2003-10-16

2003-10-15

Flores 13

"Cedros-do-mato sobre musgão", Flores, Agosto de 2003

2003-10-14

O que eu queria ter dito sobre as propinas Está tudo nos artigos de Mário Pinto e de Rui Verde no Público de ontem. Tiraram-me as palavras da boca.

2003-10-13

Traduções apressadas O Público traduziu um artigo pouco interessante de Ralf Dahrendorf. A versão original do artigo pode ser encontrada no The Straits Times, de Singapura. A comparação entre os dois mostra até que ponto as traduções são negligenciadas nos nosso jornais. Um só exemplo: "those who could, left the Soviet zone and settled in the West; those who could not, faced the sullen existence of subjects rather than citizens" transformou-se em "quem pôde abandonou a zona soviética e instalou-se na parte ocidental, aqueles que não conseguiam enfrentar a existência sombria de serem sujeitos em vez de cidadãos". Ou seja, "súbditos" transformou-se em "sujeitos"...

2003-10-12

De novo a ciência Para os interessados nas "controvérsias científicas", ficam duas sugestões. A primeira é um debate na Livraria Almedina, na próxima sexta-feira, dia 17 de Novembro, às 19h, onde se procurará responder à pergunta "Há Filosofia Anticientífica?". Os participantes são Jorge Dias de Deus, Guilherme Valente e João Caraça. A segunda é uma conferência de Jean-Michel Berthelot, intitulada "Débats et Controverses Scientifiques", que terá lugar no ISCTE às 18h do dia 28 de Outubro.
Céu

A criança olha
Para o céu azul.
Levanta a mãozinha.
Quer tocar o céu.

Não sente a criança
Que o céu é ilusão:
Crê que o não alcança,
Quando o tem na mão.

Manuel Bandeira

2003-10-10

Hans Blix Vale a pena ler a entrevista de Hans Blix ao Le Monde. A sensatez usual:
A la lumière du rapport de l'ISG, comment jugez-vous la position de MM. Bush et Blair ?

Il me semble qu'ils sont embarrassés par le fait qu'il n'existe toujours pas de preuves de l'existence d'ADM en Irak. Il est possible d'affirmer que l'Irak serait devenu, dans un certain nombre d'années, une menace. Mais le régime ne pouvait pas agir à sa guise, en raison des inspections de l'ONU. Les Etats-Unis affirment qu'ils avaient le droit de mener une guerre préventive, mais sur la base de quoi ? Je ne leur reproche cependant pas d'avoir été de mauvaise foi. Ils ne savaient pas tout.

Croyez-vous que M. Bush et M. Blair aient menti ?

Non, le mensonge implique la conscience. On peut leur reprocher d'avoir déformé ou surinterprété les faits, pas d'avoir menti.
Errar Há uns tempos, numa conversa com um amigo, dei a minha opinião acerca de um decisão importante para ele. Ficou perplexo: aquilo que eu opinava ser uma má ideia era justamente aquilo que eu tinha feito, quando numa situação equivalente à dele. Mas a verdade é que errar não retira a autoridade a ninguém. Aliás, o erro confere a autoridade da experiência. É a persistência no erro que a retira.
Os abraços a Paulo Pedroso O caso interessa-me pouco, confesso. Se o refiro é apenas porque algumas críticas à forma calorosa como Paulo Pedroso foi recebido pelos dirigentes do PS me parecem exageradas. É evidente que o PS, enquanto partido, não se deve pronunciar acerca do caso, muito menos como o fez no passado, com acusações de uma cabala contra o PS. Mas daí até sugerir que os dirigentes do PS se deveriam abster de receber com alegria e emoção um amigo libertado da prisão, vai um longo passo. É da natureza humana que se criem amigos junto daqueles com quem trabalhamos todos os dias. E um amigo não se abandona.

2003-10-09

Uma tolice? Francisco Sarsfield Cabral escreve no DN sobre a dimensão do estado. Diz ele que
O «Estado mínimo» é uma tolice. Quanto mais mercado, mais Estado é preciso para o regular, ao contrário do que alguns liberais ainda pensam. Repare-se na implacável justiça dos Estados Unidos, país do mercado, sempre que é posta em causa a sã concorrência.
Naturalmente que todas as afirmações simplistas como dizer que é preciso um "estado mínimo" ou que é necessário "mais estado" são tolas se tomadas à letra. Mas todos sabemos que o "estado mínimo" dos liberais inclui naturalmente um bom sistema de justiça. "Mínimo", para um liberal, significa que o estado não actua como jogador no mercado, apenas como árbitro, e que como árbitro é simultaneamente implacável e discreto, actuando apenas onde é efectivamente necessário. Para apelidar esta posição de tola há que usar melhores argumentos.

2003-10-08

A demência dos calendários de avaliação universitários Chegou-me às mãos um relato que mostra bem uma das características mais estúpidas do sistema universitário português: a avaliação e seus calendários. Em Abril passado já me tinha referido a este assunto a respeito do ISCTE, pelo que não faço mais comentários. Limito-me a dizer que alterei todos os nomes e que o docente que escreve este relato lecciona as disciplinas A e B:

Muitas vezes o principal encontra-se nos detalhes. Durante este mês de Setembro o meu contacto com a secretaria e com os alunos revelou-se prolífico de detalhes surpreendentes. A exposição segue a habitual ordem cronológica.

-1 - O Prof. P, presidente do departamento, avisa-me da lista de alunos inscritos em época especial de exames, indicando-me que tenho um aluno, trabalhador estudante, inscrito em B e um aluno, dirigente associativo, inscrito em A. Porém, a inscrição deste dirigente associativo está "ainda condicional pois o processo não está formalizado a 100%, não tendo ainda data definitiva marcada, embora já se saiba que terá lugar de 1 a 6 de Setembro". Até aqui tudo perfeito.

0 - O Prof. P e o Prof. Q (coodenador da disciplina e director da licenciatura) sugerem que, como os alunos de A e de B são distintos, os exames podem realizar-se no mesmo dia. Tudo perfeito até aqui. A partir de agora é que surgem os contactos com a secretaria e os contactos com os alunos.

1 - O aluno de B contacta-me para marcar um horário de dúvidas comigo para a época especial de trabalhador estudante e para saber a data do exame. Marcamos uma data provisória, pois aguardo ainda o contacto do aluno de A. Porém, o aluno de A não me contacta, apesar de avisos na página da disciplina para o fazer.

2 - Tento confirmar na secretaria as inscrições dos alunos. O de B está correctamente inscrito (estudante trabalhador). O de A fez o pedido, mas a inscrição ainda não está válida, pois a secretaria ainda não recebeu uma acta da associação de estudantes (não percebi se para provar que é dirigente associativo, se para provar que no dia de um dos exame das épocas normais ele tinha estado impossibilitado de ir ao exame). A situação é pois a de ter um aluno inscrito em B e um outro "semi-inscrito" em A. Estamos na véspera do início da semana da época especial, a gestão de salas da instituição quer que eu marque os exames, mas não o posso fazer. A secretaria diz que o normal é os alunos contactarem os docentes para marcarem uma data de exame, que deve haver um acordo a respeito das datas.

3 - Apesar do aluno de A não me contactar, marco os dois exames para quinta-feira (mesmo local e hora), penúltimo dia da época especial, para dar tempo para o aluno de A me contactar e para a secretaria resolver a inscrição pendente deste aluno "fantasma".

4 - Durante a semana de Época Especial tenho:
  • uma tarde de horário de dúvidas com o aluno de B;
  • uma tarde a preparar o exame de B;
  • de esperar até à véspera por um contacto do dirigente associativo para saber se devo fazer o exame ou não;
  • de elaborar o exame de A de véspera, não vá o dirigente associativo aparecer...
  • uma tarde a vigiar o exame de B.
5 - Sobre o ponto 4 há a acrescentar que o aluno de A (dirigente associativo) não aparece e que o aluno de B (estudante trabalhador) quer desistir após uma hora de exame. Apesar de encorajado para continuar, entrega no fim do tempo um exame avaliado em seis valores.

6 - Depois desse exame, encontro durante o percurso para o gabinete um outro aluno, que nunca me tinha aparecido em nenhuma aula de B, mas que já me tinha surgido antes da 2ª época a dizer que só lhe faltava B para acabar o curso, que queria umas aulas de dúvidas para essa 2ª época e que tinha desistido do exame 30 minutos depois de o começar. Não me lembrava que ele tinha nessa altura prometido aparecer em época especial. Ora, eu acabo de sair da época especial de B (e supostamente também de A) há minutos e ele não apareceu! Esclareceu-se tudo em três frases:
- Oh professor, então em Dezembro lá estarei!
- Dezembro?!
- Sim, na época especial para estudantes finalistas!
7 - Entrego a pauta provisória de B na secretaria e assino a pauta final no mesmo dia. Porém, sempre com simpatia, fico a saber que:
  • afinal o aluno de A "não faltou";
  • que ele ainda tem a inscrição pendente (falta a tal acta);
  • que só quando estiver a situação regularizada é que me irá contactar para fazer o exame;
  • que o exame deve ser combinado para uma data que esteja compreendida numa janela temporal de 60 dias após a inscrição;
  • que ele pode sempre pedir outro exame de 60 em 60 dias!
  • que o que acabou de ocorrer foi a época especial para estudantes trabalhadores;
  • que a época especial para estudantes finalistas é em Dezembro;
  • que a época especial para dirigentes associativos é quando lhes apetecer, repetida de dois em dois meses, presumo que até obterem aprovação!
8 - Como é de suspeitar, as surpresas ainda não terminaram. O aluno de B envia-me uma mensagem a lamentar-se que realmente lhe correu mal o exame e a perguntar se não é possível fazer outro! Respondo que não há qualquer possibilidade legal de marcar mais avaliações este ano lectivo. Lembrei que houve em B:
  • um teste a meio do semestre ao qual faltou;
  • uma frequência, com repetição do primeiro teste onde obteve sete valores (logo, 3,5 valores no final);
  • um exame de 1ª época, com repetição dos dois testes, ao qual faltou;
  • um exame de 2ª época, com nova repetição dos dois testes, no qual obteve 3,0 valores;
  • uma época especial de trabalhador estudante, onde obteve 6,3 valores, o que o excluiu de aceder a uma oral.
A impossibilidade de marcar mais um exame é legal, mas acima de tudo é uma questão de igualdade de todos os alunos no acesso à avaliação.

9 - Não, ainda não terminou! Finalmente o aluno o dirigente associativo contacta-me: pede desculpa por nunca me ter dito nada (andei semanas às escuras, sem saber quando haveria um exame de um "fantasma semi-inscrito"!). Marcamos o exame. É para daqui a poucos dias (felizmente o exame já foi redigido para a outra vez).

10 - Na véspera, recebo uma mensagem do aluno de A, dirigente associativo. A secretaria contactou-o informando-o que afinal a inscrição não era válida, pois ainda não haviam decorrido 60 dias desde a última data de avaliação (que presumo que seja a data da 2ª época normal)!

Andámos mais de um mês com isto tudo e afinal a inscrição que não seria válida senão depois da chegada da tal acta da associação de estudantes... era impossível, pois o aluno nunca se poderia ter inscrito durante Setembro! O exame de A para o dirigente associativo nunca poderia pois ter coincidido com a época para o trabalhador estudante de B, que tem datas fixas. Desde o início que a secretaria laborava num erro.

Notas finais:

O estudante trabalhador que vai pedindo exames sucessivos frequentou praticamente todas as aulas de B ao longo de todo o semestre, sendo a entidade empregadora a empresa do pai. Pareceu-me sempre um aluno muito interessado, e é com pena que vejo o seu fraquíssimo desempenho no semestre, acreditando mesmo que o pico de trabalho só surgiu durante a época de exames, tal como ele afirma. A existência legal de certas inibições face à existência de graus de parentesco existe em tantas outras coisas: familiares a avaliar em concursos públicos, atestados médicos de médicos familiares, etc. Parece haver uma lacuna de legislação no caso dos estudantes trabalhadores. Mas este nem é o ponto mais relevante...

O aluno de A terminou a mensagem de anulação do exame do dia seguinte dizendo que lá para o meio de Outubro me irá contactar, pois nessa altura, seguindo a secretaria, já será possível pedir a época especial para dirigentes associativos. Uma espécie do hollywoodesco "I'll be back!". O finalista também já prometeu para Dezembro que "he'll be back"...

Termino com uma sugestão de alteração ao vasto articulado do estatuto da carreira docente universitária, no que respeita às funções do docente. Proponho um ponto único com algumas alíneas de regulamentação:

Artigo único

Ao docente universitário incumbem duas actividades: leccionar aulas e avaliar alunos. A primeira actividade deve desenrolar-se segundo os calendários da instituição, ocupando de 6 a 9 horas semanais. O docente tem o dever de permanecer na segunda actividade durante o tempo restante, segundo o seguinte articulado:
  • a) O docente deve permanentemente pensar na nota de cada aluno de uma forma personalizada, atendendo às características psico-sociológicas particulares de cada um.
  • b) Deve proceder a uma avaliação destas características e propor um método de avaliação específico a cada aluno, o qual deverá ser discutido com ele por forma a envolvê-lo no seu projecto didáctico específico.
  • c) O docente deve estar disponível para responder com um processo de avaliação ajustado aos dias que o aluno se sinta apto, certificando-se previamente que a existência do acto não acarretará consequências traumáticas ao aluno.
  • d) Para cada acto de avaliação acordado segundo c), o docente deve, nos horários de dúvidas associados, fazer resumos de toda a matéria da cadeira, garantindo igualdade de acesso aos conhecimentos a quem não teve disponibilidade para frequentar as aulas.
  • e) Deve ainda reiterar antes do início da prova que ela poderá ser repetida logo que o avaliando o deseje, a qualquer dia e hora, no mesmo local ou noutro espaço mais simpático, porventura com elementos naturais (como o mar ou um jardim) que contrabalancem e minorem o trauma da avaliação.
Em tudo tento encontrar um átomo de lógica, mesmo que polvilhada pelos muitos factores humanos. Mas há uma pergunta para a qual nem um átomo dela encontro: por que será que as três épocas especiais para os três estatutos de alunos (trabalhadores, finalistas e dirigentes associativos) não são coincidentes (mesmo que uma delas seja repetível de 2 em 2 meses)? Não é para responder...
"A globalização explicada aos jovens... e aos outros" Quem "explica" é José Jorge Letria, num livrinho com este título publicado há cerca de um ano pela Terramar. O livro passou despercebido, como acontece a quase todos os livros "para jovens". Sem mais comentário, seguem alguns extractos:
Uma coisa é hoje clara para praticamente toda a gente: a globalização, na sua vertente económica, tem contribuído substancialmente para tornar os ricos muito mais ricos e os pobres muito mais pobres [...]

O que torna a globalização condenável é justamente a circunstância de transformar a ganância e o lucro em valores absolutos, através de uma concepção económico-social que não deixa lugar para a solidariedade e não dá voz aos mais desfavorecidos, que são cada vez em maior número.

[Diálogo entre pai e filho:]

— Porque é que tu achas que isso
[os actos violentos durante as manifestações anti-globalização] acontece?

— Porque há organizações políticas que ficaram sem espaço nem expressão pública nos últimos anos e que aproveitam estas ocasiões para radicalizarem as suas formas de protesto.

— E o que é que tu achas que pode ser feito para evitar que isso aconteça?

— Não tenho uma resposta para essa pergunta, até porque estamos num período de transição da política tradicional para novas formas de fazer e organizar a vida política e ninguém sabe como irão ser essas formas nas próximas décadas. No fundo, estamos a viver uma quase revolução e, nas revoluções, há sempre excessos que só o tempo e o bom senso dos seres humanos permite moderar e corrigir.
[...]

[...]

[...] Entretanto, todo este debate ganhou uma nova dimensão depois dos atentados terroristas de 11 de Setembro.

— Porquê?

— Porque o próprio terrorismo se tornou global e transnacional, usando os meios da globalização para finaciar as suas acções. Eles, os terroristas, usaram a especulação em várias Bolsas para conseguirem dinheiro para acções cada vez mais destrutivas, imprevisíveis e assustadoras.
[...]

[...]

[...] Normalmente, o conceito e a palavra [globalização] são usados no seu sentido económico, valorizando a ideia de que há um mercado global cujas regras são impostas pelos mais poderosos e em relação ao qual os consumidores e os trabalhadores são meros elementos passivos, sendo que os trabalhadores dos países mais pobres nem consumidores podem ser, pois vivem, em muitos casos, com cerca de um euro por dia, o que equivale a dois cafés ou a uma sanduíche ou a pouco mais de um litro e meio de leite. Este mercado global ignora as fronteiras e as economias nacionais e expande-se por onde quer e como quer, despedindo trabalhadores, desmantelando e deslocalizando fábricas e empresas e semeando a insegurança social.

— Mas sempre houve tendência para que isso acontecesse, ou não houve?

— Tendência houve, mas não existiam condições de concretização.

— Porquê?

— Porque havia os regimes comunistas do Leste, e nesses mercados não entravam ou entravam muito pouco os produtos de outros países. Só com a queda do Muro de Berlim a situação começou a alterar-se, e também com a entrada da República Popular da China para a grande rede do comércio mundial, com o apoio dos Estados Unidos, que viram ali não só o maior mercado mundial, mas também o maior criador de produtos baratos para abastecer certos mercados.
Etc.

2003-10-07

Incompetências O "Romance da Raposa", de Aquilino Ribeiro, é provavelmente a melhor obra de literatura portuguesa escrita para crianças. Recordo-me bem de ouvir a história pela boca da minha mãe. A raposa Salta-Pocinhas "matreira, fagueira, lambisqueira" e as suas aventuras, marcaram-me para sempre.

Pouco depois de nascer o meu filho, e ainda bem longe da idade em que lhe poderia começar a contar a história, comprei, já não sei em que livraria, um exemplar de uma velha edição do "Romance da Raposa". Queria guardá-lo para lho ler logo que crescesse. Passados uns anos encontrei na Bertrand, sua editora original, uma nova edição do livro, agora impresso em bom papel e com as ilustrações no seu original a cores. Mais uma vez não resisti e comprei um exemplar.

Hoje decidi finalmente que era altura de ler o "Romance da Raposa" ao meu filho. Peguei na edição mais recente e comecei. A páginas tantas deparei-me com uma vírgula a mais, entre verbo e complemento. Estranhei, mas admiti que fosse erro meu e prossegui. Pouco depois surge outra gralha: "Quem [sic] nunca te faltaria a asinha de um frango para dar...". Era demais. Impossível. Conferi na edição mais antiga e concluí que a Bertrand conseguiu o feito notável de introduzir gralhas a eito numa reedição. Está verdadeiramente de parabéns. Só não sei se devolva o livro, se lhe faça um auto-de-fé na lareira, num dia frio de inverno, como fiz a uma péssima tradução de Goethe que tive a infelicidade de comprar.

Infelizmente não é caso único no que toca a literatura para crianças. Por exemplo, no "Primeiro Livro de Poesia", uma excelente selecção de poemas feita por Sophia de Mello Breyner Andresen, faltam versos em duas estrofes d'"A Rainha de Kachmir - Serenata de Hilário", de Gomes Leal.

Mas o pior caso, incompreensível para mim, é o livrinho "O Segredo do Rio", de Miguel Sousa Tavares. Não compreendo como pôde o autor publicar um texto tão mau. Alguns exemplos avulsos:
[...] havia sempre fruta fresca durante quase todo o ano.

As pessoas que moravam naquele lugar e na aldeia próxima bebiam daquela água, cozinhavam com ela e pescavam no rio e por isso todos tinham muito cuidado para não sujar o rio, deitando lixo ou outras coisas lá dentro.

De repente ouviu um grande barulho na água atrás de si e voltou-se ainda a tempo de ver um enorme peixe que dava um salto imenso fora de água, todo torcido como se fosse uma bailarina, e, depois de ficar um instante suspenso no ar, olhando tudo à roda, caiu outra vez dentro de água, com um grande estardalhaço, salpicando água até onde estava o rapaz.

Alimento-me de lagartos
[sic] do fundo do rio. [diz o peixe]
Ao fim de alguns parágrafos, armei-me de um lápis e comecei a "corrigir" o texto. Mas foi inútil. A certa altura o absurdo atinge níveis incríveis:
A vida no campo é assim: nos anos de abundância, quando chove muito e nas alturas certas, enchem-se os celeiros e as despensas de comida, todos ficam felizes e há festas nas aldeias a todo o tempo para celebrar as colheitas. Nos anos de seca, os prados ficam secos, a fruta apodrece nas árvores, a caça foge, e as pessoas andam tristes e às vezes passam fome. Tudo o que, mesmo assim, conseguiam produzir, vendiam para as cidades, para poderem comprar as outras coisas que precisavam, como roupa para os filhos e os remédios, para quando eles estivessem doentes. Assim, as pessoas das cidades, que têm sempre comida, julgam que no campo nunca falta nada de comer, mas não é verdade: os camponeses vendem o melhor que têm para a cidade e ficam com os restos e com o pior, que às vezes não lhes chega.
Irrecuperável.

2003-10-05

OMS ataca mortandade nas estradas “To date, road safety has received insufficient attention at the international and national levels [...] This has resulted in part from a lack of information on the magnitude of the problem and its preventability, a fatalistic approach to road crashes, and a lack of political responsibility” (via Lancet) São palavras de Kofi Annan na Assembleia Geral das Nações Unidas. Daí que a OMS tenha dedicado o dia 7 de Abril de 2004, dia mundial da saúde, à segurança nas estradas. Se o assunto o preocupa e quer deitar mãos à obra, apoie a Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados.

2003-10-03

O muito português sentido prático da vida Hoje de manhã fui levar o meu filho à escola. Estacionei a uns 50 metros da entrada, onde havia uma quantidade considerável de lugares. Ao atravessar a avenida, parámos na placa central, na passagem de peões, esperando pelo sinal verde. Instantes depois recebemos uma forte buzinadela, que o meu filho, com a altura dos seus cinco anos, recebeu em cheio nos tímpanos: uma senhora vinha deixar a sua filha e pretendia estacionar no passeio, sobre a passagem para peões, no local onde estávamos. Tentei explicar-lhe que não era razoável nem educado estacionar sobre o passeio, sobre a passagem de peões, buzinando-lhes, ainda por cima com tantos lugares disponíveis. Que eram já 9:00h, que tinha pressa, que os carros atrás do dela já estavam a buzinar por ela estar à espera que nós nos afastássemos. Insisti, falando dos perigos, do sossego a que temos direito, da lei, do exemplo para as crianças. Foi irredutível. Eu é que não tinha sentido prático da vida.

Somos um povo com um enorme sentido prático da vida, a que o já famoso relatório McKinsey chama "informalidade". O caso Martins da Cruz e Lynce mostra até que ponto vai este nosso sentido prático da vida.
Um ministro excepcional O ministro da Ciência e do Ensino Superior, depois de ter reduzido excepcionalmente em 10% o número de vagas no ensino superior, no que foi talvez a medida mais iliberal e estúpida deste governo, e que acompanhou de promessas de maior autonomia universitária para um futuro incerto, terá aparentemente aberto uma excepção a uma excepção para permitir que a filha do ministro dos Negócios Estrangeiros entrasse no curso de Medicina da Universidade Nova de Lisboa. A ser verdade, e tudo indica que o é, exige-se uma excepcionalmente rápida demissão de Pedro Lynce e todos os restantes envolvidos.

2003-09-22

Lucidez Árabe Mais uma vez com origem no MEMRI, um excelente texto sobre a educação no mundo Árabe. Um excerto:
Who are we? Are we the best nation that [Allah] produced for man, or the last in line among the nations? And why?

The religious media and education provide an easy answer: Since we have given up our religion, Allah has given us up. Therefore, let us set out on a campaign of return to Allah; let us return to the Golden Age riding on a belt of explosives - and the first thing it will blow up will be our hopes for a better future...

2003-09-19

Cuba Livre! A autoridade de quem esteve do outro lado da cortina de ferro revela-se num manifesto pela democracia em Cuba e pelo apoio aos dissidentes cubanos. Obrigatório ler.

P.S. Na tradução portuguesa do artigo, as sanções norte-americanas a Cuba são apresentadas primeiro como um embargo, o que é correcto, e depois como um bloqueio, que é o termo errado normalmente usado pelos amigos ou cripto-amigos do regime de Fidel. Teria sido erro dos autores? A versão francesa no Le Monde usa das duas vezes a palavra embargo. Infelizmente não encontrei a versão original, em inglês, mas desconfio fortemente de um lapsus calami do tradutor para português.
O oito de Eduardo Prado Coelho O Fio do Horizonte, de Eduardo Prado Coelho, é um exercício admirável de regularidade. Mas é também um exercício arriscado. Hoje, por exemplo, EPC escreve sobre as posições extremadas relativamente aos incêndios. Cita, como exemplo da "tese dos oitenta", um texto de Vasco Graça Moura onde este disse existir "uma espécie de terrorismo apostado em destruir, degradar, instabilizar estruturas agrárias ou florestais, residências, bens e haveres de gente que, muitas vezes, nada mais tem de seu, e também em atingir, tanto directa como indirectamente, a economia portuguesa". Até aqui tudo bem: a afirmação de Vasco Graça Moura tem realmente muito de teoria da conspiração. Mas depois EPC acusa o director da Tapada de Mafra, Ricardo Paiva, de estar "do lado do oito". É que Ricardo Pais distinguiu entre área ardida e área devastada, que segundo ele corresponde a apenas 70 hectares dos 819 hectares da tapada. Diz EPC que Ricardo Paiva sofre de inabalável optimismo, pois afirma que "o incêndio natural e ambiental chega a ser benéfico, porque ajuda à recuperação das plantas, e logo à alimentação dos animais". Ironiza mesmo sobre o assunto:
Donde, convém que todos os anos se promova um incêndio... natural.
Ora, acontece que, de facto, os fogos podem ser benéficos. Não sou especialista no assunto, é claro, mas as opiniões de Ricardo Paiva não me parecem nada extremadas. Pelo contrário, parecem-me muito sensatas. Quem estiver interessado neste assunto pode experimentar recorrer ao inestimável Google, onde encontrará muita informação sobre regeneração de florestas e fogos controlados. Também se pode ler um artigo interessante sobre os fogos de 1988 no parque de Yellowstone, nos EUA.