2003-07-23

Via o nosso Valete Frates !, a melhor fonte de informação da blogosfera portuguesa, e também via Jaquinzinhos, os resultados da primeira sondagem no Iraque pós-Saddam. Reportagem no Spectator (explicações sobre a aventura de fazer os inquéritos numa zona ainda turbulenta aqui). Os resultados demonstram o enorme bom senso dos iraquianos. Não seria de esperar outra coisa.
O Blogger comeu-me uma entrada inteira! Parecia que o mundo tinha ruído. Só ao fim de uns minutos desesperantes consegui encontrar uma cópia num recanto obscuro do computador. Porque diabo nos agarramos tanto ao que escrevemos?

2003-07-20

Os Novos Milenarismos Em destaque no Público de hoje, "dez analistas americanos e cinco portugueses escolhem 15 assuntos preocupantes aos quais não é dada a devida atenção". Segundo João Gomes Cravinho, o assunto mais preocupante é o das tecnologias de modificação genética. Vejamos porquê:
A profunda e sistemática tentativa de usar a globalização para criar um mundo ao serviço dos Estados Unidos é de longe a maior ameaça à segurança planetária. Complexo e multifacetado, este processo inclui, entre tantos outros aspectos, a introdução de tecnologias de modificação genética (MG) para controlar a produção agrícola internacional.

Os efeitos de curto e longo prazo no ambiente e na saúde pública contêm incógnitas preocupantes, mas admitamos que a ciência poderá, com tempo, ultrapassá-las. A questão central, contudo, não é essa, como se poderá perceber pela tremenda pressão política exercida por Washington nesta matéria. O que se pretende é a transformação dos mercados agrícolas mundiais em algo de parecido com o mercado farmacêutico, gerando lucros pela via de patentes colocadas sobre produtos sem alternativa.

A introdução de culturas MG arrasa as culturas naturais, permitindo criar dependências sobre produtos necessários para a sobrevivência das culturas, fornecidas pelas mesmas empresas biotecnológicas. Dizer que desta maneira se poderá resolver a fome no mundo é de uma má fé a toda a prova, até porque há longos anos que se sabe que a fome resulta de má distribuição e não de falta de produção.

Sejamos claros: enquanto tecnologia a MG não é má em si mesmo. Depende do uso que se lhe dá. Em teoria poderia ser benéfico para agricultores pobres, aumentando a produção e a resistência das culturas. Mas se a tecnologia fosse usada para esses efeitos altruístas não produziria os lucros que interessam a quem a promove. O que está à vista é a destruição cínica da capacidade agrícola dos países pobres, condenando a uma morte certa milhares ou milhões que não terão os recursos para praticar esta nova agricultura. Serão mortos sem nome, mas as mortes não serão menos reais por isso.
Os esforços de décadas de empresas como a Monsanto, o seu enorme investimento na investigação e no desenvolvimento de organismos geneticamente modificados (OGM), são vistos por Cravinho como parte integrante de uma estratégia dos EUA de controlo da agricultura mundial. A mera hipótese de que se trate de uma empresa privada, com fins lucrativos, que desenvolveu bons produtos e como tal os consegue vender em proveito próprio, não chega. Tem de haver um objectivo escondido: o "controlo da agricultura mundial". A afirmação é absurda, claro está. Não são apenas as empresas americanas a desenvolver OGM. O chamado "arroz amarelo", por exemplo, foi desenvolvido por cientistas suíços, e na própria França o Sr. José Bové foi preso por ter destruído campos de ensaio de OGM. Mas sigamos o raciocínio de Cravinho.

Segundo ele "os efeitos de curto prazo no ambiente e na saúde pública contêm incógnitas preocupantes, mas admitamos que a ciência poderá, como tempo, ultrapassá-las". Parece-me uma posição mais sensata. Os testes e ensaios realizados até hoje parecem demonstrar maioritariamente a segurança dos OGM em comercialização, dos quais o mais paradigmático é o milho Bt (Bacillus thuringiensis). Acenar com os seus possíveis perigos, por mais remotos que pareçam neste momento, em nome de um tal princípio da precaução, é simplesmente uma receita para a inacção, como tão bem denunciou Guy Sorman no seu Le Progrès et ses Ennemis, já aqui citado. O que há a fazer, como resumiu Lomborg, é uma análise séria e factual dos custos e benefícios de cada acção com possível impacte sobre a saúde humana ou sobre o ambiente. Sendo os possíveis perigos dos OMG já comercializados uma possibilidade tão remota, e sendo tão evidentes os seus benefícios no aumento de produtividade, na grande redução de utilização de pesticidas utilizados (como é o caso do milho Bt) ou até na melhoria da saúde das populações (caso do arroz amarelo), restam poucas dúvidas de que as autorizações dadas pelas autoridades americanas revelam maior bom senso que as posições ambíguas da Comissão Europeia a este respeito.

Ainda segundo Cravinho, "Washington" "pretende [...] a transformação dos mercados agrícolas mundiais em algo de parecido com o mercado farmacêutico, gerando lucros pela via de patentes colocadas sobre produtos sem alternativa". Este discurso deixa transparecer o preconceito esquerdista habitual de que o que gera lucros é necessariamente imoral. Note-se que Cravinho não refere que essa mesma indústria farmacêutica desenvolve e comercializa todos os fármacos de que depende em grande medida a cada vez melhor saúde das populações. Sem a iniciativa e o investimento dessas empresas não se estaria hoje a discutir se os preços dos fármacos que permitem melhorar a vida dos seropositivos é ou não demasiado caro para os povos que deles mais precisam neste momento. É perfeitamente razoável que as empresas tentem proteger através de patentes o seu investimento em investigação. Não é objectivo das empresas farmacêuticas resolver os problemas do mundo, embora para tal possam contribuir. Esse papel cabe aos governos e às organizações internacionais.

Cravinho diz também que os produtos baseados em OGM não têm alternativa. A afirmação é estranha, até porque implícita no discurso de Cravinho está uma alternativa clara: os produtos tradicionais, as culturas sem modificação genética. Mas talvez Cravinho queira dizer que não haverá alternativa porque quem utilizar os produtos tradicionais deixará de ser competitivo. Se assim for, inclino-me a concordar. Mas é caso para perguntar: qual é o problema? Não tem sido a história da humanidade uma história do desenvolvimento de novos produtos que tornam os anteriores obsoletos? A verdade é que dessa forma, através de uma evolução contínua, atingimos os níveis de desenvolvimento actuais, muito longe ainda de serem os humanamente aceitáveis, mas infinitamente melhores do que num passado não muito remoto.

Segundo Cravinho, a introdução de culturas geneticamente modificadas "arrasa as culturas naturais, permitindo criar dependências sobre produtos necessários para a sobrevivência das culturas, fornecidas pelas mesmas empresas biotecnológicas". Cravinho refere-se provavelmente ao produto Round-up Ready Soybeans, uma soja geneticamente modificada pela Monsanto de modo a resistir ao herbicida Roud-up, produzido da própria Monsanto. A verdade, no entanto, é que é possível continuar a usar soja não-GM, tal como é possível não usar Round-up de todo. É o que faz a chamada agricultura biológica. Tem o seu nicho de mercado (no qual incoerentemente me incluo, note-se), constituído por consumidores dispostos a pagar por produtos mais caros e frequentemente de pior qualidade. Porque o problema é esse. Os produtos da Monsanto e empresas congéneres permitem reduzir custos, aumentar colheitas e, como tal, aumentar os lucros dos produtores, levando também a produtos mais baratos para os consumidores finais. Quando Cravinho afirma, indignado, que "dizer que desta maneira se poderá resolver a fome no mundo é de uma má fé a toda a prova, até porque há longos anos que se sabe que a fome resulta de má distribuição e não de falta de produção", ataca um moinho de vento. Ninguém disse que a o problema da fome iria ser resolvido pelos OGM. Mas poderão dar algum contributo, por pequeno que seja, para a sua redução.

Diz ainda Cravinho que "enquanto tecnologia a MG não é má em si mesmo", que "depende do uso que se lhe dá" e que "em teoria poderia ser benéfico para agricultores pobres, aumentando a produção e a resistência das culturas". Não podia concordar mais (embora retirasse o "em teoria"...). O problema é que para ele:
se a tecnologia fosse usada para esses efeitos altruístas não produziria os lucros que interessam a quem a promove.
Acontece que o objectivo da tecnologia é, de facto, "aumentar a produção e a resistência das culturas", trazendo no processo lucro à empresa que desenvolve os OGM. Que Cravinho afirme que esse lucro é incompatível com benefícios "para agricultores pobres" é que revela bem a prisão ideológica em que se encerrou. Os benefícios que o milho Bt, por exemplo, pode trazer aos agricultores são perfeitamente compatíveis com o lucro da Monsanto, tal como os benefícios que qualquer agricultor tira da compra de um tractor são compatíveis com o lucro do respectivo fabricante.

Cravinho continua afirmando que:
O que está à vista é a destruição cínica da capacidade agrícola dos países pobres, condenando a uma morte certa milhares ou milhões que não terão os recursos para praticar esta nova agricultura. Serão mortos sem nome, mas as mortes não serão menos reais por isso.
Tanto quanto se pode depreender do texto, o problema seria a redução do preço dos produtos agrícolas nos países desenvolvidos e a consequente impossibilidade de concorrência dos agricultores dos países pobres. O argumento é falacioso. Seria como argumentar que o desenvolvimento e comercialização de tractores condenaria à morte os agricultores de países mais pobres. Do que precisamos, isso sim, é que todos os agricultores, de países pobres ou não, possam aceder a melhores tecnologias, OGM incluídos. Do que se precisa não é de menos OGM: é de mais OGM, de mais globalização e de menos barreiras alfandegárias ou de subsídios aos agricultores dos países ricos.

2003-07-18

Sobreposições Um cartaz novo sobrepõe-se a um caduco: "Como Evitar a Guerra: Faça Yôga".
Se "o genoma humano tem arquivado o dinossauro", que estará arquivado no nosso memoma?
BHL às vezes ainda acerta Personagem controverso, extraio duas notas certeiras do seu Bloc-Notes:

Les GI à Monrovia ? Mais oui. Bien sûr. Le voilà, le vrai devoir d'ingérence. Le voilà, le devoir des nations face à l'appel des peuples maintes fois martyrs. Ici, dans cette Afrique douloureuse et presque sortie, déjà, de l'Histoire universelle, pas d'erreur de cible, pas de tromperie sur le siècle - l'urgence, la vraie, celle de prêter assistance à peuples en danger.

[...]

Propos de Tony Blair : le plus tragique, pour la gauche européenne, ce serait de se refonder sur la double pierre d'angle de l'antilibéralisme et de l'antiaméricanisme. En effet. Double version du socialisme des imbéciles.

2003-07-17

Vénia Agradecemos as palavras elogiosas do Veto Político. Bem haja!
Depósito obrigatório da internet portuguesa Pacheco Pereira argumenta a favor de um arquivo digital da internet portuguesa. Aparentemente já existe um arquivo à escala global. Chama-se Internet Archive, e permite recuperar páginas desde 1996, embora com algumas surpresas desagradáveis de vez em quando. Veja-se, por exemplo, o Expresso Online de 18 de Setembro de 2001.
Fotografia Recomendo uma visita à exposição Vivem no campo, adoram a cidade: fotoetnografias na Etiópia, com fotografias de Marie Hernandez e Catherine Henrietteque. Está no CCB e foi organizada pelo nosso maior apaixonado pela Etiópia: Manuel João Ramos. Ao contrário do que o programa do CCB indica, a exposição abre ao público hoje, 17 de Julho.
Uma mina de informação The Library of Economics and Liberty

2003-07-15

Temos Blogue! Chegou o Catalaxia, blogue liberal. Começou logo, e bem, por um tema que me é caro: o financiamento do ensino superior.
Globalização vista pelos países mais pobres Artigo interessante no YaleGlobal Online:
A recent worldwide poll may have come as a shock to those who view the anti-globalization demonstrations as emblematic of a general souring mood about global economic integration. The Pew survey found that not only was the attitude generally positive but there was more enthusiasm for foreign trade and investment in developing countries than in rich ones.
Leitura obrigatória.

2003-07-14

Via o Arts & Letters Daily, um artigo interessante do Wall Street Journal acerca dos dilemas das intervenções humanitárias. O mote é dado pela Libéria, com o Iraque em pano de fundo.
A logística de Ana Gomes Ana Gomes preferia que Portugal não mandasse a GNR para o Iraque. Até aqui tudo bem. Não concordo, mas reconheço a coerência. O pior vem depois, quando Ana Gomes sugere que somos "borlistas" (portoghesi):
Em finais de Junho a partida da GNR foi adiada, por inadequação e insuficiência de meios para operar no terreno. O ministro da Administração Interna admitiu que estariam a ser pedidos carros blindados às forças italianas, que também assegurariam a alimentação dos portugueses. Potenciador do "prestígio" externo de Portugal ao melhor estilo Barroso-Portas, este recurso aos italianos, ao menos, respeita a tradição: a dos "borlistas", termo que em italiano é "portuguesi" [sic]...
Parece-me óbvio que seria um absurdo o contingente da GNR não se apoiar logisticamente nas outras forças que actuam no Iraque. Fazê-lo é uma simples questão de bom senso económico. Mas Ana Gomes acha que isso nos qualifica como "borlistas". Mesmo que o apoio dos italianos não seja pago, o que duvido, não se pode fazer uma tal acusação: ir para o Iraque não é propriamente como ir a uma festa. Ana Gomes não resistiu a forçar o trocadilho com portoghesi. O trocadilho saiu-lhe coxo e com um erro de ortografia.
Acrescento ainda que a última coluna de Fernando Ilharco é clara como água.
Direito de Resposta Resposta de Fernando Ilharco a uma entrada no Picuinhices sobre um texto seu (a entrada original reproduz-se no final da resposta):
Umas notas sobre Fernando Ilharco:

"Contextualizado por um monumental enquadramento do que existe, como Heidegger aponta a essência da moderna tecnologia, no âmbito de um sistema não apenas de informação mas genuinamente de comunicação, de ajuste e de acoplamento estrutural e essencial entre o dentro e o fora, entre todas as diferenças que nos rodeiam e afectam, o que existe e que conta, o ser em si mesmo, é-nos revelado."

a) Nada alguma vez nos disse que o que existe, ou seja, o que é, sendo, seja quer o que hoje entendemos que a história nos deixou, quer o que o futuro nos deixa entender que somos, quer o que os nossos sentidos humanos percepcionam; aliás, hoje em dia, os avanços de uma boa parte da ciência, precisamente as exactas, as que mais apelam 'teoricamente' aos sentidos humanos – aos dados empíricos – assentam na percepção de aspectos da realidade, do que existe, só possiveis de ser captados pela tecnologia, o que significa obviamente que tais dados não são necessariamente captados conforme ao que existe, mas sim conforme aquela mesma tecnologia;

b) É evidente que o que o homem é hoje, é com/na/pela/através da tecnologia; essa tecnologia, em termos do que lhe é essencial, ou seja do que é comum e decisivo a todo o tipo de manifestações, de instrumentos, de mecanismos, etc., que nós mesmos – cada um de nós – reconhece como tecnologia, dizia eu, em termos do que lhe é essencial, a tecnologia é um enquadramento ordenador e eficiente do que existe – Ge-stell, Enframing, Com-posição ... (Heidegger, The Question Concerning Technology). Essa é a essência da moderna tecnologia, segundo Heidegger.

c) O ponto é que a tecnologia, entendida no quadro acima referido em b) e a), não é algo que venha a assentar numa qualquer realidade previamente acedida, entendida, ou tomada; antes pelo contrário, a tecnologia é ela mesma um modo específico de revelar o que existe. O modo como hoje surge o ser, o que existe, o que vai sendo, o que nos interessa e conta na nossa vida – um blog, uma aspirina, um mergulho no mar ... – é já um surgir em termos tecnológicos....
... mesmo o pensar em perceber algo, dirigido a uma plena e final satisfação do entendimento do ser humano singular, pode às vezes não ser mais do que pensar tecnologicamente...

d) A referência à comunicação visa indicar o carácter fundador do comunicar, do estar com os outros, do homem como ser social; factos amplamente referidos por variadas tradições filosóficas e/ou científicas. A comunicação é o que nos ajusta ontologicamente, faz-se ser o que somos, num mundo modelado e desenvolvido na e pela comunicação.

e) O dentro e o fora foi talvez algo mais forçado... queria à frente no texto a ideia, mas... Ela é esta: você, no seu mundo, é o único que está dentro; tudo o resto e todos os outros estão fora; o que está fora, por seu lado, não é o que está fora do seu mundo conforme ao seu mundo, mas sim o que está dentro nos mundos de outros em que você está fora – a ideia, muito por alto é essa e penso que tem potencial de exploração....

Era o que queria dizer quando escrevi, o que abaixo invertendo a estrutura da frase, transcrevo:

"O que conta, o ser em si mesmo, contextualizado por um monumental enquadramento do que existe, como Heidegger aponta a essência da moderna tecnologia, é-nos revelado no âmbito de um sistema não apenas de informação mas genuinamente de comunicação, de ajuste e de acoplamento estrutural e essencial entre o dentro e o fora, entre todas as diferenças que nos rodeiam e afectam."

Espero ter clarificado de algum modo a questão.

Boas leituras
Fernando Ilharco
A entrada original no Picuinhices era:
Fernando Ilharco Todas as semanas tento ler a coluna de Fernando Ilharco no Público. Nunca consegui, apesar do esforço. Gostava de saber, sinceramente, se alguém a lê, tirando o próprio. E, sobretudo, se entende o que lá está escrito. Por exemplo, agradecem-se explicações acerca do sentido da seguinte frase:
Contextualizado por um monumental enquadramento do que existe, como Heidegger aponta a essência da moderna tecnologia, no âmbito de um sistema não apenas de informação mas genuinamente de comunicação, de ajuste e de acoplamento estrutural e essencial entre o dentro e o fora, entre todas as diferenças que nos rodeiam e afectam, o que existe e que conta, o ser em si mesmo, é-nos revelado.


Trad... explicações para Picuinhices@yahoo.com.br.

2003-07-12

O Picuinhas identifica-se com o Calvin no Público de ontem:
O que é que tu achas que aquelas nuvens parecem?
Uma série de partículas suspensas de água e gelo... Porquê?
...
Toda a gente odeia os "literalistas".
Defesa do Iluminismo? José Miguel Júdice assina no Público um artigo em defesa do iluminismo. O artigo é interessante e na generalidade certeiro. Mas há alguns pontos com os quais não posso concordar. Quando José Miguel Júdice diz que o facto de 71% dos portugueses acharem que "se as leis não forem 'justas e lógicas' não são para cumprir" é assustador e muito perigoso para o Estado de Direito, concordo plenamente. Creio mesmo que a nossa "flexibilidade" na interpretação da lei, "flexibilidade" essa que se estende a quem é suposto fazê-a cumprir, é um dos nossos factores de atraso civilizacional. Mas José Miguel Júdice afirma que o mesmo perigo para o estado de direito decorre também de "79% [dos portugueses acharem] que quem abuse sexualmente de menores deve ter penas superiores ao máximo legal (entre os quais 53% querem a pena de morte ou a prisão perpétua!) e [de] 81% também [quererem] mais de 25 anos de prisão para homicídios". Ora, não faz sentido afirmar que a pena máxima de 25 anos corresponde à fronteira entre a civilização e a barbárie (José Miguel Júdice diz que tais opiniões revelam um "arcaísmo regressivo"). Quantos países mais civilizados que o nosso têm penas máximas superiores e mesmo prisão perpétua ou até pena de morte? Será que 25 anos de prisão para um homicida é apropriado, mas 30 são já uma "punição selvática"? Pessoalmente sou contra a pena de morte, mas não me parece saudável pôr a questão nos termos em que José Miguel Júdice a põe. Até porque a premissa por trás da imposição de uma pena máxima, apoiada implicitamente por José Miguel Júdice, é a de que todos os criminosos são regeneráveis e por isso socialmente reintegráveis. Recorro de novo a Steven Pinker, e ao seu The Blank Slate, onde se analisam estudos que parecem demonstrar em certos casos a regeneração pode ser impossível. A questão civilizacional, ao contrário do que José Miguel Júdice diz, está muito menos nas penas máximas previstas pela lei, e muito mais na sua aplicação prática. Enquanto em Portugal os períodos de prisão preventiva efectivos se forem prolongando, mais a mais sem possibilidade de defesa por parte do arguido, estaremos muito mais em estado de "barbárie" do que noutros países onde a pena perpétua (ou mesmo a pena de morte) existe e é aplicada.
Na Feira do Artesanato do Estoril, há uma banca que vende artigos religiosos da Terra Santa. Parámos para ver. O vendedor era persuasivo e simpático. Entrou em conversa connosco:
Todos os artigos vêm da Palestina. Eu também sou palestino. Sou de Belém!
Bela terra!
Com a guerra...
Mas as coisas agora estão melhores por lá, ou não?
Ah! Eles foram só pôr gasolina a Jerusalém e logo voltam...
Espero bem que não.
Respondi sem convicção.

2003-07-11

Presunç?o

Presunção
Aldónio: Rui, tens de parar de ler artigos para a tese! A partir de agora tens apenas que escrever aquilo que sabes.
Rui: Ena, porreiro! Daqui a duas horas tenho a tese terminada.

2003-07-10

Mortos na Estrada: A Receita Francesa O Le Monde divulga os resultados da política convicta do governo francês contra as mortes na estrada: menos 18,1% mortos e menos 17,1% feridos graves num ano. De que estamos à espera para usar a mesma receita? Retirar 18% aos cerca de 1500 mortos anuais nas nossas estradas sempre seriam menos 270 funerais ao longo do ano... Mas não há esperança. O nosso Plano Nacional de Prevenção Rodoviária é de uma timidez confrangedora, pois prevê atingir em 2010 a média europeia de sinistralidade entre 1998 e 2000. Mesmo que em 2010 atingíssemos esse objectivo, continuaríamos a ter a pior taxa de sinistralidade da europa: a média europeia não irá ficar à nossa espera.
A Teoria da Submissão de Fernando Rosas, no Público, tem uma interessante teoria sobre a crise económica:
É preciso dizer que a presente crise é fruto de uma verdadeira recessão programada pelos interesses económicos e pela governação da direita. O prolongamento da crise internacional obriga o capital a recorrer a métodos radicais de procurar restaurar as suas taxas de lucro e acumulação.

[...]

É de uma recessão pretendida que estamos a falar, não de uma inabilidade ocasional de ministros incompetentes.
Mas afinal, pretendida porquê? Que interesse poderia haver em produzir uma recessão? Simples: "o governo do PSD-PP não podia esperar melhor respaldo para a sua ofensiva anti-social". Ou seja, segundo Fernando Rosas, a recessão actual foi provocada pelos governos de direita para facilitar as suas ofensivas anti-sociais e prejudicar propositadamente os mais pobres, beneficiando os mais ricos no processo.

Já imagino a nossa Manuela Ferreira Leite esfregando as mãos maldosamente, preparando o plano secreto que tornaria a desejada recessão possível. Imagino também os urros de alegria que o executivo soltou em uníssono quando ouviu as declarações do governador do Banco de Portugal a anunciar finalmente a tão desejada recessão.

Recomendo a Fernando Rosas a utilização da Navalha de Occam para aparar as suas teorias: Pluralitas non est ponenda sine neccesitate, ou seja, a pluralidade não deve ser colocada sem necessidade. Esta navalha é o melhor remédio para quem acredita em teorias da conspiração.

2003-07-09

Emancipação? Segundo o Público de hoje, em artigo de Jorge Heitor relatando a visita de George W. Bush a África, "todos [os políticos africanos com quem se encontra] lhe dizem que se trata acima de tudo de uma responsabilidade norte-americana, porque o país é uma criação dos EUA". Para que conste, a Libéria tornou-se independente a 26 de Julho de 1847, i.e., há quase 156 anos. Até quando durará a responsabilidade dos EUA? E, já agora, será que Portugal ainda terá "responsabilidade" sobre Angola em 2131?

2003-07-08

Reflexões sérias, informadas e inovadoras

Reflexões sérias, informadas e inovadoras Eduardo Prado Coelho, no Público de ontem, diz que "apesar dos evidentes esforços que se tem feito na área do Partido Socialista, existe um manifesto défice de produção teórica que faz que quando o Partido Socialista se preocupa apenas em ser um partido com responsabilidades de poder não se consegue diferenciar da direita do PSD e que quando procura demarcar-se da direita pareça colado ao Bloco de Esquerda (onde, basta ler a revista 'Manifesto', se produz reflexão informada, séria e inovadora, que nenhum defensor da esquerda pode ignorar)". Curioso, comprei o número de Abril da dita revista. Abro ao acaso e surge-me a seguinte pérola, da autoria de Nuno Ramos de Almeida:
Na minha curta vida de jornalista só consegui encontrar gente que reflectisse as ideias sobre mercado e família de um João Carlos Espada e de um divulgador como João César das Neves na "família" do cinema pornográfico.
Perante tal afirmação, resolvi ler o artigo desde o início. O seu nome é "Momento e Movimento", e é uma colecção de secções mais ou menos desconexas. Na segunda, "Zona de Impacte", Nuno Ramos de Almeida ataca a democracia americana:
[...] independentemente do governo que elejam, a política será, basicamente, a mesma.

[...] Votar para quê se, aparentemente, todos podem fazer o mesmo?

O fenómeno é amplamente conhecido nos EUA, onde o Presidente é eleito com uma minoria absoluta de votantes.
Já tinha ouvido esta ladaínha, aliás repetida pelo próprio Ralf Dahrendorf. Numa entrada de Maio passado, já este blogue tinha desmontado a desinformação: nas últimas eleições presidenciais dos EUA votaram 67,5% dos votantes registados e 51,3% dos cidadãos norte-americanos em idade de votar. Quanto a reflexões informadas estamos, pois, conversados.

O artigo prossegue, descrevendo uma sociedade imaginária, que é preciso subverter através de uma "revolução como um vírus informático", e onde existe "a ideia de que tudo o que é humano é para embrulhar, consumir e deitar fora". Escusado será de dizer que tal sociedade só existe na mente dos opositores dos regimes liberais e capitalistas. Ao cidadão comum, liberal ou não, não lhe passa pela ideia "embrulhar, consumir e deitar fora" tudo o que é humano". Apresentado o capitalismo como um monstro destruidor e desumanizador, monstro esse que na realidade trouxe enormes melhorias no nível de vida de todos os povos que o adoptaram plenamente, passa-se à definição de uma estratégia de tomada do poder. A queda do muro de Berlim não demonstrou a falência dos modelos socialistas. Demonstrou, isso sim, a necessidade de mudar de táctica. O objectivo é o mesmo: um homem novo para uma sociedade nova. A forma de lá chegar é que é diferente:
Não existem revoluções por decreto. "Tomar o Poder" só pode ser torná-lo irreconhecível, acabar com qualquer forma de autoritarismo e permitir a participação de todos. Esta "conquista" é um processo. O poder transforma-se acabando com os seus mecanismos clássicos e reforçando a autonomia das pessoas e dos movimentos, a acção de uma multidão criativa que se modifica e que transforma. Esta criação é impossível com concepções arcaicas de dirigismo que desconfiem da autonomia dos movimentos sociais e da autodeterminação das pessoas.

É preciso resgatar Lenine quando afirma que só haverá liberdade quando a porteira puder dirigir o estado.
A forma de atingir o poder passa, pois, pelo reforço dos movimentos sociais. Como é óbvio, os movimentos espontâneos de cidadãos, os movimentos sociais, são um sinal de vitalidade de uma sociedade, como afirma Fukuyama no seu "The Great Disruption". Mas que dizer quando alguns destes movimentos são na realidade muito pouco representativos e espontâneos, e ainda menos autónomos, justamente porque incentivados por partidos que, perante a impossibilidade de tomar o poder através de eleições livres (que não excluem à partida as porteiras nem dos candidatos nem dos votantes, ao contrário dos regimes comunistas), os vêm como uma forma alternativa de chegar ao poder? Justamente que os partidos com esta estratégia estão a minar os movimentos sociais e a justificar a desconfiança relativamente à sua autonomia que, precisamente, dizem pretender combater. Desconfiança essa que não atinge apenas (nem sobretudo) os dirigentes, mas todo o cidadão pensante.

Segue-se uma diatribe contra a chamada "globalização neoliberal", e a favor da agora chamada "alter-globalização". A questão, segundo o autor, é se a globalização se fará "no quadro do mercado ou da Humanidade". É uma falsa alternativa: onde há humanos há mercado, e não há mercado sem humanos. A ideia de que a globalização seria "mais humana" se excluísse o "diabólico" mercado permeia todo o artigo. Todos os argumentos são válidos para denegrir o capitalismo, incluindo os argumentos eco-milenaristas, tão bem desmontados por Lomborg: "hoje por hoje, os limites do planeta fazem da ideia de progresso a via mais rápida em direcção à catástrofe". A este propósito vale também a pena ler um livrinho muito interessante de Guy Sorman, intitulado "Le Progrès et ses Ennemis".

Reflexões inovadoras? Tudo isto é velho e revelho, e sintoma de um esquerdismo profundamente conservador.

Finalmente chegamos à pornografia. A secção do artigo intitula-se "A Pornocópia, o João Carlos Espada, o Vale da Amoreira e o Pedro Bala". Segundo o autor, "a pornografia é uma das maiores realizações da economia de mercado". Diz ele que o sucesso desta indústria, cujos lucros "ultrapassam em muito os da própria indústria de Hollywood", é fácil de explicar. Curiosamente, não apresenta a explicação, ficando o leitor com a sensação que na sua opinião tal sucesso se deve não à natureza humana masculina, mas a um qualquer efeito perverso do capitalismo. Na realidade a explicação é muito prosaica: "men have a much stronger taste for no-strings sex with multiple or anonymous partners, as we see in the almost all-male consumer base for prostitution and visual pornography", como afirma Steven Pinker, e nós já sabíamos, em "The Blank Slate".

A verdadeira razão desta digressão pela pornografia é na realidade a oportunidade para citar um actor porno entrevistado pelo autor logo após uma filmagem falhada:
Isto é bom, é sexo, mas não é verdadeiramente sexo. Esse é só aquele que fazemos na cama com a nossa mulher.
Supostamente seriam afirmações desta índole que Nuno Ramos de Almeida teria ouvido apenas da boca de actores porno ou de João César das Neves e João Carlos Espada. Mas não será esta afirmação reveladora, afinal, de simples bom senso, mesmo vindo da boca de um actor porno? Ou será que Nuno Ramos de Almeida acha que as duas formas de relação sexual se equivalem?

Serão estas as reflexões sérias a que Eduardo Prado Coelho se refere?
Na Biblioteca de Babel não há plágios. Na Biblioteca de Babel todo o texto é um plágio. Felizmente, a Web nunca será uma Biblioteca de Babel: na Biblioteca de Babel há cerca de 25410×40×80 (aproximadamente 101834097) livros diferentes, mas no universo, aparentemente, não chega a haver 10100 átomos.
"Não gosto de deficientes", disse um arquitecto meu conhecido. Descodificando, significa "não gosto de clientes: suporto-os".
O Jantar da UBL Regresso ao vício demasiado tarde para poder acrescentar algo de novo às excelentes descrições do jantar da UBL:

Agradecimentos em particular à Charlotte e ao Pedro Lomba pelas amabilíssimas palavras, que não mereço, ao Pedro Mexia pelo "incentivo" (já sinto uma auréola a formar-se), e aos irmãos Miguel e João pelos elogios.

Apesar de redundante, não posso deixar de dizer que há muito não jantava em tão boa e inteligente companhia.

P.S. A Bomba Inteligente escolheu bem o nome do seu blogue: é uma bomba e é inteligente (a ordem é arbitrária).

P.P.S. Tudo o que os outros membros da UBL disseram acerca do trio d'O Complot é verdade: são surpreendentes.

Bloguirium Tremens

Bloguirium Tremens Já lá vão duas semanas de abstînência. Os sintomas são horríveis*: agitação, nervoso, ansiedade, irritabilidade, depressão, fadiga, pensamento enovoado, palpitações, dores de cabeça, suores, náuseas, falta de apetite, insónia, pesadelos, alucinações, tremuras, ataques... Impossível resistir mais tempo. O vício chama.

2003-06-24

Suspensão temporária Este blogue está suspenso durante uns dias. Voltaremos em breve.

2003-06-20

Em breve no blogário: blogador, extrablogar, intrablogar.
O Picuinhas derreteu com o calor.

2003-06-19

Pedro Mexia Um dos autores da Coluna Infame, blogue de boa memória que inspirou meia blogosfera nacional e que me levou a criar o Picuinhices, está de volta. Que seja muito bem-vindo! O blogue de Pedro Mexia chama-se Dicionário do Diabo. Visitem-no!

2003-06-18

Nazismo e Socialismo Mais umas achegas para a excelente resposta do Contra a Corrente ao Linhas de Esquerda:
What distinguished Nazism from traditional forms of socialism was its febrile nationalism, although not its virulence against despised peoples. Marx, as we have seen [pág. 66 e 67], looked forward to the "annihilation" of "reactionary races." The examples he gave were "Croats, Pandurs, Czechs and similar scum." He did not in this passage mention Jews, but his desire for their disapearance was amply expressed elsewhere. His aspiration for "the emancipation of society from Judaism" because "the practical Jewish spirit" of "huckstering" had taken over the Christian nations is not that far from the Nazi program's twenty-fourth point: "combat[ing] the Jewish-materialist spirit within us and without us" in order "that our nation can...achieve permanent health."

Joshua Muravchik, Heaven on Earth: The Rise and Fall of Socialism, Encounter Books, San Francisco, 2002.
Os acentos O Rui escreve de Inglaterra em teclados sem acentos. Neste blogue simbiótico, sou eu quem lhe acentuo as frases. Se falhar algum, já sabem que a culpa é minha.
Filo-americanismos a dois tempos Em Março, escrevi a seguinte nota pessoal:
Aos amigos

Aos amigos dizemos sim, aos amigos dizemos não. Nunca devemos ser ingratos, ainda menos com os nossos amigos. Nunca deixaremos que mintam e lancem falsos testemunhos, muito menos quando as vítimas são os nossos amigos.

Os nossos amigos não são perfeitos. Não foi na ilusão da sua perfeição que se tornaram nossos amigos. Foi por causa da afinidade, por termos descoberto mais coisas que unem que as que nos separam. Por em momentos cruciais das nossas histórias termos estado juntos.

Os amigos serem para as ocasiões é sempre verdade, quer as ocasiões sejam as nossas ou as deles.


As entrevistas aos presos de Guantánamo – a descrição das condições nada humanas, da enormidade de tempo sem culpa formada, do desespero, das tentativas de suicídio – deixam-me com um desconforto semelhante àquele que sentimos quando os nossos amigos fazem algo de errado. Profundamente errado.
Insultos O Linhas de Esquerda acusa o Valete Frates! de nazismo por ter colocado uma entrada no seu blogue onde se demonstra claramente que as ideias de Hitler eram em muitas coisas semelhantes à cartilha de sempre da esquerda: o anti-capitalismo, a estatização da cultura e da educação, etc. Confundir esta entrada esclarecedora e claramente anti-esquerdista e anti-nazi com uma citação enaltecedora do nazismo é um gigantesco absurdo (e estou a ser eufemístico). Infelizmente, há alguma esquerda que não quer, ou não sabe, argumentar, limitando-se ao insulto.

Mas, bem vistas as coisas, valerá a pena responder?

2003-06-17

Guantánamo blues Que se passa exactamente em Guantánamo? Aparentemente nada de especial. Não há torturas. Não há violência. Não há maus tratos. Há presos preventivos. Presos sem culpa formada. E isso já é demais. Não gostamos. Cá como lá, há limites que não se podem ultrapassar. Em Guantánamo foram há muito ultrapassados.
Fernando Ilharco Todas as semanas tento ler a coluna de Fernando Ilharco no Público. Nunca consegui, apesar do esforço. Gostava de saber, sinceramente, se alguém a lê, tirando o próprio. E, sobretudo, se entende o que lá está escrito. Por exemplo, agradecem-se explicações acerca do sentido da seguinte frase:
Contextualizado por um monumental enquadramento do que existe, como Heidegger aponta a essência da moderna tecnologia, no âmbito de um sistema não apenas de informação mas genuinamente de comunicação, de ajuste e de acoplamento estrutural e essencial entre o dentro e o fora, entre todas as diferenças que nos rodeiam e afectam, o que existe e que conta, o ser em si mesmo, é-nos revelado.


Trad... explicações para Picuinhices@yahoo.com.br.
O Logro da "Democracia Participativa"?

José Manuel Fernandes escreve no público acerca da democracia representativa e da "democracia participativa". Concordo no essencial com as suas palavras, mas julgo que o artigo vai um pouco longe demais.

JMF parece negar o papel importantíssimo que têm as associações espontâneas na sociedade civil, independentemente da sua representatividade e democracia interna. Se é verdade que estas associações, a que JMF chama "movimentos sociais", não são a sociedade civil, também é verdade que são uma parte importante dela. É evidente que estas associações não podem ter poder, pois, como JMF diz, isso seria uma total perversão da democracia. Mas nada há de errado em que tentem influenciar o poder: o lobbying, desde que feito às claras, só pode servir mas estimular a discussão e melhor a informação que os nossos eleitos têm para decidir, quer se trate de representantes em órgãos legislativos, quer se trate de membros de órgão executivos. Para que não haja dúvidas, digo isto com activista convicto e associado da ACA-M, ou Associação de Cidadão Auto-Mobilizados, que tem tido, julgo eu, um papel relevante a levantar bem alto o problema da sinistralidade rodoviária em Portugal. Esta associação não participou, e ainda bem, no FSP (Fórum Social Português), justamente pelo seu carácter de verdadeira associação de cidadãos, totalmente ortogonal às organizações partidárias ou partidarizadas. Digo-o com à vontade, pois entre os seus membros se encontram associados de todos os espectros políticos. O mesmo já não posso dizer da LPN (Liga para a Protecção da Natureza), que participou oficialmente no FSP, e da qual deixarei em breve de ser sócio.

Concordo com JMF quando ele diz que não há nenhuma razão para que as opiniões de associações e "movimentos sociais" sejam mais ouvidas que a voz do cidadão singular, pelo menos enquanto não for evidente a sua representatividade. É justamente aqui, de resto, que eu julgo que a nossa democracia está doente. Diria mesmo mais: sempre esteve doente. Porque o cidadão individual é simplesmente ignorado pelo poder. Para o ilustrar, deixem-me descrever uma experiência que tive há uns anos, numa sessão pública da CML, quando ainda João Soares era presidente.

Nessa altura, e presumo que ainda hoje, havia uma sessão pública mensal das reuniões do executivo da CML. Uma vez que sempre acreditei que uma participação activa dos cidadãos na vida pública é fundamental numa democracia plena, com as nuances que apresentei acima, decidi participar numa dessas sessões. Se bem me lembro, realizavam-se numa das terças-feiras do mês, talvez numa das quartas. A sessão tinha lugar à tarde, mas era obrigatória a inscrição prévia dos cidadãos que quisessem interpelar o executivo. Essa inscrição realizava-se pela manhã, e obrigava à indicação dos assuntos a que o cidadão aludiria na sua intervenção, alegadamente para que os "vereadores e presidente pudessem estar preparados para responder". Na prática significava não só evitar as perguntas embaraçosas, como também levava a que os cidadãos que efectivamente participavam nas sessões públicas da CML fossem geralmente cidadãos ociosos, muitas vezes reformados e por vezes mesmo com perturbações e evidente falta de bom senso.

Chegada a hora da sessão, entrei e sentei-me junto com o restante público. Não me lembro exactamente quanto tempo passámos a ouvir votações acerca de assuntos a que os vereadores se referiam pelo número na ordem de trabalhos, à qual não tínhamos acesso. Talvez tenhamos estado uma hora a ouvir os vereadores votarem números: “número 57, quem vota a favor? quem vota contra? quem se abstem?”. Só muito raramente, quando o assunto era polémico e dava azo a alguma discussão, conseguíamos inferir vagamente do que se tratava.

Finalmente chegou o período das intervenções do público. Não intervim, até porque não pudera prescindir da minha manhã para me inscrever. Limitei-me a assistir a um arrastar de personagens absurdos que faziam discursos intermináveis e perguntas absurdas a vereadores enfastiados que respondiam cheios de paternalismo. Uma total perda de tempo e um total aviltamento de uma ideia virtuosa.

A democracia formal limita-se ao voto, mas uma democracia real implica respeito pelo cidadão. Implica dar-lhe a possibilidade, não de decidir, mas de ser ouvido. Por isso digo que a nossa democracia está, e sempre esteve, doente. Porque o cidadão é tratado como um imbecil. Porque presidentes de câmara, como o foi João Soares, e mesmo presidentes de juntas de freguesia, como o foi Vitor Gaio, em S. João de Deus, não se dignam sequer a responder a cartas dos cidadãos.

Note-se que estou a falar da governação ao nível mais atómico, onde os contactos com os cidadãos são mais fáceis e necessários. O que poderá justificar que uma câmara municipal planeie durante anos a recuperação de um jardim, por exemplo, sem que os habitantes da zona o saibam? O que poderá justificar que não tenham acesso atempado ao projecto e a possibilidade de apresentar as suas críticas quando ainda há a possibilidade de elas serem levadas em conta, caso sejam pertinentes? É por não compreender, por não aceitar esta ideia de que a democracia seja sempre e em qualquer circunstância uma espécie de ditadura limitada no tempo, que aceitei, agradecido, o convite que me foi feito para participar como independente nas listas do PSD para a Assembleia de Freguesia de S. João de Deus, onde poderia ter, talvez, a possibilidade influenciar um pouco a forma como os cidadãos são tratados.

Será que dar voz ao cidadão, ou melhor, será que demonstrar simples consideração pelo cidadão corresponde a apoiar a ideia de "democracia participativa"? Não, de modo algum! Pelo menos na acepção que JMF dá à expressão. E isso acontece porque não proponho que o poder esteja directamente nas mãos dos cidadãos individuais ou nas suas associações, mas sim nos seus representantes eleitos. Mas será que podemos chamar verdadeiramente democrática a uma sociedade onde os eleitos simplesmente ignoram os cidadãos, tratando-os com condescendência e paternalismo? A resposta é um enfático não. Democracia implica capacidade de decidir. Por vezes até capacidade de decidir convictamente contra a vontade de todos. Isso implica a coragem de um Tony Blair, afrontando manifestações e impopularidade. "I don't see impopularity as a badge of honour", disse, enquanto persistiu, convicto, no apoio ao ataque ao regime de Saddam Hussein. Mas há uma diferença enorme entre decidir corajosamente e ignorar os cidadãos. O exercício do poder democrático implica a possibilidade de decidir contra a vontade de alguns, ou mesmo da grande maioria dos cidadãos. Mas não significa necessariamente que as opiniões desses cidadãos não mereçam respeito e resposta. Nem que os detentores do poder possam deixar de informar convenientemente os cidadãos.

2003-06-16

Gravatas e T-Shirts ou Uma Resposta a José Manuel Fernandes
Et hay nos gens qui supportent plus mal-aysement une robbe qu'une ame de travers : et regardent à sa reverence, à son maintien et à ses bottes, quel homme il est.

Montaigne, "Du pedantisme", "Essais - Livre I", 1595.

Aborreço esta gente que tem mais dificuldade em desculpar um fato do que um espírito menos correcto e decidem do valor de um homem pelas reverências, pelo porte e pelas botas.

Tradução de Agostinho da Silva em: Montaigne, "Três Ensaios", Vega, 1993.
Constituições e páginas Para que se possam fazer algumas comparações interessantes, seguem as estatísticas:

A este respeito vale a pena ler o artigo de João Carlos Espada na última edição do Expresso.

Correcções ou precisões para Picuinhices@yahoo.com.br.
Holy Cow Comentário anónimo a uma entrada no Samizdata sobre a Constituição da União Europeia:
Holy cow. The EU constitution is 244 pages long?! The mind boggles imagining the things you could hide in there. How many pages is the US Constitution? Low double digits? I have a version that fits in your pocket that I picked up in law school.
A qualidade deste miserável blogue não lhe agrada? Não admira. É que foi traduzido automaticamente do inglês, língua em que são escritas as entradas originais. Para recuperar a versão original, que lhe garanto tem uma qualidade muito superior, siga esta ligação. Verá que o humor fino da versão original inglesa se perde totalmente na tradução.
Uma desgraça nunca vem só José Neves assina um artigo no Público que é verdadeiramente de ir às lágrimas:
Imagine, imagine uma pessoa que vive num subúrbio de Lisboa. Imagine que essa pessoa tem um trabalho hoje, não teve um trabalho ontem e o amanhã ainda não cantou. Imagine, já agora, que essa pessoa é mulher. Imagine-a sem marido e com filhos. Peço-lhe mais um esforço. Imagine ainda que essa pessoa nasceu em África. E imagine a viagem que da sede de êxodo a trouxe até aqui. Peço-lhe mais um esforço - peço-lhe no fundo que a sua sede de êxodo acompanhe a da pessoa imaginada. Assim, imagine ainda que essa mulher é lésbica.

[Texto omitido. Pode-se gerar texto em tudo equivalente recorrendo ao Postmodern Generator e traduzindo o resultado no Systran.]

A caminho do Fórum Social Europeu de Novembro, viveremos os próximos episódios de uma história que escreveremos na nossa diversidade múltipla. Trata-se do movimento da imaginação com que este texto começou. Trata-se do seu encontro com a vida daquela mulher-negra-lésbica-imigrante que o pragmatismo da velha vanguarda das tácticas e das estratégias não soube encontrar. Só esse encontro nos poderá fazer voltar a citar sem tontismo algum a frase de Marx - paira um espectro na Europa.

Pois paira. Mas é o espectro do próprio Marx, que nos continua a atormentar através de organizações como a ATTAC, de que José Neves é membro.

2003-06-15

Merda Roquette Verdadeiramente imperdível, no DN:
Um salto a Paris. Três dias. Chance, chance, merde!

Vera Roquette à blogosfera já! Para compor o ramalhete, precisamos mesmo de um coproblogue.

2003-06-14

Carros sobre passeios esburacados, recantos cheirando a mijo, entulho, lixo, reboco a cair, cantarias sujas de graffitis. Homens bebendo imperiais à porta de tascas cheirando a fritos, a televisão aos gritos. Os lisboetas passam, olham, e não vêem senão uma bela cidade imaginária. O lixo que deixam para o chão, os escarros, volatilizam-se miraculosamente perante o seu olhar. Não existem.

Um amigo americano quebra o feitiço:
- Porque é que a polícia não multa os carros sobre o passeio?
- Porque os polícias também lá estacionam - é a minha resposta automática.

De repente, envergonho-me da minha cidade.
Torcicolos Frente a uma estante, ingleses ou americanos rodam a cabeça para a direita. Os franceses rodam-na para a esquerda. Os portugueses giram-na para a direita, depois para a esquerda, arriscando-se seriamente a um torcicolo. Os nossos livreiros não poderiam chegar a acordo quanto à direcção dos títulos nas lombadas?
Bronca... Onde terei eu ido buscar o «Paulo» Laginha? A bronca ficou registada para a posteridade no Posto de Escuta :-).

2003-06-13

Há uns tempos, o Abrupto lançou o desafio de encontrar objectos que cairam ultimamente em desuso. Seria interessante repetir o exercício para palavras ou suas acepções. Quantas palavras não perdemos por terem ganho um sentido pejorativo?
Concerto para dois pianos e vento nos choupos Ontem à noite, no belíssimo Miradouro de Montes Claros, Bernardo Sasseti e Mário Laginha deram um memorável concerto para uma pequena audiência de foragidos das marchas populares. Foi bonito ouvir momentos como "Renascer", de Bernardo Sassetti, acompanhados pelo ruído do vento nas folhas transparentes dos choupos. Junto ao espelho de água, os temas passaram por "O sonho dos outros", "Segunda gaveta a contar de cima" ou "Fisicamente", terminando com um notável improviso a quatro mãos, enquanto as partituras voavam com o vento.
Blogário Mais contributos para um vocabulário da blogosfera.

blogado [Part. de blogar] Adj. m. Que se blogou.
blogador S. m. O mesmo que blogueiro.
blogal Adj 2 g. 1. Relativo ao blogo.  2. Que se passa do blogo.
blogamia S. f. Estado de blógamo.
blógamo S. m. Aquele que é casado em simultâneo com um humano e com o seu blogue.
blogão [Aum. de blogueS. m. 1. Grande blogue.  2. Blogue de grande qualidade.
blogar V. i. Produzir entradas num blogue.
blogaria S. f. 1. Movimento promotor do bloguismo.  2. Sociedade secreta de blogueiros.
blogariano Adj. m. 1. Leitor que recusa o consumo de qualquer medium que não os blogues.  2.  Membro da sociedade secreta da Blogaria.  3.  Descendente da tribo dos blogarianos primitivos.
blogário1 Adj. m. Respeitante aos blogues, à blogatura4,5 ou a qualquer espécie de de cultura adquirida pela leitura ou estudo dos blogues.
blogário2 S. m. Vocabulário ou livro em que se explicam termos blogários1.
blogarro [Aum. de blogueS. m. 1. Grande blogue.  2. Deprec. Blogue grande apenas em extensão, embora não necessariamente na qualidade.
blogatura S. f. 1. Funções de blogueiro.  2. A classe dos blogueiros.  3. Duração da actividade do blogueiro.  4.  Arte de compor ou escrever em forma de blogue.  5.  O conjunto dos trabalhos blogários dum país ou duma época.  6. Forma de governo em que o poder está nas mãos dos blogueiros cujos blogues têm mais visitas.
blógico Adj. m. Relativo ao blogo.
blogo S. m. 1. Anat. Canal mental que produz entradas para um blogue.  2. Inf. Aplicação informática que permite gerir um blogue.
blogoespaço S. m. Local para onde vão os blogues depois de mortos.
blogófilo Adj. S. m. 1. Psiq. Aquele que sofre de blogofilia.  2. Aquele que ama os blogues.
blogofilia S. f. 1. Psiq. Parafilia caracterizada por desejo forte e repetido de práticas e fantasias sexuais com blogueiros.  2. Amor aos blogues.
blogofobia S. f. Psiq. Blogopatia caracterizada pelo medo, aversão ou discriminação em relação aos blogues ou aos blogueiros.
blogofrenia S. f. Psiq. Termo que engloba várias formas clínicas de blogopatia e distúrbios blogais próximos a ela; sua característica fundamental é a dissociação e a assintonia das funções blógicas, disto decorrendo fragmentação da personalidade do blogueiro.
blogofrénico Adj. S. m. 1.  Que ou aquele que sofre de blogofrenia.  2. Qualquer blogueiro que mantenha dois blogues contraditórios (e.g., o caso dos blogues De Direita e De Esquerda).
blogologia S. f. Ciência que estuda a blogosfera.
blogólogo S. m. Indivíduo dedicado ao estudo da blogologia.
blogómano Adj. S. m. Psiq. Aquele que sofre de blogomania.
blogomania S. f. Psiq. Tendência para o abuso da leitura de blogues, a qual às vezes assume carácter patológico.
blogopatia S. f. Psiq. Qualquer doença mental relacionada com o blogo.
blogorreia S. f. 1. Med. Evacuação frequente, através do blogo, de opiniões verbosas e irrelevantes.  2. Fluxo anormal de entradas num blogue.
blogose S. f. 1. Psiq. Blogopatia.  2. Fig. Ideia fixa no seu blogue; obsessão por produzir entradas num blogue.
blogosexual Adj. 2 g. Relativo à afinidade, atracção e/ou comportamentos sexuais entre blogueiros.
blogosfera S. f. Conjunto de todos os blogues, blogueiros e blogófilos2.
blogossocial Adj. 2 g. 1. Que é simultaneamente blóguico e social.  2. Diz-se de actividade, estudo, etc., relacionados com os aspectos blóguicos conjuntamente com os aspectos sociais da Web.
blogote S. m. Deprec. Blogue de má qualidade.
blogótico Psiq. Adj. m. 1. De ou relativo a blogoses.  2. Que sofre de blogose.
blogotomia S. f. 1. Cir. Incisão no blogo.  2. Neurocir. Psiq. Transecção metódica do blogo, indicada em certas condições mórbidas blogais, como síndromes blogofrénicas, ou em casos de bloguites intratáveis de outra forma (intervenção foi aperfeiçoada, segundo um blomito corrente, por Blogas Moniz, e que entretanto caiu em desuso, sendo mesmo desaconselhada pela bloguética).
blogue1 S. m. Diário digital a uma ou várias mãos, que pode ter um carácter íntimo ou servir como uma coluna de opinião pessoal.
blogue2 Adj. 1. Deprec. Diz-se daquilo que é como um blogue.  2.  Verboso e opinioso.  3.  Irrelevante.
blogueio S. m. 1. Med. Obstrução do blogo.  2.  Estado de um blogueiro temporariamente incapaz de blogar.
blogueiricida S. 2 g. Aquele que matou um blogueiro.
blogueiro S. m. Aquele que mantém um blogue, ou seja, que bloga.
bloguemente Adv. 1. À maneira de um blogue ou de um blogueiro.
bloguepsia S. f. Patol. Afecção que incide no homem mas sobretudo em alguns quadrúpedes e certas aves de arribação, e que consiste em acessos recidivantes de distúrbios mentais, caracterizados pelo cepticismo acerca da relevância do movimento bloguista.
bloguéptico Adj. m. 1. Relativo a, ou que sofre de bloguepsia, i.e., que tem crises bloguépticas.  2. Aquele que sofre de bloguepsia.
bloguército S. f. As tropas de um blogue ou de uma coalizão de blogues (e.g., a famosa União dos Blogues Livres, que libertou a blogosfera do perigo totalitário marxista).
bloguerra S. f. Guerra fraticida entre blogues.
bloguética S. f. Filos. Estudo dos juízos de apreciação referentes à conduta bloguíaca susceptível de qualificação do ponto de vista do bem e do mal, seja relativamente a determinada bloguidade, seja de modo absoluto.
bloguíaco Adj. m. Relativo aos blogues.
bloguice S. f. 1. Qualidade do que é blóguico.  2. Mania típica de um blogueiro.
bloguicida S. 2 g. 1. Aquele que matou um blogueiro; blogueiricida.  2. Aquele que eliminou um blogue.
bloguício 1. Adj. m. Relativo aos blogues.  2. S. m. Vício de blogar.
blóguico Adj. m. Relativo aos blogues.
bloguidade S. f. Agrupamento de blogueiros que vivem em estado gregário.
bloguinho [Dim. de blogue] S. m. 1. Pequeno blogue.  2.  Carinh. Blogue com conteúdo ingénuo.
bloguismo S. m. Doutrina que prega a primazia dos blogues sobre os media tradicionais. V. socialismo.
bloguista Adj. 2 g. Que é partidário do bloguismo. V. socialista. S. 2 g. Partidário do bloguismo.
bloguite S. f. 1. Med. Inflamação do blogo.  2. Vermelhidão no blogue (Ver Blog de Esquerda).
bloguito [Dim. de blogue] S. m. 1. Deprec. Blogue medíocre.  2. Chulo Gesto obsceno característico dos blogueiros, executado normalmente quando recebem um tratamento que consideram injusto nos media tradicionais.  3. Gesto ritual realizado aquando da entrada num movimento bloguista.
blogura S. f. Qualidade daquilo que é blogue2.
blomito S. m. 1. Mito da blogosfera.  2.  Narrativa dos tempos fabulosos ou heróicos da blogosfera.
comenteiro S. m. Aquele que comenta as entradas de um blogue.
comentarreia S. f. 1. Med. Afecção caracterizada pela produção descontrolada de comentários às entradas de um ou mais blogues.
iblogato Adj. S. m. Que ou aquele que não tem conhecimentos blogários.
ibloguecia S. f. Condição ou estado de iblogato.
lapsus linkae [Lat. moderno] Erro involuntário numa ligação (link) a uma página.
pós-bloguismo S. m. Doutrina que prega a equivalência não apenas entre todas as formas de expressão, mas também de todas as opiniões expressas.
pré-bloguismo S. m. O mesmo que pós-modernismo.
[A lista continua logo que possível com: coproblogue, blogue-maria, bloguinária, blogussão, blogasmo, blogásmico, imblóguio, blogosene, in blogo, blogalgia, blogóide, blogoma, disblogue, rinoblogue, blogostase, periblogue, ectoblogue, blogostória, blogueida, citoblogue, neoblogue, poliblogue, monoblogue, homoblogue, heteroblogue, pan-bloguismo, neuroblogue, psicoblogue, interblogue, intrablogue, hiperblogue, hipoblogue, gastroblogue, bloguiase, hemoblogue, megablogue, micro blogue, transblogue, blogoblasto, bradiblogue, taquiblogue, taquibloguia, bradibloguia, parablogue, imblogável, blogável, blogástico, blogoxismo, blogariante, blogacional, ofiblogue, blogópode, dromoblogue, blogueína, blogodependente]


Contribuições e correcções para Picuinhices@yahoo.com.br.

Colaborações de Gonçalo, comenteiro, e de Nelson Alexandre (a.k.a. Shinho), blogueiro da Espada Relativa. Verbetes indecentemente roubados ao Novo Aurélio Século XXI.
Juntos Ontem sessão dupla de Lukas Moodysson no cine-teatro Dukes em Lancaster, U.K. O primeiro "Fucking Åmål"/"Show me Love", o segundo "Tillsammans"/"Together". Bom o primeiro, imperdível o segundo. Ambos cheios de humanidade, o segundo de um humor óptimo.
Lapsus linkae O Picuinhices cometeu um lapsus linkae na entrada anterior colocando a mesma âncora para o termo "idiotarian" e para o artigo de Filomena Mónica. Um pedido de desculpas é devido aos nossos leitores mais picuinhas... e aos outros também...
Será a tendência para a utupia inata? Será que a natureza humana nos condenará para todo o sempre a conviver com uma minoria "idiotariana"? É bem possível que sim. Daí que o aviso de Filomena Mónica deve ser levado em conta.
Mais um glossário da blogosfera, no Samizdata.
Blogues e democracia, no Samizdata:
Blogs are therefore something which empowers the individual, the blogger, regardless of the wishes, and therefore the votes, of a collective who might wish to have a say in what a blogger writes. The correct analogy is therefore the market place... a blog is a open air stall in a marketplace for ideas called the blogosphere. If you find the ideas we are 'selling' interesting (even if you do not agree with them) you will come back for more. If we horrify you or even worse, bore the pants off you, you will probably not come back. But we will write what we will write. There is nothing democratic about that... and long may it be so.

De facto. Não gastemos a palavra "democracia".
A Coluna Infame acabou. O Picuinhices sente-se órfão. O Picuinhices revê-se nas palavras de José Manuel Fernandes:
A "Coluna Infame" acabou. A blogosfera está mais pobre. E o país também - mesmo que a maioria nunca tenha ouvido falar nem da "Coluna", nem da blogosfera.
Mais Castrismos no Le Monde. Cuba pára durante três horas para poder participar em mais um manifestação oficial, desta vez contra a União Europeia, personificada nos "fascistas" Aznar e Berlusconi.
O Blog de Esquerda agarra-se instintivamente a todos os confrontos de manifestantes de esquerda com a polícia. A verdade sofre no processo de "epicização" dos acontecimentos. Um ponto de vista um pouco diferente sobre as manifestações em Paris pode ser lido no Le Figaro:
Le film des événements semble indiquer que les services d'ordre mis en place par les syndicats ont été dépassés par un «noyau dur» de trois cents personnes environ. «Vers 19 heures, une partie des quelque cinq mille manifestants massés place de la Concorde ont tenté de franchir le pont pour rejoindre l'Assemblée nationale, qui était dans leur ligne de mire, explique un policier. Des groupes d'inconnus se sont heurtés aux CRS, qui ont essuyé une pluie de projectiles divers.» De manière assez exceptionnelle, les fonctionnaires en tenue ont été contraints de lancer des grenades lacrymogènes et d'utiliser les canons à eau pour repousser les assaillants. Une vingtaine d'individus ont été appréhendés avant qu'une partie du cortège ne se dirige vers l'Opéra Garnier où, vers 21 heures, plus de deux cents personnes ont fait irruption au moment de l'entracte de Cosi Fan Tutte. A leur tour, une quarantaine de personnes ont été neutralisées.
Mais mentiras João Lecour envia-nos mais uma contribuição para o rol das mentiras associadas ao caso Wofowitz:

Aqui fica o meu contributo, retirado do Público de 9/6, referindo a intervenção de Maria de Lourdes Pintasilgo no FSP:
[...] Entre elas, a controversa entrevista de Paul Wolfowitz, subsecretário de Estado da Defesa dos EUA, à revista "Vanity Fair". "Afirmou que o argumento das armas de destruição maciça foi inventado para fazer a guerra e com tal mentira foram mortas milhares de pessoas e criou-se no mundo uma grande revolta", declarou. Perante uma assistência que foi engrossando ao longo da manhã, Pintasilgo lamentou viver num mundo "onde não conta a vida humana" e frisou que "se o mundo assenta na mentira, então não vale a pena governar".

Diz a sra. Pintasilgo que "se o mundo assenta na mentira, então não vale a pena governar"; concordo e acrescento que ainda bem que pessoas como ela não governam, pois como ficou comprovado são capazes de recorrer à mentira mais conveniente.
José Pacheco Pereira produziu mais uma crónica admirável no Público, amadurecida a partir de textos pré-publicados no seu blogue: O Abrupto. Desta vez é sobre o Fórum Social Português.
Lulismos Não sou especialista em impostos, mas quando li a proposta de Lula da Silva de introduzir um imposto sobre o comércio internacional de armas, lembrei-me do Conde-Duque de Olivares, valido de Felipe IV (Filipe III de Portugal). Foi ele que inventou o nefando imposto de selo, na sua forma primitiva de papel selado. O objectivo era aumentar as receitas numa altura em que a situação da Fazenda de Espanha se tornou desastrosa devido à redução das entradas de ouro das colónias, ao esforço bélico constante em todas as partes do império e à guerra com França de 1635 (ver a excelente biografia de Gregorio Marañón). Este tipo de ideias repete-se há séculos: quando não há dinheiro, inventa-se.

Mas a proposta de Lula não terá o condão de irritar a opinião pública. Não. Desde 1635 aprendeu-se muito. Hoje, este tipo de propostas têm um toque de Robin dos Bosques. Os impostos propostos para resolver definitivamente os problemas agora mundiais não incidem sobre todos nós. Incidem, isso sim, sobre um conjunto de entidades mais ou menos remotas e que o pensamento politicamente correcto vê como sinistras e fontes do mal na terra. Primeiro foi a famosa Taxa Tobin, que taxaria as transacções financeiras internacionais, vistas pela cartilha dos movimentos anti-globalização como especulativas e fonte das misérias dos países do terceiro mundo. Agora chegou a vez da Taxa Lula, que propõe a solução milagrosa para a fome no mundo à custa da taxação das vendas internacionais de armamento.

A resposta mais eloquente a esta proposta profundamente demagógica foi dada por Sérgio Vasques no Público de ontem, através de um artigo irónico e certeiro:
Ora aqui é que a proposta do Presidente Lula se mostra verdadeiramente revolucionária, deixando ver que outra globalização é de facto possível: propõe-se que se combata a fome não só com o novo imposto mas com parte dos juros da dívida pagos pelo terceiro mundo. Com alguma articulação e boa vontade, consegue-se, portanto, a situação óptima impensada nos livros: a indústria do armamento mantém o seu lucro, os contribuintes do primeiro mundo o seu rendimento, os regimes do terceiro mundo as suas prioridades. E uma vez salvo o planeta, quem sabe, talvez se salve o Brasil.


Parabéns, Sérgio Vasques!

2003-06-12

Enlynceceu Pedro Lynce, num ataque violento de socialismo, decidiu chamar a si não apenas a fixação das vagas para o ensino superior público, violando grosseiramente os pequenos passos que ele próprio vinha dando no sentido de uma maior autonomia e responsabilização das instituições de ensino superior público, mas também as vagas do ensino superior privado. O procedimento de redução de vagas "vai ser aplicado a todo o sistema, desde que haja concorrência", disse. É verdadeiramente lamentável. Uma regressão que não esperava deste governo, que aliás me vai desiludindo todos os dias que passam.

Dadas as suas tendências socialistas, proponho Pedro Lynce como organizador do próximo Fórum Social Português e como membro honorário do PCP.

2003-06-11

Pausa Devido a um período de trabalho mais intenso, os próximos tempos neste blogue vão ser calmos... Espero voltar à acção a partir da próxima semana.
A contribuição possível

Só mesmo o Manel e a capacidade de ser amigo dele suporta o facto de eu ser um disblogue. Posto isto, a contribuição possível é uma descoberta musical nova de 3 dias. Isto, também se poderia chamar And now something completely different ...


Into my arms by Nick Cave & the Bad Seeds


I don't believe in an interventionist God
But I know, darling, that you do
But if I did I would kneel down and ask Him
Not to intervene when it came to you
Not to touch a hair on your head
To leave you as you are
And if He felt He had to direct you
Then direct you into my arms

Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms

And I don't believe in the existence of angels
But looking at you I wonder if that's true
But if I did I would summon them together
And ask them to watch over you
To each burn a candle for you
To make bright and clear your path
And to walk, like Christ, in grace and love
And guide you into my arms

Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms

And I believe in Love
And I know that you do too
And I believe in some kind of path
That we can walk down, me and you
So keep your candlew burning
And make her journey bright and pure
That she will keep returning
Always and evermore

Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms


Desculpem qualquer coisinha os leitores habituais do Manel por este público acto de contrição.
Obrigado Manel.

2003-06-09

"A Hora dos Professores" Excelente o artigo de António Barreto no Público. Um extracto:
Ainda há centenas de professores que não dão aulas, ou quase não dão aulas, reservando para os assistentes dependentes e os convidados acidentais essa que deveria ser uma sua nobre tarefa. Há numerosos professores que nada investigam, limitando-se a repetir aulas ou artigos velhos de idade e de ideias, sem efectiva avaliação ou, pior ainda, sem consequências das avaliações feitas. Há faculdades que multiplicam os números de cadeiras e disciplinas, na esperança de assim resolver problemas de corpo, ao mesmo tempo que se "fabricam" turmas sem alunos. Há faculdades com mais de 1.500 disciplinas, muitas das quais absolutamente inúteis, mas cuja função primordial é a de manter professores na inactividade. Há cursos de mestrado concebidos com o objectivo essencial de preencher, no papel, horários docentes inexistentes. Há centenas de professores em acumulação mais ou menos lícita, ao abrigo de expedientes legais estranhos. Há centenas de professores que faltam às aulas, sem sequer advertir os seus estudantes. Há centenas de professores que assinam os trabalhos dos seus dependentes e os publicam para sua glória. Há centenas de professores que não recebem regularmente os estudantes, não acompanham os trabalhos dos seus doutorandos, demoram por vezes meses a publicar as pautas de exames e chegam a fazer esperar mais de um ano um candidato a doutor. Há centenas de professores com "horário zero" (e milhares no sistema educativo em geral), há dezenas e dezenas de professores sem aulas e ao serviço do sindicato (são muitas centenas no sistema), há centenas de universitários (e milhares de professores ao todo...) requisitados nos gabinetes dos ministros, nos departamentos ministeriais, nas autarquias e noutras instituições de repouso académico!

2003-06-08

Contributos para um vocabulário da blogosfera Ao cuidado do Prof. João Malaca Casteleiro, seguem alguns contributos humildes para a próxima edição do Dicionário da Academia. Com estes novos verbetes, o Dicionário ficará finalmente completo. Definitivo. Imutável.

blogado [Part. de blogar] Adj. Que se blogou.
blogamia S. f. Estado de blógamo.
blógamo S. m. Aquele que é casado em simultâneo com um humano e com o seu blogue.
blogar V. i. Produzir entradas num blogue.
blogo S. m. 1. Anat. Canal mental que produz entradas para um blogue.  2. Inf. Aplicação informática que permite gerir um blogue.
blogófilo Adj. S. m. 1. Psiq. Aquele que sofre de blogofilia.  2. Aquele que ama os blogues.
blogofilia S. f. 1. Psiq. Parafilia caracterizada por desejo forte e repetido de práticas e fantasias sexuais com blogueiros.  2. Amor aos blogues.
blogofobia S. f. Psiq. Blogopatia caracterizada pelo medo, aversão ou discriminação em relação aos blogues ou aos blogueiros.
blogologia S. f. Ciência que estuda a blogosfera.
blogomano Adj. S. m. Psiq. Aquele que sofre de blogomania.
blogomania S. f. Psiq. Tendência para o abuso da leitura de blogues, a qual às vezes assume carácter patológico.
blogopatia S. f. Psiq. Qualquer doença mental relacionada com o blogo.
blogorreia S. f. 1. Med. Evacuação frequente, através do blogo, de opiniões verbosas e irrelevantes.  2. Fluxo anormal de entradas num blogue.
blogose S. f. 1. Psiq. Blogopatia.  2. Fig. Ideia fixa no seu blogue; obsessão por produzir entradas num blogue.
blogosexual Adj. 2 g. Relativo à afinidade, atracção e/ou comportamentos sexuais entre blogueiros.
blogosfera S. f. Conjunto de todos os blogues, blogueiros e blogófilos2.
blogote S. m. Deprec. Blogue de má qualidade.
blogótico Psiq. Adj. m. 1. De ou relativo a blogoses.  2. Que sofre de blogose.
blogue S. m. Diário digital a uma ou várias mãos, que pode ter um carácter íntimo ou servir como uma coluna de opinião pessoal.
blogueio S. m. 1. Med. Obstrução do blogo.  2.  Estado de um blogueiro temporariamente incapaz de blogar.
blogueiricida S. 2 g. Aquele que matou um blogueiro.
blogueiro S. m. Aquele que mantém um blogue, ou seja, que bloga.
bloguicida S. 2 g. 1. Aquele que matou um blogueiro; blogueiricida.  2. Aquele que eliminou um blogue.
bloguinho [Dim. de blogue] S. m. 1. Pequeno blogue.  2.  Carinh. Blogue com conteúdo ingénuo.
bloguismo S. m. Doutrina que prega a primazia dos blogues sobre os media tradicionais. V. socialismo.
bloguista Adj. 2 g. Que é partidário do bloguismo. V. socialista. S. 2 g. Partidário do bloguismo.
bloguite S. f. 1. Med. Inflamação do blogo.
bloguito [Dim. de blogue] S. m. Deprec. Blogue medíocre.
entrada S. m. Unidade básica do texto colocado num blogue (as entradas são usualmente assinaladas com a data e hora da colocação do texto e normalmente são assinadas pelo blogueiro que as produziu).
pós-bloguismo S. m. Doutrina que prega a equivalência não apenas entre todas as formas de expressão, mas também de todas as opiniões expressas.
pré-bloguismo S. m. O mesmo que pós-modernismo.
[A lista continua amanhã com: blogão, blogarro, comenteiro, comentarite, blogura (V. doçura), blogueira, bloguemente, blogueirar, blogoespaço, blogosocial (V. psicossocial), anti-blogue, pró-blogue, blogólogo, blogaria (V. sapataria), bloguesia (V. burguesia), blogasia (V. fantasia).]


Contribuições e correcções para Picuinhices@yahoo.com.br.
Blogorreia Isto hoje foi um caso de verdadeira blogorreia.
(Diabos! Lá vou eu, honesta e humildemente, comprar o "Hail to the Thief"...)
Radiohead Gosto demasiado desta banda para suportar os lugares comuns e os absurdos de que está cheio o início da entrevista do baixista da banda, Colin Greenwood, à revista Actual, do Expresso. Acerca do título do novo álbum, "Hail to the Thief", diz:
Refere-se igualmente ao modo como as empresas hoje nos roubam uma parte das nossas vidas, ou da nossa cultura, aniquilando o legado de nossos pais e avós, substituindo-a por coisas como os MacDonald's e essas porcarias.

Um exemplar autografado do novo album para o José Bové. Já!
Feira do Livro Xenófoba Porque diabo não há uma banca que seja na Feira do Livro com livros estrangeiros? Será o mesmo tipo de "defesa da língua" que se usa quando proíbem as teses de mestrado ou doutoramento em inglês? Ou serão apenas os livreiros a protegerem as suas traduções?
Ainda mais deturpações Ainda no expresso, em artigo de Paulo Paixão:
Discussões sobre uma declaração do secretário-adjunto da Defesa dos EUA, Paul Wolfowitz, adensaram as dúvidas sobre as teses da Casa Branca. Em entrevista à «Vanity Fair», Wolfowitz disse que a existência de armamento de eliminação em massa foi apresentada como motivo para invadir o Iraque «por razões que têm muito a ver com a burocracia dos EUA». Isto é, foi preciso formular «uma questão com que toda a gente pudesse concordar». Esta asserção foi vista por comentadores [Ana Sá Lopes, Paulo Paixão, Mário Soares, Ruben de Carvalho, e outros leitores assíduos da Vanity Fair] como uma confissão: o argumento das armas não passaria, afinal, de um pretexto para invadir o Iraque.


Repito de novo (paciência, caros leitores) a citação completa de Wolfowitz:
The truth is that for reasons that have a lot to do with the U.S. government bureaucracy we settled on the one issue that everyone could agree on which was weapons of mass destruction as the core reason, but …there have always been three fundamental concerns. One is weapons of mass destruction, the second is support for terrorism, the third is the criminal treatment of the Iraqi people. Actually I guess you could say there's a fourth overriding one which is the connection between the first two.

Cinismo parcial O cepticismo é uma arma importante, mas em excesso conduz ao mais simples e mesquinho cinismo. Se o cinismo é mau, ainda é pior quando é parcial, aplicando-se apenas aos adversários políticos, e quando é cego ao ponto de não vislumbrar em nenhuma possível acção do adversário senão o interesse, recusando-se a ver nos actos simples convicção e boa-vontade. É isto que faz Mário Soares, que transformou o cinismo numa profissão.

É fácil ser cínico. Como poderemos nós negar que os esforços de Bush para fazer avançar o processo de paz no médio oriente se devem à má situação da economia americana e ao aproximar das eleições presidenciais? Se Bush tivesse abandonado o médio oriente à sua sorte, cá estaria Mário Soares a explicar-nos porque isso se devia obviamente aos interesses mais mesquinhos do presidente dos EUA, provavelmente o interesse de apaziguar o "lobi judaico em Washington"...

Para que a minha crítica fique melhor documentada, segue pequeno extracto da coluna de Mário Soares no Expresso:
Voltemos, provisoriamente, a página. Trata-se agora de de genhar a paz. É a fase em que nos encontramos. E, na passada, se possível, para o Presidente Bush, ganhar as próximas eleições presidenciais em Novembro de 2004. É agora a sua preocupação dominante. Ora a situação económico-financeira da América – e, portanto, do mundo – não ajudam nada: há que as inverter.

Para tanto, importa fazer parar a guerra latente entre Israel e a Palestina, uma questão chave para todo o Médio-Oriente. [...}

Numa palavra, começaram as grandes movimentações político-diplomáticas. «Le calendrier oblige»!

Tirando o óbvio problema de Soares com as vírgulas, percebe-se perfeitamente que Mário Soares não poderia evitar elogiar os recentes esforços de paz de Bush e as posições felizes de Sharon, mas tinha de começar por lhes dar uma justificação interesseira. Tinha de ser. Há que ser cinicamente coerente, não é?
Mais deturpações Isto torna-se repetitivo... Agora foi Mário Soares, no Expresso, que repetiu as declarações truncadas de Wolfowitz à Vanity Fair, desta vez não apenas desinseridas de contexto, mas simplesmente adulteradas (note-se na pseudo-citação "foram um expediente burocrático"):
Sobretudo, quando se sabe agora (Paul Wolfowitz, «dixit», à revista «Vanity Fair») que as armas de destruição maciça, em poder de Saddam Hussein, nunca existiram: «foram um expediente burocrático» inventado pelos serviços para convencer os incautos... Confissão inacreditável!

Eles repetem a mentira, nós repetiremos os desmentidos. A mentira não ganhará aparência de verdade pela repetição. A blogosfera não o permitirá.
José António Saraiva escreve mal e argumenta pior. No seu editorial no Expresso de ontem refere a cegueira efectiva de Cunhal como pretexto para falar da sua cegueira ideológica. Um enorme mau gosto. Mas não se fica por aqui. Diz ele que:
O jornalismo que se pratica em Portugal nem sempre prima pela qualidade e há hoje nos grupos de «media» uma sumissão ao «patrão» maior do que havia há vinte anos.

Talvez seja verdade. Mas se o for, exigimos todos que José António Saraiva explique muito bem explicadinho como é que esta afirmação se aplica ao Expresso, aos seus jornalistas, e a ele próprio. Quero saber se continuo a ler o Expresso ou não.

Finalmente, José António Saraiva remata com um argumento absurdo para demonstrar que é um disparate afirmar que os "patrões [agora sem aspas] dos «media» [mas aqui sim]" determinam e controlam tudo:
Ora a solidariedade com o povo de Timor [que ocupou os nossos média durante meses] ou o antiamericanismo [da oposição à intervenção no Iraque que dominou os média portugueses] interessava alguma coisa aos «grandes potentados financeiros» de que fala Álvaro Cunhal?
Foram os patrões que planearam essas campanha jornalísticas?
Ou, pelo contrário, a maioria dos patrões não tinha qualquer interesse na causa de Timor e até concordava com a invasão do Iraque pelos Estados Unidos?

Como se não fosse do interesse dos "patrões" vender jornais ou aumentar audiências fornecendo aquilo que o público mais desejava...
Definitivamente. É mesmo mentira voluntária. Veja-se o que disse Ruben de Carvalho no Diário de Notícias:
Nele [no editorial de José Manuel Fernandes no Público de sexta-feira] se expõe que, sobre o Iraque, Wolfowitz não disse à Vanity Fair aquilo que disse sobre o embuste das armas de destruição maciça e as reais motivações petrolíferas, mas sim que as armas de destruição maciça foram um embuste e as reais motivações foram petrolíferas.


Para que não sobrem dúvidas, seguem de novo as afirmações contextualizadas de Wolfowitz. Acerca do petróleo no Iraque:
Look, the primarily difference - to put it a little too simply - between North Korea and Iraq is that we had virtually no economic options with Iraq because the country floats on a sea of oil. In the case of North Korea, the country is teetering on the edge of economic collapse and that I believe is a major point of leverage whereas the military picture with North Korea is very different from that with Iraq. The problems in both cases have some similarities but the solutions have got to be tailored to the circumstances which are very different.

Acerca das armas de destruição em massa:
The truth is that for reasons that have a lot to do with the U.S. government bureaucracy we settled on the one issue that everyone could agree on which was weapons of mass destruction as the core reason, but …there have always been three fundamental concerns. One is weapons of mass destruction, the second is support for terrorism, the third is the criminal treatment of the Iraqi people. Actually I guess you could say there's a fourth overriding one which is the connection between the first two.
A asneira continua. Agora é Ana Sá Lopes que repete, mais uma vez no Público, as falsidades acerca de Wolfowitz:
A dúvida reside apenas em saber "se foram destruídas ou não antes da intervenção norte-americana", uma dúvida de peso, que põe em causa o argumentário em que se centrou a propaganda americana sobre a guerra, "por razões burocráticas", conforme disse o subsecretário da Defesa norte-americano, Paul Wolfowitz, explicando que era a única matéria onde a comunidade internacional mais facilmente se podia entender.

Já não há paciência que ature isto. Será impossível que esta gente se informe? Ou será que tentam, pela repetição exaustiva da mentira, dar-lhe a aparência de verdade?

Depois, em adenda, Ana Sá Lopes refere o caso da pedofilia dizendo:
(Subitamente, os assassinos passaram a ter uma maior consideração no mercado da opinião pública). Numa revista, esta semana, o cronista social Carlos Castro pedia a pena de morte para os pedófilos.

É assim. Defender a pena de morte é o mesmo que ser assassino... O Público é um jornal equilibrado, do ponto de vista do espectro político dos artigos de opinião que publica. Mas, sinceramente, era boa ideia começar a pensar em mudar alguns dos seus colaboradores. Não por questões ideológicas, mas simplesmente porque é fundamental que quem opina num jornal saiba pensar.