2003-03-28

Mia Couto A Carta ao Presidente Bush, de Mia Couto, publicada hoje no Público, é um exercício de difícil classificação: ou é, de facto, a demonstração da posse de uma "arma de estupidez maciça" por parte de uma certa esquerda, ou, pelo contrário, trata-se de uma manipulação perversa dos factos. O texto é difícil de analisar, pois sendo constituído por muitas verdades, resulta numa enorme mentira.

Mia Couto elenca os países bombardeados pelos EUA desde a Segunda Guerra Mundial. A listagem parece ser rigorosa. Nela surgem, por exemplo, a Coreia (1950-1953), o Camboja (1969-1970), o Iraque (1990-2001), o Afeganistão (1998) e a Juguslávia (1999), entre outros. Uma lista exaustiva, cujo intuito é claramente apresentar os EUA como agressores inveterados. Que a grande maioria desses "bombardementos" tenham sido suportados pelas Nações Unidas e que Sul Coreanos, Kuwaitianos, Afegãos e Kosovares estejam hoje agradecidos aos EUA pelo sacrifício de vidas e dinheiro em nome da liberdade e da derrota do comunismo ou do fundamentalismo islâmico, não lhe diz nada. Apresentar os erros dos EUA pode ser um exercício útil. Classificar como erros e como imorais todas as suas intervenções destina-se a construir uma falsa realidade. Que dizer de uma lista em que o Kuwait surge na lista de agressões dos EUA? Presume-se que se refira à intervenção de libertação do Kuwait em 1991 (a data coincide), mas esses bombardeamentos foram feitos para apoiar o próprio Kuwait, para o libertar dos invasores Iraquianos, e foram feitos no âmbito de uma coligação internacional gigantesca. A manipulação é grosseira e enoja.

O desfolhante, usado no Vietname pelos EUA, serve para supostamente demonstrar que os EUA usaram armas químicas. Não importa que o desfolhante não fosse usado com o propósito directo de matar o inimigo, mas sim de despir de folhagem as árvores e arbustos que podessem servir de cobertura para o inimigo. Certamente uma táctica muito criticável, mais a mais quando se soube que esse herbicida estava altamente contaminado com uma dioxina nociva para os humanos, resultado indesejado do processo químico de fabrico do produto. Aparentemente os resultados dessa contaminação foram terríveis, embora as discussões acerca da extensão dos seus efeitos continuem, mas pode-se honestamente comparar o uso de desfolhante com o uso de armas químicas propriamente ditas? É distorcer os factos.

Também é fácil apresentar as políticas de alianças dos EUA como apoiando persistentemente a pior espécie de crápulas. Mais uma vez, é uma meia verdade. Esquece que, no tempo em que os EUA apoiaram combatentes anti-comunistas ligados ao fundamentalismo islâmico, por exemplo, o perigo para o mundo era a URSS.

Mas não, esqueço-me... Para Mia Couto, a URSS não era uma ameaça. Não. Para Mia Couto, Saddam Hussein e Kim Yong-Il não representam qualquer perigo internacional: o perigo são os EUA. Na realidade, para Mia Couto o problema é outro. Não são os EUA em si, mas o facto de representarem e promoverem o capitalismo liberal, que ele, como tantos outros, não suporta. Mia Couto, um africano, deveria saber melhor que o que falta a África é acima de tudo democracia, mas também mais capitalismo e liberalismo. As experiências comunistas e socialistas africanas deixaram África de joelhos, esfomeada.

Mas não. Esqueço-me de novo... O comunismo e o socialismo não falharam nunca: foram boicotados pelas forças sinistras do capitalismo predador, responsável pelo estado calamitoso de África... A ideologia é imune à realidade.

Mia Couto termina dizendo, dirigindo-se a Bush, que:

O maior perigo não é o regime de Saddam, nem nenhum outro regime. Mas o sentimento de superioridade que parece animar o seu Governo. O seu inimigo principal não está fora. Está dentro dos EUA. Essa guerra só pode ser vencida pelos próprios americanos. Eu gostaria de poder festejar o derrube de Saddam Hussein. E festejar com todos os americanos. Mas sem hipocrisia, sem argumentação para consumo de diminuídos mentais. Porque nós, caro Presidente Bush, nós, os povos dos países pequenos, temos uma arma de construção maciça: a capacidade de pensar.

Infelizmente essa capacidade para pensar, a existir, não se revela nesta carta lamentável de Mia Couto. Pior, infelizmente parece não existir em grandes quantidades em alguns países pequenos, tais como Portugal e Moçambique. Enquanto não percebermos que a produção científica americana, a quantidade de prémios Nobel norte-americanos, a produção cultural americana, revelam muito mais capacidade de pensar do que países como Portugal ou Moçambique têm demonstrado, não há nada a fazer. De facto, a ignorância julga-se sábia.

2003-03-23

João Pereira Coutinho, na sua última Vida de Cão, n'O Independente, faz um elogio ao ódio. Tudo bem. Mas porque não citar o artigo original, já aqui referido?
Para lá da tempestade de areia Excelente artigo de Timothy Garton Ash acerca da crise no Iraque e da posição de Blair. Diz ele que continua "a não estar convencido de que esta guerra específica neste momento específico seja legítima, necessária ou prudente" e que espera "contra a esperança que a nossa vitória seja rápida, que o regime perverso de Saddam se desmorone como um castelo de cartas e que as consequências no Médio Oriente sejam positivas". Faço minhas as suas palavras, embora pessoalmente esteja bastante mais convencido da justeza desta guerra. Confesso, no entanto, que tenho fortes receios que o regime de Saddam consiga resistir militarmente muito mais do que seria desejável. Isso levaria a uma enorme perda de vidas. A guerra é suja e violenta, é verdade. Por isso, espero que os soldados americanos e britânicos se portem à altura, que cumpram as convenções de Genebra, que sejam corajosos e que lutem honradamente pela libertação do Iraque. Espero que os danos colaterais sejam mínimos e que haja poucas vítimas civis. Espero que o Iraque em breve esteja livre de Saddam e no caminho da democracia. São muitas esperanças... talvez demasiadas.
Vital Moreira diz que os Estados Unidos precipitaram a guerra para evitar a cada mais provável demonstração de que o Iraque estava, de facto, desarmado. É uma distorção grosseira dos factos. Esquece 12 anos de resoluções por cumprir e quatro anos sem inspecções, esquece também que o regime de Saddam Hussein não fez a declaração completa de todo o seu arsenal quando apresentou milhares de páginas às Nações Unidas em finais do ano passado e que o próprio Hans Blix disse que as declarações de Bagdad estavam longe de ser esclarecedoras quanto ao paradeiro de armas químicas e biológicas supostamente já destruídas mas de que não há qualquer prova de destruição. Esquece ainda que os mísseis al-Samoud 2 não constavam da declaração do regime de Saddam Hussein. O disparo recente de mísseis Scud, que supostamente já não existiam, sobre o Kuweit deve ter dissipado as últimas dúvidas acerca da colaboração de Saddam Hussein com as Nações Unidas.

No mesmo artigo, Vital Moreira acusa um tal "lobby" judaico de estar por trás do ataque ao Iraque. A resposta eloquente é dada por Esther Mucznik no Público de sexta-feira. Como o artigo não está disponível na Web, segue um pequeno extracto da resposta:


Não vale a pena lembrar que a esmagadora maioria dos judeus americanos votou nos democratas e que o facto de alguns judeus fazerem parte do círculo próximo de Bush não é em si representativo da opinião da maioria da cominidade judaica americana. É o mesmo que dizermos que Colin Powell ou Condolezza Rice são representativos do imenso "lobby" negro que influencia os destinos da América... mas contra os estereótipos, a razão de pouco serve.


Século de Ouro e Matlab Independentemente das polémicas acerca da ausência de Manuel Alegre ou de Miguel Torga da antologia "Século de Ouro: Antologia Crítica da Poesia Portuguesa do Século XX", sobre as quais não tenho competência para me pronunciar, uma coisa é verdade: a introdução à dita antologia é patética. Veja-se esta pequena transcrição:


A antologia e o aleatório

Não podemos descartar a hipótese de, num futuro não muito distante, um qualquer programa informático de geração de texto vir a produzir uma obra cujo material inscrito coincida ad litteram com Século de Ouro. Antologia Crítica da Poesia Portuguesa do Século XX. É ainda possível imaginar que a produção aleatória de discurso que acabasse por chegar à coincidência com este volume não fosse resultado de uma qualquer demanda – i.e. não fosse um fim procurado – e que acontecesse no total descaso de Século de Ouro. Antologia Crítica da Poesia Portuguesa do Século XX. Comparado com os condicionamentos materiais de outros momentos históricos, podemos especular que o actual terá aumentado o índice de coincidências, e que elas talvez venham a conhecer uma exponencial ocorrência e consequente trivialização. O facto de sabermos que as coincidências vão continuar a ter lugar, todavia, não nos autoriza a retirar uma qualquer moral da história. A possibilidade das coincidências é justamente o contrário: o pouco moral que a história é. Todavia, não há como obviar tão-pouco à contumácia da moralização das coincidências, oscilando entre o Cálculo e o Acaso, Deus ou o Jogo de Dados [caramba!].

Este livro dispõe-se a oferecer um máximo de resistência a esse horizonte previsível, não tão pouco plausível quando pensamos que existem já programas informáticos que geram romances e poemas [diz-se que Saramago tem, na realidade, um computador por ghost writer...]. O volume vale-se, neste sentido, e para proveito próprio, da astúcia estranha que encarna uma dispositio aleatória dos poemas. Esclareça-se. pois, que o encadeamento dos poemas antologiados foi gerado por um programa informático. Não decorreu, por consequência, da agência dos organizadores, quer da que pudesse ser imposta por uma racionalidade histórico-literária (cronológica ou outra), quer de uma ordenação pensada pensada a partir de uma evantual sucessão criteriosa dos ensaístas participantes. Este facto, desde já, desinveste a dramaticidade putativa dessa futura moral da história. O aleatório repetiria, repetirá, o aleatório. Este recurso à Máquina [sic], todavia, nos tempos que correm, não é suficiente para indexar este volume, que antologia a ficção poética, à ficção científica. O computador, pela sua «natural» domesticidade, não chega a representar um nosso alter ego. Século de Ouro, de resto, é o resultado da imbricação desse artefacto high-tech com a mais pobre tecnologia que é o «livro».


E continuam com esta prosa vazia de conteúdo só para dizerem que a ordem de apresentação dos poemas é aleatória. Mais à frente dizem que "a fidelidade a este programa [obtido, frisam, através de um script Matlab...] sublinha apenas o quanto a sequência [dos poemas] foi determinada por um puro acaso". Puro engano. O Matlab, como qualquer outro programa, não gera números aleatórios, mas pseudo-aleatórios:

RAND produces pseudo-random numbers. The sequence of numbers generated is determined by the state of the generator. Since MATLAB resets the state at start-up, the sequence of numbers generated will be the same unless the state is changed.


Mesmo que iniciassem a semente de geração dos números aleatórios com, por exemplo, o tempo de processamento, os números continuariam a não ser verdadeiramente aleatórios. Melhor seria terem baralhado convenientemente 72 cartas de jogar diferentes (52 de um baralho e 21 de outro, com costas de outra cor). Mas, nesse caso, não teriam podido escrever tanta palha. Aliás, para que se fique com uma ideia, as referências "eruditas" a Deus exMachina etc., justificadas pela utilização do Matlab, prolongam-se por cinco páginas!

Recomendo uma leitura para se compreender como as imposturas intelectuais que Sokal tão bem desmascarou continuam de boa saúde. Alguma pistas para outras referências ignorantes a conceitos matemáticos ou estatísticos: a necessidade que os autores da antologia sentiram de escolher (pseudo-)aleatoriamente entre permutações elas próprias obtidas (pseudo-)aleatoriamente e a referência à "não-linearidade" de uma série aleatória...
Tabula Rasa Steven Pinker publicou há pouco tempo o seu último livro: "The Blank Slate: The Modern Denial of Human Nature". Nele ataca as tentativas recentes de negação da natureza humana, nomeadamente da enorme influência genética na personalidade de cada um de nós e no próprio funcionamento das sociedades. Segundo Pinker, as doutrinas mais comuns neste fenómeno de negação são as da Tabula Rasa, do Bom Selvagem e do Fantasma na Máquina. Segundo a doutrina da Tabula Rasa, originada em Locke, o ser humano nasceria sem qualquer pré-programação genética, ou seja, a sua personalidade seria determinada unicamente pelas experiências pós-nascimento. A doutrina do Bom Selvagem, por outro lado, teria origem em John Dryden, embora seja normalmente atribuída a Rousseau, e diz que o ser humano nasce naturalmente livre e bom, sendo corrompido pela sociedade. Finalmente, a doutrina do Fantasma na Máquina afirma que existe uma dualidade entre corpo e mente: a mente controla o corpo, habitando-o, e não é um produto do próprio corpo. O livro está escrito de uma forma brilhante, pelo menos até onde o li até agora, encarregando-se de demonstrar a falsidade de cada uma destas doutrinas e de apontar as consequências nefastas que a crença em cada uma delas traz para as nossas sociedades.

As duas primeiras falácias são sustentáculo ideológico da esquerda. Quando a esquerda defende que é necessária prevenção, pois a repressão é uma violência desnecessária, está a basear-se na doutrina do Bom Selvagem, pois nega que a maldade possa ser inata, sendo por isso curável ou, pelo menos, possível de prevenir. Daí, por exemplo, os seus ataques às políticas de tolerância zero, aplicadas com sucesso retumbante por Giuliani em Nova Iorque. Quanto à primeira doutrina, ela tem sido aplicada com notável sucesso na negação das diferenças entre os sexos ou entre as diferentes raças. De facto, qualquer estudo científico que tente fazer uma análise das características das diferentes raças humanas é classificada automaticamente de racista. Autores como Stephen Jay Gould (1941-2002), no Capítulo 12 de "The Flamingo's Smile", argumentam que a divisão em raças é arbitrária, e não encaixa nas classificações usadas pela ciência. Em zoologia, segundo ele, abaixo no nível das espécies só se definem sub-espécies, e os critérios necessários para haver sub-espécies diferentes da espécie Homo sapiens não são preenchidos por aquilo a que chamamos raças. Terminava memo dizendo que "Human equality is a contingent fact of history". Esta análise é, claramente, ideológica. As definições de espécie e sub-espécie não são, em si, científicas. São definições de mera conveniência. Isto é claro se se compararem as definições de espécie em zoologia e em botânica, por exemplo. Em zoologia o facto de dois indivíduos poderem ter descendentes férteis implica que pertencem à mesma espécie. Em botânica não: existem plantas classificadas em espécies diferentes que podem cruzar-se entre si, produzindo descendência não-estéril. Além disso, Gould, como muita gente de esquerda, parecia confundir igualdade perante a lei ou igualdade de dignidade e direitos, com igualdade de facto. A negação a priori das diferenças entre raças e sexos é ideológica e profundamente anti-científica. Num ponto lhes dou razão, no entanto. Estudos científicos que alguma vez viessem a demonstrar diferenças entre raças humanas, por pequenas que fossem, viriam inevitavelmente a ser usadas por muita gente para justificar tratamentos discriminatórios. O que não creio é que a negação da ciência e da verdade seja a solução para este possível problema.

Mas a verdade é que a ciência e a verdade não sofrem apenas o ataque da esquerda pós-modernista. Alguma direita religiosa, especialmente nos EUA, mantém uma longa guerra com a teoria da evolução das espécies de Darwin (criticada pelo próprio Stephen Jay Gould): o criacionismo. A última versão do criacionismo, e talvez a mais inteligente surgida até hoje, é a da Concepção Inteligente, que mantém que as características dos seres vivos são tais que revelam inevitavelmente que uma inteligência os concebeu, tal como o mecanismo de um relógio revela a inteligência que o desenhou.

Não há dúvida. A ideologia é avessa à ciência e à verdade.

P.S. Steven Pinker escreveu um artigo sobre o mesmo assunto no último número da Skeptical Inquirer, revista que recomendo a todos os amantes da ciência.
Vicente Jorge Silva tem alguma razão quando diz que não existe coerência e consistência editorial no Público, mas apenas no sentido em que o posicionamento ideológico dos seus directores está muito longe de ser uniforme. Não tem razão porque do ponto de vista estritamente jornalistico não parece existir falta de coerência no Público, que apesar dos seus defeitos é um bom jornal. Também não tem razão quando diz que a falta de coerência (ideológica) existente na direcção é um problema. Não é um problema nem um defeito: é uma característica do Público que acho até muito interessante. Um jornal com uma direcção incoerente ideologicamente tem alguma dificuldade em tomar posição relativamente à guerra no Iraque, é verdade, mas sinceramente não vejo isso como um problema, tal como não vejo nenhum problema no alinhamento crítico d'O Independente com a firmeza da administração americana em relação ao Iraque.
Em Portugal, se exceptuarmos talvez o Independente, as redacções dos jornais de referência são tradicionalmente de esquerda. É o caso, por exemplo, do Público, onde as posições liberais de José Manuel Fernandes equilibram a balança ideológica do jornal. As redacções estão presas pela obrigação de apresentar factos e não opinões. Por vezes isso não acontece, deixando alguns artigos transparecer claramente a opinião dos jornalistas. Ainda assim, é provavelmente verdade que as redacções se sentem constrangidas, pelo que os cartoons acabam por servir de escapatória. De facto, é interessante como eles revelam claramente (e acredito que involuntariamente) o que as redacções dos jornais pensam. Veja-se o caso do Bartoon no Público e do Cravo & Ferradura, no Diário de Notícias. No Bartoon do Público de ontem, por exemplo, um soldado americano de pala no olho conversa com o empregado de balcão, que lê o jornal: "'Segundo Bush, a intervenção militar no Iraque visa criar um mundo mais pacífico. Um mundo mais pacífico?' 'Sim, mas sem exageros'". No Cravo e Ferradura do Diário de Notícias de 14 de Março, um empregado dos correios franceses comenta com um colega a presença da estátua da liberdade, deitada no chão, frente ao edifício dos correios: "Jacques, temos uma devolução". Note-se que admiro o humor de ambos os autores (Luís e Bandeira). O seu alinhamento com a esquerda é apenas a constatação de um facto.
Dizem muitos analistas que Bush conseguiu dividir a Europa. Disse-o, por exemplo, Miguel Sousa Tavares à TVI. É falso. O que é verdade é que a posição da administração Bush relativamente ao Iraque obrigou a uma separação mais clara de águas que estavam já separadas na Europa. As divisões europeios existiam já, esperando apenas por uma crise séria para se revelarem em todo o seu esplendor. Essa crise surgiu e as divisões revelaram-se. Ainda bem: é preferível discutir-se a união europeia e as suas instituições com todas as divisões existentes em cima da mesa e não convenientemente escondidas debaixo do tapete.

Será que esta crise representa o fim da UE, como alguns dizem? É possível, mas espero sinceramente que não. Terá talvez como efeito uma travagem no processo, mas creio que a longo prazo uma verdadeira união europeia existirá. Uma das discussões que terá de ser feita será a da posição dessa nova europa face aos EUA. Ficará claro que a união europeia só avançará com os EUA e nunca contra eles. O Reino Unido, Espanha, Portugal e muitos países de leste encarregar-se-ão de o garantir.
As minhas desculpas a quem se habituou a ler o Picuinhices e o encontrou inactivo durante quase um mês. Razões pessoais e profissionais levaram a que assim tivesse que ser. Tentarei manter o blog com um mínimo de actividade nos próximos tempos.
João Paulo Guerra igual a ele próprio Há gente que não muda, que é perfeitamente coerente na asneira. Um exemplo acabado é João Paulo Guerra. Na sua coluna do Diário Económico refere-se a George W. Bush como George 'bin' Bush. Já sabíamos que para João Paulo Guerra não havia qualquer diferença entre Bush e bin Laden. As suas crónicas após o 11 de Setembro já o deixavam bem claro. Diz ele que é o governo português diz sim à posição americana "porque dizer sim não faz doer a cabeça". Pois é. Pelos vistos o que faz doer a cabeça a João Paulo Guerra é pensar. Por isso evita fazê-lo.

2003-03-22

Carlos

O que eu dava para voltar ao passado. Para voltar a ser adolescente, em casa de meus pais. Para ouvir o Carlos bater à porta. Vinha partilhar livros, revistas, histórias. Vinha partilhar a sua enorme cultura. Era um homem tímido. Era um homem bom. Bebia e fumava como quem não teme o vício.

Há muito já que saí de casa de meus pais. O Carlos já não era meu vizinho. Mas continuava a sê-lo, no coração e na memória. E continuará a sê-lo. O Carlos morreu. Perdi um vizinho. Perdemos um vizinho. Perdemos o nosso vizinho.

2003-03-19

Manuel Bandeira

Chama e fumo

Amor – chama, e, depois, fumaça...
Medita no que vais fazer:
O fumo vem, a chama passa...

Gozo cruel, ventura escassa,
Dono do meu e do teu ser,
Amor – chama, e, depois, fumaça...

Tanto ele queima! e, por desgraça,
Queimando o que melhor houver,
O fumo vem, a chama passa...

Paixão puríssima ou devassa,
Triste ou feliz, pena ou prazer,
Amor – chama, e, depois, fumaça...

A cada par que a aurora enlaça,
Como é pungente o entardecer!
O fumo vem, a chama passa...

Antes, todo ele é gosto e graça.
Amor, fogueira linda a arder!
Amor – chama, e, depois, fumaça...

Porquanto, mal se satisfaça,
(Como te poderei dizer?...)
O fumo vem, a chama passa...

A chama queima. O fumo embaça.
Tão triste que é! Mas, tem de ser...

Amor?... – chama, e, depois, fumaça:
O fumo vem, a chama passa...

Teresópolis, 1911.

2003-03-04

Dislates de borla Na sua coluna de opinião em o "Público" Eduardo Prado Coelho escreve:
Uma das frases que se tornou num verdadeiro manifesto do espírito económico é aquela que diz que não há almoços grátis. O "homo economicus" organiza-se todo ele em torno deste princípio: nada há que se faça na vida sem uma ideia de algo a ganhar com aquilo que se fez.

Vindo de quem vem não surpreende, mas esclarece. Esta é a visão do "espírito económico" ou melhor da falta deste, que uma certa esquerda, com ares de bonomia, aplica à gestão da "coisa pública".

A interpretação que uma certa direita, liberal e inspirada pelo pensamento ético calvinista, faz é que nada há que se utilize e/ou consuma que não tenha um custo associado. E tendo um custo, existem escolhas a fazer; às quais os princípios éticos não podem ser alheios. Com maior gravidade quando a coisa é publica.

Ou se calhar, todos estes cuidados e zelos mais não são que picuinhices.
Mais um divertido blogue (como eles dizem) na blogosfera (como diz A Coluna Infame): O Blogue dos Marretas. Para variar, não é esquerdista. Bem vindos ao clube!
Dreaming of Democracy de George Packer, é um artigo muito interessante e crítico acerca da oposição iraquiana no exílio e a intenção de democratizar o Iraque da administração americana. O artigo centra-se na figura de Kanan Makiya, um dissidente iraquiano, autor de "Republic of Fear", e um lutador pela libertação e democratização do Iraque.
The Left's unholy alliance with religious bigotry, de Nick Cohen, no Guardian de ontem. Um pequeno extracto:

What is the Left offering Iraq? It has no strategy other than the continuation of a brutal status quo. It can't support the Iraqi democrats because they say Saddam can only be overthrown by violence.

It can't support the Iraqi Kurds because they agree. It has been reduced to allying with religious bigots, the deadliest enemy of those best and brightest Muslims who offer that rare commodity in the Islamic world, hope.

Confesso que não esperava encontrar prosa tão certeira no Guardian... Devo estar a ficar preconceituoso.
OPEP alvo dos EUA, segundo Boaventura Sousa Santos A sério? Pensava que era evidente que os EUA, como país liberal, eram contra os cartéis. Será Boaventura Sousa Santos a favor? Provavelmente. Liberalizar é uma palavra que causa alergia aos arautos da "globalização alternativa" (leia-se: colectivismo mascarado). Por mim, sou claramente contra todos os cartéis, OPEP incluída.

(As afirmações desta e das anteriores entradas foram retiradas do artigo As perguntas incómodas de Freitas do Amaral, no Público de hoje.)
Alguns patrões usam a guerra como desculpa para mais despedimentos. O Arts and Letters Daily, que recomento, inclui entre as suas ligações o hilariante Postmodern Generator. Seria interessante desenvolver um Gerador Carvalho da Silva. Aposto que era fácil produzir um programa de computador capaz de gerar discursos menos repetitivos e previsíveis que Carvalho da Silva. E seguramente mais interessantes.
A nossa extraordinária Maria de Lurdes Pintassilgo (MLP) pergunta-se (durante a famigerada sessão contra a guerra na Aula Magna) se "será legítimo, por exemplo, que membros da Administração Bush andem a correr mundo, a contactar presidentes de países paupérrimos? [...] Esses países fazem parte do Conselho de Segurança e tudo é permitido para comprar o seu voto". Os EUA numa atitude multi-lateral, em contactos diplomáticos? Com países pobres, ainda por cima? Não deveria ser permitido, como é evidente. Talvez devêssemos mudar a carta das Nações Unidas para proibir esse tipo de contactos perversos entre ricos e pobres. A riqueza corrompe, parece ser a tese de MLP. Esses "países paupérrimos" não merecem qualquer consideração por parte de MLP. Segundo ela, não só é evidente que os EUA os tentarão comprar, como é inevitável que os países pobres se deixem corromper...
Tem sido habitual ultimamente os opositores da guerra declarem-se contra a administração Bush, mas aliados "do povo americano, das elites americanas, das universidades americanas", como afirmou Mário Soares no encontro contra a guerra da Aula Magna. Curiosamente, poucas, muito poucas destas declarações de "pró-americanismo" incluem a tradição democrática e liberal americana. A razão é evidente: quem o afirma são os mesmos que aproveitaram os problemas legais surgidos durante as últimas presidenciais nos EUA para acusar o sistema americano de "imperfeito" ou "deficiente". São os mesmos que, como Fernando dos Santos Neves no Público de hoje, acham que "a América de Bush [se situaria] no rol dos países párias e terroristas por excelência". Claramente, nos EUA não há um sistema perfeito. É verdade que os EUA têm a sua dose de asneiras em política externa. Mas muito mais interessante do que constatá-lo seria fazer um momento de autocrítica. Sendo um sistema imperfeito, será que, na sua globalidade, é pior que o português? Ou que o Francês? Haverá sistemas perfeitos? Haverá países sem erros no seu passado? Cômputo geral, as acções americanas no mundo ao longo do século passado foram positivas ou negativas? Mas este exercício é impossível de fazer... Poucos dos que fazem as acusações viram a queda do bloco soviético como uma vitória da democracia e da liberdade. E menos ainda reconheceram o papel imprescindível que os EUA tiverem nessa queda. Perante tais descolagens da realidade, são inúteis os argumentos.
"Será que já estamos amordaçados? Será que já somos países satélite?" Perguntas de Freitas do Amaral, no encontro da Sábado na Aula Magna. Como tem sido habitual ultimamente, Freitas do Amaral está enganado. Que ele não está amordaçado, é evidente, pois a sua opinião tem-se ouvido com insistência. Todos agradecíamos se a discussão acerca do Iraque se fizesse com um mínimo de razoabilidade. Somos um país satélite? A avaliar pelas palavras de Ana Gomes, sim, mas satélite do Wall Street Journal, pelos vistos, que segundo Ana Gomes terá "estado por trás" da carta dos oito. Aliás, pelos vistos também o Reino Unido é satélite desse jornal... Mas Ana Gomes disse mais. Disse que terão existido razões obscuras para a preferência do ministro da defesa por aviões da Lockheed-Martin em detrimento da Airbus. As acusações são extremamente graves. Esperemos que o ministro ponha tudo em pratos limpos e exija explicações a Ana Gomes.

2003-03-02

Acerca da Coreia do Norte, é interessante verificar como as posições da administração dos EUA são criticadas pelos próprios conservadores. Joshua Muravchik, de que já aqui referi o livro "Heaven on Earth: The Rise and Fall of Socialism", do American Enterprise Institute, escreve na revista Commentary um artigo interessante: Facing Up to North Korea. Nele ataca as políticas que têm sido seguidas em relação à Coreia do Norte, que acusa de terem contribuído para a situação actual, em que um ditador tem aparentemente o caminho livre para se armar de uma forma assustadora. Diz ele, como conclusão do artigo, que

When there are no longer powerful men like these [Saddam, Kim Yong Il e bin Laden], then we may truly begin to speak of the end of history. Until then, the preservation of all we hold dear will require unillusioned clarity, vigilance, courage—and, it is to be feared, sacrifice.
Uma das críticas mais frequentes à posição dos EUA sobre o Iraque e as inspecções das Nações Unidas é a de que o ónus da prova não pode recair sobre o Iraque, pois não se pode demonstrar a não-posse do que quer que seja. O argumento parece válido, à primeira vista, mas esquece que toda e qualquer destruição de armamento exige documentação e testemunhas. A esse propósito é elucidativo ler o rascunho do relatório de Hans Blix datado de 23 de Fevereiro:

The Iraqui Commission established to search for and present any proscribed items is potentially a machanism of importance. It should, indeed, do the job that inspectors should not have to do, namely, tracing any remaining stock or store of proscribed items anywhere in Iraq. [...]

Claro como água: sem a colaboração Iraquiana, nada feito. Daí a insistência dos EUA na cooperação do Iraque,
Na revista Commentary de Dezembro, David Berlinski, um opositor do darwinismo, faz um ataque feroz à versão mais inteligente do criacionismo que surgiu até hoje: a teoria do do desenho ou concepção inteligente (intelligent design). O artigo é muito interessante, e desencadeou uma forte polémica. Correndo o risco de parecer que quero reduzir o artigo todo a uma frase, que não é de todo representativa, não resisto a uma citação:

Faith in a designed universe might well be rather like faith in a planned economy, a doctrinal commitment that cannot survive a confrontation with experience.
A Virtude do Ódio Terrível artigo de Meir Y. Soloveichik, na First Things, sobre a virtude do ódio e a diferença entre cristãos e judeus no que diz respeito ao perdão. Cito apenas o final do artigo:

But one thing is certain: we will not soon forgive the actions of a man who, as he sent children to kill children, knew—all too well—just what he was doing. We will not—we cannot—ask God to have mercy upon him. Those Israeli parents whose boys and girls did not come home will pray for the destiny of his soul at the conclusion of their holiest day, but their prayer will be rather different from the rosary:

Let the terrorist die unshriven.

Let him go to hell.

Sooner a fly to God than he.


Apesar de agnóstico, não podia concordar mais.

2003-03-01

Uma edição especial da bela revista "O Egoísta", com o título "Portugal: Pensar o Futuro", acabou de sair para as bancas. 25 € é muito dinheiro por uma revista. Mas não resisti. Afinal, não é todos os dias que se pode ler textos mono-temáticos de tantas personalidades portuguesas numa única publicação. Infelizmente, o resultado é medíocre.

O editorial é pomposo e vazio, com as suas repetidas referências à psicanálise a que os portugueses se deveriam submeter. D. José Policarpo enche uma página de lugares comuns e vazio de real informação. Mário Soares é igual a si próprio. Começa bem, mas termina com as suas já habituais diatribes anti-americanas. Desta vez, pelo menos, não sugere nenhuma conspiração americana por trás do 11 de Setembro. Menos mal, nesse ponto, mas vejamos outros:

A enigmática China, que começa a sentir-se cercada pelos Estado Unidos, não ficará tão silenciosa como até aqui, sobretudo se as fanfarronadas do Secretário americano para a Defesa, Donald Rumsfeld, contra a Coreia do Norte, viessem a concretizar-se.

Infelizmente a minha memória é curta, mas não terei eu ouvido ou lido algures o próprio Mário Soares sugerir que, para serem corerentes com o que fazem no Iraque, os EUA não deveriam estar a propor soluções diplomáticas para a Coreia do Norte? Talvez não tenha dito. Mas o efeito é o mesmo. A nossa esquerda não sabe o que quer. Ou melhor, sabe. Atacar os EUA em quaisquer circunstâncias. O que quer que os EUA façam. Um pouco à frente, Mário Soares refere-se a Lula:

[...] no outro extremo do mundo, o nosso irmão Brasil, com Lula, se o cerco que lhe fizerem não for excessivo, poderá vir a dar-nos algumas boas surpresas.

O interessante é que não é a primeira vez que os defensores de Lula, antecipando o seu futuro fracasso, apresentam desde já uma explicação para ele: o "cerco" capitalista, "a conspiração" americana, "as forças sinistras da direita religiosa americana". Lula não será nunca responsável por nada, obviamente.

Mais à frente, depois de uma sequência de palavras alinhadas atrás de palavras num completo desperdício de tinta, da autoria do nosso Primeiro Ministro, José Manuel Durão Barroso, temos direito a mais um pedaço de prosa dessa figura incontornável da asneira lusitana: Maria de Lurdes Pintassilgo. Diz ela que "a ignorância é a mais grave disfunção do mundo político". Presume-se que se exclui desse mundo, mas faz mal. Veja-se, por exemplo, esta brilhante incursão na física, com os mesmos resultados lamentáveis que Alan Sokal desmontou no seu genial "Imposturas Intelectuais":

Hoje é certo que nada se pode prever -- a imprevisibilidade é uma lei geral da Física que se estende a todos os domínios.

A senhora é engenheira, não o esqueçamos. Deve, por isso, ter boas bases para esta nova teoria. Aliás, sendo já lei, presume-se que a teoria tenha já sustentação empírica. Talvez tenha sido comprovada por uma vida inteira de previsões falhadas, quem sabe... Enfim, proponho que esta nova Lei da Física receba o nome da sua autora. Enunciemos, pois, a lei Pintassílgo: "tudo é imprevisível". Deve ser terrível deitar-se sem saber se o Sol se levantará no dia seguinte à hora prev..., perdão, adivinhada pelos astrónomos.

Depois vem o texto de Adriano Moreira. Sinceramente, admito que o senhor seja de facto uma sumidade em relações internacionais. Mas será que lhe custava muito escrever de uma forma clara e directa? Não há texto de Adriano Moreira que não seja denso e retorcido. Não, não são as ideias que são complicadas: é mesmo a forma. Não compreendo o que se ganha com isso.

E a coisa continua... Depois comentarei os restantes textos, se é que alguma vez terei paciência para os ler todos.
Bloco de Esquerda: Recauchutagem do trotskismo Carlos Jalali, da Universidade de Oxford, referindo-se ao Bloco de Esquerda na apresentação de um livro com os resultados do primeiro inquérito pós-eleitoral realizado em Portugal: "[o Bloco de Esquerda revela-se] um caso único de recauchutagem [uma] mistura de valores pós-materialistas com trotskismo". No Público de hoje.
Um pesadelo africano Manuel Villaverde Cabral, em 'Um Sonho Africano' no DN de hoje, defende o papel importante de Savimbi em Angola, na luta contra o totalitarismo comunista do MPLA. Concordo. Mas concordo apenas até às eleições de 1992. Estas eleições, ao contrário do que Villaverde Cabral diz, foram no essencial justas, tal como os observadores internacionais confirmaram na altura. Savimbi não aceitou as eleições (cujo resultado também não me agradou). O MPLA reagiu com uma violência inaudita e criminosa. A verdade, porém, é que a partir dessa data Savimbi se tornou num carrasco para a população angolana. Ao lado da sua intransigência guerreira, a corrupção grosseira e o regime lamentável do MPLA ficava a ganhar. A morte de Savimbi foi a melhor notícia do ano passado para Angola e os angolanos. Claro que agora, sem Savimbi ao lado, o regime do MPLA já não ganha por comparação com um inimigo bem pior. As características desse regime, com origens socialistas, revelam-se em todo o seu explendor. No entanto, julgo que Angola tem futuro. Espero que Angola se democratize depressa: os angolanos merecem sair de um longo pesadelo. Que o fantasme de Savimbi não os atormente.
Na Coluna Infame, Pedro Mexia escreve:

O TEMPO PASSA (II): Lembro-me: há dez anos ouvi um tipo meio lunático (mas muito talentoso) dizer que havia um sistema de pôr em rede todos os computadores, de criar correio electrónico e de aceder a um fluxo infinito de informação, e que em breve isso seria o nosso dia-a-dia, mais imprescindível do que a televisão. Na altura achei que ele tinha esvaziado o Johnny Walker. Foi há dez anos.

Há 10 anos, estava eu num laboratório do IST, quando alguém se aproximou de mim e me disse que tinha de ver uma coisa fabulosa que tinha sido inventada no CERN e no NCSA: a World Wide Web e um programa chamado Mosaic. Foi um passo de gigante, de facto. Em poucos minutos tinha o mundo disponível no meu computador. No entanto, nessa altura já usava o correio electrónico há vários anos, pelo menos desde 1986. Já partilhava ficheiros usando FTP, o Archie de boa memória, etc. Parece-me que há um pequeno erro de perspectiva na observação de Pedro Mexia. A Web foi um enorme salto, mas sustentou-se numa experiência de anos de interligação e partilha electrónica no meio académico, embora em Portugal fosse essencialmente no meio académico científico e tecnológico.

2003-02-28

Na secção de crítica a livros de ensaio do DN, Leonídio Paulo Ferreira escreve Contra um Mundo Cheio de Ideias Feitas, uma crítica a três livros de uma nova colecção "Ideias Feitas", da editora Inquérito. Um deles, "A América", apresentado como "o mais sólido" dos três livros, supostamente desmistifica algumas ideias feitas sobre os EUA. A crítica de Leonídeo Paulo Ferreira à segunda das desmistificações que seleccionou, "os EUA estão abertos aos emigrantes", reza assim:


Sobre a segunda tese, se é verdade que os Estados Unidos são o país que mais imigrantes recebe, também é certo que desde muito cedo (ainda no século XIX) começaram a surgir críticas à vinda de novos colonos, sobretudo católicos. Mais tarde, foram mesmo impostos limites à imigração de chineses e japoneses, vistos como o perigo amarelo, e hoje existe um sistema de quotas por país.


E pronto. Eis desmistificado o mito dos EUA abertos à imigração... Pena é não conhecer o livro, para saber se tamanho absurdo é responsabilidade da autora do livro, Hélène Harter, ou do autor da crítica. Será assim tão difícil de perceber que abertura não significa forçosamente que a entrada se faça sem qualquer controlo?
Vasco Pulido Valente e a ONU Excelente a coluna Faz de Conta, de Vasco Pulido Valente, no DN de hoje. Em poucas palavras diz o que é evidente mas poucos querem ver: a ONU não é nenhum "tribunal supremo, de que hoje depende o direito internacional e a paz no mundo", pelo contrário. É uma instituição onde estão representados inúmeros países não democráticos, onde os membros do Conselho de Segurança não reflectem a situação geoestratégica actual, e onde o Iraque preside à Conferência do Desarmamento...
Mas, por favor, deixem-nos em paz... Há uns anos largos que Lisboa e a maioria das cidades portuguesas se livraram de cartazes nas suas paredes. Infelizmente, há uma excepção, os cartazes do Bloco de Esquerda, herdeiro da velha tradição conspurcadora da esquerda portuguesa, que o MRPP em tempos erigiu em "arte". Acho muito bem que organizem manifestações contra a guerra e que organizem encontros na Aula Magna ou seja onde for. Mas, por favor, compreendam uma coisa elementar: a vossa liberdade termina onde começa a liberdade dos outros, onde começam os direitos dos outros. Temos todos direito a uma Lisboa livre de cartazes. Por isso, deixem-nos em paz! Cresçam.

2003-02-24

O comunismo está de volta. A luta continua. Em entrevista ao Diário de Notícias, Bernardino Soares, presidente do grupo parlamentar do PCP, revela a verdadeira face do comunismo. Alguns extractos:

DN: O PCP é um partido envelhecido?

BS: Não, aliás se nos lembrarmos que em 2002 entraram 1800 novos militantes, 40 por cento dos quais com menos de 30 anos, não podemos considerar que isso seja um partido envelhecido.

DN: Essa ideia pode ter menos a ver com o número de militantes e mais com a ideologia que está traduzida nos estatutos do partido. Concorda?

BS: Os estatutos do PCP não são de hoje. Mesmo assim, nós continuamos a assumir a nossa aspiração de construir uma sociedade diferente e isso tem de se reflectir nos estatutos.

Ou seja, o Partido Comunista continua a querer um revolução. Continua a desejar uma sociedade nova, sustentada num homem novo. As tentativas bárbaras de criar um homem novo e uma sociedade nova na URSS, na China, no Vietname, em Cuba, não convenceram os comunistas da total maldade da sua ideologia.

DN: Consideraria que na Coreia do Norte vigora um regime comunista?

BS: Temos falado nisso em vários congressos... julgo que o que caracteriza a questão do Coreia do Norte, neste momento, é a difícil apreensão do que se passa, de facto, naquele país.

DN: Difícil apreensão? Os dados que dispõe não são suficientes para poder dizer, por exemplo, se a Coreia do Norte é uma democracia?

BS: Tenho muitas reservas em relação à filtragem da informação feita pelas agências internacionais.

DN: Ao ponto de não poder dizer se o país é democrático?

BS: Sim. Tenho dúvidas que não seja uma democracia.

Que dizer? É verdadeiramente extraordinário. Há uns anos largos, logo após o 25 de Abril, ainda Bernardino Soares era uma criança e não havia sinais do desmoronamento da URSS, era esta a forma de responder dos comunistas. Problemas na URSS? Gulag? Abusos? Falta de democracia? Filas nos supermercados? Carros a cair de podres? Tudo invenções da "poderosa máquina de propaganda americana". A ideologia comunista é imune à realidade. Por isso é tão perigosa.

DN: Cuba, que é um caso que conhece melhor, serve de modelo ao PCP?

BS: Não creio que deva haver modelos, mas admito que em Cuba há uma intensa participação da população na vida política e que esse povo tem tido uma luta heróica contra os desígnios norte-americanos que o faz enfrentar um embargo de várias décadas, por vezes criminoso. E mesmo assim, consegue ajudar países menos desenvolvidos, como fazem em África. Esse esforço é de louvar.

DN: Louvaria também a liberdade de expressão?

BS: Aqui há uns tempos vi um líder da oposição dar uma entrevista, no seu pátio em Havana, a uma cadeia de televisão internacional, dizendo que não havia liberdade de expressão. O exemplo fala por si.

DN: E prisioneiros políticos, existem?

BS: Não tenho conhecimento.

DN: Nem lhe interessa ter?

BS: Com certeza que sim, mas também julgo que não há presos políticos em Cuba.

Seria simplesmente ridículo e trágico, se não fosse também perigoso. O comunismo "a sério" estará de volta? Será apenas o delírio de um jovem comunista mais papista que o papa? Ou será mais um indício da fraca memória da nossa sociedade relativamente aos crimes comunistas?

DN: Que significado dá hoje à queda do Muro de Berlim?

BS: Nós já criticámos o afastamento daquilo que julgamos dever ser a construção correcta do socialismo, sem a existência de classes dirigentes privilegiadas e a confusão entre o partido e o Estado. Mas não se pode ignorar que a existência de um campo socialista no século XX teve uma importância fundamental no desenvolvimento da humanidade, influenciando muitos avanços sociais.


Campo socialista... É discutível em que medida os avanços sociais, que existiram, se deveram ao socialismo democrático e à social democracia. Mas não se deveram de todo ao comunismo. O comunismo trouxe miséria, sofrimento e morte. Trouxe o totalitarismo, a ausência de democracia e a guerra.

Infelizmente os extremismos atrairão sempre uma franja da população. A liberdade é resultado de uma luta contínua. A luta contra o comunismo continua!

Bernardino Soares tentou, aparentemente, impedir a publicação desta entrevista. É provável que o Partido Comunista venha acusar o Diário de Notícias de manipulação das respostas ou, alternativamente, que tire a sua confiança política ao entrevistado. Espero sinceramente que isso aconteça. Mas o mal (?) está feito: trata-se de uma das primeiras manifestações de um fundamentalismo comunista que se tem mantido discreto durante a última década. Confirmam-se as suspeitas que surgiram quando Edgar Correia (um renovador!) voltou a falar às claras, no Público, de marxismo.
Susan Sontag a favor da guerra Seguem alguns excertos de um interessante artigo de Susan Sontag:


But opposition to the war is hardly confined [...] to one strand of the political spectrum. On the contrary: mobilized against this war are remnants of the left and the likes of Le Pen [...] on the right. The right is against immigrants. The left is against America. (Against the idea of America, that is. The hegemony of American popular culture in Europe could hardly be more total.)

On both the so-called left and the so-called right, identity-talk is on the rise. The anti-Americanism that is fueling the protest against the war has been growing in recent years in many of the nations of the New Europe, and is perhaps best understood as a displacement of the anxiety about this New Europe, which everyone has been told is a Good Thing and few dare question. Nations are communities that are always being imagined, reconceived, reasserted, against the pressure of a defining Other. The specter of a nation without borders, an infinitely porous nation, is bound to create anxiety. Europe needs its overbearing America.

[...]

It is not that Europe is weak. Far from it. It is that Europe, the Europe under construction since the Final Victory of Capitalism in 1989, is up to something else. Something which indeed renders obsolete most of the questions of justice -- indeed, all the moral questions. (What prevails, in their place, are questions of health, which may be conjoined with ecological concerns; but that is another matter.)

A Europe designed for spectacle, consumerism and hand wringing ... but haunted by the fear of national identities being swamped either by faceless multinational commercialism or by tides of alien immigrants from poor countries.

[...]

Not all violence is equally reprehensible; not all wars are equally unjust.

No forceful response to the violence of a state against peoples who are nominally its own citizens? (Which is what most "wars" are today. Not wars between states.) The principal instances of mass violence in the world today are those committed by governments within their own legally recognized borders. Can we really say there is no response to this? Is it acceptable that such slaughters be dismissed as civil wars, also known as "age-old ethnic hatreds." (After all, anti-Semitism was an old tradition in Europe; indeed, a good deal older than ancient Balkan hatreds. Would this have justified letting Hitler kill all the Jews on German territory?) Is it true that war never solved anything? (Ask a black American if he or she thinks our Civil War didn't solve anything.)

War is not simply a mistake, a failure to communicate. There is radical evil in the world, which is why there are just wars. And this is a just war. Even if it has been bungled.


Concordo com quase tudo. Só que estes extractos não se referem à crise do Iraque: foram retirados de um texto escrito há quatro ano, relativamente ao Kosovo...

Este achado de Susan Sontag estava no hilariante Best of the Web, do Opinion Journal, que recomendo.

2003-02-23

Há uns tempos, um amigo perguntava-me porque é que os EUA e seus aliados na crise do Iraque não tiravam mais partido das alegadas violações dos direitos humanos no Iraque para justificar a sua posição. Senti na observação a sugestão de que essas alegadas violações talvez não correspondessem à verdade, ou fossem grosseiramente exageradas, e por isso os governos tivessem relutância em usá-las como argumento contra o Iraque. Para que este tipo de dúvidas se dissipe, seguem alguma ligações à Amnistia Internacional, insuspeita de apoiar os EUA nesta crise, quer pelas suas (justas) críticas à pena de morte nesse país, quer pela sua (injusta) crítica à ameaça de uso da força no Iraque:
Affirmative Action ou Quotas? Interessantes as Notes & Comments da New Criterion de Fevereiro.
Gratidão Jiri Pehe, conselheiro político do ex-Presidente checo Vaclav Havel, no Público:
A França e a Alemanha não compreenderam que o apoio dos países candidatos aos Estados Unidos não é contra a "velha Europa". É apenas uma expressão de gratidão para com os EUA por terem ajudado a derrubar o comunismo e, mais recentemente, por apressarem o alargamento da NATO- apesar das objecções da Rússia -, numa altura em que a UE continuava a arrastar os pés em relação ao seu próprio alargamento.

Os pequenos Estados do centro da Europa que foram vítimas de agressão durante toda a sua história não podem ser censurados por acreditarem que os EUA continuam a ser o único país que lhes garante verdadeiramente a sua segurança. A União Europeia, apesar de falar muito, nunca chegou a desenvolver uma política de defesa comum.
Augusto Santos Silva continua:

Este equilíbrio traduz-se hoje pela exigência da continuação das inspecções e da pressão política e militar sobre o Iraque, e, sobretudo, por fazer depender uma qualquer intervenção da verificação concludente da existência e potencial uso de armas de destruição maciça e de real ameaça à paz, verificação feita no quadro das Nações Unidas.


Mas a verdade é que deve ser o Iraque a demonstrar que destruiu as armas de destruição em massa. Isso torna-se mais claro quando se lê a carta que o presidente da UNSCOM escreveu em Dezembro de 1998 ao Secretário Geral das Nações Unidas. Um pequeno extracto:

From the inception of the Commission's work in Iraq, in 1991, Iraq's cooperation has been limited. Iraq acknowledges that, in that year, it decided to limit disclosure for the Purpose of retaining certain prohibited weapons capabilities. Three main Iraqi policies ensued:

(a) its disclosure statements have never been complete;

(b) contrary to the requirement that destruction of prohibited capabilities be conducted under international supervision, Iraq undertook extensive, unilateral, secret destruction: and

(c) it also pursued a practice of concealment of proscribed items, including weapons.

This situation, created by Iraq, in particular through the inadequacy of its disclosures, has meant that the Commission has been obliged to undertake a kind and degree of forensic work which was never intended to be the case, The work of the verification of Iraq's disc1osure should have been far easier and been able to be undertaken far more quickly than has proven to be the case.

In addition, these circumstances have meant that, in spite of the years that have passed and the extensive work that has been undertaken, it has not been possible to verify Iraq's claims with respect to the nature and magnitude of its proscribed weapons programme and their current disposition.
Uma no cravo, outra na ferradura No Público de hoje (ontem), Augusto Santos Silva diz:

Dizermos, hoje, que estaremos contra qualquer intervenção em qualquer circunstância é dizer a Saddam que toleraríamos que expulsasse outra vez os inspectores e gaseasse outra vez o seu povo. Sem a pressão política internacional, que tem de conter, no limite, a ameaça do uso da força, ele não parará.

Estas duas ambiguidades podem e devem ser corrigidas. Na minha opinião, a grande maioria das pessoas que se manifestam hoje, de várias formas, contra a pulsão bélica de Bush e Blair estará disponível para apoiar uma posição política que procure evitar o desencadeamento de uma aventura imperial ilegítima e de consequências imprevisíveis, mantendo ao mesmo tempo fortíssima pressão internacional sobre a ditadura iraquiana. Mais: estará disponível para apoiar um verdadeiro combate às bases económicas, financeiras, políticas e militares do terrorismo mundial, esse que mostrou o seu rosto hediondo a 11 de Setembro de 2001.


É a quadratura do círculo. Por um lado, reconhece que sem "a ameaça do uso da força, ele [Saddam] não parará". Mas por outro, acusa os EUA e o Reino Unido de "pulsão bélica", de pretenderem desencadear "uma aventura imperial ilegítima e de consequências imprevisíveis", justamente porque ameaçam com o uso da força de uma forma credível. É verdadeiramente esquizofrénico.
"Tal como já estavam, as Comissões de Inquérito já pouco prestígio tinham. Ontem ficaram com menos." diz José Manuel Fernandes no Público de hoje, acerca do caso do Metro da Praça do Comércio. Desde que ouvi, da própria boca do Vice-Presidente do Grupo Parlamentar do PSD, que a criação de uma comissão para estudar o impacte da taxa de alcoolémia sobre a condução era inútil, pois a maioria parlamentar cozinharia a sua constituição de forma a garantir os resultados que desejava, que perdi toda a ingenuidade com que olhava os nossos parlamentares. Hoje, pelo menos no que ao parlamento diz respeito, sou essencialmente um cínico.

2003-02-22

Diz Vasco Graça Moura na "Os meus livros":


Este é outro aspecto que faz com que este livro ["Vai Pensamento"] ultrapasse o puro exercício intelectual ou plémico, porque Pacheco Pereira nos interpela também a partir de si mesmo e porque o faz mais num sentido anglo-saxónico do concreto e do empírico que, todavia, não perde nunca as sua referências conceptuais, do que num sentido, que eu caracterizaria como predominantemente "francês", de teorizar independentemente dos factos, ou para amoldar os factos à teoria formulada.


É isso mesmo. É por estas e por outras que Freitas do Amaral quer inglaterra fora da União Europeia. (Nesse caso, espero que Portugal também fique de fora, sinceramente.) Mas não há perigo de isso acontecer: a francofilia está moribunda e as novas gerações não só não sabem francês como o próprio país não os fascina. Só temos de esperar que as gerações se renovem. Basta paciência.
No mesmo número de "Os meus livros", Paulo Varela Gomes recomenda o melhor livro do ano sobre arte: "Arquitectura, Religião e Política em Portugal no Século XVII", de... Paulo Varela Gomes. Confesso que, na minha admiração pelo autor, e mesmo não tendo lido o livro, acredito piamente na recomendação e perdoo ao autor o auto-elogio despudorado...
Confesso: compro a "Os meus livros" sobretudo para ler a coluna de Paula Varela Gomes: Crónicas de um Pessimista. No número de Dezembro, que acabei de comprar, argumenta com desenvoltura acerca da suposta inexistência do comunismo, de que teria apenas existido uma versão oriental, deturpada. Paulo Varela Gomes é, sem dúvida alguma, uma das pessoas mais lúcidas que alguma vez conheci, apesar de politicamente eu estar bastante afastado das suas posições. Sempre foi um esquerdista livre. Nunca alinhou em unanimismos. Por isso mesmo, custa-me a crer que alinhe na forma de defesa mais conhecida do comunismo, e que é afirmar que nunca existiu na realidade. Jean-François Revel desmonsta estes argumentos com arte na sua "A Grande Parada". Será crível que o verdadeiro comunismo nunca tenha existido quando o comunismo soviético e chinês foram tidos como modelos por gerações de comunistas ocidentais? Ou eles estavam enganados também acerca disso?
Em Not in My Name, na Visão, Eduardo Lourenço diz:

É difícil conceber um cenário mais anacrónico e aberrante do que este, em vias de se converter, na praça pública – aos olhos de alguns europeus e de muitos americanos – em confronto entre uma Europa que não existe politicamente e uns Estados Unidos que existem superlativamente. Nem eles parecem saber quanto. Se o soubessem, não se mobilizariam para cruzadas absurdas, ofensivas da legalidade internacional de que os Estados Unidos são o pilar essencial e pleonástico, pois eles já estão onde querem chegar. E, antes de mais, na nossa querida e velha Europa, não só por lá terem desembarcado duas vezes em menos de meio século, para nos «salvar», mas por dentro, como objecto de admiração extasiada pelo que são como inventores e distribuidores dos «gadgets» míticos da nossa civilização. Ou, com mais propriedade, como suportes da mitologia dessa mesma civilização.


Sim. "Gadgets". Como o computador, por exemplo. Ou o transístor. Ou o circuito integrado. Ou o sequenciamento do genoma humano. Ou boa parte dos nosso fármacos. Ou a maior produção científica mundial. Tudo "gadgets" sem importância. Aliás, não li Eduardo Lourenço na Internet, usando o meu computador, cujas tecnologias nasceram quase todas do outro lado do atlântico.

Mais à frente:
Europeus e americanos fazem parte da mesma e única aventura colonizadora e imperialista ocidental, nós como desempregados dela à força, e eles, seus herdeiros ainda convencidos, e não sem sólidas razões (como foram em tempos as nossas) de que o género de vida que inventaram e o paradigma democrático que a sublima convêm ao mundo inteiro. Daí não viria mal ao mundo, se dessa vocação missionária e messiânica não tivessem passado à tentação demoníaca de a querer impor à força ao mundo inteiro. É aqui que aparece o antiamericanismo, que é só a clara e determinada recusa dessa pretensão. Americanos, sim, mas devagar...


Excelente questão. Se o paradigma democrático não convém ao mundo inteiro, porque vive Eduardo Lourenço no Ocidente? Porquê a imigração para o Ocidente? A declaração universal dos direitos do homem não é suposto ser universal? Quanto a imposições, será uma imposição libertar os Iraquianos de Saddam, ou a Coreia do Norte de Kim Yong-Il? Os EUA conseguiram libertar o mundo do comunismo soviético, sem que tenha havido um confronto directo com a União Soviética. Seria preferível que o mesmo acontecesse relativamente ao Iraque e à Coreia do Norte, mas talvez não seja muito justo fazer os iraquianos e os coreanos esperar tanto tempo quanto esperaram as populações do Leste. Recordo os momentos iniciais de "O Pianista", quando o chefe de família dizia que a Inglaterra e a França os libertaria, logo que entrassem na guerra. Ironia do destino... Quem os "libertou" foi a União Soviética. Quase cinquenta anos foi quanto demoraram a libertar-se dessa "liberdade". Hoje, os países de Leste estão com os EUA, evidentemente. Só a cegueira da nossa esquerda a impede de perceber porquê.
Aparentemente faz hoje um ano que Savimbi foi abatido. Nunca a morte de um homem terá sido tão vantajosa para tantos. Savimbi era incapaz de viver em paz, não compreendia a democracia. A sua morte foi um alívio para Angola. Espero que a paz de este ano que passou se eternize e que não nasçam mais Savimbis em Angola.
Hoje, no DN, Manuel Villaverde Cabral diz que
[...] ao contrário dele [Pacheco Pereira], sou dos que pensam que a democracia só merecerá o seu nome quando renunciar de vez ao recurso às armas para atingir os seus objectivos. Esta é que é uma ideia nova.

Esta ideia não é nada nova. É mesmo muito velha. É a velha ideia dos pacifistas europeus, que propõem há anos, infelizmente com algum sucesso, que a Europa se desarme. O resultado desta ideia perfeitamente descolada da realidade foi uma europa indefesa e totalmente dependente dos EUA. Valerá a pena argumentar que só o recurso às armas permitiu às democracias europeias resistir ao nazismo e ao comunismo? Não, não vale. Estas posições pacifistas são totalmente imunes à realidade. São, como Jean-François Revel dizia acerca do socialismo (um primo do pacifismo), ideologias a priori.
"Hard Talk", na BBC World. Dos melhores programas de entrevistas que já vi. Excelente. Perguntas incisivas e sem rodeios. Os entrevistadores fazem o seu trabalho de casa com uma profundidade que, sinceramente, me espanta. Este programa redime o jornalismo. E, de alguma forma, dá razão aos que defendem o serviço público de televisão, entre os quais não me encontro.
O Convento do Desagravo, em Vila Pouca da Feira, perto de Oliveira do Hospital, propriedade da fundação Bissaya-Barreto, foi adaptado a pousada. O convento não teria talvez grande interesse arquitectónico ou histórico. Mas isso não justifica a violentação a que foi sujeito por uma arquitectura mesquinha e medíocre. Acabou a época em que as recuperações de monumentos para pousadas criavam novos e magníficos monumentos. Lembro-me da Flor da Rosa, no Crato, de Santa Maria do Bouro e de Arraiolos. Pelo contrário, voltámos ao estilo "linha de Cascais", que nem pomposo consegue ser, de tão ignorante. É triste. Concordo com Paulo Varela Gomes, que dizia há uns anos que mais valiam as ruínas. Lembro-me bem do Convento do Desagravo, não propriamente arruinado, mas com aquele aspecto misterioso que estes monumentos têm quando estão abandonados. Sinto sempre uma vontade incontrolável de os explorar, de imaginar com teriam sido e como poderão vir a ser. Compará-lo com o que é agora... É uma ilusão pensar que a história é uma sucessão de progressos. Platão tinha razão: tudo se degrada. Os autores de semelhante atentado assinam orgulhosos a sua obra: Arquitectos António Monteiro, Crespo Osório e Pedro Santos. Pensar que a Ordem dos Arquitectos (OA) se propõe melhorar a arquitectura em Portugal tornando obrigatória a assinatura dos projectos por arquitectos... Acreditará a OA mesmo nisso, ou é só uma justificação para uma manobra de aumento da clientela por decreto? Inclino-me mais para a segunda hipótese.

2003-02-21

Fim de semana na Serra da Estrela. Passagem pela aldeia do Sabugal. Junto à estrada, o comércio abunda. O caos é completo. As lojas, feíssimas. Mas o ambiente não é muito diferente do que encontra por Portugal inteiro, nas nossas localidade lineares, desenvolvidas ao longo da estrada. Talvez o exemplo mas paradigmático seja essa imensa e medonha cidade sem nome que se estende ao longo da EN 1. Mas o pior vem quando se abandona a estrada nacional e se penetra na aldeia. Desmazelo. Lixo. Miséria. Pobreza. Tenho saído pouco de Lisboa... Esqueci-me que existe ainda um Portugal assim. É ignóbil. É vergonhoso.
No Le Monde Diplomatique de Fevereiro, Pedro Pezarat Correia escreve, acerca da possível intervenção dos EUA no Iraque:


As provas aparecerão, ou porque existem de facto, ou porque se forjarão. Ou, se for considerado preferível, provocar-se-á um incidente que justifique a intervenção, um ataque a um avião que patrulha as zonas de exclusão aérea, um conflito com a comissão de inspectores, um levantamento de curdos ou um confronto na fronteira do Koweit. A situação é potenciadora dos mais variados casus belli.


Mais um belo exemplo de completo cinismo. Outra coisa não seria de esperar do Le Monde Diplomatique.
Também do Público de hoje, retenho da coluna de Teresa de Sousa a afirmação de que "resta à administração Bush a política de chantagem sobre os membros do Conselho de Segurança que tem desenvolvido nos últimos dias"... Que informação terá Teresa de Sousa que nós não temos? Que tipo de "chantagem" terá Colin Powell aplicado? Terá sido algo de semelhante às ameaças explícitas feitas por Chirac aos países de leste que ousaram não alinhar com Paris e Berlim? Este tipo de insinuações relativamente à "sinistra" administração Bush abundam. Melhor seria que quem as faz as sustentasse em factos. Ou se calasse.
No Público, um editorial imparcial de Nuno Pacheco insurge-se contra as acusações mútuas que vêm surgindo entre opositores e apoiantes da posição dos EUA na crise do Iraque: o adversário, ao defender a sua posição está forçosamente a "fazer o jogo" de alguém. Nuno Pacheco observa muito bem. De facto, o cinismo tomou conta de todas as argumentações. Raros são os que admitem que a defesa de uma atitude firme relativamente ao Iraque possa ter outra origem que não uma suposta subserviência em relação aos EUA, ou que uma posição contra a guerra possa não ser forçosamente uma forma encapotada de apoio a Saddam Hussein.

2003-02-13

Ainda há esperança para a Palestina O MEMRI caba de publicar mais um interessante "Special Dispatch", desta vez intitulado "Palestinian Leaders: Our Strategy Brought Sharon Victory". Nele mostra-se como três figuras proeminentes da Autoridade Palestiniana (AP) interpretam a reeleição de Sharon (e o endurecimento das reacções israelitas) e a atribuem a erros estratégicos da AP e às acções dos extremistas palestinianos, com o Hamas na vanguarda.

2003-02-12

O Blog de Esquerda publicou um pequeno texto de Nuno Carvalho, em defesa da França. Extractos:

Seguem-se Foucault, Deleuze, Derrida, constelação de estrelas a anos-luz das banalidades de um Steiner ou Bloom.

[...]

Agosto de 2002. Cagnes-sur-mer. Uma mulher inclinada numa varanda sobre o mar. Os dias são longos, a água quente, as livrarias abundantes, pequenos seixos, o mar azul. Em vez de gelados, Pierre – nome fictício – vende cafés e tartes de maçã à beira-mar. Mais tarde, nas compras para o jantar, consegue-se roubar «Le Marin de Gibraltar», de Duras, no supermercado local.


Não, não chega a ser uma confissão. O roubo do livro é apresentado como fazendo parte da mesma atmosfera idílica que inclui uma "mulher inclinada numa varanda sobre o mar". Terá isto alguma coisa a ver com o pós-modernismo (leia-se, relativismo) a que o autor do texto se converteu?
Não resisto a divulgar aqui um apelo difundido no Brasil e que, certamente por engano, recebi via correio electrónico. A estupidez e o anti-americanismo que revela são verdadeiramente de antologia:


CONVITE A TODAS AS PESSOAS QUE ACREDITAM QUE NA PAZ

Na década de 50 os negros americanos dos Estados do Sul, como Alabama, Geórgia, Mississipi, etc, só podiam sentar nos bancos traseiros dos ônibus. Um dia uma senhora negra sentou-se num banco da frente e foi agredida e expulsa do ônibus. No domingo seguinte o Reverendo Martin Luther King iniciou um movimento de boicote aos ônibus, movimento esse que obteve total adesão dos negros, até mesmo dos outros Estados sulistas. Onze meses depois do início do boicote, durante o qual os negros não andaram de ônibus, os políticos, pressionados pelos proprietários das empresas, votaram uma Lei que proibia a discriminação racial nos meios de transporte.

Essa é a linguagem que os políticos americanos entendem. A linguagem do "business".

Agora, Bush e seu parceiro Toni Blair, da Inglaterra, pretendem invadir o Iraque para apropriar-se de suas reservas de petróleo, da mesma forma que vem interferindo na política da Venezuela e em muitos outros países, direta ou indiretamente, como se fossem os únicos donos da verdade. Está na hora de sairmos de nossa letargia, de nossa indiferença, e começarmos a agir. Nessa linha, propomos um boicote aos produtos americanos.

Jogar pedras e quebrar vitrines dos Mac Donnalds, mundo a fora, é fazer o jogo da violência, que é o jogo deles. Basta deixarmos de ir lá no MacDonald´s. Basta ensinar aos nossos filhos que eles podem obter boa comida em outros lugares.

Igualmente, quando tivermos sede, não precisamos tomar Coca-Cola. Vamos tomar um guaraná ou um chá, que seja produzido aqui.

Quando comprarmos um carro, compremos carros franceses, alemães, italianos, coreanos, japoneses, ou qualquer outro, menos Ford, GM ou Crysler.

Abastecer o carro: Petrobrás, Ipiranga ou Shell (que é holandesa). Esso, não. - Conta em banco: Citi ou Boston - estamos fora.

Remédios, computadores, pasta de dente, roupas de grife, passagem aéreas, qualquer coisa americana que possamos substituí-la por outra ou deixa-la prá depois.

Aliás, esse remédio já foi experimentado pelos ingleses, na Índia. Lá, Gandhi liderou a "resistência pacífica" e, sem violência, obteve a independência de seu País.

Detalhe: não vamos estar criando mais desemprego ao não irmos no Mac Donnald, ou não tomarmos Coca-Cola, pois estaremos gerando emprego ao consumirmos produtos de seus concorrentes. Apenas, o lucro e os royalties não vão mais para os Estados Unidos.

Finalmente, lembre-se: individualmente, não somos ninguém, mas, como povo e como consumidores, temos o poder em nossas mãos. Pode parecer muito pouco, mas todos os grandes sonhos realizados começaram com ideais que pareciam impossíveis. Caminhamos na direção daquilo que acreditamos, e certamente devemos acreditar na força das atitudes e da ações de um grupo coerente e unido.

(Conselho Parlamentar para uma Cultura de Paz)

2003-02-11

Nestes momentos de dúvida, vale a pena reler a Resolução 1441 do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Extractos:

4. Decides that false statements or omissions in the declarations submitted by Iraq pursuant to this resolution and failure by Iraq at any time to comply with, and cooperate fully in the implementation of, this resolution shall constitute a further material breach of Iraq’s obligations and will be reported to the Council for assessment in accordance with paragraphs 11 and 12 below

5. Decides that Iraq shall provide UNMOVIC and the IAEA immediate, unimpeded, unconditional, and unrestricted access to any and all, including underground, areas, facilities, buildings, equipment, records, and means of transport which they wish to inspect, as well as immediate, unimpeded, unrestricted, and private access to all officials and other persons whom UNMOVIC or the IAEA wish to interview in the mode or location of UNMOVIC’s or the IAEA’s choice pursuant to any aspect of their mandates; further decides that UNMOVIC and the IAEA may at their discretion conduct interviews inside or outside of Iraq, may facilitate the travel of those interviewed and family members outside of Iraq, and that, at the sole discretion of UNMOVIC and the IAEA, such interviews may occur without the presence of observers from the Iraqi Government

11. Directs the Executive Chairman of UNMOVIC and the Director-General of the IAEA to report immediately to the Council any interference by Iraq with inspection activities, as well as any failure by Iraq to comply with its disarmament obligations, including its obligations regarding inspections under this resolution

12. Decides to convene immediately upon receipt of a report in accordance with paragraphs 4 or 11 above, in order to consider the situation and the need for full compliance with all of the relevant Council resolutions in order to secure international peace and security;

13. Recalls, in that context, that the Council has repeatedly warned Iraq that it will face serious consequences as a result of its continued violations of its obligations;

2003-02-10

Capacetes Azuis no Iraque... Para manterem a paz... Ah! Fez-se luz! Vão impor a paz entre o agressor EUA e o agredido Iraque. Como é que não percebi antes?
Guterres no Expresso de 2003/1/18 acerca da África Subsariana:
Um continente que só não é a principal vítima dos efeitos perversos da globalização porque, infelizmente, está praticamente fora desse processo, abandonado à guerra, à pobreza, à fome, à doença e à fome.

Muito bonito e enternecedor. Pena é não fazer qualquer sentido. Aliás, este oximoro é revelador da confusão que é a terceira via à portuguesa.
O impagável Jean-François Revel esteve em Portugal há pouco tempo. Tive a oportunidade de o ouvir na Universidade Católica, onde fez uma palestra com o mesmo tema do seu último livro: "L'Obsession Anti-Américaine: Son Fonctionnement, ses Causes, sex Inconséquences". A palestra pouco acrescentou ao livro, para além do prazer de puder ouvir um dos pensadores franceses mais iconoclastas da actualidade. Ficam aqui algumas citações de memória:

  • A Europa, quando não sabe resolver um problema, declara que ele não existe.
  • Os movimentos anti-globalização são contra a economia de mercado, contra o liberalismo capitalista e, consequentemente, contra os EUA.
  • Os movimentos anti-globalização são herdeiros sem herança do marxismo e do socialismo totalitário.
  • As ideologias sobrevivem aos sistemas que engendram.
  • O socialismo é um sistema abstracto, uma ideologia a priori, fora da realidade.
  • O liberalismo capitalista baseia-se na experiência e na observação da realidade.


Muito tocante é a forma como Mário Soares e Revel se respeitam. Apesar de o livro de Revel assentar que nem uma luva nas posições recentes de Soares, Revel evita qualquer ataque directo ao seu velho amigo, para quem só reserva elogios. Da mesma forma, Soares foi capaz de escrever uma crónica no Expresso onde diz que se pode criticar os EUA sem cair no anti-americanismo descrito por Revel, cujo livro refere sem crítica. É bom ver com a amizade está acima de tudo.
Recentemente li "The Third Way and its Critics", de Anthony Giddens. Concordo num ponto com a maioria dos críticos de esquerda à terceira via: tem já muito pouco de socialismo ou de social democracia, sendo mais um liberalismo envergonhado que outra coisa. Compreende-se. Como poderia um partido socialista admitir que se tornou liberal sem renegar o seu passado e sem perder a sua base eleitoral? A terceira via veio mesmo a calhar... A recente crise no Iraque, com o alinhamento de Blair com Bush perante o escândalo de todos os verdadeiros socialistas, vieram por este facto bem a nu.

(Note-se que não me parece que Guterres tenha alguma vez sido verdadeiramente da terceira via. Quanto a mim o seu governo foi simplesmente incompetente, se exceptuarmos alguns ministros de boa memória, como José Sócrates ou Mariano Gago.)
Qual o estado actual do socialismo no mundo? Após 1989, o socialismo regrediu consideravelmente no mundo, mas os recentes movimentos anti-globalização e anti-capitalismo, entretanto travestidos em movimentos por uma "outra" globalização, parecem ser, na realidade, um seu ressurgimento. Ou melhor, parecem ser, na sua heterodoxia, um ressurgimento dos vários socialismos, desde os mais violentos aos mais moderados, desde os que são herdeiros, ainda envergonhados, de Lenin, Stalin e Mao, até aos moderados e democráticos, herdeiros do reformismo de Eduard Bernstein. A história do socialismo no presente está ainda por escrever, bem entendido. Por enquanto temos de nos ficar pela sua história ao longo dos séculos XVIII, XIX e XX, quando atingiu o apogeu. Recentemente foi editado o excelente livro "Heaven on Earth: The Rise and Fall of Socialism", de Joshua Muravchik, que conta a história do socialismo de uma forma simultaneamente informativa e cativante, embora um tanto parcial, através de curtas biografias de algumas das principais figuras a ele ligadas, desde Babeuf, logo após a revolução francesa, até à terceira via de Blair. Recomendo vivamente.

2003-02-09

Se a estratégia dos EUA e do Reino Unido tiver sucesso, a guerra será evitada. Ambos perceberam claramente que só uma ameça perfeitamente credível de uso da força poderia fazer Saddam Hussein ceder. Desde o início da crise, e sobretudo a partir da data de aprovação da resolução 1441, Saddam Hussein tem vindo a ceder lentamente. Isto aconteceu devido à determinação dos EUA e do Reino Unido em atacar o Iraque caso este não coorperasse. Claro está que esta determinação implicava, e implica ainda, a possiblidade não negligenciável de a guerra ter lugar, coisa que Paris e Berlim não aceitam. Talvez seja preferível assim. Desta forma a ameça continua credível mas dá um bom pretexto aos EUA para esperar mais tempo, o que, por um lado, lhes permite ir acumulando efectivos militares e, por outro, dá tempo a Saddam Hussein para mais umas quantas cedências. Aparentemente Saddam Hussein começou já a ceder na questão das entrevistas em privado aos seus cientistas e parece dar sinais de vir a aceitar que aviões de vigilância sobrevoem o seu território "desde que não sejam apenas aparelhos dos EUA". Em suma, ainda há esperança de o Iraque se desarmar e de haver paz. Se isso vier a acontecer, terá sido apenas por a ameaça de guerra se manter.
Liberais de todo o mundo, uni-vos!


Obrigado à Coluna Infame pelas palavras amáveis!

2003-02-08

Ocorreu-me que o Fórum Social de Porto Alegre deve ser uma espécie de Festa do Avante global. Provavelmente à porta também se pode ouvir o pregão "Olh'ó boné à Che Guevara, camaradas!".
TSF, 11:27h, "corre-se o risco de chegar a um beco sem saída em que a única solução seja correr para a frente", diz Ruben de Carvalho (?), acerca da possibilidade de uma ameaça credível de guerra ter de terminar... em guerra. Para Ruben de Carvalho, pelos, vistos, uma ameaça de guerra tem de ser feita com todas as garantias de que jamais haverá... guerra. Patético. Correr para a frente num beco sem saída seria certamente ter deixado a questão Iraque prolongar-se ainda mais tempo, o que teria agradado mais a esta Europa abúlica, impotente e pacifista em que vivemos.
The Daily Star (Lebanon), 4 de Fevereiro de 2003 (artigo difundido pelo MEMRI):


[...] Lebanon's English-language paper, The Daily Star, published a February 3, 2003 article on Walid Jumblatt, a Druze leader in Lebanon and parliamentary opposition member. [...] The following is the article in its entirety:


"Great Joy" for Destruction of Columbia Shuttle


Walid Jumblatt lashed out Sunday against Western politicians and 'the Jews,' calling on Arab leaders to hold popular referendums before allowing in foreign troops for a war against Iraq.


The Progressive Socialist Party leader also said he felt 'great joy' at Saturday's destruction of the United States space shuttle Columbia, because it carried an Israeli astronaut who had taken part in aggression against 'Lebanon and Iraq.'


'The true axis of evil that rules the world today is an axis of oil and Jews,' Jumblatt said at his family home of Mukhtara, Chouf.


Axis of Jews and Oil Leading "Oil-Colored" Rice


The oil axis is present in most of the U.S. administration, beginning with its president, vice-president and top advisers, including (Condoleezza) Rice, who is oil-colored, while the axis of Jews is present with Paul Wolfowitz, the leading hawk who is inciting (America) to occupy and destroy Iraq,' he continued.


The Druze leader described U.S. President George W. Bush, while delivering his State of the Union address last week, as someone who 'considers himself God's deputy on Earth, threatening and classifying the world (into different camps), and relying on his imperial power.'


President Bush: A Mad Emperor


'How dangerous emperors are when they go mad… in the same axis we have the trustworthy servant, the imperial servant… pleased with himself and his idiotic laugh, his peacock appearance, none other than Tony Blair,' Jumblatt said.


'Also joining this axis is the comprador Mussolini of the 21st century, the prime minister of Italy today, Silvio Berlusconi, who seems to want to renew the empire of the Caesars.'


'To complete the picture, we have Spanish Prime Minister Jose Maria Aznar, the Spanish neo-rightist, whom I could term a progressive Franco,' said Jumblatt.


He quipped that the Spanish leader had military ambitions in the Arab world, based on last year's Spanish-Moroccan dispute over an uninhabited island.


'And by the way, Aznar and Blair spend a lot of time in front of the mirror every morning, it seems, so that their hair is parted perfectly,' said Jumblatt.


'People who pay that much attention to their appearance are fascists by nature. Or they have psychological or sexual complexes. I think the best way to understand (them) would be to… read Freud," he said.


As for Russia's position on a war in Iraq, Jumblatt said the country had either 'drowned in the submarine Kursk or gotten lost in the alleyways of Grozny.'


Jumblatt urged Arab rulers to be 'frank' with their populations and drop 'verbal maneuverings that fool no one.'


'Their skies are American airplanes, their seas are American fleets, their bases are American bases, their regimes are U.S.-British regimes, their rivers are American boats, their mountains are American commandos, their plains are American tanks and their security is at the service of American interests.'


Jumblatt advised Arab countries to follow the Turkish example and allow their legislatures a say in allowing foreign troops basing rights as part of a war against Iraq.


'My Joy Was Great because One of Those Killed Was an Israeli Astronaut'


'In answer to the post-Sept. 11 question in America of 'why do they hate us?' … I would have liked to have felt sorry for the space shuttle that was destroyed (Saturday) but my joy was great because one of those killed was an Israeli astronaut [or a Jewish astronaut, there is no difference] who had previously been part of the Jewish criminal army, particularly against Lebanon and Iraq,' Jumblatt said, referring to Israeli Colonel Ilan Ramon, who participated in the mission that bombed Iraq's Osirak nuclear reactor in 1981.



Sem comentários.
Ilda Figueiredo, em entrevista ao Independente, disse que "as provas [de não acatamento pelo Iraque das resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas apresentadas por Colin Powell no Conselho de Segurança], tendo sido ocultadas até agora, não têm nenhum credibilidade". Alguém consegue perceber que tem a suposta ocultação das provas a ver com a sua credibilidade? Mais à frente diz: "[Os americanos e os britânicos] já bombardearam tudo o que havia para bombardear. Isto significa que, neste momento, não há resquícios de armamento relevante neste país [Iraque]. E a prova disso é que, até agora, os inspectores da ONU nada encontraram." Ilda Figueiredo, pelos vistos, consegue ver o que nem Hans Blix viu: que o Iraque está perfeitamente livre de armas de destruição maciça. Aliás, os inspectores sugeriram o prolongamento do seu trabalho não porque ele não esteja ainda completo (se é que um trabalho desse tipo alguma vez termina), mas sim porque lhes agrada passar férias pagas no turístico Iraque. Depois, diz que os EUA "são também quem tem mais desenvolvido todo o tipo de armas -- nucleares, químicas, etc." Este "etc." serve para sugerir a posse de armas biológicas, naturalmente... Aqui apetece citar Fareed Zakaria, no último número da Newsweek:

One highly intelligent [european] executive asked me why we wanted to get rid of Iraq's chemical and biological agents while maintaining our own arsenal of these weapons. When I explained that in fact the United States did not have such an arsenal, the gentleman looked skeptically at me and said, "officially." He found it entirely plausible the the oldest constitutional democracy in the world has secret weapons labs with armies of scientists manufacturing poison gas.


O problema é que, para gente como Ilda Figueiredo, os EUA não são democráticos. São, pelo contrário, um país onde as "grandes corporações" elegem presidentes (sim, é verdade, os papelinhos que os americanos deitam nas urnas não são votos, são cartas ao Pai Natal), um país desde sempre terrorista e onde "não votam senão 11% dos possíveis eleitores", como ouvi dizer durante um extraordinário debate realizado no ISCTE na primavera do ano passado, com o título revelador de "Guerra ao Terrorismo ou o Terrorismo da Guerra?". Para esta gente, a verdadeira democracia estava na defunta União Soviética (para usar uma velha praga portuguesa, "que tantos diabos acompanhem a sua alma aos infernos quanto cabem de mosquitos da terra ao céu e ainda assentes com um pilão").

2003-02-07

"Queremos ter direito à disciplina de sexualidade e conseguir mais facilmente entrar nas universidades públicas porque nem todos têm dinheiro para ir para a privada", diz Sílvia Santos, segundo o Público, enquanto um colega empunha uma bandeira com a efígie de Che Guevara: "Hasta la victoria siempre!". Tristes, estas cenas durante o protesto nacional contra a reforma curricular. Mas mais triste ainda só a alegada apreensão pela polícia de material para as manifestações.

2003-02-06

A quantidade de excelentes publicações de teor liberal (no sentido europeu) ou conservador disponíveis na rede é impressionante. Infelizmente, a maioria são norte-americanas. Seguem algumas delas para servir de antídoto contra a intoxicação de esquerda a que a imprensa lusa nos condena:

City Journal

Editata por Myron Magnet. Regularmente o Manhatan Institute, a que a revista pertence, publica em livro selecções de artigos desta revista. Pelo menos um deles, que já li, é muito interessante. Chama-se "What Makes Charity Work: A Century of Public and Private Philanthropy", e inclui alguns artigos da ácida Heather Mac Donald, que esteve entre nós há pouco tempo, trazida por João Carlos Espada.

First Things

Revista de religião e vida pública ("public life"). Um dos mais interessantes artigos recentes é "Moral Clarity in a Time of War", de George Weigel.

Opinion Journal

Colecção de editorais da página editorais do Wall Street Journal.

The New Criterion

Excelente revista, editada pelo impagável Roger Kimball. Particularmente interessante foi o número de Novembro, sobre o Anti-Americanismo.

The Public Interest

Francis Fukuyama contribui regularmente para esta revista.



Algumas destas revistas foram-me dadas a conhecer por João Pereira Coutinho, d'A Coluna Infame, o que lhe agradeço.
Para quem queira conhecer a opinião pública árabe, uma fonte muito interessante é o MEMRI, Middle East Media Research Institute. O seu lema é "Bridging the language gap between the Middle East and the West". Conseguem-no, de facto, tornando acessíveis aos ocidentais traduções de artigos e colunas de opinião da imprensa do Médio Oriente, chegando mesmo ao ponto de disponibilizar transcrições de programas de televisão. Normalmente as traduções são apresentadas de forma parcelar, organizadas em análises da imprensa sobre temas particulares. Naturalmente que esta forma de análise pode-se prestar a alguma manipulação, mas não parece ser o caso: com efeito, as análises parecem ser isentas.

Duas análises recentes do MEMRI ficaram-me na memória. A primeira sobre a tragédia do vai-vem Columbia, que revelava as reacções humanas e sensatas da maior parte dos editorais de imprensa árabe, embora pontuadas aqui e ali com regozijo pela morte do astronauta israelita ou pelos danos causados ao "Grande Satã". A segunda, já com algumas semanas, referia-se a uma intervenção do primeiro ministro da Malásia, em que este fazia uma autocrítica muito violenta ao estado da ciência nos países muçulmanos. Trágico mesmo era o facto de ele justificar a necessidade de investir mais e melhor em ciência nos países muçulmanos recorrendo ao mesmo Corão que serviu de pretexto a todos os que contribuiram para o actual atraso.

Vários jornais noticiam o plágio de Clara Pinto Correia. Tudo indica tratar-se realmente de um caso grave de plágio. É triste, embora revelador. Cada vez menos os intelectuais portugueses têm ideias próprias, limitando-se bastas vezes a "reciclar" ideias alheias. A facilidade de acesso a publicações estrangeiras veio facilitar estas "reciclagens", mas ironicamente vieram também facilitar a sua detecção. O caso de Clara Pinto Correia será uma excepção? Certamente que não: casos semelhantes, embora menos graves, já ocorreram nas páginas do Independente, por exemplo. Alguns não envolvem plágio, mas simples utilização de ideias de outrem sem que os autores originais sejam referidos. Não há dúvida: pensar dá trabalho.
O Público hoje volta a ser o que era. José Manuel Fernandes assina um editorial equilibrado acerca das provas de violação da resolução 1441 apresentadas por Colin Powell ao Conselho de Segurança das Nações Unidas e da dureza com que é fundamental tratar o regime de Bagdad, sob risco de se tranformar num novo Pyongyang. Mais à frente, Pacheco Pereira, cada vez mais em forma, aplaude a "carta dos oito" publicada há poucos dias na imprensa europeia e norte americana, desmascarando os que afirmaram que tal carta violaria uma tal "política externa e de segurança comum", aliás inexistente. Excelente.

2003-02-05

O meu bom e velho Público, jornal equilibrado... Que é feito dele? Será impressão minha ou está mesmo a ficar um jornal de esquerda? Quando Eduardo Prado Coelho o afirmou, há cerca de um ano, não concordei. Afinal, além de ter uma colecção de colunistas inteligentemente distribuídos entre a esquerda e a direita, a sua direcção liberal equilibrava uma redacção claramente esquerdista. Decididamente, fazem falta os editoriais de José Manuel Fernandes.

2003-02-04

Estou 'a espera do documento

Ainda nao li, mas acho que agora e' que e' o documento do Papa J. Paulo II
NÃO HÁ PAZ SEM JUSTIÇA NÃO HÁ JUSTIÇA SEM PERDÃO
e' que nao posso concordar mais com o titulo. E agora e' fundamental ler o conteudo.
Diz o Blog-de-Esquerda:
Nós lamentamos a morte de civis israelitas inocentes, tanto como a dos palestinianos que são vítimas dos raids ordenados pelo senhor Sharon. Acontece que não fazemos confusão entre a causa e o efeito.


Eu também não. Mas desconfio que ao que o Blog-de-Esquerda chama causa chamo eu efeito.
Declaração de Nelson Mandela:


No country, however powerful it may be, is entitled to act outside the UN. When UN secretaries-general were white we never had the question of any country ignoring the United Nations, but now that we have got black secretaries-general like Boutros Boutros-Ghali and Kofi Annan certain countries that believe in white supremacy are ignoring the UN for racist reasons.


Vale a pena ler o comentário de Christopher Hitchens.
Algumas pérolas de Mário Soares, em entrevista à Rádio Renascença, publicada no Público de ontem:


[...]

Hoje continuo a ser pró-americano, amigo da América, amigo do pluralismo dos EUA, mas não sou amigo da administração Bush. Porque esta tem a ver com o mccarthysmo, o ku-klux-klan, as religiões sombrias, essa coisa fanática de pensar que o mundo vai acabar e começar a rezar antes dos conselhos de ministros e coisas desse estilo, que é o contrário do laicismo, de todo o progresso. Disso não sou amigo, sou adversário.

[...]


O anti-clericalismo de Mário Soares revela-se, mas agora travestido em simples ateísmo anti-religioso. O problema, depreende-se, é Bush ser religioso e não o esconder. Curiosamente, todos os que criticam Bush por invocar Deus nas sua intervenções, esqueceram as mesmas invocações feitas por Lula (de uma forma aliás perfeitamente legítima, como as de Bush) nos seus discursos de posse.

Sessão de posse, no Congresso Nacional:


[...]

Agradeço a Deus por chegar onde cheguei. Sou agora o servidor público número um do meu País.


Peço a Deus sabedoria para governar, discernimento para julgar, serenidade para administrar, coragem para decidir e um coração do tamanho do Brasil para me sentir unido a cada cidadão e cidadã deste País no dia a dia dos próximos quatro anos.

[...]


Após a cerimónia de posse:


[...]

Eu apenas tive a graça de Deus de, num momento histórico, ser o porta-voz dos anseios de milhões e milhões de brasileiros e brasileiras.

[...]

É o primeiro dia de combate à fome. E tenho fé em Deus que a gente vai garantir que todo brasileiro e brasileira possa, todo santo dia, tomar café, almoçar e jantar, porque isso não está escrito no meu programa. Issoo está escrito na Constituição brasileira, está escrito na Bíblia e está escrito na Declaração Universal dos Direitos Humanos.

[...]


Será que estes discursos são "o contrário do laicismo, de todo o progresso"? Será que, por isso, Soares "não [é] amigo, [é] adversário" de Lula? Duvida-se.

Mas há mais:


[...]

Mas o que está em jogo é a nova estratégia para o mundo, que se chama a guerra preventiva para defender aos interesses vitais dos Estados Unidos. Esse é que é o ponto. É legítimo que um país diga que pode fazer uma guerra preventiva sempre que os seus interesses vitais estejam em jogo? Mas isso foi o que fez o Hitler! Evidentemente que a comparação não tem sentido, não há nenhuma paralelo entre o Hitler e o senhor Bush...


Nesse aspecto não está de acordo com o professor Freitas do Amaral.


Estou de acordo, acho que o livro dele é bom e tenho-o defendido sempre. O professor Freitas do Amaral fez esse paralelo porque neste aspecto é legítimo. Como é que justificou o Hitler a entrada na Checoslováquia? Eu lembro-me! E a invasão da França e da Polónia? Foi para defender interesses vitais da Alemanha!

[...]


Claro como água. Afirma que a comparação entre Hitler e Bush "não tem sentido" ao mesmo tempo que faz essa mesma comparação...


[...]

Até porque não se sabe ainda quem fez o 11 de Setembro. Sabe-se que vagamente há uma organização internacional chamada Al-Qaeda, do fanatismo islâmico.

[...]



A teoria da conspiração, no melhor estilo de Diana Andringa e Thierry Meyssan.

Particularmente interessante é a parte da entrevista em que Mário Soares fala de socialismo e capitalismo. Decididamente, Soares tirou da gaveta o socialismo, o verdadeiro, aquele que não está para terceiras vias. A memória de 1989 desvanece-se: o socialismo está de volta em força.
Avante! :-)
Nada como divulgar "urbi et orbi" as nossas picuinhices
"pre-modernistas" e os desvarios poeticos.
Avancemos entao; 'as arrecuas!

2003-02-03

Grande Rui! A coisa é interessante, como vês. E há mais gente a usar estes diários. Por exemplo a Coluna Infame ou o Blog de Esquerda. Que te parece? Arrancamos?