2004-11-26

O Longo Êxodo

Os EUA comemoraram ontem o Dia de Acção de Graças. A propósito desta comemoração, George F. Will escreveu um notável texto, recordando a coragem e a determinação dos colonos que no séc. XIX ajudaram a construir o “império da Liberdade” de que falava Thomas Jefferson, ocupando os territórios remotos e inóspitos do Dakota, do Nebraska e do Montana.

Uma grande parte desses colonos eram os "desgraçados da Europa", que se recusavam simplesmente a morrer sem tentar sobreviver. Muitos morreram logo na viagem. Os que chegavam ao outro lado do Atlântico e ainda tinham ânimo para partir de novo recebiam um título de posse de cerca de 65 hectares de terra a troco de 18 dólares. A partir daí estavam entregues a si próprios.

Esta mistura de determinação, direitos de propriedade e vontade de liberdade ergueu os EUA. É a memória desses antepassados europeus que George Will evoca no Thanksgiving Day.

Mais de um século depois, o êxodo continua. A vontade de fuga é a mesma, mas os emigrantes europeus mudaram radicalmente. Se no séc. XIX eram os descamisados, a “escória da Europa” em fuga aos múltiplos despotismos, agora são os melhores e mais habilitados, em fuga a uma Europa envelhecida, sufocada pela hiper-regulação e pelo ónus fiscal das despesas sociais. Num estudo recente, Gilles Saint-Paul, da Universidade de Toulouse, conclui que a evidência empírica disponível sugere a existência de um efeito muito significativo de “desnatação” da força de trabalho europeia.

A proporção de PhD’s entre os emigrados europeus nos EUA é de cerca de 10%, enquanto que a mesma proporção entre a população europeia é de cerca de 0,5 a 1%. Outras diferenças estatisticamente significativas (em termos de ensaio de hipóteses): os emigrados europeus nos EUA têm uma taxa de emprego mais elevada do que a taxa de emprego americana, têm uma probabilidade várias vezes maior de ter um doutoramento do que o participante médio no mercado de trabalho americano e representam uma percentagem elevada dos empresários.

Os efeitos negativos sobre o crescimento económico europeu podem ser tremendos e estão claramente subestimados na generalidade dos estudos empíricos pelo tratamento indiferenciado dos diversos tipos de trabalho, que subestima tremendamente a importância crucial do trabalho especializado na inovação e gestão.

Se a hipótese (incorrecta) da homogeneidade do trabalho for abandonada, cerca de 50% do trabalho especializado europeu - o factor decisivo no crescimento económico - poderá estar nos EUA.

Os americanos agradecem e, com um “subsídio” ao seu bem estar desta grandeza, podem muito bem continuar a aturar o desprezo político da generalidade dos europeus por mais um século.

"Se não percebes a pergunta, vota não"

Excelente o texto de Pacheco Pereira, no Público de hoje:
Por tudo isto, a pergunta acaba por ser pedagógica, ao revelar as intenções escondidas dos seus autores e por isso a pergunta é razão suficiente para se votar não. Mais do que isso: é moral votar não, é lutar por uma dignidade que os autores da pergunta não reconhecem aos portugueses. Por tudo isto, é que defendo a urgência da constituição de um movimento cívico, ou de mil movimentos, que dá o mesmo, que comece já a fazer camapanha pelo "não".
Por mim, começo a campanha hoje:vote não no referendo sobre a constituição europeia!

2004-11-25

Nacional socialismo

Segundo o Diário Económico, o Ministério do Turismo irá apresentar hoje os planos das novas “campanhas de promoção turística”, externas e interna, destinadas a “consolidar a marca Portugal Turismo”. Nestas campanhas o Estado português propõe-se gastar mais de oito milhões de euros. Eis o que, de acordo com a notícia, os contribuintes comprarão com esse dinheiro:
Colocar Portugal no ‘top of mind’ dos destinos turísticos e desta forma aumentar o fluxo de turistas (...). A nova campanha intitulada ‘Live Deeper’, que surge no seguimento da promoção do país feita a propósito do Euro 2004, tem como enfoque principal o “reforço do valor dos Oceanos na marca Portugal Turismo”.

Tendo como pano de fundo os oceanos, a nova campanha inspirada nas ideias de profundidade, diversidade e emoção, vai ser segmentada em sete temas: ‘relax’, romance, cultura, aventura, animação, golfe e MICE, dirigido ao turismo de negócios.
O texto acima, obviamente indecifrável, serve lindamente para passar o incentivo ao golfe e ao “scuba-diving” como prioridades da despesa pública.

Já ninguém se incomoda com o sistemático anúncio de medidas que envolvem custos fiscais difundidos pela totalidade dos contribuintes e benefícios privados concentrados em subgrupos sociais bem identificados, neste caso as empresas ligadas às actividades turísticas e publicitárias. Os poucos que o fizerem receberão provavelmente como resposta uma vacuidade keynesiana: o Estado gasta, mas a bem da nação, porque as despesas com o turismo têm um “efeito multiplicador”. Não perguntar torna-se a melhor estratégia, os efeitos sociais são nulos e sempre se aturam menos patetices.

Mas há neste “anúncio de futuros anúncios” (tratam-se, afinal de contas, de campanhas publicitárias) uma linguagem, que no seu propósito instrumental de “anestesia fiscal” revela, sem o querer, demasiado sobre a verdadeira natureza do Estado português. Refiro-me em particular à “marca Portugal”. O absurdo de um país-marca, de uma união serôdia e forçada pela via fiscal dos interesses dos cidadãos em torno do “objectivo nacional” de promoção turística.

Tudo isto resulta num colectivismo sem socialismo, de baixas calorias, numa apoteose televisiva de castelos filmados de helicóptero, de um “povo” de cara cheia de sorrisos falsíssimos a acenar em câmara lenta, de lugares magníficos que só existem nas imagens promocionais.

Filósofos alemães como Oswald Spengler e Ernst Jünger, ambos influentes no advento do terceiro Reich, desejavam criar um “socialismo sem marxismo”. O governo português, que na balbúrdia política nacional se reclama “de direita”, tem a sua própria concepção de socialismo sem marxismo, mas agora em paródia consumista pós-moderna, com a história e a cultura reduzidas a um conjunto de imagens “hiper-reais”.

Welcome to Portugal.

2004-11-24

Moscas

Acabei de ouvir a vareja mor explicar a dança das moscas.

Uma oportunidade perdida

Os EUA e os interesses americanos constituem um “ponto focal” para o terrorismo islâmico. De entre os problemas criados por esta situação há um que será menos evidente: os efeitos potencialmente desastrosos para o crescimento económico da economia americana decorrentes da redução na oferta externa de capital humano. Esta oferta é crucial para a sustentabilidade da inovação científica e tecnológica.

Um dos maiores contributos intelectuais de Robert Lucas, prémio Nobel da Economia em 1995, foi a compreensão e medição da importância decisiva do capital humano na acumulação de riqueza. A captação deste capital, ainda na forma potencial, é essencial para o futuro económico e político de qualquer sociedade. Os americanos estão perfeitamente conscientes do desastre que resultará da alteração dos hábitos migratórios dos estudantes estrangeiros: uma parte substancial da investigação científica realizada nos EUA nas últimas décadas foi conseguida graças a eles. Em artigo recente para a Foreign Policy, Kenneth Rogoff lembrava, a propósito das consequências negativas resultantes da burocratização da concessão de vistos nos EUA:
[T]oday about 2.5 million foreigners with advanced degrees work in the United States, and many hold leading positions in science and industry and serve as key transnational links for the increasingly globalized U.S. economy. More than 30 percent of all Ph.D. recipients in U.S. science and mathematics programs are foreigners on student visas. In engineering, almost half of all graduates have come to the United States on foreign visas; many of them stay in the country upon completing their degrees. The U.S. economy grows in no small part by skimming the cream off the rest of the world’s workforce.
O assunto foi retomado ontem por Fareed Zakaria, num artigo publicado no Washington Post: a procura de licenciaturas dirigida às universidades americanas por parte de alunos oriundos de países “exportadores” de capital humano tem vindo a decair e o declínio da procura é ainda maior ao nível das pós-graduações.

Esta situação cria uma oportunidade inesperada para a Europa: as universidades europeias constituem uma alternativa possível para uma parte significativa do capital humano internacional normalmente captado pelas universidades americanas.

Está a Europa em condições de competir pela captação destes valiosos recursos? Nem pensar. Um artigo publicado no The Economist em 23 de Setembro dava conta do estado lamentável das universidades europeias. De acordo com números da Comissão Europeia citados no artigo, cerca de 400 000 investigadores europeus estão nos EUA e 3 em cada 4 não tencionam regressar. Dados da OCDE citados noutro artigo da mesma revista revelam que entre 1998 e 2002 a procura de estudantes estrangeiros dirigidos às universidades americanas sofreu um notório declínio. Mas a procura dirigida às universidades inglesas, francesas e alemãs também diminuiu: os “ganhadores” foram a Austrália e o Japão. Na edição de 19 – 21 de Novembro, o Wall Street Journal Europe (link indisponível) dava conta do descontentamento dos dirigentes da Siemens AG com a qualidade dos estudantes universitários formados na Alemanha. De acordo com o presidente da German Industry Federation, o sistema universitário alemão, burocrático e incompetente, é o principal responsável pela “fuga de cérebros” para os EUA.

Aparentemente o risco adicional criado pelas condições de insegurança não se revela suficiente para impedir os estudantes europeus de emigrarem de forma irreversível para os EUA, muito menos para atrair alunos de outros continentes.

Note-se: a questão não é a incapacidade dos políticos europeus (com a ressalva da categorização e generalização abusiva) resolverem “o problema”. A lógica da Agenda de Lisboa, da “sociedade da informação”, é parte do problema e não da solução. É uma estratégia de controlo político ditada pela necessidade de subordinação da sociedade a “objectivos”, a “metas” que exigem “planos” e (claro) meios para os concretizar. Sempre com o Estado (ou o meta-Estado europeu) como o “Grande Timoneiro”, indicando o rumo, a direcção para um radioso futuro.

Cria-se capital humano com liberdade, não com cimeiras e legislação avulsa. São necessárias universidades europeias competitivas com as melhores universidades americanas, o que pressupõe liberdade de decisão por parte destas para tomarem as decisões cruciais: competir no mercado internacional de trabalho pelo recrutamento dos melhores professores, escolherem os programas e currículos que consideram susceptíveis de atrair quem pretende a melhor formação, desenvolver programas ambiciosos de investigação, etc. Tudo isto depende primeiramente de conferir liberdade às universidades para cobrarem propinas “a sério” e para procurarem financiamentos privados, que permitam a criação e sustentação destas condições.

Captar investimento é atrair os melhores investigadores futuros: as verdadeiras “agências portuguesas de investimento” são as universidades, não são organismos que se limitam a oferecer prémios fiscais à localização de empresas que trazem as “tecnologias de ontem”. Esses organismos são erros crassos. Governar bem, nesta matéria, é não impedir quem sabe ensinar, investigar e criar riqueza de o fazer livremente.

É irónico que a chave para a manutenção duradoura da supremacia científica, tecnológica, económica e política dos EUA esteja provavelmente nos actos e omissões dos políticos europeus mais críticos do “poder americano”.

O nosso governo "neo-liberal"

O seu "liberalismo" leva-o a propor-se resolver o problema da influência governamental nos média forçando a PT a vender as suas participações em empresas do ramo e, simultaneamente, mantendo a RTP e a RDP nas mãos do estado. Não é óvio que isto não faz qualquer sentido? Será necessário dizer que o estado deveria rapidamente ver-se livre da golden share que tem na PT e privatizar a RTP e a RDP?

2004-11-23

Heidegger no pão

Notícias como esta são um "petisco irresistível" para alguns europeus, defensores das múltiplas teses da degenerescência moral, estética, cultural e até rácica dos americanos. Eis a "prova" irrefutável.Mas quem vir nisto mais do uma infeliz mistura de estupidez, crendice e oportunismo estará a "ver mais coisas" na torrada do que a tontinha da criatura.

Os jogos das nações

De acordo com a edição de ontem do Washington Post, a NBA impôs a vários jogadores de basquetebol as sanções mais pesadas na história da organização por assuntos não relacionados com o consumo de drogas.

Um jogador dos Indiana Pacers foi suspenso por 73 jogos (o resto da temporada) e sujeito a uma caução salarial de mais de 5 milhões de dólares. Este jogador, que já tem um longo historial de suspensões, tinha pedido recentemente ao clube para ser dispensado dos jogos durante um mês para se dedicar a tarefas de promoção musical (pelo menos agora vai ter oportunidade para o fazer). Dois colegas de equipa foram suspensos por 30 e 25 jogos, respectivamente. Motivo: envolvimento dos jogadores em confronto físico com espectadores. Dos confrontos resultaram nove feridos e um número indeterminado de acções judiciais.

Com esta medida a NBA espera reduzir os maus exemplos de conduta cívica entre os jogadores profissionais de basquetebol, que se tornaram recorrentes ao longo dos últimos dois anos, desde o caso mais mediático do jogador dos LA Lakers, Kobe Bryant, acusado de violação, até aos cada vez mais frequentes problemas de consumo de drogas, de condução alcoolizada, etc.

Do ponto de vista da NBA o problema é simples: o negócio do basquetebol é em grande parte o negócio dos patrocínios empresariais e estes dependem crucialmente do valor comercial da marca NBA. A má conduta cívica de um número crescente de jogadores tem degradado a imagem e a reputação da NBA junto do público americano. Isso reflecte-se numa perda de valor comercial da marca que se traduz em perdas consideráveis de dinheiro de patrocínios.

Os EUA não são uma sociedade “desmoralizada”, onde apenas alguns políticos descentrados da realidade é que “descobrem” os “valores morais” de quatro em quatro anos, para consumo eleitoral. Mas nos EUA, como na generalidade das sociedades desenvolvidas, os cidadãos não votam periodicamente: votam todos os dias, como consumidores, com o seu próprio dinheiro, fazendo escolhas e interagindo permanentemente no vasto e complexo conjunto de mercados da economia.

Os americanos não estão dispostos a “votar monetariamente” em produtos de empresas cuja imagem é associada à violência, à droga e ao desrespeito das leis. As empresas sabem disso. A NBA também. Por isso prefere tomar medidas exemplares a deixar que certos maus hábitos sociais de alguns afundem um gigantesco negócio que depende crucialmente da imagem social dos desportistas.

Veja-se a diferença para a Europa, onde o futebol tem o maior destaque. Em Portugal, apenas para citar o exemplo próximo, os jogos são pretextos para a exibição dos piores hábitos de conduta, por parte de jogadores, público e mesmo comentadores. Até pessoas, que de outro modo se comportam de forma inteiramente razoável, quando se trata da “bola”, do “clube”, entram num estranho estado de “suspensão da razão” e substituem o discurso examinado por um absurdo relativismo. Mesmo em Inglaterra, bem mais próxima de qualquer definição aceitável de civilização, há casos como o do jogador do Manchester United, Roy Keane, que admitiu na sua “biografia” ter deliberadamente partido a perna a um adversário, uma agressão que lhe pôs termo à carreira profissional.

O livro foi um sucesso.

2004-11-22

À Espera de Volcker

Charles Duelfer foi o Conselheiro Especial do DCI (Director of Central Intelligence) da CIA encarregue de investigar a existência de armas de destruição maciça no Iraque à altura da ocupação americana. No final de Setembro, o relatório Duelfer resumindo as conclusões da investigação foi revelado ao público.

O relatório tornou-se rapidamente conhecido como o "no WMD's report", por apontar para a improvável existência de armas de destruição maciça à altura da ocupação militar anglo-americana. No entanto, o mesmo relatório revelava outros factos, tão ou mais importantes, mas que foram aparentemente merecedores de pouca atenção por parte dos jornalistas (em particular pelos europeus).

Refiro-me aos elementos relativos ao programa Oil for Food, introduzido em 1996 e gerido pelas Nações Unidas. Este programa permitia ao Iraque exportar limitadamente algum petróleo em troca de importações de bens alimentares e medicamentos. De acordo com os elementos de informação já disponíveis, este programa tinha-se tornado, à altura da deposição de Saddam Hussein, num gigantesco esquema de corrupção, tornando efectivamente inúteis as sanções económicas anteriormente impostas pela mesma ONU.

Com base nos documentos iraquianos obtidos após a ocupação em 2003, estima-se que cerca de 11 biliões de dólares tenham sido desviados para contas bancárias do governo iraquiano. Estes dinheiros serviram para financiar o opulento modo de vida da clique dirigente durante os ?anos difíceis? das sanções, bem como para reequipar as forças armadas iraquianas. Dos 11 biliões de dólares, cerca de 7,5 biliões resultaram de receitas de "protocolos" ilegais de venda de petróleo. Da lista de 248 empresas beneficiárias destes contractos constam empresas da Rússia (35), dos Emiratos Árabes Unidos (12), da França (8), da Síria (7), dos EUA (4), da China, da Ucrânia e da Turquia, entre outros.

Cerca de 2 biliões resultaram directamente de fraudes no âmbito do programa da ONU: uma cascata de dinheiro foi distribuída pelo governo iraquiano, sob a forma de vouchers de petróleo, a título de subornos internacionais aos "amigos do regime". Entre esses beneméritos desinteressados surgem os partidos comunistas russo, bielorusso e eslovaco, o embaixador nigeriano no Iraque, uma tal de Associação de Amizade França-Iraque e um "Mr. Sifan". Este sujeito é, nem mais nem menos, Benon Sevan, o ex-responsável das Nações Unidas pelo programa Oil for Food. O relatório Duelfer é taxativo neste ponto: a lista dos beneficiários dos vouchers de petróleo foi pessoalmente aprovada por Saddam, que fez modificações à versão inicial, excluindo e acrescentando alguns nomes. O resto dos 11 biliões é receita de "vendas a dinheiro" de petróleo iraquiano e de vigarices avulsas.

O objectivo político de Saddam era claro. Através dos subornos e usando instrumentalmente a pressão de uma opinião pública impressionada pelas imagens de sofrimento do povo iraquiano, esperava conseguir a breve trecho que a ONU aprovasse o levantamento do regime de sanções, deixando-o de mãos livres para prosseguir abertamente o que nunca tinha deixado de fazer, embora com o desconforto das sanções: o reequipamento militar do regime.

Vale a pena sublinhar a perfídia da estratégia: note-se que as mortes de civis, por doença e mal nutrição foram em larga medida causadas pelo desvio do dinheiro do programa Oil for Food, que em vez de servir para adquirir alimentos e medicamentos foi utilizado por Saddam para a aquisição de bens de luxo e de armamento. E quanto mais civis morriam, tanto melhor para a estratégia de Saddam.

Para além do (agora) conhecido envolvimento neste esquema de gigantesca corrupção de altos funcionários da ONU, há muito que estão sob investigação indícios do envolvimento de membros da família de Kofi Annan, designadamente de um dos filhos do Secretário Geral.

Os rumores do escândalo não são propriamente novos e levaram Kofi Annan a nomear em Abril deste ano uma Comissão Independente de Inquérito ao programa Oil for Food, presidida pelo ex-chairman do Federal Reserve, Paul Volcker.

Aparentemente, à medida que a rede de corrupção em torno do programa da ONU vai sendo conhecida, as resistências aos trabalhos da comissão vão aumentando. As informações preliminares libertadas pela própria comissão indicam que a verdadeira extensão da corrupção e do envolvimento de bancos, empresas e entidades políticas de alguns dos países mais ?críticos? da intervenção militar no Iraque está ainda longe de ser conhecida. Se o relatório Duelfer tem algum defeito neste ponto, parece ser o de uma excessiva modéstia nas conclusões incriminadoras. Aguarda-se portanto com grande interesse pelas conclusões globais da Comissão Volcker.

Em todo o caso, atendendo à gravidade do que já é conhecido, não se compreende como é que o actual Secretario Geral da ONU se mantém em funções. Ele terá, por certo, muitas e excelentes razões. Eu não encontro uma única. Legítima, note-se.

2004-11-21

Títulos e números

No Público de hoje:

Título: "Alunos Portugueses Passam Mais Horas a Fazer Trabalhos de Casa do Que a Média dos Países da OCDE"
Números: 4,6 h (média semanal na OCDE), 5 h (média portuguesa)

Números alternativos: 0,4 h = 24 minutos a mais por semana = 5 minutos a mais por dia
Título alternativo: "Alunos Portugueses Passam Mais Cinco Minutos por Dia a Fazer Trabalhos de Casa do Que a Média dos Países da OCDE"

É um estudante universitário, pois claro

Aliás, estudante do segundo ano. O texto abaixo, extraído de uma mensagem de correio electrónico enviada a um docente de uma universidade portuguesa, é razoavelmente representativo da forma como se escreve nas nossas escolas:
Como lhe tinha tido , o grupo em que eu estava inserido , desfesce porque um dos elementos o AA (nnnnn) descobriu que ja tinha feito a cadeira , o outro elemento BB (nnnnn) mudou-se para , outro grupo , e eu estou a fazer o trabalho com outro grupo , que composto por CC (nnnnn) , DD (nnnnn) , EE (nnnnn) e por ter 3 elementos que eu pedi ao professor que me conceda ficar no grupo , fazendo uma excepção.

Auggie Wren

Em 1995, Paul Auster escreveu e co-realizou com Waine Wang o par de filmes Smoke e Blue in the Face. O segundo é uma colagem de sketchs humorísticos resultantes de improvisações filmadas em poucos dias após a conclusão de Smoke, aproveitando as "sobras" de material.

A personagem central de ambos é Auggie Wren (Harvey Keitel), dono de uma tabacaria em Brooklyn que funciona como âncora psicológica para uma série de outras personagens e para as suas histórias, que se enovelam em espirais subtis, como o fumo dos cigarros.

Auggie tem um hábito curioso: ao longo de 14 anos fotografou a rua sempre da mesma perspectiva. Quando mostra o album de fotografias a Paul Benjamin (William Hurt) este responde, com ar confuso, que lhe parecem todas iguais. A resposta de Auggie é simples como a sabedoria: "You'll never get it if you don't slow down, my friend."

Na origem do filme está uma história de Natal: "Auggie Wren's Christmas Story", escrita por Paul Auster e publicada originalmente em 1990 no New York Times. Mesmo para quem já conhece, fica a informação do lançamento de uma excelente edição ilustrada.

2004-11-20

Aumento de qualidade

O aumento de qualidade deste blogue nos últimos dias tem uma explicação: temos o privilégio de contar com o FCG. Seja muito bem-vindo!

Etnologia e Politica

Uns descobrem antepassados entre os macacos. Eu prefiro descobri-los entre os homens. Se a espécie for - como se reclama - inteligente, talvez ainda seja possível evitar as asneiras que farão de nós os macacos do futuro. Ou nem isso.

O PSD sob Santana

Segundo o Público, "o PSD admitiu ontem ponderar a viabilização do projecto-lei do PCP para suspender investigações e julgamentos pela prática de aborto". Ora, este projecto-lei diz, no seu artigo 1º, que:
1 - Até à primeira apreciação definitiva posterior à presente lei, de iniciativa legislativa visando a descriminalização da interrupção voluntária da gravidez quando realizada no primeiro trimestre da gravidez por decisão e com o consentimento da mulher, ficam suspensos todos os procedimentos criminais instaurados pela prática do crime previsto no nº 3 do artigo 140º do Código Penal.
2 - Ficam igualmente suspensos nos termos previstos no número anterior, os procedimentos criminais instaurados pela prática do crime previsto no nº 2 do artigo 140º do Código Penal.
Acontece que os números 2 e 3 do artigo 140º (Dos crimes contra a vida intra-uterina - Aborto) do código penal dizem que:
2 - Quem, por qualquer meio e com consentimento da mulher grávida, a fizer abortar é punido com pena de prisão até 3 anos.
3 - A mulher grávida que der consentimento ao aborto praticado por terceiro, ou que, por facto próprio ou alheio, se fizer abortar, é punida com pena de prisão até 3 anos.
Ou seja, o PSD de Santana Lopes pondera legalizar, na prática, o aborto sem qualquer prazo. Até ao nascimento, tudo seria permitido enquanto durasse a suspensão da lei. Brilhante.

Os filhos de Rousseau

O sol entra pela janela, iluminando a pequena mesa da sala. De um lado ela prepara as aulas que dará na próxima semana. Do outro, armado de vários tipos de lápis, ele faz os trabalhos de casa. Levantei-me tarde. Passado pouco tempo, já a tomar o pequeno almoço, ouço os passos apressados dele no corredor. "Pai, pai! Olha os tês que eu fiz!" diz ele contente. Na TSF, ouve-se Eduardo Sá a propôr uma greve aos trabalhos de casa, por se comemorar a assinatura da declaração dos direitos das crianças. Desliguei o rádio.

Edmund Burke e o Liberalismo

Tal como "esquerda" e "direita", a palavra "liberalismo" é politicamente polissémica. Edmund Burke é uma das poucas referências intelectuais sistematicamente reclamada como "exemplo" das diferentes atitudes "liberais". Estes dois factos bastam para sugerir uma visita ao blog da Causa Liberal, onde tem decorrido uma animada e interessante "conversa" sobre o significado e influência da prática política de Edmund Burke. Vale a pena, para quem se interessa pelo assunto. Já agora, não fique só pelos textos publicados, espreite também as caixas de comentários: na generalidade dos casos o que lá está é tão interessante como os posts.

2004-11-19

Geografia política

Já sabíamos que em política Oriente e Ocidente têm definições incompatíveis com a geografia. O Ocidente inclui a Europa, a América e Austrália e até mesmo o Japão. Enfim, habituámo-nos. Hoje, num anúncio de uma conferência do sociólogo Carlos Lopes, intitulada "O Novo Sul", descobri que a China é um país do Sul.

O Crescente Amarelo

O Sudão é um país com profundas divisões étnicas, religiosas, linguísticas e tribais. Embora cerca de 70% dos sudaneses sejam muçulmanos, o governo "oficial" do pais é controlado por uma elite muçulmana localizada a norte. O resto do território é ocupado por uma multiplicidade de grupos étnicos, que vivem, na generalidade dos casos em condições de pobreza extrema. Desde a independência em 1956 que existe um estado de guerra civil, entre a população (essencialmente) não muçulmana do sul e a população muçulmana do norte. É a guerra civil mais duradoura de África. Desde que o regime de Cartum tentou impor uma teocracia islâmica em 1983 morreram mais de 2 milhões de pessoas em consequência da guerra civil. As milícias árabes apoiadas pelo governo causaram já um número indeterminado de mortos (jornalistas da BBC calculam que sejam mais de 70 000) e mais de 1 milhão e meio de refugiados na região de Darfur. A actuação das milícias Janjaweed não deixa dúvidas: há uma intenção de extermínio da população não-árabe de Darfur.

A prospecção e exploração de petróleo no Sudão começou na década de 60, como actividade off-shore, nas águas do Mar Vermelho. Foi na década de 70 que se descobriram as principais reservas petrolíferas no sul do país, maioritariamente cristão. Desde 1989 que o governo islâmico do norte tem tentado controlar e rentabilizar a exploração petrolífera ao sul. Para o efeito subdividiu a zona sul e sudoeste do país em "blocos", numerados de 1 a 7, que foram concessionados a várias companhias petrolíferas. As expectativas quanto às reservas potenciais de petróleo aumentaram substancialmente entre 1999 e 2002: estima-se que as reservas petrolíferas do Sudão possam superar os 1,2 biliões de barris de crude. Há também apreciáveis reservas de gás natural.

As áreas onde a exploração petrolífera foi concessionada foram sendo objecto de sucessivas limpezas étnicas, negadas quer pelo governo sudanês quer pelas companhias petrolíferas, no que respeita ao "nexo de causalidade". Para os que já se preparam para atirar a "água suja da responsabilidade" para cima dos "ocidentais do costume", note-se que uma das principais companhias interessadas no petróleo sudanês é a CNPC - China National Petroleum Company. A Petronas (Malásia), a Talisman (Canadá), a TotalFinaElf (UE) e a Sudapet (a companhia petrolífera estatal sudanesa) são outros dos major players envolvidos.

É a CNPC que controla o chamado "bloco 6". Onde se situa o bloco 6? Como se poderá verificar no mapa B do relatório Sudan, Oil and Human Rights (2003), da Human Rights Watch é, por coincidência, o bloco que abrange a zona sudoeste, ou seja: a parte sul do território de Darfur.

A 18 de Setembro último, o Conselho de Segurança das Nações Unidas aprovou a Resolução 1564 redigida pela representação americana, onde, no final de mais uma momentosa batalha de vírgulas, a ONU expressa "sérias preocupações" (sic) quanto à ausência de "progressos negociais" no Sudão e anuncia (no ponto 14) que "iria considerar medidas adicionais" que eventualmente afectem o governo sector petrolífero sudanês. Presume-se que esta açorda de palavras deveria ser interpretada pelo governo sudanês como uma vaga referência à possibilidade de um embargo à venda de petróleo.

Ainda assim, um país ameaçou exercer o direito de veto: se respondeu "China", acertou. O ex-Secretário de Estado americano Colin Powell afirmou claramente que há um genocídio em curso no Sudão. Para além do Sudão, como é evidente, o único pais que o nega é a China (outra coincidência).

Depois de uma ronda negocial em Nairobi presidida pelas Nações Unidas, os principais beligerantes assinaram mais um acordo "histórico": concordaram em por termo ao conflito até ao final de Dezembro.

O Conselho de Segurança das Nações Unidas, já aprovou por unanimidade uma nova resolução prometendo dar ao Sudão precisamente aquilo que tem alimentado o conflito: dinheiro. Assim e a partir de Janeiro, o Sudão receberá 500 milhões de dólares a título de "ajuda". Quanto a sanções no caso de continuação do conflito, ou ao apuramento de responsabilidades pelas atrocidades cometidas pelas milícias árabes, nem uma palavra.

O Sudão não precisa de "injecções" de dinheiro: precisa de uma "injecção" maciça de ordem e de justiça. Numa palavra: de civilização. Mas sobre isso desconfio que a ONU nada sabe ou nada quer saber.

A "Concordata Europeia"

Pergunta aos portugueses, às portuguesas e aos animais domésticos:

Concorda em concordar com os que também concordam uns com os outros e porque ninguém discorda daquilo com que os outros concordam, todos concordam que assim é que está bem?

Não compreendeu imediatamente a pergunta? Então não percebe nada de Referendologia nem de Construtivismo Europeu: devia ter intuido que não se espera que compreenda, apenas que dê o seu "sim" por reflexo, como um cão dá a patinha ao dono (good dog!).

Consequentemente acaba de perder a sua autonomia e o direito à auto-governação.