2003-10-08

A demência dos calendários de avaliação universitários Chegou-me às mãos um relato que mostra bem uma das características mais estúpidas do sistema universitário português: a avaliação e seus calendários. Em Abril passado já me tinha referido a este assunto a respeito do ISCTE, pelo que não faço mais comentários. Limito-me a dizer que alterei todos os nomes e que o docente que escreve este relato lecciona as disciplinas A e B:

Muitas vezes o principal encontra-se nos detalhes. Durante este mês de Setembro o meu contacto com a secretaria e com os alunos revelou-se prolífico de detalhes surpreendentes. A exposição segue a habitual ordem cronológica.

-1 - O Prof. P, presidente do departamento, avisa-me da lista de alunos inscritos em época especial de exames, indicando-me que tenho um aluno, trabalhador estudante, inscrito em B e um aluno, dirigente associativo, inscrito em A. Porém, a inscrição deste dirigente associativo está "ainda condicional pois o processo não está formalizado a 100%, não tendo ainda data definitiva marcada, embora já se saiba que terá lugar de 1 a 6 de Setembro". Até aqui tudo perfeito.

0 - O Prof. P e o Prof. Q (coodenador da disciplina e director da licenciatura) sugerem que, como os alunos de A e de B são distintos, os exames podem realizar-se no mesmo dia. Tudo perfeito até aqui. A partir de agora é que surgem os contactos com a secretaria e os contactos com os alunos.

1 - O aluno de B contacta-me para marcar um horário de dúvidas comigo para a época especial de trabalhador estudante e para saber a data do exame. Marcamos uma data provisória, pois aguardo ainda o contacto do aluno de A. Porém, o aluno de A não me contacta, apesar de avisos na página da disciplina para o fazer.

2 - Tento confirmar na secretaria as inscrições dos alunos. O de B está correctamente inscrito (estudante trabalhador). O de A fez o pedido, mas a inscrição ainda não está válida, pois a secretaria ainda não recebeu uma acta da associação de estudantes (não percebi se para provar que é dirigente associativo, se para provar que no dia de um dos exame das épocas normais ele tinha estado impossibilitado de ir ao exame). A situação é pois a de ter um aluno inscrito em B e um outro "semi-inscrito" em A. Estamos na véspera do início da semana da época especial, a gestão de salas da instituição quer que eu marque os exames, mas não o posso fazer. A secretaria diz que o normal é os alunos contactarem os docentes para marcarem uma data de exame, que deve haver um acordo a respeito das datas.

3 - Apesar do aluno de A não me contactar, marco os dois exames para quinta-feira (mesmo local e hora), penúltimo dia da época especial, para dar tempo para o aluno de A me contactar e para a secretaria resolver a inscrição pendente deste aluno "fantasma".

4 - Durante a semana de Época Especial tenho:
  • uma tarde de horário de dúvidas com o aluno de B;
  • uma tarde a preparar o exame de B;
  • de esperar até à véspera por um contacto do dirigente associativo para saber se devo fazer o exame ou não;
  • de elaborar o exame de A de véspera, não vá o dirigente associativo aparecer...
  • uma tarde a vigiar o exame de B.
5 - Sobre o ponto 4 há a acrescentar que o aluno de A (dirigente associativo) não aparece e que o aluno de B (estudante trabalhador) quer desistir após uma hora de exame. Apesar de encorajado para continuar, entrega no fim do tempo um exame avaliado em seis valores.

6 - Depois desse exame, encontro durante o percurso para o gabinete um outro aluno, que nunca me tinha aparecido em nenhuma aula de B, mas que já me tinha surgido antes da 2ª época a dizer que só lhe faltava B para acabar o curso, que queria umas aulas de dúvidas para essa 2ª época e que tinha desistido do exame 30 minutos depois de o começar. Não me lembrava que ele tinha nessa altura prometido aparecer em época especial. Ora, eu acabo de sair da época especial de B (e supostamente também de A) há minutos e ele não apareceu! Esclareceu-se tudo em três frases:
- Oh professor, então em Dezembro lá estarei!
- Dezembro?!
- Sim, na época especial para estudantes finalistas!
7 - Entrego a pauta provisória de B na secretaria e assino a pauta final no mesmo dia. Porém, sempre com simpatia, fico a saber que:
  • afinal o aluno de A "não faltou";
  • que ele ainda tem a inscrição pendente (falta a tal acta);
  • que só quando estiver a situação regularizada é que me irá contactar para fazer o exame;
  • que o exame deve ser combinado para uma data que esteja compreendida numa janela temporal de 60 dias após a inscrição;
  • que ele pode sempre pedir outro exame de 60 em 60 dias!
  • que o que acabou de ocorrer foi a época especial para estudantes trabalhadores;
  • que a época especial para estudantes finalistas é em Dezembro;
  • que a época especial para dirigentes associativos é quando lhes apetecer, repetida de dois em dois meses, presumo que até obterem aprovação!
8 - Como é de suspeitar, as surpresas ainda não terminaram. O aluno de B envia-me uma mensagem a lamentar-se que realmente lhe correu mal o exame e a perguntar se não é possível fazer outro! Respondo que não há qualquer possibilidade legal de marcar mais avaliações este ano lectivo. Lembrei que houve em B:
  • um teste a meio do semestre ao qual faltou;
  • uma frequência, com repetição do primeiro teste onde obteve sete valores (logo, 3,5 valores no final);
  • um exame de 1ª época, com repetição dos dois testes, ao qual faltou;
  • um exame de 2ª época, com nova repetição dos dois testes, no qual obteve 3,0 valores;
  • uma época especial de trabalhador estudante, onde obteve 6,3 valores, o que o excluiu de aceder a uma oral.
A impossibilidade de marcar mais um exame é legal, mas acima de tudo é uma questão de igualdade de todos os alunos no acesso à avaliação.

9 - Não, ainda não terminou! Finalmente o aluno o dirigente associativo contacta-me: pede desculpa por nunca me ter dito nada (andei semanas às escuras, sem saber quando haveria um exame de um "fantasma semi-inscrito"!). Marcamos o exame. É para daqui a poucos dias (felizmente o exame já foi redigido para a outra vez).

10 - Na véspera, recebo uma mensagem do aluno de A, dirigente associativo. A secretaria contactou-o informando-o que afinal a inscrição não era válida, pois ainda não haviam decorrido 60 dias desde a última data de avaliação (que presumo que seja a data da 2ª época normal)!

Andámos mais de um mês com isto tudo e afinal a inscrição que não seria válida senão depois da chegada da tal acta da associação de estudantes... era impossível, pois o aluno nunca se poderia ter inscrito durante Setembro! O exame de A para o dirigente associativo nunca poderia pois ter coincidido com a época para o trabalhador estudante de B, que tem datas fixas. Desde o início que a secretaria laborava num erro.

Notas finais:

O estudante trabalhador que vai pedindo exames sucessivos frequentou praticamente todas as aulas de B ao longo de todo o semestre, sendo a entidade empregadora a empresa do pai. Pareceu-me sempre um aluno muito interessado, e é com pena que vejo o seu fraquíssimo desempenho no semestre, acreditando mesmo que o pico de trabalho só surgiu durante a época de exames, tal como ele afirma. A existência legal de certas inibições face à existência de graus de parentesco existe em tantas outras coisas: familiares a avaliar em concursos públicos, atestados médicos de médicos familiares, etc. Parece haver uma lacuna de legislação no caso dos estudantes trabalhadores. Mas este nem é o ponto mais relevante...

O aluno de A terminou a mensagem de anulação do exame do dia seguinte dizendo que lá para o meio de Outubro me irá contactar, pois nessa altura, seguindo a secretaria, já será possível pedir a época especial para dirigentes associativos. Uma espécie do hollywoodesco "I'll be back!". O finalista também já prometeu para Dezembro que "he'll be back"...

Termino com uma sugestão de alteração ao vasto articulado do estatuto da carreira docente universitária, no que respeita às funções do docente. Proponho um ponto único com algumas alíneas de regulamentação:

Artigo único

Ao docente universitário incumbem duas actividades: leccionar aulas e avaliar alunos. A primeira actividade deve desenrolar-se segundo os calendários da instituição, ocupando de 6 a 9 horas semanais. O docente tem o dever de permanecer na segunda actividade durante o tempo restante, segundo o seguinte articulado:
  • a) O docente deve permanentemente pensar na nota de cada aluno de uma forma personalizada, atendendo às características psico-sociológicas particulares de cada um.
  • b) Deve proceder a uma avaliação destas características e propor um método de avaliação específico a cada aluno, o qual deverá ser discutido com ele por forma a envolvê-lo no seu projecto didáctico específico.
  • c) O docente deve estar disponível para responder com um processo de avaliação ajustado aos dias que o aluno se sinta apto, certificando-se previamente que a existência do acto não acarretará consequências traumáticas ao aluno.
  • d) Para cada acto de avaliação acordado segundo c), o docente deve, nos horários de dúvidas associados, fazer resumos de toda a matéria da cadeira, garantindo igualdade de acesso aos conhecimentos a quem não teve disponibilidade para frequentar as aulas.
  • e) Deve ainda reiterar antes do início da prova que ela poderá ser repetida logo que o avaliando o deseje, a qualquer dia e hora, no mesmo local ou noutro espaço mais simpático, porventura com elementos naturais (como o mar ou um jardim) que contrabalancem e minorem o trauma da avaliação.
Em tudo tento encontrar um átomo de lógica, mesmo que polvilhada pelos muitos factores humanos. Mas há uma pergunta para a qual nem um átomo dela encontro: por que será que as três épocas especiais para os três estatutos de alunos (trabalhadores, finalistas e dirigentes associativos) não são coincidentes (mesmo que uma delas seja repetível de 2 em 2 meses)? Não é para responder...
"A globalização explicada aos jovens... e aos outros" Quem "explica" é José Jorge Letria, num livrinho com este título publicado há cerca de um ano pela Terramar. O livro passou despercebido, como acontece a quase todos os livros "para jovens". Sem mais comentário, seguem alguns extractos:
Uma coisa é hoje clara para praticamente toda a gente: a globalização, na sua vertente económica, tem contribuído substancialmente para tornar os ricos muito mais ricos e os pobres muito mais pobres [...]

O que torna a globalização condenável é justamente a circunstância de transformar a ganância e o lucro em valores absolutos, através de uma concepção económico-social que não deixa lugar para a solidariedade e não dá voz aos mais desfavorecidos, que são cada vez em maior número.

[Diálogo entre pai e filho:]

— Porque é que tu achas que isso
[os actos violentos durante as manifestações anti-globalização] acontece?

— Porque há organizações políticas que ficaram sem espaço nem expressão pública nos últimos anos e que aproveitam estas ocasiões para radicalizarem as suas formas de protesto.

— E o que é que tu achas que pode ser feito para evitar que isso aconteça?

— Não tenho uma resposta para essa pergunta, até porque estamos num período de transição da política tradicional para novas formas de fazer e organizar a vida política e ninguém sabe como irão ser essas formas nas próximas décadas. No fundo, estamos a viver uma quase revolução e, nas revoluções, há sempre excessos que só o tempo e o bom senso dos seres humanos permite moderar e corrigir.
[...]

[...]

[...] Entretanto, todo este debate ganhou uma nova dimensão depois dos atentados terroristas de 11 de Setembro.

— Porquê?

— Porque o próprio terrorismo se tornou global e transnacional, usando os meios da globalização para finaciar as suas acções. Eles, os terroristas, usaram a especulação em várias Bolsas para conseguirem dinheiro para acções cada vez mais destrutivas, imprevisíveis e assustadoras.
[...]

[...]

[...] Normalmente, o conceito e a palavra [globalização] são usados no seu sentido económico, valorizando a ideia de que há um mercado global cujas regras são impostas pelos mais poderosos e em relação ao qual os consumidores e os trabalhadores são meros elementos passivos, sendo que os trabalhadores dos países mais pobres nem consumidores podem ser, pois vivem, em muitos casos, com cerca de um euro por dia, o que equivale a dois cafés ou a uma sanduíche ou a pouco mais de um litro e meio de leite. Este mercado global ignora as fronteiras e as economias nacionais e expande-se por onde quer e como quer, despedindo trabalhadores, desmantelando e deslocalizando fábricas e empresas e semeando a insegurança social.

— Mas sempre houve tendência para que isso acontecesse, ou não houve?

— Tendência houve, mas não existiam condições de concretização.

— Porquê?

— Porque havia os regimes comunistas do Leste, e nesses mercados não entravam ou entravam muito pouco os produtos de outros países. Só com a queda do Muro de Berlim a situação começou a alterar-se, e também com a entrada da República Popular da China para a grande rede do comércio mundial, com o apoio dos Estados Unidos, que viram ali não só o maior mercado mundial, mas também o maior criador de produtos baratos para abastecer certos mercados.
Etc.

2003-10-07

Incompetências O "Romance da Raposa", de Aquilino Ribeiro, é provavelmente a melhor obra de literatura portuguesa escrita para crianças. Recordo-me bem de ouvir a história pela boca da minha mãe. A raposa Salta-Pocinhas "matreira, fagueira, lambisqueira" e as suas aventuras, marcaram-me para sempre.

Pouco depois de nascer o meu filho, e ainda bem longe da idade em que lhe poderia começar a contar a história, comprei, já não sei em que livraria, um exemplar de uma velha edição do "Romance da Raposa". Queria guardá-lo para lho ler logo que crescesse. Passados uns anos encontrei na Bertrand, sua editora original, uma nova edição do livro, agora impresso em bom papel e com as ilustrações no seu original a cores. Mais uma vez não resisti e comprei um exemplar.

Hoje decidi finalmente que era altura de ler o "Romance da Raposa" ao meu filho. Peguei na edição mais recente e comecei. A páginas tantas deparei-me com uma vírgula a mais, entre verbo e complemento. Estranhei, mas admiti que fosse erro meu e prossegui. Pouco depois surge outra gralha: "Quem [sic] nunca te faltaria a asinha de um frango para dar...". Era demais. Impossível. Conferi na edição mais antiga e concluí que a Bertrand conseguiu o feito notável de introduzir gralhas a eito numa reedição. Está verdadeiramente de parabéns. Só não sei se devolva o livro, se lhe faça um auto-de-fé na lareira, num dia frio de inverno, como fiz a uma péssima tradução de Goethe que tive a infelicidade de comprar.

Infelizmente não é caso único no que toca a literatura para crianças. Por exemplo, no "Primeiro Livro de Poesia", uma excelente selecção de poemas feita por Sophia de Mello Breyner Andresen, faltam versos em duas estrofes d'"A Rainha de Kachmir - Serenata de Hilário", de Gomes Leal.

Mas o pior caso, incompreensível para mim, é o livrinho "O Segredo do Rio", de Miguel Sousa Tavares. Não compreendo como pôde o autor publicar um texto tão mau. Alguns exemplos avulsos:
[...] havia sempre fruta fresca durante quase todo o ano.

As pessoas que moravam naquele lugar e na aldeia próxima bebiam daquela água, cozinhavam com ela e pescavam no rio e por isso todos tinham muito cuidado para não sujar o rio, deitando lixo ou outras coisas lá dentro.

De repente ouviu um grande barulho na água atrás de si e voltou-se ainda a tempo de ver um enorme peixe que dava um salto imenso fora de água, todo torcido como se fosse uma bailarina, e, depois de ficar um instante suspenso no ar, olhando tudo à roda, caiu outra vez dentro de água, com um grande estardalhaço, salpicando água até onde estava o rapaz.

Alimento-me de lagartos
[sic] do fundo do rio. [diz o peixe]
Ao fim de alguns parágrafos, armei-me de um lápis e comecei a "corrigir" o texto. Mas foi inútil. A certa altura o absurdo atinge níveis incríveis:
A vida no campo é assim: nos anos de abundância, quando chove muito e nas alturas certas, enchem-se os celeiros e as despensas de comida, todos ficam felizes e há festas nas aldeias a todo o tempo para celebrar as colheitas. Nos anos de seca, os prados ficam secos, a fruta apodrece nas árvores, a caça foge, e as pessoas andam tristes e às vezes passam fome. Tudo o que, mesmo assim, conseguiam produzir, vendiam para as cidades, para poderem comprar as outras coisas que precisavam, como roupa para os filhos e os remédios, para quando eles estivessem doentes. Assim, as pessoas das cidades, que têm sempre comida, julgam que no campo nunca falta nada de comer, mas não é verdade: os camponeses vendem o melhor que têm para a cidade e ficam com os restos e com o pior, que às vezes não lhes chega.
Irrecuperável.

2003-10-05

OMS ataca mortandade nas estradas “To date, road safety has received insufficient attention at the international and national levels [...] This has resulted in part from a lack of information on the magnitude of the problem and its preventability, a fatalistic approach to road crashes, and a lack of political responsibility” (via Lancet) São palavras de Kofi Annan na Assembleia Geral das Nações Unidas. Daí que a OMS tenha dedicado o dia 7 de Abril de 2004, dia mundial da saúde, à segurança nas estradas. Se o assunto o preocupa e quer deitar mãos à obra, apoie a Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados.

2003-10-03

O muito português sentido prático da vida Hoje de manhã fui levar o meu filho à escola. Estacionei a uns 50 metros da entrada, onde havia uma quantidade considerável de lugares. Ao atravessar a avenida, parámos na placa central, na passagem de peões, esperando pelo sinal verde. Instantes depois recebemos uma forte buzinadela, que o meu filho, com a altura dos seus cinco anos, recebeu em cheio nos tímpanos: uma senhora vinha deixar a sua filha e pretendia estacionar no passeio, sobre a passagem para peões, no local onde estávamos. Tentei explicar-lhe que não era razoável nem educado estacionar sobre o passeio, sobre a passagem de peões, buzinando-lhes, ainda por cima com tantos lugares disponíveis. Que eram já 9:00h, que tinha pressa, que os carros atrás do dela já estavam a buzinar por ela estar à espera que nós nos afastássemos. Insisti, falando dos perigos, do sossego a que temos direito, da lei, do exemplo para as crianças. Foi irredutível. Eu é que não tinha sentido prático da vida.

Somos um povo com um enorme sentido prático da vida, a que o já famoso relatório McKinsey chama "informalidade". O caso Martins da Cruz e Lynce mostra até que ponto vai este nosso sentido prático da vida.
Um ministro excepcional O ministro da Ciência e do Ensino Superior, depois de ter reduzido excepcionalmente em 10% o número de vagas no ensino superior, no que foi talvez a medida mais iliberal e estúpida deste governo, e que acompanhou de promessas de maior autonomia universitária para um futuro incerto, terá aparentemente aberto uma excepção a uma excepção para permitir que a filha do ministro dos Negócios Estrangeiros entrasse no curso de Medicina da Universidade Nova de Lisboa. A ser verdade, e tudo indica que o é, exige-se uma excepcionalmente rápida demissão de Pedro Lynce e todos os restantes envolvidos.

2003-09-22

Lucidez Árabe Mais uma vez com origem no MEMRI, um excelente texto sobre a educação no mundo Árabe. Um excerto:
Who are we? Are we the best nation that [Allah] produced for man, or the last in line among the nations? And why?

The religious media and education provide an easy answer: Since we have given up our religion, Allah has given us up. Therefore, let us set out on a campaign of return to Allah; let us return to the Golden Age riding on a belt of explosives - and the first thing it will blow up will be our hopes for a better future...

2003-09-19

Cuba Livre! A autoridade de quem esteve do outro lado da cortina de ferro revela-se num manifesto pela democracia em Cuba e pelo apoio aos dissidentes cubanos. Obrigatório ler.

P.S. Na tradução portuguesa do artigo, as sanções norte-americanas a Cuba são apresentadas primeiro como um embargo, o que é correcto, e depois como um bloqueio, que é o termo errado normalmente usado pelos amigos ou cripto-amigos do regime de Fidel. Teria sido erro dos autores? A versão francesa no Le Monde usa das duas vezes a palavra embargo. Infelizmente não encontrei a versão original, em inglês, mas desconfio fortemente de um lapsus calami do tradutor para português.
O oito de Eduardo Prado Coelho O Fio do Horizonte, de Eduardo Prado Coelho, é um exercício admirável de regularidade. Mas é também um exercício arriscado. Hoje, por exemplo, EPC escreve sobre as posições extremadas relativamente aos incêndios. Cita, como exemplo da "tese dos oitenta", um texto de Vasco Graça Moura onde este disse existir "uma espécie de terrorismo apostado em destruir, degradar, instabilizar estruturas agrárias ou florestais, residências, bens e haveres de gente que, muitas vezes, nada mais tem de seu, e também em atingir, tanto directa como indirectamente, a economia portuguesa". Até aqui tudo bem: a afirmação de Vasco Graça Moura tem realmente muito de teoria da conspiração. Mas depois EPC acusa o director da Tapada de Mafra, Ricardo Paiva, de estar "do lado do oito". É que Ricardo Pais distinguiu entre área ardida e área devastada, que segundo ele corresponde a apenas 70 hectares dos 819 hectares da tapada. Diz EPC que Ricardo Paiva sofre de inabalável optimismo, pois afirma que "o incêndio natural e ambiental chega a ser benéfico, porque ajuda à recuperação das plantas, e logo à alimentação dos animais". Ironiza mesmo sobre o assunto:
Donde, convém que todos os anos se promova um incêndio... natural.
Ora, acontece que, de facto, os fogos podem ser benéficos. Não sou especialista no assunto, é claro, mas as opiniões de Ricardo Paiva não me parecem nada extremadas. Pelo contrário, parecem-me muito sensatas. Quem estiver interessado neste assunto pode experimentar recorrer ao inestimável Google, onde encontrará muita informação sobre regeneração de florestas e fogos controlados. Também se pode ler um artigo interessante sobre os fogos de 1988 no parque de Yellowstone, nos EUA.

2003-09-02

Flores 12 Aldeia da Cuada: os corredores entre os quartos são velhas canadas. A música de fundo é o vento no choupo de outro lado da janela. A solidão triste dos hoteis é aqui uma solidão bela, feita de prados onde pastam vacas.
Flores 11 De novo criança, descobri um velho cedro-do-mato, de tronco retorcido, agarrado à borda de um socalco. No seu tronco horizontal sento-me e fumo uma cigarrilha "Pérola", às escondidas do meu filho, ele sim já adulto, enquanto olho e ouço o mar e o vento à minha frente, e as eternas cascatas, fortalecidas por uma noite de chuva, na encosta atrás. A vida é isto.
Flores 10 Glossário:
Rolo
Praia de grandes calhaus rolados.
Canada
Velho caminho, normalmente empedrado e ladeado de muros de pedra solta.
Fajã
Zona plana fértil, muitas vezes junto ao mar, e resultado de uma quebrada.
Quebrada
Desabamento de terras.
Bagacina
Espécie de saibro natural, ou areão, de pedra vulcânica, com tons entre o preto e o vermelho.
Almoço
Pequeno-almoço.
Jantar
Almoço.
Ceia
Jantar.
Águas-vivas
Alforrecas ou medusas.
Império
Espécie de capela usada nas festas em honra do Espírito Santo.
Flores 9 Os recantos na ilha das Flores não costumam cheirar a urina: chove muito e os florentinos são poucos. Não se encontra lixo pelo chão: o vento leva-o ou a vegetação luxuriante engole-o. Além disso, os florentinos são poucos...
Mentiras As fotografias mentem-nos como as memórias.
Flores 8 O pôr do sol põe em tudo uma luz irreal e que, estranhamente, reduz a paisagem a um único plano. A esplanada do restaurante cheia e o parque de merendas cheio de actividade. Fim-de-semana de Agosto nas Flores. Um verdadeiro quadro de Bruegel, o Velho.

...

O sol pôs-se. A luz que há pouco criava um quadro irreal desapareceu. Agora é tudo mais prosaico. As conversas sem interesse, o cheiro desagradável dos churrascos, o vinho verde que aquece, à espera. Domingo, amanhã. Detesto domingos.
Flores 7 E agora o céu limpo e frio. O ar parado, vibrando apenas com os grilos e os mosquitos do fim da tarde. O sol põe-se. Todos os contornos da ilha estão claros, nítidos, alaranjados, depois de dias ocultos pela neblina. O paraíso.
Delícias simples Quanta felicidade numa torrada de broa a escorrer manteiga...
Águas-vivas Alforreca, árabe, no sul. Medusa, latina, no norte. Água-viva, uma belíssima metáfora, nos Açores.
Flores 6 Chove, chove sempre. A água acumula-se nos altos, forrados de espessos musgos, e filtra-se entre a matéria orgânica e a bagacina. Escorre lentamente, alimentando todo o ano centenas de ribeiras, milhares de cascatas e algumas lindíssimas quedas de água. Na costa, o vento arrefecido pelo mar arrefece por sua vez os basaltos, por onde escorre a bruma. De repente o vento pára. O céu descobre-se. O sol, impiedoso, impera. Os biscoitos, formações complexas e recortadas de basalto negro como carvão, aquecem. A beira mar torna-se um forno. A chuva, bendita, salva os Açores do destino de Cabo Verde.

2003-09-01

Suplício Habituei-me a anotar e sublinhar os livros, a dobrar o canto das páginas. Ler um livro emprestado é um suplício.
Flores 5 Canada dos Paus Brancos, Fajã Grande. Prados separados por muros de pedra solta, negro de basalto coberto ainda da cinza dos líquenes. O ruído do vento atlântico na árvores. O cantar das lavandiscas e dos melros. O voo ocasional de uma narceja. O ar límpido e uma sensação de eternidade. A nossa vida, vista daqui, não tem qualquer importância. As nossas preocupações, as nossas ambições, os nossos anseios tomam as suas verdadeiras proporções: nada de nada.

Em breve esta canada será alargada, asfaltada, destruída. A ideia dói-me. O homem continuará sempre igual a si próprio. As nossas qualidades, a iniciativa, a curiosidade, a incapacidade de estar parado e simplesmente contemplar, são os nossos piores defeitos. O que demorou decénios, mesmo séculos, a realizar, à força de braços e de animais, hoje demora semanas, por vezes dias. O poder não nos trouxe maior sensatez. Ontem conseguimos alterar a natureza, lenta e persistentemente. Hoje destruímo-la rápida e eficazmente.

Mas quem sou eu para criticar, lisboeta de férias?
Flores 4 Porque apreciamos tanto os sinais de miséria e impotência? As belas aldeias de basalto, com as suas ruas estreitas e mal aparelhadas, os muros de pedra solta, as canadas serpenteando entre prados e bosques, à beira das falésias, junto às cascatas, não foram construídas para serem belas. Foram construídas para servir as pessoas. Foram construídas assim porque não havia dinheiro, energia, para mais. Porque não havia tecnologia para as fazer de outra maneira. Se o passado foi de alguma forma benévolo para a natureza (e foi-o sempre menos do que nos parece), foi por impotência e não por intenção.
Peter Singer A filosofia ética de Peter Singer parece estar bem resumida na colecção de textos que ele próprio organizou e publicou sob o título "Writings on an Ethical Life", que recomendo. Nele Peter Singer expõe com habilidade todas as inconsistências do nosso raciocínio moral. Partindo de alguns princípios morais simples, tira conclusões com facilidade e aplica-as à sua própria vida. É, por isso, um filósofo militante, que argumenta contra os maus tratos aos animais e a favor do infanticídio por vontade dos pais até às duas semanas após o nascimento. Tal coerência entre o que se diz e o que faz é, talvez, louvável. Mas igualmente louvável é a atitude dos que, face à dificuldade em dizer a partir de quando um ser se pode dizer verdadeiramente humano, põem a fronteira, prudentemente, na concepção. Acho preferível ao activismo moral convicto de Peter Singer uma atitude de reconhecimento das gradações, dos tons de cinzento, das zonas de sombra no nosso raciocínio. Uma posição de reconhecimento da própria ignorância e, por isso mesmo, prudente. No fundo, acho preferível uma posição conservadora.
Flores 3 As Flores, como todas as ilhas, são caricaturas de sociedades maiores. A ilha das Flores é uma caricatura de Portugal. Disse-o o rapaz culto e pessimista do clube de internet e biblioteca das Lages das Flores, e disse bem. Lá estão as lixeiras a céu aberto, no final de uma canada. Lá estão as máquinas tirando pedra da Ribeira do Ferreiro. Lá está a britadeira, chaga na paisagem entre a Fajãzinha e a Fajã Grande. As extracções de bagacina. A casa do presidente da câmara a 20 metros do mar, poia imunda e infame na paisagem. O encanto da ilha das Flores não dura muito mais. Visitem-na enquanto podem.
Flores 2 A ilha das Flores é uma maravilha verde, húmida e brumosa, sem nada de tropical. Puro atlântico. Mas a maravilha está toda nos nossos olhos, na inacessibilidade dos morros, dos vales, das costas, locais que povoamos com a imaginação. As suas vetustas canadas, preservadas, como tudo na ilha, pelo desenvolvimento tardio da ilha, revelam-nos a custo recantos bucólicos, num misto de montanha, jardim abandonado e mar. Tudo é pequeno e frágil. Mas tudo parece imenso. Os poucos hectares da Fajã Grande, onde o regresso me traz sempre lágrimas aos olhos, parecem enormes. Que haverá ao fundo da cascata? Onde levará aquela velha canada abandonada?

Tudo isto desaparecerá em breve. O presidente da Câmara Municipal das Lages das Flores, num delírio do que ele julgará ser progresso, desenha uma malha densa de estradas pelos morros. Em breve a ilha tomará as suas verdadeiras proporções. Será finalmente o que sempre foi: um pequeno monte de basalto e bagacina, forrado de verde, entre as ondas.
Flores 1 Pior que um regime de pão e água, só mesmo substituir o pão por papo-seco das Flores. Pelo contrário, substituí-lo pelo pão da Sr.ª Elsa Maria C. Ramos Inocência, da Lomba, seria um regime digno de um rei. Como podem os florentinos suportar tais papo-secos é para mim um mistério.
Estupidez necessária Passei quase uma semana em arrumações e mudanças. Embora em rigor a ideia não faça sentido, sinto-me como a ministra das finanças: foi uma forma estúpida, embora necessária, de gastar o meu tempo. Nada pior que ao fim de dias de esforço de organização encontrar tudo no seu lugar. Vaziamente arrumado.
Belas canções

Há já muitos anos, a minha mãe deu-me um single de George Brassens a ouvir. Nunca esqueci "Le parapluie". É simplesmente uma canção perfeita:
Le parapluie

Georges Brassens

Il pleuvait fort sur la grand'route
Elle cheminait sans parapluie
J'en avais un, volé sans doute
Le matin même à un ami
Courant alors à sa rescousse
Je lui propose un peu d'abri
En séchant l'eau de sa frimousse
D'un air très doux elle m'a dit oui.

Un p'tit coin d'parapluie
Contre un coin d'paradis
Elle avait quelque chose d'un ange
Un p'tit coin d'paradis
Contre un coin d'parapluie
Je n'perdais pas au change
Pardi.

Chemin faisant, que ce fut tendre
D'ouïr à deux le chant joli
Que l'eau du ciel faisait entendre
Sur le toit de mon parapluie
J'aurais voulu, comme au déluge
Voir sans arrêt tomber la pluie
Pour la garder sous mon refuge
Quarante jours, quarante nuits.

Mais bêtement, même en orage
Les routes vont vers des pays
Bientôt le sien fit un barrage
A l'horizon de ma folie
Il a fallu qu'elle me quitte
Après m'avoir dit grand merci
Et je l'ai vue toute petite
Partir gaiement vers mon oubli
Zimbabwe, Doris Lessing e o Le Monde Diplomatique

No número Agosto da versão portuguesa do Le Monde Diplomatique (LMD), publica-se um artigo de Doris Lessing sobre o Zimbabwe intitulado "Chora, á Zimbabwe bem amado". A introdução feita pela revista deixou-me desconfiado:
Tendo nascido em 1919 e vivido com os seus pais na Rodésia do Sul (actual Zimbabwe) desde os 6 anos, a escritora britânica Doris Lessing é, antes de mais, conhecida como a militante feminista que abalou as ideias conservadoras com o seu romance de culto The Golden Notebook. Para gerações inteiras, ela foi também uma heróica combatente das injustiças, do colonialismo e do apartheid. Hoje, aos 84 anos, Doris Lessing, afirma sem rodeios a sua decepção em relação ao feminismo, mas também em relação aos dirigentes do Zimbabwe, país por cuja independância ela tanto se bateu. Traça aqui um retrato acusador do tão controverso presidente Robert Mugabe. Um autocrata que mandou prender o seu principal opositor, Morgan Tsvangirai, que depois foi obrigado a libertar. Mas a sua política é também marcada pelas pressões económicas e políticas das potências internacionais.
As últimas frases, claramente desculpabilizantes de Mugabe, que só o LMD poderia classificar como "controverso", não podiam corresponder ao conteúdo do artigo, pensei. Na realidade, o artigo de Doris Lessing não refere nunca tais "pressões".

Estimulado por uma tal introdução, comecei a ler o artigo. Deparei logo com o seguinte troço:
Se Mugabe tivesse tido o bom senso de ouvir estas vozes, teria podido transformar o país. Mas ignorava até que ponto confiavam nele. Tinha demasiado medo de sair da prisão em que se tinha encerrado. Rodeava-se apenas de amigos e de gente de má fé e governava segundo as regras "marxistas" retiradas dos manuais.
As aspas em torno de "marxistas" pareceram-se absurdas. Decidi tentar encontrar a versão original do artigo. Descobri que Doris Lessing publicou um artigo muito semelhante no número de 10 de Abril de 2003 da New York Review of Books (NYRB). (O artigo é pago, mas há uma cópia aqui.) Nele existe um troço semelhante:
If Mugabe had had the the sense to trust what he heard, he could have transformed the country. But he did not know how much he was trusted, because he was too afraid to leave his self-created prison, meeting only sycophants and cronies, and governing through inflexible Marxist rules taken from textbooks.
De facto, as aspas não constavam.

Uma breve comparação dos dois artigos mostra outras diferenças interessantes. Onde o artigo da LMD diz que
O nome de um homem está associado a este desastre. Ou antes, a esta tragédia. O de Robert Mugabe. Contrariamente à reputação de que gozava no início, o presidente do Zimbabwe foi sempre um homenzinho sem envergadura. Levou o país à tragédia. Agora, está fortemente desacreditado. É tarde demais.
o artigo da NYRB diz que
One man is associated with the calamity, Robert Mugabe. For a while I wondered if the word "tragedy" could be applied here, greatness brought low, but Mugabe, despite his early reputation, was never great; he was always a frightened little man. There is a tragedy, all right, but it is Zimbubwe's.

Mugabe is now widely execrated, and rightly, but blame for him began late. Nothing is more astonishing than the silence about him for so many years among liberals and well-wishers—the politically correct. What crimes have been committed in the name of political correctness. A man may get away with murder, if he is black. Mugabe did, for many years.
Ou seja, uma das frases mais fortes do artigo da NYRB, "a man may get away with murder, if he is black", não consta no artigo do LMD. Um outro troço (a negrito em baixo) que não consta no artigo do LMD é pouco elogioso para os governos comunistas:
The racial hatred that Mugabe has fomented will not die. Throughout the period from Independence onward, beginning in 1980, anti-white rhetoric went alongside the Marxist slogans that were as primitive as they would be if Marxism had been invented in Zim-babwe. Yet what everyone remarked on was the amiable race relations, friendliness between whites and blacks, compared to South Africa, where apartheid created such a bitter legacy. Fiery articles in the government press were read in the same perfunctory way as were the public pronouncements of the Soviet government, or any Communist government. The official rhetoric in Zimbabwe was worse than anywhere in Africa—so said a United Nations report. "Never has rhetoric had so little to do with what actually went on."
Será que Doris Lessing escreveu dois artigos semelhantes? Terá ela próprio alterado o artigo da NYRB? Ou terá sido o LMD a truncar e a acrescentar as aspas ao tra(duz)ir livremente o artigo da NYRB? É uma excelente questão.

2003-08-04

Até breve Vou de férias e só volto no final de Agosto. Até lá pode ser que consiga aqui voltar de vez em quando, mas é pouco provável. Entretanto, recomendo que sigam as ligações do lado direito desta página. Boas leituras!

2003-08-02

Público ou Privado e Colectivo ou Individual O MATA-MOUROS escreve sobre o automóvel e a cidade. Concordo essencialmente com o que diz. Acrescento, no entanto, duas observações. A primeira é a de que o simples aumento do preço do estacionamento e a sua cobrança efectiva poderiam ir servindo de dissuasores enquanto não se implementam portagens de acesso ao centro da cidade. A segunda é que convém distinguir claramente entre as opções de transporte público ou privado e colectivo ou individual.

Os transportes colectivos, públicos ou privados, sendo excelentes para determinados tipos de viagens e clientes, são muitas vezes demasiado rígidos. É quase impossível, por exemplo, imaginar uma rede de metro suficientemente densa para ninguém precisasse de andar mais do que cinco minutos a pé nem de mudar de linha mais do que uma vez. Dir-me-ão que exagero nos cinco minutos, que andar a pé faz bem. É verdade. Mas também é verdade que há muita gente que pura e simplesmente não pode andar tanto a pé, tais como idosos, deficientes, etc., e que há condições meteorológicas sob as quais andar cinco minutos a pé é um suplício. Quem andou hoje por Lisboa sabe a que me refiro. Por outro lado, há muita gente que precisa de se deslocar ao longo de percursos que não permitem uma utilização minimamente confortável dos transportes colectivos. Ou seja, o transporte individual contribui para a liberdade e a qualidade de vida do cidadão, embora, sendo privado, incentive os cidadãos a abusarem dele. De facto, se tenho carro, para que vou de metro?

A questão, julgo eu, está na associação errada que fazemos entre individual e privado: um transporte individual não é necessariamente privado. As Bugas em Aveiro e as Bicas em Cascais são os primeiros exemplos de transporte individual e público. É verdade que é necessário dar aos pedais. Mas creio que o futuro virá a demonstrar que a ideia dos automóveis públicos, pagos através de um cartão de utilizador ou outro método qualquer, tem pernas, ou rodas, para andar.
Muro Sem Vergonha De repente, Nuno Ramos de Almeida é um nome que se cruza no meu caminho. Critiquei-lhe um artigo na revista Manifesto no início de Julho. Encontrei "O Passeio dos Blogues", um seu texto certeiro e hilariante no Metablogue. Recebi uma mensagem dele acerca da minha entrada O Santo Ofício, em termos elogiosos que muito me orgulharam e que agradeço. Finalmente, descobri o blogue Muro Sem Vergonha, que mantém com José Neves, cujos textos também já critiquei, e com Luís Moura. Um blogue a prometer muita polémica, certamente. Foi aí, no Muro Sem Vergonha, que encontrei a entrada completa sobre O Passeio dos Blogues. No seu final, Nuno Ramos de Almeida escreve:
Nestas manobras conseguem-se as alquimias mais incríveis. No outro dia um esperto "conseguiu" demonstrar que a maior parte da população dos Estados Unidos da América participa nas eleições. No meio da aritmética criativa esqueceu-se de assinalar que grande parte da população não está sequer recenseada.
Fui um dos que desmontou as afirmações que se vêem fazendo acerca das eleições nos EUA. A minha entrada chamava-se As Contas de Ralf Dahrendorf. Nela calculei, com base em dados oficiais, que nas últimas eleições nos EUA votaram 51,3% dos cidadãos em idade de votar, recenseados ou não. Acontece que 51,3%, não sendo um número nada animador, ainda é "a maior parte da população". Ter-me-ei enganado em alguma conta? Se sim, façam o favor de me dizer onde.
Delírios sobre a Terra e o Sol

Calor. Hoje invejo todos os animais com habitações subterrâneas. Invejo os coelhos. Invejo as toupeiras. A Terra, à superfície, traiu-me. Só nas profundezas mantém a sua eterna frescura. A crosta terrestre ferve. Os mosaicos e os mármores, perversos, aquecem os pés que prometiam arrefecer. Os tubos metálicos da cadeira não se sentem. Negam-se a transmitir aquele arrepio agradável que nunca recusaram até hoje. Os braços, sobre a madeira quente da secretária, deslizam sobre uma camada de suor. Toda a roupa abafa, queima, sufoca. Tirá-la é uma obrigação. Tirá-la é uma desilusão: o ar quente envolve a pele, antes protegida pelo tecido, e parece aquecê-la mais.

A entrada do prédio mantém a sua frescura virginal. Que me impede de lá dormir? Estúpido pudor. A clarabóia, no alto, liberta o ar quente para os céus. A Terra, em baixo, transmite lentamente a sua frescura aos únicos mármores que se me mantêm fieis. Todos os esforços para repelir o Sol, o repelente Sol, que tantos adoram, falharam. "Hoje está bom tempo", dizem, insensíveis criminosos arraçados de lagartos. Tenham dó de um nórdico desterrado! De um amante do vento forte, sobre um mar gelado! Do gelo. Das montanhas.

Saímos do cinema à meia-noite. O ar quente atingiu-nos, violento. O Sheraton ali tão perto... os seus ares condicionados cantavam qual sereias. Porque não me deixei encantar?

2003-08-01

O Santo Ofício Numa Aula Magna criminosamente quente, decorreu ontem à noite a mesa redonda Science and its critics. Confesso que já antes de entrar me admirei com a coragem demonstrada por Boaventura Sousa Santos ao dispor-se a enfrentar um painel que lhe era claramente hostil, com a possível excepção de Desidério Murcho, e uma assistência que seria inevitavelmente dominada por físicos e matemáticos. Terminada a sessão, a minha admiração pela coragem, que não pelas ideias, de BSS aumentou: aguentou o embate, respondeu com inteligência, mesmo quando para se esquivar, e não respondeu a provocações.

A desproporção de forças e alguns ataques menos elegantes transformaram o debate, pelo menos em parte, numa espécie de tribunal do Santo Ofício onde BSS era acusado de ter escrito um livro herético. O livro é "Um discurso sobre as ciências", editado pela Afrontamento em 1987, em 12ª edição, pelo menos.

O debate foi aberto por Alan Sokal, que foi frontal e contundente, sem nunca ser deselegante. Afirmou que o livro de BSS era "misguided from beginning to end" e que não tinha análise, consistindo simplesmente numa (longa) asserção. Propôs que se debatesse se o objectivo da ciência era, como ele crê, usar "rational methods to distinguish true propositions from false propositions".

BSS respondeu dizendo que o livro tinha 17 anos, que as citações dele extraídas careciam de contexto, e que os ataques eram feitos ad hominem. Sugeriu depois alguns temas para o debate, numa tentativa clara de o desviar para o campo ideológico, em que se sente mais à vontade. Segundo ele, uma das perguntas mais importantes a que há que responder é o que fazer com o conhecimento, pois está-se a criar uma sociedade de mercado, para além de uma economia de mercado, que é moralmente repugnante e pode levar a conhecimento imprudente. Ainda segundo BSS, num mundo onde cada vez mais a violência impera, cometem-se não apenas genocídios mas também "epistemicídios", pois se descartam corpos de conhecimento importantes em nome da superioridade do conhecimento científico ocidental. Afirmou apoiar o relativismo cultural, presumo que enquanto sociólogo, e ser opositor do relativismo. Disse ainda não ser subjectivista, até porque isso seria incompatível com o seu "marxist training".

As intervenções de Nuno Crato caracterizaram-se por uma violência e raiva que só seria excedida pela intervenção bastante patética de António Manuel Baptista, que felizmente não fazia parte do painel. Desafiou BSS a declarar preto no branco que partes do seu livro considera hoje certas ou erradas, uma vez que o livro é muito usado nas universidades portuguesas. Referiu ainda que a utilização do teorema de Gödel feita por BSS estava errada, pois este teorema não demonstra de forma alguma que até a matemática é incerta, mas sim que, num sistema formal, há proposições verdadeiras que não se consegue demonstrar dentro desse mesmo sistema.

Desidério Murcho alinhou intelectualmente com os opositores das ideias de BSS, mas revelou enorme contenção e capacidade de estabelecer um diálogo franco. Demonstrou ser alguém com quem podemos contar para debates sérios sobre filosofia. Como a palavra "ciência" tem vários sentidos, propôs que se usasse o sentido mais lato de "rational search for truth". Disse ainda que os critérios de verdade são universais, não havendo critérios científicos diferentes de critérios religiosos, ou de outra qualquer esfera do pensamento.

Jean Bricmont foi o melhor dos painelistas. Argumentou sempre com elevação e evitou todos os ataques ad hominem, centrando-se nas ideias. Perante a afirmação de Sokal de que a ciência era ensinada como um catecismo (todos acreditam que a matéria é constituida por átomos mas pouquíssimos conseguem apresentar alguma prova), argumentou que é inevitável que todos acreditemos em algumas coisas com base em simples argumentos de autoridade, pois se não há esperança de tudo saber, muito menos há de saber justificar todo o conhecimento que se tem.

João Caraça, o moderador, fez o que pôde para manter a balança do debate minimamente equilibrada, mas acabou por ser muito mais verboso que substancial. De positivo fica o ter reforçado a ideia de Nuno Crato de repetir debates sobre a natureza da ciência com uma composição do painel mais equilibrada.

Concluindo, foi um debate por um lado frustrante e pouco edificante, mas por outro estimulante. A demonstrá-lo está o ter ficado em acesa discussão, à porta da aula magna, até à uma hora da manhã.

(Faço esta breve e muito incompleta descrição de memória e com base em algumas notas esparsas. Quem a ler deve-lhe pôr um grão de sal, pois pode bem acontecer que tenha percebido mal alguma das intervenções ou que a memória me atraiçoe. Aliás, aceitam-se correcções, como sempre.)
Falta de Chá Eduardo Prado Coelho, com as férias a aproximar-se e pouco para se dizer, escreve sobre chá no Público. Diz ele que "o chá verde resulta da primeira fase de desidratação da planta, enquanto o chá preto tem a sua origem em folhas ressequidas que um forno aquece". Como descrição do processo de produção do chá preto, deixa alguma coisa a desejar. O forno é usado apenas para secar o chá já fermentado, correspondendo ao passo final do processo, sendo a fermentação o passo onde o chá preto ganha as características que o distinguem do chá verde, tais como a cor e o aroma.

[A despropósito, segundo o Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, a palavra "chá" tem origem no mandarim e no cantonês, enquanto, segundo o Merriam-Webster, a palavra inglesa "tea" tem origem no dialecto de Xiamen, tal como as palavras "thé" (francesa) e "té" (espanhola).]

2003-07-31

Sobre o "Depósito" da Internet... José Luís Borbinha responde ao artigo Depósito obrigatório da internet portuguesa, de Pacheco Pereira. O artigo é longo, mas pode-se resumir numa expressão muito ouvida: falta de meios. Talvez seja verdade. Mas não poderá simplesmente haver alguma falta de iniciativa?
"Blogue Blogue" Diz Eduardo Prado Coelho no Público que um blogue "corresponde à criação de espaços na Internet onde uma pessoa ou um grupo de pessoas se sente autorizado a escrever sobre todos os assuntos que lhe interessarem". Note-se que EPC não diz "autoriza-se" mas sim "sente-se autorizado". Pois bem, eu não "me sinto autorizado" por ninguém a blogar o que entender. Autorizo-me a blogar o que entender. Este espaço é livre. Eu sou livre de escrever neste blogue, todos são livres de o ler ou de o não ler, e todos são livres de criar o seu próprio blogue. Não há qualquer autoridade aqui, só a nossa própria.

Diz ainda EPC que é possível que os blogues não passem de uma moda. Não creio. Os blogues desaparecerão, inevitavelmente, mas quando forem substituídos por outros conceitos ou outras ferramentas com novas valências. A liberdade de expressão profundamente democrática associada aos blogues, essa não desaparecerá.
Um Muro ou uma Vedação? Mahmoud Abbas em entrevista à Newsweek acerca do muro em construção por Israel:
It's a separating wall. It is built on our territories. It will create a de facto border. It is an uncivilized wall. I hope the Israelis remove it... The wall is a kind of settlement.
A construção de um muro não me parece uma má ideia. Um período de separação física entre Israel e a futura Palestina poderia ser muito saudável. Hoje constrói-se o muro. Amanhã destruir-se-á, provavelmente em directo entre vivas e fanfarras, e os seus pedaços serão guardados como recordação de maus tempos que, espero, terão então passado. O pior... O pior é que aparentemente Sharon cedeu: o traçado do muro foi desviado da fronteira de 1967 de modo a envolver alguns colonatos israelitas. Isso é inaceitável e converte o muro num "muro incivilizado", como Abbas lhe chamou. Os colonatos devem ser desmantelados e o muro deve ser construído, mas sem entrar no território da futura Palestina.

Há esperança de que isso venha a acontecer? Estou como o próprio Abbas:
What's your impression of President Bush?
He is direct, to the point. He told us that he will stick to his vision about a Palestinian independent state and Israeli withdrawal to the '67 borders, and I believe that he means what he says.
Ou talvez não, talvez esteja um pouco mais céptico que Abbas. Quero acreditar, mas tenho muitas dúvidas. Duma coisa, no entanto, estou certo: Abbas é a melhor oportunidade para a paz na região dos últimos anos.

2003-07-28

Aristocracias Entrevista ao Ministro da Cultura brasileiro, Gilberto Gil, pelo DNA:
Gosta de ser descendente do deus da Justiça?
   Gosto.
Mais do que qualquer outro deus?
   Não necessariamente, mas me regozijo com a minha ancestralidade.
Fraquezas...
Genial, o Valete!
O Picuinhices teve um surto de visitas. Vindos de onde? Do MATA-MOUROS, que nos referiu como o melhor blogue na sua Revista de Blogues. Ficámos sem palavras. Só nos saiu isto:

Muito obrigado! Bem hajam!
Táxis de Graça para Noctívagos O Expresso anuncia que em breve haverá táxis grátis para os noctívagos lisboetas. A ideia pareceu-me má, por totalmente desresponsabilizante. Mas o pior veio depois: o custo será suportado, pelo menos em parte, pela Câmara Municipal de Lisboa. Isto é um verdadeiro escândalo. O estado não deve alimentar os vícios a ninguém. Se têm dinheiro para beber, poupem para o táxi. Dos meus impostos não.
Porque nos Matamos na Estrada Recebi um convite para o lançamento de um livro com este nome, escrito por Luís Reto e Jorge Sá. Marquei o evento na minha agenda e decidi que não só estaria presente, como também compraria o livro. Ontem comprei o Expresso*: na página 58 da revista Única [e não Actual, como escrevi inicialmente] vinham extractos do livro. Li-os com o interesse acrescido de ser um associado convicto (embora ultimamente demasiado ausente) da ACA-M:
De facto, a velocidade é, como vimos, a transgressão que os condutores portugueses mais admitem praticar, mas que, no entanto, estes não destacam particularmente entre as causa de acidentes, num mecanismo de evidente desculpabilização.

Esta vivência paradoxal da velocidade insere-se numa dimensão profunda das sociedades actuais. Com efeito, é de todos bem conhecido que as nossas sociedades contemporâneas elegeram a velocidade como um dos principais valores. A velocidade, tal como afirma Fiorella Toro (2002), é uma «manifestação de potência, um meio competitivo de diferenciação, uma fonte geradora de produtividade e de mobilidade e, sobretudo, uma componente essencial da gestão do tempo».

Por sua vez, em contraponto, a segurança, que a velocidade põe em risco, é um valor preponderante do Estado, que reivindicamos deste em permanência, mas cuja intervenção rejeitamos sempre que erigimos, como valor primeiro, a nossa liberdade individual.

É devido a esta contradição, que, aliás, os processos de mundialiação e consequente aumento de competitividade não param de agudizar, que se torna particularmente difícil fazer com que os condutores aceitem e interiorizem que a velocidade constitui uma das principais causas dos acidentes rodoviários.
É inteiramente verdade que os portugueses se recusam a admitir a importância da velocidade como potenciadora não só do acidente como da sua gravidade. Aceito que a velocidade seja vista por muitos como um valor e até que isso seja uma característica das sociedades contemporâneas (embora "contemporâneas" aqui tenha provavelmente de abranger mais do que um século). Já me custa mais a admitir a afirmação de que a segurança é um valor preponderante do Estado, por oposição aos indivíduos, e que entre em conflito com a liberdade individual, mesmo quando esta é um "valor primeiro", pois uma verdadeira liberdade implica responsabilidade: na minha opinião não é a liberdade individual que entra em conflito com a segurança, mas sim a irresponsabilidade, pois o que está em causa é, acima de tudo, a vida dos outros utentes da estrada. Agora o que já me parece entrar no domínio da obsessão, é a sugestão de que a mundialização (leia-se "globalização") tem alguma coisa a ver com isto.

Enfim, esperemos pela oportunidade de ler o livro na íntegra. Para já, saúdo a iniciativa dos autores de abordarem este tema que me é caro.

* Sim, sou desses que compram religiosamente o Expresso mas que o lêem entre praguejos e invectivas.

2003-07-27

A imprensa cubana Palavras para quê?
Médio Oriente Vale a pena ler:
Mitos Parte do anti-americanismo que infecta a Europa é baseado em mitos sem qualquer correspondência com a realidade. Noutros casos, baseia-se numa certa incapacidade para nos olharmos ao espelho: é muito mais fácil vermos defeitos nos outros. Por exemplo, na última coluna de Augusto M. Seabra no Público, afirma-se que "por marcadamente inigualitária que seja a democracia americana, ela tem, se calhar como poucas, mecanismos de verificação e controle". É impossível a um bom intelectual europeu fazer um elogio aos EUA sem na mesma frase os criticar. Vejamos, no entanto, se a crítica, que assumo referir-se à disparidade de rendimentos, tem razão de ser. De acordo com o Relatório do Desenvolvimento Humano 2003 das Nações Unidas (ver página 282), são os seguintes os índices de Gini de alguns países (valores de 0 a 100, onde 100 corresponde ao máximo de disparidade):
  • Dinamarca: 24,7 (1997)
  • França: 32,7 (1995)
  • Alemanha: 38,2 (1998)
  • Portugal: 38,5 (1997)
  • Moçambique: 39,6 (1996-1997)
  • China: 40,3 (1998)
  • Estados Unidos: 40,8 (1997)
  • Brasil: 60,7 (1998)
  • Botswana: 63,0 (1993)
Outra forma de observar a disparidade é comparar a percentagem do rendimento ou consumo total correspondente aos 10% mais ricos da população com a correspondente aos 10% mais pobres:
  • Dinamarca: 21,3 / 2,6 = 8,1
  • França: 25,1 / 2,8 = 9,1
  • Moçambique: 31,7 / 2,5 = 12,5
  • China: 30,4 / 2,4 = 12,7
  • Alemanha: 28,0 / 2,0 = 14,2
  • Portugal: 29,8 / 2,0 = 15,0
  • Estados Unidos: 30,5 / 1,8 = 16,6
  • Brasil: 48,0 / 0,7 = 65,8
  • Botswana: 56,6 / 0,7 = 77,6
Se alguma coisa podemos concluir destes números é que a disparidade de rendimentos nos EUA e em Portugal é muito semelhante, embora ligeiramente menor por cá. Se consideramos os EUA "marcadamente inigualitários", temos de fazer o mesmo em relação em Portugal.

2003-07-26

"O Nome e a Coisa"

A intervenção de Saramago no FSP deu já azo a muitos comentários, particularmente na blogosfera. Se regresso ao tema, é porque o último número da edição portuguesa do Le Monde Diplomatique transcreve a intervenção na íntegra. Tem por título "O Nome e Coisa" e o tema é a democracia.

A primeira questão que se deve colocar é de saber se vale a pena comentar as opiniões de alguém com tão pouca autoridade para falar de democracia quanto Saramago. Citemo-lo:
Chegados a esta altura do discurso, é mais do que provável que no espírito de muitos dos que até agora me têm escutado com benevolência principie a despontar a incómoda suspeita de que o orador não tem nada de democrata, o que, como não deixarão de recordar os mais informados, pertenceria ao domínio das verdades óbvias, conhecidas como são geralmente as minhas inclinações ideológicas...
A afirmação é de uma ambiguidade desarmante. Os comunistas têm por hábito apresentar-se como democratas. Terá este comunista finalmente confessado a verdade, que como ele próprio diz, é perfeitamente óbvia? Ou a intenção era a afirmação ser irónica? Seria verdadeiramente irónico um comunista tentar ironizar acerca da sua própria adesão à ideia de democracia... Mas ignoremos por momentos o totalitarismo antidemocrático de Saramago, demostrado pelo seu apoio a regimes como o de Fidel Castro, só há muito pouco tempo por ele posto em causa, e vejamos o que ele tem a dizer sobre a democracia.

O mote da intervenção de Saramago é dado por duas citações da Política de Aristóteles, que aqui reproduzo:
Em democracia, os pobres são soberanos, porque são o maior número, e porque a vontade da maioria é lei.

[...]

A igualdade no Estado pede que os pobres não tenham mais poder que os ricos, que não sejam eles os únicos soberanos, mas que o sejam todos na proporção existente de uns e de outros. Este parece ser o meio de garantir eficazmente ao Estado a igualdade e a liberdade.


Aristóteles, Política, Livro 6, Parte II.
Destas citações, Saramago conclui que não vivemos numa verdadeira democracia:
Se não erro demasiado na interpretação desta passagem, o que Aristóteles nos está a dizer é que os cidadãos ricos, embora participando, com toda a legitimidade democrática, no governo da polis, sempre estariam nele em minoria, por força de uma imperativa e incontestável proporcionalidade. Em algo Aristóteles acertava: que se saiba, ao longo de toda a história, jamais os ricos foram em maior número que os pobres. Mas este acerto do filósofo de Estagira, pura obviedade aritmética, estilhaça-se contra a dura muralha dos factos: os ricos foram sempre aqueles que governaram o mundo ou que sempre tiveram quem por eles governasse. E hoje mais do que nunca.
As obviedades às vezes enganam. De facto, a argumentação de Saramago tem uma série de problemas. O primeiro consiste na dicotomia que estabelece entre cidadãos ricos e pobres. Pelo menos nas sociedades ocidentais actuais, tal dicotomia não faz qualquer sentido. Entre ricos e pobres, que de resto têm uma definição relativa, existe uma enorme classe média. Em Portugal, por exemplo, e de acordo com dados do INE publicados em 2001, a taxa de pobreza era de 23% em 1996 (página 69). Sendo razoável esperar que uma qualquer definição de riqueza não resultasse numa maior percentagem de ricos, pois como próprio Saramago diz "jamais os ricos foram em maior número que os pobres", sobra uma enorme maioria da população portuguesa que, justamente, não é nem rica, nem pobre. É a classe média. São os "odiosos" (pequeno-)burgueses. Parafraseando as palavras de Aristóteles, diríamos que "em democracia, os cidadãos da classe média são soberanos, porque são o maior número, e porque a vontade da maioria é lei".

Mas o ponto principal da argumentação de Saramago é a afirmação de que "os ricos foram sempre [e são hoje mais do que nunca] aqueles que governaram o mundo ou que sempre tiveram [e têm hoje mais do que nunca] quem por eles governasse". A que se refere Saramago? Aos governantes em si? Governam eles para os ricos? São eles ricos? A primeira questão tem a ver com a democracia representativa. A afirmação de Aristóteles de que "os pobres [leia-se a maioria] são soberanos" não se pode entender, à luz de uma democracia representativa, como significando que os governos tenham forçosamente de ser constituídos por cidadãos da classe social maioritária, mas sim que são por eles eleitos, para os representarem. Que é isso que se passa é evidente: de outra forma como poderíamos acusar governos sucessivos de eleitoralismo? Ou não é o eleitoralismo a tentativa desesperada de governar de forma que agrade aos eleitores, com os olhos postos nas próximas eleições? Infelizmente para o argumento de Saramago, nas democracias ocidentais os governos são eleitos essencialmente pela classe média e é para ela que governam. Se são ou não constituídos por cidadãos da classe média é irrelevante.

Mas não estou a ser inteiramente justo. Saramago continua a sua intervenção precisamente pondo em causa a democracia representativa:
Por outras palavras: não será verdade que, no exacto instante em que o voto é introduzido na urna, o eleitor transfere para outras mãos, sem mais contrapartidas que as promessas feitas durante a campanha eleitoral, a parcela de poder político que até esse momento lhe havia pertencido como membro da comunidade de cidadãos?

Parecer-vos-á talvez imprudente este papel de advogado do Diabo que aqui pareço assumir, começando por denunciar o vazio instrumental que nos sistemas democráticos separa aqueles que elegeram daqueles que foram eleitos, para logo a seguir, e sem recorrer à argúcia retórica de uma transição preparatória, passar a interrogar-me sobre a pertinência e a propriedade efectivas dos distintos processos políticos de delegação, representação e autoridade democrática. Será esta uma razão mais para que nos detenhamos um pouco a ponderar o que a nossa democracia é e para que serve, antes de pretendermos, como se tornou obsessão do tempo, que ela se torne obrigatória e universal.

[...]

Observando agora as coisas mais de perto, creio poder concluir que sendo o acto de votar, objectivamente, pelo menos em uma parte da população, uma forma de renúncia temporal a uma acção política própria e permanente, adiada e posta em surdina até às eleições seguintes, altura em que os mecanismos delegatórios voltarão ao princípio para da mesma maneira virem a terminar, ela, essa renúncia, poderá ser, não menos objectivamente, para a minoria eleita, o primeiro passo de um processo que, estando justificado pelos votos, não raras vezes persegue, contra as baldadas esperanças dos iludidos votantes, objectivos que de democráticos nada têm e que poderão, até, chegar a ofender a lei.
Saramago tem razão quando diz que os cidadãos abdicam do poder, pelo menos parcialmente, ao eleger os seus representantes. Também tem razão quando diz que os eleitos podem trair a confiança dos eleitores. É justamente por isso que há eleições regulares, bem como um conjunto de poderes que se equilibram e controlam mutuamente. Isto significa, naturalmente, que a democracia representativa tem problemas. Mas, serão esses problemas maiores ou menores que uma qualquer forma de democracia directa? Como pôr em prática uma democracia mais directa? Através do recurso regular ao referendo, como na Suíça? Saramago não dá pistas.

Para aumentar o efeito retórico dos defeitos da democracia representativa, Saramago não hesita em recorrer aos clichés habituais, que negam toda a evidência de crescimento económico, redução da pobreza e aumento do bem-estar que tem ocorrido na generalidade dos países possuidores do tipo de democracia por ele criticado:
Porém, a amarga experiência de todos os dias mostra-nos que o exercício de amplas áreas de poder [...] se encontra nas mãos desses [corruptos e corruptores] e de outros criminosos, ou dos seus mandatários directos e indirectos. Nenhum escrutínio, nenhum exame microscópico dos votos anónimos lançados numa urna seria capaz de tornar visíveis, por exemplo, os sinais denunciadores das relações de concubinato entre os Estados e os grupos económicos internacionais cujas acções delituosas, incluindo aqui as bélicas, estão a levar à catástrofe o planeta em que vivemos.
É evidente que a democracia representativa precisa de se ir refinando, precisa de ser melhorada continuamente. O que é menos claro é que Saramago tenha realmente algum contributo a fazer nesta matéria. Que propõe ele de concreto na intervenção? Apenas a democracia directa e uns conceitos dúbios como os de democracia económica e de democracia cultural. De resto, limita-se a enunciar os defeitos, alguns bem reais, das democracias representativas ocidentais, concluindo erroneamente que não se deveria tentar exportar um modelo defeituoso de sistema político. A conclusão é errónea pela simples e bem conhecida razão, tantas vezes esquecida quanto memorizada por ser óbvia, de que não se conhece melhor alternativa:
Também insistentemente se afirma que a democracia é o menos mau sistema político de todos os sistemas inventados até hoje, e não se repara que talvez esta conformidade resignada com uma coisa que se contenta com ser a "menos má" seja o que nos anda a travar o passo que nos conduziria para algo "melhor".
As aspas são apropriadas. Primeiro, porque o reconhecimento da democracia como o melhor dos sistemas políticos existentes não nos impede de o refinar continuamente, como de resto tem vindo a acontecer. Depois porque o sistema "melhor" a que Saramago se refere é o sistema comunista, de que o mundo se libertou quase totalmente, e em boa hora, e que foi causador de enormes injustiças, de mortes em massa e de infelicidade generalizada. Mas para Saramago os factos são outros:
Enfrentemos, portanto, os factos. O sistema de organização social que até aqui temos designado como democrático tornou-se cada vez mais uma plutocracia (governo dos ricos) e cada vez menos uma democracia (governo do povo). É impossível negar que a massa oceânica dos pobres deste mundo, sendo geralmente chamada a eleger, não é nunca chamada a governar [...]
Saberá Saramago que a "massa oceânica dos pobres deste mundo" não é chamada a votar, justamente? Que as democracias, com as suas imperfeições, estão infelizmente longe de serem o sistema político dominante? Mesmo admitindo que Saramago se enganou, e que se refere na realidade aos países democráticos, o argumento não colhe, pois aí, como já foi dito, os pobres são felizmente minoritários.

Finalmente, é curioso o argumento usado por Saramago para justificar que os pobres, supostamente maioritários nas democracias, não se auto-elejam: "os pobres nunca votariam num partido de pobres porque um partido de pobres não teria nada para lhes prometer". Apetece dizer que têm muito bom senso. Não há partidos "de pobres". Se algum se apresentar como tal, é de desconfiar.

2003-07-25

Opus Gay: Cliques e Claques Subscrevo integralmente o artigo do Pedro Mexia n'O Independente. Sugiro a quem não o fez que compre o semanário.
Comunicado Extratos de comunicado do Gabinete da Presidência da Câmara Municipal de Lisboa:
É fácil atirar números cá para fora que, aliás, não correspondem à verdade. É que dos 500 contestatários anunciados durante todo odia, é interessante que se perceba que 10 (somente uma dezena) não se podem confundir com meio milhar.

[...]

A pergunta que estas "movimentações" levantam é só uma: será que vale tudo por uma mentira?
E depois queixam-se quando acusam Santana Lopes de falta de cultura. Com textos destes a sair do seu gabinete...
Pseudo-ciência O que mais me desgosta no Público é vir acompanhado ao Sábado pela inacreditável XIS. A revista é um verdadeiro hino à pseudo-ciência. Até aí tudo bem, tem todo o direito de o ser. O problema é que psiquiatras como Daniel Sampaio se dispõem a colaborar na revista, emprestando-lhe respeitabilidade, lado a lado gente como Maria José Costa Felix, que assina a coluna "Outra Porta". Para se perceber do que falo, seguem-se alguns extractos dessa coluna:
Rita Benamor Murteira relata o caso de uma mulher que, no decorrer de uma terapia [sacro-craneana], no momento em que teve a sensação de ter "um bloqueio gigantesco nos pulmões", percebeu que, quando era miúda, sentia que o facto de ser muito alegre, aberta e audaciosa incomodava os outros membros da família, que eram completamente o contrário. Era como se não se pudesse expandir. Decidiu então apagar-se e foi através da respiração que o fez.

Como ela não se podia expandir, os pulmões também não se expandiam. E, obviamente, desenvolveu problemas respiratórios. A asma que tinha fora provocada por um quisto energético nos pulmões.
Note-se que isto não é ficção. É a descrição de uma "terapia" feita por uma "terapeuta" sobre um paciente real (e ingénuo). Quando se confundem metáforas com a realidade dá nisto.

Digno de nota é também o tom autoritativo com que Maria José Costa Felix dá uma aparência de ciência à fantasia mais completa:
Devido à força gravitacional que exerce sobre a terra, a Lua influi nos líquidos e nas águas existentes, não só nas suas camadas subterrâneas como no também [sic] interior das plantas e do nosso corpo, portanto na nossa própria saúde. Influindo de forma especial em todos os processos de fecundação, actua sobre o metabolismo, o apetite e a assimilação do que comemos ou bebemos. Daí que tenha um papel importante sobre a manutenção do nosso peso. Como a Lua regula as subidas e descidas de qualquer ciclo, é mais fácil engordarmos quando a energia está a caminho do seu ponto mais alto, na fase crescente, do que quando o ciclo está na fase descendente, ou seja, em quarto minguante. Quem não quiser engordar, convém atender a este pormenor...
Ou ainda:
Tudo o que implique limpar, esfregar ou lavar o corpo, a alma ou, até, a nossa casa é muito mais eficaz e fácil de realizar durante as duas semanas da fase de qurto minguante da lua do que durante a de quarto crescente.

O mesmo acontece, como ficou dito, em relação às probabilidades de êxito das intervenções cirúrgicas, que são muito maiores, sendo mais curto o processo curativo. Por incrível que nos pareça, as feridas não sangram tanto e é menor a probabilidade cicatrizarem mal. Uma boa cicatriz, para além de uma simples questão estética, também tem a capacidade de potenciar o fluxo de energia no corpo.
Seria hilariante se não fosse trágico: é que pode haver quem tome isto a sério.
Relatório do Desenvolvimento Humano 2003 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento é extenso e é denso. Mas vale a pela ler, nem que seja na diagonal.

2003-07-24

Science and its critics No próximo dia 31 de Julho, às 21:30h, na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa, uma mesa redonda com:
  • João Caraça (moderador)
  • Jean Bricmont
  • Nuno Crato
  • Desidério Murcho
  • Boaventura de Sousa Santos
  • Alan Sokal
A mistura é explosiva, o combate promete ser duro, a entrada é livre e a ida é obrigatória.

2003-07-23

Via o nosso Valete Frates !, a melhor fonte de informação da blogosfera portuguesa, e também via Jaquinzinhos, os resultados da primeira sondagem no Iraque pós-Saddam. Reportagem no Spectator (explicações sobre a aventura de fazer os inquéritos numa zona ainda turbulenta aqui). Os resultados demonstram o enorme bom senso dos iraquianos. Não seria de esperar outra coisa.
O Blogger comeu-me uma entrada inteira! Parecia que o mundo tinha ruído. Só ao fim de uns minutos desesperantes consegui encontrar uma cópia num recanto obscuro do computador. Porque diabo nos agarramos tanto ao que escrevemos?

2003-07-20

Os Novos Milenarismos Em destaque no Público de hoje, "dez analistas americanos e cinco portugueses escolhem 15 assuntos preocupantes aos quais não é dada a devida atenção". Segundo João Gomes Cravinho, o assunto mais preocupante é o das tecnologias de modificação genética. Vejamos porquê:
A profunda e sistemática tentativa de usar a globalização para criar um mundo ao serviço dos Estados Unidos é de longe a maior ameaça à segurança planetária. Complexo e multifacetado, este processo inclui, entre tantos outros aspectos, a introdução de tecnologias de modificação genética (MG) para controlar a produção agrícola internacional.

Os efeitos de curto e longo prazo no ambiente e na saúde pública contêm incógnitas preocupantes, mas admitamos que a ciência poderá, com tempo, ultrapassá-las. A questão central, contudo, não é essa, como se poderá perceber pela tremenda pressão política exercida por Washington nesta matéria. O que se pretende é a transformação dos mercados agrícolas mundiais em algo de parecido com o mercado farmacêutico, gerando lucros pela via de patentes colocadas sobre produtos sem alternativa.

A introdução de culturas MG arrasa as culturas naturais, permitindo criar dependências sobre produtos necessários para a sobrevivência das culturas, fornecidas pelas mesmas empresas biotecnológicas. Dizer que desta maneira se poderá resolver a fome no mundo é de uma má fé a toda a prova, até porque há longos anos que se sabe que a fome resulta de má distribuição e não de falta de produção.

Sejamos claros: enquanto tecnologia a MG não é má em si mesmo. Depende do uso que se lhe dá. Em teoria poderia ser benéfico para agricultores pobres, aumentando a produção e a resistência das culturas. Mas se a tecnologia fosse usada para esses efeitos altruístas não produziria os lucros que interessam a quem a promove. O que está à vista é a destruição cínica da capacidade agrícola dos países pobres, condenando a uma morte certa milhares ou milhões que não terão os recursos para praticar esta nova agricultura. Serão mortos sem nome, mas as mortes não serão menos reais por isso.
Os esforços de décadas de empresas como a Monsanto, o seu enorme investimento na investigação e no desenvolvimento de organismos geneticamente modificados (OGM), são vistos por Cravinho como parte integrante de uma estratégia dos EUA de controlo da agricultura mundial. A mera hipótese de que se trate de uma empresa privada, com fins lucrativos, que desenvolveu bons produtos e como tal os consegue vender em proveito próprio, não chega. Tem de haver um objectivo escondido: o "controlo da agricultura mundial". A afirmação é absurda, claro está. Não são apenas as empresas americanas a desenvolver OGM. O chamado "arroz amarelo", por exemplo, foi desenvolvido por cientistas suíços, e na própria França o Sr. José Bové foi preso por ter destruído campos de ensaio de OGM. Mas sigamos o raciocínio de Cravinho.

Segundo ele "os efeitos de curto prazo no ambiente e na saúde pública contêm incógnitas preocupantes, mas admitamos que a ciência poderá, como tempo, ultrapassá-las". Parece-me uma posição mais sensata. Os testes e ensaios realizados até hoje parecem demonstrar maioritariamente a segurança dos OGM em comercialização, dos quais o mais paradigmático é o milho Bt (Bacillus thuringiensis). Acenar com os seus possíveis perigos, por mais remotos que pareçam neste momento, em nome de um tal princípio da precaução, é simplesmente uma receita para a inacção, como tão bem denunciou Guy Sorman no seu Le Progrès et ses Ennemis, já aqui citado. O que há a fazer, como resumiu Lomborg, é uma análise séria e factual dos custos e benefícios de cada acção com possível impacte sobre a saúde humana ou sobre o ambiente. Sendo os possíveis perigos dos OMG já comercializados uma possibilidade tão remota, e sendo tão evidentes os seus benefícios no aumento de produtividade, na grande redução de utilização de pesticidas utilizados (como é o caso do milho Bt) ou até na melhoria da saúde das populações (caso do arroz amarelo), restam poucas dúvidas de que as autorizações dadas pelas autoridades americanas revelam maior bom senso que as posições ambíguas da Comissão Europeia a este respeito.

Ainda segundo Cravinho, "Washington" "pretende [...] a transformação dos mercados agrícolas mundiais em algo de parecido com o mercado farmacêutico, gerando lucros pela via de patentes colocadas sobre produtos sem alternativa". Este discurso deixa transparecer o preconceito esquerdista habitual de que o que gera lucros é necessariamente imoral. Note-se que Cravinho não refere que essa mesma indústria farmacêutica desenvolve e comercializa todos os fármacos de que depende em grande medida a cada vez melhor saúde das populações. Sem a iniciativa e o investimento dessas empresas não se estaria hoje a discutir se os preços dos fármacos que permitem melhorar a vida dos seropositivos é ou não demasiado caro para os povos que deles mais precisam neste momento. É perfeitamente razoável que as empresas tentem proteger através de patentes o seu investimento em investigação. Não é objectivo das empresas farmacêuticas resolver os problemas do mundo, embora para tal possam contribuir. Esse papel cabe aos governos e às organizações internacionais.

Cravinho diz também que os produtos baseados em OGM não têm alternativa. A afirmação é estranha, até porque implícita no discurso de Cravinho está uma alternativa clara: os produtos tradicionais, as culturas sem modificação genética. Mas talvez Cravinho queira dizer que não haverá alternativa porque quem utilizar os produtos tradicionais deixará de ser competitivo. Se assim for, inclino-me a concordar. Mas é caso para perguntar: qual é o problema? Não tem sido a história da humanidade uma história do desenvolvimento de novos produtos que tornam os anteriores obsoletos? A verdade é que dessa forma, através de uma evolução contínua, atingimos os níveis de desenvolvimento actuais, muito longe ainda de serem os humanamente aceitáveis, mas infinitamente melhores do que num passado não muito remoto.

Segundo Cravinho, a introdução de culturas geneticamente modificadas "arrasa as culturas naturais, permitindo criar dependências sobre produtos necessários para a sobrevivência das culturas, fornecidas pelas mesmas empresas biotecnológicas". Cravinho refere-se provavelmente ao produto Round-up Ready Soybeans, uma soja geneticamente modificada pela Monsanto de modo a resistir ao herbicida Roud-up, produzido da própria Monsanto. A verdade, no entanto, é que é possível continuar a usar soja não-GM, tal como é possível não usar Round-up de todo. É o que faz a chamada agricultura biológica. Tem o seu nicho de mercado (no qual incoerentemente me incluo, note-se), constituído por consumidores dispostos a pagar por produtos mais caros e frequentemente de pior qualidade. Porque o problema é esse. Os produtos da Monsanto e empresas congéneres permitem reduzir custos, aumentar colheitas e, como tal, aumentar os lucros dos produtores, levando também a produtos mais baratos para os consumidores finais. Quando Cravinho afirma, indignado, que "dizer que desta maneira se poderá resolver a fome no mundo é de uma má fé a toda a prova, até porque há longos anos que se sabe que a fome resulta de má distribuição e não de falta de produção", ataca um moinho de vento. Ninguém disse que a o problema da fome iria ser resolvido pelos OGM. Mas poderão dar algum contributo, por pequeno que seja, para a sua redução.

Diz ainda Cravinho que "enquanto tecnologia a MG não é má em si mesmo", que "depende do uso que se lhe dá" e que "em teoria poderia ser benéfico para agricultores pobres, aumentando a produção e a resistência das culturas". Não podia concordar mais (embora retirasse o "em teoria"...). O problema é que para ele:
se a tecnologia fosse usada para esses efeitos altruístas não produziria os lucros que interessam a quem a promove.
Acontece que o objectivo da tecnologia é, de facto, "aumentar a produção e a resistência das culturas", trazendo no processo lucro à empresa que desenvolve os OGM. Que Cravinho afirme que esse lucro é incompatível com benefícios "para agricultores pobres" é que revela bem a prisão ideológica em que se encerrou. Os benefícios que o milho Bt, por exemplo, pode trazer aos agricultores são perfeitamente compatíveis com o lucro da Monsanto, tal como os benefícios que qualquer agricultor tira da compra de um tractor são compatíveis com o lucro do respectivo fabricante.

Cravinho continua afirmando que:
O que está à vista é a destruição cínica da capacidade agrícola dos países pobres, condenando a uma morte certa milhares ou milhões que não terão os recursos para praticar esta nova agricultura. Serão mortos sem nome, mas as mortes não serão menos reais por isso.
Tanto quanto se pode depreender do texto, o problema seria a redução do preço dos produtos agrícolas nos países desenvolvidos e a consequente impossibilidade de concorrência dos agricultores dos países pobres. O argumento é falacioso. Seria como argumentar que o desenvolvimento e comercialização de tractores condenaria à morte os agricultores de países mais pobres. Do que precisamos, isso sim, é que todos os agricultores, de países pobres ou não, possam aceder a melhores tecnologias, OGM incluídos. Do que se precisa não é de menos OGM: é de mais OGM, de mais globalização e de menos barreiras alfandegárias ou de subsídios aos agricultores dos países ricos.

2003-07-18

Sobreposições Um cartaz novo sobrepõe-se a um caduco: "Como Evitar a Guerra: Faça Yôga".
Se "o genoma humano tem arquivado o dinossauro", que estará arquivado no nosso memoma?
BHL às vezes ainda acerta Personagem controverso, extraio duas notas certeiras do seu Bloc-Notes:

Les GI à Monrovia ? Mais oui. Bien sûr. Le voilà, le vrai devoir d'ingérence. Le voilà, le devoir des nations face à l'appel des peuples maintes fois martyrs. Ici, dans cette Afrique douloureuse et presque sortie, déjà, de l'Histoire universelle, pas d'erreur de cible, pas de tromperie sur le siècle - l'urgence, la vraie, celle de prêter assistance à peuples en danger.

[...]

Propos de Tony Blair : le plus tragique, pour la gauche européenne, ce serait de se refonder sur la double pierre d'angle de l'antilibéralisme et de l'antiaméricanisme. En effet. Double version du socialisme des imbéciles.

2003-07-17

Vénia Agradecemos as palavras elogiosas do Veto Político. Bem haja!
Depósito obrigatório da internet portuguesa Pacheco Pereira argumenta a favor de um arquivo digital da internet portuguesa. Aparentemente já existe um arquivo à escala global. Chama-se Internet Archive, e permite recuperar páginas desde 1996, embora com algumas surpresas desagradáveis de vez em quando. Veja-se, por exemplo, o Expresso Online de 18 de Setembro de 2001.
Fotografia Recomendo uma visita à exposição Vivem no campo, adoram a cidade: fotoetnografias na Etiópia, com fotografias de Marie Hernandez e Catherine Henrietteque. Está no CCB e foi organizada pelo nosso maior apaixonado pela Etiópia: Manuel João Ramos. Ao contrário do que o programa do CCB indica, a exposição abre ao público hoje, 17 de Julho.
Uma mina de informação The Library of Economics and Liberty

2003-07-15

Temos Blogue! Chegou o Catalaxia, blogue liberal. Começou logo, e bem, por um tema que me é caro: o financiamento do ensino superior.
Globalização vista pelos países mais pobres Artigo interessante no YaleGlobal Online:
A recent worldwide poll may have come as a shock to those who view the anti-globalization demonstrations as emblematic of a general souring mood about global economic integration. The Pew survey found that not only was the attitude generally positive but there was more enthusiasm for foreign trade and investment in developing countries than in rich ones.
Leitura obrigatória.

2003-07-14

Via o Arts & Letters Daily, um artigo interessante do Wall Street Journal acerca dos dilemas das intervenções humanitárias. O mote é dado pela Libéria, com o Iraque em pano de fundo.
A logística de Ana Gomes Ana Gomes preferia que Portugal não mandasse a GNR para o Iraque. Até aqui tudo bem. Não concordo, mas reconheço a coerência. O pior vem depois, quando Ana Gomes sugere que somos "borlistas" (portoghesi):
Em finais de Junho a partida da GNR foi adiada, por inadequação e insuficiência de meios para operar no terreno. O ministro da Administração Interna admitiu que estariam a ser pedidos carros blindados às forças italianas, que também assegurariam a alimentação dos portugueses. Potenciador do "prestígio" externo de Portugal ao melhor estilo Barroso-Portas, este recurso aos italianos, ao menos, respeita a tradição: a dos "borlistas", termo que em italiano é "portuguesi" [sic]...
Parece-me óbvio que seria um absurdo o contingente da GNR não se apoiar logisticamente nas outras forças que actuam no Iraque. Fazê-lo é uma simples questão de bom senso económico. Mas Ana Gomes acha que isso nos qualifica como "borlistas". Mesmo que o apoio dos italianos não seja pago, o que duvido, não se pode fazer uma tal acusação: ir para o Iraque não é propriamente como ir a uma festa. Ana Gomes não resistiu a forçar o trocadilho com portoghesi. O trocadilho saiu-lhe coxo e com um erro de ortografia.
Acrescento ainda que a última coluna de Fernando Ilharco é clara como água.
Direito de Resposta Resposta de Fernando Ilharco a uma entrada no Picuinhices sobre um texto seu (a entrada original reproduz-se no final da resposta):
Umas notas sobre Fernando Ilharco:

"Contextualizado por um monumental enquadramento do que existe, como Heidegger aponta a essência da moderna tecnologia, no âmbito de um sistema não apenas de informação mas genuinamente de comunicação, de ajuste e de acoplamento estrutural e essencial entre o dentro e o fora, entre todas as diferenças que nos rodeiam e afectam, o que existe e que conta, o ser em si mesmo, é-nos revelado."

a) Nada alguma vez nos disse que o que existe, ou seja, o que é, sendo, seja quer o que hoje entendemos que a história nos deixou, quer o que o futuro nos deixa entender que somos, quer o que os nossos sentidos humanos percepcionam; aliás, hoje em dia, os avanços de uma boa parte da ciência, precisamente as exactas, as que mais apelam 'teoricamente' aos sentidos humanos – aos dados empíricos – assentam na percepção de aspectos da realidade, do que existe, só possiveis de ser captados pela tecnologia, o que significa obviamente que tais dados não são necessariamente captados conforme ao que existe, mas sim conforme aquela mesma tecnologia;

b) É evidente que o que o homem é hoje, é com/na/pela/através da tecnologia; essa tecnologia, em termos do que lhe é essencial, ou seja do que é comum e decisivo a todo o tipo de manifestações, de instrumentos, de mecanismos, etc., que nós mesmos – cada um de nós – reconhece como tecnologia, dizia eu, em termos do que lhe é essencial, a tecnologia é um enquadramento ordenador e eficiente do que existe – Ge-stell, Enframing, Com-posição ... (Heidegger, The Question Concerning Technology). Essa é a essência da moderna tecnologia, segundo Heidegger.

c) O ponto é que a tecnologia, entendida no quadro acima referido em b) e a), não é algo que venha a assentar numa qualquer realidade previamente acedida, entendida, ou tomada; antes pelo contrário, a tecnologia é ela mesma um modo específico de revelar o que existe. O modo como hoje surge o ser, o que existe, o que vai sendo, o que nos interessa e conta na nossa vida – um blog, uma aspirina, um mergulho no mar ... – é já um surgir em termos tecnológicos....
... mesmo o pensar em perceber algo, dirigido a uma plena e final satisfação do entendimento do ser humano singular, pode às vezes não ser mais do que pensar tecnologicamente...

d) A referência à comunicação visa indicar o carácter fundador do comunicar, do estar com os outros, do homem como ser social; factos amplamente referidos por variadas tradições filosóficas e/ou científicas. A comunicação é o que nos ajusta ontologicamente, faz-se ser o que somos, num mundo modelado e desenvolvido na e pela comunicação.

e) O dentro e o fora foi talvez algo mais forçado... queria à frente no texto a ideia, mas... Ela é esta: você, no seu mundo, é o único que está dentro; tudo o resto e todos os outros estão fora; o que está fora, por seu lado, não é o que está fora do seu mundo conforme ao seu mundo, mas sim o que está dentro nos mundos de outros em que você está fora – a ideia, muito por alto é essa e penso que tem potencial de exploração....

Era o que queria dizer quando escrevi, o que abaixo invertendo a estrutura da frase, transcrevo:

"O que conta, o ser em si mesmo, contextualizado por um monumental enquadramento do que existe, como Heidegger aponta a essência da moderna tecnologia, é-nos revelado no âmbito de um sistema não apenas de informação mas genuinamente de comunicação, de ajuste e de acoplamento estrutural e essencial entre o dentro e o fora, entre todas as diferenças que nos rodeiam e afectam."

Espero ter clarificado de algum modo a questão.

Boas leituras
Fernando Ilharco
A entrada original no Picuinhices era:
Fernando Ilharco Todas as semanas tento ler a coluna de Fernando Ilharco no Público. Nunca consegui, apesar do esforço. Gostava de saber, sinceramente, se alguém a lê, tirando o próprio. E, sobretudo, se entende o que lá está escrito. Por exemplo, agradecem-se explicações acerca do sentido da seguinte frase:
Contextualizado por um monumental enquadramento do que existe, como Heidegger aponta a essência da moderna tecnologia, no âmbito de um sistema não apenas de informação mas genuinamente de comunicação, de ajuste e de acoplamento estrutural e essencial entre o dentro e o fora, entre todas as diferenças que nos rodeiam e afectam, o que existe e que conta, o ser em si mesmo, é-nos revelado.


Trad... explicações para Picuinhices@yahoo.com.br.

2003-07-12

O Picuinhas identifica-se com o Calvin no Público de ontem:
O que é que tu achas que aquelas nuvens parecem?
Uma série de partículas suspensas de água e gelo... Porquê?
...
Toda a gente odeia os "literalistas".
Defesa do Iluminismo? José Miguel Júdice assina no Público um artigo em defesa do iluminismo. O artigo é interessante e na generalidade certeiro. Mas há alguns pontos com os quais não posso concordar. Quando José Miguel Júdice diz que o facto de 71% dos portugueses acharem que "se as leis não forem 'justas e lógicas' não são para cumprir" é assustador e muito perigoso para o Estado de Direito, concordo plenamente. Creio mesmo que a nossa "flexibilidade" na interpretação da lei, "flexibilidade" essa que se estende a quem é suposto fazê-a cumprir, é um dos nossos factores de atraso civilizacional. Mas José Miguel Júdice afirma que o mesmo perigo para o estado de direito decorre também de "79% [dos portugueses acharem] que quem abuse sexualmente de menores deve ter penas superiores ao máximo legal (entre os quais 53% querem a pena de morte ou a prisão perpétua!) e [de] 81% também [quererem] mais de 25 anos de prisão para homicídios". Ora, não faz sentido afirmar que a pena máxima de 25 anos corresponde à fronteira entre a civilização e a barbárie (José Miguel Júdice diz que tais opiniões revelam um "arcaísmo regressivo"). Quantos países mais civilizados que o nosso têm penas máximas superiores e mesmo prisão perpétua ou até pena de morte? Será que 25 anos de prisão para um homicida é apropriado, mas 30 são já uma "punição selvática"? Pessoalmente sou contra a pena de morte, mas não me parece saudável pôr a questão nos termos em que José Miguel Júdice a põe. Até porque a premissa por trás da imposição de uma pena máxima, apoiada implicitamente por José Miguel Júdice, é a de que todos os criminosos são regeneráveis e por isso socialmente reintegráveis. Recorro de novo a Steven Pinker, e ao seu The Blank Slate, onde se analisam estudos que parecem demonstrar em certos casos a regeneração pode ser impossível. A questão civilizacional, ao contrário do que José Miguel Júdice diz, está muito menos nas penas máximas previstas pela lei, e muito mais na sua aplicação prática. Enquanto em Portugal os períodos de prisão preventiva efectivos se forem prolongando, mais a mais sem possibilidade de defesa por parte do arguido, estaremos muito mais em estado de "barbárie" do que noutros países onde a pena perpétua (ou mesmo a pena de morte) existe e é aplicada.
Na Feira do Artesanato do Estoril, há uma banca que vende artigos religiosos da Terra Santa. Parámos para ver. O vendedor era persuasivo e simpático. Entrou em conversa connosco:
Todos os artigos vêm da Palestina. Eu também sou palestino. Sou de Belém!
Bela terra!
Com a guerra...
Mas as coisas agora estão melhores por lá, ou não?
Ah! Eles foram só pôr gasolina a Jerusalém e logo voltam...
Espero bem que não.
Respondi sem convicção.

2003-07-11

Presunç?o

Presunção
Aldónio: Rui, tens de parar de ler artigos para a tese! A partir de agora tens apenas que escrever aquilo que sabes.
Rui: Ena, porreiro! Daqui a duas horas tenho a tese terminada.

2003-07-10

Mortos na Estrada: A Receita Francesa O Le Monde divulga os resultados da política convicta do governo francês contra as mortes na estrada: menos 18,1% mortos e menos 17,1% feridos graves num ano. De que estamos à espera para usar a mesma receita? Retirar 18% aos cerca de 1500 mortos anuais nas nossas estradas sempre seriam menos 270 funerais ao longo do ano... Mas não há esperança. O nosso Plano Nacional de Prevenção Rodoviária é de uma timidez confrangedora, pois prevê atingir em 2010 a média europeia de sinistralidade entre 1998 e 2000. Mesmo que em 2010 atingíssemos esse objectivo, continuaríamos a ter a pior taxa de sinistralidade da europa: a média europeia não irá ficar à nossa espera.
A Teoria da Submissão de Fernando Rosas, no Público, tem uma interessante teoria sobre a crise económica:
É preciso dizer que a presente crise é fruto de uma verdadeira recessão programada pelos interesses económicos e pela governação da direita. O prolongamento da crise internacional obriga o capital a recorrer a métodos radicais de procurar restaurar as suas taxas de lucro e acumulação.

[...]

É de uma recessão pretendida que estamos a falar, não de uma inabilidade ocasional de ministros incompetentes.
Mas afinal, pretendida porquê? Que interesse poderia haver em produzir uma recessão? Simples: "o governo do PSD-PP não podia esperar melhor respaldo para a sua ofensiva anti-social". Ou seja, segundo Fernando Rosas, a recessão actual foi provocada pelos governos de direita para facilitar as suas ofensivas anti-sociais e prejudicar propositadamente os mais pobres, beneficiando os mais ricos no processo.

Já imagino a nossa Manuela Ferreira Leite esfregando as mãos maldosamente, preparando o plano secreto que tornaria a desejada recessão possível. Imagino também os urros de alegria que o executivo soltou em uníssono quando ouviu as declarações do governador do Banco de Portugal a anunciar finalmente a tão desejada recessão.

Recomendo a Fernando Rosas a utilização da Navalha de Occam para aparar as suas teorias: Pluralitas non est ponenda sine neccesitate, ou seja, a pluralidade não deve ser colocada sem necessidade. Esta navalha é o melhor remédio para quem acredita em teorias da conspiração.