2003-03-22

Carlos

O que eu dava para voltar ao passado. Para voltar a ser adolescente, em casa de meus pais. Para ouvir o Carlos bater à porta. Vinha partilhar livros, revistas, histórias. Vinha partilhar a sua enorme cultura. Era um homem tímido. Era um homem bom. Bebia e fumava como quem não teme o vício.

Há muito já que saí de casa de meus pais. O Carlos já não era meu vizinho. Mas continuava a sê-lo, no coração e na memória. E continuará a sê-lo. O Carlos morreu. Perdi um vizinho. Perdemos um vizinho. Perdemos o nosso vizinho.

2003-03-19

Manuel Bandeira

Chama e fumo

Amor – chama, e, depois, fumaça...
Medita no que vais fazer:
O fumo vem, a chama passa...

Gozo cruel, ventura escassa,
Dono do meu e do teu ser,
Amor – chama, e, depois, fumaça...

Tanto ele queima! e, por desgraça,
Queimando o que melhor houver,
O fumo vem, a chama passa...

Paixão puríssima ou devassa,
Triste ou feliz, pena ou prazer,
Amor – chama, e, depois, fumaça...

A cada par que a aurora enlaça,
Como é pungente o entardecer!
O fumo vem, a chama passa...

Antes, todo ele é gosto e graça.
Amor, fogueira linda a arder!
Amor – chama, e, depois, fumaça...

Porquanto, mal se satisfaça,
(Como te poderei dizer?...)
O fumo vem, a chama passa...

A chama queima. O fumo embaça.
Tão triste que é! Mas, tem de ser...

Amor?... – chama, e, depois, fumaça:
O fumo vem, a chama passa...

Teresópolis, 1911.

2003-03-04

Dislates de borla Na sua coluna de opinião em o "Público" Eduardo Prado Coelho escreve:
Uma das frases que se tornou num verdadeiro manifesto do espírito económico é aquela que diz que não há almoços grátis. O "homo economicus" organiza-se todo ele em torno deste princípio: nada há que se faça na vida sem uma ideia de algo a ganhar com aquilo que se fez.

Vindo de quem vem não surpreende, mas esclarece. Esta é a visão do "espírito económico" ou melhor da falta deste, que uma certa esquerda, com ares de bonomia, aplica à gestão da "coisa pública".

A interpretação que uma certa direita, liberal e inspirada pelo pensamento ético calvinista, faz é que nada há que se utilize e/ou consuma que não tenha um custo associado. E tendo um custo, existem escolhas a fazer; às quais os princípios éticos não podem ser alheios. Com maior gravidade quando a coisa é publica.

Ou se calhar, todos estes cuidados e zelos mais não são que picuinhices.
Mais um divertido blogue (como eles dizem) na blogosfera (como diz A Coluna Infame): O Blogue dos Marretas. Para variar, não é esquerdista. Bem vindos ao clube!
Dreaming of Democracy de George Packer, é um artigo muito interessante e crítico acerca da oposição iraquiana no exílio e a intenção de democratizar o Iraque da administração americana. O artigo centra-se na figura de Kanan Makiya, um dissidente iraquiano, autor de "Republic of Fear", e um lutador pela libertação e democratização do Iraque.
The Left's unholy alliance with religious bigotry, de Nick Cohen, no Guardian de ontem. Um pequeno extracto:

What is the Left offering Iraq? It has no strategy other than the continuation of a brutal status quo. It can't support the Iraqi democrats because they say Saddam can only be overthrown by violence.

It can't support the Iraqi Kurds because they agree. It has been reduced to allying with religious bigots, the deadliest enemy of those best and brightest Muslims who offer that rare commodity in the Islamic world, hope.

Confesso que não esperava encontrar prosa tão certeira no Guardian... Devo estar a ficar preconceituoso.
OPEP alvo dos EUA, segundo Boaventura Sousa Santos A sério? Pensava que era evidente que os EUA, como país liberal, eram contra os cartéis. Será Boaventura Sousa Santos a favor? Provavelmente. Liberalizar é uma palavra que causa alergia aos arautos da "globalização alternativa" (leia-se: colectivismo mascarado). Por mim, sou claramente contra todos os cartéis, OPEP incluída.

(As afirmações desta e das anteriores entradas foram retiradas do artigo As perguntas incómodas de Freitas do Amaral, no Público de hoje.)
Alguns patrões usam a guerra como desculpa para mais despedimentos. O Arts and Letters Daily, que recomento, inclui entre as suas ligações o hilariante Postmodern Generator. Seria interessante desenvolver um Gerador Carvalho da Silva. Aposto que era fácil produzir um programa de computador capaz de gerar discursos menos repetitivos e previsíveis que Carvalho da Silva. E seguramente mais interessantes.
A nossa extraordinária Maria de Lurdes Pintassilgo (MLP) pergunta-se (durante a famigerada sessão contra a guerra na Aula Magna) se "será legítimo, por exemplo, que membros da Administração Bush andem a correr mundo, a contactar presidentes de países paupérrimos? [...] Esses países fazem parte do Conselho de Segurança e tudo é permitido para comprar o seu voto". Os EUA numa atitude multi-lateral, em contactos diplomáticos? Com países pobres, ainda por cima? Não deveria ser permitido, como é evidente. Talvez devêssemos mudar a carta das Nações Unidas para proibir esse tipo de contactos perversos entre ricos e pobres. A riqueza corrompe, parece ser a tese de MLP. Esses "países paupérrimos" não merecem qualquer consideração por parte de MLP. Segundo ela, não só é evidente que os EUA os tentarão comprar, como é inevitável que os países pobres se deixem corromper...
Tem sido habitual ultimamente os opositores da guerra declarem-se contra a administração Bush, mas aliados "do povo americano, das elites americanas, das universidades americanas", como afirmou Mário Soares no encontro contra a guerra da Aula Magna. Curiosamente, poucas, muito poucas destas declarações de "pró-americanismo" incluem a tradição democrática e liberal americana. A razão é evidente: quem o afirma são os mesmos que aproveitaram os problemas legais surgidos durante as últimas presidenciais nos EUA para acusar o sistema americano de "imperfeito" ou "deficiente". São os mesmos que, como Fernando dos Santos Neves no Público de hoje, acham que "a América de Bush [se situaria] no rol dos países párias e terroristas por excelência". Claramente, nos EUA não há um sistema perfeito. É verdade que os EUA têm a sua dose de asneiras em política externa. Mas muito mais interessante do que constatá-lo seria fazer um momento de autocrítica. Sendo um sistema imperfeito, será que, na sua globalidade, é pior que o português? Ou que o Francês? Haverá sistemas perfeitos? Haverá países sem erros no seu passado? Cômputo geral, as acções americanas no mundo ao longo do século passado foram positivas ou negativas? Mas este exercício é impossível de fazer... Poucos dos que fazem as acusações viram a queda do bloco soviético como uma vitória da democracia e da liberdade. E menos ainda reconheceram o papel imprescindível que os EUA tiverem nessa queda. Perante tais descolagens da realidade, são inúteis os argumentos.
"Será que já estamos amordaçados? Será que já somos países satélite?" Perguntas de Freitas do Amaral, no encontro da Sábado na Aula Magna. Como tem sido habitual ultimamente, Freitas do Amaral está enganado. Que ele não está amordaçado, é evidente, pois a sua opinião tem-se ouvido com insistência. Todos agradecíamos se a discussão acerca do Iraque se fizesse com um mínimo de razoabilidade. Somos um país satélite? A avaliar pelas palavras de Ana Gomes, sim, mas satélite do Wall Street Journal, pelos vistos, que segundo Ana Gomes terá "estado por trás" da carta dos oito. Aliás, pelos vistos também o Reino Unido é satélite desse jornal... Mas Ana Gomes disse mais. Disse que terão existido razões obscuras para a preferência do ministro da defesa por aviões da Lockheed-Martin em detrimento da Airbus. As acusações são extremamente graves. Esperemos que o ministro ponha tudo em pratos limpos e exija explicações a Ana Gomes.

2003-03-02

Acerca da Coreia do Norte, é interessante verificar como as posições da administração dos EUA são criticadas pelos próprios conservadores. Joshua Muravchik, de que já aqui referi o livro "Heaven on Earth: The Rise and Fall of Socialism", do American Enterprise Institute, escreve na revista Commentary um artigo interessante: Facing Up to North Korea. Nele ataca as políticas que têm sido seguidas em relação à Coreia do Norte, que acusa de terem contribuído para a situação actual, em que um ditador tem aparentemente o caminho livre para se armar de uma forma assustadora. Diz ele, como conclusão do artigo, que

When there are no longer powerful men like these [Saddam, Kim Yong Il e bin Laden], then we may truly begin to speak of the end of history. Until then, the preservation of all we hold dear will require unillusioned clarity, vigilance, courage—and, it is to be feared, sacrifice.
Uma das críticas mais frequentes à posição dos EUA sobre o Iraque e as inspecções das Nações Unidas é a de que o ónus da prova não pode recair sobre o Iraque, pois não se pode demonstrar a não-posse do que quer que seja. O argumento parece válido, à primeira vista, mas esquece que toda e qualquer destruição de armamento exige documentação e testemunhas. A esse propósito é elucidativo ler o rascunho do relatório de Hans Blix datado de 23 de Fevereiro:

The Iraqui Commission established to search for and present any proscribed items is potentially a machanism of importance. It should, indeed, do the job that inspectors should not have to do, namely, tracing any remaining stock or store of proscribed items anywhere in Iraq. [...]

Claro como água: sem a colaboração Iraquiana, nada feito. Daí a insistência dos EUA na cooperação do Iraque,
Na revista Commentary de Dezembro, David Berlinski, um opositor do darwinismo, faz um ataque feroz à versão mais inteligente do criacionismo que surgiu até hoje: a teoria do do desenho ou concepção inteligente (intelligent design). O artigo é muito interessante, e desencadeou uma forte polémica. Correndo o risco de parecer que quero reduzir o artigo todo a uma frase, que não é de todo representativa, não resisto a uma citação:

Faith in a designed universe might well be rather like faith in a planned economy, a doctrinal commitment that cannot survive a confrontation with experience.
A Virtude do Ódio Terrível artigo de Meir Y. Soloveichik, na First Things, sobre a virtude do ódio e a diferença entre cristãos e judeus no que diz respeito ao perdão. Cito apenas o final do artigo:

But one thing is certain: we will not soon forgive the actions of a man who, as he sent children to kill children, knew—all too well—just what he was doing. We will not—we cannot—ask God to have mercy upon him. Those Israeli parents whose boys and girls did not come home will pray for the destiny of his soul at the conclusion of their holiest day, but their prayer will be rather different from the rosary:

Let the terrorist die unshriven.

Let him go to hell.

Sooner a fly to God than he.


Apesar de agnóstico, não podia concordar mais.

2003-03-01

Uma edição especial da bela revista "O Egoísta", com o título "Portugal: Pensar o Futuro", acabou de sair para as bancas. 25 € é muito dinheiro por uma revista. Mas não resisti. Afinal, não é todos os dias que se pode ler textos mono-temáticos de tantas personalidades portuguesas numa única publicação. Infelizmente, o resultado é medíocre.

O editorial é pomposo e vazio, com as suas repetidas referências à psicanálise a que os portugueses se deveriam submeter. D. José Policarpo enche uma página de lugares comuns e vazio de real informação. Mário Soares é igual a si próprio. Começa bem, mas termina com as suas já habituais diatribes anti-americanas. Desta vez, pelo menos, não sugere nenhuma conspiração americana por trás do 11 de Setembro. Menos mal, nesse ponto, mas vejamos outros:

A enigmática China, que começa a sentir-se cercada pelos Estado Unidos, não ficará tão silenciosa como até aqui, sobretudo se as fanfarronadas do Secretário americano para a Defesa, Donald Rumsfeld, contra a Coreia do Norte, viessem a concretizar-se.

Infelizmente a minha memória é curta, mas não terei eu ouvido ou lido algures o próprio Mário Soares sugerir que, para serem corerentes com o que fazem no Iraque, os EUA não deveriam estar a propor soluções diplomáticas para a Coreia do Norte? Talvez não tenha dito. Mas o efeito é o mesmo. A nossa esquerda não sabe o que quer. Ou melhor, sabe. Atacar os EUA em quaisquer circunstâncias. O que quer que os EUA façam. Um pouco à frente, Mário Soares refere-se a Lula:

[...] no outro extremo do mundo, o nosso irmão Brasil, com Lula, se o cerco que lhe fizerem não for excessivo, poderá vir a dar-nos algumas boas surpresas.

O interessante é que não é a primeira vez que os defensores de Lula, antecipando o seu futuro fracasso, apresentam desde já uma explicação para ele: o "cerco" capitalista, "a conspiração" americana, "as forças sinistras da direita religiosa americana". Lula não será nunca responsável por nada, obviamente.

Mais à frente, depois de uma sequência de palavras alinhadas atrás de palavras num completo desperdício de tinta, da autoria do nosso Primeiro Ministro, José Manuel Durão Barroso, temos direito a mais um pedaço de prosa dessa figura incontornável da asneira lusitana: Maria de Lurdes Pintassilgo. Diz ela que "a ignorância é a mais grave disfunção do mundo político". Presume-se que se exclui desse mundo, mas faz mal. Veja-se, por exemplo, esta brilhante incursão na física, com os mesmos resultados lamentáveis que Alan Sokal desmontou no seu genial "Imposturas Intelectuais":

Hoje é certo que nada se pode prever -- a imprevisibilidade é uma lei geral da Física que se estende a todos os domínios.

A senhora é engenheira, não o esqueçamos. Deve, por isso, ter boas bases para esta nova teoria. Aliás, sendo já lei, presume-se que a teoria tenha já sustentação empírica. Talvez tenha sido comprovada por uma vida inteira de previsões falhadas, quem sabe... Enfim, proponho que esta nova Lei da Física receba o nome da sua autora. Enunciemos, pois, a lei Pintassílgo: "tudo é imprevisível". Deve ser terrível deitar-se sem saber se o Sol se levantará no dia seguinte à hora prev..., perdão, adivinhada pelos astrónomos.

Depois vem o texto de Adriano Moreira. Sinceramente, admito que o senhor seja de facto uma sumidade em relações internacionais. Mas será que lhe custava muito escrever de uma forma clara e directa? Não há texto de Adriano Moreira que não seja denso e retorcido. Não, não são as ideias que são complicadas: é mesmo a forma. Não compreendo o que se ganha com isso.

E a coisa continua... Depois comentarei os restantes textos, se é que alguma vez terei paciência para os ler todos.
Bloco de Esquerda: Recauchutagem do trotskismo Carlos Jalali, da Universidade de Oxford, referindo-se ao Bloco de Esquerda na apresentação de um livro com os resultados do primeiro inquérito pós-eleitoral realizado em Portugal: "[o Bloco de Esquerda revela-se] um caso único de recauchutagem [uma] mistura de valores pós-materialistas com trotskismo". No Público de hoje.
Um pesadelo africano Manuel Villaverde Cabral, em 'Um Sonho Africano' no DN de hoje, defende o papel importante de Savimbi em Angola, na luta contra o totalitarismo comunista do MPLA. Concordo. Mas concordo apenas até às eleições de 1992. Estas eleições, ao contrário do que Villaverde Cabral diz, foram no essencial justas, tal como os observadores internacionais confirmaram na altura. Savimbi não aceitou as eleições (cujo resultado também não me agradou). O MPLA reagiu com uma violência inaudita e criminosa. A verdade, porém, é que a partir dessa data Savimbi se tornou num carrasco para a população angolana. Ao lado da sua intransigência guerreira, a corrupção grosseira e o regime lamentável do MPLA ficava a ganhar. A morte de Savimbi foi a melhor notícia do ano passado para Angola e os angolanos. Claro que agora, sem Savimbi ao lado, o regime do MPLA já não ganha por comparação com um inimigo bem pior. As características desse regime, com origens socialistas, revelam-se em todo o seu explendor. No entanto, julgo que Angola tem futuro. Espero que Angola se democratize depressa: os angolanos merecem sair de um longo pesadelo. Que o fantasme de Savimbi não os atormente.
Na Coluna Infame, Pedro Mexia escreve:

O TEMPO PASSA (II): Lembro-me: há dez anos ouvi um tipo meio lunático (mas muito talentoso) dizer que havia um sistema de pôr em rede todos os computadores, de criar correio electrónico e de aceder a um fluxo infinito de informação, e que em breve isso seria o nosso dia-a-dia, mais imprescindível do que a televisão. Na altura achei que ele tinha esvaziado o Johnny Walker. Foi há dez anos.

Há 10 anos, estava eu num laboratório do IST, quando alguém se aproximou de mim e me disse que tinha de ver uma coisa fabulosa que tinha sido inventada no CERN e no NCSA: a World Wide Web e um programa chamado Mosaic. Foi um passo de gigante, de facto. Em poucos minutos tinha o mundo disponível no meu computador. No entanto, nessa altura já usava o correio electrónico há vários anos, pelo menos desde 1986. Já partilhava ficheiros usando FTP, o Archie de boa memória, etc. Parece-me que há um pequeno erro de perspectiva na observação de Pedro Mexia. A Web foi um enorme salto, mas sustentou-se numa experiência de anos de interligação e partilha electrónica no meio académico, embora em Portugal fosse essencialmente no meio académico científico e tecnológico.

2003-02-28

Na secção de crítica a livros de ensaio do DN, Leonídio Paulo Ferreira escreve Contra um Mundo Cheio de Ideias Feitas, uma crítica a três livros de uma nova colecção "Ideias Feitas", da editora Inquérito. Um deles, "A América", apresentado como "o mais sólido" dos três livros, supostamente desmistifica algumas ideias feitas sobre os EUA. A crítica de Leonídeo Paulo Ferreira à segunda das desmistificações que seleccionou, "os EUA estão abertos aos emigrantes", reza assim:


Sobre a segunda tese, se é verdade que os Estados Unidos são o país que mais imigrantes recebe, também é certo que desde muito cedo (ainda no século XIX) começaram a surgir críticas à vinda de novos colonos, sobretudo católicos. Mais tarde, foram mesmo impostos limites à imigração de chineses e japoneses, vistos como o perigo amarelo, e hoje existe um sistema de quotas por país.


E pronto. Eis desmistificado o mito dos EUA abertos à imigração... Pena é não conhecer o livro, para saber se tamanho absurdo é responsabilidade da autora do livro, Hélène Harter, ou do autor da crítica. Será assim tão difícil de perceber que abertura não significa forçosamente que a entrada se faça sem qualquer controlo?