2003-05-02
Lula e a religião, ou como a religião é perigosa em Bush e benigna em Lula Roberto da Matta, no DN, comenta uma afirmação de Lula:
Ah! Que poético! As mesmas palavras vindas de Bush não seriam apenas demagogia: evocariam imediatamente a inquisição e as cruzadas, a confusão entre estado e a religião, etc. Pensem, façam-nos esse favor, pensem...
Sobre isso, Lula falou: «Se Jesus Cristo precisou ser crucificado para salvar a humanidade, por que cada um de nós não coloca um pouco do nosso sacrifício para salvar este imenso Brasil, que tanto precisa de nós?» Em qualquer outro político isso soaria como pura demagogia, mas pela boca do Lula a frase contém um sopro de uma religiosidade aberta, boa como exemplo de que fazer política é mais do que ser malandro e tirar partido de tudo.
Ah! Que poético! As mesmas palavras vindas de Bush não seriam apenas demagogia: evocariam imediatamente a inquisição e as cruzadas, a confusão entre estado e a religião, etc. Pensem, façam-nos esse favor, pensem...
Uma tragédia nos direitos humanos O Valete Frates divulgou esta notícia, onde se comenta a recente reeleição de Cuba para a Comissão dos Direitos Humanos das Nações Unidas. Cuba, Líbia... Que tal elegerem o Kim Jong Il para presidente da Comissão?
The Crisis of Islam: Holy War and Unholy Terror de Bernard Lewis é uma curta e sintética introdução ao Islão e à crise que atravessa hoje em dia. Quando o terminar colocarei aqui alguns extractos.
Paradise and Power Não queria deixar uma impressão negativa do livro de Robert Kagan. É um livro verdadeiramente interessante. A ideia que apresenta, e que já foi amplamente debatida desde a publicação do artigo Power and Weakness, é muito simples mas nem por isso menos certeira: o pacifismo europeu deve-se mais à fraqueza do que a convicções profundas. Alguns extractos:
In what may be the ultimate feat of subtlety and indirection, [the europeans] want to control de behemoth by appealing to its conscience.
[...]
Americans do not argue, even to themselves, that their actions may be justified by raison d'état. They do not claim the right of the stronger or insist to the rest of the world, as the Athenians did at Melos, that "the strong rule where they can and the weak suffer what they must." Americans have never accepted the principles of Europe's old order nor embraced the Machiavellian perspective. The United States is a liberal, progressive society through and through, and to the extent Americans believe in power, they believe it must be a means of advancing the principles of a liberal civilization and a liberal world order.
[...]
This enduring American view of their nation's exceptional place in history, their conviction that their interests and the world's interests are one, may be welcomed, ridiculed, or lamented. But it should not be doubted.
Ingenuidade de Robert Kagan Robert Kagan, no seu interessante "Paradise and Power", diz a páginas tantas que os europeus "wept and waved American flags" após o 11 de Setembro. Que mostraram "heartfelt sympathy". É um enorme erro de perspectiva, particularmente para alguém que conhece bem a Europa. A maior parte das lágrimas europeias, com excepção das inglesas, foram lágrimas de crocodilo, totalmente hipócritas.
As bases na Arábia Saudita e o roteiro para a paz As bases dos EUA na Arábia Saudita irão ser abandonadas pelos EUA e as negociações vão avançar entre a Palestina e Israel, contra todas as espectativas dos nossos anti-americanos de serviço. Que pena... Menos dois motivos para acusar os EUA, não é? Puxem pela cabeça, que com certeza encontrarão outros motivos. Porque o que é preciso é ser contra. Contra os EUA, claro. Não, também não precisam de reconhecer que o clima propício às negociações foi criado pela resposta intransigente de Israel à política de atentados de Arafat, que deixou claro que o terrorismo não leva nem pode levar a lado algum, e pela destruição do regime de Saddam.
2003-05-01
Os marines Todos os dias os marines matam civis no Iraque. É preciso tirá-los de lá rapidamente, averiguar as circunstâncias das matanças e punir os responsáveis. Precisa-se urgentemente de polícia no Iraque, pois os marines são máquinas de matar, fundamentais numa guerra, perigosos em paz. Assim não se vai pelo bom caminho para a paz e a democracia no Iraque.
As férias Todos os anos a marcação dos calendários escolares no ensino superior é uma saga. Como fazer para encaixar, já não digo 15 semanas, mas 14 semanas de aulas por semestre no meio de um mar de férias, semi-férias, feriados e pseudo-feriados, tendo ainda a obrigação de deixar espaço para três épocas de avaliação em cada semestre, com no mínimo duas semanas cada? Que fazer quando, tendo-se sugerido que se eliminem as chamadas férias do Carnaval, nos respondem que terça-feira é feriado e segunda-feira o governo, com toda a certeza, dará tolerância de ponto? Que se faz num país onde há feriados a 25 de Abril, 1 de Maio, 10 de Junho, 5 de Outubro e 1 de Dezembro, para só falar dos feriados não-religiosos, e onde se criou na prática um feriado que nunca existiu, o Carnaval? Não se faz nada. Desiste-se. Porque os estudantes "têm direito às férias", porque os estudantes "têm direito a exames", porque os estudantes "têm direito a um intervalo mínimo entre duas provas". O resultado de tudo isto é que os estudantes têm o "direito" de não estudar, e os docentes o "direito" de não ensinar nem investigar. O resultado é também uma cultura de lançamento do barro à parede, pois com tantas épocas nalguma há-de colar, nem que seja por exaustão dos docentes. Noutros países não é assim. Mas para quê argumentar? Não sabemos nós que em Inglaterra ou nos EUA os estudantes não têm direitos? Ou não fossem esses países "fascistas".
A feira As velhas e tradicionais feiras, salvo raras excepções, ou deixaram de se realizar, ou abandonaram o seu aspecto sórdido e insalubre, tendo passado a realizar-se em recintos preparados para o efeito. Uma das excepções é a feira que se realiza anualmente, a 1 de Maio, na Alameda, em Lisboa. Essa feira é relativamente recente. Realiza-se apenas há umas poucas dezenas de anos. Nesse dia, para além dos comes e bebes, as barraquinhas vendendo todo o tipo de trastes envolvem a Alameda e prolongam-se Av. Almirante Reis abaixo, chegando, em direcção a Norte, a invadir troços consideráveis da Av. de Roma. A porcaria, os restos, o lixo, sobrepõem-se às marcas que os feirantes fazem no chão com semanas, por vezes meses de antecedência, para marcarem o seu lugar. É um triste espectáculo, esses rectângulos mal-desenhados, com os nomes dos seus "proprietários", que se vão lentamente esbatendo ao longo do ano, para serem reavivados no ano seguinte. Ainda assim, os feirantes não confiam no respeito mútuo pelos retalhos marcados com tanto afinco e antecedência: acampam, comem e fazem as suas necessidades no meio da rua, desde o dia anterior à feira. Não se podem correr riscos... E assim os Lisboetas vão convivendo com esta feira. Aparentemente, no meio da feira, das bifanas, das sardinhas, dos bailaricos, dos algodões e das contrafacções dos ciganos, fazem-se uns discursos que são todos os anos iguais, desde que a feira se realizou pela primeira vez, e que parecem ter como pretexto o dia do trabalhador. Porque será que escolhem a feira para tais manifestações? É um mistério.
2003-04-30
Não posso ir a um país mais civilizado sem sentir um choque ao voltar a casa. Será impossível organizarmo-nos? Será que, como alguns defendem, estamos condenados, não por razões genéticas, mas sim culturais, à total ineficiência? À maior das mediocridades? Recuso-me a acreditar em tal coisa, mas confesso que há dias em que me apetece emigrar.
2003-04-22
Mais de Oliver Stone sobre Fidel Castro. Uma pérola:
Eurico de Barros termina a notícia lapidarmente:
Depois de ter frisado que o líder cubano é, aos 75 anos, «o último grande revolucionário» do nosso tempo, «um mito» que «se transformou num sábio a cujas lições devíamos prestar atenção» e «uma das personagens fundamentais do século XX», Stone passou a responder às críticas de alguns jornalistas, que o confrontaram com o facto de Fidel Castro ser um ditador instalado no poder há mais de 40 anos e Cuba não saber o que são eleições livres.
«Não há eleições livres em parte nenhuma do mundo, nem nos EUA. Não há nunca eleições livres sem uma imprensa livre. Ou querem ignorar as ligações da grande imprensa com o grande capital, onde quer que seja no mundo?», ripostou o realizador, negando que Comandante seja «uma obra de propaganda» e que o retrato que faz de Fidel seja totalmente favorável. Segundo Stone, para os americanos, «Fidel é uma caricatura, um barbudo a fumar charutos». E acrescentou: «Eu quis retratar a figura humana. E não precisamos de concordar com as ideias dele para perceber que é um homem moral.»
Eurico de Barros termina a notícia lapidarmente:
A verdade é que em Comandante, Oliver Stone evita pôr perguntas muito incómodas a Fidel Castro, acabando por se render ao habilíssimo discurso do ditador. Stone frisa que Castro nunca lhe pediu para parar de filmar nem recusou responder a qualquer pergunta durante as muitas horas que dialogaram _ um «direito» que o autor de Salvador lhe deu. Fidel Castro nunca precisaria de o invocar, porque Comandante é um exercício de autocensura por parte de Oliver Stone.
Artistas? Intelectuais? Não merecem esse nome, os que publicaram em Cuba uma mensagem de apoio a Fidel de Castro pelas prisões de fusilamentos da semana passada. Alguns extractos:
Para que os nomes dos autores não sejam esquecidos:
En los últimos días, hemos visto con sorpresa y dolor que al pie de manifiestos calumniosos contra Cuba se han mezclado consabidas firmas de la maquinaria de propaganda anticubana con los nombres entrañables de algunos amigos. Al propio tiempo, se han difundido declaraciones de otros, no menos entrañables para Cuba y los cubanos, que creemos nacidas de la distancia, la desinformación y los traumas de experiencias socialistas fallidas.
Lamentablemente, y aunque esa no era la intención de estos amigos, son textos que están siendo utilizados en la gran campaña que pretende aislarnos y preparar el terreno para una agresión militar de los Estados Unidos contra Cuba.
Nuestro pequeño país está hoy más amenazado que nunca antes por la superpotencia que pretende imponer una dictadura fascista a escala planetaria. Para defenderse, Cuba se ha visto obligada a tomar medidas enérgicas que naturalmente no deseaba. No se le debe juzgar por esas medidas arrancándolas de su contexto.
Resulta elocuente que la única manifestación en el mundo que apoyó el reciente genocidio haya tenido lugar en Miami, bajo la consigna "Iraq ahora, Cuba después", a lo que se suman amenazas explícitas de miembros de la cúpula fascista gobernante en los Estados Unidos.
Son momentos de nuevas pruebas para la Revolución Cubana y para la humanidad toda, y no basta combatir las agresiones cuando son inminentes o están ya en marcha.
Hoy, 19 de abril de 2003, a cuarenta y dos años de la derrota en Playa Girón de la invasión mercenaria, no nos estamos dirigiendo a los que han hecho del tema de Cuba un negocio o una obsesión, sino a amigos que de buena fe puedan estar confundidos y que tantas veces nos han brindado su solidaridad.
Para que os nomes dos autores não sejam esquecidos:
Alicia Alonso (directora do Ballet Nacional de Cuba)
Miguel Barnet (investigador e director da Fundação Fernando Ortiz)
Leo Brouwer (compositor)
Octavio Cortázar (realizador)
Abelardo Estorino (dramaturgo)
Roberto Fabelo (pintor)
Pablo Armando Fernández (poeta)
Roberto Fernández Retamar (poeta)
Julio García Espinosa (realizador e guionista)
Fina García Marruz (escritora, poeta, investigadora literária)
Harold Gramatges (pianista e compositor)
Alfredo Guevara (realizador)
Eusebio Leal (historiador)
José Loyola (flautista, compositor e musicólogo)
Carlos Martí (Presidente da União de Escritores e Artistas de Cuba)
Nancy Morejón (poeta)
Senel Paz (escritor)
Amaury Pérez (músico)
Graziella Pogolotti (crítica de arte)
César Portillo de la Luz (guitarrista e compositor)
Omara Portuondo (cantora)
Raquel Revuelta (actriz)
Silvio Rodríguez (músico)
Humberto Solás (realizador)
Marta Valdés (cantora)
Chucho Valdés (realizador)
Cintio Vitier (escritor)
As Contas Trocadas Segundo o director adjunto do Serviço de Música da Fundação Gulbenkian, Rui Vieira Nery, apesar de o cachet dos artistas diminuir com a repetição dos concertos, é preferível não os repetir. O argumento é que "em teoria, estamos a reduzir os custos fixos da deslocação, mas com as despesas acrescidas nunca chega ao limiar entre equilíbrio [receita?] e despesa. Isto é, cada espectáculo adicional é um buraco financeiro". O argumento é absurdo. Como é evidente, poder-se-ia aumentar o número de repetições, reduzindo o número de diferentes espectáculos e satisfazendo a mesma quantidade de público com menos prejuízo. Talvez até se conseguisse atingir maior quantidade de público com o mesmo prejuízo de hoje. Claro que isso implicava reduzir a diversidade de espectáculos, mas julgo que poderia valer bem a pena, sobretudo se a intenção for chegar ao grande público.
José Miguel Trigoso, secretário-geral da PRP, diz no Público de hoje que auditorias aos projectos rodoviários vão evitar a construção de "estradas da morte", como o IP4 ou o IP5. E os responsáveis por essas estradas? Onde estão eles? Porque não são acusados de homicídio por negligência? As auditorias são uma boa ideia, mas se não forem acompanhadas pela indispensável responsabilização a posteriori dos técnicos, de nada servirão.
Notas Pascais de José Manuel Fernandes. A não perder:
Apetece-me antes pedir a maturidade a idade adulta. Pedir que se compreenda que o homem, as nações, o mundo, não são perfeitos, e que tudo leva o seu tempo. Afinal a II Guerra do Golfo começou há menos tempo do que aquele que durou a primeira, do que durou a guerra do Kosovo ou a operação no Afeganistão. E, até agora, causou muito menos baixas. Mais: já permitiu a livre expressão das diferenças religiosas e políticas. Uma grande liberdade na movimentação dos jornalistas. E as inevitáveis divergências. Tenham pois calma e releiam as previsões catastrofistas que fizeram há apenas um mês. Não sejam adolescentes: aprendam com os disparates que disseram e escreveram. Como é Páscoa, vou ser piedoso: deixo o trabalho de memória desses disparates aos seus autores.
As bases no Iraque O New York Times, repetido depois pelo Público, anunciam a intenção americana de instalar quatro bases militares de longo prazo no Iraque. Donald Rumsfeld negou já a notícia enfaticamente:
O New York Times no seu melhor.
``Obviously there will have been significant changes. I would personally say that a friendly Iraq that is not led by a Saddam Hussein would be a reason we could have fewer forces in the region, rather than more -- I mean, just logically.''
O New York Times no seu melhor.
As Lágrimas da Liberdade Impressionante relato de uma visita ao mais pobre dos bairros de Bagdad, Al-Mahdi. De Paulo Moura, no Público. Ou um repórter que não soube – ninguém saberia – ser um frio observador da infâmia.
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