2004-01-11

Racismo e xenofobia

Aqui ao lado, em Espanha, o racismo, a xenofobia. Um documentário impressionante da El Mundo TV (na SIC Notícias) torna-nos Marroquinos ou Argelinos por uns minutos. As desculpas, as recusas, as negas, todo o tipo de discriminação, é o que os emigrantes do Magrebe enfrentam todos os dias. Uma humilhação contínua. Uma infâmia inenarrável, que corresponde certamente àquilo que vai acontecendo por todo o mundo, que acontece certamente aqui mesmo, em Portugal. De vez em quando precisamos de documentários assim. Ajudam-nos a recordar o que somos. E somos maus.

2004-01-09

Petróleo para a paz

É curioso que, depois de o petróleo ter sido usado como explicação para a guerra de Angola e para a intervenção dos EUA no Iraque, depois de se dizer que o petróleo teria originado os golpes em S. Tomé, agora, no Sudão, o petróleo sirva de justificação... para o fim da guerra:
O petróleo, que começou por intensificar a guerra, acabou por se tornar num factor de acordo. Primeiro, porque o Norte concluiu que o não poderia explorar eficientemente sem paz e sem um compromisso com Garang. E, para os rebeldes do Sul, é a grande hipótese de vencer a pobreza endémica da região. Em segundo lugar, provocou um decisivo envolvimento norte-americano. Mas no essencial, a guerra vai acabar por completa exaustão de ambas as partes.

Jorge Almeida Fernandes, no Público de ontem (na BBC World a opinião era a mesma).
Estas explicações sempre me pareceram demasiado simplistas.

Uma boa medida

Bush pretende legalizar imigrantes clandestinos. Mas uma má justificação:
É de senso comum e de justiça que as nossas leis devem permitir a entrada de trabalhadores [estrangeiros] no nosso país para preencher empregos que os americanos não preenchem.
E se preenchessem, mas sofressem concorrência dos imigrantes? Isso não seria bom para todos, excepto temporariamente para os trabalhadores americanos que sofressem directamente a concorrência?

2004-01-08

As editoras movem-se

Os pesquisas e citações cruzadas de artigos publicados electronicamente estão a ser revolucionadas pelo DOI e pelo Crossref. Boas notícias para quem depende da pesquisa bibliográfica.

2004-01-07

Barroso e Cavaco

Segundo o PS (via Sic Notícias), o governo de Durão Barroso está a governar pior que Cavaco Silva. Vindo do PS, é um grande elogio, aliás imerecido.

No Mundo

O Carlos Miguel Fernandes tem um blogue. É o No Mundo. Dada a qualidade das suas intervenções no Picuinhices, será de certeza um excelente blogue. Sejam muito bem vindos, ele e a Maria João Reis Martins!

Individualismo não é sinónimo de egoísmo

Na TSF de hoje, no Pessoal e... Transmissível, Carlos Vaz Marques conversou com Mário Beja Santos. Pelo meio, uma confusão entre individualismo e egoísmo que é muito comum entre a esquerda. Como diz Hayek:
Individualism has a bad name today [anos 40], and the term has come to be connected with egotism and selfishness. But the individualism of which we speak in contrast to socialism and all other forms of collectivism has no necessary connection with these.
É esta confusão que torna tão difícil, como a entrevista revelou, compreender que seja num dos países que se considera o paradigma do individualismo, os EUA, que a sociedade civil, o voluntarismo e associativismo sejam mais fortes.

Os nossos dirigentes associativos

Jorge Cristino, novo Presidente da Associação Académica da Universidade do Minho, afirma em entrevista ao Público que "a Declaração de Bolonha diz que o Ensino é gratuito [...]". Não pude acreditar. Procurei e li a dita declaração e, felizmente, não havia sombra de referência à gratuitidade do ensino. A declaração terá muitos defeitos, mas pelo menos esse não tem.

Alguns bons argumentos contra a proibição do véu nas escolas francesas

Vale a pena ler o artigo de Vital Moreira, no Público. Para ele, não é tanto o jacobinismo do "princípio da laicidade" que está em causa, mas o anseio de uniformidade cultural da França. Tenho algumas dúvidas, mas os argumentos são bons:
A justificação política e doutrinária da medida proibicionista é geralmente ligada ao "princípio da laicidade", expressamente garantidos na Constituição de 1958, que é um dos princípios fundamentais da República francesa, desde a lei da separação de 1905. Mas, bem vistas as coisas, ela tem menos a ver com o princípio laico do que com a tradição francesa, de origem tipicamente jacobina, que faz prevalecer a ideia de nação sobre as identidades comunitárias e a assimilação cultural das minorias sobre a diversidade. A raiz da medida é a mesma que leva a França a não reconhecer a existência de minorias étnicas, linguísticas ou outras que pudessem pôr em causa a identidade e homogeneidade do "peuple français". O que a motiva é menos a questão da religião em si mesma do que o receio da radicação e consolidação de identidades sectoriais subnacionais, com o seu potencial desagregador da coesão e identidade nacionais.

2004-01-06

Reciprocidades?

Reagindo a medidas de protecção semelhantes tomadas pelos EUA, o Brasil, usando do seu "direito de reciprocidade", resolveu começar a registar ao cidadãos americanos que entram no seu território, fotografando-os e tirando-lhes as impressões digitais. Acontece que nos EUA há boas razões para tomar cuidados e, se é discutível a eficácia deste tipo de medidas, é certamente compreensível que os EUA as tomem. Basta lembrar o 11 de Setembro e estar atento às declarações regulares da Al-Qaeda. A atitude brasileira, pelo contrário, é simplesmente estúpida: não havendo qualquer necessidade de fazer os registos, estes limitam-se a incomodar e a gastar recursos materiais e humanos num gesto provocatório.

2004-01-05

2:

Algumas hipóteses:
  • A 2: não tem sucesso: desperdiçou-se dinheiro dos contribuintes.
  • A 2: tem sucesso: investiu-se dinheiro dos contribuintes para fornecer um serviço que podia ser fornecido pelo mercado e do qual muitos desses contribuintes não usufruem nem como espectadores nem através de um retorno monetário do investimento.
  • A 2: tem sucesso, mas com um figurino que não poderia nunca dar dar lucro: nesse caso o negócio não é viável, destinando-se simplesmente a fornecer um serviço a alguns à custa do dinheiro de todos.
A televisão pública é paga através de impostos. A chamada "contribuição audio-visual" é um imposto. Não distingue entre quem usufrui ou não do serviço estatal de televisão, pelo que não se poderá nunca considerar como um pagamento. É um roubo feito a alguns para benefício de outros. Não se destina a combater nenhum suposto mal social. A "tabloidização" das televisões privadas é, aliás, um espantalho. A SIC Notícias está aí para o demonstrar. Mas ainda que fosse verdade a "tabloidização", não justificaria a televisão estatal. Se as padarias vendessem apenas papo-secos, seria desejável ou justo que o estado oferecesse um serviço de fornecimento de pão alentejano a alguns, com gosto mais refinado?

Serviço público estatal de televisão

Não é necessário.

2004-01-04

O Quebra-Nozes

À tarde assisti a "O Quebra-Nozes", da Companhia Nacional de Bailado. Para além de ser incompetente para julgar tecnicamente um bailado, a forma como assisto aos espectáculos impede-me, normalmente, uma crítica objectiva. Sim, confesso, sou dos que quase saem para o hospital com ataques cardíacos quando os filmes são de suspense e dos que choram baba e ranho quando puxam ao sentimento, passando vergonhas horríveis quando, no fim, as luzes se acendem e não arranjo maneira de disfarçar as lágrimas que correm em torrentes. Foi assim que assisti a "O Quebra-Nozes". Encheu-me as medidas. Os cenários são excelentes, tal como os figurinos. A música, infelizmente, era gravada. Ao meu lado, o meu filho perguntava-me a cada momento que dança era, "É a do café? São japoneses?", batia palmas com entusiasmo, informava o vizinho "São os flocos de neve!". Sim. É verdade. Hoje à tarde, ao lado do meu filho, também eu tive cinco anos.

Euforia

Não consigo ler mais do que um par de parágrafos. Passeio pela casa num estado eufórico que se diria causado por estupefacientes. Desconheço a razão. Será porque se acabou, finalmente, o período de festas?

Conservadores e neoconservadores

No Public Interest, via AAA da Causa Liberal, um interessante e informativo artigo de Adam Wolfson sobre conservadores e neoconservadores.

2003-12-30

Uma grande Aba

A Aba de Heisenberg desmonta os argumentos de Miguel Sousa Tavares e demonstra os perigos da velocidade: aqui, aqui, aqui e aqui.

Demências

Sermões patrocinados pela Autoridade Palestiniana (via MEMRI). Um excerto:
[Even when] a martyr's organs are being chopped off, and he turns into torn organs that spread all over, in order to meet Allah, Muhammad, and his friends, it would not be [considered] a loss? This is the honor given to our martyrs, the martyrs of the Islamic nation, who were killed due to their loyalty to Allah... The sacrifice of convoys of martyrs [will continue] until Allah grants us victory very soon. The willingness for sacrifice and for death we see amongst those who were cast by Allah into a war with the Jews, should not come at all as a surprise? Oh believing brothers, we do not feel a loss... The martyr, if he meets Allah, is forgiven with the first drop of blood; he is saved from the torments of the grave; he sees his place in Paradise; he is saved from the Great Horror [of the day of judgment]; he is given 72 black-eyed women; he vouches for 70 of his family to be accepted to Paradise; he is crowned with the Crown of glory, whose precious stone is better than all of this world and what is in it?

August 17, 2001, Sheikh Isma'il Aal Ghadwan, Sheik 'Ijlin Mosque in Gaza, PA Television.

2003-12-26

Ai meu rico carrinho!

Para Miguel Sousa Tavares, há quatro questões em que o "conservadorismo de pensamento" "determinou a orgulhosa inflexibilidade ideológica". Quais são?
Refiro-me à política de agravamento das multas e punições por excesso de velocidade no novo Código da Estrada que aí vem, na recusa das chamadas "salas de chuto" (assistidas ou não) nas prisões, a liberalização do consumo de drogas leves e a descriminalização do aborto (ou até mesmo a sua simples despenalização). A todas as sugestões de ensaiar uma via alternativa nestas matérias, a direita que governa respondeu: "Não, não, não e não."
Que faz o excesso de velocidade neste lote? Note-se que, para Miguel Sousa Tavares:
São quatro exemplos de como uma hipocrisia erigida em pseudovalor moral pode causar danos concretos, mortes incluídas, às vítimas desses valores. Em nome do Estado, em nome da moral cristã ou - pior e nunca dito - em nome, muitas vezes, de interesses de negócio instalados, por exemplo na lavagem de dinheiro da droga ou na pretensa recuperação dos drogados. Santíssima hipocrisia!
Quem serão as vítimas da punição do excesso de velocidade? Quem beneficiará com que negócio? É necessário ser dono de uma demagogia inacreditável para se afirmar que a punição do excesso de velocidade irá aumentar o número de mortos na estada. Não. Não é só demagógico. É profundamente desonesto.

Gato

Alma má revestida de pêlo.

2003-12-24

Leituras sobre o aborto

Desidério Murcho, na sequência de um comentário deixado na entrada Aborto: posições inaceitáveis, enviou-me uma lista de leituras sobre o assunto, que aqui partilho:
Eis algumas sugestões de leituras introdutórias centrais sobre o aborto:
  • Abortion and Infanticide, de Michael Tooley (Livro polémico, mas muito claro.)
  • A Companion to Ethics, org. por Peter Singer (Tem um artigo sobre o aborto que apresenta as principais posições e orienta leituras).
  • Applied Ethics, org. por Peter Singer (Tem alguns dos artigos clássicos da área, como o da Jarvis Thomson e o do Tooley, que deu depois origem ao livro).
  • Ethics in Practice, org. por Hugh Lafollette (Mais alguns artigos clássicos da área, tem alguma sobreposição com a antologia anterior; se tiver de escolher só uma delas, escolha esta. Tem um site informativo, com alguns materiais.)
  • "Religião e Questões Morais Particulares", in Elementos de Filosofia Moral, de James Rachels (O livro vai sair a 20 de Janeiro na Gradiva e tem uma secção muito esclarecedora sobre como se faz o debate sobre o aborto.)
Há inúmeras colectâneas de artigos só dedicados ao aborto, assim como livros. Mas estas leituras parecem-me centrais. E tanto as duas colectâneas apresentadas como o Companion são obras de consulta importantes para o público leigo interessado quer na ética aplicada quer noutros aspectos da ética.

Penso que o Pedro Galvão está a organizar uma colectânea de artigos sobre o aborto, mas não sei qual será o editor.