2003-02-21

No Le Monde Diplomatique de Fevereiro, Pedro Pezarat Correia escreve, acerca da possível intervenção dos EUA no Iraque:


As provas aparecerão, ou porque existem de facto, ou porque se forjarão. Ou, se for considerado preferível, provocar-se-á um incidente que justifique a intervenção, um ataque a um avião que patrulha as zonas de exclusão aérea, um conflito com a comissão de inspectores, um levantamento de curdos ou um confronto na fronteira do Koweit. A situação é potenciadora dos mais variados casus belli.


Mais um belo exemplo de completo cinismo. Outra coisa não seria de esperar do Le Monde Diplomatique.
Também do Público de hoje, retenho da coluna de Teresa de Sousa a afirmação de que "resta à administração Bush a política de chantagem sobre os membros do Conselho de Segurança que tem desenvolvido nos últimos dias"... Que informação terá Teresa de Sousa que nós não temos? Que tipo de "chantagem" terá Colin Powell aplicado? Terá sido algo de semelhante às ameaças explícitas feitas por Chirac aos países de leste que ousaram não alinhar com Paris e Berlim? Este tipo de insinuações relativamente à "sinistra" administração Bush abundam. Melhor seria que quem as faz as sustentasse em factos. Ou se calasse.
No Público, um editorial imparcial de Nuno Pacheco insurge-se contra as acusações mútuas que vêm surgindo entre opositores e apoiantes da posição dos EUA na crise do Iraque: o adversário, ao defender a sua posição está forçosamente a "fazer o jogo" de alguém. Nuno Pacheco observa muito bem. De facto, o cinismo tomou conta de todas as argumentações. Raros são os que admitem que a defesa de uma atitude firme relativamente ao Iraque possa ter outra origem que não uma suposta subserviência em relação aos EUA, ou que uma posição contra a guerra possa não ser forçosamente uma forma encapotada de apoio a Saddam Hussein.

2003-02-13

Ainda há esperança para a Palestina O MEMRI caba de publicar mais um interessante "Special Dispatch", desta vez intitulado "Palestinian Leaders: Our Strategy Brought Sharon Victory". Nele mostra-se como três figuras proeminentes da Autoridade Palestiniana (AP) interpretam a reeleição de Sharon (e o endurecimento das reacções israelitas) e a atribuem a erros estratégicos da AP e às acções dos extremistas palestinianos, com o Hamas na vanguarda.

2003-02-12

O Blog de Esquerda publicou um pequeno texto de Nuno Carvalho, em defesa da França. Extractos:

Seguem-se Foucault, Deleuze, Derrida, constelação de estrelas a anos-luz das banalidades de um Steiner ou Bloom.

[...]

Agosto de 2002. Cagnes-sur-mer. Uma mulher inclinada numa varanda sobre o mar. Os dias são longos, a água quente, as livrarias abundantes, pequenos seixos, o mar azul. Em vez de gelados, Pierre – nome fictício – vende cafés e tartes de maçã à beira-mar. Mais tarde, nas compras para o jantar, consegue-se roubar «Le Marin de Gibraltar», de Duras, no supermercado local.


Não, não chega a ser uma confissão. O roubo do livro é apresentado como fazendo parte da mesma atmosfera idílica que inclui uma "mulher inclinada numa varanda sobre o mar". Terá isto alguma coisa a ver com o pós-modernismo (leia-se, relativismo) a que o autor do texto se converteu?
Não resisto a divulgar aqui um apelo difundido no Brasil e que, certamente por engano, recebi via correio electrónico. A estupidez e o anti-americanismo que revela são verdadeiramente de antologia:


CONVITE A TODAS AS PESSOAS QUE ACREDITAM QUE NA PAZ

Na década de 50 os negros americanos dos Estados do Sul, como Alabama, Geórgia, Mississipi, etc, só podiam sentar nos bancos traseiros dos ônibus. Um dia uma senhora negra sentou-se num banco da frente e foi agredida e expulsa do ônibus. No domingo seguinte o Reverendo Martin Luther King iniciou um movimento de boicote aos ônibus, movimento esse que obteve total adesão dos negros, até mesmo dos outros Estados sulistas. Onze meses depois do início do boicote, durante o qual os negros não andaram de ônibus, os políticos, pressionados pelos proprietários das empresas, votaram uma Lei que proibia a discriminação racial nos meios de transporte.

Essa é a linguagem que os políticos americanos entendem. A linguagem do "business".

Agora, Bush e seu parceiro Toni Blair, da Inglaterra, pretendem invadir o Iraque para apropriar-se de suas reservas de petróleo, da mesma forma que vem interferindo na política da Venezuela e em muitos outros países, direta ou indiretamente, como se fossem os únicos donos da verdade. Está na hora de sairmos de nossa letargia, de nossa indiferença, e começarmos a agir. Nessa linha, propomos um boicote aos produtos americanos.

Jogar pedras e quebrar vitrines dos Mac Donnalds, mundo a fora, é fazer o jogo da violência, que é o jogo deles. Basta deixarmos de ir lá no MacDonald´s. Basta ensinar aos nossos filhos que eles podem obter boa comida em outros lugares.

Igualmente, quando tivermos sede, não precisamos tomar Coca-Cola. Vamos tomar um guaraná ou um chá, que seja produzido aqui.

Quando comprarmos um carro, compremos carros franceses, alemães, italianos, coreanos, japoneses, ou qualquer outro, menos Ford, GM ou Crysler.

Abastecer o carro: Petrobrás, Ipiranga ou Shell (que é holandesa). Esso, não. - Conta em banco: Citi ou Boston - estamos fora.

Remédios, computadores, pasta de dente, roupas de grife, passagem aéreas, qualquer coisa americana que possamos substituí-la por outra ou deixa-la prá depois.

Aliás, esse remédio já foi experimentado pelos ingleses, na Índia. Lá, Gandhi liderou a "resistência pacífica" e, sem violência, obteve a independência de seu País.

Detalhe: não vamos estar criando mais desemprego ao não irmos no Mac Donnald, ou não tomarmos Coca-Cola, pois estaremos gerando emprego ao consumirmos produtos de seus concorrentes. Apenas, o lucro e os royalties não vão mais para os Estados Unidos.

Finalmente, lembre-se: individualmente, não somos ninguém, mas, como povo e como consumidores, temos o poder em nossas mãos. Pode parecer muito pouco, mas todos os grandes sonhos realizados começaram com ideais que pareciam impossíveis. Caminhamos na direção daquilo que acreditamos, e certamente devemos acreditar na força das atitudes e da ações de um grupo coerente e unido.

(Conselho Parlamentar para uma Cultura de Paz)

2003-02-11

Nestes momentos de dúvida, vale a pena reler a Resolução 1441 do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Extractos:

4. Decides that false statements or omissions in the declarations submitted by Iraq pursuant to this resolution and failure by Iraq at any time to comply with, and cooperate fully in the implementation of, this resolution shall constitute a further material breach of Iraq’s obligations and will be reported to the Council for assessment in accordance with paragraphs 11 and 12 below

5. Decides that Iraq shall provide UNMOVIC and the IAEA immediate, unimpeded, unconditional, and unrestricted access to any and all, including underground, areas, facilities, buildings, equipment, records, and means of transport which they wish to inspect, as well as immediate, unimpeded, unrestricted, and private access to all officials and other persons whom UNMOVIC or the IAEA wish to interview in the mode or location of UNMOVIC’s or the IAEA’s choice pursuant to any aspect of their mandates; further decides that UNMOVIC and the IAEA may at their discretion conduct interviews inside or outside of Iraq, may facilitate the travel of those interviewed and family members outside of Iraq, and that, at the sole discretion of UNMOVIC and the IAEA, such interviews may occur without the presence of observers from the Iraqi Government

11. Directs the Executive Chairman of UNMOVIC and the Director-General of the IAEA to report immediately to the Council any interference by Iraq with inspection activities, as well as any failure by Iraq to comply with its disarmament obligations, including its obligations regarding inspections under this resolution

12. Decides to convene immediately upon receipt of a report in accordance with paragraphs 4 or 11 above, in order to consider the situation and the need for full compliance with all of the relevant Council resolutions in order to secure international peace and security;

13. Recalls, in that context, that the Council has repeatedly warned Iraq that it will face serious consequences as a result of its continued violations of its obligations;

2003-02-10

Capacetes Azuis no Iraque... Para manterem a paz... Ah! Fez-se luz! Vão impor a paz entre o agressor EUA e o agredido Iraque. Como é que não percebi antes?
Guterres no Expresso de 2003/1/18 acerca da África Subsariana:
Um continente que só não é a principal vítima dos efeitos perversos da globalização porque, infelizmente, está praticamente fora desse processo, abandonado à guerra, à pobreza, à fome, à doença e à fome.

Muito bonito e enternecedor. Pena é não fazer qualquer sentido. Aliás, este oximoro é revelador da confusão que é a terceira via à portuguesa.
O impagável Jean-François Revel esteve em Portugal há pouco tempo. Tive a oportunidade de o ouvir na Universidade Católica, onde fez uma palestra com o mesmo tema do seu último livro: "L'Obsession Anti-Américaine: Son Fonctionnement, ses Causes, sex Inconséquences". A palestra pouco acrescentou ao livro, para além do prazer de puder ouvir um dos pensadores franceses mais iconoclastas da actualidade. Ficam aqui algumas citações de memória:

  • A Europa, quando não sabe resolver um problema, declara que ele não existe.
  • Os movimentos anti-globalização são contra a economia de mercado, contra o liberalismo capitalista e, consequentemente, contra os EUA.
  • Os movimentos anti-globalização são herdeiros sem herança do marxismo e do socialismo totalitário.
  • As ideologias sobrevivem aos sistemas que engendram.
  • O socialismo é um sistema abstracto, uma ideologia a priori, fora da realidade.
  • O liberalismo capitalista baseia-se na experiência e na observação da realidade.


Muito tocante é a forma como Mário Soares e Revel se respeitam. Apesar de o livro de Revel assentar que nem uma luva nas posições recentes de Soares, Revel evita qualquer ataque directo ao seu velho amigo, para quem só reserva elogios. Da mesma forma, Soares foi capaz de escrever uma crónica no Expresso onde diz que se pode criticar os EUA sem cair no anti-americanismo descrito por Revel, cujo livro refere sem crítica. É bom ver com a amizade está acima de tudo.
Recentemente li "The Third Way and its Critics", de Anthony Giddens. Concordo num ponto com a maioria dos críticos de esquerda à terceira via: tem já muito pouco de socialismo ou de social democracia, sendo mais um liberalismo envergonhado que outra coisa. Compreende-se. Como poderia um partido socialista admitir que se tornou liberal sem renegar o seu passado e sem perder a sua base eleitoral? A terceira via veio mesmo a calhar... A recente crise no Iraque, com o alinhamento de Blair com Bush perante o escândalo de todos os verdadeiros socialistas, vieram por este facto bem a nu.

(Note-se que não me parece que Guterres tenha alguma vez sido verdadeiramente da terceira via. Quanto a mim o seu governo foi simplesmente incompetente, se exceptuarmos alguns ministros de boa memória, como José Sócrates ou Mariano Gago.)
Qual o estado actual do socialismo no mundo? Após 1989, o socialismo regrediu consideravelmente no mundo, mas os recentes movimentos anti-globalização e anti-capitalismo, entretanto travestidos em movimentos por uma "outra" globalização, parecem ser, na realidade, um seu ressurgimento. Ou melhor, parecem ser, na sua heterodoxia, um ressurgimento dos vários socialismos, desde os mais violentos aos mais moderados, desde os que são herdeiros, ainda envergonhados, de Lenin, Stalin e Mao, até aos moderados e democráticos, herdeiros do reformismo de Eduard Bernstein. A história do socialismo no presente está ainda por escrever, bem entendido. Por enquanto temos de nos ficar pela sua história ao longo dos séculos XVIII, XIX e XX, quando atingiu o apogeu. Recentemente foi editado o excelente livro "Heaven on Earth: The Rise and Fall of Socialism", de Joshua Muravchik, que conta a história do socialismo de uma forma simultaneamente informativa e cativante, embora um tanto parcial, através de curtas biografias de algumas das principais figuras a ele ligadas, desde Babeuf, logo após a revolução francesa, até à terceira via de Blair. Recomendo vivamente.

2003-02-09

Se a estratégia dos EUA e do Reino Unido tiver sucesso, a guerra será evitada. Ambos perceberam claramente que só uma ameça perfeitamente credível de uso da força poderia fazer Saddam Hussein ceder. Desde o início da crise, e sobretudo a partir da data de aprovação da resolução 1441, Saddam Hussein tem vindo a ceder lentamente. Isto aconteceu devido à determinação dos EUA e do Reino Unido em atacar o Iraque caso este não coorperasse. Claro está que esta determinação implicava, e implica ainda, a possiblidade não negligenciável de a guerra ter lugar, coisa que Paris e Berlim não aceitam. Talvez seja preferível assim. Desta forma a ameça continua credível mas dá um bom pretexto aos EUA para esperar mais tempo, o que, por um lado, lhes permite ir acumulando efectivos militares e, por outro, dá tempo a Saddam Hussein para mais umas quantas cedências. Aparentemente Saddam Hussein começou já a ceder na questão das entrevistas em privado aos seus cientistas e parece dar sinais de vir a aceitar que aviões de vigilância sobrevoem o seu território "desde que não sejam apenas aparelhos dos EUA". Em suma, ainda há esperança de o Iraque se desarmar e de haver paz. Se isso vier a acontecer, terá sido apenas por a ameaça de guerra se manter.
Liberais de todo o mundo, uni-vos!


Obrigado à Coluna Infame pelas palavras amáveis!

2003-02-08

Ocorreu-me que o Fórum Social de Porto Alegre deve ser uma espécie de Festa do Avante global. Provavelmente à porta também se pode ouvir o pregão "Olh'ó boné à Che Guevara, camaradas!".
TSF, 11:27h, "corre-se o risco de chegar a um beco sem saída em que a única solução seja correr para a frente", diz Ruben de Carvalho (?), acerca da possibilidade de uma ameaça credível de guerra ter de terminar... em guerra. Para Ruben de Carvalho, pelos, vistos, uma ameaça de guerra tem de ser feita com todas as garantias de que jamais haverá... guerra. Patético. Correr para a frente num beco sem saída seria certamente ter deixado a questão Iraque prolongar-se ainda mais tempo, o que teria agradado mais a esta Europa abúlica, impotente e pacifista em que vivemos.
The Daily Star (Lebanon), 4 de Fevereiro de 2003 (artigo difundido pelo MEMRI):


[...] Lebanon's English-language paper, The Daily Star, published a February 3, 2003 article on Walid Jumblatt, a Druze leader in Lebanon and parliamentary opposition member. [...] The following is the article in its entirety:


"Great Joy" for Destruction of Columbia Shuttle


Walid Jumblatt lashed out Sunday against Western politicians and 'the Jews,' calling on Arab leaders to hold popular referendums before allowing in foreign troops for a war against Iraq.


The Progressive Socialist Party leader also said he felt 'great joy' at Saturday's destruction of the United States space shuttle Columbia, because it carried an Israeli astronaut who had taken part in aggression against 'Lebanon and Iraq.'


'The true axis of evil that rules the world today is an axis of oil and Jews,' Jumblatt said at his family home of Mukhtara, Chouf.


Axis of Jews and Oil Leading "Oil-Colored" Rice


The oil axis is present in most of the U.S. administration, beginning with its president, vice-president and top advisers, including (Condoleezza) Rice, who is oil-colored, while the axis of Jews is present with Paul Wolfowitz, the leading hawk who is inciting (America) to occupy and destroy Iraq,' he continued.


The Druze leader described U.S. President George W. Bush, while delivering his State of the Union address last week, as someone who 'considers himself God's deputy on Earth, threatening and classifying the world (into different camps), and relying on his imperial power.'


President Bush: A Mad Emperor


'How dangerous emperors are when they go mad… in the same axis we have the trustworthy servant, the imperial servant… pleased with himself and his idiotic laugh, his peacock appearance, none other than Tony Blair,' Jumblatt said.


'Also joining this axis is the comprador Mussolini of the 21st century, the prime minister of Italy today, Silvio Berlusconi, who seems to want to renew the empire of the Caesars.'


'To complete the picture, we have Spanish Prime Minister Jose Maria Aznar, the Spanish neo-rightist, whom I could term a progressive Franco,' said Jumblatt.


He quipped that the Spanish leader had military ambitions in the Arab world, based on last year's Spanish-Moroccan dispute over an uninhabited island.


'And by the way, Aznar and Blair spend a lot of time in front of the mirror every morning, it seems, so that their hair is parted perfectly,' said Jumblatt.


'People who pay that much attention to their appearance are fascists by nature. Or they have psychological or sexual complexes. I think the best way to understand (them) would be to… read Freud," he said.


As for Russia's position on a war in Iraq, Jumblatt said the country had either 'drowned in the submarine Kursk or gotten lost in the alleyways of Grozny.'


Jumblatt urged Arab rulers to be 'frank' with their populations and drop 'verbal maneuverings that fool no one.'


'Their skies are American airplanes, their seas are American fleets, their bases are American bases, their regimes are U.S.-British regimes, their rivers are American boats, their mountains are American commandos, their plains are American tanks and their security is at the service of American interests.'


Jumblatt advised Arab countries to follow the Turkish example and allow their legislatures a say in allowing foreign troops basing rights as part of a war against Iraq.


'My Joy Was Great because One of Those Killed Was an Israeli Astronaut'


'In answer to the post-Sept. 11 question in America of 'why do they hate us?' … I would have liked to have felt sorry for the space shuttle that was destroyed (Saturday) but my joy was great because one of those killed was an Israeli astronaut [or a Jewish astronaut, there is no difference] who had previously been part of the Jewish criminal army, particularly against Lebanon and Iraq,' Jumblatt said, referring to Israeli Colonel Ilan Ramon, who participated in the mission that bombed Iraq's Osirak nuclear reactor in 1981.



Sem comentários.
Ilda Figueiredo, em entrevista ao Independente, disse que "as provas [de não acatamento pelo Iraque das resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas apresentadas por Colin Powell no Conselho de Segurança], tendo sido ocultadas até agora, não têm nenhum credibilidade". Alguém consegue perceber que tem a suposta ocultação das provas a ver com a sua credibilidade? Mais à frente diz: "[Os americanos e os britânicos] já bombardearam tudo o que havia para bombardear. Isto significa que, neste momento, não há resquícios de armamento relevante neste país [Iraque]. E a prova disso é que, até agora, os inspectores da ONU nada encontraram." Ilda Figueiredo, pelos vistos, consegue ver o que nem Hans Blix viu: que o Iraque está perfeitamente livre de armas de destruição maciça. Aliás, os inspectores sugeriram o prolongamento do seu trabalho não porque ele não esteja ainda completo (se é que um trabalho desse tipo alguma vez termina), mas sim porque lhes agrada passar férias pagas no turístico Iraque. Depois, diz que os EUA "são também quem tem mais desenvolvido todo o tipo de armas -- nucleares, químicas, etc." Este "etc." serve para sugerir a posse de armas biológicas, naturalmente... Aqui apetece citar Fareed Zakaria, no último número da Newsweek:

One highly intelligent [european] executive asked me why we wanted to get rid of Iraq's chemical and biological agents while maintaining our own arsenal of these weapons. When I explained that in fact the United States did not have such an arsenal, the gentleman looked skeptically at me and said, "officially." He found it entirely plausible the the oldest constitutional democracy in the world has secret weapons labs with armies of scientists manufacturing poison gas.


O problema é que, para gente como Ilda Figueiredo, os EUA não são democráticos. São, pelo contrário, um país onde as "grandes corporações" elegem presidentes (sim, é verdade, os papelinhos que os americanos deitam nas urnas não são votos, são cartas ao Pai Natal), um país desde sempre terrorista e onde "não votam senão 11% dos possíveis eleitores", como ouvi dizer durante um extraordinário debate realizado no ISCTE na primavera do ano passado, com o título revelador de "Guerra ao Terrorismo ou o Terrorismo da Guerra?". Para esta gente, a verdadeira democracia estava na defunta União Soviética (para usar uma velha praga portuguesa, "que tantos diabos acompanhem a sua alma aos infernos quanto cabem de mosquitos da terra ao céu e ainda assentes com um pilão").

2003-02-07

"Queremos ter direito à disciplina de sexualidade e conseguir mais facilmente entrar nas universidades públicas porque nem todos têm dinheiro para ir para a privada", diz Sílvia Santos, segundo o Público, enquanto um colega empunha uma bandeira com a efígie de Che Guevara: "Hasta la victoria siempre!". Tristes, estas cenas durante o protesto nacional contra a reforma curricular. Mas mais triste ainda só a alegada apreensão pela polícia de material para as manifestações.

2003-02-06

A quantidade de excelentes publicações de teor liberal (no sentido europeu) ou conservador disponíveis na rede é impressionante. Infelizmente, a maioria são norte-americanas. Seguem algumas delas para servir de antídoto contra a intoxicação de esquerda a que a imprensa lusa nos condena:

City Journal

Editata por Myron Magnet. Regularmente o Manhatan Institute, a que a revista pertence, publica em livro selecções de artigos desta revista. Pelo menos um deles, que já li, é muito interessante. Chama-se "What Makes Charity Work: A Century of Public and Private Philanthropy", e inclui alguns artigos da ácida Heather Mac Donald, que esteve entre nós há pouco tempo, trazida por João Carlos Espada.

First Things

Revista de religião e vida pública ("public life"). Um dos mais interessantes artigos recentes é "Moral Clarity in a Time of War", de George Weigel.

Opinion Journal

Colecção de editorais da página editorais do Wall Street Journal.

The New Criterion

Excelente revista, editada pelo impagável Roger Kimball. Particularmente interessante foi o número de Novembro, sobre o Anti-Americanismo.

The Public Interest

Francis Fukuyama contribui regularmente para esta revista.



Algumas destas revistas foram-me dadas a conhecer por João Pereira Coutinho, d'A Coluna Infame, o que lhe agradeço.