2003-04-15

A Loucura Os comunistas comem crianças ao pequeno almoço? Não. Agora são os judeus que bebem sangue árabe nas suas festas religiosas. Investigação do MEMRI:
Author of Saudi Blood Libel and Professor at King Faysal University Lectures at Arab League Think Tank: 'U.S. War on Iraq Timed To Coincide With Jewish Holiday Purim'

On April 9, 2003, Dr. Umayma Jalahma briefed the Arab League's "Center for Coordination and Follow-Up" and claimed that the U.S. war in Iraq was timed to coincide with the Jewish holiday Purim. Dr. Jalahma, a professor of Islamic Studies at Saudi Arabia's King Faysal University, made headlines last year when she claimed that Jews use human blood to make pastries for the Purim holiday. In an article published in the Saudi daily Al-Riyadh on March 12, 2002, Dr. Jalahma wrote about "the Jewish holiday of Purim... for this holiday, the Jewish people must obtain human blood so that their clerics can prepare the holiday pastries... that affords the Jewish vampires great delight as they carefully monitor every detail of the blood-shedding with pleasure... After this barbaric display, the Jews take the spilled blood, in the bottle set in the bottom [of the needle-studded barrel], and the Jewish cleric makes his coreligionists completely happy on their holiday when he serves them the pastries in which human blood is mixed."
Naomi Klein, no Guardian, diz que:
A people, starved and sickened by sanctions, then pulverised by war, is going to emerge from this trauma to find that their country had been sold out from under them. They will also discover that their new-found "freedom" - for which so many of their loved ones perished - comes pre-shackled by irreversible economic decisions that were made in boardrooms while the bombs were still falling. They will then be told to vote for their new leaders, and welcomed to the wonderful world of democracy.

Tirando a retórica ("pulverizado" parece me um pouco excessivo...), parece que continua a haver quem ponha a palavra liberdade entre aspas, deixando a entender que os iraquianos estarão pior amanhã do que estavam sob Saddam e usando a expressão "wonderful world of democracy" com ironia. É razoável e desejável ser-se crítico e estar-se atento àquilo que os EUA vão fazer no Iraque, pois todos desejamos que haja verdadeira democracia no Iraque, mas não desta forma. Comparar, por exemplo, com o artigo sensato de David Aaronovitch (excepto na parte em que diz que "the rebuilding will require American troops, UN policemen, French expertise, Russian engineers, Arab diplomacy, forbearance in Iran and Turkey, and, above all, Iraqi bravery", pois parece-me que há aqui um país ou dois a mais...).
A doce ilusão de Claude Imbert no Le Point:
La France a joué gros. Et les dés roulent encore. On voit bien ce qui, d'abord, l'obsède et guide sa conduite : éviter qu'un Occident rassemblé et chrétien ne semble, derrière l'Amérique, affronter de plein fouet le monde arabo-musulman. Chirac partage là-dessus la hantise du pape. D'ores et déjà, la France a recouvré du prestige partout où, dans le monde, l'hyperpuissance américaine exaspère. Elle a rameuté ailleurs, et chez elle, le mol et massif assentiment des partisans de la paix. Cela fait du monde.

Mais, en même temps, la France a pris le risque de creuser entre l'Amérique et nous un fossé impressionnant. Pour éviter, en Occident, de se trouver bousculée par la puissante machinerie bushiste, elle doit désormais convertir à ses raisons nos voisins du Vieux Continent. Cette partie-là n'est pas perdue, mais elle a mal débuté. L'ardeur spectaculaire mise chez nous à contrarier cette guerre irakienne a pour effet pervers de contrarier notre dessein européen, tant il apparaît qu'une partie de l'Europe renâcle encore à quitter, aussi peu que ce soit, l'orbe américain. Le projet européen n'est certes ni mort ni enterré. Mais il faudra attendre que le temps se fasse, pour nous, galant homme.


A Europa e os EUA têm de se manter na mesma órbita, a órbita da civilização ocidental. Não iremos nunca orbitrar a França. Esse tempo passou há muito. A França acabará por cair em si.
O blogmania pegou. Há por aí alguns blogues muito interessantes:


Ligações em breve no topo destas páginas...

P.S. Bom, alguns blogues já existem há uns tempos... Eu é que tenho andado distraído.

P.P.S Perdi já a esperança de ler estes blogues todos.

P.P.P.S. Porque será que tantos blogues de esquerda (do Blog de Esquerda ao Cruzes Canhoto) apelidam de facho quem não é de esquerda? Tentem pôr menos etiquetas, por favor. A mais das vezes falham totalmente o alvo.

2003-04-14

Shock Value Spencer Ackerman escreveu em meados de Março um artigo verdadeiramente assustador. Nem o autor do artigo, nem as suas fontes de informação parecem ter a mais pequena ideia do que signifiquem direitos humanos. Resumidamente, o artigo diz que existem técnicas muito mais eficazes [sic] de interrogatório do que o recurso à violência. Essas técnicas passam pela privação do sono e vão até à ameaça à integridade dos filhos do interrogado. Totalmente inaceitável e um péssimo sinal.

2003-04-13

Oliver Stone e Fidel Castro Oliver Stone entrevistou Fidel Castro e preparou um documentário sobre o ditador. Lourdes Gómez, do El País, entrevistou por sua vez Oliver Stone. O resultado pode ser lido no El País Semanal de hoje. Seguem alguns extractos reveladores:
Cree que Castro renuncia a la reforma porque sigue anclado en la fase inicial de su revolución?
No está anclado en el pasado y, si acaso, es un pensador liberal en el sentido de que mira hacia delante. Está comprometido con el mundo y le preocupan los problemas del siglo XII. Sabe que hay limitaciones, pero no es un dictador al uso. És la versón latina de un hombre furte, un genuino revolucionario latinoamericano.
¿Qué lección extrajo en sus tres días con Castro?
Le admiro. Es un hombre carismático y un buen actor en el sentido de que interpreta muy bien a su ideología. En ningún momento se mostró a la manera de un 'yo, Fidel Castro'. Nunca percebí señales de egotismo. Sólo le sentí como un líder al servicio de la revolución. Obviamente, no es la caricatura que de él se hace en Estados Unidos, ni el
carnicero que muchos denuncian. Nadie con esas características se sentiría tan cómodo y tan a gusto. Fidel Castro es un tipo que aguanta el escrutinio de la cámara y no tiene mala conciencia.

Oliver Stone não tem uma palavra crítica para com Fidel Castro, limitando-se a manifestar a sua admiração em relação à figura sinistra. Confessa que não é um socialista (será um "liberal" à americana), para logo a seguir dizer que espera que o McDonalds não entre em cuba. E note-se que Oliver Stone estava já ciente das últimas prisões políticas em Cuba:
No me extrañaría que Cuba sea el país número cuatro en el eje del mal de Bush. Ya han empezado a crear problemas en la isla, que provocaram la detención de disidentes.

Tal como Daniel Oliveira fazia há uns dias no Blog de Esquerda, iliba Fidel Castro das detenções de dissidentes, atribuindo a responsabilidade a Bush. Há na esquerda quem não tenha cura. Numa breve descrição do documentário vem esta pérola:
Balanceándose en dos mecedoras [Fidel Castro e Oliver Stone] hablan de la dirección de la política internacional: "Es impossible establecer un orden mundial basado en la fuerza... Tengo esperanza de que el pueblo norteamericano sea factor decisivo en la defensa de un mundo mejor."

Enternecedor.
Depois de tantos acertos durante a intervenção no Iraque, tinha de chegar também o maior falhanço da coligação: a manutenção da lei e da ordem. Como foi possível não terem pensado neste problema? Só espero que ponham cobro rapidamente ao caos e que haja poucos danos irreversíveis causados (talvez a esperança seja vã, pois aparentemente saquearam o Museu de Arqueologia de Bagdad).
Igualdade, liberdade e a natureza humana Steven Pinker, no seu "The Blank Slate: The Modern Denial of Human Nature" diz que:
A nonblank slate means that a tradeoff between freedom and material equality is inherent to all political systems. The major political philosophies can be defined by how they deal with the tradeof. The Social Darwinist right places no value on equality; the totalitarian left places no value on freedom. The Rawlsian left sacrifices some freedom for equality; the libertarian right sacrifices some equality for freedom. While reasonable people may disagree about the best tradeoff, it is unreasonable to pretend there is no tradeoff. And that in turn means that any discovery of innate differences among individuals is not forbidden knowledge to be suppressed but information that might help us decide on these tradeoffs in an intelligent and humane manner.

Uma excelente síntese do que separa a esquerda da direita e das razões normalmente aduzidas para a negação da natureza humana e das diferenças inatas entre indivíduos.
Os Soldados e a Moralidade da Guerra É interessante fazer o paralelo entre as condições lamentáveis proporcionadas às tropas portuguesas em La Lys, na 1ª Guerra Mundial, e as excelentes condições proporcionadas às tropas americanas no Iraque. As primeiras encontram-se num artigo do Independente desta semana. As segundas numa transcrição que Clara Ferreira Alvas faz no Expresso de ontem de um trabalho de Mary Gahan, da BBC News Online. Para Clara Ferreira Alves, as boas condições dadas aos «boys» [sic] americanos são um escândalo, uma imoralidade, face às condições das suas "vítimas" [sic]. Há aqui algumas questões mal esclarecidas. A primeira é que não se percebe quem são as "vítimas". Serão os soldados iraquianos ou referir-se-á à população? Caso sejam os primeiros, o termo certo é "inimigos". Caso sejam os segundos, julgo que Clara Ferreira Alves se equivocou. Em vez de vítimas das tropas aliadas, que as houve (menos do que se receava, mais do que se desejava), dever-se-ia referir, talvez, às muitíssimo mais numerosas vítimas do Sr. Saddam Hussein. A segunda questão é que aparentemente Clara Ferreira Alves, como tantos outros comentadores, considera imoral um exército tratar bem e proteger as suas tropas. Se assim for, julgo que Clara Ferreira Alves deveria oferecer os seus serviços ao exército americano, pois terão certamente muito a aprender com a nossa experiência em La Lys.

2003-04-12

Cobardia governativa Compreendo a necessidade táctica de fazer algumas reformas gradualmente. Mas há limites. A reforma do imposto da património, com a diminução da Sisa em vez da sua pura e simples substituição pelo IVA, a justiça fiscal e, agora, de novo a questão das propinas, demonstram-no.

Vários estudos têm mostrado que o perfil socio-económico dos estudantes do ensino superior é muito diferente do perfil da população em geral. Por outro lado, se é verdade que a educação é um factor fundamental de progresso, também é verdade que, pelo menos numa primeira fase, é o ensino não-superior que é prioritário. Estes factos fazem com que a virtual gratuitidade do ensino superior seja uma enorme injustiça, financiando quem não precisa para não financianciar apropriadamente quem precisa realmente. Mas não é apenas por isso que a gratuitidade é má, é-o também pelas distorções que introduz no mercado do ensino (sim, é um mercado), pela irresponsabilidade que induz em alguns docentes e discentes e pelo incentivo à retenção escolar a que conduz na prática.

Há já anos que defendo, como muitos outros, um modelo radicalmente diferente de financiamento, em que universidades públicas e privadas fiquem em pé de igualdade, em que o estado tenha como função principal garantir a igualdade de oportunidades, a mobilidade social e a possibilidade de escolhas informadas por parte dos candidatos a estudantes. Defendo que as propinas sejam fixadas pelas instituições e que estas não recebam qualquer financiamente por aluno, mas que se financiem de forma significativa através das propinas (sem prejuizo de poderem livremente atribuir isenções de propinas livremente, por mérito ou necessidade dos estudantes), para além fornecerem serviços remunerados à sociedade, de se financiarem através de projectos, etc. Defendo que o estado financie directamente o aluno, levando em conta o seu mérito, o seu aproveitamento, o tipo de curso frequentado e as suas necessidades económicas. Defendo que não se financiem de igual modo filhos de quadros superiores e estudantes verdadeiramente necessitados, que o sistema traga consigo um mínimo de justiça e racionalidade.

Mas, para além de garantir a mobilidade social e a igualdade de oportunidades através de uma intervenção financeira, julgo que o estado, e em particular o ministério que tutela o ensino superior, deveria promover os estudos de empregabilidade e progressão na carreira dos licenciados em cada curso, bem como promover as avaliações da sua qualidade intrínseca. Essas avaliações deveriam ser promovidas não contra as ordens profissionais, mas sim com elas, tentando apenas garantir a independência das avaliações realizadas. De facto, o estado não pode avaliar imparcialmente as universidades que detém. Só através da publicação destes estudos e avaliações os candidatos ao ensino superior poderão fazer uma escolha informada, passando as universidades a fixar as suas vagas de acordo com a procura existente e evitando-se a fixação dos numerus clausus como um dos poucos resquícios de economia de direcção central e planos quinquenais existentes na nossa sociedade.

Pode-se talvez dizer que as reformas da última década vão neste sentido e que a proposta recente do Ministério da Ciência e Ensino Superior de permitir às instituições fixar as propinas entre um e dois salários mínimos nacionais o demonstram. Não o creio. São reformas de uma timidez confrangedora. À velocidade a que estas reformas ocorrem teremos de esperar ainda várias décadas por efeitos visíveis.

2003-04-11

Correndo o risco de ser repetitivo, não posso deixar de recomendar o último Diário de Guerra de Pacheco Pereira. É bom ler quem sabe pensar.
Muito divertido o artigo de Domingos Lopes, vice-presidente do Conselho Português para a Paz e a Cooperação, no Público. Quando terá sido escrito? O texto é igual a tantos outros, mas a sua publicação hoje, quando muitos Iraquianos festejam nas ruas e quando na própria capa do Público se vê a estátua derrubada de Saddam Hussein, é de um anacronismo hilariante:
Os iraquianos, reprimidos pelo regime de Saddam Hussein, não hesitaram em adiar o combate pela sua libertação e fazer frente ao invasor. Acaso haverá algo de anormal ou misterioso neste facto? Ou não será antes perverso e cínico dar a entender que o mal está na resistência dos iraquianos? Os dirigentes dos EUA sonharam, divulgaram e venderam que os iraquianos iriam aplaudir os soldados americanos. Acaso podem agora dar o braço a torcer?

Não podem, de facto.
Caramba! Fátima Bonifácio escreve no Público o artigo mais desencantado e certeiro, mas também cínico, que li na imprensa portuguesa sobre a guerra no Iraque.

2003-04-10

Pronto. Desisto. Tinha decido não revelar quem são os colaboradores deste miserável Blog. Mudei de ideias.

Somos dois, por enquanto. O Rui Lopes, assistente no ISCTE e doutorando em Lancaster, UK, vai blogando e discordando de mim, que sou o Manuel Menezes de Sequeira, professor auxiliar do ISCTE. Somos ambos engenheiros electrotécnicos.

Podem-nos contactar em Picuinhices@yahoo.com.br.
Um elogio a Blair No Expresso OnLine, José António Lima faz um elogio rasgado e bem merecido a Tony Blair ao mesmo tempo que zurze em Mário Soares. Dois pequenos extractos:
Agora, enquanto o eixo franco-alemão se entretinha a congeminar os seus projectos de hegemonia europeia e de isolamento dos EUA, com Chirac a insultar de forma arrogante e insolente os países de Leste candidatos à integração na UE, Tony Blair voltou a mostrar as qualidades de um líder político lúcido e resoluto. Que, sem abdicar nas suas intervenções do papel central da ONU ou da importância de um Estado palestiniano, sabe estar do lado dos seus aliados, do lado da democracia contra o totalitarismo, do lado da liberdade contra a opressão, sem equidistâncias ambíguas ou neutralidades hipócritas.

É este político que Mário Soares continua a desmerecer publicamente, preferindo elogiar as ambiguidades, os receios e as hesitações de Chirac e Schroeder. Depois de não lhe reconhecer quaisquer «qualidades políticas especiais», de ironizar com o seu «sorriso de plástico» e de chegar ao ponto de o considerar «um pouco oportunista», Mário Soares comprazia-se, por altura da Carta dos Oito, com a contestação no Reino Unido: «Bem, o senhor Blair está aflito!» É demasiada cegueira política, mesmo sabendo que Soares sempre fez de Blair um dos seus inimigos de estimação e que se tornou, ultimamente, a principal vedeta dos comícios pacifistas do PCP e do Bloco de Esquerda.
A destilação das opiniões estúpidas sobre os EUA e a guerra O artigo de Arnaldo Jabor no Estado de S. Paulo é a destilação das asneiras que vêm sendo ditas acerca dos EUA e da guerra. A não perder. Uma verdadeira antologia.
As Obscenidades de Miguel Portas No DN de hoje, Miguel Portas diz:
Com 11 mortes no activo, a comunicação social é duplamente vítima da guerra. Esperar-se-ia dos responsáveis jornalísticos clareza e firmeza. Mas ainda ontem José Manuel Fernandes conseguiu o milagre de elogiar a profissão sem condenar o que foi um mais que evidente sinal de aviso dos norte-americanos à comunicação social «unilateral». Há, aliás, nesta expressão uma indecorosa obscenidade: quem ataca unilateralmente um país, responsabiliza «unilateralidade» jornalística pelas mortes de jornalistas. Só faltou dizer que os verdadeiros culpados do fogo sobre o hotel Palestina eram os iraquianos.

Repare-se bem: "o que foi um mais que evidente sinal de aviso dos norte-americanos à comunicação social «unilateral»". Assim mesmo. Miguel Portas acredita que os tiros contra o Hotel Palestina resultam de uma política americana contra os média independentes. Parece impossível, mas é verdade. Não põe nenhuma outra hipótese: que pode ter sido um erro ou uma estupidez de um soldado, por exemplo. Que pode ter sido um acto irresponsável e estúpido, mas individual, de um militar. Sim, é verdade: em 250 000 militares há, com toda a certeza, gente incompetente, gente irresponsável, gente estúpida. Há, com certeza, gente que simplesmente se engana, que erra, como todos nós. Aos comandos de um tanque, os erros são trágicos, mas não deixam de ser erros. As atitudes individuais estúpidas e irresponsáveis também. Os erros são censuráveis? Sim, claro. As irresponsabilidades e a estupidez individual são censuráveis? Absolutamente! Mas daí a dar o passo seguinte e afirmar que ouve intenção de matar jornalistas e que essa intenção resulta de uma política dos EUA de perseguição aos média independentes é, simplesmente, obsceno.
Umas novas nações unidas? Sim, mas "de resto, a aplicação do direito internacional ainda pouco mais é do que um ajuste de conveniências variáveis. Só poderia ser tomada a sério se feita por organizações ou estruturas de que apenas sejam membros com direito a voto os Estados de direito", diz Vasco Graça Moura no DN de hoje. Não podia concordar mais.
Hoje, no Público, Eduardo Prado Coelho esteve muito bem. Condenação inequívoca de Fidel Castro, sem qualquer referência às supostas culpas dos EUA pela situação cubana. Excelente.

2003-04-09

O Blog de Esquerda tirou o champanhe do frigorífico. Junto-me a eles. Brindo à democracia no Iraque. O Blog de Esquerda esteve bem nesta, ao contrário de alguém que hoje, no ISCTE, frente às imagens na televisão, dizia que preferia que Saddam ganhasse a guerra, pois "Bush é pior que Hitler". É bom ver que no Blog de Esquerda, apesar de alguns lapsos (ver abaixo...), se sabe pensar.
O pensador chegou No Blog de Esquerda, há um novo pensador. Profundo. Veja-se:
Sete opositores ao regime cubano foram presos por delito de opinião. Castro aproveitou assim um sentimento de revolta em relação aos Estados Unidos para fazer sentir a sua mão pesada sobre jornalistas, intelectuais e activistas pelos direitos humanos. Enquanto o bloqueio americano durar, Fidel está seguro. O bloqueio une os cubanos, deixando sempre para mais tarde a oposição à ditadura. Com os mafiosos de Miami à espreita, parecem preferir o menos mau. No meio, democratas que, mantendo-se em Cuba, não desistem de lutar pela liberdade sem pedir autorização aos EUA, são as vítimas do costume.
Daniel Oliveira

Bem no fundo, portanto, os EUA até são responsáveis pelas prisões do ditador de estimação da esquerda. Mau começo para Daniel Oliveira.
Uma conversa
Manuel: Rui, estou feliz! Viste as cenas no Iraque?
Rui: Como te dizia acerca do Sr. que tendo os filhos mortos pelo Saddam abençoava os ingleses que o iam matar, não surpreende. Compreendo que tenhamos alguma razão para hoje ser um dia melhor que todos os outros, cada ícone de ditador, cada muro de vergonha que cai é sempre uma vitoria!
Manuel: Pois não, mas põe-me feliz na mesma. Agora EUA e UK têm a maior das responsabilidades. Levar o Iraque rapidamente por bom caminho. É um 25 de Abril Iraquiano, de alguma forma.
Rui: Exactamente!!!!! Eu vejo o dia de hoje como um tomar aguada entre o sangue e o suor de ontem e esperamos o muito suor que ainda está à espera.
Manuel: Espero que tragam polícia da ONU rapidamente. Da Jordânia, do Paquistão. Espero que a ONU tenha um papel não humilhante. Espero que haja eleições rapidamente. Espero que haja quadros à altura.
Rui: Exacto as vinganças e as pilhagens são uma coisa que agora tem de ser evitado. Ser feito por países "islâmicos" só tem vantagens. É uma oportunidade para a ONU - digamos - corrigir a mão e a coligação mostrar a pureza das suas intenções.
Manuel: Espero que os "falcões" e a "direita sinistra" americana tenham razão: que seja um dominó, que a democracia ganhe raizes, que se propague, que invada os países vizinhos.
Rui: É muitíssimo difícil haver quadros - pelo menos que queiram regressar - num país com 24 anos de ditadura feroz.
Manuel: Ouvi dois jovens iraquianos na Jordânia, entusiasmados com a hipótese de levar o Iraque pelo bom caminho. Vi os exilados iraquianos nos EUA manifestarem-se nas ruas.
Rui: Tenho medo que o Iraque, na pressa de o entregar a "líderes" locais, se transforme numa Arábia Saudita.
Manuel: É verdade. Há muitos riscos. Mas, por mal que corra, nunca será pior para os iraquianos que os últimos 30 anos.
Rui: Podemos estar a assistir a um momento capital para o Médio Oriente, para o melhor e para o pior. Pior é quase impossível. O meu medo é com o resto do Medio Oriente. Se os piores medos se concretizarem, isto é se aquilo se transformar numa Arábia Saudita, a democratização do Médio Oriente fica adiada para as calendas gregas.
Manuel: Nas últimas semanas fez-se história. Pode ser que me engane, mas julgo que o mundo melhorou.
Estou feliz! O regime de Saddam afunda-se. A guerra aproxima-se do fim. Os iraquianos estão felizes, e eu por eles. Viva a liberdade e a democracia! Ah, defensores de Saddam, gente que compara Bush a Hitler, envergonhem-se. Vejam a alegria dos exilados iraquianos. Vejam e revejam o povo iraquiano a apear estátuas do grotesco ditador...

2003-04-04

Análise lúcida de Charles Krauthammer no Washington Post, sobre as espectativas de uma guerra rápida:
The point of allowing expectations to remain unrealistically high was to encourage waverers in Hussein's entourage to turn against the regime very early and end the war even before it began. It was a good idea. It did not pan out. But given the possible benefits, it was certainly worth a try.

The regime did not collapse overnight. Hence Plan B, an adapted version of the original war plan. It involves real fighting and real losses. Plan A, in contrast, while always plausible, was a hope for the miraculous. It was a kind of anti-war plan, as it would not have required any real battles at all.

The miracle having not happened, we are now fighting a conventional war. And winning -- thanks to the Franks plan and its flexibility, and despite the carping of those who, in conflict after conflict, see Vietnam in anything short of immediate immaculate victory.

De acordo com o Público de hoje, "a estação de televisão Al-Jazira, com sede no Qatar, anunciou a suspensão da sua cobertura da guerra no Iraque, em protesto contra uma decisão do regime Iraquiano mandar sair um dos seus enviados em Bagdad, e impedido o outro de fazer reportagens na capital". Na passada semana Miguel Sousa Tavares dizia que "se as equipas da Al-Jazira forem capturadas, ficaremos apenas com a informação do "nosso lado". É verdade, mas parece que quem "capturou" a Al-Jazira foi o regime de Bagdad. A aversão do regime à liberdade de expressão excede a sua simpatia por uma televisão que claramente não apoia a guerra no Iraque.

2003-04-02

Os Dias do Engano No Público de hoje, Luís Fernandes comunica ao mundo uma sua recente descoberta: é possível não falar verdade sem mentir. Luís Fernandes, como Sokal demonstrou tão bem, confunde "verdade" com "crença". A verdade é absoluta. A crença é relativa. A crença refere-se à nossa convicção acerca da veracidade de uma dada afirmação. É, por isso, perfeitamente possível não falar verdade e no entanto não mentir. Basta que a nossa crença... não corresponda à verdade. Acontece. Acontece deste o início dos tempos.
Acerca da morte de civis num mercado em Bagdad, Vital Moreira escreve no Público que:
É difícil acreditar que se tenha tratado de simples "efeitos colaterais". Dada a sofisticação bélica americana, dois erros na mesma semana sobre o mesmo tipo de alvos é de mais. Em ambos os casos os ataques tiveram lugar de dia, na hora de maior ajuntamento. Não havia alvos militares por perto. Sobretudo as bombas utilizadas eram das que servem para matar muitas pessoas e não para destruir edifícios. O mais provável portanto é que se tenha tratado de uma operação propositada, destinada a infundir o terror na população civil, a fazê-la fugir da capital e a quebrar a sua resistência moral. Mesmo sem intenção, o erro é criminoso.

Será possível que Vital Moreira creia mesmo que os EUA atacaram propositadamente civis em Bagdad? Sem falar nas questões morais, pois trata-se do tipo de pessoa que acredita piamente que a administração Bush é capaz disso e de muito mais, não é por demais evidente que este tipo de acontecimento não traz qualquer vantagem à coligação contra Saddam? Acção destinada a infundir terror na população civil? Se a coligação desde o início que tenta ter a população iraquiana do seu lado... Enfim, argumentos absurdos e dum profundo cinismo.

2003-04-01

Gary Kasparov escreve sobre a guerra no Iraque no Público. O artigo é razoavelmente interessante, mas sobretudo é um surpresa, vindo do campeão mundial de xadrez.
O "olho negro" de José Vitor Malheiros No Públic de hoje, José Vitor Malheiros escreve:
Mas a pergunta continua em cima da mesa e vou jogar o jogo. Quem quero que ganhe? Os EUA. Por quê? Porque a alternativa seria a manutenção no poder de Saddam.

Mas seria imoral que os EUA ganhassem esta guerra ilegítima e desnecessária, venal e fanática, unilateral e arrogante, sem custos, como um piquenique. Porque isso abriria a porta a maiores fanatismos, a novas loucuras de conquista e de conversão dos infiéis, novas guerras, legitimadas apenas pela força, num desrespeito crescente pelo direito, pela comunidade internacional.

Será útil ao mundo que os EUA ganhem, mas que aprendam uma lição, que ganhem de uma forma que lhes saiba a derrota, que os faça perceber que a guerra é uma má escolha e deve ser a última opção, que paguem o tributo da guerra. Pelo menos com um olho negro. É infeliz que o "olho negro", neste caso, represente vidas de soldados (seria melhor que o custo fosse financeiro, em prestígio, em tempo perdido). Mas os soldados não são mais inocentes que os inocentes que morrem do outro lado.

A citação é grande, mas a imoralidade do artigo também: tinha de ser aqui reproduzida para ficar nos registos da infâmia. É a primeira pessoa que diz claramente que deseja mortes nesta guerra. Não as suporta: deseja-as. Alguns soldados americanos mortos (simpaticamente excluiu britânicos e australianos) para que não se "[abra] a porta a maiores fanatismos, a novas loucuras de conquista e de conversão dos infiéis". Lamentável e profundamente estúpido.

2003-03-30

Racial diversity reconsidered Algumas achas para a fogueira da discussão da chamada "affirmative-action". São interessantes as conclusões:
U.S. Commission on Civil Rights Chairman Mary Frances Berry recently averred, "It seems to me that if racial diversity is a worthy goal, rather than people squirming around to address race, they should acknowledge there is nothing wrong with giving a preference here." To the contrary, our findings suggest that not all forms of diversity are created equal. The increased presence of black and Hispanic students has not led to the expected improvements. Meanwhile, the increased presence of Asian Americans seems to have at least some positive impact.

Since higher percentages of black and Hispanic students are produced in part by affirmative action, while the same is not true for Asian-American students, it may be that affirmative action places students in academic environments for which they are unsuited, leading to tension and dissatisfaction all around. The results we have found should lead to further study of interracial relations on campus, the educational backgrounds of minority students, and the academic effects of affirmative action. Obscuring existing problems by trumpeting ever louder the benefits of diversity is no way to help students of any race.

Os sistemas de quotas parecem-me perversos, de facto. Em Portugal, as quotas existem nas universidades do continente para receber os candidatos das regiões autónomas. Resultado? Estudantes recusados na Universidade da Madeira por não terem nota de candidatura suficiente são aceites no continente com nota muito inferior à dos candidatos continentais... O mérito deve ser o único critério de acesso. Se por alguma razão o sistema falhou e não proporcionou a todos as mesmas oportunidades mínimas de sucesso, então o sistema tem de mudar. E claramente é isso que se passa em Portugal, onde o perfil social dos estudantes universitários nada tem a ver com o perfil social do resto da população. É fundamental mudar o estado das coisas, agindo a montante da entrada para a universidade, melhorando o ensino pré-escolar, primário e secundário.

Recordo-me de, há uns anos, dar explicações a duas crianças de um bairro de lata em Lisboa (no âmbito do Grupo de Acção Social do IST). Entretanto o bairro foi desmantelado e perdi o rasto deles, mas lembro-me de ter a sensação de que o meio em que estavam inseridos, a forma displicente com que os familiares lidavam com as questões escolares e o chamamento irresistível para a delinquência feito pelos mais velhos, os iriam condenar a uma vida menor, se não mesmo a uma vida de crime. Espero sinceramente que me tenha enganado e que os dois se tenham salvo e tenham muito sucesso na vida.

Estou convencido que é aqui que a nossa sociedade mais falha. Por isso concordo, no essencial, com a ideia socialista do rendimento mínimo garantido. Julgo que pode ser um instrumento útil para dar um mínimo de dignidade e de capacidade de resistência a muitas famílias, e que pode ser a salvação de muitas crianças. Partilho em parte os receios dos que dizem que um rendimento a troco de nada pode ser um incentivo à indigência, mas creio que, sendo um rendimento mínimo, os riscos de isso acontecer são mais do que compensados pelos possíveis benefícios. Em todo o caso, julgo que o sistema pode ser melhorado, por forma a conter incentivos à actividade, e que os seus resultados devem ser avaliados de uma forma científica. Espero também que o Rendimento Mínimo Garantido, ou o que quer que o novo governo venha a chamar ao programa, com alterações ou não, tenha resultados positivos, ao contrário do que parece ter-se demonstrado acerca da "affirmative-action" norte-americana.
A negação da natureza humana, desmontada com arte por Steven Pinker em The Blank Slate e por Francis Fukuyama em Our Post Human Future, é usada por alguns autores para defender o suposto idealismo dos pacifistas. É o que faz M. Scott Peck no seu "Gente da Mentira", do qual o Expresso publicou um extracto:

Suponho que seja por isso [a sugestão de que os seres humanos têm um instinto para a guerra] que os falcões se intitulam sempre como realistas e consideram os pombos como idealistas de cabeça oca. Os idealistas são pessoas que acreditam no potencial da natureza humana para a transformação. Os idealistas são pessoas que acreditam no potencial da natureza humana para a transformação. Já o afirmei aqui que o principal atributo da natureza humana é a sua mutabilidade e liberdade em relação ao instinto - que está sempre na nossa mão mudar a nossa natureza.

Claro que a natureza humana nos equipa com uma considerável flexibilidade, mas é impossível mudarmos a nossa natureza: os nossos defeitos podem ser controlados, domesticados, mas não eliminados. A maldade existe e está entre nós para ficar.

2003-03-29

A encantadora lucidez dos anos 60 diz Roberto Damatta no DN de ontem. Lucidez? Se houve década recente onde a lucidez mais faltasse foi essa. Os "soixante huitards" são incorrigíveis.
72% dos americanos apoiam a guerra apesar de saberem que ela será mais duradoura do que previsto. Podem-me incluir nessa percentagem, pois desde 11 de Setembro me considero americano por adopção.
Lembram-se da histeria do urânio empobrecido? Aí está. As Nações Unidas confirmam a contaminação, mas, segundo o Programa das Nações Unidas para o Ambiente, "os níveis de contaminação são muito baixos e não apresentam riscos tóxicos ou radioactivos imediatos para o ambiente e para a saúde humana".
Lembro-me bem de alguns artigos escritos por cientistas portugueses sobre o assunto. Recordo um artigo, no Público de 2001/1/10, de Rui Namorado Rosa, apresentado como professor universitário e antigo investigador da Junta de Energia Nuclear. É um exemplo perfeito de como se pode pôr os "pergaminhos" académicos ao serviço da ideologia e da manipulação:
O cenário que observamos configura não só hipocrisia mas, sobretudo, uma violência extrema e desproporcionada ao fim em vista (mesmo aceitando a contragosto a "bondade" da sua causa) para com o povo jugoslavo, alvo de tão bárbara agressão, à semelhança do que já aconteceu há dez anos ao povo iraquiano. Os seus territórios estão contaminados por milhares de toneladas disperso no solo, água e ar, impossível de recuperar e mantendo a sua ameaça de toxicidade e de agressão radiológica por tempo indeterminado, na prática interminável. Sem falar do urânio que, já inalado ou ingerido, acumula doses de doença ou morte nos seus actuais portadores.
Caros amigos, antes que a História nos julgue a todos nós por igual, temos de exigir que o secretário-geral da NATO [...], o conselho de mininstros da NATO e o conselho supremo da NATO na Jugoslávia e no Iraque sejam acusados pela opinião pública e, sob pressão desta e e através dos órgãos de soberania responsáveis, para que sejam levados a julgamento no Tribunal Internacional de Crimes contra a Humanidade.

Ou uma série de três artigos de José António Salcedo, professor catedrático da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto:
[...] Tecnicamente, o que ocorreu nessas regiões [Bósnia e Kosovo] foram bombardeamentos nucleares de emissão reduzida e lenta que vai perdurar durante milhares de milhões de anos.
[...]
Na minha opinião pessoal, utilizar munições com DU [urânio empobrecido] é um crime contra a humanidade, pois essas armas de destruição maciça condenam gerações futuras a uma vida miserável, quando não à morte certa [...]

Ou ainda António Eloy, no Público de 2001/1/8, de pois de citar o inevitável Noam Chomsky:
Imaginem o que acontecia se alguém explicasse que os bons kosovares estavam a viver em solo mais contaminado, em termos de curto prazo, que o da Bielorússia (Chernobyl) e já agora também aos outros, que afinal por sorte foram expulsos desse barril de pólvora?
[...]
Não nos mintam mais. Não nos mintam mais. Porque nós temos ouvidos e lemos.

Pois temos. E por isso mesmo, temos o dever de recordar estes actos deliberados de desinformação.
"Seria um erro desistir da ONU", diz Adriano Moreira. De facto, seria um erro trágico. Se acontecer, a responsabilidade cabe quase integralmente à França e à Alemanha, que se encarregaram de desacreditar completamente umas Nações Unidas com uma credidibilidade já muito abalada pela eleição recente da Líbia para dirigir a comissão de direitos humanos. Talvez esta crise lance a base para uma nova ONU. Uma ONU que não esteja, por exemplo, manietada por governos não-democráticos como o chinês.
Miguel Sousa Tavares
Se a televisão iraquiana for silenciada, se as equipas da Al-Jazira forem capturadas, ficaremos apenas com a informação do "nosso lado". É uma inestimável vantagem - no terreno de batalha e no terreno da opinião pública internacional. Melhor ainda se isso conseguir ser feito antes que comece a guerra suja que se perspectiva para Bagdad.

É fácil dizê-lo. Mas quando "o outro" lado inclui a televisão de uma ditadura, uma televisão que não é conhecida por ser propriamente livre e pluralista, a questão complica-se. Já no que diz respeito à Al-Jazira, Miguel Sousa Tavares tem razão: o seu silenciamento seria criminoso. Mas, ao contrário do que ele sugere, não vai acontecer. Os EUA prezam demais a liberdade de imprensa para fazerem alguma coisa contra a Al-Jazira.
Gangs of New York Violência, sangue, vingança. Para quê? Para nada: gratuito de todo. Uma enorme caricatura, sem qualquer tipo de interesse. O final do filme, com o cemitério que se degrada enquanto Nova Iorque, por trás, cresce, é simplesmente idiota.
Allah guard the believing leader of Iraq, the symbol of belief and Jihad, the leader Saddam Hussein Frase final do sermão do Xeque Abd Al-Ghafour Al-Qaysi na Mesquita Abd Al-Qadr Al-Gaylani de Bagdad transmitido ontem pela Al-Arabia TV no Dubai em colaboração com a Mesquita Al-Haram de Meca. O Xeque brandiu uma arma durante o sermão. Comparar com as declarações do Papa. Todas as religiões se equivalem, dizem alguns. Mas mentem.

2003-03-28

Mia Couto A Carta ao Presidente Bush, de Mia Couto, publicada hoje no Público, é um exercício de difícil classificação: ou é, de facto, a demonstração da posse de uma "arma de estupidez maciça" por parte de uma certa esquerda, ou, pelo contrário, trata-se de uma manipulação perversa dos factos. O texto é difícil de analisar, pois sendo constituído por muitas verdades, resulta numa enorme mentira.

Mia Couto elenca os países bombardeados pelos EUA desde a Segunda Guerra Mundial. A listagem parece ser rigorosa. Nela surgem, por exemplo, a Coreia (1950-1953), o Camboja (1969-1970), o Iraque (1990-2001), o Afeganistão (1998) e a Juguslávia (1999), entre outros. Uma lista exaustiva, cujo intuito é claramente apresentar os EUA como agressores inveterados. Que a grande maioria desses "bombardementos" tenham sido suportados pelas Nações Unidas e que Sul Coreanos, Kuwaitianos, Afegãos e Kosovares estejam hoje agradecidos aos EUA pelo sacrifício de vidas e dinheiro em nome da liberdade e da derrota do comunismo ou do fundamentalismo islâmico, não lhe diz nada. Apresentar os erros dos EUA pode ser um exercício útil. Classificar como erros e como imorais todas as suas intervenções destina-se a construir uma falsa realidade. Que dizer de uma lista em que o Kuwait surge na lista de agressões dos EUA? Presume-se que se refira à intervenção de libertação do Kuwait em 1991 (a data coincide), mas esses bombardeamentos foram feitos para apoiar o próprio Kuwait, para o libertar dos invasores Iraquianos, e foram feitos no âmbito de uma coligação internacional gigantesca. A manipulação é grosseira e enoja.

O desfolhante, usado no Vietname pelos EUA, serve para supostamente demonstrar que os EUA usaram armas químicas. Não importa que o desfolhante não fosse usado com o propósito directo de matar o inimigo, mas sim de despir de folhagem as árvores e arbustos que podessem servir de cobertura para o inimigo. Certamente uma táctica muito criticável, mais a mais quando se soube que esse herbicida estava altamente contaminado com uma dioxina nociva para os humanos, resultado indesejado do processo químico de fabrico do produto. Aparentemente os resultados dessa contaminação foram terríveis, embora as discussões acerca da extensão dos seus efeitos continuem, mas pode-se honestamente comparar o uso de desfolhante com o uso de armas químicas propriamente ditas? É distorcer os factos.

Também é fácil apresentar as políticas de alianças dos EUA como apoiando persistentemente a pior espécie de crápulas. Mais uma vez, é uma meia verdade. Esquece que, no tempo em que os EUA apoiaram combatentes anti-comunistas ligados ao fundamentalismo islâmico, por exemplo, o perigo para o mundo era a URSS.

Mas não, esqueço-me... Para Mia Couto, a URSS não era uma ameaça. Não. Para Mia Couto, Saddam Hussein e Kim Yong-Il não representam qualquer perigo internacional: o perigo são os EUA. Na realidade, para Mia Couto o problema é outro. Não são os EUA em si, mas o facto de representarem e promoverem o capitalismo liberal, que ele, como tantos outros, não suporta. Mia Couto, um africano, deveria saber melhor que o que falta a África é acima de tudo democracia, mas também mais capitalismo e liberalismo. As experiências comunistas e socialistas africanas deixaram África de joelhos, esfomeada.

Mas não. Esqueço-me de novo... O comunismo e o socialismo não falharam nunca: foram boicotados pelas forças sinistras do capitalismo predador, responsável pelo estado calamitoso de África... A ideologia é imune à realidade.

Mia Couto termina dizendo, dirigindo-se a Bush, que:

O maior perigo não é o regime de Saddam, nem nenhum outro regime. Mas o sentimento de superioridade que parece animar o seu Governo. O seu inimigo principal não está fora. Está dentro dos EUA. Essa guerra só pode ser vencida pelos próprios americanos. Eu gostaria de poder festejar o derrube de Saddam Hussein. E festejar com todos os americanos. Mas sem hipocrisia, sem argumentação para consumo de diminuídos mentais. Porque nós, caro Presidente Bush, nós, os povos dos países pequenos, temos uma arma de construção maciça: a capacidade de pensar.

Infelizmente essa capacidade para pensar, a existir, não se revela nesta carta lamentável de Mia Couto. Pior, infelizmente parece não existir em grandes quantidades em alguns países pequenos, tais como Portugal e Moçambique. Enquanto não percebermos que a produção científica americana, a quantidade de prémios Nobel norte-americanos, a produção cultural americana, revelam muito mais capacidade de pensar do que países como Portugal ou Moçambique têm demonstrado, não há nada a fazer. De facto, a ignorância julga-se sábia.

2003-03-23

João Pereira Coutinho, na sua última Vida de Cão, n'O Independente, faz um elogio ao ódio. Tudo bem. Mas porque não citar o artigo original, já aqui referido?
Para lá da tempestade de areia Excelente artigo de Timothy Garton Ash acerca da crise no Iraque e da posição de Blair. Diz ele que continua "a não estar convencido de que esta guerra específica neste momento específico seja legítima, necessária ou prudente" e que espera "contra a esperança que a nossa vitória seja rápida, que o regime perverso de Saddam se desmorone como um castelo de cartas e que as consequências no Médio Oriente sejam positivas". Faço minhas as suas palavras, embora pessoalmente esteja bastante mais convencido da justeza desta guerra. Confesso, no entanto, que tenho fortes receios que o regime de Saddam consiga resistir militarmente muito mais do que seria desejável. Isso levaria a uma enorme perda de vidas. A guerra é suja e violenta, é verdade. Por isso, espero que os soldados americanos e britânicos se portem à altura, que cumpram as convenções de Genebra, que sejam corajosos e que lutem honradamente pela libertação do Iraque. Espero que os danos colaterais sejam mínimos e que haja poucas vítimas civis. Espero que o Iraque em breve esteja livre de Saddam e no caminho da democracia. São muitas esperanças... talvez demasiadas.
Vital Moreira diz que os Estados Unidos precipitaram a guerra para evitar a cada mais provável demonstração de que o Iraque estava, de facto, desarmado. É uma distorção grosseira dos factos. Esquece 12 anos de resoluções por cumprir e quatro anos sem inspecções, esquece também que o regime de Saddam Hussein não fez a declaração completa de todo o seu arsenal quando apresentou milhares de páginas às Nações Unidas em finais do ano passado e que o próprio Hans Blix disse que as declarações de Bagdad estavam longe de ser esclarecedoras quanto ao paradeiro de armas químicas e biológicas supostamente já destruídas mas de que não há qualquer prova de destruição. Esquece ainda que os mísseis al-Samoud 2 não constavam da declaração do regime de Saddam Hussein. O disparo recente de mísseis Scud, que supostamente já não existiam, sobre o Kuweit deve ter dissipado as últimas dúvidas acerca da colaboração de Saddam Hussein com as Nações Unidas.

No mesmo artigo, Vital Moreira acusa um tal "lobby" judaico de estar por trás do ataque ao Iraque. A resposta eloquente é dada por Esther Mucznik no Público de sexta-feira. Como o artigo não está disponível na Web, segue um pequeno extracto da resposta:


Não vale a pena lembrar que a esmagadora maioria dos judeus americanos votou nos democratas e que o facto de alguns judeus fazerem parte do círculo próximo de Bush não é em si representativo da opinião da maioria da cominidade judaica americana. É o mesmo que dizermos que Colin Powell ou Condolezza Rice são representativos do imenso "lobby" negro que influencia os destinos da América... mas contra os estereótipos, a razão de pouco serve.


Século de Ouro e Matlab Independentemente das polémicas acerca da ausência de Manuel Alegre ou de Miguel Torga da antologia "Século de Ouro: Antologia Crítica da Poesia Portuguesa do Século XX", sobre as quais não tenho competência para me pronunciar, uma coisa é verdade: a introdução à dita antologia é patética. Veja-se esta pequena transcrição:


A antologia e o aleatório

Não podemos descartar a hipótese de, num futuro não muito distante, um qualquer programa informático de geração de texto vir a produzir uma obra cujo material inscrito coincida ad litteram com Século de Ouro. Antologia Crítica da Poesia Portuguesa do Século XX. É ainda possível imaginar que a produção aleatória de discurso que acabasse por chegar à coincidência com este volume não fosse resultado de uma qualquer demanda – i.e. não fosse um fim procurado – e que acontecesse no total descaso de Século de Ouro. Antologia Crítica da Poesia Portuguesa do Século XX. Comparado com os condicionamentos materiais de outros momentos históricos, podemos especular que o actual terá aumentado o índice de coincidências, e que elas talvez venham a conhecer uma exponencial ocorrência e consequente trivialização. O facto de sabermos que as coincidências vão continuar a ter lugar, todavia, não nos autoriza a retirar uma qualquer moral da história. A possibilidade das coincidências é justamente o contrário: o pouco moral que a história é. Todavia, não há como obviar tão-pouco à contumácia da moralização das coincidências, oscilando entre o Cálculo e o Acaso, Deus ou o Jogo de Dados [caramba!].

Este livro dispõe-se a oferecer um máximo de resistência a esse horizonte previsível, não tão pouco plausível quando pensamos que existem já programas informáticos que geram romances e poemas [diz-se que Saramago tem, na realidade, um computador por ghost writer...]. O volume vale-se, neste sentido, e para proveito próprio, da astúcia estranha que encarna uma dispositio aleatória dos poemas. Esclareça-se. pois, que o encadeamento dos poemas antologiados foi gerado por um programa informático. Não decorreu, por consequência, da agência dos organizadores, quer da que pudesse ser imposta por uma racionalidade histórico-literária (cronológica ou outra), quer de uma ordenação pensada pensada a partir de uma evantual sucessão criteriosa dos ensaístas participantes. Este facto, desde já, desinveste a dramaticidade putativa dessa futura moral da história. O aleatório repetiria, repetirá, o aleatório. Este recurso à Máquina [sic], todavia, nos tempos que correm, não é suficiente para indexar este volume, que antologia a ficção poética, à ficção científica. O computador, pela sua «natural» domesticidade, não chega a representar um nosso alter ego. Século de Ouro, de resto, é o resultado da imbricação desse artefacto high-tech com a mais pobre tecnologia que é o «livro».


E continuam com esta prosa vazia de conteúdo só para dizerem que a ordem de apresentação dos poemas é aleatória. Mais à frente dizem que "a fidelidade a este programa [obtido, frisam, através de um script Matlab...] sublinha apenas o quanto a sequência [dos poemas] foi determinada por um puro acaso". Puro engano. O Matlab, como qualquer outro programa, não gera números aleatórios, mas pseudo-aleatórios:

RAND produces pseudo-random numbers. The sequence of numbers generated is determined by the state of the generator. Since MATLAB resets the state at start-up, the sequence of numbers generated will be the same unless the state is changed.


Mesmo que iniciassem a semente de geração dos números aleatórios com, por exemplo, o tempo de processamento, os números continuariam a não ser verdadeiramente aleatórios. Melhor seria terem baralhado convenientemente 72 cartas de jogar diferentes (52 de um baralho e 21 de outro, com costas de outra cor). Mas, nesse caso, não teriam podido escrever tanta palha. Aliás, para que se fique com uma ideia, as referências "eruditas" a Deus exMachina etc., justificadas pela utilização do Matlab, prolongam-se por cinco páginas!

Recomendo uma leitura para se compreender como as imposturas intelectuais que Sokal tão bem desmascarou continuam de boa saúde. Alguma pistas para outras referências ignorantes a conceitos matemáticos ou estatísticos: a necessidade que os autores da antologia sentiram de escolher (pseudo-)aleatoriamente entre permutações elas próprias obtidas (pseudo-)aleatoriamente e a referência à "não-linearidade" de uma série aleatória...
Tabula Rasa Steven Pinker publicou há pouco tempo o seu último livro: "The Blank Slate: The Modern Denial of Human Nature". Nele ataca as tentativas recentes de negação da natureza humana, nomeadamente da enorme influência genética na personalidade de cada um de nós e no próprio funcionamento das sociedades. Segundo Pinker, as doutrinas mais comuns neste fenómeno de negação são as da Tabula Rasa, do Bom Selvagem e do Fantasma na Máquina. Segundo a doutrina da Tabula Rasa, originada em Locke, o ser humano nasceria sem qualquer pré-programação genética, ou seja, a sua personalidade seria determinada unicamente pelas experiências pós-nascimento. A doutrina do Bom Selvagem, por outro lado, teria origem em John Dryden, embora seja normalmente atribuída a Rousseau, e diz que o ser humano nasce naturalmente livre e bom, sendo corrompido pela sociedade. Finalmente, a doutrina do Fantasma na Máquina afirma que existe uma dualidade entre corpo e mente: a mente controla o corpo, habitando-o, e não é um produto do próprio corpo. O livro está escrito de uma forma brilhante, pelo menos até onde o li até agora, encarregando-se de demonstrar a falsidade de cada uma destas doutrinas e de apontar as consequências nefastas que a crença em cada uma delas traz para as nossas sociedades.

As duas primeiras falácias são sustentáculo ideológico da esquerda. Quando a esquerda defende que é necessária prevenção, pois a repressão é uma violência desnecessária, está a basear-se na doutrina do Bom Selvagem, pois nega que a maldade possa ser inata, sendo por isso curável ou, pelo menos, possível de prevenir. Daí, por exemplo, os seus ataques às políticas de tolerância zero, aplicadas com sucesso retumbante por Giuliani em Nova Iorque. Quanto à primeira doutrina, ela tem sido aplicada com notável sucesso na negação das diferenças entre os sexos ou entre as diferentes raças. De facto, qualquer estudo científico que tente fazer uma análise das características das diferentes raças humanas é classificada automaticamente de racista. Autores como Stephen Jay Gould (1941-2002), no Capítulo 12 de "The Flamingo's Smile", argumentam que a divisão em raças é arbitrária, e não encaixa nas classificações usadas pela ciência. Em zoologia, segundo ele, abaixo no nível das espécies só se definem sub-espécies, e os critérios necessários para haver sub-espécies diferentes da espécie Homo sapiens não são preenchidos por aquilo a que chamamos raças. Terminava memo dizendo que "Human equality is a contingent fact of history". Esta análise é, claramente, ideológica. As definições de espécie e sub-espécie não são, em si, científicas. São definições de mera conveniência. Isto é claro se se compararem as definições de espécie em zoologia e em botânica, por exemplo. Em zoologia o facto de dois indivíduos poderem ter descendentes férteis implica que pertencem à mesma espécie. Em botânica não: existem plantas classificadas em espécies diferentes que podem cruzar-se entre si, produzindo descendência não-estéril. Além disso, Gould, como muita gente de esquerda, parecia confundir igualdade perante a lei ou igualdade de dignidade e direitos, com igualdade de facto. A negação a priori das diferenças entre raças e sexos é ideológica e profundamente anti-científica. Num ponto lhes dou razão, no entanto. Estudos científicos que alguma vez viessem a demonstrar diferenças entre raças humanas, por pequenas que fossem, viriam inevitavelmente a ser usadas por muita gente para justificar tratamentos discriminatórios. O que não creio é que a negação da ciência e da verdade seja a solução para este possível problema.

Mas a verdade é que a ciência e a verdade não sofrem apenas o ataque da esquerda pós-modernista. Alguma direita religiosa, especialmente nos EUA, mantém uma longa guerra com a teoria da evolução das espécies de Darwin (criticada pelo próprio Stephen Jay Gould): o criacionismo. A última versão do criacionismo, e talvez a mais inteligente surgida até hoje, é a da Concepção Inteligente, que mantém que as características dos seres vivos são tais que revelam inevitavelmente que uma inteligência os concebeu, tal como o mecanismo de um relógio revela a inteligência que o desenhou.

Não há dúvida. A ideologia é avessa à ciência e à verdade.

P.S. Steven Pinker escreveu um artigo sobre o mesmo assunto no último número da Skeptical Inquirer, revista que recomendo a todos os amantes da ciência.
Vicente Jorge Silva tem alguma razão quando diz que não existe coerência e consistência editorial no Público, mas apenas no sentido em que o posicionamento ideológico dos seus directores está muito longe de ser uniforme. Não tem razão porque do ponto de vista estritamente jornalistico não parece existir falta de coerência no Público, que apesar dos seus defeitos é um bom jornal. Também não tem razão quando diz que a falta de coerência (ideológica) existente na direcção é um problema. Não é um problema nem um defeito: é uma característica do Público que acho até muito interessante. Um jornal com uma direcção incoerente ideologicamente tem alguma dificuldade em tomar posição relativamente à guerra no Iraque, é verdade, mas sinceramente não vejo isso como um problema, tal como não vejo nenhum problema no alinhamento crítico d'O Independente com a firmeza da administração americana em relação ao Iraque.
Em Portugal, se exceptuarmos talvez o Independente, as redacções dos jornais de referência são tradicionalmente de esquerda. É o caso, por exemplo, do Público, onde as posições liberais de José Manuel Fernandes equilibram a balança ideológica do jornal. As redacções estão presas pela obrigação de apresentar factos e não opinões. Por vezes isso não acontece, deixando alguns artigos transparecer claramente a opinião dos jornalistas. Ainda assim, é provavelmente verdade que as redacções se sentem constrangidas, pelo que os cartoons acabam por servir de escapatória. De facto, é interessante como eles revelam claramente (e acredito que involuntariamente) o que as redacções dos jornais pensam. Veja-se o caso do Bartoon no Público e do Cravo & Ferradura, no Diário de Notícias. No Bartoon do Público de ontem, por exemplo, um soldado americano de pala no olho conversa com o empregado de balcão, que lê o jornal: "'Segundo Bush, a intervenção militar no Iraque visa criar um mundo mais pacífico. Um mundo mais pacífico?' 'Sim, mas sem exageros'". No Cravo e Ferradura do Diário de Notícias de 14 de Março, um empregado dos correios franceses comenta com um colega a presença da estátua da liberdade, deitada no chão, frente ao edifício dos correios: "Jacques, temos uma devolução". Note-se que admiro o humor de ambos os autores (Luís e Bandeira). O seu alinhamento com a esquerda é apenas a constatação de um facto.
Dizem muitos analistas que Bush conseguiu dividir a Europa. Disse-o, por exemplo, Miguel Sousa Tavares à TVI. É falso. O que é verdade é que a posição da administração Bush relativamente ao Iraque obrigou a uma separação mais clara de águas que estavam já separadas na Europa. As divisões europeios existiam já, esperando apenas por uma crise séria para se revelarem em todo o seu esplendor. Essa crise surgiu e as divisões revelaram-se. Ainda bem: é preferível discutir-se a união europeia e as suas instituições com todas as divisões existentes em cima da mesa e não convenientemente escondidas debaixo do tapete.

Será que esta crise representa o fim da UE, como alguns dizem? É possível, mas espero sinceramente que não. Terá talvez como efeito uma travagem no processo, mas creio que a longo prazo uma verdadeira união europeia existirá. Uma das discussões que terá de ser feita será a da posição dessa nova europa face aos EUA. Ficará claro que a união europeia só avançará com os EUA e nunca contra eles. O Reino Unido, Espanha, Portugal e muitos países de leste encarregar-se-ão de o garantir.
As minhas desculpas a quem se habituou a ler o Picuinhices e o encontrou inactivo durante quase um mês. Razões pessoais e profissionais levaram a que assim tivesse que ser. Tentarei manter o blog com um mínimo de actividade nos próximos tempos.
João Paulo Guerra igual a ele próprio Há gente que não muda, que é perfeitamente coerente na asneira. Um exemplo acabado é João Paulo Guerra. Na sua coluna do Diário Económico refere-se a George W. Bush como George 'bin' Bush. Já sabíamos que para João Paulo Guerra não havia qualquer diferença entre Bush e bin Laden. As suas crónicas após o 11 de Setembro já o deixavam bem claro. Diz ele que é o governo português diz sim à posição americana "porque dizer sim não faz doer a cabeça". Pois é. Pelos vistos o que faz doer a cabeça a João Paulo Guerra é pensar. Por isso evita fazê-lo.

2003-03-22

Carlos

O que eu dava para voltar ao passado. Para voltar a ser adolescente, em casa de meus pais. Para ouvir o Carlos bater à porta. Vinha partilhar livros, revistas, histórias. Vinha partilhar a sua enorme cultura. Era um homem tímido. Era um homem bom. Bebia e fumava como quem não teme o vício.

Há muito já que saí de casa de meus pais. O Carlos já não era meu vizinho. Mas continuava a sê-lo, no coração e na memória. E continuará a sê-lo. O Carlos morreu. Perdi um vizinho. Perdemos um vizinho. Perdemos o nosso vizinho.

2003-03-19

Manuel Bandeira

Chama e fumo

Amor – chama, e, depois, fumaça...
Medita no que vais fazer:
O fumo vem, a chama passa...

Gozo cruel, ventura escassa,
Dono do meu e do teu ser,
Amor – chama, e, depois, fumaça...

Tanto ele queima! e, por desgraça,
Queimando o que melhor houver,
O fumo vem, a chama passa...

Paixão puríssima ou devassa,
Triste ou feliz, pena ou prazer,
Amor – chama, e, depois, fumaça...

A cada par que a aurora enlaça,
Como é pungente o entardecer!
O fumo vem, a chama passa...

Antes, todo ele é gosto e graça.
Amor, fogueira linda a arder!
Amor – chama, e, depois, fumaça...

Porquanto, mal se satisfaça,
(Como te poderei dizer?...)
O fumo vem, a chama passa...

A chama queima. O fumo embaça.
Tão triste que é! Mas, tem de ser...

Amor?... – chama, e, depois, fumaça:
O fumo vem, a chama passa...

Teresópolis, 1911.

2003-03-04

Dislates de borla Na sua coluna de opinião em o "Público" Eduardo Prado Coelho escreve:
Uma das frases que se tornou num verdadeiro manifesto do espírito económico é aquela que diz que não há almoços grátis. O "homo economicus" organiza-se todo ele em torno deste princípio: nada há que se faça na vida sem uma ideia de algo a ganhar com aquilo que se fez.

Vindo de quem vem não surpreende, mas esclarece. Esta é a visão do "espírito económico" ou melhor da falta deste, que uma certa esquerda, com ares de bonomia, aplica à gestão da "coisa pública".

A interpretação que uma certa direita, liberal e inspirada pelo pensamento ético calvinista, faz é que nada há que se utilize e/ou consuma que não tenha um custo associado. E tendo um custo, existem escolhas a fazer; às quais os princípios éticos não podem ser alheios. Com maior gravidade quando a coisa é publica.

Ou se calhar, todos estes cuidados e zelos mais não são que picuinhices.
Mais um divertido blogue (como eles dizem) na blogosfera (como diz A Coluna Infame): O Blogue dos Marretas. Para variar, não é esquerdista. Bem vindos ao clube!
Dreaming of Democracy de George Packer, é um artigo muito interessante e crítico acerca da oposição iraquiana no exílio e a intenção de democratizar o Iraque da administração americana. O artigo centra-se na figura de Kanan Makiya, um dissidente iraquiano, autor de "Republic of Fear", e um lutador pela libertação e democratização do Iraque.
The Left's unholy alliance with religious bigotry, de Nick Cohen, no Guardian de ontem. Um pequeno extracto:

What is the Left offering Iraq? It has no strategy other than the continuation of a brutal status quo. It can't support the Iraqi democrats because they say Saddam can only be overthrown by violence.

It can't support the Iraqi Kurds because they agree. It has been reduced to allying with religious bigots, the deadliest enemy of those best and brightest Muslims who offer that rare commodity in the Islamic world, hope.

Confesso que não esperava encontrar prosa tão certeira no Guardian... Devo estar a ficar preconceituoso.
OPEP alvo dos EUA, segundo Boaventura Sousa Santos A sério? Pensava que era evidente que os EUA, como país liberal, eram contra os cartéis. Será Boaventura Sousa Santos a favor? Provavelmente. Liberalizar é uma palavra que causa alergia aos arautos da "globalização alternativa" (leia-se: colectivismo mascarado). Por mim, sou claramente contra todos os cartéis, OPEP incluída.

(As afirmações desta e das anteriores entradas foram retiradas do artigo As perguntas incómodas de Freitas do Amaral, no Público de hoje.)
Alguns patrões usam a guerra como desculpa para mais despedimentos. O Arts and Letters Daily, que recomento, inclui entre as suas ligações o hilariante Postmodern Generator. Seria interessante desenvolver um Gerador Carvalho da Silva. Aposto que era fácil produzir um programa de computador capaz de gerar discursos menos repetitivos e previsíveis que Carvalho da Silva. E seguramente mais interessantes.
A nossa extraordinária Maria de Lurdes Pintassilgo (MLP) pergunta-se (durante a famigerada sessão contra a guerra na Aula Magna) se "será legítimo, por exemplo, que membros da Administração Bush andem a correr mundo, a contactar presidentes de países paupérrimos? [...] Esses países fazem parte do Conselho de Segurança e tudo é permitido para comprar o seu voto". Os EUA numa atitude multi-lateral, em contactos diplomáticos? Com países pobres, ainda por cima? Não deveria ser permitido, como é evidente. Talvez devêssemos mudar a carta das Nações Unidas para proibir esse tipo de contactos perversos entre ricos e pobres. A riqueza corrompe, parece ser a tese de MLP. Esses "países paupérrimos" não merecem qualquer consideração por parte de MLP. Segundo ela, não só é evidente que os EUA os tentarão comprar, como é inevitável que os países pobres se deixem corromper...
Tem sido habitual ultimamente os opositores da guerra declarem-se contra a administração Bush, mas aliados "do povo americano, das elites americanas, das universidades americanas", como afirmou Mário Soares no encontro contra a guerra da Aula Magna. Curiosamente, poucas, muito poucas destas declarações de "pró-americanismo" incluem a tradição democrática e liberal americana. A razão é evidente: quem o afirma são os mesmos que aproveitaram os problemas legais surgidos durante as últimas presidenciais nos EUA para acusar o sistema americano de "imperfeito" ou "deficiente". São os mesmos que, como Fernando dos Santos Neves no Público de hoje, acham que "a América de Bush [se situaria] no rol dos países párias e terroristas por excelência". Claramente, nos EUA não há um sistema perfeito. É verdade que os EUA têm a sua dose de asneiras em política externa. Mas muito mais interessante do que constatá-lo seria fazer um momento de autocrítica. Sendo um sistema imperfeito, será que, na sua globalidade, é pior que o português? Ou que o Francês? Haverá sistemas perfeitos? Haverá países sem erros no seu passado? Cômputo geral, as acções americanas no mundo ao longo do século passado foram positivas ou negativas? Mas este exercício é impossível de fazer... Poucos dos que fazem as acusações viram a queda do bloco soviético como uma vitória da democracia e da liberdade. E menos ainda reconheceram o papel imprescindível que os EUA tiverem nessa queda. Perante tais descolagens da realidade, são inúteis os argumentos.
"Será que já estamos amordaçados? Será que já somos países satélite?" Perguntas de Freitas do Amaral, no encontro da Sábado na Aula Magna. Como tem sido habitual ultimamente, Freitas do Amaral está enganado. Que ele não está amordaçado, é evidente, pois a sua opinião tem-se ouvido com insistência. Todos agradecíamos se a discussão acerca do Iraque se fizesse com um mínimo de razoabilidade. Somos um país satélite? A avaliar pelas palavras de Ana Gomes, sim, mas satélite do Wall Street Journal, pelos vistos, que segundo Ana Gomes terá "estado por trás" da carta dos oito. Aliás, pelos vistos também o Reino Unido é satélite desse jornal... Mas Ana Gomes disse mais. Disse que terão existido razões obscuras para a preferência do ministro da defesa por aviões da Lockheed-Martin em detrimento da Airbus. As acusações são extremamente graves. Esperemos que o ministro ponha tudo em pratos limpos e exija explicações a Ana Gomes.

2003-03-02

Acerca da Coreia do Norte, é interessante verificar como as posições da administração dos EUA são criticadas pelos próprios conservadores. Joshua Muravchik, de que já aqui referi o livro "Heaven on Earth: The Rise and Fall of Socialism", do American Enterprise Institute, escreve na revista Commentary um artigo interessante: Facing Up to North Korea. Nele ataca as políticas que têm sido seguidas em relação à Coreia do Norte, que acusa de terem contribuído para a situação actual, em que um ditador tem aparentemente o caminho livre para se armar de uma forma assustadora. Diz ele, como conclusão do artigo, que

When there are no longer powerful men like these [Saddam, Kim Yong Il e bin Laden], then we may truly begin to speak of the end of history. Until then, the preservation of all we hold dear will require unillusioned clarity, vigilance, courage—and, it is to be feared, sacrifice.
Uma das críticas mais frequentes à posição dos EUA sobre o Iraque e as inspecções das Nações Unidas é a de que o ónus da prova não pode recair sobre o Iraque, pois não se pode demonstrar a não-posse do que quer que seja. O argumento parece válido, à primeira vista, mas esquece que toda e qualquer destruição de armamento exige documentação e testemunhas. A esse propósito é elucidativo ler o rascunho do relatório de Hans Blix datado de 23 de Fevereiro:

The Iraqui Commission established to search for and present any proscribed items is potentially a machanism of importance. It should, indeed, do the job that inspectors should not have to do, namely, tracing any remaining stock or store of proscribed items anywhere in Iraq. [...]

Claro como água: sem a colaboração Iraquiana, nada feito. Daí a insistência dos EUA na cooperação do Iraque,
Na revista Commentary de Dezembro, David Berlinski, um opositor do darwinismo, faz um ataque feroz à versão mais inteligente do criacionismo que surgiu até hoje: a teoria do do desenho ou concepção inteligente (intelligent design). O artigo é muito interessante, e desencadeou uma forte polémica. Correndo o risco de parecer que quero reduzir o artigo todo a uma frase, que não é de todo representativa, não resisto a uma citação:

Faith in a designed universe might well be rather like faith in a planned economy, a doctrinal commitment that cannot survive a confrontation with experience.
A Virtude do Ódio Terrível artigo de Meir Y. Soloveichik, na First Things, sobre a virtude do ódio e a diferença entre cristãos e judeus no que diz respeito ao perdão. Cito apenas o final do artigo:

But one thing is certain: we will not soon forgive the actions of a man who, as he sent children to kill children, knew—all too well—just what he was doing. We will not—we cannot—ask God to have mercy upon him. Those Israeli parents whose boys and girls did not come home will pray for the destiny of his soul at the conclusion of their holiest day, but their prayer will be rather different from the rosary:

Let the terrorist die unshriven.

Let him go to hell.

Sooner a fly to God than he.


Apesar de agnóstico, não podia concordar mais.

2003-03-01

Uma edição especial da bela revista "O Egoísta", com o título "Portugal: Pensar o Futuro", acabou de sair para as bancas. 25 € é muito dinheiro por uma revista. Mas não resisti. Afinal, não é todos os dias que se pode ler textos mono-temáticos de tantas personalidades portuguesas numa única publicação. Infelizmente, o resultado é medíocre.

O editorial é pomposo e vazio, com as suas repetidas referências à psicanálise a que os portugueses se deveriam submeter. D. José Policarpo enche uma página de lugares comuns e vazio de real informação. Mário Soares é igual a si próprio. Começa bem, mas termina com as suas já habituais diatribes anti-americanas. Desta vez, pelo menos, não sugere nenhuma conspiração americana por trás do 11 de Setembro. Menos mal, nesse ponto, mas vejamos outros:

A enigmática China, que começa a sentir-se cercada pelos Estado Unidos, não ficará tão silenciosa como até aqui, sobretudo se as fanfarronadas do Secretário americano para a Defesa, Donald Rumsfeld, contra a Coreia do Norte, viessem a concretizar-se.

Infelizmente a minha memória é curta, mas não terei eu ouvido ou lido algures o próprio Mário Soares sugerir que, para serem corerentes com o que fazem no Iraque, os EUA não deveriam estar a propor soluções diplomáticas para a Coreia do Norte? Talvez não tenha dito. Mas o efeito é o mesmo. A nossa esquerda não sabe o que quer. Ou melhor, sabe. Atacar os EUA em quaisquer circunstâncias. O que quer que os EUA façam. Um pouco à frente, Mário Soares refere-se a Lula:

[...] no outro extremo do mundo, o nosso irmão Brasil, com Lula, se o cerco que lhe fizerem não for excessivo, poderá vir a dar-nos algumas boas surpresas.

O interessante é que não é a primeira vez que os defensores de Lula, antecipando o seu futuro fracasso, apresentam desde já uma explicação para ele: o "cerco" capitalista, "a conspiração" americana, "as forças sinistras da direita religiosa americana". Lula não será nunca responsável por nada, obviamente.

Mais à frente, depois de uma sequência de palavras alinhadas atrás de palavras num completo desperdício de tinta, da autoria do nosso Primeiro Ministro, José Manuel Durão Barroso, temos direito a mais um pedaço de prosa dessa figura incontornável da asneira lusitana: Maria de Lurdes Pintassilgo. Diz ela que "a ignorância é a mais grave disfunção do mundo político". Presume-se que se exclui desse mundo, mas faz mal. Veja-se, por exemplo, esta brilhante incursão na física, com os mesmos resultados lamentáveis que Alan Sokal desmontou no seu genial "Imposturas Intelectuais":

Hoje é certo que nada se pode prever -- a imprevisibilidade é uma lei geral da Física que se estende a todos os domínios.

A senhora é engenheira, não o esqueçamos. Deve, por isso, ter boas bases para esta nova teoria. Aliás, sendo já lei, presume-se que a teoria tenha já sustentação empírica. Talvez tenha sido comprovada por uma vida inteira de previsões falhadas, quem sabe... Enfim, proponho que esta nova Lei da Física receba o nome da sua autora. Enunciemos, pois, a lei Pintassílgo: "tudo é imprevisível". Deve ser terrível deitar-se sem saber se o Sol se levantará no dia seguinte à hora prev..., perdão, adivinhada pelos astrónomos.

Depois vem o texto de Adriano Moreira. Sinceramente, admito que o senhor seja de facto uma sumidade em relações internacionais. Mas será que lhe custava muito escrever de uma forma clara e directa? Não há texto de Adriano Moreira que não seja denso e retorcido. Não, não são as ideias que são complicadas: é mesmo a forma. Não compreendo o que se ganha com isso.

E a coisa continua... Depois comentarei os restantes textos, se é que alguma vez terei paciência para os ler todos.
Bloco de Esquerda: Recauchutagem do trotskismo Carlos Jalali, da Universidade de Oxford, referindo-se ao Bloco de Esquerda na apresentação de um livro com os resultados do primeiro inquérito pós-eleitoral realizado em Portugal: "[o Bloco de Esquerda revela-se] um caso único de recauchutagem [uma] mistura de valores pós-materialistas com trotskismo". No Público de hoje.
Um pesadelo africano Manuel Villaverde Cabral, em 'Um Sonho Africano' no DN de hoje, defende o papel importante de Savimbi em Angola, na luta contra o totalitarismo comunista do MPLA. Concordo. Mas concordo apenas até às eleições de 1992. Estas eleições, ao contrário do que Villaverde Cabral diz, foram no essencial justas, tal como os observadores internacionais confirmaram na altura. Savimbi não aceitou as eleições (cujo resultado também não me agradou). O MPLA reagiu com uma violência inaudita e criminosa. A verdade, porém, é que a partir dessa data Savimbi se tornou num carrasco para a população angolana. Ao lado da sua intransigência guerreira, a corrupção grosseira e o regime lamentável do MPLA ficava a ganhar. A morte de Savimbi foi a melhor notícia do ano passado para Angola e os angolanos. Claro que agora, sem Savimbi ao lado, o regime do MPLA já não ganha por comparação com um inimigo bem pior. As características desse regime, com origens socialistas, revelam-se em todo o seu explendor. No entanto, julgo que Angola tem futuro. Espero que Angola se democratize depressa: os angolanos merecem sair de um longo pesadelo. Que o fantasme de Savimbi não os atormente.
Na Coluna Infame, Pedro Mexia escreve:

O TEMPO PASSA (II): Lembro-me: há dez anos ouvi um tipo meio lunático (mas muito talentoso) dizer que havia um sistema de pôr em rede todos os computadores, de criar correio electrónico e de aceder a um fluxo infinito de informação, e que em breve isso seria o nosso dia-a-dia, mais imprescindível do que a televisão. Na altura achei que ele tinha esvaziado o Johnny Walker. Foi há dez anos.

Há 10 anos, estava eu num laboratório do IST, quando alguém se aproximou de mim e me disse que tinha de ver uma coisa fabulosa que tinha sido inventada no CERN e no NCSA: a World Wide Web e um programa chamado Mosaic. Foi um passo de gigante, de facto. Em poucos minutos tinha o mundo disponível no meu computador. No entanto, nessa altura já usava o correio electrónico há vários anos, pelo menos desde 1986. Já partilhava ficheiros usando FTP, o Archie de boa memória, etc. Parece-me que há um pequeno erro de perspectiva na observação de Pedro Mexia. A Web foi um enorme salto, mas sustentou-se numa experiência de anos de interligação e partilha electrónica no meio académico, embora em Portugal fosse essencialmente no meio académico científico e tecnológico.

2003-02-28

Na secção de crítica a livros de ensaio do DN, Leonídio Paulo Ferreira escreve Contra um Mundo Cheio de Ideias Feitas, uma crítica a três livros de uma nova colecção "Ideias Feitas", da editora Inquérito. Um deles, "A América", apresentado como "o mais sólido" dos três livros, supostamente desmistifica algumas ideias feitas sobre os EUA. A crítica de Leonídeo Paulo Ferreira à segunda das desmistificações que seleccionou, "os EUA estão abertos aos emigrantes", reza assim:


Sobre a segunda tese, se é verdade que os Estados Unidos são o país que mais imigrantes recebe, também é certo que desde muito cedo (ainda no século XIX) começaram a surgir críticas à vinda de novos colonos, sobretudo católicos. Mais tarde, foram mesmo impostos limites à imigração de chineses e japoneses, vistos como o perigo amarelo, e hoje existe um sistema de quotas por país.


E pronto. Eis desmistificado o mito dos EUA abertos à imigração... Pena é não conhecer o livro, para saber se tamanho absurdo é responsabilidade da autora do livro, Hélène Harter, ou do autor da crítica. Será assim tão difícil de perceber que abertura não significa forçosamente que a entrada se faça sem qualquer controlo?
Vasco Pulido Valente e a ONU Excelente a coluna Faz de Conta, de Vasco Pulido Valente, no DN de hoje. Em poucas palavras diz o que é evidente mas poucos querem ver: a ONU não é nenhum "tribunal supremo, de que hoje depende o direito internacional e a paz no mundo", pelo contrário. É uma instituição onde estão representados inúmeros países não democráticos, onde os membros do Conselho de Segurança não reflectem a situação geoestratégica actual, e onde o Iraque preside à Conferência do Desarmamento...
Mas, por favor, deixem-nos em paz... Há uns anos largos que Lisboa e a maioria das cidades portuguesas se livraram de cartazes nas suas paredes. Infelizmente, há uma excepção, os cartazes do Bloco de Esquerda, herdeiro da velha tradição conspurcadora da esquerda portuguesa, que o MRPP em tempos erigiu em "arte". Acho muito bem que organizem manifestações contra a guerra e que organizem encontros na Aula Magna ou seja onde for. Mas, por favor, compreendam uma coisa elementar: a vossa liberdade termina onde começa a liberdade dos outros, onde começam os direitos dos outros. Temos todos direito a uma Lisboa livre de cartazes. Por isso, deixem-nos em paz! Cresçam.

2003-02-24

O comunismo está de volta. A luta continua. Em entrevista ao Diário de Notícias, Bernardino Soares, presidente do grupo parlamentar do PCP, revela a verdadeira face do comunismo. Alguns extractos:

DN: O PCP é um partido envelhecido?

BS: Não, aliás se nos lembrarmos que em 2002 entraram 1800 novos militantes, 40 por cento dos quais com menos de 30 anos, não podemos considerar que isso seja um partido envelhecido.

DN: Essa ideia pode ter menos a ver com o número de militantes e mais com a ideologia que está traduzida nos estatutos do partido. Concorda?

BS: Os estatutos do PCP não são de hoje. Mesmo assim, nós continuamos a assumir a nossa aspiração de construir uma sociedade diferente e isso tem de se reflectir nos estatutos.

Ou seja, o Partido Comunista continua a querer um revolução. Continua a desejar uma sociedade nova, sustentada num homem novo. As tentativas bárbaras de criar um homem novo e uma sociedade nova na URSS, na China, no Vietname, em Cuba, não convenceram os comunistas da total maldade da sua ideologia.

DN: Consideraria que na Coreia do Norte vigora um regime comunista?

BS: Temos falado nisso em vários congressos... julgo que o que caracteriza a questão do Coreia do Norte, neste momento, é a difícil apreensão do que se passa, de facto, naquele país.

DN: Difícil apreensão? Os dados que dispõe não são suficientes para poder dizer, por exemplo, se a Coreia do Norte é uma democracia?

BS: Tenho muitas reservas em relação à filtragem da informação feita pelas agências internacionais.

DN: Ao ponto de não poder dizer se o país é democrático?

BS: Sim. Tenho dúvidas que não seja uma democracia.

Que dizer? É verdadeiramente extraordinário. Há uns anos largos, logo após o 25 de Abril, ainda Bernardino Soares era uma criança e não havia sinais do desmoronamento da URSS, era esta a forma de responder dos comunistas. Problemas na URSS? Gulag? Abusos? Falta de democracia? Filas nos supermercados? Carros a cair de podres? Tudo invenções da "poderosa máquina de propaganda americana". A ideologia comunista é imune à realidade. Por isso é tão perigosa.

DN: Cuba, que é um caso que conhece melhor, serve de modelo ao PCP?

BS: Não creio que deva haver modelos, mas admito que em Cuba há uma intensa participação da população na vida política e que esse povo tem tido uma luta heróica contra os desígnios norte-americanos que o faz enfrentar um embargo de várias décadas, por vezes criminoso. E mesmo assim, consegue ajudar países menos desenvolvidos, como fazem em África. Esse esforço é de louvar.

DN: Louvaria também a liberdade de expressão?

BS: Aqui há uns tempos vi um líder da oposição dar uma entrevista, no seu pátio em Havana, a uma cadeia de televisão internacional, dizendo que não havia liberdade de expressão. O exemplo fala por si.

DN: E prisioneiros políticos, existem?

BS: Não tenho conhecimento.

DN: Nem lhe interessa ter?

BS: Com certeza que sim, mas também julgo que não há presos políticos em Cuba.

Seria simplesmente ridículo e trágico, se não fosse também perigoso. O comunismo "a sério" estará de volta? Será apenas o delírio de um jovem comunista mais papista que o papa? Ou será mais um indício da fraca memória da nossa sociedade relativamente aos crimes comunistas?

DN: Que significado dá hoje à queda do Muro de Berlim?

BS: Nós já criticámos o afastamento daquilo que julgamos dever ser a construção correcta do socialismo, sem a existência de classes dirigentes privilegiadas e a confusão entre o partido e o Estado. Mas não se pode ignorar que a existência de um campo socialista no século XX teve uma importância fundamental no desenvolvimento da humanidade, influenciando muitos avanços sociais.


Campo socialista... É discutível em que medida os avanços sociais, que existiram, se deveram ao socialismo democrático e à social democracia. Mas não se deveram de todo ao comunismo. O comunismo trouxe miséria, sofrimento e morte. Trouxe o totalitarismo, a ausência de democracia e a guerra.

Infelizmente os extremismos atrairão sempre uma franja da população. A liberdade é resultado de uma luta contínua. A luta contra o comunismo continua!

Bernardino Soares tentou, aparentemente, impedir a publicação desta entrevista. É provável que o Partido Comunista venha acusar o Diário de Notícias de manipulação das respostas ou, alternativamente, que tire a sua confiança política ao entrevistado. Espero sinceramente que isso aconteça. Mas o mal (?) está feito: trata-se de uma das primeiras manifestações de um fundamentalismo comunista que se tem mantido discreto durante a última década. Confirmam-se as suspeitas que surgiram quando Edgar Correia (um renovador!) voltou a falar às claras, no Público, de marxismo.
Susan Sontag a favor da guerra Seguem alguns excertos de um interessante artigo de Susan Sontag:


But opposition to the war is hardly confined [...] to one strand of the political spectrum. On the contrary: mobilized against this war are remnants of the left and the likes of Le Pen [...] on the right. The right is against immigrants. The left is against America. (Against the idea of America, that is. The hegemony of American popular culture in Europe could hardly be more total.)

On both the so-called left and the so-called right, identity-talk is on the rise. The anti-Americanism that is fueling the protest against the war has been growing in recent years in many of the nations of the New Europe, and is perhaps best understood as a displacement of the anxiety about this New Europe, which everyone has been told is a Good Thing and few dare question. Nations are communities that are always being imagined, reconceived, reasserted, against the pressure of a defining Other. The specter of a nation without borders, an infinitely porous nation, is bound to create anxiety. Europe needs its overbearing America.

[...]

It is not that Europe is weak. Far from it. It is that Europe, the Europe under construction since the Final Victory of Capitalism in 1989, is up to something else. Something which indeed renders obsolete most of the questions of justice -- indeed, all the moral questions. (What prevails, in their place, are questions of health, which may be conjoined with ecological concerns; but that is another matter.)

A Europe designed for spectacle, consumerism and hand wringing ... but haunted by the fear of national identities being swamped either by faceless multinational commercialism or by tides of alien immigrants from poor countries.

[...]

Not all violence is equally reprehensible; not all wars are equally unjust.

No forceful response to the violence of a state against peoples who are nominally its own citizens? (Which is what most "wars" are today. Not wars between states.) The principal instances of mass violence in the world today are those committed by governments within their own legally recognized borders. Can we really say there is no response to this? Is it acceptable that such slaughters be dismissed as civil wars, also known as "age-old ethnic hatreds." (After all, anti-Semitism was an old tradition in Europe; indeed, a good deal older than ancient Balkan hatreds. Would this have justified letting Hitler kill all the Jews on German territory?) Is it true that war never solved anything? (Ask a black American if he or she thinks our Civil War didn't solve anything.)

War is not simply a mistake, a failure to communicate. There is radical evil in the world, which is why there are just wars. And this is a just war. Even if it has been bungled.


Concordo com quase tudo. Só que estes extractos não se referem à crise do Iraque: foram retirados de um texto escrito há quatro ano, relativamente ao Kosovo...

Este achado de Susan Sontag estava no hilariante Best of the Web, do Opinion Journal, que recomendo.

2003-02-23

Há uns tempos, um amigo perguntava-me porque é que os EUA e seus aliados na crise do Iraque não tiravam mais partido das alegadas violações dos direitos humanos no Iraque para justificar a sua posição. Senti na observação a sugestão de que essas alegadas violações talvez não correspondessem à verdade, ou fossem grosseiramente exageradas, e por isso os governos tivessem relutância em usá-las como argumento contra o Iraque. Para que este tipo de dúvidas se dissipe, seguem alguma ligações à Amnistia Internacional, insuspeita de apoiar os EUA nesta crise, quer pelas suas (justas) críticas à pena de morte nesse país, quer pela sua (injusta) crítica à ameaça de uso da força no Iraque:
Affirmative Action ou Quotas? Interessantes as Notes & Comments da New Criterion de Fevereiro.
Gratidão Jiri Pehe, conselheiro político do ex-Presidente checo Vaclav Havel, no Público:
A França e a Alemanha não compreenderam que o apoio dos países candidatos aos Estados Unidos não é contra a "velha Europa". É apenas uma expressão de gratidão para com os EUA por terem ajudado a derrubar o comunismo e, mais recentemente, por apressarem o alargamento da NATO- apesar das objecções da Rússia -, numa altura em que a UE continuava a arrastar os pés em relação ao seu próprio alargamento.

Os pequenos Estados do centro da Europa que foram vítimas de agressão durante toda a sua história não podem ser censurados por acreditarem que os EUA continuam a ser o único país que lhes garante verdadeiramente a sua segurança. A União Europeia, apesar de falar muito, nunca chegou a desenvolver uma política de defesa comum.
Augusto Santos Silva continua:

Este equilíbrio traduz-se hoje pela exigência da continuação das inspecções e da pressão política e militar sobre o Iraque, e, sobretudo, por fazer depender uma qualquer intervenção da verificação concludente da existência e potencial uso de armas de destruição maciça e de real ameaça à paz, verificação feita no quadro das Nações Unidas.


Mas a verdade é que deve ser o Iraque a demonstrar que destruiu as armas de destruição em massa. Isso torna-se mais claro quando se lê a carta que o presidente da UNSCOM escreveu em Dezembro de 1998 ao Secretário Geral das Nações Unidas. Um pequeno extracto:

From the inception of the Commission's work in Iraq, in 1991, Iraq's cooperation has been limited. Iraq acknowledges that, in that year, it decided to limit disclosure for the Purpose of retaining certain prohibited weapons capabilities. Three main Iraqi policies ensued:

(a) its disclosure statements have never been complete;

(b) contrary to the requirement that destruction of prohibited capabilities be conducted under international supervision, Iraq undertook extensive, unilateral, secret destruction: and

(c) it also pursued a practice of concealment of proscribed items, including weapons.

This situation, created by Iraq, in particular through the inadequacy of its disclosures, has meant that the Commission has been obliged to undertake a kind and degree of forensic work which was never intended to be the case, The work of the verification of Iraq's disc1osure should have been far easier and been able to be undertaken far more quickly than has proven to be the case.

In addition, these circumstances have meant that, in spite of the years that have passed and the extensive work that has been undertaken, it has not been possible to verify Iraq's claims with respect to the nature and magnitude of its proscribed weapons programme and their current disposition.
Uma no cravo, outra na ferradura No Público de hoje (ontem), Augusto Santos Silva diz:

Dizermos, hoje, que estaremos contra qualquer intervenção em qualquer circunstância é dizer a Saddam que toleraríamos que expulsasse outra vez os inspectores e gaseasse outra vez o seu povo. Sem a pressão política internacional, que tem de conter, no limite, a ameaça do uso da força, ele não parará.

Estas duas ambiguidades podem e devem ser corrigidas. Na minha opinião, a grande maioria das pessoas que se manifestam hoje, de várias formas, contra a pulsão bélica de Bush e Blair estará disponível para apoiar uma posição política que procure evitar o desencadeamento de uma aventura imperial ilegítima e de consequências imprevisíveis, mantendo ao mesmo tempo fortíssima pressão internacional sobre a ditadura iraquiana. Mais: estará disponível para apoiar um verdadeiro combate às bases económicas, financeiras, políticas e militares do terrorismo mundial, esse que mostrou o seu rosto hediondo a 11 de Setembro de 2001.


É a quadratura do círculo. Por um lado, reconhece que sem "a ameaça do uso da força, ele [Saddam] não parará". Mas por outro, acusa os EUA e o Reino Unido de "pulsão bélica", de pretenderem desencadear "uma aventura imperial ilegítima e de consequências imprevisíveis", justamente porque ameaçam com o uso da força de uma forma credível. É verdadeiramente esquizofrénico.