2003-06-11

A contribuição possível

Só mesmo o Manel e a capacidade de ser amigo dele suporta o facto de eu ser um disblogue. Posto isto, a contribuição possível é uma descoberta musical nova de 3 dias. Isto, também se poderia chamar And now something completely different ...


Into my arms by Nick Cave & the Bad Seeds


I don't believe in an interventionist God
But I know, darling, that you do
But if I did I would kneel down and ask Him
Not to intervene when it came to you
Not to touch a hair on your head
To leave you as you are
And if He felt He had to direct you
Then direct you into my arms

Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms

And I don't believe in the existence of angels
But looking at you I wonder if that's true
But if I did I would summon them together
And ask them to watch over you
To each burn a candle for you
To make bright and clear your path
And to walk, like Christ, in grace and love
And guide you into my arms

Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms

And I believe in Love
And I know that you do too
And I believe in some kind of path
That we can walk down, me and you
So keep your candlew burning
And make her journey bright and pure
That she will keep returning
Always and evermore

Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms


Desculpem qualquer coisinha os leitores habituais do Manel por este público acto de contrição.
Obrigado Manel.

2003-06-09

"A Hora dos Professores" Excelente o artigo de António Barreto no Público. Um extracto:
Ainda há centenas de professores que não dão aulas, ou quase não dão aulas, reservando para os assistentes dependentes e os convidados acidentais essa que deveria ser uma sua nobre tarefa. Há numerosos professores que nada investigam, limitando-se a repetir aulas ou artigos velhos de idade e de ideias, sem efectiva avaliação ou, pior ainda, sem consequências das avaliações feitas. Há faculdades que multiplicam os números de cadeiras e disciplinas, na esperança de assim resolver problemas de corpo, ao mesmo tempo que se "fabricam" turmas sem alunos. Há faculdades com mais de 1.500 disciplinas, muitas das quais absolutamente inúteis, mas cuja função primordial é a de manter professores na inactividade. Há cursos de mestrado concebidos com o objectivo essencial de preencher, no papel, horários docentes inexistentes. Há centenas de professores em acumulação mais ou menos lícita, ao abrigo de expedientes legais estranhos. Há centenas de professores que faltam às aulas, sem sequer advertir os seus estudantes. Há centenas de professores que assinam os trabalhos dos seus dependentes e os publicam para sua glória. Há centenas de professores que não recebem regularmente os estudantes, não acompanham os trabalhos dos seus doutorandos, demoram por vezes meses a publicar as pautas de exames e chegam a fazer esperar mais de um ano um candidato a doutor. Há centenas de professores com "horário zero" (e milhares no sistema educativo em geral), há dezenas e dezenas de professores sem aulas e ao serviço do sindicato (são muitas centenas no sistema), há centenas de universitários (e milhares de professores ao todo...) requisitados nos gabinetes dos ministros, nos departamentos ministeriais, nas autarquias e noutras instituições de repouso académico!

2003-06-08

Contributos para um vocabulário da blogosfera Ao cuidado do Prof. João Malaca Casteleiro, seguem alguns contributos humildes para a próxima edição do Dicionário da Academia. Com estes novos verbetes, o Dicionário ficará finalmente completo. Definitivo. Imutável.

blogado [Part. de blogar] Adj. Que se blogou.
blogamia S. f. Estado de blógamo.
blógamo S. m. Aquele que é casado em simultâneo com um humano e com o seu blogue.
blogar V. i. Produzir entradas num blogue.
blogo S. m. 1. Anat. Canal mental que produz entradas para um blogue.  2. Inf. Aplicação informática que permite gerir um blogue.
blogófilo Adj. S. m. 1. Psiq. Aquele que sofre de blogofilia.  2. Aquele que ama os blogues.
blogofilia S. f. 1. Psiq. Parafilia caracterizada por desejo forte e repetido de práticas e fantasias sexuais com blogueiros.  2. Amor aos blogues.
blogofobia S. f. Psiq. Blogopatia caracterizada pelo medo, aversão ou discriminação em relação aos blogues ou aos blogueiros.
blogologia S. f. Ciência que estuda a blogosfera.
blogomano Adj. S. m. Psiq. Aquele que sofre de blogomania.
blogomania S. f. Psiq. Tendência para o abuso da leitura de blogues, a qual às vezes assume carácter patológico.
blogopatia S. f. Psiq. Qualquer doença mental relacionada com o blogo.
blogorreia S. f. 1. Med. Evacuação frequente, através do blogo, de opiniões verbosas e irrelevantes.  2. Fluxo anormal de entradas num blogue.
blogose S. f. 1. Psiq. Blogopatia.  2. Fig. Ideia fixa no seu blogue; obsessão por produzir entradas num blogue.
blogosexual Adj. 2 g. Relativo à afinidade, atracção e/ou comportamentos sexuais entre blogueiros.
blogosfera S. f. Conjunto de todos os blogues, blogueiros e blogófilos2.
blogote S. m. Deprec. Blogue de má qualidade.
blogótico Psiq. Adj. m. 1. De ou relativo a blogoses.  2. Que sofre de blogose.
blogue S. m. Diário digital a uma ou várias mãos, que pode ter um carácter íntimo ou servir como uma coluna de opinião pessoal.
blogueio S. m. 1. Med. Obstrução do blogo.  2.  Estado de um blogueiro temporariamente incapaz de blogar.
blogueiricida S. 2 g. Aquele que matou um blogueiro.
blogueiro S. m. Aquele que mantém um blogue, ou seja, que bloga.
bloguicida S. 2 g. 1. Aquele que matou um blogueiro; blogueiricida.  2. Aquele que eliminou um blogue.
bloguinho [Dim. de blogue] S. m. 1. Pequeno blogue.  2.  Carinh. Blogue com conteúdo ingénuo.
bloguismo S. m. Doutrina que prega a primazia dos blogues sobre os media tradicionais. V. socialismo.
bloguista Adj. 2 g. Que é partidário do bloguismo. V. socialista. S. 2 g. Partidário do bloguismo.
bloguite S. f. 1. Med. Inflamação do blogo.
bloguito [Dim. de blogue] S. m. Deprec. Blogue medíocre.
entrada S. m. Unidade básica do texto colocado num blogue (as entradas são usualmente assinaladas com a data e hora da colocação do texto e normalmente são assinadas pelo blogueiro que as produziu).
pós-bloguismo S. m. Doutrina que prega a equivalência não apenas entre todas as formas de expressão, mas também de todas as opiniões expressas.
pré-bloguismo S. m. O mesmo que pós-modernismo.
[A lista continua amanhã com: blogão, blogarro, comenteiro, comentarite, blogura (V. doçura), blogueira, bloguemente, blogueirar, blogoespaço, blogosocial (V. psicossocial), anti-blogue, pró-blogue, blogólogo, blogaria (V. sapataria), bloguesia (V. burguesia), blogasia (V. fantasia).]


Contribuições e correcções para Picuinhices@yahoo.com.br.
Blogorreia Isto hoje foi um caso de verdadeira blogorreia.
(Diabos! Lá vou eu, honesta e humildemente, comprar o "Hail to the Thief"...)
Radiohead Gosto demasiado desta banda para suportar os lugares comuns e os absurdos de que está cheio o início da entrevista do baixista da banda, Colin Greenwood, à revista Actual, do Expresso. Acerca do título do novo álbum, "Hail to the Thief", diz:
Refere-se igualmente ao modo como as empresas hoje nos roubam uma parte das nossas vidas, ou da nossa cultura, aniquilando o legado de nossos pais e avós, substituindo-a por coisas como os MacDonald's e essas porcarias.

Um exemplar autografado do novo album para o José Bové. Já!
Feira do Livro Xenófoba Porque diabo não há uma banca que seja na Feira do Livro com livros estrangeiros? Será o mesmo tipo de "defesa da língua" que se usa quando proíbem as teses de mestrado ou doutoramento em inglês? Ou serão apenas os livreiros a protegerem as suas traduções?
Ainda mais deturpações Ainda no expresso, em artigo de Paulo Paixão:
Discussões sobre uma declaração do secretário-adjunto da Defesa dos EUA, Paul Wolfowitz, adensaram as dúvidas sobre as teses da Casa Branca. Em entrevista à «Vanity Fair», Wolfowitz disse que a existência de armamento de eliminação em massa foi apresentada como motivo para invadir o Iraque «por razões que têm muito a ver com a burocracia dos EUA». Isto é, foi preciso formular «uma questão com que toda a gente pudesse concordar». Esta asserção foi vista por comentadores [Ana Sá Lopes, Paulo Paixão, Mário Soares, Ruben de Carvalho, e outros leitores assíduos da Vanity Fair] como uma confissão: o argumento das armas não passaria, afinal, de um pretexto para invadir o Iraque.


Repito de novo (paciência, caros leitores) a citação completa de Wolfowitz:
The truth is that for reasons that have a lot to do with the U.S. government bureaucracy we settled on the one issue that everyone could agree on which was weapons of mass destruction as the core reason, but …there have always been three fundamental concerns. One is weapons of mass destruction, the second is support for terrorism, the third is the criminal treatment of the Iraqi people. Actually I guess you could say there's a fourth overriding one which is the connection between the first two.

Cinismo parcial O cepticismo é uma arma importante, mas em excesso conduz ao mais simples e mesquinho cinismo. Se o cinismo é mau, ainda é pior quando é parcial, aplicando-se apenas aos adversários políticos, e quando é cego ao ponto de não vislumbrar em nenhuma possível acção do adversário senão o interesse, recusando-se a ver nos actos simples convicção e boa-vontade. É isto que faz Mário Soares, que transformou o cinismo numa profissão.

É fácil ser cínico. Como poderemos nós negar que os esforços de Bush para fazer avançar o processo de paz no médio oriente se devem à má situação da economia americana e ao aproximar das eleições presidenciais? Se Bush tivesse abandonado o médio oriente à sua sorte, cá estaria Mário Soares a explicar-nos porque isso se devia obviamente aos interesses mais mesquinhos do presidente dos EUA, provavelmente o interesse de apaziguar o "lobi judaico em Washington"...

Para que a minha crítica fique melhor documentada, segue pequeno extracto da coluna de Mário Soares no Expresso:
Voltemos, provisoriamente, a página. Trata-se agora de de genhar a paz. É a fase em que nos encontramos. E, na passada, se possível, para o Presidente Bush, ganhar as próximas eleições presidenciais em Novembro de 2004. É agora a sua preocupação dominante. Ora a situação económico-financeira da América – e, portanto, do mundo – não ajudam nada: há que as inverter.

Para tanto, importa fazer parar a guerra latente entre Israel e a Palestina, uma questão chave para todo o Médio-Oriente. [...}

Numa palavra, começaram as grandes movimentações político-diplomáticas. «Le calendrier oblige»!

Tirando o óbvio problema de Soares com as vírgulas, percebe-se perfeitamente que Mário Soares não poderia evitar elogiar os recentes esforços de paz de Bush e as posições felizes de Sharon, mas tinha de começar por lhes dar uma justificação interesseira. Tinha de ser. Há que ser cinicamente coerente, não é?
Mais deturpações Isto torna-se repetitivo... Agora foi Mário Soares, no Expresso, que repetiu as declarações truncadas de Wolfowitz à Vanity Fair, desta vez não apenas desinseridas de contexto, mas simplesmente adulteradas (note-se na pseudo-citação "foram um expediente burocrático"):
Sobretudo, quando se sabe agora (Paul Wolfowitz, «dixit», à revista «Vanity Fair») que as armas de destruição maciça, em poder de Saddam Hussein, nunca existiram: «foram um expediente burocrático» inventado pelos serviços para convencer os incautos... Confissão inacreditável!

Eles repetem a mentira, nós repetiremos os desmentidos. A mentira não ganhará aparência de verdade pela repetição. A blogosfera não o permitirá.
José António Saraiva escreve mal e argumenta pior. No seu editorial no Expresso de ontem refere a cegueira efectiva de Cunhal como pretexto para falar da sua cegueira ideológica. Um enorme mau gosto. Mas não se fica por aqui. Diz ele que:
O jornalismo que se pratica em Portugal nem sempre prima pela qualidade e há hoje nos grupos de «media» uma sumissão ao «patrão» maior do que havia há vinte anos.

Talvez seja verdade. Mas se o for, exigimos todos que José António Saraiva explique muito bem explicadinho como é que esta afirmação se aplica ao Expresso, aos seus jornalistas, e a ele próprio. Quero saber se continuo a ler o Expresso ou não.

Finalmente, José António Saraiva remata com um argumento absurdo para demonstrar que é um disparate afirmar que os "patrões [agora sem aspas] dos «media» [mas aqui sim]" determinam e controlam tudo:
Ora a solidariedade com o povo de Timor [que ocupou os nossos média durante meses] ou o antiamericanismo [da oposição à intervenção no Iraque que dominou os média portugueses] interessava alguma coisa aos «grandes potentados financeiros» de que fala Álvaro Cunhal?
Foram os patrões que planearam essas campanha jornalísticas?
Ou, pelo contrário, a maioria dos patrões não tinha qualquer interesse na causa de Timor e até concordava com a invasão do Iraque pelos Estados Unidos?

Como se não fosse do interesse dos "patrões" vender jornais ou aumentar audiências fornecendo aquilo que o público mais desejava...
Definitivamente. É mesmo mentira voluntária. Veja-se o que disse Ruben de Carvalho no Diário de Notícias:
Nele [no editorial de José Manuel Fernandes no Público de sexta-feira] se expõe que, sobre o Iraque, Wolfowitz não disse à Vanity Fair aquilo que disse sobre o embuste das armas de destruição maciça e as reais motivações petrolíferas, mas sim que as armas de destruição maciça foram um embuste e as reais motivações foram petrolíferas.


Para que não sobrem dúvidas, seguem de novo as afirmações contextualizadas de Wolfowitz. Acerca do petróleo no Iraque:
Look, the primarily difference - to put it a little too simply - between North Korea and Iraq is that we had virtually no economic options with Iraq because the country floats on a sea of oil. In the case of North Korea, the country is teetering on the edge of economic collapse and that I believe is a major point of leverage whereas the military picture with North Korea is very different from that with Iraq. The problems in both cases have some similarities but the solutions have got to be tailored to the circumstances which are very different.

Acerca das armas de destruição em massa:
The truth is that for reasons that have a lot to do with the U.S. government bureaucracy we settled on the one issue that everyone could agree on which was weapons of mass destruction as the core reason, but …there have always been three fundamental concerns. One is weapons of mass destruction, the second is support for terrorism, the third is the criminal treatment of the Iraqi people. Actually I guess you could say there's a fourth overriding one which is the connection between the first two.
A asneira continua. Agora é Ana Sá Lopes que repete, mais uma vez no Público, as falsidades acerca de Wolfowitz:
A dúvida reside apenas em saber "se foram destruídas ou não antes da intervenção norte-americana", uma dúvida de peso, que põe em causa o argumentário em que se centrou a propaganda americana sobre a guerra, "por razões burocráticas", conforme disse o subsecretário da Defesa norte-americano, Paul Wolfowitz, explicando que era a única matéria onde a comunidade internacional mais facilmente se podia entender.

Já não há paciência que ature isto. Será impossível que esta gente se informe? Ou será que tentam, pela repetição exaustiva da mentira, dar-lhe a aparência de verdade?

Depois, em adenda, Ana Sá Lopes refere o caso da pedofilia dizendo:
(Subitamente, os assassinos passaram a ter uma maior consideração no mercado da opinião pública). Numa revista, esta semana, o cronista social Carlos Castro pedia a pena de morte para os pedófilos.

É assim. Defender a pena de morte é o mesmo que ser assassino... O Público é um jornal equilibrado, do ponto de vista do espectro político dos artigos de opinião que publica. Mas, sinceramente, era boa ideia começar a pensar em mudar alguns dos seus colaboradores. Não por questões ideológicas, mas simplesmente porque é fundamental que quem opina num jornal saiba pensar.
Saramaguices Saramago no Fórum Social Português vem-nos dar lições de democracia. Diz ele que a nossa democracia está "em regressão". Saramago tem razão: deveríamos ter seguido há muito os seus conselhos. Se o tivéssemos feito a nossa democracia não estaria em regressão: pura e simplesmente não existiria.

(Alerta do nosso bloguista virtual, Rui Lopes. Uma tese para escrever fala mais alto, muito mais alto, que qualquer blogue.)

2003-06-07

De novo o caso Wolfowitz O Guardian desculpa-se. Comparar com o pífio esclarecimento do Público.
O Fascismo Americano Segundo Miguel Sousa Tavares "as pessoas levam isso [a campanha anti-tabaco nos EUA] para a anedota, mas foi aí que começou o fascismo americano". O tal fascismo que, através da mentira descarada, derrubou a democracia Iraquiana...
Relação entre Terrorismo, Educação e Pobreza? Pouca, ou nenhuma, segundo Alan B. Krueger e Jitka Malecková no The Chronicle of Higher Education. (Via Arts & Letters Daily). Citações:
In December 2001, the Palestinian Center for Policy and Survey Research, in the West Bank city of Ramallah, conducted a public-opinion poll of 1,357 Palestinians age 18 or older in the West Bank and Gaza on topics including the September 11 attacks in the United States, support for an Israeli-Palestinian peace agreement, and attacks against Israel.

[...]

These results offer no evidence that educated people are less supportive of attacks against Israeli targets. In fact, the support for attacks against Israeli targets is higher among those with more than a secondary-school education than among those with only an elementary-school education, and the support is considerably lower among those who are illiterate.

The study showed also that support for attacks against Israeli targets is particularly strong among students, merchants, and professionals. Notably, the unemployed are somewhat less likely to support such attacks.

[...]

The poverty rate is 28 percent among the Hezbollah militants and 33 percent for the population. In terms of education the Hezbollah fighters are more likely to have attended secondary school than are people in the general population (47 versus 38 percent). The results suggest that poverty is inversely related, and education positively related, to the likelihood that someone becomes a Hezbollah fighter.
Porque será que uma medida liberal, fazer pagar os utilizadores de uma serviço, foi implementada por um trabalhista da primeira via, Ken Livingstone? Por ser de elementar bom senso, talvez. Um exemplo a seguir em muitas outras cidades.
Wolfowitz no Público José Manuel Fernandes explica o caso. O jornal publica um esclarecimento. Miguel Sousa Tavares insiste na falsidade (admito não ser uma mentira deliberada), não só acerca de Wolfowitz, como de Hans Blix, cujas afirmações nunca corroboraram as afirmações dos opositores da coligação que interveio no Iraque.

2003-06-06

Vejam o Jaquinzinhos sobre o Forum da Realidade Virtual. Imperdível.
Oda a los Números
Qué sed
de saber cuánto!
Qué hambre
de saber
cuántas
estrellas tiene el cielo!

Nos pasamos
la infancia
contando piedras, plantas,
dedos, arenas, dientes,
la juventud contando
pétalos, cabelleras.
Contamos
los colores, los años,
las vidas y los besos,
en el campo
los bueyes, en el mar
las olas. Los navíos
se hicieron cifras que se fecundaban.
Los números parían.
Las ciudades
eran miles, millones,
el trigo centenares
de unidades que adentro
tenían otros números pequeños,
más pequeños que un grano.
El tiempo se hizo número.
La luz fue numerada
y por más que corrió con el sonido
fue su velocidad un 37.
Nos rodearon de números.
Cerrábamos la puerta,
de noche, fatigados,
llegaba un 800,
por debajo,
hasta entrar con nosotros en la cama,
y en el sueño
los 4000 y los 77
picándonos la frente
con sus martillos o sus alicates.
Los 5
agregándose
hasta entrar en el mar o en el delirio,
hasta que el sol saluda con su cero
y nos vamos corriendo
a la oficina,
al taller,
a la fábrica,
a comenzar de nuevo el infinito
número 1 de cada día.

Tuvimos, hombre, tiempo
para que nuestra sed
fuera saciándose,
el ancestral deseo
de enumerar las cosas
y sumarlas,
de reducirlas hasta
hacerlas polvo,
arenales de números.
Fuimos
empapelando el mundo
con números y nombres,
pero
las cosas existían,
se fugaban del número,
enloquecían en sus cantidades,
se evaporaban
dejando
su olor o su recuerdo
y quedaban los números vacíos.

Por eso,
para ti
quiero las cosas.
Los números
que se vayan a la cárcel,
que se muevan
en columnas cerradas
procreando
hasta darnos la suma
de la totalidad del infinito.
Para ti sólo quiero
que aquellos
números del camino
te defiendan
y que tú los defiendas.
La cifra semanal de tu salario
se desarrolle hasta cubrir tu pecho.
Y del número 2 en que se enlazan
tu cuerpo y el de la mujer amada
salgan los ojos pares de tus hijos
a contar otra vez
las antiguas estrellas
y las innumerables
espigas
que llenarán la tierra transformada.

Pablo Neruda
Jornalismo de Ficção é o veredito do Rui, colaborador virtual deste blogue, acerca da desinformação que grassa pelos nossos meios de comunicação social.
Ironias Eduardo Prado Coelho no Público de ontem:
Recordo um exemplo da minha experiência pessoal. Quando fui conselheiro cultural em Paris, dei uma entrevista a um correspondente do "Expresso" sobre questões de língua e cultura portuguesas em França. Nela dizia o que ainda hoje penso: que era irrealista pedir aos luso-descendentes que levassem os seus filhos a escolher o português como primeira língua estrangeira; que era legítimo que, por motivos de formação profissional e mercado de trabalho, eles escolhessem o inglês como primeira língua estrangeira desde que escolhessem o português como segunda língua estrangeira.

O texto da entrevista dizia isto mesmo. Mas havia uma caixa que afirmava apenas o seguinte: "É perfeitamente compreensível que os portugueses em França escolham o inglês como língua estrangeira." Nada nesta frase corresponde a coisas que eu não tenha dito, desde que se tenha em conta que eu disse mais coisas que vieram alterar o sentido final desta mesma frase. O modo como as coisas eram apresentadas suscitou uma montanha de telefonemas indignados.


Ironias do destino. Eduardo Prado Coelho deveria ter aprendido a lição. Citar fora do contexto é muitas vezes um acto deliberado de desinformação. Que dizer então da sua crónica no Público de quarta-feira?
Não foi sem espanto nem perplexidade que o mundo tomou conhecimento das declarações de Paul Wolfowitz à revista "Vanity Fair". Não pelo facto do que ele disse, que apenas confirma suspeitas que o cidadão comum já tinha, mas por ter tido o desplante de o dizer. Que afirmou Wolfowitz, número dois da hierquia da Defesa americana?

Que o famoso argumento de que o Iraque possuía armas de destruição maciça tinha sido avançado apenas por "razões burocráticas" - certamente as mesmas razões burocráticas que levam os responsáveis americanos a considerar que a contagem das vítimas civis na invasão do Iraque pelos EUA "não é uma prioridade". Por outras palavras, foi o que a administração americana arranjou de melhor para justificar a sua acção. E Wolfowitz acrescenta que, no seio da administração americana, "chegámos à conclusão que o tema das armas de destruição maciça era a única razão que permitia pôr toda a gente de acordo", embora a verdadeira razão, para este estratega, tenha sido o facto quase despercebido de permitir aos EUA retirar as suas tropas da Arábia Saudita, que eram um pretexto permanente para a rede Al-Qaeda, "permitindo assim abrir a porta a um Próximo Oriente mais pacífico".


Pois é, caro EPC, convém ter um pouco mais cuidado. Que tal ler to texto integral da entrevista?
A Arrogância da Esquerda Continua Diz o Linhas de Esquerda:
Zé Mário do BDE afirma que a esquerda ainda acredita na humanidade. Eu partilho dessa opinião e acrescento que a esquerda na sua maioria é o garante e o poço da moralidade social. Não dos falsos moralismos, que se confundem com os bons costumes inscritos na bíblia do jet-set, mas aqueles que permitem uma sociedade avançar coesa para o futuro. Sentimentos como a solidariedade, a partilha, o voluntarismo entre outros são abraçados pela esquerda de uma maneira mais aberta e desinteressada. Resumindo, penso que a capacidade para o altruísmo é superior na esquerda do que na direita não implicando que a primeira tenha o monopólio dele.

É por isso que durante anos, nos meios de esquerda (familiares) por onde me movimentei, a caridade era apresentada como imoral e destinando-se a satisfazer o amor próprio de quem praticava o acto caridoso. O argumento era sempre o de que devia ser a acção social do estado a resolver o problema, acção social essa que, se não funcionava bem, era por não termos ainda um estado verdadeiramente socialista. Pelos vistos este discurso absurdo e profundamente estúpido continua. Note-se bem: "não dos falsos moralismos, que se confundem com os bons costumes inscritos na bíblia do jet-set". Um acto altruista vindo da esquerda? É verdadeiro e desinteressado. Vindo da direita? É falso e interesseiro. Não é isto o maior dos preconceitos e a maior das arrogâncias?
Via o excelente e atento Valete Frates!, mais sobre as manipulações das afirmações de Wolfowitz:

NOVA MANIPULAÇÃO JORNALÍSTICA: O DISCURSO DE WOLFOWITZ NOTICIADO PELO GUARDIAN (e pelo Público)

Parece que um jornal Alemão noticiou uma entrevista de Paul Wolfowitz. A tradução dessa notícia em alemão foi manipulada e permitiu ao Guardian noticiar que Wolfowitz justificava a guerra no Iraque com o argumento do petróleo. O Público faz hoje eco desta notícia.

No entanto, desde ontem que se sabe que esta notícia é MENTIRA.

O Instapundit revela TODA A VERDADE (aqui). Daniel Drezner também blogou sobre o assunto.

Como se pode ler na transcrição da entrevista, o que Wolfowitz disse foi o seguinte:
Look, the primarily difference - to put it a little too simply - between North Korea and Iraq is that we had virtually no economic options with Iraq because the country floats on a sea of oil. In the case of North Korea, the country is teetering on the edge of economic collapse and that I believe is a major point of leverage whereas the military picture with North Korea is very different from that with Iraq. The problems in both cases have some similarities but the solutions have got to be tailored to the circumstances which are very different.


Portanto, o grande crime de Wolfowitz foi dizer que enquanto o petróleo iraquiano colocava o regime saddamita ao abrigo da pressão das sanções económicas, o mesmo não acontece com a Coreia do Norte. Sacanas dos neo-conservadores, cambada de imperialistas, cambada de colonialistas, cambada de...americanos.

É este o jornalismo a que temos direito? É isto jornalismo?

Esperemos pelo desmentido e pelo pedido de desculpas...(sentados).

P.S. Entretanto o Guardian já retirou a notícia do site (aqui)...e PUBLICOU O PEDIDO DE DESCULPAS (aqui). Agora só falta o Público...

P.S.2 Linhas de Esquerda sent the e-mail that motivated this post.

P.S.3 Pelos vistos, já outros blogs Intermitente, Jaquinzinhos, Abrupto, Liberdade de Expressão) tinham tratado esta questão. De qualquer forma, nestes casos nunca é demais denunciar estas manobras de desinformação.

P.S.4 A alegria com que a esquerda acolhe estas mentiras e a forma escarniçada como se agarra a elas (contra toda a evidência), ilustram bem o estado de alma em que se encontra.

(Entrada do blogue Valete Frates!, transcrita sem a devida autorização, mas por uma boa causa.)
Daniel Oliveira volta a atacar Diz ele no Blog de Esquerda:
O Pedro Lomba desafia a lógica e isso é divertido. O Pedro Lomba está contente, mesmo muito satisfeito, porque ao contrário do que dizia a extrema-esquerda histérica anti-americana primária, os americanos não plantaram armas de destruição massiva no Iraque. Não! Foram honestos. Atacaram e nem se preocupam em esconder que era tudo uma mentira. O senhor Wolfowitz contou tudo à comunicação social: foi ele que inventou a história porque achou que ela resultava. O homem é um génio. Um irresponsável, mas um génio. Um fanfarrão desbocado, mas um génio. Um dia, sentado à lareira, ainda há-de apontar para uma velha fotografia de Bagdad destruída e dizer ao seu neto, com um sorriso doce e orgulhoso, «fui eu, meu querido, isto fui eu que fiz». Assassinos sim. Mas honestos.

Pelos vistos Daniel Oliveira não tem lido jornais (nem blogues). Caso contrário teria evitado repetir a indignação sem fundamento que nos últimos dias invadiu editoriais e artigos de opinião: há já dias que se sabe que a citação das palavras de Wolfowitz feita pela Vanity Fair foi retirada do seu contexto, tendo-se com isso deturpado total e propositadamente o seu sentido.

Numa coisa, porém, Daniel Oliveira tem razão. É absurdo que Pedro Lomba, que apoiou a intervenção no Iraque, se regozije agora pelo facto de os EUA não terem "plantado as provas" no terreno, como a esquerda em peso desejou que acontecesse. Esse regozijo lança fundadas suspeitas de que no fundo Pedro Lomba receou que os EUA de facto falsificassem provas da existência de armas de destruição em massa no Iraque, pois de outra forma não teria esperado pelas declarações da administração americana de que ainda não há sinais delas. Além disso, coloca-o na posição desconfortável de, no caso de as armas serem mesmo encontradas, ter de ser coerente e admitir que afinal elas possam de facto lá ter sido "plantadas": como poderia ele provar o contrário?

Pedro Lomba nunca deveria ter invertido o ónus da prova. Quem disse que as provas seriam falsificadas que o demonstre, se puder. A verdade é simplesmente que essas afirmações revelam cinismo doentio e raiva cega. A mesma raiva que leva Daniel Oliveira a terminar a sua diatribe dizendo que os membros da administração de Bush, e Wolfowitz em particular, são "assassinos". Onde Daniel Oliveira foi encontrar os assassinos... Será que uma excursão às valas comuns no Iraque apuraria o seu faro político?

2003-06-05

As citações desonestas de Wolfowitz continuam. Vejam o Valete Frates! e o Intermitente.

2003-06-04

Aos habitantes da Biblioteca de Babel faltava o Google, o maravilhoso Google.
Ocorreu-me que o crescimento da Web a transformará numa Biblioteca de Babel:

Cuando se proclamó que la Biblioteca abarcaba todos los libros, la primera impresión fue de extravagante felicidad. Todos los hombres se sintieron señores de un tesoro intacto y secreto. No había problema personal o mundial cuya elocuente solución no existiera: en algún hexágono. El universo estaba justificado, el universo bruscamente usurpó las dimensiones ilimitadas de la esperanza. En aquel tiempo se habló mucho de las Vindicaciones: libros de apología y profecía, que para siempre vindicaban los actos de cada hombre del universo y guardaban arcanos prodigiosos para su porvenir. Miles de codiciosos abandonaron el dulce hexágono natal y se lanzaron escaleras arriba, urgidos por el vano propósito de encontrar su Vindicación. Esos peregrinos disputaban en los corredores estrechos, proferían oscuras maldiciones, se estrangulaban en las escaleras divinas, arrojaban los libros engañosos al fondo de los túneles, morían despeñados por los hombres de regiones remotas. Otros se enloquecieron ... Las Vindicaciones existen (yo he visto dos que se refieren a personas del porvenir, a personas acaso no imaginarias) pero los buscadores no recordaban que la posibilidad de que un hombre encuentre la suya, o alguna pérfida variación de la suya, es computable en cero.


La Biblioteca de Babel, Jorge Luis Borges

Alguém terá alguma vez analisado os escritos de Borges do ponto de vista matemático?

2003-06-03

Desprezo da direita Uma conversa:

Rui: É que não há mesmo melhoras:
Uma das diferenças principais entre a esquerda e a direita tem a ver com a capacidade de acreditar, ou não, no Homem, na Humanidade, na natureza humana (chamem-lhe o que quiserem). A direita não acredita e faz gala de exibir o seu desprezo pelas multidões, pela "maralha", enquanto defende que no fundo somos todos intrinsecamente maus como as cobras, com as devidas e beatíficas excepções. Nós, na esquerda, somos lúcidos e por isso também temos os nossos momentos de cepticismo (basta ir ao Centro Comercial Colombo nas vésperas de Natal). Mas depois temos essa arma extraordinária que é a esperança. Sabemos que o Homem não é intrinsecamente bom, mas esperamos que um dia venha a ser. Enquanto houver gestos como o da Cristina, vale a pena resistir ao desânimo e sobreviver às desilusões.

Manuel: De onde veio isso?
Rui: Adivinha, vá... ;-)
Manuel: EPC? Caramba! Como fui capaz? ;-)
Rui: Ná. Nem ele nos seus piores dias é capaz de uma coisa destas... Foi o nosso amigo "Zé Mario" do Blog de Esquerda.
Manuel: Oh... Falhei...
Rui: É curioso, depois de tanta ternurice "estala a bomba e o preconceito está no ar".
Manuel: Vale a pena responder-lhe.
Rui: É tao mau e tão preconceituoso que acho que não. Tudo o que nós lhe dissermos deve-se à nossa "maldade".
Manuel: Vale, vale. É bom que estas coisas fiquem esclarecidas.
Rui: É triste ver como esta gente é preguiçosa. Dão-lhe um qualquer catecismo e pronto... é evangelizar minha gente...
Manuel: É verdade que a direita é céptica em relação à natureza humana. Que não tem ilusões. Mas não despreza ninguém. Antes pelo contrário. Quanto à esperança, o Zé Mário não clarifica (convenientemente) se essa esperança é próxima ou longíqua. Se for próxima, abre-se de novo o caminho para o "homem novo" socialista. O tal que foi criado à força. Se não, não tem relevância política. O cepticismo em relação à natureza humana é que a leva a propor sistemas políticos com órgãos independentes, que se controlam mutuamente, e a deixar muito fora da alçada do estado.
Rui: Ora nem mais. O que torna totalmente falaciosa a crenca na bondade humana da esquerda. Nada mais do que o liberalismo faz fé na "não-maldade" do Homem. Isto é, por defeito, a "maralha" porta-se bem. Quando não, isto é quando cercia a liberdade dos outros, então os orgãos (surpresa, surpresa, do Estado) intervêm. That's it!
Manuel: É verdade. É uma posição de princípio de confiança, embora com mecanismos de coerção preparados para intervir em caso de abuso. Mas é também uma posição de realismo. O ser humano só pode ser feliz se for livre de fazer as suas asneiras, de se desenvolver autonomamente. Se puder chamar seu a alguma coisa.
Rui: Por oposição a isto, nos outros sistemas é que a desconfiança apriorística existe. Exemplo: se tu tens a inicativa de fazer alguma coisa, então és um porco capitalista que só queres é ganhar dinheiro à custa dos outros... é simplista mas é a realidade... vai daí o melhor é o Estado fazer tudo porque nos somos é todos uns grandes malandros...
Manuel: Lutar por um comunitarismo com o qual a natureza humana é incompatível é que é perverso.
Rui: Só faz sentido quando resulta de uma escolha também ela livre: e.g., as comunidades religiosas. Nada contra, podiam ter escolhido outra forma de vida totalmente diferente.
Manuel: Verdade. Totalmente verdade. A esquerda o que gosta, no fundo, é que haja um Lynce que, numa atitude totalmente centralista, e lembrando os planos quinquenais, decide omnisciente sobre o número de vagas a reduzir em todos os cursos de todas as universidades públicas. Irónico? Não... Se o ministro fosse de esquerda, i.e., verdadeiramente honesto e inteligente, tomaria as suas decisões de forma incontestável... Seria apenas necessário fazer-lhe uma vénia e esperar por outras decisões infalíveis.
Rui: "Brincando" com o Luís, chamei àquela coisa do reduzir as vagas nas grandes cidades "a Pol Potização" do ensino superior.
Manuel: Absolutamente! Os kibutz, por exemplo. Se querem, nada a objectar! É isso o liberalismo. Mas a intenção do socialismo era impor o comunitarismos aos outros. A ideia é bonita, em abstracto. Por isso deve ser aplicada. Os cidadãos não querem? Coitados, não sabem o suficiente. Imponha-se.
Manuel: Exactamente! Um total absurdo que arruína a imagem positiva que o ministro vinha criando com o aumento das propinas e as alterações na gestão das escolas.
Rui: Claro que concordo que os estabelecimentos de ensino superior representam uma coisa importante para as cidades do interior. Lancaster é um óptimo exemplo. No entanto... Lancaster tem os alunos que tem à custa da qualidade de ensino que tem, dos Professores que tem, e do facto destes terem aqui condições que são suficientemente interessantes para estar aqui e não em Londres ou qualquer outra cidade do Sul.
Manuel: Exacto. É muito soviético isto de levar as pessoas para o interior piorando as condições no litoral...
Rui: Por exemplo, o meu orientador não dá aulas porque a Universidade acha que é mais importante ele apenas orientar Ph.D. e ter projectos internacionais de onde sai o salário dele - o qual se não me engano é acordado individualmente - oooppppsss que lá toquei noutro dogma - o da contractação colectiva ... desculpem... é esta maldade que do meu lado direito me vem
Manuel: Nos EUA também é assim. O serviço docente depende da investigação feita. O salário é contratado individualmente. Pelos vistos dá resultado...
Rui: Que ideia absurda a tua. Entao essa gente dos EUA não são todos uns "grunhos" brutos, incultos e do culto da violencia????
Manuel: Uns cóbois ignorantes que não sabem onde fica Portugal no mapa. E que chamam grecians aos gregos!
Rui: Assim como qualquer português aponta no mapa - com venda e depois de 50 piruetas - o estado do Wisconsin, ou o Estado do Pará... somos assim poços sem fundo de cultura...
Manuel: Exacto. Sabes, no fundo liberalismo é uma posição de simples bom senso. Por isso é tão usual os jovens serem esquerdistas e, já adultos, irem crescendo para a direita... Só não acontece a quem é imune à experiência.
Rui: É o preconceito sabes. Nada mais do que o preconceito. O confortável e pouco exigente preconceito.
Rui: Era tão bom tudo ser assim....
Manuel: E uma cegueira que impede de ver a forma como realmente somos.
Rui: Norte americano -> cóboi ignorante
Rui: De direita -> gente intrinsecamente boa mas que se perdeu e perdeu a esperanca nos outros.
Rui: É como te ia dizendo no início. É por estas e por outras que me questiono se valerá a pena responder...
Manuel: Vale! Importas-te que coloque esta conversa no blogue?
Rui: Siga, siga, sempre serve de "resposta".

2003-06-01

Esther Mucznick tem razão quando diz que Arafat, "O Velho", é o maior obstáculo à paz no médio oriente. Não tem razão quando diz que a Europa, ao continuar a prestar vassalagem ao "Velho", continuará a ser irrelevante no processo de paz. Na realidade, a Europa arrisca-se a ter um relevantíssimo papel: fazer o processo descarrilar.
Helena Matos responde a Mahomed Yiossuf Mohamed Adgamy. Não resisto a colocar aqui os versos sobre a liberdade que cita no final da sua resposta:

Chorei quando vi passar
Livre sobre mim voando
O bando de cortiçóis
Nem grades nem grilhetas os detinham
Não foi por inveja que fiquei chorando...
Apenas nostalgia de ser livre.


Al-Mu'tamid (tradução de Adalberto Alves)
As Contas de Ralf Dahrendorf Como pode Ralf Dahrendorf repetir números que já ouvi citados por anti-americanos de um primarismo confrangedor? Onde encontrou Ralf Dahrendorf informação acerca dos resultados eleitorais nos EUA? Como concluiu ele que "poucos presidentes americanos têm sido apoiados por mais de dez por cento dos eleitores"? Alguns números obtidos na Federal Election Comission:

  • População total nos EUA: 280 562 489 (estimada em Julho de 2002, segundo o CIA Fact Book)
  • Eleições presidenciais de 2000:

    • População em idade de votar: 205 815 000 (aproximadamente 73% da população)
    • População registada para votar: 156 421 311 (76% da população em idade de votar)
    • Total de votos expressos: 105 405 100 (67,5% da população registada e 51,3% da população em idade de votar)
    • Votos expressos em George W. Bush: 50 456 002 (47,87% dos votantes, 24,5% da população em idade de votar)
    • Votos expressos em Al Gore: 50 999 897 (48,38% dos votantes)

  • Eleições presidenciais de 1996:

    • População em idade de votar: 196 498 000 (aproximadamente 70% da população)
    • População registada para votar: 146 211 960 (74,4% da população em idade de votar)
    • Total de votos expressos: 96 277 634 (65,8% da população registada e 49,0% da população em idade de votar)
    • Votos expressos em Bill Clinton: 47 402 357 (49,24% dos votantes, 24,1% da população em idade de votar)
    • Votos expressos em Bob Dole: 39 198 755 (40,71% dos votantes)


10% de apoio ao presidente eleito? Afinal, Clinton e Bush foram eleitos por 24,1% e 24,5% da população em idade de votar, respectivamente... Nem metade dos possíveis votantes estão registados? Afinal, são cerca de 75%! Nem metade dos registados vota? Afinal são cerca de 66%! Dos que votam, menos de metade votam no candidato vencedor? Sim, desta vez é verdade. Mas convenhamos que 47,87% e 49,24% são pouco menos de metade...

Nada pior do que a desinformação.

2003-05-29

A Escova dos Dentes de Saddam Um notável artigo de Fernando Gil no Diário de Notícias, que é também uma excelente resposta à escova dos dentes que Eduardo Lourenço disse ser a única coisa que Saddam Hussein não tinha declarado aos inspectores das Nações Unidas. Excelentemente argumentado, retoma a questão importante de que a guerra no Iraque teve por justificação a ausência de provas credíveis da destruição das Armas de Destruição em Massa, e não o facto de elas existirem. Prémio para o artigo mais lúcido dos últimos tempos.
As minhas opiniões contra a condenação da homossexualidade já foram zurzidas pela Voz do Deserto numa série de entradas (Piegas a Piegas IV). Um extracto: "Será que o Picuinhas também olha para Jesus como uma espécie de Gandhi mais vestido? O supra-sumo do Tipo Porreiraço? E o Mestre que afirma: 'não cuideis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer paz, mas espada'? Esse não será certamente citado nas Semanas da Religião da Universidade Nova." A forma como olho para Jesus é irrelevante. Olho para as acções das Igrejas que existem com o seu nome e o que vejo geralmente agrada-me. Quando não me agrada, digo-o. É o caso.
Que desilusão... Sharon aprova o Roteiro de Paz e usa a palavra "ocupação". Parece que Bush está mesmo empenhado em levar o processo de paz a bom porto. Que desilusão para a nossa esquerda...
uF8E7 É uma cabala contra Fernando Rosas, que vê os seus textos no Público invadidos por esta estranha sigla. É com certeza José Manuel Fernandes que os põe lá.
A Traição da Liga para a Protecção da Natureza Vai-se realizar mais uma Festa do Av... perdão, o primeiro Fórum Social Português. Segundo as páginas Web do dito, podem participar aqueles que se revêem na chamada Declaração de Coimbra ou na Carta de Princípios do Fórum Social Mundial, que contêm as seguintes pérolas:
O Fórum Social Português representa em Portugal um processo de encontro, convergência e participação da cidadania organizada e das pessoas, independentemente da sua nacionalidade, que se revêem e subscrevem a Carta de Princípios de Fórum Social Mundial. Este espaço não pretende representar o conjunto da sociedade portuguesa, mas amplificar a voz d@s muit@s que condenam as políticas económicas, sociais, ambientais e culturais do neoliberalismo, a guerra, o sexismo, o racismo, a homofobia, a xenofobia, a pobreza, a exclusão social e a injustiça.

O Fórum Social Mundial, como espaço de debates, é um movimento de idéias que estimula a reflexão, e a disseminação transparente dos resultados dessa reflexão, sobre os mecanismos e instrumentos da dominação do capital, sobre os meios e ações de resistência e superação dessa dominação, sobre as alternativas propostas para resolver os problemas de exclusão e desigualdade social que o processo de globalização capitalista, com suas dimensões racistas, sexistas e destruidoras do meio ambiente está criando, internacionalmente e no interior dos países.

Não se podia ser mais claro: os participantes são anti-liberais e de esquerda. Tudo bem, até aqui. O pior é que a Liga para a Protecção da Natureza, de que sou sócio convicto embora passivo, irá participar. Sinto-me traído.
A Web no seu melhor: Wikipedia, uma enciclopédia global e aberta. Qualquer um pode editar os textos, acrescentá-los, corrigi-los. Um verdadeiro trabalho colectivo e praticamente anónimo. Os conteúdos são de excelente qualidade. Uma espécie de Open Source para o conhecimento.

2003-05-28

A Web no seu pior: Fábrica de Trabalhos Escolares.
Gostei da aplicação da Navalha de Occam proposta pelo Liberdade de Expressão para explicar a agitação judicial recente em Portugal: "as instituições estão finalmente a funcionar". Espero que seja verdade.
Mais contributos para a discussão Ao cuidado da Associação Protectora do Prof. João César das Neves.

Diz Valete Frates!, na entrada de 14 de Maio que fez o favor de me enviar, que "[...] César das Neves tem toda a liberdade de manifestar os seus pontos de vista e de actuar de acordo com a sua consciência, da mesma forma que os activistas homossexuais o fazem [...]" e ainda que "[...] as opiniões de César das Neves têm especial valor porque dão voz a uma opinião que normalmente é abafada pelo politicamente correcto". Concordo inteiramente. Não concordo muitas vezes com as opiniões de César das Neves, mas não há dúvida que a polémica que elas levantam é saudável.

Diz ainda que "o critério de moralidade apresentado pelo Picuinhas é o seguinte: 'são morais todos os comportamentos livremente consentidos, desde que os intervenientes sejam maiores e estejam na posse de todas as suas faculdades'". Não anda longe da verdade. Mas falta o essencial: a liberdade e os direitos de terceiros não podem ser afectados. É uma pequena diferença que faz toda a diferença. Daí que não se possa concluir que "por exemplo, assassinar e roubar são pecados de acordo com os dois critérios; cobiçar o conjuge ou os bens de outrém não é pecado de acordo com o primeiro critério [o meu], mas é pecado de acordo o segundo critério [o de César das Neves]". De facto, ambos são errados de acordo com o critério que apresentei, que de resto não quero apresentar como definitivo, note-se.

Valete Frates! levanta depois uma questão interessante, a que não sei responder cabalmente. Sugere ele que "aquilo que o Picuinhas considera ser um critério de moralidade é, na realidade, um critério de "legalidade" (de "justa conduta", de "interacção pacífica"); deveria ser um dos princípios utilizados para definir o que é uma intervenção legítima das autoridades responsáveis pela manutenção da segurança pública e para a condenação de determinados actos em juízo". Mas a verdade é que a legalidade se deve basear num consenso moral, num menor múltiplo comum (ou talvez um pouco mais) das sensibilidades morais de um povo, auscultadas normalmente de forma indirecta através da eleição de assembleias legislativas, e ocasionalmente através da democracia directa do referendo. Assim, os critérios de legalidade reflectem uma moral subjacente. Daí que me pareça que, se o critério que apresentei pode ser usado para definir um critério geral de legalidade, é também porque pode ser visto como um critério mínimo de moralidade. É evidente que é um critério "mínimo". É isso que deixa latitude aos católicos para recorrer a critérios mais apertados, desde que o seu exercício não viole a lei. É por isso, talvez, que a a igreja condena a homossexualidade, mas aceita os homossexuais. Sinais dos tempos e do aggiornamento.

Quanto à relação destas questões com o Liberalismo Clássico, confesso que não sei o suficiente para me pronunciar. Talvez mais tarde, quem sabe.
Esquerda e Ensino Superior São já bastantes as figuras da esquerda que apoiam uma revisão do financiamento do ensino superior que passe pelo aumento das propinas. Agora é a vez de Eduardo Prado Coelho, que também apoia a retirada dos estudantes dos órgãos de gestão das escolas. Há esperança.

2003-05-27

Próximo Tema: O Direito à Arquitectura Amanhã publicarei as minhas primeiras opiniões sobre o assunto.
Blog Block Com deve ser óbvio, houve aqui uma ataque temporário de blog block. Já está resolvido.
Pedofilia Não referi o assunto até aqui. Não o referirei. Não tenho nada de relevante a acrescentar.
De novo João César das Neves No Diário de Notícias de ontem, João César das Neves faz uma análise certeira das iniquidades do actual sistema de financiamento do ensino superior. Excelente!
De novo The Blank Slate Tenho vindo nos últimos tempos a ler o The Blank Slate: The Modern Denial of Human Nature, de Steven Pinker. É um livro absolutamente essencial, uma obra de um enorme fôlego e de uma erudição espantosa, e é, também, uma obra extremamente polémica. Talvez estranhamente polémica, pois toda a sua tese, de que a natureza humana existe, de que os genes determinam em larga medida o que somos enquanto indivíduos, está suportada com firmeza numa quantidade considerável de ciência. Mas é exactamente esse o problema. Essa ciência, que procura factos, que usa a experiência para comprovar ou falsificar teorias, é acusada de imoral. Essas acusações são totalmente desprovidas de sentido, como Pinker demonstra com elegância, mas nem por isso deixam de ser feitas por uma pseudo-ciência pós-modernista, negadora da existência de verdade, mas que crê em algumas verdades que considera absolutas. A primeira é justamente que não há uma verdade, mas várias verdades subjectivas. A veracidade desta afirmação é posta em causa por si própria. A segunda é que, sendo toda a ciência uma construção humana, as suas teorias são necessariamente produto dos cientistas e não da realidade observada, donde se conclui facilmente que se essas teorias não corroborarem as nossas opções políticas, não são estas que estão erradas, mas sim as teorias, independentemente da sua corroboração experimental.

Pinker desmonta habilmente estes argumentos e, de passagem, no curto capítulo "The Sanctimonious Animal", faz algumas afirmações extremamente interessantes acerca da moral. Em capítulos anteriores Pinker demonstra que o conhecimento biológico da mente não leva necessariamente ao nihilismo. Pelo contrário, esse conhecimento informa-nos para melhor fazermos os nossos "raciocínios morais". Pinker alerta para o facto de que a moralidade é um produto da mente, parte dela determinada geneticamente, e como tal sujeita a erros sistemáticos, que compara às ilusões de óptica. Algo a que chama "ilusões morais". Pinker reconhece que há alguns actos que são reconhecidamente imorais, tais como a violação ou o assassínio. Mas argumenta que, em relação a outros actos, as nossas intuições morais nos deixam ficar mal. Refere um pequena estória, que não resisto a transcrever, e que deixa os nossos sentidos morais confundidos, procurando razões, inexistentes, para poder classificar como imoral um acto que nos repugna:
Julie and Mark are brother and sister. They are traveling together in France on summer vacation from college. One night they are staying alone in a cabin near the beach. They decide that it would be interesting and fun if they tried making love. At the very least it would be a new experience for each of them. Julie was already taking birth control pills, but Mark uses a condom too, just to be safe. They both enjoy making love, but they decide not to do it again. They keep the night as a special secret, which makes them feel even closer to each other. What do you think about that; was it OK for them to make love?

Esta estória demonstra claramente que há uma parte do nosso "sentido" moral que não está sujeita à razão. Enquanto animais racionais, procuramos desesperadamente racionalizar uma decisão que tomámos sem recurso à razão: que o incesto é errado, sempre. Estas ilusões morais podem levar à censura de actos que em bom rigor não merecem ser classificados como imorais.

Excluindo os psicopatas, desprovidos parcial ou totalmente de consciência moral, todos concordamos em considerar o assassínio como imoral. Mas que dizer da homossexualidade? Aparentemente, para muitas pessoas, entre as quais não se incluem naturalmente os próprios homossexuais, a homossexualidade é geradora de ilusões morais. Causa-lhes um sentimento de repulsa que as leva a considerá-la como imoral. As tentativas de racionalização dessa ilusão são variadas, tais como argumentar que a homossexualidade não é "natural". Esses argumentos não têm qualquer validade. Em primeiro lugar porque, embora a moralidade humana tenha como causa última a natureza humana e o processo evolutivo, não as tem como causa próxima. Seria como argumentar que o que eu escrevo neste blogue se deve aos disparos de neurónios no meu cérebro. É verdade como causa última, mas é falso como causa próxima: escrevo o que escrevo porque quero. O argumento, além do mais, é extremamente frágil pela simples razão de que, se alguma vez se vier a demonstrar a origem genética ou pelo menos biológica da homossexualidade, os mesmos que a condenavam se verão obrigados a aceitá-la. (Note-se que, de uma forma igualmente errónea, tem-se tentado demonstrar que a homossexualidade não é errada tentando a outrance provar que ela é natural.) Mas de longe as explicações mais perigosas para a moralidade são as que recorrem à revelação divina. Se uma putativa revelação divina do 6º mandamento, "não matarás", até pode ter como consequência positiva uma aderência maior do crente à norma moral de que assassinar é errado, já a presença na bíblia de uma classificação explícita da homossexualidade como pecado condenou muita gente no passado, e continua a condenar no presente, a uma verdadeira sub-vida, plena de sofrimento psicológico e, por vezes, de sofrimento físico. É verdade que hoje em dia a posição católica sobre a homossexualidade se moderou. Diz o Catecismo católico que:
A homossexualidade designa as relações entre homens e mulheres que sentem atração sexual, exclusiva ou predominantemente por pessoas do mesmo sexo. A homossexualidade reveste-se de formas muito variáveis ao longo dos séculos e das culturas. A sua génese psíquica continua amplamente inexplicada. Apoiando-se na Sagrada Escritura, que os apresenta como depravações graves, a tradição sempre declarou que “os actos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados”. São contrários à lei natural. Fecham o acto sexual ao dom da vida. Não procedem de uma complementaridade afectiva e sexual verdadeira. Em caso algum podem ser aprovados.

Um número não negligenciável de homens e mulheres apresenta tendências homossexuais profundamente enraizadas. Esta inclinação objectivamente desordenada constitui, para a maioria, uma provação. Devem ser acolhidos com respeito compaixão e delicadeza. Evitar-se-á para com eles todo sinal de discriminação injusta. Estas pessoas são chamadas a realizar a vontade de Deus em sua vida e, se forem cristãs, a unir ao sacrifício da cruz do Senhor às dificuldades que podem encontrar por causa de sua condição.

As pessoas homossexuais são chamadas à castidade. Pelas virtudes de autodomínio, educadoras da liberdade interior, às vezes pelo apoio de uma amizade desinteressada, pela oração e pela graça sacramental, podem e devem aproximar, graduais e resolutamente, da perfeição cristã.


Catecismo da Igreja Católica Apostólica Romana; Castidade e Homossexualidade, 2357 a 2359

Lá está a condenação inequívoca, apesar da declaração piedosa de compaixão perante os homossexuais. Se os homossexuais precisam de compaixão, o que é duvidoso, será quando muito pela forma como são tratados, inclusivamente pelo Catecismo católico.

É claro que não posso aqui advogar que a moralidade se deve basear exclusivamente na razão. Em primeiro lugar porque pelo menos os axiomas básicos do edifício (e.g., "o sofrimento é errado"), não têm naturalmente um explicação ou demonstração racional. Em segundo lugar porque, como o século XX demonstrou à exaustão, a razão tem os seus limites. Não reconhecer os limites da razão pode ser ainda mais perigoso que não usar a razão de todo.

Não tenho naturalmente uma resposta definitiva sobre este assunto. Ao contrário das verdades científicas, as "verdades morais" não são passíveis de ser testadas empiricamente. Vão surgindo lentamente, de discussões e debates de séculos, de lentas evoluções das sociedades. As posições moralmente conservadoras são muitas vezes defensáveis, dados os limites da razão, mas as posições mais moralmente progressistas também o são frequentemente, particularmente quando a simples inércia é por si só causadora de maior sofrimento do que qualquer consequência não antecipada da mudança. A questão da homossexualidade é claramente um destes últimos casos. Não se vislumbra que problema poderá surgir da sua não-condenação, mas vê-se claramente que vantagens tal traria para uma quantidade enorme de pessoas a quem se negou a normalidade. Por isso mesmo, estou convicto de que a igreja católica acabará por abolir a condenação da homossexualidade do seu catecismo.

Outros dilemas morais surgem associados à homossexualidade. Devem ou não os homossexuais ser autorizados a adoptar? Confesso que neste caso tenho convicções muito menos fortes. A razão para as minhas dúvidas é apenas uma: não estão em jogo apenas os membros do casal homossexual, mas também, e sobretudo, a criança adoptada. Se acima disse que os homossexuais tinham direito à normalidade, não o disse no sentido estatístico do termo. A homossexualidade parece ser uma tendência minoritária e como tal estatisticamente "anormal". Terá esse simples facto uma influência nefasta na vida da criança? Confesso que não sei. Mas ainda que se venha a considerar como moralmente aceitável a adopção nestas circunstâncias, deverão tais adopções ser incentivadas? Também não sei.

O Valete Frates! respondeu, há já algum tempo, a uma entrada minha neste blogue sobre um artigo de João César das Neves onde se comparava homossexualidade e adultério. As observações acima servem, de alguma forma, de resposta. Mas há algo que gostaria de acrescentar. Na resposta do Valete Frates! (tanto quanto me lembro, pois não tenho já acesso a ela, dado o atraso desta minha resposta), afirma-se a certa altura que a minha aceitação da homossexualidade implicaria naturalmente a aceitação do adultério. Não me parece que se possa tirar semelhante conclusão. No adultério há pelo menos três de indivíduos envolvidos. Pode até haver mais, se existirem filhos filhos. Numa relação adúltera, o conjuge do(a) adúltera está a ser traído na sua confiança. Enquanto o casamento, formalizado ou não, incluir um comprometimento de fidelidade, e julgo que o incluirá sempre, o adultério será imoral.

2003-05-20

Causas e Consequências Em Espanha, a esquerda repete a argumentação que já tinha usado aquando do 11 de Setembro, embora agora a respeito dos atentados em Marrocos. Se antes os verdadeiros causadores do massacre das torres gémeas tinham sido os próprios EUA, agora os atentados resultaram naturalmente do apoio dado por Aznar aos EUA e ao Reino Unido na guerra contra o regime de Saddam. Os argumentos têm uma aparência de razoabilidade, mas são profundamente desonestos. Em primeiro lugar esquecem convenientemente que a Al Qaeda é constituída por humanos, como humanos foram os bombistas que se fizeram explodir em Marrocos. Logo, pelo menos do ponto de vista moral, os seus comportamentos não devem ser vistos como determinados por este ou aquele factor exterior, mas sim como resultado de decisões individuais livres. De facto, é razoável supor que os bombistas e os membros da Al Qaeda estão na posse do seu livre arbítrio: se há assassínio indiscriminado de inocentes, isso deve-se às suas decisões, e não a quem tomou atitudes que os bombistas usaram como justificação para os seus actos. Estabelecendo uma comparação abusiva, seria como explicar a violação pela forma como a vítima se veste. Se é possível fazê-lo à luz de uma explicação biológica para o acto, não o é do ponto de vista moral. Independentemente da forma como se veste, a vítima da violação é sempre vítima, e a violação sempre um crime.

É evidente que isto não significa que as nossas acções não se devam reger pelas expectativas das reacções dos outros e das consequências dessas reacções. Não o fazer seria irracional. É por isso que, infelizmente, muitas mulheres limitam a sua liberdade, para limitarem os riscos. Será desta forma que raciocina a esquerda, nomeadamente a espanhola, quando diz que os atentados são consequência das acções dos EUA e, agora, da Espanha? Sinceramente, não o creio. Mas admitamos que sim. Todas as decisões de limitação da liberdade própria devido às possíveis acções de terceiros, nomeadamente quando essas acções não têm qualquer justificação moral ou racional, devem ser tomadas com muito cuidado, como é evidente. A liberdade é preciosa. Mas mais ainda quando dessa liberdade de acção dependem muitas consequências que se esperam ser positivas ou quando se prevê que a inacção terá consequências claramente negativas. No caso da intervenção no Iraque as consequências positivas são claras como água. Basta estar atento ao que se passa no Iraque para se perceber que os iraquianos foram libertos de um regime brutal, de um regime que massacrou o seu próprio povo, que o gaseou e fuzilou, e a quem privava de qualquer liberdade. Outra consequência positiva terá sido a mensagem, implícita na intervenção, de que nunca mais os ditadores estarão seguros. Mas mais importante ainda, passou a mensagem muito clara de que terroristas e seus apoiantes (e Saddam era um apoiante explícito do terrorismo palestiniano) serão combatidos até ao fim, sem contemplações. As consequências negativas seriam a noção de que vale a pena apoiar o terrorismo e brincar com as Nações Unidas, como Saddam fez. É em conjunto com estas consequências positivas da intervenção e com as consequências negativas expectáveis de uma não-intervenção que devemos avaliar os benefícios (?) de uma não-intervenção. Neste caso, como noutros, a escolha só pode ser uma: apoiar a intervenção no Iraque. Pela nossa liberdade, mas sobretudo pela liberdade dos iraquianos. Ainda que venhamos a sofrer de ataques assassinos por parte da Al-Qaeda.

(Nota: A resposta ao Valete Frates está na calha...)

2003-05-19

Pós-Modernismo e Informática? Custa a crer, mas é verdade. Veja-se este pedaço de prosa difundido numa lista de correio electrónico dedicada a AOSD (Aspect-Oriented Software Development):
I mean that pay attention to the scientific coupling matter/form and repetition/similarity instead of the postmodernit coupling material/force and repetition /difference coined by Deleuze and Guattari (postmodernist philosophers).The latter was very concerned with an ecophilosophy. We, the panelists of this outstanding ecocity conference are expected to state a plan of action next June! I would be the happiest human being if we could start a non-governmental organization concerned with denouncing the bad practices of computer scientists and mathematicians all over the world not only hindering the application of their methodologies to sustainable development but also hindering professionals from sustainable domains to advance their knowledge. Of course because they invade all domains with their ill-practices and those that criticize them are wrong. Or are not concerned with computer science at all!!! It is impossible to build a sustainable basis for our cities without computer science and mathematics. Only these sciences may give origin to scalable practices to face the challenge of an ever growing population and the complexity involved in the ecological knowledge! It is impossible to work in teams with aspectual collaborative software architectures! Just take a look at the level of the groupware systems community!! To work synergetically and in groups is a fiction dream for the current state of art in computer science! Interest in dialogue and discourse in the realm of software is best grasped as Agile Software Development!! Here the human beings become first-class components of software. Then you simply gather together everybody and miraculously all software since the sixties is able to integrate Agile practices!!! And lots of books are being published from conventional computer scientists about this! Instead of Agile Software Development become an advance, it is apparently one more Babel Effect!Exactly according to the model of sociopathy described by Lion Kuntz!!!

Estamos perdidos.

2003-05-18

Preço ou Taxa? Diz o parecer do CRUP sobre as proposta de Lynce:
A propina não deve ser considerada um preço, mas uma taxa de frequência. Nestes termos, não deve ser diferenciada no seu montante e deve ser entendida como contrapartida de uma formação de qualidade, aumentando, assim, a capacidade de inserção dos diplomados no mercado de trabalho.

A fixação do respectivo montante deriva do conceito político do processo de acesso ao ensino superior, devendo em consequência ser esse montante estabelecido pelo poder político.

Taxa e não preço? Areia para os olhos. É um preço. Um preço demasiado baixo, pois está longe de pagar quer o valor que tem o ensino superior, quer os custos associados a esse ensino. Precisa-se urgentemente:

  • Universidades que assumam a autonomia até ao fim e não fujam à responsabilidade de fixar preços.
  • Um sistema de financiamento directo do estudante do ensino superior, e não das instituições.
  • Retomando o apelo dos docentes de economia da Universidade de Aveiro: Queremos os vouchers já!
Publicou o Expresso, no encarte Única de 17 de Maio (não vale a pena fazer link, que é a pagar), mais um artigo apressado e ignorante sobre a blogosfera portuguesa, que entre outras imprecisões e trapalhadas, termina dizendo: O que nenhum «blogueiro» escreveu foi que a escrita, as ideias e a cultura de José Pacheco Pereira vêm reforçar qualitativamente uma «blogosfera» de expressão portuguesa onde a imensa maioria do que se publica não ultrapassa a fasquia da inutilidade. Mentira: o Abrupto, de José Pacheco Pereira, foi amplamente saudado pelos outros blogs.

Infelizmente, é na imprensa escrita portuguesa que a imensa maioria do que é publicado não ultrapassa a fasquia do inútil, como bem prova o Expresso. Este não é, aliás, o primeiro texto ignorante que a nossa imprensa tradicional publica sobre esta matéria. Ora, uma das nossas práticas é ler atentamente os artigos da imprensa escrita, e sempre que possível fornecer o respectivo link. O cuidado inverso não se verifica. Já sabíamos que grande parte dos jornalistas não lêem jornais; sabemos agora que também não lêem blogs, mesmo quando a eles se referem. É verdade que em todos os países onde o fenómeno dos blogs surgiu é frequente a imprensa tradicional desvalorizar este novo meio, pondo em causa a sua qualidade e credibilidade. Mas ao menos essa imprensa conhece o fenómeno que critica. O mesmo não podemos dizer sobre os nossos jornalistas.

Percam algum tempo a visitar os melhores blogs portugueses, sobretudo os políticos, p. ex. através deste directório. E digam-nos em que jornais se encontra mais quantidade de informação, pluralismo ideológico e, sobretudo, qualidade de escrita.

Leiam e aprendam.

A Coluna Infame
Blog de Esquerda
Blogue dos Marretas
O Intermitente
O País Relativo
Picuinhices

2003-05-16

Nada funciona e ninguém se importa. Somos um país de incompetentes.
Os Filhos Mais Novos da Ditadura Interessante entrevista de Alexandra Lucas Coelho no Público. Os entrevistados são jovens iraquianos. Rash e Rabab são raparigas de 20 e 21 anos, estudantes universitárias. Samer e Zaid são rapazes de 17 e 18 anos, no final do ensino secundário. Alguns extractos:
[...]

Rabab - [...] Duas das minhas irmãs usam véu [lenço cobrindo a cabeça]. Eu não me vejo a usá-lo, talvez no futuro. Se a maioria usar, eu usarei. Mas preferia não o usar. Esta é uma sociedade de homens e é normal que assim seja. Gosto que os meus irmãos me acompanhem.

Rasha - A minha família é religiosa mas liberal. [...] A religião tem um papel central na minha vida. Rezo, jejuo, não uso o véu mas sou fiel aos ensinamentos islâmicos. Talvez quando for mais madura use o véu. Quando a mulher envelhece, é mais respeitável usá-lo, não tem a ver com o casamento. O importante é que seja uma decisão minha, que eu sinta de dentro, e é para toda a vida. Recuso a ideia de um Estado religioso, governo e religião devem estar separados.

[...]

Zaid - Não forçarei a minha mulher a usar o véu. Mas prefiro que ela o use, e que cumpra todos os princípios islâmicos. O que espero da minha mulher é que seja inteligente, boa, religiosa mas não fanática, que ame as pessoas e me obedeça. Não a impedirei de trabalhar. Mas depois de ser mãe, se vai tomar conta da casa e dos filhos não poderá trabalhar.

Samer - Se houver algo errado terei de interferir, não lhe darei liberdade total. Vou aconselhá-la a usar véu. E se ela estiver empregada e isso afectar a educação das crianças, não vou deixar que ela continue a trabalhar.

[...]

Rasha - Claro que quero trabalhar depois de ser mãe. O meu projecto é trabalhar com organizações internacionais de ajuda humanitária ou direitos humanos.

Rabab - Quero continuar a trabalhar. O trabalho cria um padrão, organiza o dia a dia.

[...]

Rasha - Acreditamos que se formos liberais quanto a isso [sexo] haverá uma desordem moral. Nos países europeus e na América há muitos filhos ilegítimos, a maior parte das crianças não sabe quem são os pais. Isso não acontece aqui.

[...]

Samer - É uma coisa estranha e proibida. Sei de homossexuais homens e mulheres, às vezes falamos disso. São desprezados. Não os respeito.

Zaid - São banidos pela religião. São anormais, tantos os homens como as mulheres.

Rasha - [...] Acho que é uma anormalidade anatómica ou hormonal.

Rabab - É muito errado. Quem faz isso são os ignorantes. É imoral e proibido pela religião.

[...]

2003-05-15

Eu Também sou Contra A Lapidação de Amina Lawal A nossa esperança na moderação islâmica, nas múltiplas vozes tolerantes e cheias de bom senso que abraçam o Islão, fica totalmente abalada quando lemos coisas como esta carta, publicada no Público e escrita por Mahomed Yiossuf Mohamed Adamgy, director da revista islâmica "Al Furqán":
No que respeita ao caso Amina Lawal, levantado pelo sr. Luís Rodrigues, devo dizer que fui dos primeiros a responder na comunicação social, nos meados de Setembro de 2002. Sobre Amina Lawal, muçulmana, pairava acusação de adultério, sem a apresentação de quatro testemunhas oculares, que a lei da "sharia" exige. E ela parece que sempre negou ter praticado o adultério. Se assim foi (...) penso que não haverá lugar a aplicação dessa pena a Amina Laval. E digo isso tendo por base o que diz a respeito desta matéria o Alcorão: "Quanto àquela que de entre as vossas mulheres são culpadas de adultério, chamai quatro testemunhas de entre vós que deponham contra elas" (Alcorão, 4:15). De notar a forma de proteger a honra da mulher, é exigida pela "sharia" uma rigorosa evidência, ou seja, a evidência de quatro, em lugar das usuais duas testemunhas, o que é quase impossível. (...)

É isso mesmo. O Sr. Mahomed Yiossuf Mohamed Adamgy está contra a lapidação de Amina Lawal. Não porque lhe pareça que bárbara a execução por lapidação, não porque seja contra a pena de morte, não porque lhe pareça um crime condenar à morte alguém que cometeu o adultério. Não! O problema não é nenhum destes. O problema é que não foram apresentadas as quatro testemunhas exigidas pela sharia. Se testemunhas houvesse, estaria tudo certo. "Sharia" oblige. Gostaria de poder acreditar que o Islão não é isto.

2003-05-14

Manifesto Bloguista
Pois, o que saberíamos nós das almas e dos pensamentos alheios, dos outros homens e por consequência de nós próprios, de outros meios e de outras terras que nunca vimos nem jamais teremos oportunidade de ver, se não houvesse gente assim, com necessidade de dar a conhecer oralmente ou por escrito o que viram ou ouviram e o que em torno disso sentiram e pensaram? Pouco, muito pouco. E por mais que as suas histórias sejam imperfeitas, temperadas pela paixão e pelas necessidades pessoais, ou até mesmo inexactas, temos sempre a razão e a experiência para podermos julgá-las e compará-las umas com as outras, aceitá-las ou rejeitá-las, no todo ou parcialmente. Assim, sempre se salvará alguma coisa de verdade humana para aqueles que com paciência escutam ou lêem.

Ivo Andrić, O Pátio Maldito, Cavalo de Ferro, 2003, pág. 46.
Associação Protectora do Prof. João César das Neves O Valete Frates, principal associado, respondeu com profundidade à minha crítica a um artigo do dito. Dada a profundidade e extensão da resposta, a minha contra-resposta demorará algum tempo.
Não Sabem o Que Dizem Sérgio Sousa Pinto assina a Revolução Neoconservadora, no Público. O Valete Frates tratou já muito bem desta questão:
Não queria transcrever este artigo todo, mas esta frase parece-me daquelas que devem ficar registadas para a posteridade blogosférica: O jovem sousa pinto cita "o insuspeito New York Times"...insuspeito ? só se for em comparação com o insuspeito ministro da informação iraquiano...

Mas, mais uma vez, não posso deixar de dar a minha achega. Diz Sérgio Sousa Pinto:
O Department of Housing and Urban Development, vocacionado para planear e construir habitação barata, anunciou a intenção de permitir que fundos públicos paguem a construção de igrejas, desde que parte do edifício seja consagrado a um qualquer serviço social. A separação entre Estado e igrejas é outro legado da modernidade na mira desta corrente.

Como a prática, perfeitamente defensável, de financiar as obras sociais das igrejas há muito existe em Portugal, tendo inclusivamente sido aplicada por governos socialistas, só podemos concluir que por cá a separação entre estado e Igrejas não existe há já muito, e que além disso o neoconservadorismo é um dos atributos do PS.
As Forças da Reacção Mário Leston Bandeira aí está, bandeira da reacção às poucas medidas acertadas propostas por Lynce para o ensino superior. Propinas fixadas pelas universidades? Nunca! As universidades não desejam essa autonomia e essa responsabilidade. Menor representação dos alunos e funcionários nos órgãos das escolas? Nunca! A sua presença tem sido o factor de progresso que coloca as escolas portuguesas na frente do pelotão mundial da educação e da ciência. O financiamento das instituições depende da sua qualidade? Nunca! Se a qualidade é difícil de aferir, o melhor é nem tentar. Mas o pior crime, a mais ignóbil das supostas intenções é "favorecer o ensino privado", esses bandidos.

Leitura obrigatória, até porque, infelizmente, as opiniões de Mário Leston Bandeira são maioritárias entre os docentes do ensino superior.

2003-05-13

Pseudo-Ciência Sandra Augusto França, no Blog de Esquerda, refere o tempo de antena dado na nossa televisão pública à astrologia e a outras pseudo-ciências ou ciências vodoo. Tem toda a razão. Que isso se passe na comunicação social privada, como na infeliz revista Xis, que lamentavelmente acompanha o Público aos Sábados, ainda aceito, embora com tristeza, tendo mesmo pensado várias vezes em deixar de comprar o Público ao Sábado por causa disso... Mas é inaceitável que os meus impostos sirvam para pagar os honorários da Sra. Cristina Candeias.

Para os interessados no combate à pseudo-ciência, recomendo a imprescindível revista Skeptical Inquirer, do CSICOP (Committee for the Scientific Investigation of Claims of the Paranormal), The Skeptic's Dictionary ou o excelente Quack Watch (Quackwatch, Inc., "a nonprofit corporation whose purpose is to combat health-related frauds, myths, fads, and fallacies").
O blogue Monólogos de Tasco coloca o Picuinhices nos seus 'Monólogos Inspiradores ("In vino veritas")'. Agradecemos a referência simpática! Em breve o Monólogos de Tasco será acrescentado à nossa lista de blogues (em reestruturação há umas semanas, pois há sempre algo mais importante para fazer...).
Felicidade e Razão O Valete Frates já dedicou uma entrada no blogue a este assunto, mas não resisto a comentá-lo eu também. Trata-se da coluna de Mário Pinto, no Público de hoje. O artigo repesca os ensinamentos de S. Tomás de Aquino:
Segundo S. Tomás - que se reclama de Aristóteles e de S. João Damasceno -, a paixão é definida como um movimento ou impulso do apetite sensível, em ligação com a representação de um bem (agradável) ou de um mal (desagradável). Nota importante do conceito de paixão é a sua irracionalidade, melhor, a sua anterioridade relativamente à razão.

[...]

Segundo S. Tomás, as paixões bem dominadas e ordenadas são magníficas energias. Assim, as paixões ditas consequentes, isto é, que seguem o juízo da recta razão iluminada pela fé, potenciam o mérito moral e espiritual e aumentam a força da boa vontade em prol das grandes causas. Foi neste sentido que Pascal disse: "Sem paixão, não é possível realizar nada de grande."

[...]

2. Destes princípios tomistas deve concluir-se que as paixões, não sendo em si mesmas nem boas nem más, não devem por definição ser extirpadas como vícios, mas devem, isso sim, ser submetidas à recta razão. Isto é: ser dominadas e orientadas, e dessa maneira colocadas ao serviço da virtude.

É necessário que (e nisso consiste precisamente a educação) a luz da (recta) razão se imponha aos nossos instintos e à nossa sensibilidade espontânea, para que esta não permaneça entregue a si mesma como sucede num animal que não possui a luz da razão.


É interessante notar como algumas destas afirmações podem, com alguma liberdade, ser comparadas a teses de autores contemporâneos. Por exemplo, com António Damásio, que no seu "O Erro de Descartes" diz que as emoções (que talvez se possam associar às paixões de Aquino) são essenciais para o raciocínio, pois fazem parte do mecanismo que nos permite lidar com o problema da explosão combinatória associada à resolução de todos os problemas, mesmo os mais triviais. Mas também com Steven Pinker, que no seu "The Blank Slate" ataca repetidamente, com toda a razão, as tentativas de suportar a moral na natureza humana. Ele distingue claramente entre causas próximas e causas últimas, pelo que consegue conjugar uma explicação biológica e evolutiva para a moral (causa última), com o lívre arbítrio e a responsabilidade pessoal (causa próxima). A relação pode neste caso ser feita, na minha opinião, se se considerar que as paixões de Aquino correspondem àquilo que no nosso comportamento é inato. Reconhecemos em nós tendências que têm com toda a certeza explicação biológica (e.g., a tendência para o adultério), mas isso não poderá servir nunca para considerar os comportamentos que decorram dessas tendências como apropriados ou, pelo contrário, como reprováveis. As questões morais têm, com toda a certeza, uma base biológica e evolutiva, mas tal facto de pouco ou nada nos ajuda no dia a dia, perante os dilemas morais que nos preenchem a vida. Os raciocínios morais pertencem a uma outra esfera.

Infelizmente o artigo de Mário Pinto termina com uma diatribe contra a técnica, que me parece muito pouco certeira:
Dirão alguns: reflexões muito velhas. Respondo eu: concordo inteiramente. Mas acrescento que são tão velhas como o homem, a sua dignidade racional e a sua problemática existencial. Filosoficamente, nós continuamos hoje com os mesmos problemas defrontados pela filosofia clássica e da escolástica. E essencialmente às voltas com as mesmas respostas. A maior diferença parece-me às vezes ser a de que os filósofos gregos e escolásticos não fugiam aos problemas e às respostas. Enquanto nós, hoje, homens que nos cremos muito evoluídos, questionamos e respondemos menos. Absorvidos com a técnica, limitamo-nos a um hedonismo prático, que simplesmente embrulhamos racionalmente com o cómodo relativismo epistemológico do pós-modernismo. Pois não é cómodo pensar que, nestas coisas, cada um tem a sua verdade? E que, visto que não é possível demonstrar irrecusavelmente uma verdade universal, todas as verdades são iguais e valem o mesmo? Ou seja, que a verdade de um vale tanto como a sua contrária de outro? Que felicidade mais cómoda! Juntamos dois em um: o regalo hedonista e a satisfação racional epistemológica, esta sim alegadamente de valor universal - a epistemologia anula a ontologia.

Creio que o nosso tempo necessita dramaticamente de mais e melhor filosofia. E portanto de mais e melhores filósofos. Mas a filosofia não está na moda... Ela só se cultiva no ritmo humano da reflexão racional e na pureza das intenções das consciências. Modo e ambiente estes que não são redutíveis às novas tecnologias nem aos ritmos e aos "bites" da comunicação moderna, cada vez mais submetidas ao lucro e aos sentidos.

Será que assim não corremos o risco de ficarmos homens muito poderosos tecnologicamente, epistemologicamente tranquilizados, sem ética e sem virtude - portanto sem espírito, isto é, homens desalmados?

Estas afirmações, em que a técnica é usada como justificação para o pós-modernismo e é acusada de estar cada vez mais submetida ao lucro e aos sentidos, são profundamente erradas. A técnica em si não está certa nem errada. Nem sequer se pode afirmar que a tecnologia moderna seja indutora de quaisquer comportamentos hedonistas. Dizê-lo é ignorar a natureza humana, que não precisa certamente de técnica para se revelar, e ignorar, por exemplo, que é a técnica, bem utilizada, que permite que muitos leiam a coluna de Mário Pinto no Público, e que me permite a mim escrever estas linhas, com toda a liberdade do mundo e sem pagar um cêntimo. Os problemas éticos modernos não são diferentes, na sua essência, dos problemas éticos do passado da humanidade, como Mário Pinto reconhece. Por outro lado, embora reconheça os perigos e partilhe dos receio de Mário Pinto em relação ao relativismo, não posso concordar com a sugestão de que o nosso tempo seja um tempo sem ética e sem virtude. Sou um optimista, talvez, mas suporto-me na realidade. Continua a haver guerras hoje, mas morre-se menos do que antes, há menos fome, há mais ajuda aos países e aos povos em apuros, há mesmo um comportamento geral das sociedades que me parece mais ético do que no passado. Estamos mal, mas muito melhor do que no passado. Talvez as tendências pós-modernistas recentes tenham alterarado muito mais o discurso do que a prática de cada um de nós. Talvez esta nossa sensação de que "as coisas nunca estiveram tão mal" não passe de um comum erro de perspectiva.

O artigo de Mário Pinto, muito interessante, deve ser comparado com o de João César das Neves. É a diferença entre a profundidade e o panfleto. Entre a ponderação e a afirmação gratuita. Veja-se:
Se falarmos de lixos tóxicos, de racismo ou de exploração laboral, aí não há qualquer piedade, nem para os actos nem para as pessoas. O nosso tempo não aceita estas coisas de forma nenhuma e persegue sem remissão quem as comete. Mas se falarmos de adultério, de evasão fiscal ou de homossexualidade, aí o legítimo respeito pelos envolvidos pretende anular a indiscutível desordem das acções. Nos primeiros males não há compaixão possível; nos últimos não há mal nenhum. O recente repúdio pela guerra transformou-se em ataque aos americanos, enquanto se desculpa o divórcio pelos divorciados. Seria como gostar da cegueira por amor aos cegos.

Não se podem tolerar todos os estilos de vida; muitos têm de ser repudiados.

O que se deve, mais que tolerar, respeitar e amar são todas as pessoas, qualquer que seja o seu estilo de vida. Mas a opinião comum diz exactamente o contrário disto.

O mais curioso é que esta confusão está agora a cair no extremo, penetrando no insólito. A intolerância impiedosa das pessoas verifica-se em acções cada vez mais inócuas, enquanto a benevolência culposa chega já a crimes de sangue. Quem sujar uma praia, fumar em recintos fechados ou tiver excesso de alcoolemia é tão repudiado quanto os nazis.

Mas um drogado, uma mãe que aborta ou quem defenda a eutanásia é, não só absolvido, mas visto como um herói.

João César da Neves continua sistematicamente a comparar homossexualidade com adultério... Confesso que em termos morais tenho muito mais dúvidas do que certezas. Não aceito o relativismo moral, e acredito numa moral absoluta, tal como numa verdade absoluta, por muito inalcançáveis que sejam ambas. No entanto, não posso deixar de pôr à prova racional as afirmações acerca de bondade ou maldade de determinados actos. E não consigo encontrar a mais pequena sombra de uma razão para censurar uma relação homossexual onde haja consentimento de ambas as partes. A mistura da homossexualidade com o adultério e o aborto é simples obscurantismo.

Enfim. João César das Neves será um liberal na esfera económica, mas está longe de ser um liberal no que respeita às relações humanas. É pena.

2003-05-12

Financiamento directo aos alunos Surgiram no Expresso de ontem dois artigos que defendem, tal como eu (aqui ou aqui), o financiamento directo aos alunos. Rui Verde , no seu artigo "Os Neoliberais e a Reforma Lynce":
O problema é que, infelizmente, a reforma Lynce não é liberal.

– Uma reforma neoliberal instituiria o financiamento directo aos, permitindo-lhes a livre escolha da Universidade que quereriam frequentar; não manteria um financiamento estatizante apoiado em regulamentações administrativas pesadas e fechadas.

– Uma reforma neoliberal daria liberdade de organização e funcionamento às instituições permitindo-lhes criar livremente a orgânica interna, contratar também livremente docentes e funcionários e decidir sobre salários. [...]

– Uma reforma neoliberal colocaria as universidades a competirem vigorosamente umas com as outras, procurando a diferença e não a igualdade redutora [...]

"'Vouchers' Universitários, Já!" é a resposta de Egas Salgueiro, João Gata e Miguel Lebre de Freitas ao desafio de Lynce. Sendo menos contundente, não é menos interessante:

b) A actual política de propina uniforme retira ao mercado capacidade de auto-regulação: persistem situações de excesso de oferta e de excesso de procura em licenciaturas específicas [...]. A existência de uma propina única anula também o papel do preço enquanto sinalizador de qualidade [...]

c) O baixo nível das propinas ilude o aluno quanto ao verdadeiro custo da sua educação e não incentiva o esforço. [...]

d) As universidades têm pouca margem de manobra para remunerarem melhor os melhores investigadores. [...]

[...]

A nossa proposta é a criação de «vouchers», ou senhas, de ensino universitário, nos termos seguintes:

[...]

Segue-se uma descrição mais ou menos detalhada desta e de outras propostas, como as de contratos individuais de trabalho para os professores, de empréstimos para complementar o valor do voucher nos casos em que as propinas excedessem o seu valor, de abatimentos à matéria colectável destes pagamentos, de bolsas pagas pela indústria, etc. Tirando o facto de os autores proporem a atribuição indiscriminada dos vouchers, o que me parece injusto e oneroso, a proposta é de uma enorme sensatez.

Será falta de coragem do nosso governo, ou será a sua velha costela social-democrata a impedir reformas liberais essenciais como esta?