2003-09-01
Estupidez necessária Passei quase uma semana em arrumações e mudanças. Embora em rigor a ideia não faça sentido, sinto-me como a ministra das finanças: foi uma forma estúpida, embora necessária, de gastar o meu tempo. Nada pior que ao fim de dias de esforço de organização encontrar tudo no seu lugar. Vaziamente arrumado.
Belas canções
Há já muitos anos, a minha mãe deu-me um single de George Brassens a ouvir. Nunca esqueci "Le parapluie". É simplesmente uma canção perfeita:
Há já muitos anos, a minha mãe deu-me um single de George Brassens a ouvir. Nunca esqueci "Le parapluie". É simplesmente uma canção perfeita:
Le parapluie
Georges Brassens
Il pleuvait fort sur la grand'route
Elle cheminait sans parapluie
J'en avais un, volé sans doute
Le matin même à un ami
Courant alors à sa rescousse
Je lui propose un peu d'abri
En séchant l'eau de sa frimousse
D'un air très doux elle m'a dit oui.
Un p'tit coin d'parapluie
Contre un coin d'paradis
Elle avait quelque chose d'un ange
Un p'tit coin d'paradis
Contre un coin d'parapluie
Je n'perdais pas au change
Pardi.
Chemin faisant, que ce fut tendre
D'ouïr à deux le chant joli
Que l'eau du ciel faisait entendre
Sur le toit de mon parapluie
J'aurais voulu, comme au déluge
Voir sans arrêt tomber la pluie
Pour la garder sous mon refuge
Quarante jours, quarante nuits.
Mais bêtement, même en orage
Les routes vont vers des pays
Bientôt le sien fit un barrage
A l'horizon de ma folie
Il a fallu qu'elle me quitte
Après m'avoir dit grand merci
Et je l'ai vue toute petite
Partir gaiement vers mon oubli
Zimbabwe, Doris Lessing e o Le Monde Diplomatique
No número Agosto da versão portuguesa do Le Monde Diplomatique (LMD), publica-se um artigo de Doris Lessing sobre o Zimbabwe intitulado "Chora, á Zimbabwe bem amado". A introdução feita pela revista deixou-me desconfiado:
Estimulado por uma tal introdução, comecei a ler o artigo. Deparei logo com o seguinte troço:
Uma breve comparação dos dois artigos mostra outras diferenças interessantes. Onde o artigo da LMD diz que
No número Agosto da versão portuguesa do Le Monde Diplomatique (LMD), publica-se um artigo de Doris Lessing sobre o Zimbabwe intitulado "Chora, á Zimbabwe bem amado". A introdução feita pela revista deixou-me desconfiado:
Tendo nascido em 1919 e vivido com os seus pais na Rodésia do Sul (actual Zimbabwe) desde os 6 anos, a escritora britânica Doris Lessing é, antes de mais, conhecida como a militante feminista que abalou as ideias conservadoras com o seu romance de culto The Golden Notebook. Para gerações inteiras, ela foi também uma heróica combatente das injustiças, do colonialismo e do apartheid. Hoje, aos 84 anos, Doris Lessing, afirma sem rodeios a sua decepção em relação ao feminismo, mas também em relação aos dirigentes do Zimbabwe, país por cuja independância ela tanto se bateu. Traça aqui um retrato acusador do tão controverso presidente Robert Mugabe. Um autocrata que mandou prender o seu principal opositor, Morgan Tsvangirai, que depois foi obrigado a libertar. Mas a sua política é também marcada pelas pressões económicas e políticas das potências internacionais.As últimas frases, claramente desculpabilizantes de Mugabe, que só o LMD poderia classificar como "controverso", não podiam corresponder ao conteúdo do artigo, pensei. Na realidade, o artigo de Doris Lessing não refere nunca tais "pressões".
Estimulado por uma tal introdução, comecei a ler o artigo. Deparei logo com o seguinte troço:
Se Mugabe tivesse tido o bom senso de ouvir estas vozes, teria podido transformar o país. Mas ignorava até que ponto confiavam nele. Tinha demasiado medo de sair da prisão em que se tinha encerrado. Rodeava-se apenas de amigos e de gente de má fé e governava segundo as regras "marxistas" retiradas dos manuais.As aspas em torno de "marxistas" pareceram-se absurdas. Decidi tentar encontrar a versão original do artigo. Descobri que Doris Lessing publicou um artigo muito semelhante no número de 10 de Abril de 2003 da New York Review of Books (NYRB). (O artigo é pago, mas há uma cópia aqui.) Nele existe um troço semelhante:
If Mugabe had had the the sense to trust what he heard, he could have transformed the country. But he did not know how much he was trusted, because he was too afraid to leave his self-created prison, meeting only sycophants and cronies, and governing through inflexible Marxist rules taken from textbooks.De facto, as aspas não constavam.
Uma breve comparação dos dois artigos mostra outras diferenças interessantes. Onde o artigo da LMD diz que
O nome de um homem está associado a este desastre. Ou antes, a esta tragédia. O de Robert Mugabe. Contrariamente à reputação de que gozava no início, o presidente do Zimbabwe foi sempre um homenzinho sem envergadura. Levou o país à tragédia. Agora, está fortemente desacreditado. É tarde demais.o artigo da NYRB diz que
One man is associated with the calamity, Robert Mugabe. For a while I wondered if the word "tragedy" could be applied here, greatness brought low, but Mugabe, despite his early reputation, was never great; he was always a frightened little man. There is a tragedy, all right, but it is Zimbubwe's.Ou seja, uma das frases mais fortes do artigo da NYRB, "a man may get away with murder, if he is black", não consta no artigo do LMD. Um outro troço (a negrito em baixo) que não consta no artigo do LMD é pouco elogioso para os governos comunistas:
Mugabe is now widely execrated, and rightly, but blame for him began late. Nothing is more astonishing than the silence about him for so many years among liberals and well-wishers—the politically correct. What crimes have been committed in the name of political correctness. A man may get away with murder, if he is black. Mugabe did, for many years.
The racial hatred that Mugabe has fomented will not die. Throughout the period from Independence onward, beginning in 1980, anti-white rhetoric went alongside the Marxist slogans that were as primitive as they would be if Marxism had been invented in Zim-babwe. Yet what everyone remarked on was the amiable race relations, friendliness between whites and blacks, compared to South Africa, where apartheid created such a bitter legacy. Fiery articles in the government press were read in the same perfunctory way as were the public pronouncements of the Soviet government, or any Communist government. The official rhetoric in Zimbabwe was worse than anywhere in Africa—so said a United Nations report. "Never has rhetoric had so little to do with what actually went on."Será que Doris Lessing escreveu dois artigos semelhantes? Terá ela próprio alterado o artigo da NYRB? Ou terá sido o LMD a truncar e a acrescentar as aspas ao tra(duz)ir livremente o artigo da NYRB? É uma excelente questão.
2003-08-04
2003-08-02
Público ou Privado e Colectivo ou Individual O MATA-MOUROS escreve sobre o automóvel e a cidade. Concordo essencialmente com o que diz. Acrescento, no entanto, duas observações. A primeira é a de que o simples aumento do preço do estacionamento e a sua cobrança efectiva poderiam ir servindo de dissuasores enquanto não se implementam portagens de acesso ao centro da cidade. A segunda é que convém distinguir claramente entre as opções de transporte público ou privado e colectivo ou individual.
Os transportes colectivos, públicos ou privados, sendo excelentes para determinados tipos de viagens e clientes, são muitas vezes demasiado rígidos. É quase impossível, por exemplo, imaginar uma rede de metro suficientemente densa para ninguém precisasse de andar mais do que cinco minutos a pé nem de mudar de linha mais do que uma vez. Dir-me-ão que exagero nos cinco minutos, que andar a pé faz bem. É verdade. Mas também é verdade que há muita gente que pura e simplesmente não pode andar tanto a pé, tais como idosos, deficientes, etc., e que há condições meteorológicas sob as quais andar cinco minutos a pé é um suplício. Quem andou hoje por Lisboa sabe a que me refiro. Por outro lado, há muita gente que precisa de se deslocar ao longo de percursos que não permitem uma utilização minimamente confortável dos transportes colectivos. Ou seja, o transporte individual contribui para a liberdade e a qualidade de vida do cidadão, embora, sendo privado, incentive os cidadãos a abusarem dele. De facto, se tenho carro, para que vou de metro?
A questão, julgo eu, está na associação errada que fazemos entre individual e privado: um transporte individual não é necessariamente privado. As Bugas em Aveiro e as Bicas em Cascais são os primeiros exemplos de transporte individual e público. É verdade que é necessário dar aos pedais. Mas creio que o futuro virá a demonstrar que a ideia dos automóveis públicos, pagos através de um cartão de utilizador ou outro método qualquer, tem pernas, ou rodas, para andar.
Os transportes colectivos, públicos ou privados, sendo excelentes para determinados tipos de viagens e clientes, são muitas vezes demasiado rígidos. É quase impossível, por exemplo, imaginar uma rede de metro suficientemente densa para ninguém precisasse de andar mais do que cinco minutos a pé nem de mudar de linha mais do que uma vez. Dir-me-ão que exagero nos cinco minutos, que andar a pé faz bem. É verdade. Mas também é verdade que há muita gente que pura e simplesmente não pode andar tanto a pé, tais como idosos, deficientes, etc., e que há condições meteorológicas sob as quais andar cinco minutos a pé é um suplício. Quem andou hoje por Lisboa sabe a que me refiro. Por outro lado, há muita gente que precisa de se deslocar ao longo de percursos que não permitem uma utilização minimamente confortável dos transportes colectivos. Ou seja, o transporte individual contribui para a liberdade e a qualidade de vida do cidadão, embora, sendo privado, incentive os cidadãos a abusarem dele. De facto, se tenho carro, para que vou de metro?
A questão, julgo eu, está na associação errada que fazemos entre individual e privado: um transporte individual não é necessariamente privado. As Bugas em Aveiro e as Bicas em Cascais são os primeiros exemplos de transporte individual e público. É verdade que é necessário dar aos pedais. Mas creio que o futuro virá a demonstrar que a ideia dos automóveis públicos, pagos através de um cartão de utilizador ou outro método qualquer, tem pernas, ou rodas, para andar.
Muro Sem Vergonha De repente, Nuno Ramos de Almeida é um nome que se cruza no meu caminho. Critiquei-lhe um artigo na revista Manifesto no início de Julho. Encontrei "O Passeio dos Blogues", um seu texto certeiro e hilariante no Metablogue. Recebi uma mensagem dele acerca da minha entrada O Santo Ofício, em termos elogiosos que muito me orgulharam e que agradeço. Finalmente, descobri o blogue Muro Sem Vergonha, que mantém com José Neves, cujos textos também já critiquei, e com Luís Moura. Um blogue a prometer muita polémica, certamente. Foi aí, no Muro Sem Vergonha, que encontrei a entrada completa sobre O Passeio dos Blogues. No seu final, Nuno Ramos de Almeida escreve:
Nestas manobras conseguem-se as alquimias mais incríveis. No outro dia um esperto "conseguiu" demonstrar que a maior parte da população dos Estados Unidos da América participa nas eleições. No meio da aritmética criativa esqueceu-se de assinalar que grande parte da população não está sequer recenseada.Fui um dos que desmontou as afirmações que se vêem fazendo acerca das eleições nos EUA. A minha entrada chamava-se As Contas de Ralf Dahrendorf. Nela calculei, com base em dados oficiais, que nas últimas eleições nos EUA votaram 51,3% dos cidadãos em idade de votar, recenseados ou não. Acontece que 51,3%, não sendo um número nada animador, ainda é "a maior parte da população". Ter-me-ei enganado em alguma conta? Se sim, façam o favor de me dizer onde.
Delírios sobre a Terra e o Sol
Calor. Hoje invejo todos os animais com habitações subterrâneas. Invejo os coelhos. Invejo as toupeiras. A Terra, à superfície, traiu-me. Só nas profundezas mantém a sua eterna frescura. A crosta terrestre ferve. Os mosaicos e os mármores, perversos, aquecem os pés que prometiam arrefecer. Os tubos metálicos da cadeira não se sentem. Negam-se a transmitir aquele arrepio agradável que nunca recusaram até hoje. Os braços, sobre a madeira quente da secretária, deslizam sobre uma camada de suor. Toda a roupa abafa, queima, sufoca. Tirá-la é uma obrigação. Tirá-la é uma desilusão: o ar quente envolve a pele, antes protegida pelo tecido, e parece aquecê-la mais.
A entrada do prédio mantém a sua frescura virginal. Que me impede de lá dormir? Estúpido pudor. A clarabóia, no alto, liberta o ar quente para os céus. A Terra, em baixo, transmite lentamente a sua frescura aos únicos mármores que se me mantêm fieis. Todos os esforços para repelir o Sol, o repelente Sol, que tantos adoram, falharam. "Hoje está bom tempo", dizem, insensíveis criminosos arraçados de lagartos. Tenham dó de um nórdico desterrado! De um amante do vento forte, sobre um mar gelado! Do gelo. Das montanhas.
Saímos do cinema à meia-noite. O ar quente atingiu-nos, violento. O Sheraton ali tão perto... os seus ares condicionados cantavam qual sereias. Porque não me deixei encantar?
Calor. Hoje invejo todos os animais com habitações subterrâneas. Invejo os coelhos. Invejo as toupeiras. A Terra, à superfície, traiu-me. Só nas profundezas mantém a sua eterna frescura. A crosta terrestre ferve. Os mosaicos e os mármores, perversos, aquecem os pés que prometiam arrefecer. Os tubos metálicos da cadeira não se sentem. Negam-se a transmitir aquele arrepio agradável que nunca recusaram até hoje. Os braços, sobre a madeira quente da secretária, deslizam sobre uma camada de suor. Toda a roupa abafa, queima, sufoca. Tirá-la é uma obrigação. Tirá-la é uma desilusão: o ar quente envolve a pele, antes protegida pelo tecido, e parece aquecê-la mais.
A entrada do prédio mantém a sua frescura virginal. Que me impede de lá dormir? Estúpido pudor. A clarabóia, no alto, liberta o ar quente para os céus. A Terra, em baixo, transmite lentamente a sua frescura aos únicos mármores que se me mantêm fieis. Todos os esforços para repelir o Sol, o repelente Sol, que tantos adoram, falharam. "Hoje está bom tempo", dizem, insensíveis criminosos arraçados de lagartos. Tenham dó de um nórdico desterrado! De um amante do vento forte, sobre um mar gelado! Do gelo. Das montanhas.
Saímos do cinema à meia-noite. O ar quente atingiu-nos, violento. O Sheraton ali tão perto... os seus ares condicionados cantavam qual sereias. Porque não me deixei encantar?
2003-08-01
O Santo Ofício Numa Aula Magna criminosamente quente, decorreu ontem à noite a mesa redonda Science and its critics. Confesso que já antes de entrar me admirei com a coragem demonstrada por Boaventura Sousa Santos ao dispor-se a enfrentar um painel que lhe era claramente hostil, com a possível excepção de Desidério Murcho, e uma assistência que seria inevitavelmente dominada por físicos e matemáticos. Terminada a sessão, a minha admiração pela coragem, que não pelas ideias, de BSS aumentou: aguentou o embate, respondeu com inteligência, mesmo quando para se esquivar, e não respondeu a provocações.
A desproporção de forças e alguns ataques menos elegantes transformaram o debate, pelo menos em parte, numa espécie de tribunal do Santo Ofício onde BSS era acusado de ter escrito um livro herético. O livro é "Um discurso sobre as ciências", editado pela Afrontamento em 1987, em 12ª edição, pelo menos.
O debate foi aberto por Alan Sokal, que foi frontal e contundente, sem nunca ser deselegante. Afirmou que o livro de BSS era "misguided from beginning to end" e que não tinha análise, consistindo simplesmente numa (longa) asserção. Propôs que se debatesse se o objectivo da ciência era, como ele crê, usar "rational methods to distinguish true propositions from false propositions".
BSS respondeu dizendo que o livro tinha 17 anos, que as citações dele extraídas careciam de contexto, e que os ataques eram feitos ad hominem. Sugeriu depois alguns temas para o debate, numa tentativa clara de o desviar para o campo ideológico, em que se sente mais à vontade. Segundo ele, uma das perguntas mais importantes a que há que responder é o que fazer com o conhecimento, pois está-se a criar uma sociedade de mercado, para além de uma economia de mercado, que é moralmente repugnante e pode levar a conhecimento imprudente. Ainda segundo BSS, num mundo onde cada vez mais a violência impera, cometem-se não apenas genocídios mas também "epistemicídios", pois se descartam corpos de conhecimento importantes em nome da superioridade do conhecimento científico ocidental. Afirmou apoiar o relativismo cultural, presumo que enquanto sociólogo, e ser opositor do relativismo. Disse ainda não ser subjectivista, até porque isso seria incompatível com o seu "marxist training".
As intervenções de Nuno Crato caracterizaram-se por uma violência e raiva que só seria excedida pela intervenção bastante patética de António Manuel Baptista, que felizmente não fazia parte do painel. Desafiou BSS a declarar preto no branco que partes do seu livro considera hoje certas ou erradas, uma vez que o livro é muito usado nas universidades portuguesas. Referiu ainda que a utilização do teorema de Gödel feita por BSS estava errada, pois este teorema não demonstra de forma alguma que até a matemática é incerta, mas sim que, num sistema formal, há proposições verdadeiras que não se consegue demonstrar dentro desse mesmo sistema.
Desidério Murcho alinhou intelectualmente com os opositores das ideias de BSS, mas revelou enorme contenção e capacidade de estabelecer um diálogo franco. Demonstrou ser alguém com quem podemos contar para debates sérios sobre filosofia. Como a palavra "ciência" tem vários sentidos, propôs que se usasse o sentido mais lato de "rational search for truth". Disse ainda que os critérios de verdade são universais, não havendo critérios científicos diferentes de critérios religiosos, ou de outra qualquer esfera do pensamento.
Jean Bricmont foi o melhor dos painelistas. Argumentou sempre com elevação e evitou todos os ataques ad hominem, centrando-se nas ideias. Perante a afirmação de Sokal de que a ciência era ensinada como um catecismo (todos acreditam que a matéria é constituida por átomos mas pouquíssimos conseguem apresentar alguma prova), argumentou que é inevitável que todos acreditemos em algumas coisas com base em simples argumentos de autoridade, pois se não há esperança de tudo saber, muito menos há de saber justificar todo o conhecimento que se tem.
João Caraça, o moderador, fez o que pôde para manter a balança do debate minimamente equilibrada, mas acabou por ser muito mais verboso que substancial. De positivo fica o ter reforçado a ideia de Nuno Crato de repetir debates sobre a natureza da ciência com uma composição do painel mais equilibrada.
Concluindo, foi um debate por um lado frustrante e pouco edificante, mas por outro estimulante. A demonstrá-lo está o ter ficado em acesa discussão, à porta da aula magna, até à uma hora da manhã.
(Faço esta breve e muito incompleta descrição de memória e com base em algumas notas esparsas. Quem a ler deve-lhe pôr um grão de sal, pois pode bem acontecer que tenha percebido mal alguma das intervenções ou que a memória me atraiçoe. Aliás, aceitam-se correcções, como sempre.)
A desproporção de forças e alguns ataques menos elegantes transformaram o debate, pelo menos em parte, numa espécie de tribunal do Santo Ofício onde BSS era acusado de ter escrito um livro herético. O livro é "Um discurso sobre as ciências", editado pela Afrontamento em 1987, em 12ª edição, pelo menos.
O debate foi aberto por Alan Sokal, que foi frontal e contundente, sem nunca ser deselegante. Afirmou que o livro de BSS era "misguided from beginning to end" e que não tinha análise, consistindo simplesmente numa (longa) asserção. Propôs que se debatesse se o objectivo da ciência era, como ele crê, usar "rational methods to distinguish true propositions from false propositions".
BSS respondeu dizendo que o livro tinha 17 anos, que as citações dele extraídas careciam de contexto, e que os ataques eram feitos ad hominem. Sugeriu depois alguns temas para o debate, numa tentativa clara de o desviar para o campo ideológico, em que se sente mais à vontade. Segundo ele, uma das perguntas mais importantes a que há que responder é o que fazer com o conhecimento, pois está-se a criar uma sociedade de mercado, para além de uma economia de mercado, que é moralmente repugnante e pode levar a conhecimento imprudente. Ainda segundo BSS, num mundo onde cada vez mais a violência impera, cometem-se não apenas genocídios mas também "epistemicídios", pois se descartam corpos de conhecimento importantes em nome da superioridade do conhecimento científico ocidental. Afirmou apoiar o relativismo cultural, presumo que enquanto sociólogo, e ser opositor do relativismo. Disse ainda não ser subjectivista, até porque isso seria incompatível com o seu "marxist training".
As intervenções de Nuno Crato caracterizaram-se por uma violência e raiva que só seria excedida pela intervenção bastante patética de António Manuel Baptista, que felizmente não fazia parte do painel. Desafiou BSS a declarar preto no branco que partes do seu livro considera hoje certas ou erradas, uma vez que o livro é muito usado nas universidades portuguesas. Referiu ainda que a utilização do teorema de Gödel feita por BSS estava errada, pois este teorema não demonstra de forma alguma que até a matemática é incerta, mas sim que, num sistema formal, há proposições verdadeiras que não se consegue demonstrar dentro desse mesmo sistema.
Desidério Murcho alinhou intelectualmente com os opositores das ideias de BSS, mas revelou enorme contenção e capacidade de estabelecer um diálogo franco. Demonstrou ser alguém com quem podemos contar para debates sérios sobre filosofia. Como a palavra "ciência" tem vários sentidos, propôs que se usasse o sentido mais lato de "rational search for truth". Disse ainda que os critérios de verdade são universais, não havendo critérios científicos diferentes de critérios religiosos, ou de outra qualquer esfera do pensamento.
Jean Bricmont foi o melhor dos painelistas. Argumentou sempre com elevação e evitou todos os ataques ad hominem, centrando-se nas ideias. Perante a afirmação de Sokal de que a ciência era ensinada como um catecismo (todos acreditam que a matéria é constituida por átomos mas pouquíssimos conseguem apresentar alguma prova), argumentou que é inevitável que todos acreditemos em algumas coisas com base em simples argumentos de autoridade, pois se não há esperança de tudo saber, muito menos há de saber justificar todo o conhecimento que se tem.
João Caraça, o moderador, fez o que pôde para manter a balança do debate minimamente equilibrada, mas acabou por ser muito mais verboso que substancial. De positivo fica o ter reforçado a ideia de Nuno Crato de repetir debates sobre a natureza da ciência com uma composição do painel mais equilibrada.
Concluindo, foi um debate por um lado frustrante e pouco edificante, mas por outro estimulante. A demonstrá-lo está o ter ficado em acesa discussão, à porta da aula magna, até à uma hora da manhã.
(Faço esta breve e muito incompleta descrição de memória e com base em algumas notas esparsas. Quem a ler deve-lhe pôr um grão de sal, pois pode bem acontecer que tenha percebido mal alguma das intervenções ou que a memória me atraiçoe. Aliás, aceitam-se correcções, como sempre.)
Falta de Chá Eduardo Prado Coelho, com as férias a aproximar-se e pouco para se dizer, escreve sobre chá no Público. Diz ele que "o chá verde resulta da primeira fase de desidratação da planta, enquanto o chá preto tem a sua origem em folhas ressequidas que um forno aquece". Como descrição do processo de produção do chá preto, deixa alguma coisa a desejar. O forno é usado apenas para secar o chá já fermentado, correspondendo ao passo final do processo, sendo a fermentação o passo onde o chá preto ganha as características que o distinguem do chá verde, tais como a cor e o aroma.
[A despropósito, segundo o Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, a palavra "chá" tem origem no mandarim e no cantonês, enquanto, segundo o Merriam-Webster, a palavra inglesa "tea" tem origem no dialecto de Xiamen, tal como as palavras "thé" (francesa) e "té" (espanhola).]
[A despropósito, segundo o Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, a palavra "chá" tem origem no mandarim e no cantonês, enquanto, segundo o Merriam-Webster, a palavra inglesa "tea" tem origem no dialecto de Xiamen, tal como as palavras "thé" (francesa) e "té" (espanhola).]
2003-07-31
Sobre o "Depósito" da Internet... José Luís Borbinha responde ao artigo Depósito obrigatório da internet portuguesa, de Pacheco Pereira. O artigo é longo, mas pode-se resumir numa expressão muito ouvida: falta de meios. Talvez seja verdade. Mas não poderá simplesmente haver alguma falta de iniciativa?
"Blogue Blogue" Diz Eduardo Prado Coelho no Público que um blogue "corresponde à criação de espaços na Internet onde uma pessoa ou um grupo de pessoas se sente autorizado a escrever sobre todos os assuntos que lhe interessarem". Note-se que EPC não diz "autoriza-se" mas sim "sente-se autorizado". Pois bem, eu não "me sinto autorizado" por ninguém a blogar o que entender. Autorizo-me a blogar o que entender. Este espaço é livre. Eu sou livre de escrever neste blogue, todos são livres de o ler ou de o não ler, e todos são livres de criar o seu próprio blogue. Não há qualquer autoridade aqui, só a nossa própria.
Diz ainda EPC que é possível que os blogues não passem de uma moda. Não creio. Os blogues desaparecerão, inevitavelmente, mas quando forem substituídos por outros conceitos ou outras ferramentas com novas valências. A liberdade de expressão profundamente democrática associada aos blogues, essa não desaparecerá.
Diz ainda EPC que é possível que os blogues não passem de uma moda. Não creio. Os blogues desaparecerão, inevitavelmente, mas quando forem substituídos por outros conceitos ou outras ferramentas com novas valências. A liberdade de expressão profundamente democrática associada aos blogues, essa não desaparecerá.
Um Muro ou uma Vedação? Mahmoud Abbas em entrevista à Newsweek acerca do muro em construção por Israel:
Há esperança de que isso venha a acontecer? Estou como o próprio Abbas:
It's a separating wall. It is built on our territories. It will create a de facto border. It is an uncivilized wall. I hope the Israelis remove it... The wall is a kind of settlement.A construção de um muro não me parece uma má ideia. Um período de separação física entre Israel e a futura Palestina poderia ser muito saudável. Hoje constrói-se o muro. Amanhã destruir-se-á, provavelmente em directo entre vivas e fanfarras, e os seus pedaços serão guardados como recordação de maus tempos que, espero, terão então passado. O pior... O pior é que aparentemente Sharon cedeu: o traçado do muro foi desviado da fronteira de 1967 de modo a envolver alguns colonatos israelitas. Isso é inaceitável e converte o muro num "muro incivilizado", como Abbas lhe chamou. Os colonatos devem ser desmantelados e o muro deve ser construído, mas sem entrar no território da futura Palestina.
Há esperança de que isso venha a acontecer? Estou como o próprio Abbas:
What's your impression of President Bush?Ou talvez não, talvez esteja um pouco mais céptico que Abbas. Quero acreditar, mas tenho muitas dúvidas. Duma coisa, no entanto, estou certo: Abbas é a melhor oportunidade para a paz na região dos últimos anos.
He is direct, to the point. He told us that he will stick to his vision about a Palestinian independent state and Israeli withdrawal to the '67 borders, and I believe that he means what he says.
2003-07-28
O Picuinhices teve um surto de visitas. Vindos de onde? Do MATA-MOUROS, que nos referiu como o melhor blogue na sua Revista de Blogues. Ficámos sem palavras. Só nos saiu isto:
Muito obrigado! Bem hajam!
Muito obrigado! Bem hajam!
Táxis de Graça para Noctívagos O Expresso anuncia que em breve haverá táxis grátis para os noctívagos lisboetas. A ideia pareceu-me má, por totalmente desresponsabilizante. Mas o pior veio depois: o custo será suportado, pelo menos em parte, pela Câmara Municipal de Lisboa. Isto é um verdadeiro escândalo. O estado não deve alimentar os vícios a ninguém. Se têm dinheiro para beber, poupem para o táxi. Dos meus impostos não.
Porque nos Matamos na Estrada Recebi um convite para o lançamento de um livro com este nome, escrito por Luís Reto e Jorge Sá. Marquei o evento na minha agenda e decidi que não só estaria presente, como também compraria o livro. Ontem comprei o Expresso*: na página 58 da revista Única [e não Actual, como escrevi inicialmente] vinham extractos do livro. Li-os com o interesse acrescido de ser um associado convicto (embora ultimamente demasiado ausente) da ACA-M:
Enfim, esperemos pela oportunidade de ler o livro na íntegra. Para já, saúdo a iniciativa dos autores de abordarem este tema que me é caro.
* Sim, sou desses que compram religiosamente o Expresso mas que o lêem entre praguejos e invectivas.
De facto, a velocidade é, como vimos, a transgressão que os condutores portugueses mais admitem praticar, mas que, no entanto, estes não destacam particularmente entre as causa de acidentes, num mecanismo de evidente desculpabilização.É inteiramente verdade que os portugueses se recusam a admitir a importância da velocidade como potenciadora não só do acidente como da sua gravidade. Aceito que a velocidade seja vista por muitos como um valor e até que isso seja uma característica das sociedades contemporâneas (embora "contemporâneas" aqui tenha provavelmente de abranger mais do que um século). Já me custa mais a admitir a afirmação de que a segurança é um valor preponderante do Estado, por oposição aos indivíduos, e que entre em conflito com a liberdade individual, mesmo quando esta é um "valor primeiro", pois uma verdadeira liberdade implica responsabilidade: na minha opinião não é a liberdade individual que entra em conflito com a segurança, mas sim a irresponsabilidade, pois o que está em causa é, acima de tudo, a vida dos outros utentes da estrada. Agora o que já me parece entrar no domínio da obsessão, é a sugestão de que a mundialização (leia-se "globalização") tem alguma coisa a ver com isto.
Esta vivência paradoxal da velocidade insere-se numa dimensão profunda das sociedades actuais. Com efeito, é de todos bem conhecido que as nossas sociedades contemporâneas elegeram a velocidade como um dos principais valores. A velocidade, tal como afirma Fiorella Toro (2002), é uma «manifestação de potência, um meio competitivo de diferenciação, uma fonte geradora de produtividade e de mobilidade e, sobretudo, uma componente essencial da gestão do tempo».
Por sua vez, em contraponto, a segurança, que a velocidade põe em risco, é um valor preponderante do Estado, que reivindicamos deste em permanência, mas cuja intervenção rejeitamos sempre que erigimos, como valor primeiro, a nossa liberdade individual.
É devido a esta contradição, que, aliás, os processos de mundialiação e consequente aumento de competitividade não param de agudizar, que se torna particularmente difícil fazer com que os condutores aceitem e interiorizem que a velocidade constitui uma das principais causas dos acidentes rodoviários.
Enfim, esperemos pela oportunidade de ler o livro na íntegra. Para já, saúdo a iniciativa dos autores de abordarem este tema que me é caro.
* Sim, sou desses que compram religiosamente o Expresso mas que o lêem entre praguejos e invectivas.
2003-07-27
Médio Oriente Vale a pena ler:
- Os Refugiados Palestinianos e Os Alemães Expulsos dos Países do Leste Europeu, de Schlomo Avineri, no Público.
- Israel Without Apology, de Sol Stern, na City Journal.
- Al-Qaradhawi Speaks In Favor of Suicide Operations at an Islamic Conference in Sweden, da MEMRI, com traduções de um relatório produzido pelo jornal londrino Al-Sharq Al-Aw e baseado no trabalho do Xeque Al-Qaradhawi.
Mitos Parte do anti-americanismo que infecta a Europa é baseado em mitos sem qualquer correspondência com a realidade. Noutros casos, baseia-se numa certa incapacidade para nos olharmos ao espelho: é muito mais fácil vermos defeitos nos outros. Por exemplo, na última coluna de Augusto M. Seabra no Público, afirma-se que "por marcadamente inigualitária que seja a democracia americana, ela tem, se calhar como poucas, mecanismos de verificação e controle". É impossível a um bom intelectual europeu fazer um elogio aos EUA sem na mesma frase os criticar. Vejamos, no entanto, se a crítica, que assumo referir-se à disparidade de rendimentos, tem razão de ser. De acordo com o Relatório do Desenvolvimento Humano 2003 das Nações Unidas (ver página 282), são os seguintes os índices de Gini de alguns países (valores de 0 a 100, onde 100 corresponde ao máximo de disparidade):
- Dinamarca: 24,7 (1997)
- França: 32,7 (1995)
- Alemanha: 38,2 (1998)
- Portugal: 38,5 (1997)
- Moçambique: 39,6 (1996-1997)
- China: 40,3 (1998)
- Estados Unidos: 40,8 (1997)
- Brasil: 60,7 (1998)
- Botswana: 63,0 (1993)
- Dinamarca: 21,3 / 2,6 = 8,1
- França: 25,1 / 2,8 = 9,1
- Moçambique: 31,7 / 2,5 = 12,5
- China: 30,4 / 2,4 = 12,7
- Alemanha: 28,0 / 2,0 = 14,2
- Portugal: 29,8 / 2,0 = 15,0
- Estados Unidos: 30,5 / 1,8 = 16,6
- Brasil: 48,0 / 0,7 = 65,8
- Botswana: 56,6 / 0,7 = 77,6
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