2003-05-16
Os Filhos Mais Novos da Ditadura Interessante entrevista de Alexandra Lucas Coelho no Público. Os entrevistados são jovens iraquianos. Rash e Rabab são raparigas de 20 e 21 anos, estudantes universitárias. Samer e Zaid são rapazes de 17 e 18 anos, no final do ensino secundário. Alguns extractos:
[...]
Rabab - [...] Duas das minhas irmãs usam véu [lenço cobrindo a cabeça]. Eu não me vejo a usá-lo, talvez no futuro. Se a maioria usar, eu usarei. Mas preferia não o usar. Esta é uma sociedade de homens e é normal que assim seja. Gosto que os meus irmãos me acompanhem.
Rasha - A minha família é religiosa mas liberal. [...] A religião tem um papel central na minha vida. Rezo, jejuo, não uso o véu mas sou fiel aos ensinamentos islâmicos. Talvez quando for mais madura use o véu. Quando a mulher envelhece, é mais respeitável usá-lo, não tem a ver com o casamento. O importante é que seja uma decisão minha, que eu sinta de dentro, e é para toda a vida. Recuso a ideia de um Estado religioso, governo e religião devem estar separados.
[...]
Zaid - Não forçarei a minha mulher a usar o véu. Mas prefiro que ela o use, e que cumpra todos os princípios islâmicos. O que espero da minha mulher é que seja inteligente, boa, religiosa mas não fanática, que ame as pessoas e me obedeça. Não a impedirei de trabalhar. Mas depois de ser mãe, se vai tomar conta da casa e dos filhos não poderá trabalhar.
Samer - Se houver algo errado terei de interferir, não lhe darei liberdade total. Vou aconselhá-la a usar véu. E se ela estiver empregada e isso afectar a educação das crianças, não vou deixar que ela continue a trabalhar.
[...]
Rasha - Claro que quero trabalhar depois de ser mãe. O meu projecto é trabalhar com organizações internacionais de ajuda humanitária ou direitos humanos.
Rabab - Quero continuar a trabalhar. O trabalho cria um padrão, organiza o dia a dia.
[...]
Rasha - Acreditamos que se formos liberais quanto a isso [sexo] haverá uma desordem moral. Nos países europeus e na América há muitos filhos ilegítimos, a maior parte das crianças não sabe quem são os pais. Isso não acontece aqui.
[...]
Samer - É uma coisa estranha e proibida. Sei de homossexuais homens e mulheres, às vezes falamos disso. São desprezados. Não os respeito.
Zaid - São banidos pela religião. São anormais, tantos os homens como as mulheres.
Rasha - [...] Acho que é uma anormalidade anatómica ou hormonal.
Rabab - É muito errado. Quem faz isso são os ignorantes. É imoral e proibido pela religião.
[...]
2003-05-15
Eu Também sou Contra A Lapidação de Amina Lawal A nossa esperança na moderação islâmica, nas múltiplas vozes tolerantes e cheias de bom senso que abraçam o Islão, fica totalmente abalada quando lemos coisas como esta carta, publicada no Público e escrita por Mahomed Yiossuf Mohamed Adamgy, director da revista islâmica "Al Furqán":
É isso mesmo. O Sr. Mahomed Yiossuf Mohamed Adamgy está contra a lapidação de Amina Lawal. Não porque lhe pareça que bárbara a execução por lapidação, não porque seja contra a pena de morte, não porque lhe pareça um crime condenar à morte alguém que cometeu o adultério. Não! O problema não é nenhum destes. O problema é que não foram apresentadas as quatro testemunhas exigidas pela sharia. Se testemunhas houvesse, estaria tudo certo. "Sharia" oblige. Gostaria de poder acreditar que o Islão não é isto.
No que respeita ao caso Amina Lawal, levantado pelo sr. Luís Rodrigues, devo dizer que fui dos primeiros a responder na comunicação social, nos meados de Setembro de 2002. Sobre Amina Lawal, muçulmana, pairava acusação de adultério, sem a apresentação de quatro testemunhas oculares, que a lei da "sharia" exige. E ela parece que sempre negou ter praticado o adultério. Se assim foi (...) penso que não haverá lugar a aplicação dessa pena a Amina Laval. E digo isso tendo por base o que diz a respeito desta matéria o Alcorão: "Quanto àquela que de entre as vossas mulheres são culpadas de adultério, chamai quatro testemunhas de entre vós que deponham contra elas" (Alcorão, 4:15). De notar a forma de proteger a honra da mulher, é exigida pela "sharia" uma rigorosa evidência, ou seja, a evidência de quatro, em lugar das usuais duas testemunhas, o que é quase impossível. (...)
É isso mesmo. O Sr. Mahomed Yiossuf Mohamed Adamgy está contra a lapidação de Amina Lawal. Não porque lhe pareça que bárbara a execução por lapidação, não porque seja contra a pena de morte, não porque lhe pareça um crime condenar à morte alguém que cometeu o adultério. Não! O problema não é nenhum destes. O problema é que não foram apresentadas as quatro testemunhas exigidas pela sharia. Se testemunhas houvesse, estaria tudo certo. "Sharia" oblige. Gostaria de poder acreditar que o Islão não é isto.
2003-05-14
Manifesto Bloguista
Pois, o que saberíamos nós das almas e dos pensamentos alheios, dos outros homens e por consequência de nós próprios, de outros meios e de outras terras que nunca vimos nem jamais teremos oportunidade de ver, se não houvesse gente assim, com necessidade de dar a conhecer oralmente ou por escrito o que viram ou ouviram e o que em torno disso sentiram e pensaram? Pouco, muito pouco. E por mais que as suas histórias sejam imperfeitas, temperadas pela paixão e pelas necessidades pessoais, ou até mesmo inexactas, temos sempre a razão e a experiência para podermos julgá-las e compará-las umas com as outras, aceitá-las ou rejeitá-las, no todo ou parcialmente. Assim, sempre se salvará alguma coisa de verdade humana para aqueles que com paciência escutam ou lêem.
Ivo Andrić, O Pátio Maldito, Cavalo de Ferro, 2003, pág. 46.
Associação Protectora do Prof. João César das Neves O Valete Frates, principal associado, respondeu com profundidade à minha crítica a um artigo do dito. Dada a profundidade e extensão da resposta, a minha contra-resposta demorará algum tempo.
Não Sabem o Que Dizem Sérgio Sousa Pinto assina a Revolução Neoconservadora, no Público. O Valete Frates tratou já muito bem desta questão:
Mas, mais uma vez, não posso deixar de dar a minha achega. Diz Sérgio Sousa Pinto:
Como a prática, perfeitamente defensável, de financiar as obras sociais das igrejas há muito existe em Portugal, tendo inclusivamente sido aplicada por governos socialistas, só podemos concluir que por cá a separação entre estado e Igrejas não existe há já muito, e que além disso o neoconservadorismo é um dos atributos do PS.
Não queria transcrever este artigo todo, mas esta frase parece-me daquelas que devem ficar registadas para a posteridade blogosférica: O jovem sousa pinto cita "o insuspeito New York Times"...insuspeito ? só se for em comparação com o insuspeito ministro da informação iraquiano...
Mas, mais uma vez, não posso deixar de dar a minha achega. Diz Sérgio Sousa Pinto:
O Department of Housing and Urban Development, vocacionado para planear e construir habitação barata, anunciou a intenção de permitir que fundos públicos paguem a construção de igrejas, desde que parte do edifício seja consagrado a um qualquer serviço social. A separação entre Estado e igrejas é outro legado da modernidade na mira desta corrente.
Como a prática, perfeitamente defensável, de financiar as obras sociais das igrejas há muito existe em Portugal, tendo inclusivamente sido aplicada por governos socialistas, só podemos concluir que por cá a separação entre estado e Igrejas não existe há já muito, e que além disso o neoconservadorismo é um dos atributos do PS.
As Forças da Reacção Mário Leston Bandeira aí está, bandeira da reacção às poucas medidas acertadas propostas por Lynce para o ensino superior. Propinas fixadas pelas universidades? Nunca! As universidades não desejam essa autonomia e essa responsabilidade. Menor representação dos alunos e funcionários nos órgãos das escolas? Nunca! A sua presença tem sido o factor de progresso que coloca as escolas portuguesas na frente do pelotão mundial da educação e da ciência. O financiamento das instituições depende da sua qualidade? Nunca! Se a qualidade é difícil de aferir, o melhor é nem tentar. Mas o pior crime, a mais ignóbil das supostas intenções é "favorecer o ensino privado", esses bandidos.
Leitura obrigatória, até porque, infelizmente, as opiniões de Mário Leston Bandeira são maioritárias entre os docentes do ensino superior.
Leitura obrigatória, até porque, infelizmente, as opiniões de Mário Leston Bandeira são maioritárias entre os docentes do ensino superior.
2003-05-13
Pseudo-Ciência Sandra Augusto França, no Blog de Esquerda, refere o tempo de antena dado na nossa televisão pública à astrologia e a outras pseudo-ciências ou ciências vodoo. Tem toda a razão. Que isso se passe na comunicação social privada, como na infeliz revista Xis, que lamentavelmente acompanha o Público aos Sábados, ainda aceito, embora com tristeza, tendo mesmo pensado várias vezes em deixar de comprar o Público ao Sábado por causa disso... Mas é inaceitável que os meus impostos sirvam para pagar os honorários da Sra. Cristina Candeias.
Para os interessados no combate à pseudo-ciência, recomendo a imprescindível revista Skeptical Inquirer, do CSICOP (Committee for the Scientific Investigation of Claims of the Paranormal), The Skeptic's Dictionary ou o excelente Quack Watch (Quackwatch, Inc., "a nonprofit corporation whose purpose is to combat health-related frauds, myths, fads, and fallacies").
Para os interessados no combate à pseudo-ciência, recomendo a imprescindível revista Skeptical Inquirer, do CSICOP (Committee for the Scientific Investigation of Claims of the Paranormal), The Skeptic's Dictionary ou o excelente Quack Watch (Quackwatch, Inc., "a nonprofit corporation whose purpose is to combat health-related frauds, myths, fads, and fallacies").
O blogue Monólogos de Tasco coloca o Picuinhices nos seus 'Monólogos Inspiradores ("In vino veritas")'. Agradecemos a referência simpática! Em breve o Monólogos de Tasco será acrescentado à nossa lista de blogues (em reestruturação há umas semanas, pois há sempre algo mais importante para fazer...).
Felicidade e Razão O Valete Frates já dedicou uma entrada no blogue a este assunto, mas não resisto a comentá-lo eu também. Trata-se da coluna de Mário Pinto, no Público de hoje. O artigo repesca os ensinamentos de S. Tomás de Aquino:
É interessante notar como algumas destas afirmações podem, com alguma liberdade, ser comparadas a teses de autores contemporâneos. Por exemplo, com António Damásio, que no seu "O Erro de Descartes" diz que as emoções (que talvez se possam associar às paixões de Aquino) são essenciais para o raciocínio, pois fazem parte do mecanismo que nos permite lidar com o problema da explosão combinatória associada à resolução de todos os problemas, mesmo os mais triviais. Mas também com Steven Pinker, que no seu "The Blank Slate" ataca repetidamente, com toda a razão, as tentativas de suportar a moral na natureza humana. Ele distingue claramente entre causas próximas e causas últimas, pelo que consegue conjugar uma explicação biológica e evolutiva para a moral (causa última), com o lívre arbítrio e a responsabilidade pessoal (causa próxima). A relação pode neste caso ser feita, na minha opinião, se se considerar que as paixões de Aquino correspondem àquilo que no nosso comportamento é inato. Reconhecemos em nós tendências que têm com toda a certeza explicação biológica (e.g., a tendência para o adultério), mas isso não poderá servir nunca para considerar os comportamentos que decorram dessas tendências como apropriados ou, pelo contrário, como reprováveis. As questões morais têm, com toda a certeza, uma base biológica e evolutiva, mas tal facto de pouco ou nada nos ajuda no dia a dia, perante os dilemas morais que nos preenchem a vida. Os raciocínios morais pertencem a uma outra esfera.
Infelizmente o artigo de Mário Pinto termina com uma diatribe contra a técnica, que me parece muito pouco certeira:
Estas afirmações, em que a técnica é usada como justificação para o pós-modernismo e é acusada de estar cada vez mais submetida ao lucro e aos sentidos, são profundamente erradas. A técnica em si não está certa nem errada. Nem sequer se pode afirmar que a tecnologia moderna seja indutora de quaisquer comportamentos hedonistas. Dizê-lo é ignorar a natureza humana, que não precisa certamente de técnica para se revelar, e ignorar, por exemplo, que é a técnica, bem utilizada, que permite que muitos leiam a coluna de Mário Pinto no Público, e que me permite a mim escrever estas linhas, com toda a liberdade do mundo e sem pagar um cêntimo. Os problemas éticos modernos não são diferentes, na sua essência, dos problemas éticos do passado da humanidade, como Mário Pinto reconhece. Por outro lado, embora reconheça os perigos e partilhe dos receio de Mário Pinto em relação ao relativismo, não posso concordar com a sugestão de que o nosso tempo seja um tempo sem ética e sem virtude. Sou um optimista, talvez, mas suporto-me na realidade. Continua a haver guerras hoje, mas morre-se menos do que antes, há menos fome, há mais ajuda aos países e aos povos em apuros, há mesmo um comportamento geral das sociedades que me parece mais ético do que no passado. Estamos mal, mas muito melhor do que no passado. Talvez as tendências pós-modernistas recentes tenham alterarado muito mais o discurso do que a prática de cada um de nós. Talvez esta nossa sensação de que "as coisas nunca estiveram tão mal" não passe de um comum erro de perspectiva.
O artigo de Mário Pinto, muito interessante, deve ser comparado com o de João César das Neves. É a diferença entre a profundidade e o panfleto. Entre a ponderação e a afirmação gratuita. Veja-se:
João César da Neves continua sistematicamente a comparar homossexualidade com adultério... Confesso que em termos morais tenho muito mais dúvidas do que certezas. Não aceito o relativismo moral, e acredito numa moral absoluta, tal como numa verdade absoluta, por muito inalcançáveis que sejam ambas. No entanto, não posso deixar de pôr à prova racional as afirmações acerca de bondade ou maldade de determinados actos. E não consigo encontrar a mais pequena sombra de uma razão para censurar uma relação homossexual onde haja consentimento de ambas as partes. A mistura da homossexualidade com o adultério e o aborto é simples obscurantismo.
Enfim. João César das Neves será um liberal na esfera económica, mas está longe de ser um liberal no que respeita às relações humanas. É pena.
Segundo S. Tomás - que se reclama de Aristóteles e de S. João Damasceno -, a paixão é definida como um movimento ou impulso do apetite sensível, em ligação com a representação de um bem (agradável) ou de um mal (desagradável). Nota importante do conceito de paixão é a sua irracionalidade, melhor, a sua anterioridade relativamente à razão.
[...]
Segundo S. Tomás, as paixões bem dominadas e ordenadas são magníficas energias. Assim, as paixões ditas consequentes, isto é, que seguem o juízo da recta razão iluminada pela fé, potenciam o mérito moral e espiritual e aumentam a força da boa vontade em prol das grandes causas. Foi neste sentido que Pascal disse: "Sem paixão, não é possível realizar nada de grande."
[...]
2. Destes princípios tomistas deve concluir-se que as paixões, não sendo em si mesmas nem boas nem más, não devem por definição ser extirpadas como vícios, mas devem, isso sim, ser submetidas à recta razão. Isto é: ser dominadas e orientadas, e dessa maneira colocadas ao serviço da virtude.
É necessário que (e nisso consiste precisamente a educação) a luz da (recta) razão se imponha aos nossos instintos e à nossa sensibilidade espontânea, para que esta não permaneça entregue a si mesma como sucede num animal que não possui a luz da razão.
É interessante notar como algumas destas afirmações podem, com alguma liberdade, ser comparadas a teses de autores contemporâneos. Por exemplo, com António Damásio, que no seu "O Erro de Descartes" diz que as emoções (que talvez se possam associar às paixões de Aquino) são essenciais para o raciocínio, pois fazem parte do mecanismo que nos permite lidar com o problema da explosão combinatória associada à resolução de todos os problemas, mesmo os mais triviais. Mas também com Steven Pinker, que no seu "The Blank Slate" ataca repetidamente, com toda a razão, as tentativas de suportar a moral na natureza humana. Ele distingue claramente entre causas próximas e causas últimas, pelo que consegue conjugar uma explicação biológica e evolutiva para a moral (causa última), com o lívre arbítrio e a responsabilidade pessoal (causa próxima). A relação pode neste caso ser feita, na minha opinião, se se considerar que as paixões de Aquino correspondem àquilo que no nosso comportamento é inato. Reconhecemos em nós tendências que têm com toda a certeza explicação biológica (e.g., a tendência para o adultério), mas isso não poderá servir nunca para considerar os comportamentos que decorram dessas tendências como apropriados ou, pelo contrário, como reprováveis. As questões morais têm, com toda a certeza, uma base biológica e evolutiva, mas tal facto de pouco ou nada nos ajuda no dia a dia, perante os dilemas morais que nos preenchem a vida. Os raciocínios morais pertencem a uma outra esfera.
Infelizmente o artigo de Mário Pinto termina com uma diatribe contra a técnica, que me parece muito pouco certeira:
Dirão alguns: reflexões muito velhas. Respondo eu: concordo inteiramente. Mas acrescento que são tão velhas como o homem, a sua dignidade racional e a sua problemática existencial. Filosoficamente, nós continuamos hoje com os mesmos problemas defrontados pela filosofia clássica e da escolástica. E essencialmente às voltas com as mesmas respostas. A maior diferença parece-me às vezes ser a de que os filósofos gregos e escolásticos não fugiam aos problemas e às respostas. Enquanto nós, hoje, homens que nos cremos muito evoluídos, questionamos e respondemos menos. Absorvidos com a técnica, limitamo-nos a um hedonismo prático, que simplesmente embrulhamos racionalmente com o cómodo relativismo epistemológico do pós-modernismo. Pois não é cómodo pensar que, nestas coisas, cada um tem a sua verdade? E que, visto que não é possível demonstrar irrecusavelmente uma verdade universal, todas as verdades são iguais e valem o mesmo? Ou seja, que a verdade de um vale tanto como a sua contrária de outro? Que felicidade mais cómoda! Juntamos dois em um: o regalo hedonista e a satisfação racional epistemológica, esta sim alegadamente de valor universal - a epistemologia anula a ontologia.
Creio que o nosso tempo necessita dramaticamente de mais e melhor filosofia. E portanto de mais e melhores filósofos. Mas a filosofia não está na moda... Ela só se cultiva no ritmo humano da reflexão racional e na pureza das intenções das consciências. Modo e ambiente estes que não são redutíveis às novas tecnologias nem aos ritmos e aos "bites" da comunicação moderna, cada vez mais submetidas ao lucro e aos sentidos.
Será que assim não corremos o risco de ficarmos homens muito poderosos tecnologicamente, epistemologicamente tranquilizados, sem ética e sem virtude - portanto sem espírito, isto é, homens desalmados?
Estas afirmações, em que a técnica é usada como justificação para o pós-modernismo e é acusada de estar cada vez mais submetida ao lucro e aos sentidos, são profundamente erradas. A técnica em si não está certa nem errada. Nem sequer se pode afirmar que a tecnologia moderna seja indutora de quaisquer comportamentos hedonistas. Dizê-lo é ignorar a natureza humana, que não precisa certamente de técnica para se revelar, e ignorar, por exemplo, que é a técnica, bem utilizada, que permite que muitos leiam a coluna de Mário Pinto no Público, e que me permite a mim escrever estas linhas, com toda a liberdade do mundo e sem pagar um cêntimo. Os problemas éticos modernos não são diferentes, na sua essência, dos problemas éticos do passado da humanidade, como Mário Pinto reconhece. Por outro lado, embora reconheça os perigos e partilhe dos receio de Mário Pinto em relação ao relativismo, não posso concordar com a sugestão de que o nosso tempo seja um tempo sem ética e sem virtude. Sou um optimista, talvez, mas suporto-me na realidade. Continua a haver guerras hoje, mas morre-se menos do que antes, há menos fome, há mais ajuda aos países e aos povos em apuros, há mesmo um comportamento geral das sociedades que me parece mais ético do que no passado. Estamos mal, mas muito melhor do que no passado. Talvez as tendências pós-modernistas recentes tenham alterarado muito mais o discurso do que a prática de cada um de nós. Talvez esta nossa sensação de que "as coisas nunca estiveram tão mal" não passe de um comum erro de perspectiva.
O artigo de Mário Pinto, muito interessante, deve ser comparado com o de João César das Neves. É a diferença entre a profundidade e o panfleto. Entre a ponderação e a afirmação gratuita. Veja-se:
Se falarmos de lixos tóxicos, de racismo ou de exploração laboral, aí não há qualquer piedade, nem para os actos nem para as pessoas. O nosso tempo não aceita estas coisas de forma nenhuma e persegue sem remissão quem as comete. Mas se falarmos de adultério, de evasão fiscal ou de homossexualidade, aí o legítimo respeito pelos envolvidos pretende anular a indiscutível desordem das acções. Nos primeiros males não há compaixão possível; nos últimos não há mal nenhum. O recente repúdio pela guerra transformou-se em ataque aos americanos, enquanto se desculpa o divórcio pelos divorciados. Seria como gostar da cegueira por amor aos cegos.
Não se podem tolerar todos os estilos de vida; muitos têm de ser repudiados.
O que se deve, mais que tolerar, respeitar e amar são todas as pessoas, qualquer que seja o seu estilo de vida. Mas a opinião comum diz exactamente o contrário disto.
O mais curioso é que esta confusão está agora a cair no extremo, penetrando no insólito. A intolerância impiedosa das pessoas verifica-se em acções cada vez mais inócuas, enquanto a benevolência culposa chega já a crimes de sangue. Quem sujar uma praia, fumar em recintos fechados ou tiver excesso de alcoolemia é tão repudiado quanto os nazis.
Mas um drogado, uma mãe que aborta ou quem defenda a eutanásia é, não só absolvido, mas visto como um herói.
João César da Neves continua sistematicamente a comparar homossexualidade com adultério... Confesso que em termos morais tenho muito mais dúvidas do que certezas. Não aceito o relativismo moral, e acredito numa moral absoluta, tal como numa verdade absoluta, por muito inalcançáveis que sejam ambas. No entanto, não posso deixar de pôr à prova racional as afirmações acerca de bondade ou maldade de determinados actos. E não consigo encontrar a mais pequena sombra de uma razão para censurar uma relação homossexual onde haja consentimento de ambas as partes. A mistura da homossexualidade com o adultério e o aborto é simples obscurantismo.
Enfim. João César das Neves será um liberal na esfera económica, mas está longe de ser um liberal no que respeita às relações humanas. É pena.
2003-05-12
Financiamento directo aos alunos Surgiram no Expresso de ontem dois artigos que defendem, tal como eu (aqui ou aqui), o financiamento directo aos alunos. Rui Verde , no seu artigo "Os Neoliberais e a Reforma Lynce":
"'Vouchers' Universitários, Já!" é a resposta de Egas Salgueiro, João Gata e Miguel Lebre de Freitas ao desafio de Lynce. Sendo menos contundente, não é menos interessante:
Segue-se uma descrição mais ou menos detalhada desta e de outras propostas, como as de contratos individuais de trabalho para os professores, de empréstimos para complementar o valor do voucher nos casos em que as propinas excedessem o seu valor, de abatimentos à matéria colectável destes pagamentos, de bolsas pagas pela indústria, etc. Tirando o facto de os autores proporem a atribuição indiscriminada dos vouchers, o que me parece injusto e oneroso, a proposta é de uma enorme sensatez.
Será falta de coragem do nosso governo, ou será a sua velha costela social-democrata a impedir reformas liberais essenciais como esta?
O problema é que, infelizmente, a reforma Lynce não é liberal.
– Uma reforma neoliberal instituiria o financiamento directo aos, permitindo-lhes a livre escolha da Universidade que quereriam frequentar; não manteria um financiamento estatizante apoiado em regulamentações administrativas pesadas e fechadas.
– Uma reforma neoliberal daria liberdade de organização e funcionamento às instituições permitindo-lhes criar livremente a orgânica interna, contratar também livremente docentes e funcionários e decidir sobre salários. [...]
– Uma reforma neoliberal colocaria as universidades a competirem vigorosamente umas com as outras, procurando a diferença e não a igualdade redutora [...]
"'Vouchers' Universitários, Já!" é a resposta de Egas Salgueiro, João Gata e Miguel Lebre de Freitas ao desafio de Lynce. Sendo menos contundente, não é menos interessante:
b) A actual política de propina uniforme retira ao mercado capacidade de auto-regulação: persistem situações de excesso de oferta e de excesso de procura em licenciaturas específicas [...]. A existência de uma propina única anula também o papel do preço enquanto sinalizador de qualidade [...]
c) O baixo nível das propinas ilude o aluno quanto ao verdadeiro custo da sua educação e não incentiva o esforço. [...]
d) As universidades têm pouca margem de manobra para remunerarem melhor os melhores investigadores. [...]
[...]
A nossa proposta é a criação de «vouchers», ou senhas, de ensino universitário, nos termos seguintes:
[...]
Segue-se uma descrição mais ou menos detalhada desta e de outras propostas, como as de contratos individuais de trabalho para os professores, de empréstimos para complementar o valor do voucher nos casos em que as propinas excedessem o seu valor, de abatimentos à matéria colectável destes pagamentos, de bolsas pagas pela indústria, etc. Tirando o facto de os autores proporem a atribuição indiscriminada dos vouchers, o que me parece injusto e oneroso, a proposta é de uma enorme sensatez.
Será falta de coragem do nosso governo, ou será a sua velha costela social-democrata a impedir reformas liberais essenciais como esta?
2003-05-11
Franz Erhard Walther pergunta, na introdução à sua exposição "O Novo Alfabeto", na Gulbenkian:
A exposição "O Mar e a Luz - Aguarelas de Turner na colecção da Tate", também na Gulbenkian, parece estar lá para responder a esta pergunta.
Sem a utilização da linguagem e da escrita, sentiria a minha arte como algo completamente mudo. Como seria possível a percepção da obra, que não poderia existir sem a acção, se a ideia da obra não pudesse ser nomeada verbalmente?
A exposição "O Mar e a Luz - Aguarelas de Turner na colecção da Tate", também na Gulbenkian, parece estar lá para responder a esta pergunta.
De Sila para Caribdes Foi o destino da Polónia ao ver-se livre dos alemães, segundo João Benard da Costa. Este destino trágico da Polónia, libertando-se do Nazismo para entrar no totalitarismo comunista, foi uma das imagems mais marcantes que me ficaram do magnífico filme O Pianista.
A neutralidade de Portugal João Benard da Costa termina a sua coluna de sexta-feira, no Público, falando da sua (nossa) sorte de escaparmos à Segunda Guerra Mundial:
É verdade: a geração de Benard da Costa foi poupada aos horrores da guerra e deve-o aos golpes de rins de Salazar. E no entanto... será que poderíamos ter poupado algum sofrimento alheio, à custa do nosso, se tivessemos estado então "do lado certo da história"?
Volto a abençoar a minha sorte. Mas se alguma sorte houve (ou lá como lhe queiram chamar), se alguns acreditam que tudo se deve à intervenção d'Aquela a quem pedimos "faz com que a guerra / se acabe na terra", a Miraculosa Rainha dos Céus, houve também - confessa lá - um senhor a quem não queria confessar nada, a quem não queria dever nada, mas a quem acabo esta crónica a confessar que lhe devo - eu e todos como eu - uma guerra nenhuma numa sossegada paz. Faltou-me dizer o nome? Faltou. Há palavras que nesta casa ainda não se dizem.
É verdade: a geração de Benard da Costa foi poupada aos horrores da guerra e deve-o aos golpes de rins de Salazar. E no entanto... será que poderíamos ter poupado algum sofrimento alheio, à custa do nosso, se tivessemos estado então "do lado certo da história"?
2003-05-10
Is Honest Politics Possible? O Independente acaba de publicar um artigo de Aleksandre Kwasniewski surgido em Dezembro no Project Syndicate. Nele faz um retrato de vários tipos de políticos. Um exercício interessante é o de identificar políticos portugueses de acordo com estes tipos. A melhor escolha é invariavelmente a primeira que nos vem à cabeça:
Political dishonesty, it turns out, takes different forms. Let us identify the various types. One type is someone who is a dishonest man or woman to begin with. Such a person will be a dishonest leader, ideologue, or diplomat in any circumstance.
Another type is the well-meaning dilettante. Clumsy and amateurish, the dilettante's actions harm the interests he aims to advance.
Political "gamblers," on the other hand, put competence to bad use. They are skilled but ruthless, lack humility and eschew reflection. The gambler's close kin is the political "troublemaker," who pursues his soaring ambitions by any means necessary, whatever the risks and regardless of the cost to others.
The political "fanatic" is also dishonest, for he is blinded by the conviction that he is absolutely right in all cases. The fanatic is inflexible and inertial, a steamroller ready to flatten everything in his way. By contrast, the political "wheeler-dealer" is no less dishonest, for he lacks what the first President Bush called the "vision thing." He is spineless, devoid of principle, and retreats in the face of responsibility.
Ferro Rodrigues já optou Vasco Rato, n'O Independente, diz que "Ferro Rodrigues, dividido entre o bom senso de Jaime Gama e a irresponsabilidade de Ana Gomes, não consegue optar". Quanto ao bom senso de Jaime Gama, nada mais tenho a dizer (ver mais abaixo). Mas não concordo que Ferro Rodrigues não consiga optar. Já optou. Optou claramente por Ana Gomes, como se pôde verificar assistindo à sua actuação no debate da Assembleia da República sobre o envio de um contingente da GNR para o Iraque.
Mário Soares subscreveu o inqualificável "Manifesto pela Paz, Contra a Ocupação", já aqui criticado. Segundo João Pereira Coutinho, n'O Independente de hoje, "convém recordar às massas que o exercício descarado da manipulação e da mentira não faz parte das prerrogativas presidenciais". Pois convém. Por isso não consigo entender o que Vasco Pulido Valente disse na passada semana.
Rui Rio e o Futebol Estou com João Pereira Coutinho, que no seu "Vida de Cão", n'O Independente, diz: "Que Rui Rio tenha tomado esta atitude, eis um facto que registo e agradeço. Não acredito em milagres. Mas ao devolver o futebol às ruas, Rui Rio preservou a dignidade do cargo e prestou um serviço à cidade e ao país." Até que em fim alguém apoia a firmeza de Rui Rio! O futebol é um verdadeiro cancro que há que manter longe do poder, lancetando as suas metástases logo que se declarem.
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