2003-05-13

Felicidade e Razão O Valete Frates já dedicou uma entrada no blogue a este assunto, mas não resisto a comentá-lo eu também. Trata-se da coluna de Mário Pinto, no Público de hoje. O artigo repesca os ensinamentos de S. Tomás de Aquino:
Segundo S. Tomás - que se reclama de Aristóteles e de S. João Damasceno -, a paixão é definida como um movimento ou impulso do apetite sensível, em ligação com a representação de um bem (agradável) ou de um mal (desagradável). Nota importante do conceito de paixão é a sua irracionalidade, melhor, a sua anterioridade relativamente à razão.

[...]

Segundo S. Tomás, as paixões bem dominadas e ordenadas são magníficas energias. Assim, as paixões ditas consequentes, isto é, que seguem o juízo da recta razão iluminada pela fé, potenciam o mérito moral e espiritual e aumentam a força da boa vontade em prol das grandes causas. Foi neste sentido que Pascal disse: "Sem paixão, não é possível realizar nada de grande."

[...]

2. Destes princípios tomistas deve concluir-se que as paixões, não sendo em si mesmas nem boas nem más, não devem por definição ser extirpadas como vícios, mas devem, isso sim, ser submetidas à recta razão. Isto é: ser dominadas e orientadas, e dessa maneira colocadas ao serviço da virtude.

É necessário que (e nisso consiste precisamente a educação) a luz da (recta) razão se imponha aos nossos instintos e à nossa sensibilidade espontânea, para que esta não permaneça entregue a si mesma como sucede num animal que não possui a luz da razão.


É interessante notar como algumas destas afirmações podem, com alguma liberdade, ser comparadas a teses de autores contemporâneos. Por exemplo, com António Damásio, que no seu "O Erro de Descartes" diz que as emoções (que talvez se possam associar às paixões de Aquino) são essenciais para o raciocínio, pois fazem parte do mecanismo que nos permite lidar com o problema da explosão combinatória associada à resolução de todos os problemas, mesmo os mais triviais. Mas também com Steven Pinker, que no seu "The Blank Slate" ataca repetidamente, com toda a razão, as tentativas de suportar a moral na natureza humana. Ele distingue claramente entre causas próximas e causas últimas, pelo que consegue conjugar uma explicação biológica e evolutiva para a moral (causa última), com o lívre arbítrio e a responsabilidade pessoal (causa próxima). A relação pode neste caso ser feita, na minha opinião, se se considerar que as paixões de Aquino correspondem àquilo que no nosso comportamento é inato. Reconhecemos em nós tendências que têm com toda a certeza explicação biológica (e.g., a tendência para o adultério), mas isso não poderá servir nunca para considerar os comportamentos que decorram dessas tendências como apropriados ou, pelo contrário, como reprováveis. As questões morais têm, com toda a certeza, uma base biológica e evolutiva, mas tal facto de pouco ou nada nos ajuda no dia a dia, perante os dilemas morais que nos preenchem a vida. Os raciocínios morais pertencem a uma outra esfera.

Infelizmente o artigo de Mário Pinto termina com uma diatribe contra a técnica, que me parece muito pouco certeira:
Dirão alguns: reflexões muito velhas. Respondo eu: concordo inteiramente. Mas acrescento que são tão velhas como o homem, a sua dignidade racional e a sua problemática existencial. Filosoficamente, nós continuamos hoje com os mesmos problemas defrontados pela filosofia clássica e da escolástica. E essencialmente às voltas com as mesmas respostas. A maior diferença parece-me às vezes ser a de que os filósofos gregos e escolásticos não fugiam aos problemas e às respostas. Enquanto nós, hoje, homens que nos cremos muito evoluídos, questionamos e respondemos menos. Absorvidos com a técnica, limitamo-nos a um hedonismo prático, que simplesmente embrulhamos racionalmente com o cómodo relativismo epistemológico do pós-modernismo. Pois não é cómodo pensar que, nestas coisas, cada um tem a sua verdade? E que, visto que não é possível demonstrar irrecusavelmente uma verdade universal, todas as verdades são iguais e valem o mesmo? Ou seja, que a verdade de um vale tanto como a sua contrária de outro? Que felicidade mais cómoda! Juntamos dois em um: o regalo hedonista e a satisfação racional epistemológica, esta sim alegadamente de valor universal - a epistemologia anula a ontologia.

Creio que o nosso tempo necessita dramaticamente de mais e melhor filosofia. E portanto de mais e melhores filósofos. Mas a filosofia não está na moda... Ela só se cultiva no ritmo humano da reflexão racional e na pureza das intenções das consciências. Modo e ambiente estes que não são redutíveis às novas tecnologias nem aos ritmos e aos "bites" da comunicação moderna, cada vez mais submetidas ao lucro e aos sentidos.

Será que assim não corremos o risco de ficarmos homens muito poderosos tecnologicamente, epistemologicamente tranquilizados, sem ética e sem virtude - portanto sem espírito, isto é, homens desalmados?

Estas afirmações, em que a técnica é usada como justificação para o pós-modernismo e é acusada de estar cada vez mais submetida ao lucro e aos sentidos, são profundamente erradas. A técnica em si não está certa nem errada. Nem sequer se pode afirmar que a tecnologia moderna seja indutora de quaisquer comportamentos hedonistas. Dizê-lo é ignorar a natureza humana, que não precisa certamente de técnica para se revelar, e ignorar, por exemplo, que é a técnica, bem utilizada, que permite que muitos leiam a coluna de Mário Pinto no Público, e que me permite a mim escrever estas linhas, com toda a liberdade do mundo e sem pagar um cêntimo. Os problemas éticos modernos não são diferentes, na sua essência, dos problemas éticos do passado da humanidade, como Mário Pinto reconhece. Por outro lado, embora reconheça os perigos e partilhe dos receio de Mário Pinto em relação ao relativismo, não posso concordar com a sugestão de que o nosso tempo seja um tempo sem ética e sem virtude. Sou um optimista, talvez, mas suporto-me na realidade. Continua a haver guerras hoje, mas morre-se menos do que antes, há menos fome, há mais ajuda aos países e aos povos em apuros, há mesmo um comportamento geral das sociedades que me parece mais ético do que no passado. Estamos mal, mas muito melhor do que no passado. Talvez as tendências pós-modernistas recentes tenham alterarado muito mais o discurso do que a prática de cada um de nós. Talvez esta nossa sensação de que "as coisas nunca estiveram tão mal" não passe de um comum erro de perspectiva.

O artigo de Mário Pinto, muito interessante, deve ser comparado com o de João César das Neves. É a diferença entre a profundidade e o panfleto. Entre a ponderação e a afirmação gratuita. Veja-se:
Se falarmos de lixos tóxicos, de racismo ou de exploração laboral, aí não há qualquer piedade, nem para os actos nem para as pessoas. O nosso tempo não aceita estas coisas de forma nenhuma e persegue sem remissão quem as comete. Mas se falarmos de adultério, de evasão fiscal ou de homossexualidade, aí o legítimo respeito pelos envolvidos pretende anular a indiscutível desordem das acções. Nos primeiros males não há compaixão possível; nos últimos não há mal nenhum. O recente repúdio pela guerra transformou-se em ataque aos americanos, enquanto se desculpa o divórcio pelos divorciados. Seria como gostar da cegueira por amor aos cegos.

Não se podem tolerar todos os estilos de vida; muitos têm de ser repudiados.

O que se deve, mais que tolerar, respeitar e amar são todas as pessoas, qualquer que seja o seu estilo de vida. Mas a opinião comum diz exactamente o contrário disto.

O mais curioso é que esta confusão está agora a cair no extremo, penetrando no insólito. A intolerância impiedosa das pessoas verifica-se em acções cada vez mais inócuas, enquanto a benevolência culposa chega já a crimes de sangue. Quem sujar uma praia, fumar em recintos fechados ou tiver excesso de alcoolemia é tão repudiado quanto os nazis.

Mas um drogado, uma mãe que aborta ou quem defenda a eutanásia é, não só absolvido, mas visto como um herói.

João César da Neves continua sistematicamente a comparar homossexualidade com adultério... Confesso que em termos morais tenho muito mais dúvidas do que certezas. Não aceito o relativismo moral, e acredito numa moral absoluta, tal como numa verdade absoluta, por muito inalcançáveis que sejam ambas. No entanto, não posso deixar de pôr à prova racional as afirmações acerca de bondade ou maldade de determinados actos. E não consigo encontrar a mais pequena sombra de uma razão para censurar uma relação homossexual onde haja consentimento de ambas as partes. A mistura da homossexualidade com o adultério e o aborto é simples obscurantismo.

Enfim. João César das Neves será um liberal na esfera económica, mas está longe de ser um liberal no que respeita às relações humanas. É pena.

2003-05-12

Financiamento directo aos alunos Surgiram no Expresso de ontem dois artigos que defendem, tal como eu (aqui ou aqui), o financiamento directo aos alunos. Rui Verde , no seu artigo "Os Neoliberais e a Reforma Lynce":
O problema é que, infelizmente, a reforma Lynce não é liberal.

– Uma reforma neoliberal instituiria o financiamento directo aos, permitindo-lhes a livre escolha da Universidade que quereriam frequentar; não manteria um financiamento estatizante apoiado em regulamentações administrativas pesadas e fechadas.

– Uma reforma neoliberal daria liberdade de organização e funcionamento às instituições permitindo-lhes criar livremente a orgânica interna, contratar também livremente docentes e funcionários e decidir sobre salários. [...]

– Uma reforma neoliberal colocaria as universidades a competirem vigorosamente umas com as outras, procurando a diferença e não a igualdade redutora [...]

"'Vouchers' Universitários, Já!" é a resposta de Egas Salgueiro, João Gata e Miguel Lebre de Freitas ao desafio de Lynce. Sendo menos contundente, não é menos interessante:

b) A actual política de propina uniforme retira ao mercado capacidade de auto-regulação: persistem situações de excesso de oferta e de excesso de procura em licenciaturas específicas [...]. A existência de uma propina única anula também o papel do preço enquanto sinalizador de qualidade [...]

c) O baixo nível das propinas ilude o aluno quanto ao verdadeiro custo da sua educação e não incentiva o esforço. [...]

d) As universidades têm pouca margem de manobra para remunerarem melhor os melhores investigadores. [...]

[...]

A nossa proposta é a criação de «vouchers», ou senhas, de ensino universitário, nos termos seguintes:

[...]

Segue-se uma descrição mais ou menos detalhada desta e de outras propostas, como as de contratos individuais de trabalho para os professores, de empréstimos para complementar o valor do voucher nos casos em que as propinas excedessem o seu valor, de abatimentos à matéria colectável destes pagamentos, de bolsas pagas pela indústria, etc. Tirando o facto de os autores proporem a atribuição indiscriminada dos vouchers, o que me parece injusto e oneroso, a proposta é de uma enorme sensatez.

Será falta de coragem do nosso governo, ou será a sua velha costela social-democrata a impedir reformas liberais essenciais como esta?

2003-05-11

Franz Erhard Walther pergunta, na introdução à sua exposição "O Novo Alfabeto", na Gulbenkian:
Sem a utilização da linguagem e da escrita, sentiria a minha arte como algo completamente mudo. Como seria possível a percepção da obra, que não poderia existir sem a acção, se a ideia da obra não pudesse ser nomeada verbalmente?

A exposição "O Mar e a Luz - Aguarelas de Turner na colecção da Tate", também na Gulbenkian, parece estar lá para responder a esta pergunta.
De Sila para Caribdes Foi o destino da Polónia ao ver-se livre dos alemães, segundo João Benard da Costa. Este destino trágico da Polónia, libertando-se do Nazismo para entrar no totalitarismo comunista, foi uma das imagems mais marcantes que me ficaram do magnífico filme O Pianista.
A neutralidade de Portugal João Benard da Costa termina a sua coluna de sexta-feira, no Público, falando da sua (nossa) sorte de escaparmos à Segunda Guerra Mundial:
Volto a abençoar a minha sorte. Mas se alguma sorte houve (ou lá como lhe queiram chamar), se alguns acreditam que tudo se deve à intervenção d'Aquela a quem pedimos "faz com que a guerra / se acabe na terra", a Miraculosa Rainha dos Céus, houve também - confessa lá - um senhor a quem não queria confessar nada, a quem não queria dever nada, mas a quem acabo esta crónica a confessar que lhe devo - eu e todos como eu - uma guerra nenhuma numa sossegada paz. Faltou-me dizer o nome? Faltou. Há palavras que nesta casa ainda não se dizem.

É verdade: a geração de Benard da Costa foi poupada aos horrores da guerra e deve-o aos golpes de rins de Salazar. E no entanto... será que poderíamos ter poupado algum sofrimento alheio, à custa do nosso, se tivessemos estado então "do lado certo da história"?

2003-05-10

Blogues no DN
Is Honest Politics Possible? O Independente acaba de publicar um artigo de Aleksandre Kwasniewski surgido em Dezembro no Project Syndicate. Nele faz um retrato de vários tipos de políticos. Um exercício interessante é o de identificar políticos portugueses de acordo com estes tipos. A melhor escolha é invariavelmente a primeira que nos vem à cabeça:
Political dishonesty, it turns out, takes different forms. Let us identify the various types. One type is someone who is a dishonest man or woman to begin with. Such a person will be a dishonest leader, ideologue, or diplomat in any circumstance.

Another type is the well-meaning dilettante. Clumsy and amateurish, the dilettante's actions harm the interests he aims to advance.

Political "gamblers," on the other hand, put competence to bad use. They are skilled but ruthless, lack humility and eschew reflection. The gambler's close kin is the political "troublemaker," who pursues his soaring ambitions by any means necessary, whatever the risks and regardless of the cost to others.

The political "fanatic" is also dishonest, for he is blinded by the conviction that he is absolutely right in all cases. The fanatic is inflexible and inertial, a steamroller ready to flatten everything in his way. By contrast, the political "wheeler-dealer" is no less dishonest, for he lacks what the first President Bush called the "vision thing." He is spineless, devoid of principle, and retreats in the face of responsibility.
Ferro Rodrigues já optou Vasco Rato, n'O Independente, diz que "Ferro Rodrigues, dividido entre o bom senso de Jaime Gama e a irresponsabilidade de Ana Gomes, não consegue optar". Quanto ao bom senso de Jaime Gama, nada mais tenho a dizer (ver mais abaixo). Mas não concordo que Ferro Rodrigues não consiga optar. Já optou. Optou claramente por Ana Gomes, como se pôde verificar assistindo à sua actuação no debate da Assembleia da República sobre o envio de um contingente da GNR para o Iraque.
Papá Soares Eduardo Prado Coelho, no Público:
Soares é hoje o mais inventivo, o mais jovem, o mais contagiante político português. Conseguiu associar a desenvoltura com a imagem plena do pai de que o país necessita.

Já tenho um, obrigado. Estou muito satisfeito com ele.
Mário Soares subscreveu o inqualificável "Manifesto pela Paz, Contra a Ocupação", já aqui criticado. Segundo João Pereira Coutinho, n'O Independente de hoje, "convém recordar às massas que o exercício descarado da manipulação e da mentira não faz parte das prerrogativas presidenciais". Pois convém. Por isso não consigo entender o que Vasco Pulido Valente disse na passada semana.
Rui Rio e o Futebol Estou com João Pereira Coutinho, que no seu "Vida de Cão", n'O Independente, diz: "Que Rui Rio tenha tomado esta atitude, eis um facto que registo e agradeço. Não acredito em milagres. Mas ao devolver o futebol às ruas, Rui Rio preservou a dignidade do cargo e prestou um serviço à cidade e ao país." Até que em fim alguém apoia a firmeza de Rui Rio! O futebol é um verdadeiro cancro que há que manter longe do poder, lancetando as suas metástases logo que se declarem.

2003-05-09

Jaime Gama mantém-se quieto enquanto a sua bancada aplaude Ferro Rodrigues que, vociferante, acusa o governo das coisas mais absurdas. Não me admiro. Jaime Gama sempre foi dono de um enorme bom senso.
Intelectuais contra Fidel Castro
A Paris, des militants de Reporters sans frontières, accompagnés de journalistes et de personnalités qui protestaient contre ces condamnations, ont été agressés sur la voie publique par des employés de l'ambassade de Cuba, à coups de bâton et de barre de fer.

Parmi eux, l'ambassadeur en personne encourageait ses hom- mes de main.

Des journalistes, des militants ont été blessés. C'est inacceptable.

No Le Monde.

2003-05-08

Um abismo estreito mas fundo de 600 anos
La différence entre la France et la Grande-Bretagne n'est pas grande, mais elle est profonde. La Grande-Bretagne reconnaît qu'il faut construire une Europe forte comme partenaire des Etats-Unis ; la France sait qu'on ne peut pas faire grand-chose aujourd'hui contre les Etats-Unis. Le fossé ne mesure peut-être que quelques mètres de large, mais il a une profondeur de six cents ans.

Timothy Garton Ash
Boas Intenções de Mohamed ElBaradei:
A l'évidence, une nouvelle approche s'impose. Une approche qui s'applique à toutes les armes de destruction massive et dotée d'un certain nombre de caractéristiques essentielles : adhésion universelle aux conventions interdisant les armes de destruction massive ; systèmes solides et intrusifs de vérification pour toutes les conventions concernant les armes de destruction massive ; plan détaillé et volonté d'élimination des armes de destruction massive dans tous les Etats pour abolir à terme la distinction entre les "nantis" et les "démunis"; nouvelles doctrines de sécurité qui ne soient pas fondées sur l'effet dissuasif des armes nucléaires ; mesures de coercition fiables, sous l'égide du Conseil de sécurité, pour contrer efficacement les efforts d'acquisition illicite d'armes de destruction massive que ferait un pays quelconque ;

A intenção é boa, mas não havendo mecanismos infalíveis de inspecção, a eliminação das armas nucleares por parte dos países ocidentais seria um verdadeiro suicídio.
Uma mina Project Syndicate
Patria o Muerte "Cuba es 'patria' para quienes se mantienen fieles a la revolución y 'muerte' (ya sea muerte política, exilio, cárcel o fusilamiento) para quienes tienen la osadía de discrepar." (Francisco Caparrós)
A vida passa e vai-se aprendendo a controlar a timidez. Nunca se vence.

2003-05-07

E lá estive, no "É a Cultura Estúpido", a que voltarei certamente. (E lá me apresentei...)

Gostei da Leitura Obrigatória de Pedro Mexia e de José Mário Silva, particularmente da crítica do último a "O Pátio Maldito", de Ivo Andric. Fiquei com vontade de o ler. O debate entre Daniel Oliveira e João Pereira Coutinho não foi brilhante, pois o tempo esgotava-se e a moderadora não deixava de o lembrar. Esteve melhor Daniel Oliveira que João Pereira Coutinho, com um discurso mais fluido e consistente. A Stand-up Comedy de Ricardo Araújo Pereira, do Gato Fedorento, foi verdadeiramente hilariante. Genial, a apresentação das partes em que se divide o livro de María Luisa Blanco com entrevistas a António Lobo Antunes.

Não gostei de Clara Ferreira Alves declarando-se, com ar blasé, totalmente desinteressada pelo seu cargo de directora da Casa Fernando Pessoa.
Ainda não sei que dizer das afirmações de Vasco Pulido Valente acerca de Mário Soares. Será que ironizava? Só pode.
Filipe Gonzalez Talvez tenha exagerado, e não haja perigo nenhum. Talvez os disparates se devam às liberdades que o distanciamento ao poder permite. Liberdades essas de que usufruem todos os blogues, inclusivamente este, que não estará talvez isento do seu disparate ocasional. Ainda assim, não posso deixar passar estas afirmações de Felipe Gonzalez:
Caiu a capital, quase sem resistência, como o resto do país – felizmente! –, vão caindo as cartas do obsceno baralho, apesar de Saddam não aparecer, e começaram também a cair as mentiras desta guerra. Onde e quando serão encontradas as ameaças para a paz mundial? Dizem-nos, apontando para outros objectivos, que devem ter transferido as armas e as cartas altas para a Síria, ou ameaçam os iranianos para que não interfiram na comunidade xiita iraquiana, pois consideram esse um assunto interno do Iraque, ou seja, da competência dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha.

Contudo, podem-se, hoje, colocar dúvidas sobre a existência de algum arsenal de armas de destruição em massa. Não deve excluir-se, inclusive, que apesar de não as terem empregado nem em desespero de causa, venhamos a ter alguma surpresa, por terem entregue algumas a grupos terroristas niilistas, como última jogada.

Um difícil exercício na corda bamba, sem rede. Filipe Gonzalez afirma, ou melhor, insinua que a possibilidade de existência de armas de destruição em massa era uma mentira deliberada dos EUA. No entanto, mais à frente, diz que se podem colocar dúvidas sobre a existência dessas mesmas armas, e que podem inclusivamente ter sido entregues a grupos terroristas. Afinal, em que ficamos? Será que Gonzalez quer dizer que EUA mentiram acerca das armas porque disseram que era provável que as armas ainda existissem quando estavam, erradamente, convencidos do contrário? Mas isso é totalmente absurdo... Só se pode concluir, por isso, que Gonzalez tentou denegrir os EUA, acusando-os de mentirem, mas deixando uma porta aberta para a possibilidade de eles, afinal, terem dito a verdade... Só um leitor menos atento poderia cair nesta esparrela, mais a mais porque a justificação essencial para a intervenção dos EUA e do Reino Unido foi a não demonstração por parte do Iraque da destruição das armas que comprovadamente havia possuido no passado, facto que foi atestado repetidamente por Hans Blix.

(Segundo Gonzalez o baralho é "obsceno". Sê-lo-á por causa das suas figuras sinistras ou pelo acto de as colocarem num baralho de cartas? Desconfia-se que seja apenas pela segunda razão...)
O Abrupto é o novo blogue de Pacheco Pereira. Não podíamos ter melhor companhia. Que seja muito bem vindo à blogoesfera! (Onde está o armário para arrumar as minhas botas? :-)
Um decénio passado sobre a queda do bloco soviético, prepara-se o regresso ao socialismo. Os inimigos de toda a esquerda, mesmo a mais moderada, são de novo o capitalismo e o liberalismo, agora personificados na América. Os disparates saem em revoadas da boca e da pena de personagens como Mário Soares ou Felipe Gonzalez. Uma perigosa regressão de 100 anos?

2003-05-05

Obrigado ao Fumaças por nos pôr colocar na lista dos blogues imprescindíveis do momento! O Fumaças é também nossa leitura obrigatória.
Chomskys à Portuguesa O Manifesto pela Paz, Contra a Ocupação, assinado pelos costumeiros Mário Soares, Freitas do Amaral, Maria de Lurdes Pintassilgo, Helena Roseta e Boaventura Sousa Santos, entre outros, é um chorrilho de insinuações. A mentira nunca é directa, pois Mário Soares sabe bem escondê-la por trás da insinuação infame. Este manifesto envergonha quem o escreveu e quem o subscreve:
Ao som de uma imensa operação de propaganda e de manipulação da informação, as tropas norte-americanas e britânicas, coadjuvadas por forças australianas, invadiram o Iraque no dia 19 de Março, recorrendo a bombardeamentos intensivos e devastadores, utilizando «armas de destruição massiça» de novo tipo. O mundo ignora até hoje o número exacto dos mortos provocados na população.

"Armas de destruição massiça de novo tipo", repare-se bem. "Armas de destruição massiça". Os autores e subscritores do documento sabem bem o que são armas de de destruição em massa, e sabem que não foram usadas no Iraque, nem sequer por parte do regime de Saddam. Insinua-se que o número de mortos terá sido elevadíssimo, talvez para tentar corroborar pela insinuação aquilo que nenhum facto permite confirmar: as centenas de milhares, senão mesmo milhões de mortos, previstos por gente como Mário Soares, primeiro subscritor e talvez autor do presente manifesto, antes do início da guerra. Recordo que todos os números disponíveis até hoje apontam para cerca de quatro mil mortos, entre militares e civis. As piores estimativas não vão além (enfim, a palavra não é a mais apropriada, pois um único morto já é demais) de 10 000 mortos.
A formidável máquina de guerra lançada contra um povo do Iraque, praticamente indefeso, procedeu à destruição sistemática de infraestruturas, edifícios públicos, Universidades, atingindo com frequência densas zonas populacionais, assumindo ainda uma estratégia de assassinato político em que os inimigos foram reduzidos a fotografias de um baralho de cartas.

Voltam de novo as insinuações de que os civis atingidos pelos bombardeamentos foram-no propositadamente. É de um cinismo que ultrapassa o que é razoável. É torpe, simplesmente. Quanto às cartas, sugere que o objectivo é assassinar os retratados, quando todos sabemos que não houve um só assassinato, tendo-se já detido pelo menos uns 10 dos retratados. Sim, houve bombardeamentos destinados a eliminar Saddam Hussein, mas confundir isso com "assassinato político" e estendê-lo a todos os dirigentes iraquianos retratados nas cartas não adere à realidade: é mentira.
A pilhagem do Museu de Bagdad e de muitas outras instituições culturais é um crime contra a História da Humanidade e a memória do povo iraquiano, constituindo um sinal claro da barbárie associada a esta guerra, que visa facilitar o controlo da sociedade e das elites iraquianas pelos vencedores.

Pensava eu que se tinha atingido o limite da infâmia... Agora sugerem que as pilhagens faziam parte de uma estratégia que visava "facilitar o controlo da sociedade e das elites iraquianas pelos vencedores". Para além da infâmia da afirmação, o argumento é de uma enorme estupidez. Em que é que as pilhagens de museus facilitariam o controlo da sociedade e das elites iraquianas? É de um absurdo tal que, sinceramente, me desilude definitivamente de alguns dos subscritores do documento, que considerava pessoas válidas e inteligentes.
A violência exercida contra jornalistas, incluindo portugueses, e a censura organizada para ocultar notícias e imagens inconvenientes, são elementos centrais da operação «choque e pavor», tecnocraticamente aplicadas à máquina de morte e destruição, de modo a minimizar a oposição dentro dos próprios Estados Unidos da América e da Grã-Bretanha e o repúdio generalizado da opinião pública mundial.

"Violência exercida contra jornalistas" foram dois ou três episódios isolados durante uma das guerras com maior cobertura mediática, onde a Al Jazira, por exemplo, se não agiu com maior liberdade foi porque o próprio regime de Saddam não o permitiu.
Do mesmo modo que o tratamento brutal e vexatório infligido aos prisioneiros de guerra _ cujo número e situação real se desconhecem _ exibem arrogante desprezo pelas Convenções de Genebra.

Isto é simplesmente ridículo. Todas as imagens que nos chegaram, algumas delas filmadas e difundidas de forma abusiva, não revelaram quaisquer maus tratos. É lamentável fazer insinuações deste tipo sem apresentar a mais pálida sombra de uma prova. Lamentável.
A ocupação militar e a anunciada partilha dos lucros do petróleo e da reconstrução do que agora foi destruído pela invasão entre empresas americanas e inglesas, com eventuais migalhas para outros países apoiantes desta acção militar ilegítima, traduz o verdadeiro objectivo desta «guerra preventiva». Alegadamente conduzida contra o regime ditatorial de Saddam Hussein, visa de facto reordenar geográfica, política e economicamente toda a Região, colocando-a sob tutela norte-americana. Não foi por acaso que o único ministério que não foi saqueado em Bagdad foi, significativamente, o Ministério dos Petróleos...

Todos os indícios apontam no sentido oposto: que, de facto, o objectivo é reconstruir rapidamente o Iraque, e permitir aos iraquianos decidir livremente do seu futuro e do destino, ou da forma de exploração, a dar ao seu petróleo.
As crescentes ameaças aos países vizinhos, em especial a Síria e o Irão, e o apoio declarado à política agressiva de Sharon, que pretende exterminar o povo e as instituições palestinianas, são outros tantos sinais do carácter hegemónico da política prosseguida pela administração norte-americana, que recusa o Direito Internacional e vê nas Nações Unidas um empecilho à sua afirmação unilateral.

É impressionante como é possível dizer isto depois de os ataque verbais à Síria e ao Irão, de resto perfeitamente compreensíveis, terem não só descido de tom, como tendo também os seus autores esclarecido cabalmente que não havia qualquer intenção de agir militarmente contra estes países. Mas mais ainda quando o processo de paz no Médio Oriente parece começar a ganhar fôlego, com a Síria a rever o seu apoio ao terrorismo palestiniano, com o regime de Saddam, outro apoiante do terrorismo palestiniano, eliminado, com um novo primeiro ministro palestiniano, opositor da violência, e mais ainda depois de o próprio Sharon ter dito que Israel precisava de fazer "concessões dolorosas".
Assistimos, mesmo assim, a diligências contraditórias de envolvimento de instâncias internacionais, das Nações Unidas e suas agências à NATO e à União Europeia, sem esquecer as ONGs, para servirem de manto diáfano a cobrir a nudez forte da verdade da guerra, da ocupação e dos interesses.

Aí está. Ninguém é puro, nem mesmo as ONG... Puros mesmo, e iluminados, só mesmo os subscritores do documento, apoiantes implícitos de Saddam, novos Chomsky à portuguesa, incapazes de reconhecer erros, tamanha é a fúria anti-americana.
O Iraque não é um país livre. É hoje um país ocupado por tropas estrangeiras. Como as imponentes manifestações ocorridas em Bagdad em 18 do corrente, reclamando a retirada das tropas de ocupação anglo-americanas, bem demonstraram.

Pura retórica. Não é livre? Não, ainda não. Mas estaria mais livre e, sobretudo, com melhores perspectivas de verdadeira libertação, se o regime de Saddam não tivesse sido deposto?
Conscientes da extensão do apoio e empenhamento do Povo Português na luta pela paz, vimos, de novo, juntar a nossa voz a quantos, em Portugal e em todo o mundo, querem lutar pela preservação da paz, no respeito dos princípios da Carta das Nações Unidas;
Afirmamos a nossa oposição à ocupação militar do Iraque, defendendo a retirada das tropas invasoras e a criação, sob a égide da ONU, de genuínas condições de autodeterminação do seu povo, designadamente através do envio urgente de uma comissão de observadores de reconhecida credibilidade internacional;

Ah! Aqui atinge-se o paroxismo. Exige-se aos EUA e ao Reino Unido aquilo que eles próprios asseguraram ser sua intenção! Verdadeiramente incrível. Surrealista.
Manifestamos a nossa profunda preocupação com as intenções belicistas das autoridades norte-americanas contra países vizinhos do Iraque, em especial a Síria e o Irão, denunciando também o aproveitamento da situação que as autoridades de Israel têm feito para prosseguirem a sua política agressiva contra a população e as instituições palestinianas;

Tememos uma crescente globalização da guerra e do terrorismo, que siga a par e passo com práticas de condicionamento pela «lei do mais forte» e com inaceitáveis restrições às liberdades e garantias individuais;

Rejeitamos as crescentes ameaças à livre expressão do pensamento e o incremento da manipulação generalizada da informação, ao serviço de uma visão imperialista e unilateral;

Apelamos aos Governos _ a todos os Governos _ para que respeitem a vontade de paz e justiça manifestada em todo o mundo, abandonando as políticas armamentistas que esbanjam recursos vitais para a luta contra a pobreza e a iniquidade;

Belas palavras... Mas que em nada contribuem para a paz e a segurança. Desarmarmo-nos? Os próprios EUA? E a Coreia do Norte? Alguém tem alguma dúvida o que aconteceria se os EUA não estivessem lá para conter o criminoso ditador?
Somos pelo reforço efectivo da Organização das Nações Unidas e pela sua exclusiva legitimidade em termos de Direito Internacional.

Também eu. Mas, ao contrário dos subscritores, só volto a acreditar numa Nações Unidas totalmente reformadas, sem ditaduras nem regimes totalitários, sem Líbias e Cubas em Comissões dos Direitos Humanos.
Exigimos o funcionamento autónomo das instâncias europeias face à crescente ameaça hegemónica dos EUA;

Aí está. O que os subscritores pretendem é afastar os EUA, perigoso estado nazi que ameaça a democracia global, incluindo a democracia do regime de Saddam Hussein...
Acreditamos na solidariedade entre os povos e defendemos uma Cultura da Paz, assente no primado dos direitos e garantias democráticas e no diálogo de civilizações;

Apelamos, em consequência, ao lançamento de novas iniciativas, amplas, diversificadas e plurais em favor da paz e contra a guerra e a ocupação do Iraque.

A irresponsabilidade é total. Se os EUA e o Reino Unido saissem hoje do Iraque, o resultado seria trágico. Os subscritores do manifesto foram encurralados pela realidade. Não tinham saída verdadeiramente airosa. Ou apoiavam uma ocupação temporária do Iraque, necessária até à construção de um governo interino e até às primeiras eleições, o que a seus olhos corresponderia a legitimar o ataque, ou lutavam por uma desocupação imediata do Iraque, o que lhes permitiria salvar a face sem correrem qualquer risco de que semelhante tragédia viesse a acontecer. Optaram pela última, hipocritamente.

Todos os dias matam a poesia. diz Manuel Alegre, matando-a ele mesmo num só verso.
O dedo na ferida Excertos de artigos de Al-'Afif Al-Akhdar, um tunisiano sediado em Paris, publicados no liberal Elaph, traduzidos e divulgados pelo fundamental MEMRI. O primeiro é escrito do ponto de vista dos mísseis que cairam sobre Bagdad. O segundo artigo são as suas opiniões acerca da obsessão com a vingança. Ambos são extremamente interessantes por duas razões. Em primeiro lugar, por mostrarem claramente, se é que era preciso, que existem posições moderadas e razoáveis na opinião pública muçulmana. A segunda por o autor ter sido despedido do seu jornal original, o que demonstra que essas opiniões não são bem toleradas nos média de língua árabe. Mas o melhor é mesmo ler alguns excertos:

What Did the Missiles Falling on Baghdad Tell Me?

"...All the peoples of the world are moving forward along the course of history towards globalization, a society of knowledge, and political modernization - all but you, who race in the opposite direction."

"The Eastern European countries have moved peacefully and with lightning speed from murderous Stalinist totalitarianism to democracy, and from economic backwardness to continuing economic growth that amazed even the most optimistic predictions. As for you, you're moving in rapid steps from backwardness into sub-backwardness, and from poverty into sub-poverty. As population growth and weapons acquisitions increase, economic growth and education decline into degradation. The peoples of mankind are governed by the law of progress, while you are governed by the law of regression."

"You replaced the dictatorship of the Shah for the theocracy of [Ayatolla] Khomeini, from the pores of whose skin the blood was dripping. In Sudan, Hassan Al-Turabi - nicknamed by our media 'the pope of world terror' - turned against Al-Sadeq Al-Mahdi's elected government after he was toppled by free elections, and established on the ruins [of Al-Mahdi's government] a militaristic and bloody Islamic regime, unique of its kind in the annals of this country, that set it back decades in all spheres."


The hysteria of vengeance on the West and on its protégée Israel has disastrous results - for example, the Arab traditional elite's phobia of Western modernism. The Western imperialism that followed this Western modernism crippled this elite, depriving it of the ability of rational statesmanship. [Statesmanship] that includes [the adoption of] constructive [Western] innovation; setting realistic aims; playing the political game rationally; realistically interpreting the [global or regional] balance of power and harnessing [this interpretation] in the decision-making [process]; managing crises sensibly by peaceably bringing the conditions of its solution into fruition; and, finally, developing decision-making procedures.

The policy of vengeance that prevails today, especially among the influential elites in Palestine, Syria and Iraq, has banished any rational policy from their domestic decision making. In their domestic policy, these elites dismiss all public discussion. In their foreign policy, they refuse to negotiate. This is how these elites increase the likelihood of implosion [i.e. domestic strife] and war. It [also] explains their careening from one domestic outbreak [of violence] into the next, and from one destructive war into the next, much fiercer war.

[...]

The 'all or nothing' policy was behind [Jerusalem's Grand Mufti] Haj Amin Al-Huseini's rejection of the Peel Commission [1937] [decision] to grant the Palestinians 80% of the land of Palestine, and of the 1947 UN resolution to grant the Palestinians 45% of Palestine. This policy also motivated Hafez Al-Assad, at the end of the summit conference with president Clinton in 2000, to refuse [the offer to] regain the Golan Heights except for 200 meters on the eastern bank of the Sea of Galilee, claiming that when he was in the army, he used to wade and fish in the lake! And what was the result? Great difficulty for his successor in regaining even a single meter in the foreseeable future, save for concessions that the Israeli leadership only ever dreamed of.

The cult of arming with WMD drove Saddam Hussein into delirious... decisions. [Such as the decisions] to strike the Kurds with chemical weapons; shoot tear gas at demonstrators - [tear gas] produced from aflatoxins that cause liver cancer... as revealed by Saddam's former scientific advisor Dr. Hussein Al-Shahrastani; attack Iran with chemical weapons; invade Kuwait; in addition to wasting - over 35 years - his country's material and human resources on the altar of his vengeful obsession and insane passion for martial victory.

[...]

This kind of suicidal policy was also behind Yasser Arafat's unexpected shift from promising negotiations to futile armed struggle and Intifada, that has proven no less futile."

And why is that? It was because Chairman Arafat envied Hizbullah's success at 'expelling' the Israeli army from the Israeli security zone [in Lebanon]. Overnight, he decided to shift from negotiating with to expelling the occupying Israeli army, and unilaterally declaring a fully sovereign Palestinian state without [paying] the price of recognizing Israel - as Egypt and Jordan had already done. And what was the outcome of this vengeful and suicidal decision? Unprecedented self-punishment: The occupying army [Israel] returned to 42% of the territories liberated through negotiation.

By the same logic, Chairman Arafat turned down president Clinton's proposal to regain 97% of the occupied territories, with a promise of $40 billion to resettle the Palestinian refugees within the promised Palestinian state. And what was the outcome of this decision, which was in disregard of any consideration of Palestinian national interest for establishing a homeland and a lasting state? The outcome is that Arafat and his people are today in grave danger.

[...]

The last 'hero' of the Arab and Islamic nation, the Wahabbi terrorist Osama bin Laden, wanted to avenge his Arab and Islamic nation on the 'Crusaders' by attacking New York and Washington, D.C. The Arabs and the Muslims, both elites and masses, believed in him and acclaimed him. And what was the result? The complete opposite: The U.S. invaded Afghanistan and expelled bin Laden and his patrons, the Taliban, from the country, with determination to uproot them. In addition, our 'hero' [bin Laden] provided the neoconservatives in the American administration the chance they longed for to implement their geopolitical vision: to redefine and reorganize their priorities independently of their European allies. Abandoning the formalities of international law - which was for a long time a shield for the 'oppressed ones,' of whom bin Laden was the self-appointed spokesman - put an end to the prospects of the emergence of an economically and militarily unified Europe as [another] global pole, [a vision] of which the Arabs dreamed night and day."
Um mandarim que denuncia mandarins Keith Windschuttle assina na New Criterion um dos melhores artigos sobre Noam Chomsky dos últimos tempos. A história do seu apoio a regimes facínoras é edificante.
Recomendo as Notes & Comments da última New Criterion. Ataque cerrado à BBC e um elogio à blogosfera.

2003-05-04

André Freire faz uma excelente análise da proposta de Lynce de redução de vagas nas universidades do litoral. Recomendo a leitura.
Documento de Orientação para a Avaliação, Revisão e Consolidação da Legislação do Ensino Superior Na globalidade, o documento parece apontar na direcção certa, mas parece-me demasiado tímido. Algumas observações:

  1. A minha primeira observação diz respeito à vontade expressa pelo documento de atingir consensos. Sinceramente, não julgo que seja esse o caminho. Os consensos levam normalmente a decisões tímidas e, muitas vezes, contraproducentes. Precisa-se de coragem e convicção para governar. Diálogo e abertura não são o mesmo que obsessão pelo consenso.
  2. Diz o documento que "o compromisso principal que se pretende garantir é o de assegurar aos estudantes, não apenas o direito à educação, mas o direito a uma educação de qualidade, que corresponda às suas expectativas e direitos." Julgo que é um erro pôr as coisas nestes termos relativamente ao ensino superior. O direito ao ensino deve terminar no secundário. O ensino superior é por natureza elitista (em termos de capacidades intelectuais). O que se deve tentar garantir é a igualdade de oportunidades no acesso à educação superior. Isso consegue-se, como já referi anteriormente, através de financiamentos directos aos estudantes que precisem e que mereçam. Fundamental é garantir a mobilidade social, e aí o principal trabalho a realizar está no ensino não-superior.
  3. "O ensino superior deve estar concebido em função do estudante, e tomar em atenção aquilo que ele pode e deve aprender, isto é, aquilo que pode e deve aprender-se." Esta frase dá uma enorme machadada na exigência que é fundamental que exista no ensino superior. Naturalmente que não se pode exigir o impossível, mas isso é tão óbvio que a presença desta frase só pode ser interpretada como significando que a exigência do ensino deve ser nivelada por baixo, de modo a que esteja ao alcance de todos os estudantes. Isso é um erro grave. Se neste momento o ensino superior já é muito menos exigente que há uns anos, que seria se o nivelamento se começasse a fazer realmente por baixo?
  4. "Neste sentido, o paradigma da aprendizagem corresponde a uma nova atitude pedagógica, que encara os estudantes como participantes activos nos processos educativos, e não apenas como consumidores passivos de ensino." Mais uma frase com múltiplas interpretações. É evidente que não há aprendizagem sem a participação activa do estudante, pelo que não deve ser a isso que o documento se refere. A participação aqui referida deve ser nos órgão de gestão da escola, particularmente nos conselhos pedagógicos, pois o documento propõe que a paridade discentes e docentes deve ser mantida. Mais uma vez é um erro grave. A participação dos estudantes nos órgão de gestão da escola deve ser consultiva. Os actuais, e absurdos, métodos e calendários de avaliação, que tão nefastos são para discentes e docentes, decorrem naturalmente da paridade actualmente existente, e são um factor considerável de atraso das nossas instituições de ensino superior.
  5. "Se, por opção constitucional, vivemos hoje numa época de autonomia das instituições de ensino superior, o Estado não pode, e não deve, abdicar de reflectir, orientar e, eventualmente, decidir estas questões." Aqui se mostra a faceta mais intervencionista do governo. A autonomia universitária é fundamental, e não é razoável que sofra ataques por parte de quem se esperava mais empenho em defendê-la do que pelos governos de esquerda. Mas talvez este governo tenha realmente pouco de liberal.
  6. A "abertura de portas à profissionalização da gestão" bem como a intenção de internacionalizar a avaliação das escolas e de deixar às escolas a responsabilidade de fixar os processos de selecção de estudantes são excelentes medidas, que se esperavam há muito tempo. Com efeito, as avaliações actuais são totalmente inúteis, não apenas porque os seus resultados não são suficientemente divulgados nem comparados, mas sobretudo pelo facto de o ambiente universitário português ser tão pequeno que não dá quaisquer garantias de idoneidade nos resultados das avaliações.
  7. O documento aponta uma série de intenções louváveis em matéria de financiamento, mas o que é facto é que as suas propostas pouco mudam relativamente ao modelo actual. O financiamento continua a ser feito no seu grosso às instituições, e só parcialmente aos estudantes. Esta timidez leva a que muitos comentadores tenham observado, com alguma pertinência, que estas propostas iriam dificultar a vida aos mais necessitados, contribuindo pois para o aumento da desigualdade de oportunidades. O problema, no entanto, não é o aumento das propinas, mas sim o facto de as propinas não serem totalmente liberalizadas, passando o estado a financiar essencialmente os estudantes, revolucionando o modelo actual de bolsas, residências universitárias (onde estão elas?), empréstimos, etc.
  8. Uma excelente medida, vinda aliás de uma proposta do tempo do governo de Guterres, é a de acabar com a contratação de docentes não-doutorados. Será uma medida verdadeiramente importante para a credibilização do nosso ensino superior. Além disso, terá um efeito secundário muito importante: acabar com os mestrados e doutoramentos que se eternizam, pois o estudante graduado não sentirá a falsa segurança de ter um emprego garantido na sua instituição.
  9. "As exigências e requisitos para a criação de cursos serão idênticas para todo o sistema de ensino superior, definidas de um modo geral e objectivo, competindo ao Estado, na sua função reguladora, verificado que seja o cumprimento das exigências decretadas, promover o registo dos cursos." Não é claro se isto significa retirar às ordens o papel que têm tido de acreditação de cursos. Se é essa a intenção, então é uma péssima ideia. De facto, o estado não pode ser regulador das suas próprias instituições. Melhor seria que estabelecesse critérios para a acreditação pelas ordens, exigindo por exemplo um mínimo de presença internacional nas comissões de acreditação.
  10. É de louvar a intenção de aumentar a responsabilidade dos reitores e presidentes, bem como dos órgão de gestão. Também é sensata a abertura a que a direcção das escolas passe a ser nominal, evitando-se a diluição de responsabilidades pelos membros de um conselho directivo.
  11. Relativamente aos conselhos das escolas, com participação da sociedade civil, o documento não propõe senão um papel consultivo, o que os poderá tornar rapidamente irrelevantes.
  12. "Os órgãos colegiais terão obrigatoriamente uma participação maioritária de docentes e investigadores doutorados no caso das universidades, e de mestres e doutores no caso dos institutos politécnicos, excepto os Conselhos Pedagógicos cuja composição entre discentes e docentes deve ser paritária." A excepção para os Conselhos Pedagógicos é uma das maiores cedências deste documento à demagogia, pelas razões que já apontei. No documento não é claro se a maioria dada aos docentes, nos restantes órgãos, é suficiente para evitar que os docentes fiquem minoritários face a uma coligação entre discentes e funcionários. A ser assim, esta medida, já de si insuficiente, de pouco ou nada servirá.
  13. "O Estado reafirma o seu compromisso em aumentar o investimento por estudante no ensino superior, assim como assegura a todos os estudantes que pretendam frequentar o ensino que não deixarão de o fazer por insuficiências financeiras." É pouco. É muito, muito pouco. É necessário um apoio muito mais efectivo a quem precisa, o que só se conseguirá deixando de financiar directamente as instituições, o que corresponde a financiar por igual todos os discentes. Sabendo-se que o perfil socio-económico dos estudantes do ensino superior é muito diferente do da sociedade em geral, só se pode concluir que o sistema actual financia mal e porcamente alguns que precisam e muitos que não precisam.
  14. As políticas de agravamento de propinas no caso de não-aproveitamento não são desprovidas de sensatez. Porém, melhor seria se não fossem as propinas a variar, mas sim o financiamento do estado ao estudante, o que só seria possível com a liberalização das propinas e com a mudança radical do peso do financiamento estatal das instituições para os estudantes. Essa mudança iria, além do mais, contribuir para uma muito maior responsabilização por parte dos estudantes, que passariam também a dar mais valor ao ensino recebido. Isso levaria inevitavelmente a uma maior exigência dos estudantes no que diz respeito à qualidade de ensino e investigação, coisa que actualmente não se verifica (com efeito, os estudantes são de uma enorme passividade relativamente as estas questões).
  15. "Que nenhum jovem que deseje frequentar o ensino superior deixe de o fazer por insuficiências financeiras." Dou o meu amén a esta frase embora clarificando a sua redacção: "Que nenhum jovem que deseje e tenha capacidade para frequentar o ensino superior deixe de o fazer por insuficiências financeiras".
Mentiras Fidelíssimas Discurso no 1º de Maio:
[Cuba] fue el primer territorio libre del dominio imperialista en América Latina y el Caribe, y el único país del hemisferio donde, a lo largo de la historia poscolonial, torturadores, asesinos y criminales de guerra, que arrancaron la vida a decenas de miles de personas, fueron ejemplarmente sancionados.
Que chamar senão assassínio aos três fusilamentos depois de julgamento sumário que ocorreram há pouco em Cuba? Que chamar, senão imperialismo, à instalação de mísseis soviéticos em Cuba, e que deram origem a um dos episódios mais perigosos da guerra fria?
El pueblo ha apoyado en masa siempre las actividades de la Revolución. Este acto lo demuestra (Aplausos).
Eis a forma de "democracia" que de Gabriel García Marquéz a Chico Buarque se aprecia: as manifestações de apoio a um ditador velho de decénios, que nunca foi sujeito a nenhuma eleição.
Cuba predicó siempre con su ejemplo. Jamás claudicó. Jamás vendió la causa de otro pueblo. Jamás hizo concesiones. Jamás traicionó principios. Por algo hace sólo 48 horas fue reelecta por aclamación (Aplausos), en el Consejo Económico y Social de las Naciones Unidas, como miembro por tres años más de la Comisión de Derechos Humanos, integrando ese órgano de manera ininterrumpida durante 15 años (Aplausos).
É verdade. Agora não é apenas a Líbia. Cuba foi reconduzida já depois das últimas prisões e fusilamentos. É lamentável que as Nações Unidas sirvam para sancionar regimes como o cubano.
¿Por qué resistimos? Porque la Revolución contó siempre, cuenta y contará cada vez más con el apoyo del pueblo (Aplausos), un pueblo inteligente, cada vez más unido, más culto y más combativo.
Com tanta certeza, porque não permite Fidel umas simples eleições?
Cuba, que fue el primer país en solidarizarse con el pueblo norteamericano el 11 de septiembre del 2001, fue también el primero en advertir el carácter neofascista que la política de la extrema derecha de Estados Unidos, que asumió fraudulentamente el poder en noviembre del año 2000, se proponía imponer al mundo. No surge esta política movida por el atroz ataque terrorista contra el pueblo de Estados Unidos cometido por miembros de una organización fanática que en tiempos pasados sirvió a otras administraciones norteamericanas. Era un pensamiento fríamente concebido y elaborado, que explica el rearme y los colosales gastos en armamento cuando ya la guerra fría no existía y lo que ocurrió en septiembre estaba lejos de producirse. Los hechos del día 11 de ese fatídico mes del año 2001 sirvieron de pretexto ideal para ponerlo en marcha.
Freitas do Amaral andará a ler os discursos de Fidel de Castro? Ou será Fidel de Castro a ilustrar-se na leitura de Freitas do Amaral? Freitas e Fidel no mesmo barco, ainda que temporariamente, é algo de verdadeiramente curioso.

E o delírio continua. Cito apenas mais um trecho:
Hoy los llamados "disidentes", mercenarios a sueldo pagados por el Gobierno hitleriano de Bush, traicionan no sólo a su Patria sino también a la humanidad.

Ante los planes siniestros contra nuestra Patria por parte de esa extrema derecha neofascista y sus aliados de la mafia terrorista de Miami que le dieron la victoria con el fraude electoral, nos gustaría saber cuántos de los que desde supuestas posiciones de izquierda y humanistas han atacado a nuestro pueblo por las medidas legales que en acto de legítima defensa nos vimos obligados a adoptar frente a los planes agresivos de la superpotencia, a pocas millas de nuestras costas y con una base militar en nuestro propio territorio, han podido leer esas palabras, tomar conciencia, denunciar y condenar la política anunciada en los discursos pronunciados por el señor Bush a los que hice referencia en los que se proclama una siniestra política internacional nazi-fascista por parte del jefe del país que posee la más poderosa fuerza militar que fue concebida jamás, cuyas armas pueden destruir diez veces a la humanidad indefensa.

Enfim. O espectável. Vale a pena ler pelo menos uma vez um discurso de Fidel Castro, para se perceber, ou melhor, para confirmar quão lamentáveis são as defesas do seu regime feitas por alguns órfãos da União Soviética.
Por Cuba? Uma colecção de intelectuais assina uma carta (Por Cuba, A la Conciencia del Mundo) onde se condena o ataque ao regime de Saddam Hussein e onde se avisa para uma invasão de Cuba, supostamente em preparação:
La invasión a Irak ha tenido como consecuencia el quebranto del orden internacional. Una sola potencia agravia hoy las normas de entendimiento entre los pueblos. Esa potencia invocó una serie de causas no verificadas para justificar su intromisión, provocó la pérdida masiva de vidas humanas y toleró la devastación de uno de los patrimonios culturales de la humanidad.
Nosotros sólo poseemos nuestra autoridad moral y desde ella hacemos un llamado a la conciencia del mundo para evitar un nuevo atropello a los principios que nos rigen. Hoy existe una dura campaña en contra de una nación de América Latina. El acoso de que es objeto Cuba puede ser el pretexto para una invasión. Frente a esto, oponemos los principios universales de soberanía nacional, de respeto a la integridad territorial y el derecho a la autodeterminación, imprescindibles para la justa convivencia de las naciones.

Esta carta não é "por Cuba". É por Fidel, por um dos últimos redutos do comunismo, e pelo comunismo em si mesmo. Assinam-na, entre outros, Gabriel García Márquez, Oscar Niemeyer, Luis Sepúlveda, Chico Buarque e Noam Chomsky. Fazem-me lembrar Sartre, outro intelectual que não se coibiu de apoiar activamente o regime soviético. É profundamente triste que gente inteligente e artistas excelentes fechem os olhos à infâmia de regimes totalitários.

2003-05-03

O que é isto? Um blogue mantido ainda mais intermitentemente que O Intermitente, com ideias liberais e libertárias e desabafos infames do vosso picuinhas de serviço, Manuel Menezes de Sequeira. Participação esporádica do Rui Lopes, dono de muita ponderação e bom-senso, e que por isso mesmo discorda bastas vezes das minhas picuinhices. Somos ambos docentes. Agradecemos comentários no blogue ou para Picuinhices@yahoo.com.br. Replicaremos logo que possível.

2003-05-02

Quocientes Também eu fiz os testes do Guardian. Quociente de Empatia: 18. Quociente de Sistematização: 45. Ver o artigo para mais explicações. Segundo eles isto é compatível com o Sindroma de Asperger. Hmmm... Deve ser por isso que tenho um blogue...
Lula e a religião, ou como a religião é perigosa em Bush e benigna em Lula Roberto da Matta, no DN, comenta uma afirmação de Lula:
Sobre isso, Lula falou: «Se Jesus Cristo precisou ser crucificado para salvar a humanidade, por que cada um de nós não coloca um pouco do nosso sacrifício para salvar este imenso Brasil, que tanto precisa de nós?» Em qualquer outro político isso soaria como pura demagogia, mas pela boca do Lula a frase contém um sopro de uma religiosidade aberta, boa como exemplo de que fazer política é mais do que ser malandro e tirar partido de tudo.

Ah! Que poético! As mesmas palavras vindas de Bush não seriam apenas demagogia: evocariam imediatamente a inquisição e as cruzadas, a confusão entre estado e a religião, etc. Pensem, façam-nos esse favor, pensem...
Uma tragédia nos direitos humanos O Valete Frates divulgou esta notícia, onde se comenta a recente reeleição de Cuba para a Comissão dos Direitos Humanos das Nações Unidas. Cuba, Líbia... Que tal elegerem o Kim Jong Il para presidente da Comissão?
The Crisis of Islam: Holy War and Unholy Terror de Bernard Lewis é uma curta e sintética introdução ao Islão e à crise que atravessa hoje em dia. Quando o terminar colocarei aqui alguns extractos.
Paradise and Power Não queria deixar uma impressão negativa do livro de Robert Kagan. É um livro verdadeiramente interessante. A ideia que apresenta, e que já foi amplamente debatida desde a publicação do artigo Power and Weakness, é muito simples mas nem por isso menos certeira: o pacifismo europeu deve-se mais à fraqueza do que a convicções profundas. Alguns extractos:
In what may be the ultimate feat of subtlety and indirection, [the europeans] want to control de behemoth by appealing to its conscience.

[...]

Americans do not argue, even to themselves, that their actions may be justified by
raison d'état. They do not claim the right of the stronger or insist to the rest of the world, as the Athenians did at Melos, that "the strong rule where they can and the weak suffer what they must." Americans have never accepted the principles of Europe's old order nor embraced the Machiavellian perspective. The United States is a liberal, progressive society through and through, and to the extent Americans believe in power, they believe it must be a means of advancing the principles of a liberal civilization and a liberal world order.

[...]

This enduring American view of their nation's exceptional place in history, their conviction that their interests and the world's interests are one, may be welcomed, ridiculed, or lamented. But it should not be doubted.
Ingenuidade de Robert Kagan Robert Kagan, no seu interessante "Paradise and Power", diz a páginas tantas que os europeus "wept and waved American flags" após o 11 de Setembro. Que mostraram "heartfelt sympathy". É um enorme erro de perspectiva, particularmente para alguém que conhece bem a Europa. A maior parte das lágrimas europeias, com excepção das inglesas, foram lágrimas de crocodilo, totalmente hipócritas.
As bases na Arábia Saudita e o roteiro para a paz As bases dos EUA na Arábia Saudita irão ser abandonadas pelos EUA e as negociações vão avançar entre a Palestina e Israel, contra todas as espectativas dos nossos anti-americanos de serviço. Que pena... Menos dois motivos para acusar os EUA, não é? Puxem pela cabeça, que com certeza encontrarão outros motivos. Porque o que é preciso é ser contra. Contra os EUA, claro. Não, também não precisam de reconhecer que o clima propício às negociações foi criado pela resposta intransigente de Israel à política de atentados de Arafat, que deixou claro que o terrorismo não leva nem pode levar a lado algum, e pela destruição do regime de Saddam.

2003-05-01

Os marines Todos os dias os marines matam civis no Iraque. É preciso tirá-los de lá rapidamente, averiguar as circunstâncias das matanças e punir os responsáveis. Precisa-se urgentemente de polícia no Iraque, pois os marines são máquinas de matar, fundamentais numa guerra, perigosos em paz. Assim não se vai pelo bom caminho para a paz e a democracia no Iraque.
As férias Todos os anos a marcação dos calendários escolares no ensino superior é uma saga. Como fazer para encaixar, já não digo 15 semanas, mas 14 semanas de aulas por semestre no meio de um mar de férias, semi-férias, feriados e pseudo-feriados, tendo ainda a obrigação de deixar espaço para três épocas de avaliação em cada semestre, com no mínimo duas semanas cada? Que fazer quando, tendo-se sugerido que se eliminem as chamadas férias do Carnaval, nos respondem que terça-feira é feriado e segunda-feira o governo, com toda a certeza, dará tolerância de ponto? Que se faz num país onde há feriados a 25 de Abril, 1 de Maio, 10 de Junho, 5 de Outubro e 1 de Dezembro, para só falar dos feriados não-religiosos, e onde se criou na prática um feriado que nunca existiu, o Carnaval? Não se faz nada. Desiste-se. Porque os estudantes "têm direito às férias", porque os estudantes "têm direito a exames", porque os estudantes "têm direito a um intervalo mínimo entre duas provas". O resultado de tudo isto é que os estudantes têm o "direito" de não estudar, e os docentes o "direito" de não ensinar nem investigar. O resultado é também uma cultura de lançamento do barro à parede, pois com tantas épocas nalguma há-de colar, nem que seja por exaustão dos docentes. Noutros países não é assim. Mas para quê argumentar? Não sabemos nós que em Inglaterra ou nos EUA os estudantes não têm direitos? Ou não fossem esses países "fascistas".
A feira As velhas e tradicionais feiras, salvo raras excepções, ou deixaram de se realizar, ou abandonaram o seu aspecto sórdido e insalubre, tendo passado a realizar-se em recintos preparados para o efeito. Uma das excepções é a feira que se realiza anualmente, a 1 de Maio, na Alameda, em Lisboa. Essa feira é relativamente recente. Realiza-se apenas há umas poucas dezenas de anos. Nesse dia, para além dos comes e bebes, as barraquinhas vendendo todo o tipo de trastes envolvem a Alameda e prolongam-se Av. Almirante Reis abaixo, chegando, em direcção a Norte, a invadir troços consideráveis da Av. de Roma. A porcaria, os restos, o lixo, sobrepõem-se às marcas que os feirantes fazem no chão com semanas, por vezes meses de antecedência, para marcarem o seu lugar. É um triste espectáculo, esses rectângulos mal-desenhados, com os nomes dos seus "proprietários", que se vão lentamente esbatendo ao longo do ano, para serem reavivados no ano seguinte. Ainda assim, os feirantes não confiam no respeito mútuo pelos retalhos marcados com tanto afinco e antecedência: acampam, comem e fazem as suas necessidades no meio da rua, desde o dia anterior à feira. Não se podem correr riscos... E assim os Lisboetas vão convivendo com esta feira. Aparentemente, no meio da feira, das bifanas, das sardinhas, dos bailaricos, dos algodões e das contrafacções dos ciganos, fazem-se uns discursos que são todos os anos iguais, desde que a feira se realizou pela primeira vez, e que parecem ter como pretexto o dia do trabalhador. Porque será que escolhem a feira para tais manifestações? É um mistério.

2003-04-30

Não posso ir a um país mais civilizado sem sentir um choque ao voltar a casa. Será impossível organizarmo-nos? Será que, como alguns defendem, estamos condenados, não por razões genéticas, mas sim culturais, à total ineficiência? À maior das mediocridades? Recuso-me a acreditar em tal coisa, mas confesso que há dias em que me apetece emigrar.

2003-04-22

E despeço-me dos (inexistentes?) leitores desde miserável blogue. Inglaterra espera-me... Na semana que vem regresso à bloguística.
Mais de Oliver Stone sobre Fidel Castro. Uma pérola:
Depois de ter frisado que o líder cubano é, aos 75 anos, «o último grande revolucionário» do nosso tempo, «um mito» que «se transformou num sábio a cujas lições devíamos prestar atenção» e «uma das personagens fundamentais do século XX», Stone passou a responder às críticas de alguns jornalistas, que o confrontaram com o facto de Fidel Castro ser um ditador instalado no poder há mais de 40 anos e Cuba não saber o que são eleições livres.

«Não há eleições livres em parte nenhuma do mundo, nem nos EUA. Não há nunca eleições livres sem uma imprensa livre. Ou querem ignorar as ligações da grande imprensa com o grande capital, onde quer que seja no mundo?», ripostou o realizador, negando que Comandante seja «uma obra de propaganda» e que o retrato que faz de Fidel seja totalmente favorável. Segundo Stone, para os americanos, «Fidel é uma caricatura, um barbudo a fumar charutos». E acrescentou: «Eu quis retratar a figura humana. E não precisamos de concordar com as ideias dele para perceber que é um homem moral.»

Eurico de Barros termina a notícia lapidarmente:
A verdade é que em Comandante, Oliver Stone evita pôr perguntas muito incómodas a Fidel Castro, acabando por se render ao habilíssimo discurso do ditador. Stone frisa que Castro nunca lhe pediu para parar de filmar nem recusou responder a qualquer pergunta durante as muitas horas que dialogaram _ um «direito» que o autor de Salvador lhe deu. Fidel Castro nunca precisaria de o invocar, porque Comandante é um exercício de autocensura por parte de Oliver Stone.
A carta de Saramago Melhor do que nada...
Artistas? Intelectuais? Não merecem esse nome, os que publicaram em Cuba uma mensagem de apoio a Fidel de Castro pelas prisões de fusilamentos da semana passada. Alguns extractos:
En los últimos días, hemos visto con sorpresa y dolor que al pie de manifiestos calumniosos contra Cuba se han mezclado consabidas firmas de la maquinaria de propaganda anticubana con los nombres entrañables de algunos amigos. Al propio tiempo, se han difundido declaraciones de otros, no menos entrañables para Cuba y los cubanos, que creemos nacidas de la distancia, la desinformación y los traumas de experiencias socialistas fallidas.

Lamentablemente, y aunque esa no era la intención de estos amigos, son textos que están siendo utilizados en la gran campaña que pretende aislarnos y preparar el terreno para una agresión militar de los Estados Unidos contra Cuba.

Nuestro pequeño país está hoy más amenazado que nunca antes por la superpotencia que pretende imponer una dictadura fascista a escala planetaria. Para defenderse, Cuba se ha visto obligada a tomar medidas enérgicas que naturalmente no deseaba. No se le debe juzgar por esas medidas arrancándolas de su contexto.

Resulta elocuente que la única manifestación en el mundo que apoyó el reciente genocidio haya tenido lugar en Miami, bajo la consigna "Iraq ahora, Cuba después", a lo que se suman amenazas explícitas de miembros de la cúpula fascista gobernante en los Estados Unidos.

Son momentos de nuevas pruebas para la Revolución Cubana y para la humanidad toda, y no basta combatir las agresiones cuando son inminentes o están ya en marcha.

Hoy, 19 de abril de 2003, a cuarenta y dos años de la derrota en Playa Girón de la invasión mercenaria, no nos estamos dirigiendo a los que han hecho del tema de Cuba un negocio o una obsesión, sino a amigos que de buena fe puedan estar confundidos y que tantas veces nos han brindado su solidaridad.

Para que os nomes dos autores não sejam esquecidos:
Alicia Alonso (directora do Ballet Nacional de Cuba)
Miguel Barnet (investigador e director da Fundação Fernando Ortiz)
Leo Brouwer (compositor)
Octavio Cortázar (realizador)
Abelardo Estorino (dramaturgo)
Roberto Fabelo (pintor)
Pablo Armando Fernández (poeta)
Roberto Fernández Retamar (poeta)
Julio García Espinosa (realizador e guionista)
Fina García Marruz (escritora, poeta, investigadora literária)
Harold Gramatges (pianista e compositor)
Alfredo Guevara (realizador)
Eusebio Leal (historiador)
José Loyola (flautista, compositor e musicólogo)
Carlos Martí (Presidente da União de Escritores e Artistas de Cuba)
Nancy Morejón (poeta)
Senel Paz (escritor)
Amaury Pérez (músico)
Graziella Pogolotti (crítica de arte)
César Portillo de la Luz (guitarrista e compositor)
Omara Portuondo (cantora)
Raquel Revuelta (actriz)
Silvio Rodríguez (músico)
Humberto Solás (realizador)
Marta Valdés (cantora)
Chucho Valdés (realizador)
Cintio Vitier (escritor)
As Contas Trocadas Segundo o director adjunto do Serviço de Música da Fundação Gulbenkian, Rui Vieira Nery, apesar de o cachet dos artistas diminuir com a repetição dos concertos, é preferível não os repetir. O argumento é que "em teoria, estamos a reduzir os custos fixos da deslocação, mas com as despesas acrescidas nunca chega ao limiar entre equilíbrio [receita?] e despesa. Isto é, cada espectáculo adicional é um buraco financeiro". O argumento é absurdo. Como é evidente, poder-se-ia aumentar o número de repetições, reduzindo o número de diferentes espectáculos e satisfazendo a mesma quantidade de público com menos prejuízo. Talvez até se conseguisse atingir maior quantidade de público com o mesmo prejuízo de hoje. Claro que isso implicava reduzir a diversidade de espectáculos, mas julgo que poderia valer bem a pena, sobretudo se a intenção for chegar ao grande público.
José Miguel Trigoso, secretário-geral da PRP, diz no Público de hoje que auditorias aos projectos rodoviários vão evitar a construção de "estradas da morte", como o IP4 ou o IP5. E os responsáveis por essas estradas? Onde estão eles? Porque não são acusados de homicídio por negligência? As auditorias são uma boa ideia, mas se não forem acompanhadas pela indispensável responsabilização a posteriori dos técnicos, de nada servirão.
Notas Pascais de José Manuel Fernandes. A não perder:
Apetece-me antes pedir a maturidade a idade adulta. Pedir que se compreenda que o homem, as nações, o mundo, não são perfeitos, e que tudo leva o seu tempo. Afinal a II Guerra do Golfo começou há menos tempo do que aquele que durou a primeira, do que durou a guerra do Kosovo ou a operação no Afeganistão. E, até agora, causou muito menos baixas. Mais: já permitiu a livre expressão das diferenças religiosas e políticas. Uma grande liberdade na movimentação dos jornalistas. E as inevitáveis divergências. Tenham pois calma e releiam as previsões catastrofistas que fizeram há apenas um mês. Não sejam adolescentes: aprendam com os disparates que disseram e escreveram. Como é Páscoa, vou ser piedoso: deixo o trabalho de memória desses disparates aos seus autores.
As bases no Iraque O New York Times, repetido depois pelo Público, anunciam a intenção americana de instalar quatro bases militares de longo prazo no Iraque. Donald Rumsfeld negou já a notícia enfaticamente:
``Obviously there will have been significant changes. I would personally say that a friendly Iraq that is not led by a Saddam Hussein would be a reason we could have fewer forces in the region, rather than more -- I mean, just logically.''

O New York Times no seu melhor.
As Lágrimas da Liberdade Impressionante relato de uma visita ao mais pobre dos bairros de Bagdad, Al-Mahdi. De Paulo Moura, no Público. Ou um repórter que não soube – ninguém saberia – ser um frio observador da infâmia.

2003-04-21

Karbala Centenas de milhar de peregrinos dirigem-se para Karbala, lugar sagrado para os Shiitas. A peregrinação estava proibida há 35 (?) anos pelo regime de Saddam Hussein. A grande maioria desses peregrinos manifesta-se livremente contra a presença dos norte-americanos no Iraque, como nunca pôde fazer sob a ditadura de Saddam Hussein. É compreensível e é, até certo ponto, um bom sinal. De facto, todos desejamos que as tropas possam sair tão rápido quanto possível. Mas não será um pouco... cedo demais? Esta impaciência pode ser mau sinal. Talvez demonstre a vontade de muitos de impor um regime islamista no Iraque. Esperemos que não e que por entre as manifestações haja gente suficiente com bom-senso para perceber que criar um governo interino para o Iraque demorará algum tempo. Mas algumas declaração revelam uma violência latente que não é bom augúrio:
No início a nossa oposição à ocupação estrangeira será exprimida por meios pacíficos. As pessoas tem apenas armas ligeiras, nada comparável à potência americana. Mas se a certo ponto a não-violência não der resultados, então decidiremos o que fazer.

2003-04-20

Surrealismo automático
...na antemente de sol dourada de jantava, esfolega Carlos da célula, alguma cada instante, falou do velha de botoeira... Castro Gomes. Depois animada, com aquela sorte, apenas ornara queixou calor ser feridade novo a soirée aconteve:
- Aí estão?
Ela só devoção indo eles em que cavalam no jaqueta fechada. E ninguém aludi a uma horror, um vago chapéu na Madeiro acabaria porém a tia em Santa lassificante. E agora, o Euzébio Silva, o banco na libras sonoros à quinta.
- Este Ega - e a epidemia, rec...

...na antes de hotel. No largo monogramas. E como eram um rendez-vous, chorando o braços, sorrisos alemães, no Brasil. Ora a Sr.ª Adélia, grulhavam, a sabia o Sr. Domingo envolvido num deslumbrado sobrecasaca mal acordava a ideia as feri-lo-hia, e abraço!
Craft já a impressionou-se aos seus vestia-se abanca, nervosamente, apanhou a portão onde morte. O avô não a tinha o estilo, deviam permanecera para sempre desejo seu relevo, enfureceu a Marinha menos: "O deus belos cada praça, de legenda, e des...

("Textos" gerados usando a técnica descrita no artigo seminal da teoria da informação, de Claude Shannon. Estatísticas do português obtidas a partir de "Os Maias".)

2003-04-19

Absurdo Os vizinhos do Iraque reuniram-se na Arábia Saudita. Um relato no Times of Oman:
“This requires the withdrawal of foreign forces in order to enable the Iraqi people to choose their government in full freedom. Moreover, the United Nations must play an essential role” in Iraq, he said. Maher said the countries represented at the meeting — host Saudi Arabia, Iran, Jordan, Kuwait, Turkey and Syria, all neighbours of Iraq, in addition to Egypt and current Arab League chair Bahrain — hoped US and British forces would pull out of Iraq “as soon as possible”. He said none of the participants at the meeting could live with a military government in Iraq and the Iraqi people should already have been engaged in picking their own government.

“We call on the occupying authority, which we hope will withdraw from Iraq as soon as possible, to quickly put in place an interim government with a view to putting in place a constitutional government,” Prince Saud said.

“Iraq’s territory and wealth belong to Iraqis,” he said, adding that the United Nations must play a key role in the country.

Tudo o que disseram já foi dito antes por Bush e Blair, com excepção do papel das Nações Unidas. Estes encontros destinam-se mais a consumo interno do que propriamente para contribuirem alguma coisa para a resolução do problema iraquiano. Isso é evidente quando dizem que "the Iraqi people should already have been engaged in picking their own government". Tendo em conta que o regime de Saddam caiu há uma semana, não se vê como seria possível ter já havido eleições...
As Nações Unidas não vão longe Uma resolução com uma crítica firme às detenções de dissidentes em Cuba foi rejeitada na Comissão dos Direitos Humanos das Nações Unidas, tendo sido aprovada uma resolução bastante mais branda. Ainda assim, o Brasil e a Argentina abstiveram-se (a Venezuela votou contra). Cuba, naturalmente, regozijou com o resultado. A história na CBS News. Não esquecer que a comissão é presidida pela Líbia.

2003-04-18

A pedido da União dos Blogues Livres seguem mais resultados dos vários testes políticos disponíveis na webosfera:
The Student Center Political Test: Moderate/Independent
The Political Quiz Show: 24 pontos (George Bush)
US Party Matchmaking: Libertarian Party (62%)
Mentiras? É bom ter Miguel Sousa Tavares de volta ao Público, pois fazem-nos falta bons pensadores, sem papas na língua e com espírito independente. Dito isto, não posso deixar de comentar algumas das suas afirmações:
Nós não podemos aceitar o sofrimento de Ali, da mesma forma que não aceitamos o sofrimento das vítimas da barbárie do 11 de Setembro. Nós não podemos aceitar o terror como resposta ao terror porque não podemos aceitar que o sofrimento dos inocentes seja uma forma legítima de guerra, em Manhattan ou em Bagdad.

Será o que parece? Estará realmente Miguel Sousa Tavares a dizer que um erro num bombardeamente é equivalente a ganhar o controlo de um avião comercial pejado de passageiros e espetá-lo contra um edifício cheio de população civil? A guerra equivale-se ao terrorismo, para ele?
Isso significa que, em nome dos valores em que acredito e da civilização a que pertenço, eu não aceito o terrorismo, nenhuma forma de terrorismo: o muçulmano ou árabe, o israelita ou americano. Não aceito a fé religiosa que manda matar, ou com aviões desviados contra as cidades ou com "tomahawks" despejados do céu, em nome de Alá, de Jeová ou do pretenso Deus cristão que inspira aquela gente perigosa que se apoderou do Governo dos Estados Unidos.

As dúvidas dissipam-se. Para Miguel Sousa Tavares é tudo o mesmo: fundamentalismo islâmico e a religiosidade de George W. Bush, um ataque terrorista e uma guerra a um regime despótico e assassino.

Mais à frente Miguel Sousa Tavares elenca as supostas mentiras "dos que temos como democratas":
E nós não podemos aceitar que os que temos como democratas nos mintam, sem vergonha. Que nos mintam sobre a ameaça terrorista do Iraque, que nos mintam sobre as suas armas de destruição maciça,

Relativamente às ligações à Al-Qaeda, é verdade que os indícios eram, no mínimo, pouco convincentes. Mas o apoio ao terrorismo palestiniano era bem conhecido, nomeadamente quanto aos subsídios dados às famílias de bombistas suicidas. Quanto às armas de destruição em massa, é elucidativo ouvir o que Hans Blix tem para dizer sobre o assunto (desta vez extraído de uma entrevista publicada na revista Actual, do Expresso):
E quer regressar [às inspecções]?
Sim, claro. Esse é o nosso trabalho. Ninguém está mais curioso do que nós quanto às armas de destruição maciça no Iraque.
[...]
Considera que as armas de destruição maciça eram razão suficiente para se ir para a guerra?
(Pausa prolongada) Penso que com uma autorização do Conselho de Segurança teria sido justificação suficiente para uma intervenção armada, sim. No fim de contas, o Iraque violou um tratado de não proliferação e também não colaborou como devia no cumprimento da Resolução 687.

Mas Miguel Sousa Tavares continua:
que nos mintam sobre a população civil usada como escudos pelo exército iraquiano,

Aqui tem razão. Não me parece que isso tenha acontecido.
que nos mintam sobre "os milhares de civis" abatidos a tiro pelas milícias iraquianas quando pretenderiam fugir de Bassorá,

Não me lembro de ninguém ter falado em milhares de civis abatidos nestas circunstâncias. Referiu-se o incidente, que se receava poder generalizar-se mas que acabou por ser pontual.
que nos mintam sobre os prisioneiros de guerra da coligação supostamente torturados e abatidos à queima-roupa e que afinal aparecem libertados e sem maus tratos alguns,

A administração americana lançou um aviso forte a esse respeito, relativamente à exibição televisiva dos prisioneiros de guerra, mas não me lembro de ter afirmado nunca que tinham havido torturas. Referiu-se a certa altura que algumas mortes de soldados americanos pareciam ter correspondido a execuções. O assunto não voltou a ser referido, pelo que neste ponto Miguel Sousa Tavares tem aparentemente razão.
que nos mintam sobre o respeito que lhes merece a liberdade de imprensa e depois bombardeiem sem pudor as estações de televisão que lhes contrariam a propaganda,

A mistura entre o ataque às emissões da televisão iraquiana, correia de transmissão de um regime totalitário, e ao Hotel Palestina, presumivelmente devido a um erro, é pouco honesta.
que nos mintam quando prometem levar ao Iraque a liberdade e a democracia e depois lhes pretendam impor dirigentes fantoches sem qualquer credibilidade interna e chefiados por um general americano que também fornece a componente essencial das bombas que mataram os que ele agora pretende administrar,

Aqui Miguel Sousa Tavares antecipa-se à realidade. Estão neste momento a decorrer as conversações sobre o governo interino do Iraque. Esperemos para ver.
que nos mintam quando prometeram levar água, comida e remédios ao Iraque e afinal se constata que não tinham qualquer plano para assistir as vítimas da guerra que desencadearam

Começaram já a desembarcar equipamento e medicamentos em alguns hospitais de Bagdad. Tudo leva a crer que a situação começa a estar sob controlo. Recordo que a guerra começou há menos de um mês...
e que, para além da segurança dos poços de petróleo, nada mais os preocupava e só a pressão do escândalo mundial os vai fazer finalmente e relutantemente ocuparem-se do país que devastaram.

Não é verdade. Essa intenção foi manifestada desde o início. É verdade que cometeram um erro indesculpável ao não controlar as pilhagens em Bagdad, mas de resto parecem estar tentar ocupar-se do Iraque e da sua reconstrução.
Que nos mintam quando prometeram levar ao Iraque a paz e o progresso e tenham deixado instalar o caos, a anarquia e as sementes da guerra civil entre nações e tribos.

Quanto ao caos e à anarquia, tem razão, embora o problema tenha já sido em grande medida resolvido. As sementes da guerra civil, admitindo que existem, já lá estavam antes da intervenção. Temos de esperar para ver como e se conseguirão impedir que essas sementes acabem por germinar.
Nós não podemos aceitar tanta mentira sem remorso, tanta irresponsabilidade, tanta ignorância, tanto aventureirismo arrogante. Como explicar a todos os milhares de Alis do Iraque que as mortes, o sofrimento, a destruição, as pilhagens, tudo valeu a pena em troca de se terem livrado de Saddam? Como explicar a esse miserável povo, "liberto" pelo massacre aéreo, que a "nossa" vitória é também a vitória deles?

Recordo que o "massacre" foi de alguns milhares de civis, que não foram alvejados propositadamente. É necessário manter os números em proporção. Houve muito mais vítimas do que o desejável, mas muito menos do que se receava. Ninguém pode dizer que estas mortes se justificaram. Mortes de civis numa guerra não se justificam. Quanto a mim o que se justificou foi o ataque em si, que de resto foi feito na sua generalidade com tanto cuidado quanto é possível numa guerra.
As Reacções do Costume No Público Última Hora referem-se as reacções dos estudantes às propostas governamentais de aumentar as propinas até ao limite de 770 € anuais, de penalizar os chumbos e de reduzir o peso dos estudantes nos órgãos de gestão das escolas superiores:
Em entrevista ao "Expresso", o ministro Pedro Lynce fala de um novo regime de propinas, com um valor mínimo ainda não definido, mas que poderá ser superior aos 350 euros que os estudantes pagam actualmente, e um valor máximo de 770 euros anuais, a entrar em vigor já no próximo ano lectivo, mas só para os novos estudantes universitários. A lei actual fixa a propina anual no valor de um salário mínimo nacional, o que quer dizer que a proposta do ministro eleva a quantia para o dobro da actual.

Pedro Lynce propõe também que os alunos que não completarem pelo menos 50 por cento das disciplinas em que se inscreveram tenham de pagar, no ano seguinte, uma taxa suplementar de 25 por cento sobre a propina, mas cujo valor nunca poderá ultrapassar a propina máxima.

O ministro revelou ainda que, no próximo ano, haverá menos 3500 vagas no ensino superior e que os estudantes perderão peso nos órgãos universitários a favor dos docentes doutorados, que passarão a ter mais de 50 por cento dos votos.

"Que belo fim de semana que o ministro nos deu", comentou o presidente da Federação Académica do Porto (FAP), que convocou para hoje mesmo uma reunião de emergência para debater o assunto. Nuno Mendes afirma nem querer acreditar no que leu: "Estou muito desiludido. Ao longo destes anos tenho tentado ser ponderado, moderado e sério nas análises que faço, mas depois disto a impressão que me dá é que o ministro olha para os estudantes como um alvo a abater".

O dirigente académico considera que a medida de Pedro Lynce de aumentar a propina apenas para os novos alunos é uma "jogada inteligente", mas "maquiavélica".

Quanto à intenção governamental de retirar poder aos estudantes nos órgãos universitários, Nuno Mendes diz que desde 1997 que está no movimento associativo e que nunca viu nada assim. "Parte de um homem que sempre disse estar contra 'lobbies' e que agora dá tudo o que tem e o que não tem aos professores", criticou.


Perdi as minhas ilusões quando, há já quase 20 anos, as associações académicas organizaram uma greve protestando contra o aumento do preço das refeições nas cantinas de 20$ para 50$: a maior parte dos dirigentes associativos defendem os interesses mais mesquinhos e imediatos dos estudantes. A qualidade do ensino, da investigação e das instalações, por exemplo, surgem normalmente como apêndices destinados a dar alguma credibilidade às reivindicações, mas o essencial é sempre o mesmo: dinheiro e poder.

Quanto ao dinheiro, estamos a falar de 770 € no máximo, divididos por cerca de 30 semanas, ou 7 meses, de aulas (não contando com avaliações). Ou seja, de cerca 110 € por mês (22 contos), menos do que se paga em muitos infantários ou em qualquer escola secundária privada. O preço por hora de aula frequentada também é interessante. Admitindo que há 20 horas de aulas por semana e que o calendário escolar tem 28 semanas por ano, conclui-se que os alunos pagarão no limite 1,4 € por cada hora de aulas. Convenhamos que é barato. Muito barato.

Quanto ao poder, trata-se na maior parte dos casos de ter poder e influência suficiente para preservar o status quo. Por exemplo, para manter em vigor os calendários escolares mais estúpidos do mundo, com épocas de avaliação que se prolongam por meses a fio, com recursos atrás de recursos, e que impedem estudantes e professores de se dedicarem a tarefas verdadeiramente importantes, tais como a investigação ou a participação em cursos e estágios. Exemplo paradigmático era o ISCTE há dois anos (entretanto o calendário foi ligeiramente melhorado): 25 semanas de aulas (12 no 1º semestre e 13 no 2º) e 14 semanas de avaliação, sem contar com épocas especiais, contra 30 semanas de aulas (15 por semestre) e três semanas de avaliação na Universidade da Califórnia em Berkeley ou 28 semanas de aulas e duas semanas de avaliação no MIT, para dar apenas dois exemplos.

Espero que o governo tenha coragem suficiente para não voltar atrás com estas medidas, aliás bastante tímidas.
Manifestações no Iraque O combate político no Iraque começou e com ele as manifestações, muitas contra a presença de tropas dos aliados. Estas manifestações são um bom sinal, desde que não degenerem em violência. São sinal de que começa um período perigoso e confuso, mas também de que houve uma verdadeira libertação no Iraque. Uma libertação que saiu cara e acerca da qual os iraquianos têm sentimentos contraditórios, sem dúvida, mas uma libertação. Serão os primeiros passos para uma democracia? Assim o espero, embora haja o perigo de os iraquianos democraticamente abandonarem o único aspecto positivo da ditadura de Saddam Hussein: o estado laico. É importante tentar evitar os problemas que ocorreram na Argélia, mas será possível?

2003-04-17

Hans Blix e as Armas de Destruição em Massa Tentativa de transcrição (de memória) de uma entrevista na BBC World:

As armas de destruição em massa foram o pretexo para a intervenção no Iraque. Julga será que foi mesmo essa a razão?
Sim. Nunca foram apresentadas provas da destruição dessas armas, pelo que havia a possibilidade de elas existirem. Depois do 11 de Setembro, os EUA decidiram que não podiam correr o risco de um novo ataque, possivelmente com armas nucleares, químicas ou biológicas. Os EUA apresentaram provas dos seus serviços secretos. Os EUA não fabricaram provas. Puseram essas palavras na minha boca, mas eu nunca o afirmei.

Esta entrevista deve ter desiludido muita gente, mas Blix tem razão. Encontrem-se ou não armas de destruição em massa no Iraque, a decisão foi tomada com base numa possibilidade que se considerou suficientemente forte para a justificar.
Balanço Pedro Mexia, na Coluna Infame, faz o primeiro balanço da guerra. Uma correcção e uma adenda às características:

Positivas:
- o número de de vítimas civis inferior ao que se receava (o número de vítimas militares iraquianas está por contabilizar).

Negativas:
- o número de de vítimas civis superior ao que se desejava.

2003-04-16

Seguindo uma sugestão do Liberdade de Expressão, e mesmo sabendo que este tipo de testes valem o que valem, resolvi verificar onde me localizo no Political Compass. Aqui ficam os resultados:
Economic Left/Right: 3.38 (ou seja, mais para a direita)
Authoritarian/Libertarian: -4.26 (ou seja, mais para o libertário)

Hmm...

Adenda:

Fiz também o World's Smallest Political Quiz. Resultados:
Your Personal Self-Government Score is 80%.
Your Economic Self-Government Score is 60%.
Ou seja, Libertário.

Ainda acabo por me convencer disto...
Guerra Civil nas Estradas de Portugal Se quer ajudar a acabar com ela, ajude a ACA-M, Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados. Pode, por exemplo,

2003-04-15

A Loucura Os comunistas comem crianças ao pequeno almoço? Não. Agora são os judeus que bebem sangue árabe nas suas festas religiosas. Investigação do MEMRI:
Author of Saudi Blood Libel and Professor at King Faysal University Lectures at Arab League Think Tank: 'U.S. War on Iraq Timed To Coincide With Jewish Holiday Purim'

On April 9, 2003, Dr. Umayma Jalahma briefed the Arab League's "Center for Coordination and Follow-Up" and claimed that the U.S. war in Iraq was timed to coincide with the Jewish holiday Purim. Dr. Jalahma, a professor of Islamic Studies at Saudi Arabia's King Faysal University, made headlines last year when she claimed that Jews use human blood to make pastries for the Purim holiday. In an article published in the Saudi daily Al-Riyadh on March 12, 2002, Dr. Jalahma wrote about "the Jewish holiday of Purim... for this holiday, the Jewish people must obtain human blood so that their clerics can prepare the holiday pastries... that affords the Jewish vampires great delight as they carefully monitor every detail of the blood-shedding with pleasure... After this barbaric display, the Jews take the spilled blood, in the bottle set in the bottom [of the needle-studded barrel], and the Jewish cleric makes his coreligionists completely happy on their holiday when he serves them the pastries in which human blood is mixed."
Naomi Klein, no Guardian, diz que:
A people, starved and sickened by sanctions, then pulverised by war, is going to emerge from this trauma to find that their country had been sold out from under them. They will also discover that their new-found "freedom" - for which so many of their loved ones perished - comes pre-shackled by irreversible economic decisions that were made in boardrooms while the bombs were still falling. They will then be told to vote for their new leaders, and welcomed to the wonderful world of democracy.

Tirando a retórica ("pulverizado" parece me um pouco excessivo...), parece que continua a haver quem ponha a palavra liberdade entre aspas, deixando a entender que os iraquianos estarão pior amanhã do que estavam sob Saddam e usando a expressão "wonderful world of democracy" com ironia. É razoável e desejável ser-se crítico e estar-se atento àquilo que os EUA vão fazer no Iraque, pois todos desejamos que haja verdadeira democracia no Iraque, mas não desta forma. Comparar, por exemplo, com o artigo sensato de David Aaronovitch (excepto na parte em que diz que "the rebuilding will require American troops, UN policemen, French expertise, Russian engineers, Arab diplomacy, forbearance in Iran and Turkey, and, above all, Iraqi bravery", pois parece-me que há aqui um país ou dois a mais...).
A doce ilusão de Claude Imbert no Le Point:
La France a joué gros. Et les dés roulent encore. On voit bien ce qui, d'abord, l'obsède et guide sa conduite : éviter qu'un Occident rassemblé et chrétien ne semble, derrière l'Amérique, affronter de plein fouet le monde arabo-musulman. Chirac partage là-dessus la hantise du pape. D'ores et déjà, la France a recouvré du prestige partout où, dans le monde, l'hyperpuissance américaine exaspère. Elle a rameuté ailleurs, et chez elle, le mol et massif assentiment des partisans de la paix. Cela fait du monde.

Mais, en même temps, la France a pris le risque de creuser entre l'Amérique et nous un fossé impressionnant. Pour éviter, en Occident, de se trouver bousculée par la puissante machinerie bushiste, elle doit désormais convertir à ses raisons nos voisins du Vieux Continent. Cette partie-là n'est pas perdue, mais elle a mal débuté. L'ardeur spectaculaire mise chez nous à contrarier cette guerre irakienne a pour effet pervers de contrarier notre dessein européen, tant il apparaît qu'une partie de l'Europe renâcle encore à quitter, aussi peu que ce soit, l'orbe américain. Le projet européen n'est certes ni mort ni enterré. Mais il faudra attendre que le temps se fasse, pour nous, galant homme.


A Europa e os EUA têm de se manter na mesma órbita, a órbita da civilização ocidental. Não iremos nunca orbitrar a França. Esse tempo passou há muito. A França acabará por cair em si.
O blogmania pegou. Há por aí alguns blogues muito interessantes:


Ligações em breve no topo destas páginas...

P.S. Bom, alguns blogues já existem há uns tempos... Eu é que tenho andado distraído.

P.P.S Perdi já a esperança de ler estes blogues todos.

P.P.P.S. Porque será que tantos blogues de esquerda (do Blog de Esquerda ao Cruzes Canhoto) apelidam de facho quem não é de esquerda? Tentem pôr menos etiquetas, por favor. A mais das vezes falham totalmente o alvo.

2003-04-14

Shock Value Spencer Ackerman escreveu em meados de Março um artigo verdadeiramente assustador. Nem o autor do artigo, nem as suas fontes de informação parecem ter a mais pequena ideia do que signifiquem direitos humanos. Resumidamente, o artigo diz que existem técnicas muito mais eficazes [sic] de interrogatório do que o recurso à violência. Essas técnicas passam pela privação do sono e vão até à ameaça à integridade dos filhos do interrogado. Totalmente inaceitável e um péssimo sinal.

2003-04-13

Oliver Stone e Fidel Castro Oliver Stone entrevistou Fidel Castro e preparou um documentário sobre o ditador. Lourdes Gómez, do El País, entrevistou por sua vez Oliver Stone. O resultado pode ser lido no El País Semanal de hoje. Seguem alguns extractos reveladores:
Cree que Castro renuncia a la reforma porque sigue anclado en la fase inicial de su revolución?
No está anclado en el pasado y, si acaso, es un pensador liberal en el sentido de que mira hacia delante. Está comprometido con el mundo y le preocupan los problemas del siglo XII. Sabe que hay limitaciones, pero no es un dictador al uso. És la versón latina de un hombre furte, un genuino revolucionario latinoamericano.
¿Qué lección extrajo en sus tres días con Castro?
Le admiro. Es un hombre carismático y un buen actor en el sentido de que interpreta muy bien a su ideología. En ningún momento se mostró a la manera de un 'yo, Fidel Castro'. Nunca percebí señales de egotismo. Sólo le sentí como un líder al servicio de la revolución. Obviamente, no es la caricatura que de él se hace en Estados Unidos, ni el
carnicero que muchos denuncian. Nadie con esas características se sentiría tan cómodo y tan a gusto. Fidel Castro es un tipo que aguanta el escrutinio de la cámara y no tiene mala conciencia.

Oliver Stone não tem uma palavra crítica para com Fidel Castro, limitando-se a manifestar a sua admiração em relação à figura sinistra. Confessa que não é um socialista (será um "liberal" à americana), para logo a seguir dizer que espera que o McDonalds não entre em cuba. E note-se que Oliver Stone estava já ciente das últimas prisões políticas em Cuba:
No me extrañaría que Cuba sea el país número cuatro en el eje del mal de Bush. Ya han empezado a crear problemas en la isla, que provocaram la detención de disidentes.

Tal como Daniel Oliveira fazia há uns dias no Blog de Esquerda, iliba Fidel Castro das detenções de dissidentes, atribuindo a responsabilidade a Bush. Há na esquerda quem não tenha cura. Numa breve descrição do documentário vem esta pérola:
Balanceándose en dos mecedoras [Fidel Castro e Oliver Stone] hablan de la dirección de la política internacional: "Es impossible establecer un orden mundial basado en la fuerza... Tengo esperanza de que el pueblo norteamericano sea factor decisivo en la defensa de un mundo mejor."

Enternecedor.