relaciona-se com a motivação do terrorismo islâmico: o extremismo religioso parece desempenhar um papel essencialmente instrumental, de discurso ideológico susceptível de atrair operacionais. Entre os membros da Al Qaeda analisados no estudo, eram muito poucos os que tinham frequentado as escolas religiosas islâmicas (as madrassah).

Afinal o que é que "eles" querem”? Walter Laqueur em Voices of Terror (Reed Press, 2004), recorda que o terrorismo não deve ser confundido com uma ideologia; trata-se de uma estratégia política e como tal tem objectivos claros. Na secção 1 da Parte 3 deste livro, Terrorism in the Muslim World, o principal objectivo dos jihadistas, está enunciado de forma simples e directa, em comunicados e manifestos do Hamas e da Al Qaeda: pretendem a restauração do Califado e o regresso do Islão a uma posição de domínio político internacional.

Se achar a ideia de "islamização do Ocidente" uma "impossibilidade", recue uns séculos na história europeia (até ao domínio otomano de boa parte do continente) ou leia o que o historiador Bernard Lewis pensa sobre o assunto. Mesmo que não se importe de viver no “Califado da Europa” não tem razões para estar sossegado: feito em pedaços como vítima de mais um atentado sangrento poderá ser mais útil à “causa”.

2004-11-29

A Cerimónia do Adeus

"É, então, a cerimónia do adeus?" - disse-me Sartre quando nos separámos por cerca de um mês, em princípios de um Verão. Compreendi então o sentido que teriam um dia essas suas palavras. A cerimónia durou dez anos." Simone de Beauvoir, A Cerimónia do Adeus, 1981.

Há algumas mais curtas. Há outras ainda mais longas:

"A cultura europeia é a única que renegou as suas origens civilizacionais e se esgota em controvérsias axiais. O que excita os europeus é discutir a liberdade do aborto, droga e tabaco, a redução do horário de trabalho, a defesa do prazer livre e «famílias alternativas», a ambiguidade nas alianças geostratégicas. Não admira que daí resulte a estagnação, o desnorte, a corrupção. A desorientação é a causa da referida queda demográfica e cultural. Num mundo que será em breve muito diferente, com China, Índia e Islão em florescente influência político-económica, não valerá a pena perder tempo com a velha, gorda e pequena Europa, cuja relevância apela a hegemonias extintas."

João César das Neves, "O Povo sem Futuro", Diário de Notícias, 29 de Novembro de 2004.

2004-11-28

Apelo às ovelhas

quem se indigne por não ver uma vigorosa sociedade, impulsionada pela dinâmica do mérito e do reconhecimento, a crescer sobre as fundações de uma democracia de "consenso igualitário" e constate que esta promoveu a "mediocridade política". Consequentemente apela à sociedade para que esta assuma a responsabilidade cívica de modificar o estado de coisas. Mas a mediocridade de que se queixa é a mediocridade do "rebanho". O político que confunde a tolerância com o relativismo é o alter-ego da ovelha desassombrada, que "só quer ser feliz" e que não têm paciência para "disciplinas" e "rigores".

Ainda assim o "apelo" talvez resulte, se as ovelhas perceberem que um rebanho exclusivamente governado por pastores "compreensivos das necessidades sentidas" é um rebanho suicidário.

Domingo no "Fim da História"

O homem no fim da História é uma espécie de "autómato" alienado, desprovido de virtudes e de propósito, num estado de anomia permanente. O "fim da História" traz o "desaparecimento do homem", numa farsa trágico-cómica de satisfação vazia. Kojève escreveu a biografia do "homem pós-histórico"; Edward Hopper pintou-lhe o retrato. No fim da História "Everyday is like Sunday".







2004-11-27

No país das janelas partidas

Semana após semana, Helena Matos vai consolidando a sua posição de imprescindível para quem quiser compreender um pouco do carácter esdrúxulo da sociedade portuguesa. Mais uma crónica a ler, evidentemente. Porque do país das janelas partidas ao país das últimas coisas a distância é muito curta.

2004-11-26

O Longo Êxodo

Os EUA comemoraram ontem o Dia de Acção de Graças. A propósito desta comemoração, George F. Will escreveu um notável texto, recordando a coragem e a determinação dos colonos que no séc. XIX ajudaram a construir o “império da Liberdade” de que falava Thomas Jefferson, ocupando os territórios remotos e inóspitos do Dakota, do Nebraska e do Montana.

Uma grande parte desses colonos eram os "desgraçados da Europa", que se recusavam simplesmente a morrer sem tentar sobreviver. Muitos morreram logo na viagem. Os que chegavam ao outro lado do Atlântico e ainda tinham ânimo para partir de novo recebiam um título de posse de cerca de 65 hectares de terra a troco de 18 dólares. A partir daí estavam entregues a si próprios.

Esta mistura de determinação, direitos de propriedade e vontade de liberdade ergueu os EUA. É a memória desses antepassados europeus que George Will evoca no Thanksgiving Day.

Mais de um século depois, o êxodo continua. A vontade de fuga é a mesma, mas os emigrantes europeus mudaram radicalmente. Se no séc. XIX eram os descamisados, a “escória da Europa” em fuga aos múltiplos despotismos, agora são os melhores e mais habilitados, em fuga a uma Europa envelhecida, sufocada pela hiper-regulação e pelo ónus fiscal das despesas sociais. Num estudo recente, Gilles Saint-Paul, da Universidade de Toulouse, conclui que a evidência empírica disponível sugere a existência de um efeito muito significativo de “desnatação” da força de trabalho europeia.

A proporção de PhD’s entre os emigrados europeus nos EUA é de cerca de 10%, enquanto que a mesma proporção entre a população europeia é de cerca de 0,5 a 1%. Outras diferenças estatisticamente significativas (em termos de ensaio de hipóteses): os emigrados europeus nos EUA têm uma taxa de emprego mais elevada do que a taxa de emprego americana, têm uma probabilidade várias vezes maior de ter um doutoramento do que o participante médio no mercado de trabalho americano e representam uma percentagem elevada dos empresários.

Os efeitos negativos sobre o crescimento económico europeu podem ser tremendos e estão claramente subestimados na generalidade dos estudos empíricos pelo tratamento indiferenciado dos diversos tipos de trabalho, que subestima tremendamente a importância crucial do trabalho especializado na inovação e gestão.

Se a hipótese (incorrecta) da homogeneidade do trabalho for abandonada, cerca de 50% do trabalho especializado europeu - o factor decisivo no crescimento económico - poderá estar nos EUA.

Os americanos agradecem e, com um “subsídio” ao seu bem estar desta grandeza, podem muito bem continuar a aturar o desprezo político da generalidade dos europeus por mais um século.

"Se não percebes a pergunta, vota não"

Excelente o texto de Pacheco Pereira, no Público de hoje:
Por tudo isto, a pergunta acaba por ser pedagógica, ao revelar as intenções escondidas dos seus autores e por isso a pergunta é razão suficiente para se votar não. Mais do que isso: é moral votar não, é lutar por uma dignidade que os autores da pergunta não reconhecem aos portugueses. Por tudo isto, é que defendo a urgência da constituição de um movimento cívico, ou de mil movimentos, que dá o mesmo, que comece já a fazer camapanha pelo "não".
Por mim, começo a campanha hoje:vote não no referendo sobre a constituição europeia!

2004-11-25

Nacional socialismo

Segundo o Diário Económico, o Ministério do Turismo irá apresentar hoje os planos das novas “campanhas de promoção turística”, externas e interna, destinadas a “consolidar a marca Portugal Turismo”. Nestas campanhas o Estado português propõe-se gastar mais de oito milhões de euros. Eis o que, de acordo com a notícia, os contribuintes comprarão com esse dinheiro:
Colocar Portugal no ‘top of mind’ dos destinos turísticos e desta forma aumentar o fluxo de turistas (...). A nova campanha intitulada ‘Live Deeper’, que surge no seguimento da promoção do país feita a propósito do Euro 2004, tem como enfoque principal o “reforço do valor dos Oceanos na marca Portugal Turismo”.

Tendo como pano de fundo os oceanos, a nova campanha inspirada nas ideias de profundidade, diversidade e emoção, vai ser segmentada em sete temas: ‘relax’, romance, cultura, aventura, animação, golfe e MICE, dirigido ao turismo de negócios.
O texto acima, obviamente indecifrável, serve lindamente para passar o incentivo ao golfe e ao “scuba-diving” como prioridades da despesa pública.

Já ninguém se incomoda com o sistemático anúncio de medidas que envolvem custos fiscais difundidos pela totalidade dos contribuintes e benefícios privados concentrados em subgrupos sociais bem identificados, neste caso as empresas ligadas às actividades turísticas e publicitárias. Os poucos que o fizerem receberão provavelmente como resposta uma vacuidade keynesiana: o Estado gasta, mas a bem da nação, porque as despesas com o turismo têm um “efeito multiplicador”. Não perguntar torna-se a melhor estratégia, os efeitos sociais são nulos e sempre se aturam menos patetices.

Mas há neste “anúncio de futuros anúncios” (tratam-se, afinal de contas, de campanhas publicitárias) uma linguagem, que no seu propósito instrumental de “anestesia fiscal” revela, sem o querer, demasiado sobre a verdadeira natureza do Estado português. Refiro-me em particular à “marca Portugal”. O absurdo de um país-marca, de uma união serôdia e forçada pela via fiscal dos interesses dos cidadãos em torno do “objectivo nacional” de promoção turística.

Tudo isto resulta num colectivismo sem socialismo, de baixas calorias, numa apoteose televisiva de castelos filmados de helicóptero, de um “povo” de cara cheia de sorrisos falsíssimos a acenar em câmara lenta, de lugares magníficos que só existem nas imagens promocionais.

Filósofos alemães como Oswald Spengler e Ernst Jünger, ambos influentes no advento do terceiro Reich, desejavam criar um “socialismo sem marxismo”. O governo português, que na balbúrdia política nacional se reclama “de direita”, tem a sua própria concepção de socialismo sem marxismo, mas agora em paródia consumista pós-moderna, com a história e a cultura reduzidas a um conjunto de imagens “hiper-reais”.

Welcome to Portugal.

2004-11-24

Moscas

Acabei de ouvir a vareja mor explicar a dança das moscas.

Uma oportunidade perdida

Os EUA e os interesses americanos constituem um “ponto focal” para o terrorismo islâmico. De entre os problemas criados por esta situação há um que será menos evidente: os efeitos potencialmente desastrosos para o crescimento económico da economia americana decorrentes da redução na oferta externa de capital humano. Esta oferta é crucial para a sustentabilidade da inovação científica e tecnológica.

Um dos maiores contributos intelectuais de Robert Lucas, prémio Nobel da Economia em 1995, foi a compreensão e medição da importância decisiva do capital humano na acumulação de riqueza. A captação deste capital, ainda na forma potencial, é essencial para o futuro económico e político de qualquer sociedade. Os americanos estão perfeitamente conscientes do desastre que resultará da alteração dos hábitos migratórios dos estudantes estrangeiros: uma parte substancial da investigação científica realizada nos EUA nas últimas décadas foi conseguida graças a eles. Em artigo recente para a Foreign Policy, Kenneth Rogoff lembrava, a propósito das consequências negativas resultantes da burocratização da concessão de vistos nos EUA:
[T]oday about 2.5 million foreigners with advanced degrees work in the United States, and many hold leading positions in science and industry and serve as key transnational links for the increasingly globalized U.S. economy. More than 30 percent of all Ph.D. recipients in U.S. science and mathematics programs are foreigners on student visas. In engineering, almost half of all graduates have come to the United States on foreign visas; many of them stay in the country upon completing their degrees. The U.S. economy grows in no small part by skimming the cream off the rest of the world’s workforce.
O assunto foi retomado ontem por Fareed Zakaria, num artigo publicado no Washington Post: a procura de licenciaturas dirigida às universidades americanas por parte de alunos oriundos de países “exportadores” de capital humano tem vindo a decair e o declínio da procura é ainda maior ao nível das pós-graduações.

Esta situação cria uma oportunidade inesperada para a Europa: as universidades europeias constituem uma alternativa possível para uma parte significativa do capital humano internacional normalmente captado pelas universidades americanas.

Está a Europa em condições de competir pela captação destes valiosos recursos? Nem pensar. Um artigo publicado no The Economist em 23 de Setembro dava conta do estado lamentável das universidades europeias. De acordo com números da Comissão Europeia citados no artigo, cerca de 400 000 investigadores europeus estão nos EUA e 3 em cada 4 não tencionam regressar. Dados da OCDE citados noutro artigo da mesma revista revelam que entre 1998 e 2002 a procura de estudantes estrangeiros dirigidos às universidades americanas sofreu um notório declínio. Mas a procura dirigida às universidades inglesas, francesas e alemãs também diminuiu: os “ganhadores” foram a Austrália e o Japão. Na edição de 19 – 21 de Novembro, o Wall Street Journal Europe (link indisponível) dava conta do descontentamento dos dirigentes da Siemens AG com a qualidade dos estudantes universitários formados na Alemanha. De acordo com o presidente da German Industry Federation, o sistema universitário alemão, burocrático e incompetente, é o principal responsável pela “fuga de cérebros” para os EUA.

Aparentemente o risco adicional criado pelas condições de insegurança não se revela suficiente para impedir os estudantes europeus de emigrarem de forma irreversível para os EUA, muito menos para atrair alunos de outros continentes.

Note-se: a questão não é a incapacidade dos políticos europeus (com a ressalva da categorização e generalização abusiva) resolverem “o problema”. A lógica da Agenda de Lisboa, da “sociedade da informação”, é parte do problema e não da solução. É uma estratégia de controlo político ditada pela necessidade de subordinação da sociedade a “objectivos”, a “metas” que exigem “planos” e (claro) meios para os concretizar. Sempre com o Estado (ou o meta-Estado europeu) como o “Grande Timoneiro”, indicando o rumo, a direcção para um radioso futuro.

Cria-se capital humano com liberdade, não com cimeiras e legislação avulsa. São necessárias universidades europeias competitivas com as melhores universidades americanas, o que pressupõe liberdade de decisão por parte destas para tomarem as decisões cruciais: competir no mercado internacional de trabalho pelo recrutamento dos melhores professores, escolherem os programas e currículos que consideram susceptíveis de atrair quem pretende a melhor formação, desenvolver programas ambiciosos de investigação, etc. Tudo isto depende primeiramente de conferir liberdade às universidades para cobrarem propinas “a sério” e para procurarem financiamentos privados, que permitam a criação e sustentação destas condições.

Captar investimento é atrair os melhores investigadores futuros: as verdadeiras “agências portuguesas de investimento” são as universidades, não são organismos que se limitam a oferecer prémios fiscais à localização de empresas que trazem as “tecnologias de ontem”. Esses organismos são erros crassos. Governar bem, nesta matéria, é não impedir quem sabe ensinar, investigar e criar riqueza de o fazer livremente.

É irónico que a chave para a manutenção duradoura da supremacia científica, tecnológica, económica e política dos EUA esteja provavelmente nos actos e omissões dos políticos europeus mais críticos do “poder americano”.

O nosso governo "neo-liberal"

O seu "liberalismo" leva-o a propor-se resolver o problema da influência governamental nos média forçando a PT a vender as suas participações em empresas do ramo e, simultaneamente, mantendo a RTP e a RDP nas mãos do estado. Não é óvio que isto não faz qualquer sentido? Será necessário dizer que o estado deveria rapidamente ver-se livre da golden share que tem na PT e privatizar a RTP e a RDP?

2004-11-23

Heidegger no pão

Notícias como esta são um "petisco irresistível" para alguns europeus, defensores das múltiplas teses da degenerescência moral, estética, cultural e até rácica dos americanos. Eis a "prova" irrefutável.Mas quem vir nisto mais do uma infeliz mistura de estupidez, crendice e oportunismo estará a "ver mais coisas" na torrada do que a tontinha da criatura.

Os jogos das nações

De acordo com a edição de ontem do Washington Post, a NBA impôs a vários jogadores de basquetebol as sanções mais pesadas na história da organização por assuntos não relacionados com o consumo de drogas.

Um jogador dos Indiana Pacers foi suspenso por 73 jogos (o resto da temporada) e sujeito a uma caução salarial de mais de 5 milhões de dólares. Este jogador, que já tem um longo historial de suspensões, tinha pedido recentemente ao clube para ser dispensado dos jogos durante um mês para se dedicar a tarefas de promoção musical (pelo menos agora vai ter oportunidade para o fazer). Dois colegas de equipa foram suspensos por 30 e 25 jogos, respectivamente. Motivo: envolvimento dos jogadores em confronto físico com espectadores. Dos confrontos resultaram nove feridos e um número indeterminado de acções judiciais.

Com esta medida a NBA espera reduzir os maus exemplos de conduta cívica entre os jogadores profissionais de basquetebol, que se tornaram recorrentes ao longo dos últimos dois anos, desde o caso mais mediático do jogador dos LA Lakers, Kobe Bryant, acusado de violação, até aos cada vez mais frequentes problemas de consumo de drogas, de condução alcoolizada, etc.

Do ponto de vista da NBA o problema é simples: o negócio do basquetebol é em grande parte o negócio dos patrocínios empresariais e estes dependem crucialmente do valor comercial da marca NBA. A má conduta cívica de um número crescente de jogadores tem degradado a imagem e a reputação da NBA junto do público americano. Isso reflecte-se numa perda de valor comercial da marca que se traduz em perdas consideráveis de dinheiro de patrocínios.

Os EUA não são uma sociedade “desmoralizada”, onde apenas alguns políticos descentrados da realidade é que “descobrem” os “valores morais” de quatro em quatro anos, para consumo eleitoral. Mas nos EUA, como na generalidade das sociedades desenvolvidas, os cidadãos não votam periodicamente: votam todos os dias, como consumidores, com o seu próprio dinheiro, fazendo escolhas e interagindo permanentemente no vasto e complexo conjunto de mercados da economia.

Os americanos não estão dispostos a “votar monetariamente” em produtos de empresas cuja imagem é associada à violência, à droga e ao desrespeito das leis. As empresas sabem disso. A NBA também. Por isso prefere tomar medidas exemplares a deixar que certos maus hábitos sociais de alguns afundem um gigantesco negócio que depende crucialmente da imagem social dos desportistas.

Veja-se a diferença para a Europa, onde o futebol tem o maior destaque. Em Portugal, apenas para citar o exemplo próximo, os jogos são pretextos para a exibição dos piores hábitos de conduta, por parte de jogadores, público e mesmo comentadores. Até pessoas, que de outro modo se comportam de forma inteiramente razoável, quando se trata da “bola”, do “clube”, entram num estranho estado de “suspensão da razão” e substituem o discurso examinado por um absurdo relativismo. Mesmo em Inglaterra, bem mais próxima de qualquer definição aceitável de civilização, há casos como o do jogador do Manchester United, Roy Keane, que admitiu na sua “biografia” ter deliberadamente partido a perna a um adversário, uma agressão que lhe pôs termo à carreira profissional.

O livro foi um sucesso.

2004-11-22

À Espera de Volcker

Charles Duelfer foi o Conselheiro Especial do DCI (Director of Central Intelligence) da CIA encarregue de investigar a existência de armas de destruição maciça no Iraque à altura da ocupação americana. No final de Setembro, o relatório Duelfer resumindo as conclusões da investigação foi revelado ao público.

O relatório tornou-se rapidamente conhecido como o "no WMD's report", por apontar para a improvável existência de armas de destruição maciça à altura da ocupação militar anglo-americana. No entanto, o mesmo relatório revelava outros factos, tão ou mais importantes, mas que foram aparentemente merecedores de pouca atenção por parte dos jornalistas (em particular pelos europeus).

Refiro-me aos elementos relativos ao programa Oil for Food, introduzido em 1996 e gerido pelas Nações Unidas. Este programa permitia ao Iraque exportar limitadamente algum petróleo em troca de importações de bens alimentares e medicamentos. De acordo com os elementos de informação já disponíveis, este programa tinha-se tornado, à altura da deposição de Saddam Hussein, num gigantesco esquema de corrupção, tornando efectivamente inúteis as sanções económicas anteriormente impostas pela mesma ONU.

Com base nos documentos iraquianos obtidos após a ocupação em 2003, estima-se que cerca de 11 biliões de dólares tenham sido desviados para contas bancárias do governo iraquiano. Estes dinheiros serviram para financiar o opulento modo de vida da clique dirigente durante os ?anos difíceis? das sanções, bem como para reequipar as forças armadas iraquianas. Dos 11 biliões de dólares, cerca de 7,5 biliões resultaram de receitas de "protocolos" ilegais de venda de petróleo. Da lista de 248 empresas beneficiárias destes contractos constam empresas da Rússia (35), dos Emiratos Árabes Unidos (12), da França (8), da Síria (7), dos EUA (4), da China, da Ucrânia e da Turquia, entre outros.

Cerca de 2 biliões resultaram directamente de fraudes no âmbito do programa da ONU: uma cascata de dinheiro foi distribuída pelo governo iraquiano, sob a forma de vouchers de petróleo, a título de subornos internacionais aos "amigos do regime". Entre esses beneméritos desinteressados surgem os partidos comunistas russo, bielorusso e eslovaco, o embaixador nigeriano no Iraque, uma tal de Associação de Amizade França-Iraque e um "Mr. Sifan". Este sujeito é, nem mais nem menos, Benon Sevan, o ex-responsável das Nações Unidas pelo programa Oil for Food. O relatório Duelfer é taxativo neste ponto: a lista dos beneficiários dos vouchers de petróleo foi pessoalmente aprovada por Saddam, que fez modificações à versão inicial, excluindo e acrescentando alguns nomes. O resto dos 11 biliões é receita de "vendas a dinheiro" de petróleo iraquiano e de vigarices avulsas.

O objectivo político de Saddam era claro. Através dos subornos e usando instrumentalmente a pressão de uma opinião pública impressionada pelas imagens de sofrimento do povo iraquiano, esperava conseguir a breve trecho que a ONU aprovasse o levantamento do regime de sanções, deixando-o de mãos livres para prosseguir abertamente o que nunca tinha deixado de fazer, embora com o desconforto das sanções: o reequipamento militar do regime.

Vale a pena sublinhar a perfídia da estratégia: note-se que as mortes de civis, por doença e mal nutrição foram em larga medida causadas pelo desvio do dinheiro do programa Oil for Food, que em vez de servir para adquirir alimentos e medicamentos foi utilizado por Saddam para a aquisição de bens de luxo e de armamento. E quanto mais civis morriam, tanto melhor para a estratégia de Saddam.

Para além do (agora) conhecido envolvimento neste esquema de gigantesca corrupção de altos funcionários da ONU, há muito que estão sob investigação indícios do envolvimento de membros da família de Kofi Annan, designadamente de um dos filhos do Secretário Geral.

Os rumores do escândalo não são propriamente novos e levaram Kofi Annan a nomear em Abril deste ano uma Comissão Independente de Inquérito ao programa Oil for Food, presidida pelo ex-chairman do Federal Reserve, Paul Volcker.

Aparentemente, à medida que a rede de corrupção em torno do programa da ONU vai sendo conhecida, as resistências aos trabalhos da comissão vão aumentando. As informações preliminares libertadas pela própria comissão indicam que a verdadeira extensão da corrupção e do envolvimento de bancos, empresas e entidades políticas de alguns dos países mais ?críticos? da intervenção militar no Iraque está ainda longe de ser conhecida. Se o relatório Duelfer tem algum defeito neste ponto, parece ser o de uma excessiva modéstia nas conclusões incriminadoras. Aguarda-se portanto com grande interesse pelas conclusões globais da Comissão Volcker.

Em todo o caso, atendendo à gravidade do que já é conhecido, não se compreende como é que o actual Secretario Geral da ONU se mantém em funções. Ele terá, por certo, muitas e excelentes razões. Eu não encontro uma única. Legítima, note-se.