2004-11-20

Os filhos de Rousseau

O sol entra pela janela, iluminando a pequena mesa da sala. De um lado ela prepara as aulas que dará na próxima semana. Do outro, armado de vários tipos de lápis, ele faz os trabalhos de casa. Levantei-me tarde. Passado pouco tempo, já a tomar o pequeno almoço, ouço os passos apressados dele no corredor. "Pai, pai! Olha os tês que eu fiz!" diz ele contente. Na TSF, ouve-se Eduardo Sá a propôr uma greve aos trabalhos de casa, por se comemorar a assinatura da declaração dos direitos das crianças. Desliguei o rádio.

Edmund Burke e o Liberalismo

Tal como "esquerda" e "direita", a palavra "liberalismo" é politicamente polissémica. Edmund Burke é uma das poucas referências intelectuais sistematicamente reclamada como "exemplo" das diferentes atitudes "liberais". Estes dois factos bastam para sugerir uma visita ao blog da Causa Liberal, onde tem decorrido uma animada e interessante "conversa" sobre o significado e influência da prática política de Edmund Burke. Vale a pena, para quem se interessa pelo assunto. Já agora, não fique só pelos textos publicados, espreite também as caixas de comentários: na generalidade dos casos o que lá está é tão interessante como os posts.

2004-11-19

Geografia política

Já sabíamos que em política Oriente e Ocidente têm definições incompatíveis com a geografia. O Ocidente inclui a Europa, a América e Austrália e até mesmo o Japão. Enfim, habituámo-nos. Hoje, num anúncio de uma conferência do sociólogo Carlos Lopes, intitulada "O Novo Sul", descobri que a China é um país do Sul.

O Crescente Amarelo

O Sudão é um país com profundas divisões étnicas, religiosas, linguísticas e tribais. Embora cerca de 70% dos sudaneses sejam muçulmanos, o governo "oficial" do pais é controlado por uma elite muçulmana localizada a norte. O resto do território é ocupado por uma multiplicidade de grupos étnicos, que vivem, na generalidade dos casos em condições de pobreza extrema. Desde a independência em 1956 que existe um estado de guerra civil, entre a população (essencialmente) não muçulmana do sul e a população muçulmana do norte. É a guerra civil mais duradoura de África. Desde que o regime de Cartum tentou impor uma teocracia islâmica em 1983 morreram mais de 2 milhões de pessoas em consequência da guerra civil. As milícias árabes apoiadas pelo governo causaram já um número indeterminado de mortos (jornalistas da BBC calculam que sejam mais de 70 000) e mais de 1 milhão e meio de refugiados na região de Darfur. A actuação das milícias Janjaweed não deixa dúvidas: há uma intenção de extermínio da população não-árabe de Darfur.

A prospecção e exploração de petróleo no Sudão começou na década de 60, como actividade off-shore, nas águas do Mar Vermelho. Foi na década de 70 que se descobriram as principais reservas petrolíferas no sul do país, maioritariamente cristão. Desde 1989 que o governo islâmico do norte tem tentado controlar e rentabilizar a exploração petrolífera ao sul. Para o efeito subdividiu a zona sul e sudoeste do país em "blocos", numerados de 1 a 7, que foram concessionados a várias companhias petrolíferas. As expectativas quanto às reservas potenciais de petróleo aumentaram substancialmente entre 1999 e 2002: estima-se que as reservas petrolíferas do Sudão possam superar os 1,2 biliões de barris de crude. Há também apreciáveis reservas de gás natural.

As áreas onde a exploração petrolífera foi concessionada foram sendo objecto de sucessivas limpezas étnicas, negadas quer pelo governo sudanês quer pelas companhias petrolíferas, no que respeita ao "nexo de causalidade". Para os que já se preparam para atirar a "água suja da responsabilidade" para cima dos "ocidentais do costume", note-se que uma das principais companhias interessadas no petróleo sudanês é a CNPC - China National Petroleum Company. A Petronas (Malásia), a Talisman (Canadá), a TotalFinaElf (UE) e a Sudapet (a companhia petrolífera estatal sudanesa) são outros dos major players envolvidos.

É a CNPC que controla o chamado "bloco 6". Onde se situa o bloco 6? Como se poderá verificar no mapa B do relatório Sudan, Oil and Human Rights (2003), da Human Rights Watch é, por coincidência, o bloco que abrange a zona sudoeste, ou seja: a parte sul do território de Darfur.

A 18 de Setembro último, o Conselho de Segurança das Nações Unidas aprovou a Resolução 1564 redigida pela representação americana, onde, no final de mais uma momentosa batalha de vírgulas, a ONU expressa "sérias preocupações" (sic) quanto à ausência de "progressos negociais" no Sudão e anuncia (no ponto 14) que "iria considerar medidas adicionais" que eventualmente afectem o governo sector petrolífero sudanês. Presume-se que esta açorda de palavras deveria ser interpretada pelo governo sudanês como uma vaga referência à possibilidade de um embargo à venda de petróleo.

Ainda assim, um país ameaçou exercer o direito de veto: se respondeu "China", acertou. O ex-Secretário de Estado americano Colin Powell afirmou claramente que há um genocídio em curso no Sudão. Para além do Sudão, como é evidente, o único pais que o nega é a China (outra coincidência).

Depois de uma ronda negocial em Nairobi presidida pelas Nações Unidas, os principais beligerantes assinaram mais um acordo "histórico": concordaram em por termo ao conflito até ao final de Dezembro.

O Conselho de Segurança das Nações Unidas, já aprovou por unanimidade uma nova resolução prometendo dar ao Sudão precisamente aquilo que tem alimentado o conflito: dinheiro. Assim e a partir de Janeiro, o Sudão receberá 500 milhões de dólares a título de "ajuda". Quanto a sanções no caso de continuação do conflito, ou ao apuramento de responsabilidades pelas atrocidades cometidas pelas milícias árabes, nem uma palavra.

O Sudão não precisa de "injecções" de dinheiro: precisa de uma "injecção" maciça de ordem e de justiça. Numa palavra: de civilização. Mas sobre isso desconfio que a ONU nada sabe ou nada quer saber.

A "Concordata Europeia"

Pergunta aos portugueses, às portuguesas e aos animais domésticos:

Concorda em concordar com os que também concordam uns com os outros e porque ninguém discorda daquilo com que os outros concordam, todos concordam que assim é que está bem?

Não compreendeu imediatamente a pergunta? Então não percebe nada de Referendologia nem de Construtivismo Europeu: devia ter intuido que não se espera que compreenda, apenas que dê o seu "sim" por reflexo, como um cão dá a patinha ao dono (good dog!).

Consequentemente acaba de perder a sua autonomia e o direito à auto-governação.

2004-11-18

Depois de Oriana...

... e para que haja uma réstea de esperança, vale a pena ler o que se vai escrevendo no Egipto: Why Can't We See Things as the Rest of the World Does?. Mais uma vez via MEMRI.

"E que tal uma inspecção aos inspectores?"

Pergunta António Marujo, no Público, a propósito de uma auditoria à Casa do Gaiato. Vale a pena ler os artigos no Público a respeito desta auditoria e do respectivo relatório. Tresanda tudo a estatismo, anti-clericalismo, parcialidade, etc. Há problemas na Casa do Gaiato? Mas onde não os há? Querem dar como exemplo o quê? A Casa Pia?

MoMA 20 11

No próximo dia 20 de Novembro reabre o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (acrónimo: MoMA), situado na West 53rd Street, Manhattan, depois de um exílio temporário em Queens devido a profundas obras de remodelação. O projecto de remodelação é da responsabilidade do arquitecto japonês Yoshio Taniguchi. O espaço de exibição foi aumentado em cerca de 47% e o espaço interno total do edifício duplicou.

Desde 1929, ano em que abriu portas, o MoMA tem sido um centro de exibição, educação e investigação dedicado à arte contemporânea. É também um dos museus que mais contribuiu para a alteração do próprio conceito de museu: de "depósitos organizados" de faustosos tesouros a lugares de aprendizagem e de fruição.

Mas o MoMA não exibe apenas arte: mostra também responsabilidade e sentido cívico. Um bom exemplo é o modo como financiou as obras de remodelação. Estas custaram perto de 900 milhões de dólares, dos quais mais de 500 milhões foram suportados directamente pelo Board of Trustees do museu. O resto veio de patrocinadores institucionais, com destaque para o JPMorgan Chase, que pagou a reinstalação da colecção, possibilita a visita gratuita para os cidadãos no dia de reabertura e financia um programa regular de visitas escolares subsidiadas. Várias outras entidades, surgem como patrocinadores, fornecendo equipamentos - por exemplo a IBM (cedeu tecnologia), a Sony Corporation (cedeu equipamentos de audiovisual) e até o Consulado dinamarquês ofereceu equipamentos para espaços públicos.

Sendo um museu privado, o MoMA cobra um preço de admissão, cujo valor para adultos sem isenções ou descontos passará dos 12 para os 20 dólares. E aqui começa a "agitação": os defensores locais da "Cultura SCUT" protestam porque acham muito caro. Esqueceram-se de "protestar" por não terem suportado como contribuintes os 900 milhões de dólares que custou a remodelação e que foram pagos por indivíduos e instituições: para a esquerda, a gratuitidade da cultura (e da educação , e da saúde, etc...) é sempre um "direito adquirido" - adquirido primeiramente e, por regra, de forma involuntária pelos contribuintes.

Talvez seja por causa de ilusões como esta da cultura "grátis" que Bilbau tem um museu Guggenheim e Lisboa tem uma maquette de um projecto de renovação do parque Mayer da responsabilidade de Frank Gehry, mas que seguramente nunca passará disso mesmo: de um projecto irrealizável. O contribuinte português é um cavalo estafado, mas para a esquerda o financiamento público da cultura e da educação tem carácter dogmático.

Veremos se os genuinamente interessados em arte (por oposição aos interessados em borlas) "votam" no renovado museu, pagando voluntariamente o preço de admissão anunciado. Por mim, espero ter brevemente o privilégio de poder pagar os 20 dólares de entrada: como na canção dos REM, leaving New York, [is] never easy. Regressar, por vezes ainda é mais complicado.

2004-11-17

Campeonato Nacional de Flip-Flopping

Depois de ouvir as intervenções de Pedro Santana Lopes e José Sócrates no debate orçamental, finalmente percebi o meu erro. Julgava que os dois principais partidos tinham mudado de líder.

Afinal foram os líderes que mudaram de partido...

Uma questão de fé

No que respeita aos problemas políticos do Médio Oriente, europeus e americanos demonstram uma fé inquebrantável, que excede largamente a crença religiosa da maioria da população islâmica.

Através "Dele", a salvação é possível. Conflitos centenários, talvez mesmo milenares, serão apaziguados em poucas horas. Assassinos e facínoras avulsos serão reconduzidos ao caminho a virtude cívica. Crianças que cresceram na rua, instrumentos de violência e vítimas de uma doutrina de ódio, serão diária e pontualmente transportadas para a escola por pais que nunca o foram. Um enorme arco íris de paz, alegria e prosperidade erguer-se-á, unindo a costa mediterrânica de Gaza às planícies outrora férteis da Mesopotâmia.

Tudo graças a "Ele" - ao "Voto", esse grande redentor pagão da humanidade. Os efeitos divisores das grandes religiões serão imediatamente superados pela virtude unificadora da "religião cívica".

Através do suave milagre da "legitimação pela urna", nascerá uma "nação palestiniana" onde hoje apenas existem grupos militarizados e unidos pelo inimigo comum (Israel), que entregues a si próprios provavelmente transformarão a Intifada num problema interno. Do mesmo modo, no Iraque Shiitas e Curdos submeter-se-ão à "vontade geral", sem por um momento sequer lhes passar pela cabeça que essa "vontade geral" poderá ser a reconstituição pelo voto do domínio Sunita. Ou o mesmo, mas agora com os Curdos e os Sunitas na posição de "minorias democráticas".

A fé no Voto tudo conquista e tudo une. Devotos ou não, todos serão de votos. Bem aventurados, os "descendentes" de Rousseau!

Chega dia 9 de Janeiro à Palestina e dia 31 de Janeiro ao Iraque.

Por FCG

2004-11-15

Um infeliz acidente

A campanha eleitoral palestiniana já começou. O primeiro sinal do carácter da futura democracia palestiniana, livre do "jugo opressor sionista", foi dado ontem à tarde. Ao entrar numa tenda, Mahmoud Abbas - um dos candidatos a neo-Arafat -, foi aparentemente alvo de uma tentativa de assassinato, que resultou na morte de (pelo menos) um elemento da sua guarda pessoal.

A avaliar pela forma como a Capital (um jornal livre, igualitário e fraterno) "descreveu" recentemente o assassínio do realizador holandês Theo Van Gogh, não me admirava que a notícia do evento fosse, mais coisa menos coisa, assim:

Mahmoud Abbas foi ontem recebido com grandes manifestações de alegria e regozijo pelos palestinianos. Durante os festejos foram disparados vários tiros para o ar. Um dos seguranças pessoais do Sr. Abbas terá acidentalmente encalhado com a cabeça numa bala. O lamentável incidente resultou em danos apreciáveis para ambos.

Por FCG

2004-11-14

Tolerar a intolerância?

A ver: Submission, de Theo Van Gogh. A ler: "A Força da Razão", de Oriana Fallaci. Ou como ser liberal face a quem abomina a nossa liberdade e a deseja destruir?

2004-11-03

Ironias

Os antibushistas agarram-se agora a uma última hipótese: Ohio. Se Kerry conseguir ganhar estas eleições, será ao que tudo indica com uma minoria no voto popular, devido ao sistema eleitoral americano. Por mim nada tenho a dizer, excepto que é irónico que esse sistema, que deu a vitória a Bush em 2000 com uma minoria dos votos populares, seja hoje a única esperança de quem tanto o atacou no passado e o usou para tentar reduzir a legitimidade democrática de Bush.

Um esclarecimento urgente

Segundo o Público de ontem, o Bloco de Esquerda associou-se, mais uma vez, a um protesto contra o julgamento de uma mulher por crime de aborto. Desta vez o aborto foi provocado às 19 semanas de gravidez. É urgente o Bloco de Esquerda esclarecer onde pretende estabelecer a fronteira entre o aborto livre e o crime. Já vamos nas 19 semanas.: até onde iremos? Já em tempos aqui citei Peter Singer, que tem a coragem de argumentar a favor do infanticídio até aos três meses de idade (se bem me lembro). Perante argumentação e clareza, nem que seja nas dúvidas, é possível discutir, é possível contra-argumentar, talvez mesmo concordar. Perante a pura propaganda e a demagogia, é mais difícil. Esperam-se esclarecimentos e argumentação por parte do Bloco de Esquerda, até porque a petição que apoiou a favor de um novo referendo referia claramente a descriminalização apenas até às 10 semanas.

2004-08-01

OMC

Aparentemente as negociações na OMC resultaram na decisão de eliminar os subsídios à agricultura na União Europeia e nos EUA. Se assim for, são excelentes notícias para quase todos, excepção feita aos José Bovés destes mundo e às suas Confédérations Paysannes, por parte de quem se aguardam a qualquer momento as acções violentas usuais.

Ou talvez não. É que, apesar de o tom das notícias e das declarações ser de claro optimismo, a verdade é que não só não se trata ainda de uma decisão final, não só os prazos e os termos exactos da eliminação dos subsídios não estão ainda estabelecidos, como receio que a UE esteja já a preparar uma resposta inteligente, embora perversa: travestir os subsídios à agricultura em pagamentos de serviços ambientais prestados pelos agricultores à comunidade. Talvez seja um daqueles casos em que tudo muda para tudo ficar na mesma. Esperemos que não.

2004-06-15

Fanatismo na primeira pessoa

O MEMRI continua a divulgar documentos impressionantes. Desta vez um relato na primeira pessoa do ataque de dia 29 de Maio, em Khobar, Arábia Saudita. O documento merece ser lido na íntegra, mas não resisto a deixar alguns excertos:
As soon as we entered, we encountered the car of a Briton, the investment director of the company, whom Allah had sent to his death. He is the one whose mobile phone on the seat of his car, with the blood on it, they kept showing [on television]. We left him in the street.

We went out, and drove our car. We had tied the infidel by one leg [behind the car]. We left the company [compound] and met the patrols. The first to arrive was the jeep of a patrol, with one soldier, and we killed him. With the rest we exchanged fire, and we got through.

[...]

The infidel's clothing was torn to shreds, and he was naked in the street. The street was full of people, as this was during work hours, and everyone watched the infidel being dragged, praise and gratitude be to Allah.

[...]

We entered one of the companies' [offices], and found there an American infidel who looked like a director of one of the companies. I went into his office and called him. When he turned to me, I shot him in the head, and his head exploded. We entered another office and found one infidel from South Africa, and our brother Hussein slit his throat. We asked Allah to accept [these acts of devotion] from us, and from him. This was the South African infidel.

[...]

We went to one of the buildings. Brother Nimr, may Allah's mercy be upon him, shoved the door until it opened. We entered and in front of us stood many people. We asked them their religion, and for identification documents. We used this time for Da'wa [preaching Islam], and for enlightening the people about our goal. We spoke with many of them.

At the same time, we found a Swedish infidel. Brother Nimr cut off his head, and put it at the gate [of the building] so that it would be seen by all those entering and exiting.

2004-06-13

Campanhas, reflexões e sondagens: restrições paternalistas

A existência de períodos legais para as campanhas eleitorais, o chamado período de reflexão e a proibição de campanha no dia das eleições, bem como a proibição da divulgação de sondagens, não passam de tiques paternalistas. Assumem que os cidadãos são irresponsáveis, devendo ser "protegidos" de informação que, imagine-se o escândalo, poderia "influenciar" os resultados eleitorais. Das duas uma, ou se entende que os eleitores são uma massa amorfa de indivíduos incapazes de pensar pela sua cabeça, ou se assume que são cidadãos completos, capazes de pensamento autónomo e de, face a toda a informação disponível, escolher como bem entenderem. Neste último caso, que me parece a única suposição aceitável num estado liberal, a proibição da campanha ou, pior, da divulgação de sondagens no dia da eleição não passa de uma forma de sonegar informação que o eleitor poderia usar para conscientemente fazer a sua escolha. Quanto a períodos de reflexão, cada um constrói (ou não) o seu, como bem entender e sem precisar de "ajudas" estatais. Efeitos "perversos" de eliminar estas restrições paternalistas, só se forem os da democracia em si, bem conhecidos, mas relativamente aos quais ainda está para chegar quem proponha alternativa convincente. Reconhecendo a democracia como a solução possível, então tem de se aceitar o resultado maioritário das decisões individuais, tomadas em consciência e com acesso a toda a informação disponível.

2004-06-12

Patriotismos de pouca dura

Estava na Escolar Editora quando, vindo do café em frente, se ouviu o público cantar o hino nacional com emoção, antes de se iniciar o jogo entre Portugal e a Grécia. Senti um arrepio ao ouvi-lo. Mas resisti. Será já um lugar comum, mas não menos verdadeiro por isso: é um patriotismo fácil e efémero, este do futebol. Prognostiquei uma derrota logo no primeiro jogo, o rápido arriar das bandeiras nacionais que por aí pululam, e hinos cantados com bem menos vigor nos próximos jogos. Não sei se me alegre com o rápido desaparecimento deste patriotismo deslocado, se me entristeça com o fim da última forma de patriotismo que nos resta.

2004-06-10

"Morto pela Morte Inexorável e Morto pela Campanha Evitável"

As campanhas são estúpidas, é certo. A morte é triste, sobretudo de um homem bom. Mas, por mais que tente, não vejo ligação entre as duas coisas. Ou, pelo menos, não a vejo da mesma forma que Pacheco Pereira e outros cujas opiniões fui ouvindo. Sousa Franco morreu em campanha, como poderia ter morrido a passear. Morreu, como todos morreremos. Mas morreu a fazer o que queria, como queria, convicto, em total liberdade. Pode-se morrer melhor?

Tentamos sempre encontrar nexos de causalidade para os acontecimentos mais importantes. Tem de haver um responsável. Alguém perverso. Alguém estúpido. Mas o que é perverso, o que é estúpido, o que é a causa última da nossa morte, é a vida. Simplesmente.