2003-07-18

Sobreposições Um cartaz novo sobrepõe-se a um caduco: "Como Evitar a Guerra: Faça Yôga".
Se "o genoma humano tem arquivado o dinossauro", que estará arquivado no nosso memoma?
BHL às vezes ainda acerta Personagem controverso, extraio duas notas certeiras do seu Bloc-Notes:

Les GI à Monrovia ? Mais oui. Bien sûr. Le voilà, le vrai devoir d'ingérence. Le voilà, le devoir des nations face à l'appel des peuples maintes fois martyrs. Ici, dans cette Afrique douloureuse et presque sortie, déjà, de l'Histoire universelle, pas d'erreur de cible, pas de tromperie sur le siècle - l'urgence, la vraie, celle de prêter assistance à peuples en danger.

[...]

Propos de Tony Blair : le plus tragique, pour la gauche européenne, ce serait de se refonder sur la double pierre d'angle de l'antilibéralisme et de l'antiaméricanisme. En effet. Double version du socialisme des imbéciles.

2003-07-17

Vénia Agradecemos as palavras elogiosas do Veto Político. Bem haja!
Depósito obrigatório da internet portuguesa Pacheco Pereira argumenta a favor de um arquivo digital da internet portuguesa. Aparentemente já existe um arquivo à escala global. Chama-se Internet Archive, e permite recuperar páginas desde 1996, embora com algumas surpresas desagradáveis de vez em quando. Veja-se, por exemplo, o Expresso Online de 18 de Setembro de 2001.
Fotografia Recomendo uma visita à exposição Vivem no campo, adoram a cidade: fotoetnografias na Etiópia, com fotografias de Marie Hernandez e Catherine Henrietteque. Está no CCB e foi organizada pelo nosso maior apaixonado pela Etiópia: Manuel João Ramos. Ao contrário do que o programa do CCB indica, a exposição abre ao público hoje, 17 de Julho.
Uma mina de informação The Library of Economics and Liberty

2003-07-15

Temos Blogue! Chegou o Catalaxia, blogue liberal. Começou logo, e bem, por um tema que me é caro: o financiamento do ensino superior.
Globalização vista pelos países mais pobres Artigo interessante no YaleGlobal Online:
A recent worldwide poll may have come as a shock to those who view the anti-globalization demonstrations as emblematic of a general souring mood about global economic integration. The Pew survey found that not only was the attitude generally positive but there was more enthusiasm for foreign trade and investment in developing countries than in rich ones.
Leitura obrigatória.

2003-07-14

Via o Arts & Letters Daily, um artigo interessante do Wall Street Journal acerca dos dilemas das intervenções humanitárias. O mote é dado pela Libéria, com o Iraque em pano de fundo.
A logística de Ana Gomes Ana Gomes preferia que Portugal não mandasse a GNR para o Iraque. Até aqui tudo bem. Não concordo, mas reconheço a coerência. O pior vem depois, quando Ana Gomes sugere que somos "borlistas" (portoghesi):
Em finais de Junho a partida da GNR foi adiada, por inadequação e insuficiência de meios para operar no terreno. O ministro da Administração Interna admitiu que estariam a ser pedidos carros blindados às forças italianas, que também assegurariam a alimentação dos portugueses. Potenciador do "prestígio" externo de Portugal ao melhor estilo Barroso-Portas, este recurso aos italianos, ao menos, respeita a tradição: a dos "borlistas", termo que em italiano é "portuguesi" [sic]...
Parece-me óbvio que seria um absurdo o contingente da GNR não se apoiar logisticamente nas outras forças que actuam no Iraque. Fazê-lo é uma simples questão de bom senso económico. Mas Ana Gomes acha que isso nos qualifica como "borlistas". Mesmo que o apoio dos italianos não seja pago, o que duvido, não se pode fazer uma tal acusação: ir para o Iraque não é propriamente como ir a uma festa. Ana Gomes não resistiu a forçar o trocadilho com portoghesi. O trocadilho saiu-lhe coxo e com um erro de ortografia.
Acrescento ainda que a última coluna de Fernando Ilharco é clara como água.
Direito de Resposta Resposta de Fernando Ilharco a uma entrada no Picuinhices sobre um texto seu (a entrada original reproduz-se no final da resposta):
Umas notas sobre Fernando Ilharco:

"Contextualizado por um monumental enquadramento do que existe, como Heidegger aponta a essência da moderna tecnologia, no âmbito de um sistema não apenas de informação mas genuinamente de comunicação, de ajuste e de acoplamento estrutural e essencial entre o dentro e o fora, entre todas as diferenças que nos rodeiam e afectam, o que existe e que conta, o ser em si mesmo, é-nos revelado."

a) Nada alguma vez nos disse que o que existe, ou seja, o que é, sendo, seja quer o que hoje entendemos que a história nos deixou, quer o que o futuro nos deixa entender que somos, quer o que os nossos sentidos humanos percepcionam; aliás, hoje em dia, os avanços de uma boa parte da ciência, precisamente as exactas, as que mais apelam 'teoricamente' aos sentidos humanos – aos dados empíricos – assentam na percepção de aspectos da realidade, do que existe, só possiveis de ser captados pela tecnologia, o que significa obviamente que tais dados não são necessariamente captados conforme ao que existe, mas sim conforme aquela mesma tecnologia;

b) É evidente que o que o homem é hoje, é com/na/pela/através da tecnologia; essa tecnologia, em termos do que lhe é essencial, ou seja do que é comum e decisivo a todo o tipo de manifestações, de instrumentos, de mecanismos, etc., que nós mesmos – cada um de nós – reconhece como tecnologia, dizia eu, em termos do que lhe é essencial, a tecnologia é um enquadramento ordenador e eficiente do que existe – Ge-stell, Enframing, Com-posição ... (Heidegger, The Question Concerning Technology). Essa é a essência da moderna tecnologia, segundo Heidegger.

c) O ponto é que a tecnologia, entendida no quadro acima referido em b) e a), não é algo que venha a assentar numa qualquer realidade previamente acedida, entendida, ou tomada; antes pelo contrário, a tecnologia é ela mesma um modo específico de revelar o que existe. O modo como hoje surge o ser, o que existe, o que vai sendo, o que nos interessa e conta na nossa vida – um blog, uma aspirina, um mergulho no mar ... – é já um surgir em termos tecnológicos....
... mesmo o pensar em perceber algo, dirigido a uma plena e final satisfação do entendimento do ser humano singular, pode às vezes não ser mais do que pensar tecnologicamente...

d) A referência à comunicação visa indicar o carácter fundador do comunicar, do estar com os outros, do homem como ser social; factos amplamente referidos por variadas tradições filosóficas e/ou científicas. A comunicação é o que nos ajusta ontologicamente, faz-se ser o que somos, num mundo modelado e desenvolvido na e pela comunicação.

e) O dentro e o fora foi talvez algo mais forçado... queria à frente no texto a ideia, mas... Ela é esta: você, no seu mundo, é o único que está dentro; tudo o resto e todos os outros estão fora; o que está fora, por seu lado, não é o que está fora do seu mundo conforme ao seu mundo, mas sim o que está dentro nos mundos de outros em que você está fora – a ideia, muito por alto é essa e penso que tem potencial de exploração....

Era o que queria dizer quando escrevi, o que abaixo invertendo a estrutura da frase, transcrevo:

"O que conta, o ser em si mesmo, contextualizado por um monumental enquadramento do que existe, como Heidegger aponta a essência da moderna tecnologia, é-nos revelado no âmbito de um sistema não apenas de informação mas genuinamente de comunicação, de ajuste e de acoplamento estrutural e essencial entre o dentro e o fora, entre todas as diferenças que nos rodeiam e afectam."

Espero ter clarificado de algum modo a questão.

Boas leituras
Fernando Ilharco
A entrada original no Picuinhices era:
Fernando Ilharco Todas as semanas tento ler a coluna de Fernando Ilharco no Público. Nunca consegui, apesar do esforço. Gostava de saber, sinceramente, se alguém a lê, tirando o próprio. E, sobretudo, se entende o que lá está escrito. Por exemplo, agradecem-se explicações acerca do sentido da seguinte frase:
Contextualizado por um monumental enquadramento do que existe, como Heidegger aponta a essência da moderna tecnologia, no âmbito de um sistema não apenas de informação mas genuinamente de comunicação, de ajuste e de acoplamento estrutural e essencial entre o dentro e o fora, entre todas as diferenças que nos rodeiam e afectam, o que existe e que conta, o ser em si mesmo, é-nos revelado.


Trad... explicações para Picuinhices@yahoo.com.br.

2003-07-12

O Picuinhas identifica-se com o Calvin no Público de ontem:
O que é que tu achas que aquelas nuvens parecem?
Uma série de partículas suspensas de água e gelo... Porquê?
...
Toda a gente odeia os "literalistas".
Defesa do Iluminismo? José Miguel Júdice assina no Público um artigo em defesa do iluminismo. O artigo é interessante e na generalidade certeiro. Mas há alguns pontos com os quais não posso concordar. Quando José Miguel Júdice diz que o facto de 71% dos portugueses acharem que "se as leis não forem 'justas e lógicas' não são para cumprir" é assustador e muito perigoso para o Estado de Direito, concordo plenamente. Creio mesmo que a nossa "flexibilidade" na interpretação da lei, "flexibilidade" essa que se estende a quem é suposto fazê-a cumprir, é um dos nossos factores de atraso civilizacional. Mas José Miguel Júdice afirma que o mesmo perigo para o estado de direito decorre também de "79% [dos portugueses acharem] que quem abuse sexualmente de menores deve ter penas superiores ao máximo legal (entre os quais 53% querem a pena de morte ou a prisão perpétua!) e [de] 81% também [quererem] mais de 25 anos de prisão para homicídios". Ora, não faz sentido afirmar que a pena máxima de 25 anos corresponde à fronteira entre a civilização e a barbárie (José Miguel Júdice diz que tais opiniões revelam um "arcaísmo regressivo"). Quantos países mais civilizados que o nosso têm penas máximas superiores e mesmo prisão perpétua ou até pena de morte? Será que 25 anos de prisão para um homicida é apropriado, mas 30 são já uma "punição selvática"? Pessoalmente sou contra a pena de morte, mas não me parece saudável pôr a questão nos termos em que José Miguel Júdice a põe. Até porque a premissa por trás da imposição de uma pena máxima, apoiada implicitamente por José Miguel Júdice, é a de que todos os criminosos são regeneráveis e por isso socialmente reintegráveis. Recorro de novo a Steven Pinker, e ao seu The Blank Slate, onde se analisam estudos que parecem demonstrar em certos casos a regeneração pode ser impossível. A questão civilizacional, ao contrário do que José Miguel Júdice diz, está muito menos nas penas máximas previstas pela lei, e muito mais na sua aplicação prática. Enquanto em Portugal os períodos de prisão preventiva efectivos se forem prolongando, mais a mais sem possibilidade de defesa por parte do arguido, estaremos muito mais em estado de "barbárie" do que noutros países onde a pena perpétua (ou mesmo a pena de morte) existe e é aplicada.
Na Feira do Artesanato do Estoril, há uma banca que vende artigos religiosos da Terra Santa. Parámos para ver. O vendedor era persuasivo e simpático. Entrou em conversa connosco:
Todos os artigos vêm da Palestina. Eu também sou palestino. Sou de Belém!
Bela terra!
Com a guerra...
Mas as coisas agora estão melhores por lá, ou não?
Ah! Eles foram só pôr gasolina a Jerusalém e logo voltam...
Espero bem que não.
Respondi sem convicção.

2003-07-11

Presunç?o

Presunção
Aldónio: Rui, tens de parar de ler artigos para a tese! A partir de agora tens apenas que escrever aquilo que sabes.
Rui: Ena, porreiro! Daqui a duas horas tenho a tese terminada.

2003-07-10

Mortos na Estrada: A Receita Francesa O Le Monde divulga os resultados da política convicta do governo francês contra as mortes na estrada: menos 18,1% mortos e menos 17,1% feridos graves num ano. De que estamos à espera para usar a mesma receita? Retirar 18% aos cerca de 1500 mortos anuais nas nossas estradas sempre seriam menos 270 funerais ao longo do ano... Mas não há esperança. O nosso Plano Nacional de Prevenção Rodoviária é de uma timidez confrangedora, pois prevê atingir em 2010 a média europeia de sinistralidade entre 1998 e 2000. Mesmo que em 2010 atingíssemos esse objectivo, continuaríamos a ter a pior taxa de sinistralidade da europa: a média europeia não irá ficar à nossa espera.
A Teoria da Submissão de Fernando Rosas, no Público, tem uma interessante teoria sobre a crise económica:
É preciso dizer que a presente crise é fruto de uma verdadeira recessão programada pelos interesses económicos e pela governação da direita. O prolongamento da crise internacional obriga o capital a recorrer a métodos radicais de procurar restaurar as suas taxas de lucro e acumulação.

[...]

É de uma recessão pretendida que estamos a falar, não de uma inabilidade ocasional de ministros incompetentes.
Mas afinal, pretendida porquê? Que interesse poderia haver em produzir uma recessão? Simples: "o governo do PSD-PP não podia esperar melhor respaldo para a sua ofensiva anti-social". Ou seja, segundo Fernando Rosas, a recessão actual foi provocada pelos governos de direita para facilitar as suas ofensivas anti-sociais e prejudicar propositadamente os mais pobres, beneficiando os mais ricos no processo.

Já imagino a nossa Manuela Ferreira Leite esfregando as mãos maldosamente, preparando o plano secreto que tornaria a desejada recessão possível. Imagino também os urros de alegria que o executivo soltou em uníssono quando ouviu as declarações do governador do Banco de Portugal a anunciar finalmente a tão desejada recessão.

Recomendo a Fernando Rosas a utilização da Navalha de Occam para aparar as suas teorias: Pluralitas non est ponenda sine neccesitate, ou seja, a pluralidade não deve ser colocada sem necessidade. Esta navalha é o melhor remédio para quem acredita em teorias da conspiração.

2003-07-09

Emancipação? Segundo o Público de hoje, em artigo de Jorge Heitor relatando a visita de George W. Bush a África, "todos [os políticos africanos com quem se encontra] lhe dizem que se trata acima de tudo de uma responsabilidade norte-americana, porque o país é uma criação dos EUA". Para que conste, a Libéria tornou-se independente a 26 de Julho de 1847, i.e., há quase 156 anos. Até quando durará a responsabilidade dos EUA? E, já agora, será que Portugal ainda terá "responsabilidade" sobre Angola em 2131?