2004-01-29

Um grande veleiro

Segundo o DN, a Polícia Judiária apreendeu 6 000 toneladas de haxixe que viajavam a bordo de um veleiro. Isso, 6 000 toneladas. Tendo em conta que a Sagres desloca 2 116 toneladas, imagino o tamanho do veleiro e compreendo, finalmente, por que razão foi necessário usar um submarino da Marinha e fusileiros para o interceptar.

Temos ministra?

A nova ministra da Ciência e do Ensino Superior propôs a liberalização da fixação do número de vagas dos cursos superiores e das respectivas provas de acesso. São duas excelentes medidas. O ensino superior precisa de autonomia, pois só assim se pode ter instituições verdadeiramente responsáveis. O problema que a liberalização das provas de acesso coloca é apenas a sua proliferação, resultando em trabalho acrescido para o candidato ao ensino superior. Mas julgo que é um falso problema: as instituições saberão organizar-se de modo a estabelecerem provas comuns a pelo menos algumas delas. Não só farão as provas exactamente como julgam que elas devem ser feitas, como as farão melhor que qualquer comissão do ministério.

Como pontos negativos destas novas propostas há o prazo para a entrada em vigor, prevista apenas para 2007, e a reserva da possibilidade de o ministério da educação fixar o número de vagas na totalidade do ensino superior, o que poderia inviabilizar totalmente a liberalização pretendida. Não se vê como podem as escolas, autonomamente, repartir entre si um bolo decidido centralmente. Tenhamos a esperança que este resquício de centralismo venha a ser abandonado e que a reforma entre em vigor antes de 2007.

2004-01-28

Verdades incómodas

Segundo a SIC Online, Miguel Cadilhe disse num jantar-conferência que
"A Expo'98 é uma enormidade" e o mesmo se pode dizer dos "10 estádios do Euro2004" ou a "parte das despesas do Porto 2001, Capital da Cultura", salientou, considerando que se tratam de "despesas públicas chamadas de investimento que chocam as famílias portugueses".
De facto.

A democracia é uma chatice...

Segundo a "liberal" dinamarquesa Charlotte Antonsen "Referenda are in fact pure gambling. There is no guarantee of a positive outcome, unfortunately". Não só considera que é a si própria que cabe dizer o que é um resultado positivo ou negativo, como também acha que o resultado de uma votação é aleatório. Para ela, não conhecer o resultado de antemão é equivalente a dizer que se poderia simplesmente tirar o resultado à sorte, o resultado seria equivalente. Não há dúvida que para muitos a democracia é um enorme impecilho.

Um relatório muito incómodo (ou a má-fé da TSF)

Foi divulgado hoje o relatório de Lord Hutton sobre o caso das armas de destruição em massa, da morte de Dr. Kelly e das mentiras da BBC. As conclusões do Relatório Hutton ilibam o governo de Tony Blair das acusações que lhe foram feitas. A TSF, no noticiário das 20h, nada disse sobre o assunto. Às 21:00h foi lacónica. Disse que Blair tinha sido ilibado por Lord Hutton, para citar logo de seguida declarações que David Kay, inspector dos EUA para as armas de destruição em massa, teria feito a uma comissão do senado dos EUA: "enganámo-nos a todos". A pressa do TSF em contrabalançar uma notícia com a outra demonstra bem a má-fé a que Fernando Gil e Paulo Tunhas se referem no seu excelente Impasses, mais ainda quando comparamos a suposta declaração de Kay com o original "we were all wrong", que se poderia traduzir por "enganámo-nos todos". Uma diferença subtil, mas significativa.

2004-01-27

Propinas e trabalhistas

A nova lei das propinas foi aprovada no Reino Unido, por uns escassos cinco votos. Acabou o ensino superior gratuito. Excelentes notícias, especialmente considerando que foi um partido trabalhista que pegou este touro de caras. Esperemos agora que o nosso governo ganhe coragem para mais reformas no ensino superior em Portugal.

2004-01-21

A fidelidade como defeito

Miguel Poiares Maduro assina no DN um artigo notável sobre a fidelidade como (má) alternativa ao mérito. Uma das melhores análises da sociedade portuguesa que tenho lido:
Em Portugal, temos preferido a fidelidade ao mérito. Claro que todos criticamos a corrupção, o nepotismo e fenómenos semelhantes na preferência dada a alguns em detrimento de outros que consideramos mais capazes e competentes. Mas, na verdade, esses fenómenos são apenas a faceta mais extrema da lógica predominante na nossa sociedade e que intuitivamente aceitamos e vemos constantemente reproduzida nas nossas instituições: a preferência pelos nossos em detrimento dos outros. Na Universidade dá-se preferência «aos nossos doutorados». Na administração publica, «aos nossos colegas». Nas empresas, «aos que cá trabalham».

[...]

A fidelidade é um dever que, em algumas circunstâncias, temos para com alguns. O mérito é um reconhecimento que devemos a todos.

2004-01-19

A taxa de televisão no Reino Unido

Uma pequena nota de Theodore Dalrymple no City Journal acerca da solução governamental para o problema das mães solteiras, algumas das quais foram presas por deixarem repetidamente de pagar a taxa de televisão:
A liberal think-tank close to the government has come up with a solution to the problem: halve the license fee for single mothers. In other words, we should subsidize a subsidy, in the name of a universal “right” to misinformation and trashy entertainment (and at the same time confer yet another incentive—albeit a small one, though such incentives are additive—for single parenthood). Reportedly, the government is favorably inclined toward the proposal.

Here is the definition of current British social policy: an idiocy wrapped in a lunacy wrapped in an absurdity, to produce misery and squalor.

2004-01-17

Um perigo na via pública

  • Desloca-se a velocidade muito inferior à dos restantes utentes da via pública, com os perigos que os diferenciais de velocidade acarretam.
  • Não precisa de licença para circular.
  • Conduz-se sem carta nem limite de idade.
  • Não tem dispositivos passivos ou activos de segurança (e.g., airbag ou ABS).
  • Normalmente não tem iluminação própria, nem para iluminar o caminho, nem de presença.
  • Não vai a inspecções periódicas obrigatórias.
  • Circula sem seguro.
  • De acordo com estatísticas da DGV, está envolvido em pelo menos 20% dos casos de mortalidade rodoviária.
Não se pode continuar a admitir este estado de coisas. Proiba-se o peão.

2004-01-15

11 anos de atraso

Certa noite, ainda a minha mãe estava na faculdade, o meu avô parou o trabalho aturado que o ocupava à secretária, que ocupava parte substancial da sala de estar, e declarou à família, solene: "Estou 11 anos atrasado". Eu também, aqui, pública e solenemente, e para que conste, me declaro 11 anos atrasado.

O efeito 1 minuto de microfone

Estação de Metro de Entrecampos. Pela 3ª vez encontro o guichet para recepção de pedidos de passe encerrado. Do guichet do lado informam que a colega está de baixa e que a colega que era suposto substituí-la faltou. A indignação propaga-se pelo dominó de requerentes que atrás de mim se havia formado. O funcionário do Metro sugere então que preenchamos fichas de reclamação. O que faço e me toma 2 minutos. No entretanto a fila tinha desaparecido, em pregões a anunciar o peixe-vergonha do pais; à procura do microfone que lhe dê o seu minuto no éter do fórum ou no fósforo do ecrã.

2004-01-11

Que fazer

Apoiar organizações como a SOS Racismo (que tem um blogue), mesmo que com elas discordemos ocasionalmente.

Racismo e xenofobia

Aqui ao lado, em Espanha, o racismo, a xenofobia. Um documentário impressionante da El Mundo TV (na SIC Notícias) torna-nos Marroquinos ou Argelinos por uns minutos. As desculpas, as recusas, as negas, todo o tipo de discriminação, é o que os emigrantes do Magrebe enfrentam todos os dias. Uma humilhação contínua. Uma infâmia inenarrável, que corresponde certamente àquilo que vai acontecendo por todo o mundo, que acontece certamente aqui mesmo, em Portugal. De vez em quando precisamos de documentários assim. Ajudam-nos a recordar o que somos. E somos maus.

2004-01-09

Petróleo para a paz

É curioso que, depois de o petróleo ter sido usado como explicação para a guerra de Angola e para a intervenção dos EUA no Iraque, depois de se dizer que o petróleo teria originado os golpes em S. Tomé, agora, no Sudão, o petróleo sirva de justificação... para o fim da guerra:
O petróleo, que começou por intensificar a guerra, acabou por se tornar num factor de acordo. Primeiro, porque o Norte concluiu que o não poderia explorar eficientemente sem paz e sem um compromisso com Garang. E, para os rebeldes do Sul, é a grande hipótese de vencer a pobreza endémica da região. Em segundo lugar, provocou um decisivo envolvimento norte-americano. Mas no essencial, a guerra vai acabar por completa exaustão de ambas as partes.

Jorge Almeida Fernandes, no Público de ontem (na BBC World a opinião era a mesma).
Estas explicações sempre me pareceram demasiado simplistas.

Uma boa medida

Bush pretende legalizar imigrantes clandestinos. Mas uma má justificação:
É de senso comum e de justiça que as nossas leis devem permitir a entrada de trabalhadores [estrangeiros] no nosso país para preencher empregos que os americanos não preenchem.
E se preenchessem, mas sofressem concorrência dos imigrantes? Isso não seria bom para todos, excepto temporariamente para os trabalhadores americanos que sofressem directamente a concorrência?

2004-01-08

As editoras movem-se

Os pesquisas e citações cruzadas de artigos publicados electronicamente estão a ser revolucionadas pelo DOI e pelo Crossref. Boas notícias para quem depende da pesquisa bibliográfica.

2004-01-07

Barroso e Cavaco

Segundo o PS (via Sic Notícias), o governo de Durão Barroso está a governar pior que Cavaco Silva. Vindo do PS, é um grande elogio, aliás imerecido.

No Mundo

O Carlos Miguel Fernandes tem um blogue. É o No Mundo. Dada a qualidade das suas intervenções no Picuinhices, será de certeza um excelente blogue. Sejam muito bem vindos, ele e a Maria João Reis Martins!

Individualismo não é sinónimo de egoísmo

Na TSF de hoje, no Pessoal e... Transmissível, Carlos Vaz Marques conversou com Mário Beja Santos. Pelo meio, uma confusão entre individualismo e egoísmo que é muito comum entre a esquerda. Como diz Hayek:
Individualism has a bad name today [anos 40], and the term has come to be connected with egotism and selfishness. But the individualism of which we speak in contrast to socialism and all other forms of collectivism has no necessary connection with these.
É esta confusão que torna tão difícil, como a entrevista revelou, compreender que seja num dos países que se considera o paradigma do individualismo, os EUA, que a sociedade civil, o voluntarismo e associativismo sejam mais fortes.

Os nossos dirigentes associativos

Jorge Cristino, novo Presidente da Associação Académica da Universidade do Minho, afirma em entrevista ao Público que "a Declaração de Bolonha diz que o Ensino é gratuito [...]". Não pude acreditar. Procurei e li a dita declaração e, felizmente, não havia sombra de referência à gratuitidade do ensino. A declaração terá muitos defeitos, mas pelo menos esse não tem.